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31 de outubro de 2006

A TRADIÇAO JA NAO E O QUE ERA

Sabiam que em Lisboa também se faz o "trick or treat" da noite de Halloween? Não? Pois, eu também não, pelo menos até quatro garotinhas e garotinhos maquilhados com marcadores de feltro me tocarem à porta às oito da noite a pedirem "doce ou susto!". Eu fiquei tão desarmado com a inesperada surpresa que só lhes respondi "Nem uma coisa, nem outra". Eles ficaram tão desarmados como eu. Calculo que não tenham levado muitos doces para casa ao fim da noite.

30 de outubro de 2006

A LOJA QUE NAO E CHINESA

Falou-se muito do fecho do salão de jogos Monumental, na Álvares Cabral, como mais um ícone da Lisboa de outros tempos que desaparecia perante os nossos olhos — e falava-se muito da loja chinesa que ali ia abrir embora o espaço não estivesse licenciado para isso. A verdade é que desde a semana passada que lá está uma loja toda pintada de branco — mas não é chinesa, é uma normalíssima boutique de roupa.

29 de outubro de 2006

A ERA DA INFORMAÇAO

A minha mãe sempre me chamou "coca-bichinhos", houve quem me chamasse "rato de biblioteca" — a verdade é que hoje, a fazer limpezas no escritório na sequência daquilo que é, claramente, uma pequena reorganização caseira, percebi um pouco melhor porquê, face às coisas que eu já não me lembrava que tinha guardado que foram aparecendo à medida que desenterrava papéis, jornais, revistas que foram sendo acumulados por esta ou aquela razão mas não encaixavam nas gavetas estabelecidas dos arquivos.

Sempre achei que há coisas que vale a pena guardar mesmo que, agora, não faça sentido (é essa, no fundo, a função dos arquivos — registar para futura referência aquilo que mesmo hoje nos parece irrelevante). Mas isso foi antes da internet, antes de se poder encontrar toda (ou quase) a informação que se pretende num ápice, antes do espaço em casa começar a reduzir e de eu já não saber muito bem como organizar toda a informação que fui acumulando de acordo com um modo específico de arquivação que, agora, corre o risco de estar obsoleto mas não é fácil de reconverter. Ando a pensar no assunto há uns tempos e ainda não encontrei a resposta certa. As dores de crescimento da tecnologia, em suma, ainda nos reservam algumas surpresas.

28 de outubro de 2006

A FORÇA DE VONTADE UNIDA JAMAIS SERA VENCIDA

Descobri que tenho o colesterol um bocadinho alto e como tal o meu médico recomendou-me que durante os próximos dois meses evite:
1. as carnes vermelhas (calha bem, como mais carnes brancas de qualquer maneira) e derivados
2. os mariscos (também calha bem, não como muito)
3. as bebidas alcoólicas (que eu quase não bebo) e refrigerantes (que vou eu fazer sem a minha água suja do imperialismo?)
4. as gorduras animais (as torradas com manteiga foram à vida)
5. os iogurtes que não sejam naturais
6. o leite que não seja magro (também calha bem, só bebo leite magro)
7. os bolos, açúcares e doces.

Ou seja, croissant com manteiga, Cadbury's Dairy Milk e Ben & Jerry's só em ocasiões especiais. Lá terá que ser, não é? (diz ele enquanto dá uma dentada no último Toblerone que estava no frigorífico)

27 de outubro de 2006

POLAROID

Mesmo à porta de minha casa, tenho um daqueles supermercados pequenos de bairro que serve perfeitamente a população da zona embora não evite a visita a uma "grande superfície" de vez em quando à procura daquelas coisas que não se encontram (tão boas) por aqui. Foi por isso que estranhei quando comecei a ver uma mendiga sentada alguns metros à frente da saída do supermercado fazer dele o seu "poiso" diário, pernas cruzadas escondidas pela saia de tecido colorido, sentada em cima de um cartão dobrado, quase inteiramente coberta, deixando só as mãos e o rosto à vista, segurando à frente um cartão escrito à mão em português macarrónico com uma imagem religiosa colada, dizendo não ter marido nem trabalho e crianças para alimentar e pedindo ajuda pelo amor de Deus. A mendiga não fala nem se dirige às pessoas: está ali apenas, com um copo de plástico de cerveja vazio à frente. Por vezes, está acompanhada de uma menina dos seus oito anos, mas a maior parte das vezes está sozinha. Tem ar de ser uma daquelas ciganas de Leste que são "pedintes profissionais" e que hoje vemos cada vez mais, mas posso estar enganado.

