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31 de março de 2004

POLAROID MAGNOLIA

O Magnolia do cinema Londres é um café chique mas simpático, sobriedade moderna e cadeiras design, bolinhos secos assombrosos, aproveitando o espaço do antigo restaurante/snack do cinema, prolongado até à antiga bilheteira (custa-me um pouco ver estas remodelações que despersonalizam os espaços; gostava do "velho" Londres, com as portas de vidro da sala ao fundo das escadas, o quadro psicadélico junto ao bengaleiro, os tons laranja e verdes hoje substituídos por um borgonha sujo e escuro, a velha caixa da bilheteira dupla desalinhada, aquela que era a sala mais longa de Lisboa, tão longa que tinha duas filas Z depois do Z, hoje partida em duas).

São dez da manhã e um senhor idoso de cabelos brancos desce as escadas e chega-se à bilheteira do cinema ainda fechado. Olha para os preços, para as plantas da sala, em busca de algo que não encontra. Dirige-se ao balcão do café e pergunta à menina brasileira que está a atender a que horas é a primeira sessão. A empregada responde-lhe, apontando o quadro electrónico das sessões já iluminado que encima a bilheteira, com os horários das salas, sem deixar de lhe responder que a primeira sessão é às duas da tarde, depois às quatro e meia e depois às sete. O senhor mostra-se surpreendido, diz não ter reparado. Pergunta à empregada três vezes o horário da "Paixão de Cristo", murmurando qualquer coisa sobre a sobrinha também ter vindo ver os horários e não ter percebido. A empregada acaba por lhe escrever os horários num pedaço de papel.

Chega uma tia loura de ar profissional liberal, a chave do carro num porta-chaves de bola de golfe amarelo-esverdeada, que vem tomar café com um espanhol de meia-idade e fato sem gravata que transporta um dossier de folhas presas com um clip. Ambos vêm ao telemóvel, cada um a falar para seu lado. A tia despacha-se primeiro e pede; o espanhol só mais tarde, depois de desligar, pede café. Conversam, ela num portunhol de tia loura que não está para aprender a dizer o básico na língua de nuestros hermanos, eles que percebam se quiserem, ele num castelhano madrileno. Falam de crianças e escolas. Entendem-se perfeitamente.

AH QUANTA MELANCOLIA

Essa história do fado ser "a canção nacional" não me aquece nem arrefece. Esse tipo de reconhecimento estatal ou estatutário é o primeiro passo para o acomodamento burguês, para a artrose, para a convencionalização - e a progressiva emasculação e estereotipização que acompanhou o percurso do fado desde a sua entronização como canção nacional apenas prova os riscos inerentes.

Quando Camané canta, contudo, tudo isso voa em estilhaços. Porque a sua voz funda e majestosa transporta os ecos de uma tradição cuja verdade se recusa teimosamente a morrer e procura novos rumos para se manifestar. Porque na sua voz passa uma vibração emocional que, não sendo exclusiva do fado, nele se transmite de um modo único. Porque a sua voz é, enfim, a prova de que o espírito do fado pode resistir sem se render nem ceder a modernismos bacocos ou demonstrações de virtuosismo.

Quando Camané canta - e, por Deus!, como ele canta magnificamente! - há algo de genuinamente nosso, português, telúrico, trágico, vindo do fundo dos tempos e que a eles se dirige de novo, que cala bem cá fundo. Ontem, no São Luiz, hoje e amanhã outra vez para os sortudos que têm bilhete, repete-se esse momento de uma magia austera e enfeitiçante, depurada à essência da sobriedade. Quando Camané canta, há enfim uma razão para termos orgulho de sermos portugueses - porque mais nenhum país tem Camané. Pouco interessa se o fado é a canção nacional, mas Camané é o cantor nacional.

