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29 de outubro de 2012

o galãozinho

Há uma cigana (idosa, cabelos brancos, sempre sozinha) que mora na minha zona e que já me habituei a ver um pouco por todo o lado. Nos correios, onde vai perguntar se já chegou não sei o quê (talvez a pensão); no supermercado, onde vai comprar os básicos; e, sobretudo, nos semáforos ou nos cafés, a pedir às pessoas se "não lhe pagam um galãozinho". Na véspera, eu tinha-a visto a pedir junto de um carro estacionado para deixar entrar passageiros; só lhe faltou entrar para dentro do carro a pedir. O dono do café, hoje, interpela-a quando a vê perguntar aos clientes, pela segunda vez no dia, se "não lhe pagam um galãozinho": "Mas então não tomou já hoje o pequeno-almoço?" E ela responde-lhe "É para aquecer que hoje está frio." O dono do café abana a cabeça.

3 de agosto de 2012

a fila

Na fila para comprar o jornal, uma senhora velhota pergunta se precisa de ir para a fila para pagar a revista Telenovelas porque já lá tinha estado antes. O caixa diz que tem de ir para a fila a não ser que as pessoas à minha frente a deixassem pagar primeiro - e as pessoas à minha frente, que são um casal velhote, deixam. Isto apesar de eu também só querer comprar um jornal e de ter ido para a fila na mesma. É daquelas coisas que me leva a questionar exactamente qual é a noção de "civismo" dos portugueses.

30 de julho de 2012

eu sou uma mulher muito ocupada

A senhora está de pé na recepção do centro de saúde, com aquele ar enfadado de quem tem muito que fazer à segunda de manhã e não está para estar ali a perder tempo desnecessariamente, consultando o telemóvel todos os dez segundos e afivelando o ar de "eu sou uma pessoa importante e não estou para ficar aqui à espera". Assim que a senhora que está a ser atendida termina, dirige-se à funcionária administrativa com o mal-disfarçado desdém de quem não está para isto, atira com a sua senha para a mesa e diz-lhe, de alto e sem sequer se sentar, "olhe, eu estou aqui à espera só porque preciso de uma justificação para o emprego". Ao longo dos cinco minutos seguintes, chega ao ponto de dizer à funcionária o que ela deve escrever no justificativo, agastada por a sua médica ter faltado. "É a segunda vez num mês, e ela falta sempre à segunda-feira. Eu também gosto de fins-de-semana prolongados mas tenho de trabalhar à segunda-feira." A funcionária pergunta-lhe: "9 e 25?" "9 e 25 o quê?" "São 9 e 25." "Ponha 9 e 30, que são os cinco minutos que eu levo a chegar lá acima. E escreva que não fui atendida por falta da médica, senão ainda acham que eu não tinha consulta nenhuma."

18 de julho de 2012

não há ninguém capaz de me dar alergia

A senhora sentada ao balcão da cafetaria do Corte Inglés não se cala: diz ao homem com quem está e a quem a quiser ouvir que a comida ali é toda uma porcaria e não há um prato de jeito e o atendimento é muito demorado. Dou por mim com vontade de lhe dizer: se não gosta porque é que não vai comer a outro lado?

28 de junho de 2012

de bestiais a bestas (ou a ressaca do ludopédio)

Ouvido no café ao pequeno-almoço depois da derrota com a Espanha: "Dou mais cinco anos ao Cristiano Ronaldo. Sem ele, o que é que Portugal tem? Nada. O Bruno Alves é atrasado mental. Aquele Postiga? Não joga nada, está no Saragoça não joga no Saragoça, o Sporting não o quis, não joga nada. Portugal deu um baile à Espanha? Portugal não jogou nada, quantos espanhóis jogaram à sua altura habitual? Dois."

15 de junho de 2012

continente, bom dia

"São nove euros e cinquenta e cinco," diz o empregado da caixa do supermercado à cliente que lhe perguntara se seria possível "fazer um embrulho" para uma das compras (e ao que ele respondera "tenho que ver").

"Puxa!", responde a senhora, "já não se pode sair de casa hoje! Já viu isto?", diz a uma vizinha que está na fila mais à frente à espera da sua vez, "Uma pessoa sai à rua e é sempre a gastar dinheiro, mais vale ficar trancada em casa, assim ao menos não gosto dinheiro."

"E já lá foi?" pergunta a vizinha na fila.

"Fui lá com a filha da minha prima," responde a senhora, "e já lhe conto uma assim que pagar", diz enquanto se dirige ao segurança da loja para ver se ele lhe faz o embrulho.

3 de junho de 2012

738 (explicit lyrics)

Quatro turistas alemães, no autocarro, falam entre si em alemão. Um senhor de meia-idade, à aproximação do Marquês de Pombal, dirige-se-lhes em francês, apontando a paragem: "Marquês de Pombal. La prochaine." Os turistas não percebem se o senhor está a falar com eles e continuam a falar entre si. O senhor fala para o ar, com ar ofendido e desconfiado: "São estes cabrões que nos andam a roubar e nós sem fazer nada." Saem todos juntos na paragem do Marquês e enquanto o autocarro parte vejo o senhor a dirigir a palavra aos turistas alemães.

16 de dezembro de 2011

TP 354

No autocarro que leva do terminal de Lisboa para o avião para Londres, ficamos alguns momentos com as portas fechadas à espera do OK para seguir. Há um grupinho de amigas - colegas de repartição? colegas de escritório? de secretaria? - uma das quais não se cala, resmunga por estarmos parados com as portas fechadas (apesar de estar frio às oito da manhã), protesta porque diz que qualquer atraso são "duas ou três horas a menos que estamos em Londres" e diz à amiga "estás enjoada? estás aí tão caladinha quando costumas ser tão tagarela".

6 de dezembro de 2011

da série "pequenos irritantes quotidianos", #52

As senhoras de meia-idade que, nos transportes públicos, decidem mandar muitos beijinhos e brincar com os/as bebés e os meninos/meninas dos outros, o que geralmente tem mau resultado nas criancinhas.

2 de dezembro de 2011

tudo isto existe

Temos mesmo de ouvir agora fado no metro? A sério? Era mesmo preciso? E já alguém pensou que não é "cá para dentro" que temos de vender o fado como património da humanidade, mas "lá para fora"?

10 de maio de 2011

as maravilhas da vida moderna

Porque é que as pessoas, quando estão a almoçar sózinhas, pegam no telemóvel e começam a falar em altos berros com as pessoas com quem não falam há muito tempo?

18 de abril de 2011

não temos certeza que os pais gostassem verdadeiramente dele

Acabadinho de ver numa reportagem televisiva sobre um acidente de viação: o agente da GNR que falou à SIC era (wait for it) ...

o primeiro sargento Catita.

27 de março de 2011

escolas gerais

O carteirista do 28 só traiu que era carteirista quando, ao sair do eléctrico, deixou-o arrancar antes de vestir o casaco e desatar a correr.