A verdade é que não passa muita gente pelo local que a mendiga escolheu para pedir esmola, sobretudo quando, subindo alguns metros, tem uma avenida que está sempre cheia de transeuntes. O seu copo de plástico está quase sempre vazio, ou tem poucas moedas de denominação pequena.

26 de outubro de 2006

A CURIOSIDADE MATOU O GATO

Eu sei que os ursos pardos não são exactamente animais de estimação, mas isto dá imensa vontade de ter pena deles.

25 de outubro de 2006

GULOSEIMA PARA O LANCHE

Não é o melhor chocolate do mundo, mas anda lá perto.
Divirto-me muito a ler as respostas dos inquéritos de rua que os jornais fazem. Hoje, pergunta-se a uma reformada de 69 anos se vai passar a deixar o carro em casa agora que o estacionamento público aumentou (partindo do princípio que uma reformada de 69 anos conduz, o que me parece altamente improvável mesmo que não impossível). Mas a senhora responde que não, não vai deixar o carro em casa, nem concorda com o aumento, porque a rua é um "espaço público a que temos direito e ainda temos de pagar". Daqui deduzimos que a senhora concorda com o estacionamento selvagem e com a fuga ao pagamento do parquímetro ou ao parque de estacionamento pago. Mas algo me diz que, se perguntassem à senhora se ela achava bem que os carros estacionassem em cima dos passeios públicos, ela diria que não e resmungaria muito pela falta de respeito dos condutores que arrumam os carros em qualquer lado sem deixar às pessoas espaço para andarem pela rua.

23 de outubro de 2006

DESCONVERSAS #1

(ouvido no metro do Marquês de Pombal:)
"Fico sempre a falar sozinha, é uma coisa extraordinária..."

(resposta que se pensou mas não se disse:)
"Se calhar é o que mereces..."

22 de outubro de 2006

CINZENTO

Ontem esteve um sábado cinzento, chuvoso. Era difícil arranjar lugar para arrumar o carro em qualquer lado, como se as pessoas não tivessem saído de casa, mas os centros comerciais estavam a abarrotar, com filas de carros à espera de um lugar para arrumar.

Esta manhã, pelo contrário, cedo, pelas oito-nove horas, Lisboa está deserta, cinzenta, chuvosa. E não faltam lugares para arrumar o carro. É uma cidade vazia. Como a minha casa.

20 de outubro de 2006

OS OLHOS DE ELIZABETH TAYLOR



Com olhos destes, quem não se perderia de amores pela raínha do Egipto?

19 de outubro de 2006

COMPRE AQUI O SEU CONSUMIVEL

Nas bilheteiras do cinema Alvaláxia, em Lisboa, que agora (como é moda em todos os cinemas) passaram para o balcão das pipocas, o letreiro que indica a fila diz "bilhetes e consumíveis".

Ou seja, as pipocas, refrigerantes e outros doces passaram a estar ao nível dos tinteiros da impressora.

17 de outubro de 2006

TO OUR NEXT POSTING



É um dos mais belos filmes do mundo: "Os Dominadores" (1949), de John Ford. Visto no grande écrã, é ainda mais belo.

16 de outubro de 2006

É TAO BONITO O SILENCIO

Alguns dormem o sono dos justos.

Outros, pelo contrário, atiram-se ao ressono dos justos.

15 de outubro de 2006

DA LICENÇA QUE EU ME SENTE?

É normal que os Pastéis de Belém estejam cheios numa manhã de domingo, entre turistas, nativos e quem veio ver o render da guarda da GNR ao palácio de Belém, com os empregados de cabeça em água a correr para conseguir dar vazão aos fregueses. O que já não é normal é que, na mesa ao lado da nossa, anteriormente ocupada por um casal jovem, enquanto ela espera que ele regresse da casa de banho e que o empregado traga a conta, chegue um quarentão brasileiro que, ao reparar que ela espera a conta, lhe pergunta se não se importa que ele marque lugar sentando-se ao seu lado. Enquanto o esposo/namorado da jovem vem/não vem, o brasileiro começa, enquanto tenta meter conversa com a jovem, às tantas a fazer sinalefas e a assobiar altíssimo e mal-educadamente no meio da sala ruidosa e cheia de gente, penso a princípio que para o empregado do balcão o vir atender, mas percebo depois que ele está a chamar a mulher com quem está, que chega pouco depois e se senta na mesa, altura em que chega o esposo da jovem e os dois se levantam para pagar ao empregado. Passado algum tempo, chega mais um casal quarentão brasileiro para fazer companhia ao casal quarentão já instalado. Dez minutos mais tarde, vejo-os a sair com um saco com embalagens de pastéis de Belém. Fiquei sem perceber.