29 de março de 2004

ALGUÉM

I want somebody to share
share the rest of my life
share my innermost thoughts
know my intimate details
someone who'll stand by my side
and give me support
and in return
she'll get my support
she will listen to me
when I want to speak
about the world we live in
and life in general
though my views may be wrong
they may even be perverted
she will hear me out
and won't easily be converted
to my way of thinking
in fact she'll often disagree
but at the end of it all
she will understand me

I want somebody who cares
for me passionately
with every thought and with every breath
someone who'll help me see things
in a different light
all the things I detest
I will almost like
I don't want to be tied
to anyone's strings
I'm carefully trying to steer clear
of those things
but when I'm asleep
I want somebody
who will put their arms around me
and kiss me tenderly
though things like this
make me sick
in a case like this
I'll get away with it.


- Martin Gore para os Depeche Mode, "Somebody" (1984)

Esta canção tem vinte anos. Quantos de nós querem o mesmo, e o dizem de outras maneiras?

28 de março de 2004

A MARCA AMARELA

Ontem abriu a extensão do Metro de Lisboa até Odivelas e a reportagem do noticiário da RTP-1 sobre a ocasião foi hilariante. Escolhem-se três transeuntes ao acaso para o já célebre "inquérito de rua" - que, tradicionalmente, já de si é hilariante por tudo o que de mau revela na natureza portuguesa.

O primeiro é um jovem da geração Morangos-com-Açúcar que mal sabe articular uma frase mas, pronto, acha que a extensão a Odivelas vai dar muito jeito porque vai levar muito menos tempo a chegar a Lisboa. O segundo é uma senhora matrona que, para mal da pobre jornalista, trabalha em Loures e logo não tinha problemas de transporte.

O terceiro é um senhor que, em vez de manifestar o seu contentamento por ter metro até casa, protesta porque o metro até Odivelas é 53% mais caro e a estação nem sequer fica no centro de Odivelas. Ou seja, é a verdadeira definição de pobre - porque acha que um euro de bilhete de metro é uma roubalheira, sobretudo comparado com a gasolina que vai poupar por não ter de se meter nos engarrafamentos diários - e mal agradecido - porque queria mesmo era ter metro à porta de casa. E, pior, pobre e mal agradecido convencido que, agora, porque tem metro, Odivelas já não devia ser um subúrbio e deveria ter os mesmos direitos do centro urbano lisboeta. Que eu me recorde, nunca ouvi ninguém protestar por o passe social ter coroas de diferentes valores consoante a distância percorrida - porque é que o metro havia de ser diferente só por chegar a Odivelas?

Dito isto, adivinhem qual é a linha que me fica mais próxima de casa - exacto, é mesmo a linha amarela que foi agora prolongada para Odivelas. E, numa breve viagem de metro esta tarde, já deu para perceber a quantidade de suburbanos que veio dar uma voltinha a Lisboa esta tarde para experimentar a ligação - é vê-los a percorrer os cais lentamente, a observar os pormenores das estações, e depois, em vez de sair da estação, mudar de direcção e apanhar o comboio para casa. Acabou de se descobrir um novo passeio dos tristes - em vez de se ir ao shopping, vai-se andar de metro até Lisboa. Turismo metropolitano.

27 de março de 2004

THE (REAL) BEAUTIFUL GAME

É uma das melhores definições que já ouvi, só que não me recordo quem é o autor e desculpar-me-ão por não me apetecer ir procurar: o rugby é um jogo de hooligans jogado por cavalheiros, numa alusão ao estatuto puramente amador que o desporto durante muitos anos teve (recordo-me de tempos em que os jogadores da selecção inglesa, idolatrados pelos meus irmãos, eram advogados, militares e outras profissões "nobres" do género).

Hoje Portugal ganhou a Taça Europeia das Nações de rugby (desculpem o estrangeirismo, não gosto da grafia portuguesa "râguebi" - 18-19 face à Rússia). Hoje o meu irmão João Paulo esteve em Paris a assistir ao França-Inglaterra do Torneio das Seis Nações (24-21, ganharam os franceses).

