Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
2 de setembro de 2009
BANDA-SONORA
Digam lá que não é fixe estar a comer um Ben & Jerry's na loja do Chiado e aparecerem os National na aparelhagem da loja.
1 de setembro de 2009
DÚVIDA EXISTENCIAL
Um rapaz que passa por mim em plena Álvares Cabral traz vestida uma T-shirt cor-de-laranja com uma frase que me deixou intrigado:
"Usa-me, Senhor"
Os outros dizem que fazem "religião e panque roque"; esta será religião ou sado-masoquismo?
"Usa-me, Senhor"
Os outros dizem que fazem "religião e panque roque"; esta será religião ou sado-masoquismo?
É VERÃO
É sempre muito engraçado viajar num autocarro que tem ar condicionado - assim o dizem as janelas, que têm escrito "ar condicionado, é favor não abrir a janela" - e perceber que há sempre quem abra a janela porque ou não acredita ou não acha que o ar condicionado está suficientemente forte ou acha que o ar condicionado está avariado (mas também não pergunta ao motorista).
31 de agosto de 2009
THINK DIFFERENT
E não é que no outro dia, estava eu a indagar de uma coisa na minha loja Mac, quando entram dois polícias de trânsito que ficam um longo momento à volta de um iMac última geração a conversar como se fossem especialistas da coisa?
(Não que os polícias de trânsito não possam ser especialistas de Mac, é só que a imagem em si é suficientemente invulgar para merecer nota. Como daquela vez que vi o GNR a levantar dinheiro no multibanco - nunca nos lembramos que as forças de segurança que vemos sempre de guarda ou de patrulha também têm vidas privadas.)
(Não que os polícias de trânsito não possam ser especialistas de Mac, é só que a imagem em si é suficientemente invulgar para merecer nota. Como daquela vez que vi o GNR a levantar dinheiro no multibanco - nunca nos lembramos que as forças de segurança que vemos sempre de guarda ou de patrulha também têm vidas privadas.)
30 de agosto de 2009
POLAROID: CAFÉ
É dia de semana de Verão e o homem entra no café com o I na mão. Tem o cabelo louro solto e a tez bronzeada do fulano bem na vida que não tem de se preocupar com pagar a renda no fim do mês, usa uma camisa branca imaculada por cima de calças de ganga Levi's e sapatos castanhos sem meias, põe a carteira de cabedal castanho, o iPhone e as chaves do carro que traz na mão em cima da mesa. Olha à sua volta com o olhar neutro de quem está ali apenas porque é preciso e tem de ser, como se estivesse sozinho no café apenas com o empregado a quem pede o pequeno-almoço num tom de voz um pouco aristocrata enquanto folheia o jornal.
28 de agosto de 2009
OH SENHOR JERÓNIMO, ASSIM NÃO!
Nos novos cartazes de propaganda do PCP, surge a frase "Sim, é possível uma vida melhor!"
Por um instante pensei que estava a olhar para uma frase publicitária das Testemunhas de Jeová ou de outras filiações religiosas, ou num momento de rara beleza da Revista Plenitude. O que, aqui entre nós, não deixa de ser irónico quando sabemos a história conturbada da relação entre a doutrina comunista e o "ópio do povo"...
Por um instante pensei que estava a olhar para uma frase publicitária das Testemunhas de Jeová ou de outras filiações religiosas, ou num momento de rara beleza da Revista Plenitude. O que, aqui entre nós, não deixa de ser irónico quando sabemos a história conturbada da relação entre a doutrina comunista e o "ópio do povo"...
por outras palavras:
25 de Abril sempre,
a língua portuguesa é muito traiçoeira,
descontextualizar por aí,
é a cultura,
é Verão,
iá nós podemos,
isto anda tudo ligado
AS DUAS MARAVILHOSAS FRASES DO DIA (post com frases eventualmente chocantes)
Uma, lida num graffiti determinado e desenvolto na Calçada da Glória:
"TOU-ME A CAGAR PÓ MICHAEL JACKSON" (sic)
Outra, vista num autocolante no vidro traseiro de um automóvel:
"MOST PEOPLE ARE A WASTE OF TIME"
"TOU-ME A CAGAR PÓ MICHAEL JACKSON" (sic)
Outra, vista num autocolante no vidro traseiro de um automóvel:
"MOST PEOPLE ARE A WASTE OF TIME"
27 de agosto de 2009
A TECNOLOGIA É UMA COISA MARAVILHOSA, NÃO É?
Na mesa ao lado da minha, três executivos/bancários/comerciais de fato e gravata almoçavam. Em si, nada de extraordinário. O que já é mais extraordinário é que, apesar de estarem a almoçar na mesma mesa, supostamente juntos, estavam os três colados aos telemóveis, com um deles a tocar de cinco em cinco minutos com um som que se ouvia no restaurante todo.
Isto é um bocado doente, acho eu.
