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31 de agosto de 2004

POLAROID: MARGINAL #4 (ALGÉS-BELÉM)

É, só, um daqueles momentos em que tudo se conjuga, sabe-se lá como: a cassete começa a tocar a versão majestosa dos Sétima Legião para "Longa Se Torna a Espera", dos Xutos & Pontapés, quando passo pela estação dos comboios de Algés e o comboio que se dirige para Lisboa arranca ao mesmo tempo, lentamente em direcção à curva por baixo do viaduto, e eu me elevo no viaduto ao mesmo tempo que o comboio o atravessa e a canção se eleva no refrão, com o sol a pôr-se por trás de mim. Há qualquer coisa na linha recta de um comboio que me fascina, no percurso perfeitamente definido e dirigido que ele faz mas que transporta consigo uma qualquer promessa de aventura; um aroma qualquer indefinível de romantismo ancestral e antiquado no seu movimento: um comboio sabe sempre para onde vai.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #9

Vil.

(OK, OK, esta é um bocado batota. Mas temos de admitir que não é realmente um adjectivo que se ouça todos os dias)

RELAX

Curiosa a peça da Economist desta semana sobre as implicações profissionais do stress — sobretudo por ir buscar exemplos de que o stress já existiria desde o século XIX (sob a designação "neurastenia") e que ele se manifesta muito mais em momentos de dúvida, de mudança, de exigência, do que devido a excesso de trabalho. E se o stress não fosse uma doença do foro laboral mas apenas um mal estar, não tanto na sua própria pele mas numa pele que se quer à viva força ter ou que os outros querem à viva força que se tenha?

30 de agosto de 2004

PAREM AS MÁQUINAS

Tenho a garganta inflamada. Argh.

Isto quer dizer que estou constipado, que vou andar insuportável o dia todo e que daqui por 24 horas vou começar a espirrar e a pingar do nariz. Detesto estar constipado.

29 de agosto de 2004

PEQUENO MOMENTO DE TERNURA ORIENTAL

...há pouco mais de uma hora, na cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos (é verdade, não vi a abertura mas vi parte do encerramento). Em cima de um balão chinês, uma menina com um balão diz ou canta qq coisa e acena a despedir-se, tremendo logo em seguida quando fogo de artifício estoira à sua volta mas recuperando a compostura logo de seguida. A realização corta para plano de uma chinesa com um tambor e duas baquetas no piso do estádio, erguendo os braços, com um sorriso alegre, ao mesmo tempo cansado do esforço e entusiasmado por estar ali, esperançoso no que aí virá.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #8

Bardajona.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #7

Homúnculo.

(e, a propósito, isto parece estar a começar a espalhar-se; o L já entrou no jogo)

AI PORTUGAL, PORTUGAL

Esta questão dos irritantes é importante porque Portugal, como um todo, irrita-me.

Irrita-me por ser um país onde o governo arranja desculpas mal amanhadas para impedir a entrada do Barco do Aborto (e Isabel Meireles dizia, hoje — aliás ontem sábado — de manhã, na TSF, que era uma decisão que abria uma caixinha de Pandora em termos de legislação europeia, muito embora a reportagem da RTP-1 no Telejornal deixasse o comentário da especialista em assuntos europeus meio ambíguo). Irrita-me por ser um país onde o PCP põe a figura caricatural de Odete Santos a comentar o assunto — respeito a senhora, mas acho difícil levar a sério uma deputada que é actriz nas horas vagas. Irrita-me por ser um país onde há assessores de ministros a ganharem num mês o que outros ganham em quatro por não fazerem realmente nada de importante, e onde senhoras idosas pagam 30 euros de renda por um quinto andar sem elevador e, por só pagarem 30 euros, não pensam sequer em exigir que o senhorio faça as obras que lhe garantiriam uma qualidade mínima de vida. Irrita-me por ser um país onde se fala muito e se resmunga ainda mais mas, depois, se prefere devorar os jornais que publicam com grandes parangonas os esgotamentos do Zé Maria e o casamento da Fernanda Serrano com o Pedro Miguel Ramos, ou erguer a herói Francis Obikwelu, ou devotar espaço de informação às últimas vicissitudes futebolísticas. E, no interim, Portugal parece escorregar alegremente para um retorno a uma sociedade do antigamente onde a divisão não é em classes altas, médias e baixas mas apenas altas e baixas — porque as médias estão cada vez mais baixas e as altas cada vez mais altas.

28 de agosto de 2004

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #16

O meu bom amigo Luís Guerra propôs no Forum Sons um muito hilariante tópico sob o genérico Ódios Incondicionais Avulsos. Sob a égide dos pequenos irritantes quotidianos, gostaria de propôr mais um: senhores de meia idade ou idosos que se recusam terminantemente a atravessar nas passadeiras ou nos sinais, preferindo andar pelo meio da rua como se estivessem no passeio, ou que atravessam na passadeira quando o sinal está aberto para os carros, e ainda descompõem os condutores por não pararem para suas altezas atravessarem a rua (estou à vontade para mandar vir porque, enquanto peão, respeito escrupulosamente os sinais, excepto se a estrada estiver obviamente vazia de carros, e não uso a estrada como passeio público). Ainda há pouco, na rua dos meus pais, com os passeios livres, uma família inteira, com um bebé num carrinho, descia a rua pelo meio da estrada e nem se desviou para o trânsito passar.

Há coisas que eu não compreendo mesmo.