O rugby tem tradição lá em casa: o meu outro irmão, o António, chegou a jogar nos seniores do Benfica antes da sua carreira ser cortada pelo serviço militar (a minha mãe ainda tem os recortes lá por casa). O João Paulo também jogou, embora menos, e anos mais tarde foi seccionista do Benfica na área (uma experiência que lhe desagradou positivamente). E o meu sobrinho João, filho do João Paulo, também jogou no Benfica e ainda hoje é árbitro.

Só eu, que teimosamente desprezei o desporto até tarde, nunca liguei muito à coisa - mas lembro-me das transmissões da RTP nas tardes de sábado, com comentários de Cordeiro do Vale, que levaram a que eu sempre desse preferência ao rugby sobre o futebol. E os meus fins-de-semana e grande parte das minhas horas de ginásio são sempre passados em camisolas de rugby, que são estupidamente resistentes e estupidamente confortáveis (pena é a gola branca ter-se de repente tornado moda junto dos betos e dos clientes da Sacoor Brothers - lá se foi a discrição de que eu tanto gostava nelas).

Dito isto, continuo a gostar mais de rugby que de futebol, da sua beleza telúrica e nobre mascarada por trás do que parece apenas ser uma demonstração de força bruta viril. Mas, como em qualquer desporto de equipa, há também astúcia e estratégia por trás dele. Como raio os meus irmãos lhe tomaram o gosto, sobretudo em família tão pouco dada ao desporto, é que eu nunca hei-de perceber...

POLAROID DÉMÉNAGEMENT

A minha vizinha mudou-se hoje. Pelo que, a partir das oito da manhã, o elevador não parou de subir e descer, enquanto os homens das mudanças removiam tudo o que era necessário remover do apartamento - plantas, frigoríficos, armários, mesas, caixotes e tudo aquilo que não vi porque, quando saí de casa para ir comprar os jornais às dez e meia, o grosso das coisas estava já devidamente acondicionado no camião.

Acho muito feliz a palavra francesa que descreve o acto de sair de uma casa: déménagement. Parece tão certinha, tão desembaraçada, tão elegante - como é aliás apanágio da delicadeza extrema da língua francesa, onde um tour de phrase serve muitas vezes uma forma tanto como uma função. Mas, claro, quem já mudou de casa sabe bem que certinho, desembaraçado e elegante é exactamente o que a acção não é. Bem pelo contrário.

Só posso, por isso, louvar a vizinha que nunca conheci para lá do cumprimento ocasional no elevador pelo desembaraço com que retirou tudo, hoje de manhã, em apenas duas-três horas, incomodando ao mínimo a vizinhança. É obra.

26 de março de 2004

OS PUBLICITÁRIOS SÃO UNS EXAGERADOS

Gosto de saborear ironias como a que se apresenta na actual campanha de imprensa da Vodafone para vender o seu cartão de banda larga remota (creio eu).

Reza uma das páginas inteiras: Vale a pena esperar por um dia de sol, por uma noite de amor, por uma boa causa, por uma boa ideia, por um filho. Agora, para abrir um e-mail?

E a ironia, evidentemente, é que esta frase, que resume muito bem a frustração que todos nós sentimos quando a tecnologia desacelera por razões às quais somos alheios, está a ser usada para vender mais tecnologia mas não para libertar o tempo do consumidor para coisas verdadeiramente mais importantes. Porque a maior rapidez do correio, da mensagem, da consulta, a maior facilidade de comunicação apenas à superfície nos libertam para termos mais tempo para nós - na realidade, apenas nos torna mais dependentes do sistema, mais curiosos em explorá-lo até aos limites.