Isto é um bocado doente, acho eu.
por outras palavras:
a tecnologia é uma coisa maravilhosa não é?,
é a cultura,
irritantes quotidianos,
observações descentradas,
telemóvel,
tenham medo. tenham muito medo
26 de agosto de 2009
MÚSICA NO CORREIO
Para quem não sabe, as estações de correio agora também vendem discos. No outro dia, na estação do Rato, o escaparate incluia, entre outros, o disco do Zé Carlos dos Gato Fedorento, os Il Divo, Tony Carreira e os AC/DC. Sim, sim, leram bem, os AC/DC. Estou mesmo a ver as velhotas a irem pagar o telefone e depois a irem para casa abanar o capacete ao som dos AC/DC.
25 de agosto de 2009
LET'S LOOK AT THE TRAILER
Há muito tempo que não via um trailer que explicasse tão bem o que é um filme sem explicar absolutamente nada do que ele é. Há muito quem não vá gostar de Os Limites do Controlo, de Jim Jarmusch, e eu percebo que não se goste nada. Mas eu gosto muito.
738
Poucas coisas são mais incomodativas do que esperar durante dez minutos na paragem pelo autocarro com uma miúda pequena que fala alto não se cala, acompanhada pelos avós que já não têm grande paciência para a ouvir e lhe respondem já meio maçados mas também (por serem avós) não a mandam calar, e perceber que, depois de subirmos todos para o autocarro, nem assim ela se cala.
Felizmente, eles saíram antes de mim.
por outras palavras:
coisas indizíveis,
observações descentradas,
portugal no seu melhor,
teenagers inconscientes,
tenham medo. tenham muito medo,
viva o transporte público
24 de agosto de 2009
O CULTO
Os fãs de memorabilia sofisticada vão tão passar-se com este site. (Agradecimentos à Sight & Sound.)
23 de agosto de 2009
AS PALAVRAS DO MESTRE #11
"All I wanted, really, was to be something that would be defined by itself. What am I? I'm a Robyn Hitchcock. Where are the other ones? There aren't any."
— Robyn Hitchcock a Stevie Chick na edição de Julho de 2009 da Mojo
22 de agosto de 2009
AQUI D'EL-REI
No elevador do metro do Rato, um rapaz dos seus 20 anos, com aquele ar de marrão que todos reconhecemos dos nossos tempos de escola, lê absorto um livro sobre D. Afonso Henriques. Quando saímos do elevador, vejo que o rapaz traz a tiracolo uma pochette onde está bem visível um emblema monárquico.
21 de agosto de 2009
O MARAVILHOSO MUNDO DA ONOMÁSTICA
Tabuleta vista à entrada de um prédio: "Oliveira & Tibúrcio, Clínica Dentária".
20 de agosto de 2009
OLÁ TIA
Entre o restyling como uma mistura de pivot televisiva e Manuela Eanes e a imitação de Bruno Nogueira nos Contemporâneos a não se esquecer da sopa do netinho (aos 3:57), tenho a impressão que prefiro Nogueira.
DENTRO DE CADA UM DE NÓS HÁ UMA CONCEIÇÃO VASCO COSTA ESCONDIDA
É aquela altura do ano: chegou o catálogo.
11 de agosto de 2009
PORTUGAL NO SEU MELHOR
A SPA propõe chamar a um renovado teatro Capitólio teatro Raul Solnado. Parece-me a maneira mais rápida de garantir que o edifício nunca mais abre — basta lembrar o que aconteceu ao teatro Vasco Santana (Entre Campos, antiga Feira Popular: demolido), ao teatro Laura Alves (rua da Palma, ao Martim Moniz: antigo cinema Rex, hoje um armazém barateiro), ao teatro Villaret (Fontes Pereira de Melo, entre o Marquês e o Saldanha: fechado)...
12 de julho de 2009
É VERÃO
Não só é uma puta de uma canção como o teledisco é genial de simplicidade.
Friendly Fires - "Skeleton Boy" (do álbum Friendly Fires, XL 2009), real. Clemens Habicht from Nexus Productions on Vimeo.
(Mille grazie, Andrew Sullivan.)
10 de julho de 2009
8 de julho de 2009
7 de julho de 2009
6 de julho de 2009
5 de julho de 2009
OS PAIS NAO DEVIAM MESMO GOSTAR NADA DELA
A candidata do PS a presidente da câmara de Alpiarça chama-se Sónia Sanfona.
30 de junho de 2009
ALELUIA!
Sim! Sim! Eu vi! Eu vi! Hoje, pela primeira vez, vi um Magalhães efectivamente a ser usado pelo seu público-alvo! No café! Às oito da manhã!
29 de junho de 2009
TASTES LIKE MORE
Alguém é capaz de me explicar porque é que há quem goste de comer o creme do pastel de nata com uma colher e deixar a "caixa" de massa folhada intocada? Eu sempre achei que era a combinação dos dois que fazia todo o apelo da coisa.
UM GELADO NÃO É QUANDO UMA CRIANÇA QUISER
Pai à filha de três, quatro anos que lhe pede um gelado à hora do pequeno-almoço: "Ainda não há, filha, ainda estão a fazer para ficarem bem fresquinhos".