12 de outubro de 2006

POLAROID: AEROPORTO

Toda a gente desce a rampa das chegadas à excepção de duas senhoras com um ar profundamente português, vestidas como se tivessem ido às compras às lojas do bairro, cheias de sacos de papel, casacos ou camisolas nas mãos, que a sobem tranquilamente e se plantam exactamente no meio das portas, no caminho de toda a gente que quer sair. Um dos empregados da manutenção fala com elas um pouco e dirige-as para o guichet que fica ao lado das portas, já na rampa, e as senhoras lá vão à procura não sei bem do quê; mas, durante os dez minutos que se seguem, continuam a passear, com um ar resignado, entre o guichet e as portas, sempre parando e pousando os sacos no chão exactamente no meio das portas, perfeitamente alheadas de estarem no meio do caminho dos viajantes que chegam, apesar das repetidas indicações dos funcionários.

11 de outubro de 2006

SAI UM CHAZINHO

De vez em quando vou comer uma pizza (passe a publicidade) ao Pizza Hut. Se não gostasse também estava bem arranjado, porque tenho um muito perto de casa, e quando não me apetece cozinhar ao domingo não tenho grande alternativa porque é o único restaurante no raio de 500 metros de minha casa que está aberto ao domingo. Mas até gosto, apesar de o serviço ser particularmente irregular, sobretudo porque há lá um empregado brasileiro particularmente desatento/desastrado que parece ter medo de mim e aproximar-se à cautela não vá eu mordê-lo (diga-se em abono da verdade que já me tem dado vontade de me armar em Rottweiler feroz com ele porque o rapaz não nasceu mesmo com jeito para aquilo).

Isto vem ao caso de eu hoje ter ido comer uma pizza ao Pizza Hut do Vasco da Gama porque me apetecia uma pizza, estava cheio de fome e queria sentar-me longe da zona comum cheia de gente e de barulho. Peço um ice tea de limão... e sai-me um de pêssego (detesto tudo o que sejam sumos de pêssego, acho enjoativos até à quinta casa). Aviso a chefe de sala, ela confirma que eu tinha pedido limão, pede-me desculpa e diz que traz já outro... e a empregada traz-me um ice tea de pêssego. O empregado que está a servir as bebidas verifica tudo e traz-me um ice tea... de pêssego. Começo a sentir-me na "Twilight Zone". Ele faz cara de caso, não percebe o que está a passar porque está a tirar limão, e eu peço-lhe para me trazer antes uma cola. Passado um bocado vem a chefe de sala pedir educadamente muitas desculpas, porque as minhas reclamações levaram-nos a verificar tudo e a ver que as mangueiras de pressão estavam trocadas e estava o ice tea de limão a sair na mangueira do de pêssego e vice-versa, e traz-me (agora sim!, pensava eu) ice tea de limão.

Este era misto de limão e pêssego, porque a mangueira ainda lá tinha um resto de pêssego. "Traga-me lá a cola se faz favor". Ao menos com a água suja do imperalismo não há por onde enganar: light ou com as calorias todas, tem sempre o mesmo sabor.

10 de outubro de 2006

EU QUERO A BRIGADA DE TRANSITO

Estou irritado com esta história da GNR estar a contemplar acabar com a Brigada de Trânsito. Acho muito bem que se peçam estudos sobre como tornar as empresas estatais (e a GNR é uma empresa estatal) mais produtivas e menos esbanjadoras, mas isto de acabarem com a Brigada de Trânsito vai direitinho às minhas memórias de infância do grande capitão Quesada, o porta-voz da Brigada de Trânsito que aparecia nos noticiários a falar da condução segura. O capitão Quesada — como o Carlos Pinto Coelho no noticiário do 2º canal, ou os concursos do Raul Solnado e do Fialho Gouveia, ou o "Tal Canal" — faz parte do meu imaginário televisivo infanto-juvenil e acho indecente que venham agora remetê-lo para o canto das teias de aranha. Não se faz.

9 de outubro de 2006

PARA QUEM GOSTA DE BRIOCHE

Só para dizer que isto (nas salas a 19 de Outubro) é bem bom. Não é outro "Lost in Translation", OK, mas também nada podia ser. E Sofia cresceu.