Todos vivíamos muito bem sem telemóveis nem sms há uma década atrás. Hoje não podemos sequer imaginar como era a nossa vida sem eles e entramos em parafuso quando estamos longe de um. E por muito que valha a pena esperar por tudo menos por um e-mail, iremos continuar pacientemente à espera do e-mail, que, naquele momento, é a coisa mais importante pela qual vale a pena esperar.

Não estou, evidentemente, isento de culpas no cartório. E, para que fique registado, sou cliente TMN.

25 de março de 2004

AS DELÍCIAS DO EXERCÍCIO FÍSICO #4

Descobri hoje que tenho um nivel de stress superior a 8 na escala de Borg (não, não é uma referência ao "Star Trek"). Isto habilita-me automaticamente a ser massajado regularmente pela Teresa ou pelo Miguel como mecanismo redutor do stress, o que, posso garantir-vos, compensa substancialmente os lombares na prancha, abdominais em dip e outros laterais oblíquos, e ajuda substancialmente a desfazer a tensão e a ansiedade que se acumula nos músculos do pescoço e das costas.

A parte divertida é imaginar: se eu hoje, que tenho qualidade de vida, tenho um nível de stress alto, que raio de nível teria eu há dez anos quando vivia para um trabalho que me consumia diariamente e me impunha um nível de exigência e concentração absurdamente alto?

AS DELÍCIAS DO EXERCÍCIO FÍSICO #3

Os lombares na prancha e os abdominais em dip são exponencialmente mais fodidos que os lombares E que os laterais oblíquos. Ai.

A DEMOCRACIA (AFORISMOS)

Para citar o poeta Godinho, a democracia é o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros - só assim se explica que a democrática decisão espanhola de correr com o PP seja hoje vista por muitos observadores, daqueles que procuram encontrar no momento o seu significado último e definitivo para registar na história, como uma vitória do terrorismo e do medo.

É uma opinião que se tem vindo a cimentar e que as revistas internacionais desta semana não desmentem, embora procurem de algum modo contrabalançar a definição redutora. Mas o facto é que as lições do 11 de Março e das eleições espanholas ainda estão longe de estarem aprendidas ou sequer apreendidas: só o tempo (aquela coisa que cada vez menos se tem) permitirá compreender o seu verdadeiro significado, para Espanha primeiro, para a Europa em seguida, para o mundo em geral.

A verdadeira pergunta é: teria o PP espanhol ganho as eleições se não tivesse insistido em inculpar a ETA? Ou: os atentados do 11 de Março, sem as acusações à ETA, teriam bastado (horrível palavra usada neste contexto, eu sei) por si só para eleger o PSOE? Ou, no fundo: se a democracia é a expressão do povo, e o povo se exprimiu democraticamente, será que o povo está do lado dos terroristas por ter votado contra o PP?

Ou, mais fundo ainda: a democracia acabou apenas de confirmar, do modo mais transparente possível, que não passa de um sistema falsamente democrático, porque sujeito à pressão de um número infinito de factores que influenciam o resultado. A democracia é, em suma, humana e, por isso, falível. Talvez por isso mesmo ainda não se tenha arranjado melhor.

DIGA LÁ ISSO OUTRA VEZ? #2

Só tenho pena que [Maria Filomena Mónica] pertença a este grupo de pessoas que, por vezes, pensam que são mais do que os outros. A vida é assim (...) A prosápia e a arrogância são feias. (...) E como Eça de Queirós desprezava os vaidosos!

- Pedro Santana Lopes, na sua coluna no Diário de Notícias de hoje. I rest my case.

24 de março de 2004

DIGA LÁ ISSO OUTRA VEZ?

I believe most great novels are for one reason or another better left unfilmed.

- Robert Benton, cineasta americano, autor de "Culpa Humana", baseado no romance de Philip Roth, à Première americana de Fevereiro

A RESSACA NACIONAL

Não, a ressaca não é do álcool ingerido - é da chegada madrugadora da empregada de serviço doméstico, que hoje bem deu jeito (mesmo tendo chegado mais cedo). (E esta avalanche de posts nada tem a ver com a ressaca - apenas com o slow-motion da internet que os servidores acusaram durante praticamente todo o dia.)