25 de junho de 2009
STEVEN WELLS (1960-2009)
Durante os anos em que o New Musical Express era um jornal de música sério que tinha entrevistas sólidas que nunca mais acabavam e em que dava que pensar (ou seja: quando era impresso a preto e branco em papel que sujava), eu amava ler os textos do Steven Wells, um dos estilistas mais extraordinários do inglês jornalístico como expressão do coloquialismo vernacular panque-roque. Wells era um sacana de um jornalista que escrevia como ninguém, com sangue, suor, lágrimas, esperma, humor, cerveja e uma capacidade notável de atrair a controvérsia com inteligência.
Steven Wells morreu ontem de cancro. Tinha 49 anos.
23 de junho de 2009
PELA BOCA MORRE O PEIXE
Apesar das eleições europeias já terem passado, os cartazes dos partidos continuam expostos por essa Lisboa fora — como o fantástico cartaz do CDS/PP com um Paulo Portas sorridente e a legenda "ter razão não basta, é preciso ter votos".
20 de junho de 2009
É PRECISO SOFRER PARA SER BELO
Um cartaz publicitário numa farmácia anuncia um produto à base de "baba de caracol". Alguém me explica porque é que há quem recorra a este tipo de coisas vagamente repugnantes para ficar mais bonita? (E não, não vou citar a anedota do menino Joãozinho. Embora me apetecesse.)
19 de junho de 2009
727
Dizia a senhora alto e bom som para quem a quisesse ouvir: "o meu mal foi ter começado a fumar aos sete anos. Estragou-me a voz toda, e eu tinha uma voz lindíssima".
18 de junho de 2009
SPRING CLEANING
Vários anos sem olhar a sério para as caixas fechadas que vieram da morada anterior e que foram ficando = uma dezena de sacos de plástico grandes cheios de lixo, uma dezena de caixas para reciclagem, coisas que já nem me recordava que estavam cá em casa. Vamos em três noites três de arrumações e ainda se prevêem mais um bom par delas a arrumar o menos que sobrou.
17 de junho de 2009
A LÍNGUA PORTUGUESA É MUITO TRAIÇOEIRA
A existência de um escrúpulo democrático quer dizer que antes não existiam escrúpulos democráticos?
MEIO BICHO E FOGO
Através do Vítor Junqueira, surpreendo-me com a estreia dos Governo, projecto que junta o escritor Valter Hugo Mãe a dois Mão Morta. Gosto do piano.
7 de junho de 2009
JAYWALKING
"Jaywalking" é o nome dado em inglês ao pessoal que atravessa a rua fora da passadeira. É espantoso como, sendo Portugal um país tão dado a essa prática, desde velhotes que atravessam avenidas inteiras com o sinal vermelho a fazerem sinal com a mão para os automobilistas esperarem a senhores de camisola de marca, telemóvel e carteira na mão e jornal debaixo do braço que atravessam a meio da rua para regressarem ao carro que deixaram arrumado em segunda mão com os quatro piscas do outro lado da rua, não temos uma expressão que a defina. Confesso: eu sou sempre a favor dos direitos dos peões quando eles protestam quanto aos carros estarem mal arrumados em cima do passeio ou das passadeiras. Mas espanto-me como nunca ninguém se recorda de que isso não lhes dá o direito de andarem pelo meio da estrada como se ela fosse um passeio — como as senhoras que esta tarde passeavam pelo meio da rua como se não fosse nada com elas enquanto eu tentava arrumar o carro.
5 de junho de 2009
QUANDO O TELEFONE TOCA
No restaurante, a hora de almoço é interrompida repetidamente por telefones que tocam e gente que os atende entre duas garfadas do prato do dia. Quando são grandes mesas com sete, oito e nove colegas de emprego que vêm almoçar juntos, todos impecáveis de fatinho e gravata e smartphone de último modelo em cima da carteira, a barulheira pode ser bastante cacofónica.
No autocarro, uma senhora fala muito alto e toda a gente ouve a conversa com a mãe que tem de ir fazer o controle dos diabetes e não há maneira de ir. Não sei se a senhora fala alto para a mãe a ouvir ou porque sim.
No autocarro, uma senhora fala muito alto e toda a gente ouve a conversa com a mãe que tem de ir fazer o controle dos diabetes e não há maneira de ir. Não sei se a senhora fala alto para a mãe a ouvir ou porque sim.
4 de junho de 2009
A MEMÓRIA É UM PAÍS DISTANTE
Andrew Sullivan cita Will Inboden a propósito de Tiananmen — mas o que eu acho notável nesta citação é a referência ao modo como "uma sociedade saudável trata o seu passado".
2 de junho de 2009
10/05/2009: KL 1697 AMS 21h00-LIS 22h55
É a irritação total: um puto que não se cala na fila de trás, em conversa com o avô, perguntando o que é isto sobre tudo e mais alguma coisa. Três miúdas portuguesas com tom de voz beto que viajam com uma ama estrangeira, que travaram, sozinhas, durante 15 minutos, uma fila do Burger King no aeroporto de Schiphol a protestar em inglês perfeito que não foi aquilo que pediram, também estão a bordo e não se calam mas, felizmente, estão lá para trás. Na fila da frente, há um tipo que faz um ruído que me parece ser teclar num computador mas que, vai-se a ver, está apenas a brincar com um copo de plástico. E, quando quero refrescar-me na casa de banho, sou travado durante dez minutos pelo duty-free que foi parado quatro vezes — três das quais por portugueses que não se decidiam se queriam ou não levar o produto e depois queriam pagar com notas altas para as quais o comissário de bordo não tinha troco, resultando numa fila de gente agastada porque o comissário de bordo não avançava nem deixava passar.