COITADO DO JORGE

É verdade que o DNA já teve melhores dias (e é, claramente, ainda mais verdade que o próprio Diário de Notícias já não é o que era). É verdade que há algo nas entrevistas de Anabela Mota Ribeiro que me confunde (será o tom aspiracional, desesperadamente precioso, que elas manifestam, de alguém que quer ir mais longe do que aquilo que pode?). Mas, ontem, a entrevista de Jorge Silva Melo é uma daquelas pérolas que nos obrigam a pensar nas coisas, de uma serenidade delicadamente magoada, de uma solidão orgulhosa mas desencantadamente assumida, de uma tranquilidade inquieta. E, por uma vez, o essencial é logo dito no início. Magnificamente.

É uma daquelas hesitações que tenho sempre: porque é que vim parar a esta minha vida?, que escolhas fui fazendo?, não terei falhado as escolhas principais? Quando fundei a Cornucópia com o Luís Miguel e desisti de trabalhar no cinema, terei feito a escolha certa? (...) Essa vida que não vivi é a vida que me preocupa (...).

Tudo o resto vem daqui. E é raro uma conversa conseguir articular com tamanha lucidez o tanto (e, paradoxalmente, tão pouco) que uma vida é e pode ser.

LE NOUVEL OBSERVATEUR

Gosto de observar. Durante muito tempo não fiz mais nada. A pergunta: como transpôr a frieza desse exterior para a urgência da acção?

A AVE RARA

Anoitecer em Paço d'Arcos — e, de súbito, alguém repara que uma arara (ou será um papagaio?) se procura agarrar ao parapeito quase inexistente das janelas do edifício, ora pelo bico curvo e pontiagudo, ora pela garra da pata direita. Mas não há na vertical do edifício parapeitos onde uma ave se possa empoleirar, apenas painéis de vidro, caixilhos de aço praticamente alinhados com a vertical dos materiais. Curioso é ver a aparente placidez externa do bicho, virando a cabeça pachorrentamente enquanto procura um poiso, sem trair a angústia que o deve estar a atravessar. Como chegou ali, não faço ideia. Nem como saíu.

25 de agosto de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #4

Emplastro.

POLAROID: PRÍNCIPE REAL

Um palmier recheado, intacto, depositado em cima de uma caixa de derivação eléctrica na rua da Escola Politécnica. Perfeitamente centrado.

Uma senhora de meia-idade, baixa, de cabelo louro, calças pretas justas abaixo do joelho, sandálias douradas de salto alto, atravessa a rua a correr com a carteira na mão, em direcção ao jardim.

Três polícias guardam uma fachada de um falso quiosque erigido na esquina com a rua do Século para efeitos de uma filmagem, menos de dois metros à frente do verdadeiro quiosque do Príncipe Real, enquanto a equipa se afadiga à sua volta.

24 de agosto de 2004

POLAROID: CONSULTÓRIOS

Consulta de rotina no médico de família: saio com a habitual prescrição semestral de análise e electrocardiograma e como de costume faço-os logo de manhãzinha, seguidos, no mesmo dia.

No laboratório de análises, observo os gestos perfeitamente automatizados da médica que vai tirar as análises, o modo como pegar numa seringa e numa agulha novas, marcar os tubos e as lamelas onde depois irá guardar a amostra, é encadeado com uma velocidade impensável para quem não domina a técnica. São escassos segundos de preparação até ela introduzir a agulha na pele, nem cinco minutos leva todo o processo. Penso que a médica fará aquilo dezenas de vezes ao dia, centenas à semana. Penso que, se calhar, é tão cansativo e maçador tirar análises o dia inteiro como estar a um computador a introduzir dados ou ao telefone a receber chamadas.

No consultório onde faço os meus electrocardiogramas, há uma nova enfermeira (curiosamente, também de óculos) ao serviço e, ao contrário da anterior, esta mete conversa; vê-me no interior do cotovelo o pequeno algodão preso com um penso rápido que a médica sempre coloca depois das análises, diz-me que "esteve a fazer análises..." e conta-me do seu horror por fazer análises enquanto me passa no peito e nos tornozelos o gel condutor onde vai prender os contactos da máquina. Respondo-lhe que houve uma altura em que era incapaz de ver enquanto me faziam análises. Penso na vez que me pediram uma análise à glicémia (é assim que se diz?), que obriga a duas tiragens de sangue entrecortadas por um pequeno-almoço com um galão com açúcar e um bolo com creme estupidamente doce — dessa vez pedi um duchesse com chantilly, o bolo mais enjoativo que consegui imaginar, e fiz um esforço titânico para o comer todo porque odeio o raio do bolo.

Enquanto ela liga a máquina, quase adormeço nos breves minutos que estou deitado na marquesa de cabedal negro coberta com um qualquer protector de papel translúcido, mas a dolência é interrompida pela enfermeira a perguntar-me se estou a respirar fundo e a pedir-me para respirar normalmente para não afectar o exame.

23 de agosto de 2004

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO EMBORA NÃO TENHAM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #3

Troglodita.

POLAROID: MARGINAL #3 (MADRUGADA)

O sol levanta-se a Leste, no retrovisor do carro, tintando o céu de um rosa alaranjado. Mas, como o tenho por trás, apenas vejo o azul em progressão a Oeste; a ponte 25 de Abril iluminada com os carros mantendo uma surpreendente igualdade de velocidade, como carrinhos numa pista eléctrica. O ar é fresco e limpo, aqui, onde a beira-rio encontra a beira-mar; há uma sensação de possibilidade, de esperança, de confiança.