Mas não é só. Ao longo das últimas semanas, quase todos os amigos com quem almoço/janto/converso desabafam o cansaço, a neura, a vontade de mudar de vida que Portugal hoje lhes inspira, a pescadinha de rabo na boca em que se encontram prisioneiros: querem mudar porque as coisas não estão bem, mas como as coisas não estão bem não podem mudar apesar de quererem. Mudar de emprego, mudar de vida, até mudar de país.

Recordo-me de uma cena bastante divertida, mas profundamente séria, de "A Melhor Juventude", quando Nicola, um dos dois irmãos centrais ao filme, faz o seu primeiro exame de medicina, nos idos dos anos 60, e o professor que o examina lhe dá nota máxima e lhe pergunta o que quer ele fazer do canudo que está a tirar. Nicola responde-lhe que não sabe ainda a especialidade que pensa seguir, e o professor apenas lhe diz que, seja o que for que ele escolha, o melhor que tem a fazer é fugir de Itália, sob pena de ficar prisioneiro de um país sem futuro condenado à inacção e ao compadrio - um país de dinossáurios à espera da extinção. Então porque não vai o professor embora?, pergunta-lhe Nicola; "porque sou um dos dinossáurios", responde-lhe o professor.

Portugal está um bocado assim: um país paralisado pela tarefa hercúlea de ter que dar a volta por cima, quando a única coisa que sabemos fazer é rastejar muito quietinhos por baixo a ver se ninguém dá por nós. Um país em loop de feedback à espera que alguém se lembre de desligar o amplificador ou fazer reboot ao sistema operativo - porque nós não sabemos (não queremos saber?) fazê-lo.

REMOTE HOST SAID: 550 THAT ADDRESS DOES NOT EXIST

Tenho que ficar à espera que os engenheiros da Telepac me consertem directamente no servidor a personalização desaparecida. Ao fim de oito dias sem o endereço personalizado de e-mail que há doze anos me servia fielmente, soube hoje finalmente que a Telepac tentou por três vezes desinstalar e reinstalar a caixa de correio antes de admitir derrota de software e passar à resolução directamente no servidor - o que, infelizmente, não tem data certa para acontecer, visto que sou um de 400 casos que a Telepac tem de resolver; e tudo pode ficar resolvido esta noite como daqui a duas semanas.

É daquelas alturas em que, francamente, não sei se não preferiria ter sido mantido na ignorância sobre o assunto.

A MANIF AO PÉ DE CASA

As políticas educacionais do(s) governo(s) são uma treta? São. É indecente obrigar alunos que não têm posses a pagar propinas que não podem pagar? É. No que me diz respeito, a minha simpatia com as reivindicações estudantis que hoje pararam o trânsito alguns minutos no Largo do Rato a caminho da Assembleia da República ficam por aí: muito sinceramente, a maior parte das manifestações estudantis já são uma espécie de "ritual" da vida académica - embora lá contestar o ministro, baldarmo-nos a umas aulas e curtir com os amigos. Cada geração faz as suas (eu próprio também lá andei) e depois olha para as dos sucessores com desprezo, "as minhas é que eram fixes...".

Estou a ser redutor? Possivelmente. Não se deve tomar a parte pelo todo. Mas quando olho para os manifestantes que contestam as propinas elevadíssimas que têm de pagar, vestidos com roupas de marca ou com traje académico completo, com aspecto de quem come três refeições por dia, a mandar sms para os amigos todos, confesso que acho todas estas manifestações birras mimadas de fedelhos burgueses a quem aparece tudo feito. Conheço até quem tenha tirado o curso superior numa universidade privada por não ter conseguido entrada para uma pública - e, como todos sabemos, numa privada paga-se a sério.