Quando chego a Lisboa, está a chover que é uma coisa estúpida.
Quando chego a Lisboa, está a chover que é uma coisa estúpida.
31 de maio de 2009
PORTUGAL NO SEU MELHOR
Numa rua do Bairro das Colónias, um casal dos seus 60 anos passa por uma tasca que está fechada. Ela comenta: "Olha, este também fechou". Ele responde-lhe, com desdém mal disfarçado: "Não lhe apeteceu trabalhar".
28 de maio de 2009
DESCONTEXTUALIZAR POR AÍ
Lia-se numa carrinha que passou por mim hoje na rua: "Associação para o Desenvolvimento de Cabeça Gorda".
GAS GUZZLERS
Parece-me haver qualquer coisa de irónico quando se fala tanto da falência técnica dos fabricantes de automóveis americanos mas nunca se viram tantos carros americanos nas estradas portuguesas — Chryslers, Dodges, Jeeps, Chevrolets. E não estou a falar dos antigos Daewoo que agora passaram a ser vendidos na Europa como Chevys...
26 de maio de 2009
OLHOS NOS OLHOS
Sempre que mudo de óculos - quer porque a velha armação deu a alma ao criador, quer porque o médico reajustou a graduação das lentes - há sempre um par de dias estranhos, em que a cabeça me dói ao fim de um certo tempo, estranho a clareza das lentes (que ainda não estão sujas nem riscadas do uso), e a conjugação de lentes novas, graduação nova e armação nova dá-me a sensação de andar a flutuar, de o mundo estar de algum modo "descentrado" e desfasado. O ajuste é imperceptível — ao fim de alguns dias, é como se nunca tivesse usado outros óculos e o mundo retoma os seus parâmetros habituais — mas a princípio há sempre a sensação de que há qualquer coisa fora do sítio, de que tudo não encaixa bem no sítio certo.
25 de maio de 2009
POLAROID: ESPLANADA
Na esplanada do café onde tomo o pequeno-almoço, quatro adolescentes partilham duas a duas os seus iPods. E uma delas canta, em voz alta, tão alta que se ouve através da janela sobre o barulho do trânsito. E canta o quê? "Eu Sou Aquele" dos Excesso.
24 de maio de 2009
UM SEGREDO MUITO NOSSO
A vinte quilómetros a Norte de Amesterdão, esconde-se o segredo bem guardado de Broek en Waterland, pacatíssima cidadezinha que está suficientemente próxima para poder ser considerada subúrbio, mas que a presença constante de canais e vegetação torna num oásis bucólico a meia hora da cidade. O centro (como de costume à volta da igreja...) mantém intactas a traça e a arquitectura originais, mesmo que por dentro as casas tenham todos os confortos modernos. O Taco explica que os habitantes são essencialmente gente endinheirada pouco ou nada interessada no turismo, e que o bucolismo que a torna tão atraente é algo que eles não querem, de todo, partilhar com o mundo exterior. Parece-me que têm razão.
(Fotos: Taco van der Werf, Maio de 2009 - dank je wel)
23 de maio de 2009
MORDE AQUI A VER SE EU DEIXO
D. Diogo, o bichano que partilha o meu apartamento, é um gatinho reconhecido como mimado, amistoso e brincalhão.
No consultório do veterinário, contudo, a fera selvagem e sanguinária que está sempre latente sob a superfície, e que em casa só noto quando um qualquer insecto descuidado se atravessa no seu ângulo de visão, acordando o seu instinto de caçador, revelou-se em toda a sua gloriosa determinação. Depois de ter assustado um cão convalescente com o simples poder das frequências baixas do seu rosnar, D. Diogo mostrou o seu desagrado com o termómetro anal e resistiu heroicamente à injecção da vacina, utilizando as garras e dentes de origem, e rosnou em seguida ao comprimido de desparasitação, esperando certamente que a mesma táctica que resultara com o cão resultaria igualmente com o comprimido (não resultou).
Regressado a casa, voltou a ser o paz d'alma brincalhão e afectuoso que conhecemos. Mas, na primeira oportunidade, não deixou de mostrar o seu desagrado mordendo-me o nariz. Como quem diz: "achas que eu me esqueci, não? Pois fica sabendo que tenho tudo anotado no caderninho."
Presumo que a internet felina com quem D. Diogo comunica por c-mail sempre que nós viramos costas esteja actualmente a deliciar-se com a história.
21 de maio de 2009
AS MELHORES SÉRIES DE TELEVISÃO DE SEMPRE ... NOT
O rapaz Alexandre desafiou-me a escolher as melhores séries de televisão de sempre. Confesso que não sei se estas são as melhores de sempre (algumas serão, outras nem por isso); é uma escolha pessoal de coisas que me marcaram mais ou menos ao longo dos anos, apresentadas por ordem alfabética. Sem mais demoras:
Os Sopranos - esta merece destaque separado, porque, enfim, é Os Sopranos.
