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12 de setembro de 2006

POLAROID: METRO

Um casal negro dos seus 40 anos senta-se nos lugares ao meu lado no metro: ela à minha frente, elegantemente vestida em tons de terra, discretamente descalçando um dos sapatos para descansar o pé; ele ao meu lado, levantando-se logo a seguir para verificar alguma coisa no mapa da rede, enquanto ela pega no jornal que foi deixado na cadeira e que eu próprio já tinha folheado. Na estação seguinte, uma senhora dos seus 40-50 anos, cabelo louro, vestida de negro, entra e quase se senta no lugar vazio ao lado da senhora negra à minha frente, mas desiste da ideia e senta-se em vez disso nos lugares da frente. Apanho-lhe de passagem o olhar, frio, de uma segurança paredes-meias com a soberba, como quem diz "eu? sentar-me ao pé desses pretos?". Há algo de extraordinariamente português na aparência de porteira desencantada, de "vizinha" que sabe tudo o que se passa no bairro e que tem uma opinião sobre tudo e especialmente sobre aquilo do qual não percebe nada — e, uma ou duas estações mais à frente, vejo-a a concentrar aqueles olhinhos frios no tricot que está a fazer. O casal à minha frente não se apercebeu de absolutamente nada.

4 comentários:

joaquim magalhães disse...

Não porás obviamente a hipótese de teres sido tu a ver demais? Isto é apenas uma pergunta, claro.

Rita disse...

Também estou constantemente a fazer os «filmes» das pessoas com quem viajo no metro. Não percebo porquê mas quase vicia observar os flirts e descortinar as atitudes das pessoas.

Anónimo disse...

É sempre bom quando pessoas mediocres e/ou malcriadas tomam a iniciativa de se afastarem de nós... quem me dera ser preta:-D

Até sémpre.
Aldina

(não consigo deixar comentário como habitualmente, o teu blog não aceita?!)

Cristina disse...

Às tantas tricotava para o netinho. Com os olhinhos frios dela.