Ou seja, o problema não é o princípio - é o abuso do princípio. E em Portugal assim que se dá uma mão agarra-se logo o braço. (Sim, eu sou um conservador de esquerda. Sou a favor do princípio mas não do abuso.)

De qualquer maneira, divertido mesmo foi ver os três polícias motorizados a conterem o trânsito para a manifestação passar. Cinco minutos antes de eles chegarem à entrada do Rato vindos da Alexandre Herculano, os três instalam-se na esquina da Álvares Cabral com a Rua de S. Bento e vá de, em cinco minutos, abrirem ali uma clareira para a multidão passar enquanto gesticulam freneticamente, apitam e gritam uns para os outros. "Oh Costa, pára-os aí!". Meia-hora depois a manif tinha passado e o trânsito fluia normal. Até pareceu a visita fantasma do sr. Blair, que só aconteceu nos telejornais do jantar (apesar de ter ouvido ao longe as sirenes das escoltas policiais), porque Lisboa não deu por nada.

23 de março de 2004

PONTO DA SITUAÇÃO

Chamo-me Jorge Mourinha. Tenho 1m90, 85kg, olhos castanhos, 7,5/6 de miopia, cabelo curto, bigode e pêra, dois irmãos mais velhos. Sou solteiro e vivo sozinho em Lisboa. Faço mergulho e ginásio. Gosto de chocolates. Gosto de tomar banho de água quente e não sou capaz de tomar duches frios. Tenho dois romances inéditos na gaveta. Não fiz a tropa; sou teimoso, dou-me mal com o "porque sim" e teria dado um péssimo soldado, mas sou mandão, gosto de o aplicar aos outros e talvez tivesse dado um bom sargento. Fiz psicologia clínica durante vários anos. Formei-me em Letras. Escrevo em jornais. Preparo compilações e reedições para editoras. Sou Carneiro de signo e, segundo algumas vozes mais maldizentes, também de feitio.

Gosto (muito) de escrever. Gosto de desenhar com as canções que vou acumulando mapas do que sou e do que sinto. Gosto dos meus amigos. Gosto que gostem de mim, mas nunca farei nada para que os outros tenham de gostar de mim. Sou triste por natureza lusa, céptico por experiência própria, secretamente optimista mas lucidamente realista. Os amigos dizem-me que sou boa pessoa, quem não gosta de mim acha-me insuportável. A verdade haverá de estar algures no meio; a Maria sempre me diz que tudo correrá muito melhor quando aceitar que tenho um lado escuro em vez de o querer esconder.

Vivo dentro do universo restrito que delimitei para me proteger daquilo de que não posso ser protegido. Vivo para o trabalho porque dele fiz a única vida que quis ter, demasiado assustado com os compromissos que nunca quis assumir. Passei a maior parte dos meus 36 anos a fugir à vida real, convicto que o que fazia me daria tudo aquilo que sentia que faltava à minha vida. Depois, comecei a aprender a viver e percebi que não era bem assim; para citar os outros, true life is elsewhere.

Procuro erguer-me a observador frio e imparcial da natureza humana, mas nesse processo apenas afino a parcialidade com que olho para mim mesmo. Vivo na corda bamba entre aproveitar o que tenho e desejar o que não tenho.

Faço hoje 36 anos e ainda estou longe de perceber quem sou; por vezes isso desespera-me, por vezes sinto que quanto mais perto mais longe, mas depois olho para o caminho que já percorri e admiro-me com os progressos que já fiz. Faz parte da minha natureza bipolar.

22 de março de 2004

POLAROID BALNEÁRIO

Os miúdos que vão para ou vêm do ténis ou da ginástica deixam as mochilas ao deus-dará no primeiro banco que encontram enquanto brincam com os amigos pelo balneário fora. Ou então deixam a porta aberta, o vento a fazer corrente de ar junto de quem acabou de sair do duche quente, como se mais ninguém ali estivesse a não ser eles.