Os Sopranos - esta merece destaque separado, porque, enfim, é Os Sopranos.
Absolutely Fabulous ("dahling sweetie")
All in the Family (Uma Família às Direitas)
Alô, Alô ("good meurning" ou "I shall say zis only once")
Band of Brothers (Irmãos de Armas)
Alô, Alô ("good meurning" ou "I shall say zis only once")
Band of Brothers (Irmãos de Armas)
Black Adder ("I have a cunning plan")
Espaço: 1999
The Golden Girls (Sarilhos com Elas)
I, Claudius (Eu, Cláudio)
The Mary Tyler Moore Show (As Solteironas)
Soap (Tudo em Família)
Twin Peaks
The Golden Girls (Sarilhos com Elas)
I, Claudius (Eu, Cláudio)
The Mary Tyler Moore Show (As Solteironas)
Soap (Tudo em Família)
Twin Peaks
The Twilight Zone (A Quinta Dimensão)
The X-Files (Ficheiros Secretos)
Veronica Mars
Hoje, são estas. É uma lista que provavelmente mudará amanhã ou depois — mas que posso dizer que não inclui 24 porque nunca consegui entrar na série, que não inclui Six Feet Under (Sete Palmos de Terra) porque nunca a consegui ver (sempre me fez muita confusão), que não inclui The Wire (Sob Escuta) nem The Shield (O Protector) nem Generation Kill porque ainda não tive hipótese de as ver todas.
Como sou suposto pedir a cinco amigos que prossigam a conversa, faço-o ao Mr. Steed (ninguém te mandou pores um comentário num post que ainda era um rascunho que eu publiquei sem perceber...), à menina Alice, ao João, ao Luís Miguel e ao Pedro.
Hoje, são estas. É uma lista que provavelmente mudará amanhã ou depois — mas que posso dizer que não inclui 24 porque nunca consegui entrar na série, que não inclui Six Feet Under (Sete Palmos de Terra) porque nunca a consegui ver (sempre me fez muita confusão), que não inclui The Wire (Sob Escuta) nem The Shield (O Protector) nem Generation Kill porque ainda não tive hipótese de as ver todas.
Como sou suposto pedir a cinco amigos que prossigam a conversa, faço-o ao Mr. Steed (ninguém te mandou pores um comentário num post que ainda era um rascunho que eu publiquei sem perceber...), à menina Alice, ao João, ao Luís Miguel e ao Pedro.
20 de maio de 2009
PATHÉ DE MUNT
É uma das fachadas mais extraordinárias que já tive hipótese de ver e pertence ao arquitecto Christian de Portzamparc. Está em pleno centro de Amesterdão e podem vê-la aqui.
19 de maio de 2009
A CONCORRÊNCIA NÃO É SAUDÁVEL
Uma das coisas que me surpreendeu bastante foi a abertura de duas agências imobiliárias a poucas semanas uma da outra na Álvares Cabral. Hoje reparei que uma delas estava vazia e tinha na janela um cartaz a dizer "Arrenda-se". (Não deixa de ser irónico, evidentemente, que uma imobiliária dê por si a arrendar as suas próprias instalações...) A coexistência das duas imobiliárias terá durado talvez nem um ano...
18 de maio de 2009
A CONCORRÊNCIA É SAUDÁVEL
Gosto muito do ar desempoeirado, limpinho e certinho e do tamanho maneirinho do I. Não gosto nada da revista de fim-de-semana, nem de ver que o espaço para a cultura é mínimo e reduz-se aos "soundbites" que são de rigor actualmente, apesar do resto do jornal não funcionar nada em termos de "soundbites".
GASTRONOMIA PARA TODOS
Os holandeses comem ao contrário de nós, e um bocado à americana (embora a comparação não funcione da mesma maneira, porque como sabemos os americanos abusam das doses, e os holandeses nem por isso, mas como andam muito de transporte público e de bicicleta acabam por gastar mais calorias). Fazem um bom pequeno-almoço, com café, fruta, sumos, queijo, cereais, leite; comem depois um almoço pequeno, ligeiro (na base do queijo, pão, carnes frias, etc); e a refeição principal do dia acaba por ser o jantar, que comem por volta das seis, sete da tarde (embora jantem até às nove). Uma das coisas mais peculiares que por lá descobri é o que eles chamam de "hagelslag" (o equivalente holandês do nosso granizo): aquilo que nós usamos como decorações de açúcar colorido ou de chocolate em bolos eles comem sobre torradas, pão de forma ou "beschuit" — uma tosta local conhecida fora da Holanda como "zwieback", por ir ao forno duas vezes.
