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29 de outubro de 2012

o galãozinho

Há uma cigana (idosa, cabelos brancos, sempre sozinha) que mora na minha zona e que já me habituei a ver um pouco por todo o lado. Nos correios, onde vai perguntar se já chegou não sei o quê (talvez a pensão); no supermercado, onde vai comprar os básicos; e, sobretudo, nos semáforos ou nos cafés, a pedir às pessoas se "não lhe pagam um galãozinho". Na véspera, eu tinha-a visto a pedir junto de um carro estacionado para deixar entrar passageiros; só lhe faltou entrar para dentro do carro a pedir. O dono do café, hoje, interpela-a quando a vê perguntar aos clientes, pela segunda vez no dia, se "não lhe pagam um galãozinho": "Mas então não tomou já hoje o pequeno-almoço?" E ela responde-lhe "É para aquecer que hoje está frio." O dono do café abana a cabeça.

3 de setembro de 2012

chamem a polícia

Por razões que não tenho bem a certeza de entender, todos os agentes da polícia com quem me cruzo hoje estão ao telefone.

3 de agosto de 2012

a fila

Na fila para comprar o jornal, uma senhora velhota pergunta se precisa de ir para a fila para pagar a revista Telenovelas porque já lá tinha estado antes. O caixa diz que tem de ir para a fila a não ser que as pessoas à minha frente a deixassem pagar primeiro - e as pessoas à minha frente, que são um casal velhote, deixam. Isto apesar de eu também só querer comprar um jornal e de ter ido para a fila na mesma. É daquelas coisas que me leva a questionar exactamente qual é a noção de "civismo" dos portugueses.

18 de julho de 2012

não há ninguém capaz de me dar alergia

A senhora sentada ao balcão da cafetaria do Corte Inglés não se cala: diz ao homem com quem está e a quem a quiser ouvir que a comida ali é toda uma porcaria e não há um prato de jeito e o atendimento é muito demorado. Dou por mim com vontade de lhe dizer: se não gosta porque é que não vai comer a outro lado?

3 de julho de 2012

745 (entre o filme e o médico)

Um homem andrajoso e sujo entra no autocarro e dirige-se para os lugares das traseiras; atrás de si deixa o odor característico de quem não se lava há muito tempo. Algumas paragens mais à frente, entram os revisores da Carris para verificar os bilhetes. Quando o revisor chega ao homem andrajoso e sujo, este responde "não tenho passe nem tenho bilhete nem tenho dinheiro". O revisor grita para o condutor abrir a porta e o senhor, depois de repetir "não tenho passe nem tenho bilhete nem tenho dinheiro", sai do autocarro. Uma senhora ouve-se a dizer "se fosse eu ele ou não tinha entrado ou pagava a multa como as outras pessoas".

28 de junho de 2012

de bestiais a bestas (ou a ressaca do ludopédio)

Ouvido no café ao pequeno-almoço depois da derrota com a Espanha: "Dou mais cinco anos ao Cristiano Ronaldo. Sem ele, o que é que Portugal tem? Nada. O Bruno Alves é atrasado mental. Aquele Postiga? Não joga nada, está no Saragoça não joga no Saragoça, o Sporting não o quis, não joga nada. Portugal deu um baile à Espanha? Portugal não jogou nada, quantos espanhóis jogaram à sua altura habitual? Dois."

22 de junho de 2012

713 (ar condicionado)

Porque é que as pessoas vêem sempre nas janelas dos autocarros a indicação "ar condicionado. Por favor manter a janela fechada" e apesar disso abrem sempre a janela?

21 de junho de 2012

a fúria do açúcar

No café do Classic Alvalade, enquanto espero por uma projecção, um sem-abrigo (sujo, determinado, mal vestido) entra pelo café dentro e dirige-se à minha mesa. Penso que me vai pedir esmola ou que lhe pague um café. Em vez disso, diz-me "posso?" e dirige a mão para o meu queque. Digo-lhe que não. Agarra então na chávena de café praticamente vazia e, enquanto pergunta de novo "posso?", perante o meu ar atónito (e das empregadas do café) antes que eu possa dizer que "não", bebe o resto do café, pousa a chávena e lança-me quase ofendido "não tem açúcar!".

Enquanto as empregadas tentam desesperadamente correr com o homem, ele faz exactamente o mesmo com outras mesas antes que o projeccionista consiga finalmente pô-lo fora. Perguntam-se se será um fugido do Júlio de Matos.

3 de junho de 2012

738 (explicit lyrics)

Quatro turistas alemães, no autocarro, falam entre si em alemão. Um senhor de meia-idade, à aproximação do Marquês de Pombal, dirige-se-lhes em francês, apontando a paragem: "Marquês de Pombal. La prochaine." Os turistas não percebem se o senhor está a falar com eles e continuam a falar entre si. O senhor fala para o ar, com ar ofendido e desconfiado: "São estes cabrões que nos andam a roubar e nós sem fazer nada." Saem todos juntos na paragem do Marquês e enquanto o autocarro parte vejo o senhor a dirigir a palavra aos turistas alemães.

15 de maio de 2012

live ditt hem

Alguém conhece alguém que more verdadeiramente numa casa tão impecável como as que aparecem no catálogo da IKEA (ou pelo menos alguém que não seja sueco)? Será a isto que se chama "marketing aspiracional"?

6 de dezembro de 2011

da série "pequenos irritantes quotidianos", #52

As senhoras de meia-idade que, nos transportes públicos, decidem mandar muitos beijinhos e brincar com os/as bebés e os meninos/meninas dos outros, o que geralmente tem mau resultado nas criancinhas.

2 de dezembro de 2011

tudo isto existe

Temos mesmo de ouvir agora fado no metro? A sério? Era mesmo preciso? E já alguém pensou que não é "cá para dentro" que temos de vender o fado como património da humanidade, mas "lá para fora"?

30 de novembro de 2011

da série "pequenos irritantes quotidianos"

Pessoas que nos autocarros com ar condicionado quentinho em dias de frio abrem a janela na mesma apesar de a janela ter escrito "favor não abrir".

29 de novembro de 2011

herdeiros

Leio que "Saif al-Islam Qaddafi, the son and heir of Muammar Qaddafi, was caught in southern Libya". E lembro-me disto:

"I am the son and heir
of nothing in particular"

14 de novembro de 2011

a propósito de métodos perigosos

É curioso como as acusações de "classicismo" muitas vezes dizem mais de quem as profere do que dos que dele são acusados.