Há um velhote à antiga portuguesa incapaz de falar sem ser aos gritos, com aquela voz tonitruante de quem gosta de se mostrar valentão das dúzias, e uma barriga protuberante que chega a qualquer sítio dez minutos antes dele. O som da voz ressoa na acústica dura do balneário.

Um rapaz novo, com pinta de actor de teatro independente ou bailarino contemporâneo, está sempre a fazer trejeitos com o rosto, como tiques nervosos que é incapaz de controlar.

Uma das cabines de água quente está avariada. Um papel escrito à mão a dizer "avariado" está colado com fita adesiva à parede porosa, já dentro da cabine.

As equipas de futebol de fim da tarde equipam-se e desequipam-se, combinam jantares, encontros, boleias, reuniões, discutem os pormenores do jogo do dia, quem é o árbitro, quem vem, quem está atrasado. Telemóveis tocam.

EM QUE POSSO AJUDAR?

Chego à conclusão de que as linhas de apoio ao cliente não cumprem nenhuma função efectivamente recompensadora para os clientes que as utilizam: vide o facto de há uma semana o meu endereço personalizado ter "desaparecido" dos servidores da Telepac e ninguém parecer conseguir encontrá-lo. Já enviei e-mails, já telefonei, já esbracejei, já insultei, já falei com funcionários simpáticos e prestáveis, já falei com funcionários enjoados que estão ali a fazer frete. E, apesar de eles terem um sistema informático que é suposto registar os dados do cliente, já repeti mais vezes do que estou interessado em recordar-me o meu nome, telefone e username, bem como a situação que me levava a contactá-los, ao ponto de já ter um discurso preparado para os reduzir à sua verdadeira insignificância na primeira ocasião.

Os serviços de apoio ao cliente são apenas mais uma camada de burocracia para juntar a todas as outras que já existem e, pelas experiências que tive nas últimas semanas, são ineficazes, ineficientes e com uma assustadora percentagem de funcionários incompetentes no atendimento. Acredito perfeitamente que existam excepções, mas confesso que ainda não tive a felicidade de as encontrar.

21 de março de 2004

POLAROID COLOMBO

Um casal com uma filha gordinha e rechonchuda a sairem saciados de uma casa de fast-food.

Famílias inteiras que passeiam pelos corredores - pais, filhos, namoradas, netos - mas, curiosamente, afastados. Cada um na sua. Nada de mãos nas mãos, nada de um grupo que passeia acompanhado; antes indivíduos que estão juntos porque calha, porque sim.

Gente que quer estar vestida "fashion" mas que, no acto de se vestirem àquilo que julgam ser "moda", apenas traem como estão distantes dela, como não têm consciência de que aquilo que fica bem no corpo meticulosamente trabalhado que vêem na televisão lhes fica mal a eles; suburbanos com aspirações que julgam transcender-se e apenas sublinham a sua condição auto-infligida. E, nas caixas das boutiques da moda (a preço em conta, mesmo assim), filas de gente que, apesar de tudo, insiste em comprar roupa que não lhes cai bem.

Um bando de adolescentes que sobe a escada rolante com ar enjoado. Um deles carrega no botão de stop e pára a escada rolante.

Polícia municipal à porta do shopping a bloquear os carros dos consumidores que evitaram pagar dinheiro ao parque e arrumaram à má-fila nas cercanias.

Para alguns (para muitos?), a tarde de domingo é isto.

TÁXI!

Sim, é verdade: ainda há taxistas simpáticos em Lisboa. Podem não ser muitos, mas existem. Eu já fui transportado por uns quantos.

O que não me impede de cair para o chão a rir quando ouço dizer que há taxistas que não estão interessados em receber formação. Muito embora eu sempre tenha achado que a formação essencial de um taxista deve ser a cortesia e a boa educação - e, como todos sabemos, isso ou se aprende de origem ou então não há muito a fazer.