16 de maio de 2009
PARANOID PARK
Atravesso Amesterdão a pé da estação central até aos museus — digo mais tarde, a brincar, aos meus amigos holandeses que já visitei metade da cidade, e eles não acham assim tão estranho como isso. Mesmo ao lado do Rijksmuseum (que está em obras e só tem uma das alas abertas, com uma exposição sobre Vermeer), há uma piscina pública e o proverbial parque de estacionamento de bicicletas. Desemboco em Museumplein, a praça dos museus, é um jardim completamente moderno, com árvores e um pequeno lago ao centro, um parque infantil, esplanadas, cafés, barracas de comes e bebes (do proverbial hamburger ao muito típico arenque), a loja dos museus, gente sentada na relva a desfrutar do bom tempo ou a ensaiar coreografias ou a jogar futebol ou a andar de bicicleta ou apenas deitada na relva. E um skate park ali mesmo ao lado, embora vazio a estas horas. Numa ponta, o Rijksmuseum, na outra o Concertgebouw (aparentemente, uma das melhores acústicas do mundo), pelo meio o Van Gogh, único dos museus da praça que está em funcionamento a cem por cento (o Stedelijk está também ele fechado para obras). E os museus todos — que, pormenor importante, não fecham ao domingo e em alguns casos nem mesmo aos feriados — com filas que nunca mais acabam...
BABEL
Ouve-se muita língua diferente nas ruas de Amesterdão; é a capital mais turística que conheço, o que é surpreendente para uma cidade de apenas 750 mil habitantes. Em qualquer altura do fim-de-semana que lá passo, mais de metade das pessoas por quem passo são turistas (identificáveis não apenas pelas máquinas fotográficas, pelas mochilas ou pelos mapas nas mãos, mas também por viajarem em grupos, por terem sacos de lojas de souvenirs ou simplesmente por falarem línguas mais reconhecíveis que o holandês). Uns quantos ingleses, muitos franceses — perto de Oude Zijde Voorburgwal, uma francesa de bicicleta delira ao telemóvel: "Amsterdam, c'est génial, j'ai dormi deux heures mais bon...". Uns quantos espanhóis e, surpreendentemente, alguns argentinos, alemães, até portugueses (ouvir a palavra "merda" numa das pontes dos canais é, ao mesmo tempo, surpreendente e hilariante). E o caos absoluto nas ruas principais, com a combinação de trânsito automóvel, eléctricos e bicicletas a desorientarem ainda mais gente que não vem de sítios onde a bicicleta é um banal transporte quotidiano.
14 de maio de 2009
MOLENPOORT PASSAGE
Antes de apanhar o comboio para Amesterdão, o John leva-me a conhecer o centro histórico de Nijmegen, confirmando o que eu suspeitava sobre o modo civilizado como os holandeses souberam manter a sua identidade histórica sem abdicarem dos confortos modernos. A par de igrejas antigas impecavelmente restauradas e de parques públicos onde se desmontam as tendas montadas para as celebrações do Dia da Rainha, há edifícios de uma modernidade extraordinária como a Biblioteca Pública (completamente informatizada e onde os membros podem levantar e devolver livros sem precisarem de falar com um assistente), as espantosas arcadas de Marikenstraat onde nos perdemos a passear na livraria Selexyz Dekker van de Vegt (onde compro a Mojo de Junho com Nick Drake na capa e um CD de raridades da Island que o empregado me diz "parecer uma excelente edição"), ou o Lux, um moderníssimo multiplex de oito salas dedicado exclusivamente ao cinema de autor (e que foi inaugurado por... Catherine Deneuve). E tudo isto atravessado por pistas para ciclistas que estão por vezes mais cheias que as próprias estradas — para já não falar dos parques de estacionamento para bicicletas que existem por todo o lado.
13 de maio de 2009
PORTUGAL NO SEU MELHOR
Gostei muito de ler no Público de hoje que os políticos portugueses não estão genuinamente interessados na política mas sim apenas no tacho e que os utilizadores do Magalhães correm o risco de ficar míopes.
YAMAHA DIVERSION 900
O meu amigo John leva-me numa volta de motocicleta pelos arredores de Nijmegen. Dá-lhe jeito: é dia da mulher a dias vir limpar a casa. Fazemos qualquer coisa como 40, talvez 50 km à volta da cidade, atravessando a combinação de canais, comportas e pradaria que rodeia a cidade, passando por dentro ou ao lado de uma série de pequenas aldeias como Lent, Bemmel ou Doorneburg, onde paramos no castelo medieval para tomar um café.
Problema: são 10h40 da manhã e o café do castelo ainda não abriu (só abre às 11h00), mas o dono é um porreiro que até nos utiliza como "cobaias" da nova máquina que acaba de ser instalada. Infelizmente, é bem evidente que ainda ninguém sabe mexer bem na máquina e o café não é grande coisa. Enquanto tomamos um café no pátio do hotel, um enorme cão branco não larga o John e sempre que ele o manda embora o cão apenas se instala mais aos seus pés. De Doorneburg seguimos para mais alguns arredores, atravessamos um dos canais próximos numa das plataformas móveis (que estão a cair em desuso) que fazem a ligação entre margens, atravessamos a fronteira para ir ao supermercado a Kleve, na Alemanha, onde alguns bens essenciais são mais baratos que na Holanda.
À noite, vamos tomar café a casa da irmã do John, que fica a cinco minutos fora de Nijmegen, no meio da Natureza: é uma construção moderna, de uma sobriedade escandinava, que ela mandou construir há dez anos num terreno anteriormente ocupado por um pequeno bungalow rústico de férias. O escritório tem uma varanda panorâmica com uma vista deslumbrante sobre os arredores rurais de Nijmegen — e aqui é mesmo verde, bosque, floresta a perder de vista. Qualidade de vida, digo-vos.
