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21 de junho de 2012

a fúria do açúcar

No café do Classic Alvalade, enquanto espero por uma projecção, um sem-abrigo (sujo, determinado, mal vestido) entra pelo café dentro e dirige-se à minha mesa. Penso que me vai pedir esmola ou que lhe pague um café. Em vez disso, diz-me "posso?" e dirige a mão para o meu queque. Digo-lhe que não. Agarra então na chávena de café praticamente vazia e, enquanto pergunta de novo "posso?", perante o meu ar atónito (e das empregadas do café) antes que eu possa dizer que "não", bebe o resto do café, pousa a chávena e lança-me quase ofendido "não tem açúcar!".

Enquanto as empregadas tentam desesperadamente correr com o homem, ele faz exactamente o mesmo com outras mesas antes que o projeccionista consiga finalmente pô-lo fora. Perguntam-se se será um fugido do Júlio de Matos.

28 de março de 2011

ajuda sinhôr

Não sou apologista das brincadeiras com a miséria alheia (embora confesse que, depois de ter lido isto e suas sequelas, percebo que o humor negro seja a única maneira de lidar com certas coisas).

Mas há qualquer coisa de simultaneamente perturbante e ridículo quando vejo o mesmo pedinte romeno que quase grita "ajuda sinhôr" enquanto estica o copo onde pede e estica o corpo em direcção às pessoas que entram no supermercado noutros sítios consoante a hora ou o dia. Num dia vejo-o à porta do Minipreço da Alexandre Herculano, noutro à porta de uma pastelaria de Campo de Ourique, noutro ainda à porta do café ao lado da Cinemateca, às vezes a encontrar-se com uma outra pedinte romena que alterna com ele à porta do Minipreço. É quase como se estivessem a cumprir expediente de acordo com uma escala de serviço.

23 de setembro de 2009

PEQUENO MOMENTO DE FIGURA-PÚBLICA-SPOTTING

Queria só partilhar convosco que o advogado José Maria Martins estava no outro fim-de-semana a tomar o pequeno-almoço na esplanada do Galeto. Obrigado. O serviço normal será retomado já a seguir.

7 de setembro de 2009

POLAROID: FOOD COURT

A senhora tem físico (forte e atarracado) e, sobretudo, voz (roufenha, estridente, alta) de vendedora de mercado, mas o uniforme de cores garridas explica que é empregada da limpeza, percorrendo o espaço a levantar os tabuleiros abandonados, a louça suja, os cinzeiros cheios. Não larga com uma mão o telemóvel cor de rosa para o qual fala em voz muito alta, ouvindo-se ao longo de todo o espaço, enquanto com a outra vai levantando os tabuleiros, empurrando o carrinho de plástico com prateleiras e um saco para os restos. Logo ao princípio, ouço-a (porque é impossível não a ouvir) dizer "Despacha-te lá, mãe, que daqui a bocado fico sem dinheiro no telemóvel". Mas, 30 minutos depois, quando saio do espaço, ela continua agarrada ao telemóvel enquanto continua a percorrer o espaço a levantar as mesas.

30 de agosto de 2009

POLAROID: CAFÉ

É dia de semana de Verão e o homem entra no café com o I na mão. Tem o cabelo louro solto e a tez bronzeada do fulano bem na vida que não tem de se preocupar com pagar a renda no fim do mês, usa uma camisa branca imaculada por cima de calças de ganga Levi's e sapatos castanhos sem meias, põe a carteira de cabedal castanho, o iPhone e as chaves do carro que traz na mão em cima da mesa. Olha à sua volta com o olhar neutro de quem está ali apenas porque é preciso e tem de ser, como se estivesse sozinho no café apenas com o empregado a quem pede o pequeno-almoço num tom de voz um pouco aristocrata enquanto folheia o jornal.

30 de junho de 2009

ALELUIA!

Sim! Sim! Eu vi! Eu vi! Hoje, pela primeira vez, vi um Magalhães efectivamente a ser usado pelo seu público-alvo! No café! Às oito da manhã!

21 de abril de 2009

POLÍTICA

Leio muito sobre a "polarização" da vida política americana, cada vez mais partidarizada entre Democratas e Republicanos. Olho para Portugal e tenho a vaga sensação que essa "polarização" está cada vez mais instalada por cá, só que não entre Democratas e Republicanos mas sim entre governo e oposição. A questão é que "governo" e "oposição" são muito mais intermutáveis do que "Democratas" e "Republicanos".

17 de dezembro de 2008

11 de dezembro de 2008

O CARTEIRO TOCA SEMPRE TRÊS VEZES

Da primeira vez, há bastante tempo, embarquei na história bem contada da senhora a quem a vida estava a correr mal e que precisava de uma ajuda. Da segunda, pareceu-me reconhecer aquela cara e aquela voz, e tive a certeza quando a história que a senhora estava a contar estava a ser contada exactamente da mesma maneira que da primeira vez. Da terceira vez, ontem de manhã, apenas reparei que a mesma senhora estava bastante bem vestida e arranjada e já nem a deixei começar a contar a história da desgraçadinha com que me enganou da primeira vez. Tocar à mesma porta duas vezes pode acontecer. Tocar à mesma porta três vezes já me parece desleixo.