8 de outubro de 2006

CASPA

O meu pai sempre achou que parte da razão pela qual os champôs não faziam efeito no meu couro cabeludo naturalmente oleoso e propenso a uma escamação a que — à falta de melhor definição — chamaremos "caspa" tinha a ver com eu "fazer festas à cabeça" em vez de massajar vigorosamente o couro cabeludo como as instruções dos frascos de champôs costumam indicar.

Independentemente da energia com que eu massajo o couro cabeludo, fui testando um sem-número de champôs de uso diário sem resultados significativos: porque nunca sei qual hei exactamente de comprar, se um para cabelos oleosos se um anti-caspa, quando se calhar não é caspa que eu tenho. Mas não faço ideia porque carga d'água hei-eu de ir maçar um dermatologista com este tipo de perguntas, quando há questões muito mais prementes a resolver.

Seja como for, isto vem tudo a propósito de a minha caspa ter diminuido significativamente na sequência de ter mudado de champô e na sequência de eu agora usar o cabelo significativamente mais curto — o que é sempre mau para a minha mãe, que tem uma moralidade muito conservadora em termos de corte de cabelo e acha que o único champô que alguma vez me fez bem à caspa foi o Linic (ainda se fabrica? juro que não sei).

7 de outubro de 2006

SEIS COISAS (em resposta ao desafio da menina alice)

seis Quando gosto muito de uma canção ou de um disco, sou capaz de o pôr em "repeat" no leitor até me fartar. O que pode levar mais ou menos tempo.

cinco Já não sou capaz de ler com a velocidade e a paixão com que lia quando tinha 20 anos, e tenho pena.

quatro Às vezes tenho mais remorsos das coisas que não fiz do que das que fiz e deram para o torto, mas gostava de não me ralar tanto com isso.

três Gosto da Mafalda Veiga e não tenho problemas nenhuns com isso, porque acho que os gostos são como nós: não têm de fazer sentido para mais ninguém a não ser para nós próprios.

duas Sou hipocondríaco mas já estou melhor, muito obrigado.

uma Irritam-me os preconceitos gratuitos, apesar de eu próprio ter uns quantos contra os quais luto violentamente.

Passa a outro: lanço o desafio ao Vítor, ao Luís Miguel e ao Nuno. Poderão responsabilizar a menina Alice.

SCREAM AND RUN AWAY

Qualquer mês com um disco novo de Stephin Merritt (mesmo que não seja dos Magnetic Fields mas sim do seu "nom de ukulele" The Gothic Archies e escrito para acompanhar os livros pretensamente infantis de Lemony Snicket) é um bom mês.

6 de outubro de 2006

HOJE, NO METRO DO SALDANHA ...

...alguém assobiava o tema de Ennio Morricone para "Por um Punhado de Dólares", e uma mocinha moderna, algo rechonchuda e carnuda, tinha uma pasta de plástico transparente onde se lia, recortada em letras de jornal e aplicada na capa, a palavra "babe".

4 de outubro de 2006

A ESTRATEGIA DA ARANHA

Nesta deliciosa peça do site da BBC fala-se de aranhas exóticas por oposição à aranha inglesa. Será que uma aranha inglesa bebe chá às cinco da tarde (com uma das patas delicadamente levantada), vai ao pub beber uma jeca com os amigos ou vê futebol aos domingos? (Já pensaram numa aranha hooligan?)

3 de outubro de 2006

COISAS QUE AINDA HOJE ESCANDALIZAM A MINHA MAE

A minha mãe sempre protestou imenso quando o meu pai saía do banho e se dirigia, nuzinho em pêlo, para o quarto para se vestir, porque achava uma falta de educação e de respeito enorme. Mas, digo eu, porque é que um homem não há-de andar nu pela sua própria casa se assim o desejar? Eu até moro sozinho, nem sequer tenho ninguém que possa ficar escandalizado por eu ir nu da casa de banho para o quarto (que são apenas dois ou três passos de qualquer maneira porque são ao lado um do outro). Mas se morasse com alguém também tenho as minhas dúvidas que a cara-metade ficasse escandalizada por me ver nu. (Provavelmente seria mesmo o contrário.)

1 de outubro de 2006

RED RIGHT HAND

Isto é das melhores peças de jornalismo que li nos últimos meses. É um daqueles casos em que o jornalista é a própria história — e, no processo, diz-nos muito mais sobre nós próprios do que à partida seria de esperar.