À noite, vamos tomar café a casa da irmã do John, que fica a cinco minutos fora de Nijmegen, no meio da Natureza: é uma construção moderna, de uma sobriedade escandinava, que ela mandou construir há dez anos num terreno anteriormente ocupado por um pequeno bungalow rústico de férias. O escritório tem uma varanda panorâmica com uma vista deslumbrante sobre os arredores rurais de Nijmegen — e aqui é mesmo verde, bosque, floresta a perder de vista. Qualidade de vida, digo-vos.
DE GOFFERT
Qualidade de vida é isto: morar no centro urbano de uma cidade de classe média-alta de 170 mil habitantes como se morássemos na província, com um jardim por trás da casa a dar para o que parece ser (mas não é) um bosque. E grande parte de Nijmegen é assim, composto por vivendas mais ou menos modernas ou mais ou menos antigas, com grandes janelas panorâmicas deixadas aberta que permitem ver todo o interior da sala, com os nomes dos residentes afixados às portas em placas.
12 de maio de 2009
VERTREK: INTERCITY NIJMEGEN
Às 11h30 da manhã, embarco, na plataforma 3 da estação de comboio do aeroporto de Schiphol, no intercidades para Nijmegen. Não faço ideia de onde vem (talvez Den Halder?) mas sei que passa em Schiphol todos os 30 minutos e que não passa pelo centro de Amesterdão (mas passa pelo estádio do Ajax em Amsterdam Bijlmer).
A viagem para Nijmegen leva 90 minutos por uma paisagem verde e plana pontuada por canais e ribeiros e riachos e cavalos e vacas e ovelhas e estradas e cidades. Nesses 90 minutos que me levam à cidade mais antiga da Holanda (a poucos quilómetros da fronteira com a Alemanha), atravesso Utrecht, Driebergen-Zeist, Ede-Wageningen e Arnhem; a carruagem tem dois níveis e as cadeiras são confortáveis, há quem durma ou quem almoce uma sanduíche ou um bolo. De Amesterdão a Utrecht são 30 minutos e começo a perceber o que me tinham dito quanto ao comboio ser a maneira mais prática de viajar nos Países Baixos.
06/05/2009: KL 1692 LIS 07h10-AMS 11h00
O embarque no avião – que vai completamente cheio – é lento: supostamente começa às 06h30, mas na realidade a coisa parece decorrer a passo de caracol, e às 07h10, supostamente hora de partida, ainda há gente a entrar. Mas o avião acaba por sair apenas com dez minutos de atraso, e como há uma senhora com um pé partido na saída de emergência, a hospedeira do ar diz-lhe que não pode ficar ali sentada e pergunta-me se não me importo de trocar com a senhora (que não ficou especialmente agradada e fez questão de só trocar para uma coxia).
Ao meu lado, um jovem casal holandês lê violentamente durante as quase três horas de vôo. Ele não faço ideia do que está a ler. Ela está a ler “Het Bernini Mysterie” — que o mesmo é dizer, “Anjos e Demónios” em tradução holandesa.
4 de maio de 2009
FELIS PERDIDUS
Anúncio de gato perdido colado numa esquina da avenida Duque de Ávila:
"Felídeo. Encontrou-se. Entrega-se a quem provar pertencer-lhe".
(não tenho certeza que as outras frases estejam cem por cento correctas, mas estou certíssimo que "Felídeo" estava lá, em garrafais de máquina de escrever simulada em computador.)
"Felídeo. Encontrou-se. Entrega-se a quem provar pertencer-lhe".
(não tenho certeza que as outras frases estejam cem por cento correctas, mas estou certíssimo que "Felídeo" estava lá, em garrafais de máquina de escrever simulada em computador.)
29 de abril de 2009
CONSULTÓRIO, BOA TARDE
Os consultórios dos médicos têm sempre as televisões ligadas nos programas da manhã e da tarde (geralmente aos altos berros) e revistas de sociedade e suplementos dos semanários de fim-de-semana antigas nas mesas para os pacientes se entreterem de modo enjoado.
As recepcionistas, descobri agora, também têm o computador aberto no Hi5, pelo menos até o médico chegar, altura em que passam a ter o site do Público.
As recepcionistas, descobri agora, também têm o computador aberto no Hi5, pelo menos até o médico chegar, altura em que passam a ter o site do Público.
28 de abril de 2009
GRIPE POLITICAMENTE CORRECTA
Há quem prefira chamar à "gripe suína" "gripe mexicana" porque o judaísmo e o islamismo consideram o porco uma carne impura.
25 de abril de 2009
25 DE ABRIL SEMPRE
...mas não há cafés abertos para ir tomar o pequeno-almoço.
Num dos poucos, um senhor e três senhoras dos seus 50 e muitos anos celebram o 25 de Abril contando episódios caricatos de resistência à ditadura e histórias do tempo da outra senhora, mas fazem-no num tom de voz que obriga quem esteja num raio de dez metros a ouvir. Três cadeiras mais ao lado, um homem passa a vida a olhar para um telemóvel que apita a cada dois minutos com avisos de mensagem que até a vinte metros se devem ouvir.
22 de abril de 2009
PARE, ESCUTE E OLHE
Não percebi exactamente o que aconteceu; só ouvi um estrondo e vi um corpo a cair e a levantar-se logo a seguir, coxeando de uma perna, descalço de um pé. O carro parou uns metros à frente, algumas pessoas juntaram-se com os telemóveis na mão logo ao pé do rapaz, que continuava a andar para cima e para baixo, coxeando, mochila às costas, um pé descalço. Não percebi se o rapaz tinha escorregado ou tentado atravessar com o sinal fechado para os peões. Tudo à distância, do outro lado da rua. O que ficou foi o estrondo e um fotograma que não sou capaz de decifrar.
As sinceras melhoras.
As sinceras melhoras.
21 de abril de 2009
POLÍTICA
Leio muito sobre a "polarização" da vida política americana, cada vez mais partidarizada entre Democratas e Republicanos. Olho para Portugal e tenho a vaga sensação que essa "polarização" está cada vez mais instalada por cá, só que não entre Democratas e Republicanos mas sim entre governo e oposição. A questão é que "governo" e "oposição" são muito mais intermutáveis do que "Democratas" e "Republicanos".
20 de abril de 2009
RENHAU
Descoberta dos últimos dias: um gato consegue espreguiçar-se em todo o tipo de superfícies, desde sofás a secretárias passando por varandas, marquises e alguidares.
17 de abril de 2009
SORRISO PEPSODENT
Isto é um bocado estranho, eu sei, mas não só não tenho grandes problemas em ir ao dentista como, quando faço a limpeza regular, gosto imenso de bochechar com aqueles elixires de cores de rebuçado que sabem sempre a menta fresca, de sentir a escovagem vigorosa com a pasta ou com o desinfectante - e hoje, o meu dentista nem resistiu a mostrar-me a plaquinha de tártaro que saiu inteirinha do intervalo entre dois dentes, nem a pedir-me para agarrar no espelho enquanto me explicava porque é que ela tinha saído assim em vez de cair aos bocadinhos. O que não tem tanta graça mas é óptimo para descontrair e, sobretudo, desmistificar o processo.
16 de abril de 2009
POLAROID: MAIS PERTO DO QUE É IMPORTANTE
Entro no Ben & Jerry's do Chiado para algum reforço positivo (mint chocolate chunk, mmmmm) e enquanto estou a ser atendido, entra um dos mendigos que costumam estar nas igrejas do Chiado, com um telemóvel e um carregador na mão. Diz, num português arrevesado, que não quer pedir esmola, quer apenas carregar o telemóvel, e a empregada indica-lhe que pode carregá-lo numa tomada que fica numa das paredes junto às mesas. Quando ele liga o carregador, começa a dirigir-se para a porta, e a empregada pergunta-lhe, "mas vai ficar ao pé do carregador ou não?" e ele lá explica, no seu português arrevesado, que não; que vai voltar para a igreja e deixar ali o telemóvel. A empregada diz-lhe que nem pensar, que não se responsabiliza pelo que possa acontecer ao telemóvel, e dá-lhe a escolher: ou fica ali enquanto o telemóvel está a carregar, ou se vai embora e leva o telemóvel. O mendigo prefere levar o telemóvel.
15 de abril de 2009
PEQUENAS ALEGRIAS FELINAS
Acordar às cinco e meia da manhã já de si não é bom. Acordar às cinco e meia da manhã com um gato a expectorar bolas de pêlo piora um bocado as coisas — não porque as bolas de pêlo expectoradas sejam assim a modos que do tamanho de um capachinho, mas porque implica ir buscar o balde e a esfregona para limpar o chão enquanto o gato fica parado em frente às ditas cujas e olha para mim com o seu melhor ar "Vá, faz o que te compete e limpa a porcaria que eu fiz". E eu limpo e passados cinco minutos, quando estou de regresso à cama, o gato salta para a cama e vem-me afofar enquanto ronrona alegremente, como quem diz "és tão fixe, obrigado por tomares conta de mim".
14 de abril de 2009
13 de abril de 2009
AUTOCARRO(s)
Há sempre qualquer coisa a acontecer num autocarro, ou numa paragem de autocarro. Na semana passada, uma viagem no 727 ficou marcada por uma senhora que tinha, literalmente, tomado banho em perfume - e, ainda por cima, num daqueles perfumes enjoativos e baratos que identificamos com as viúvas ou solteironas idosas - e que decidiu sentar-se ao meu lado durante umas quantas paragens. Hoje, uma paragem da Fontes Pereira de Melo viu duas velhotas incapazes de comunicar com dois turistas que queriam apanhar um autocarro para Alcântara e literalmente recrutarem um adolescente que tinha acabado de chegar à paragem para fazer o favor de tentar perceber o que é que eles queriam, independentemente de saberem se o rapaz falava ou não a língua dos turistas, qualquer que ela fosse. Era puto, andava na escola, tinha obrigação de falar estrangeiro.
12 de abril de 2009
FIM-DE-SEMANA PROLONGADO
Redescobrir os bons álbuns de Janet Jackson, ainda e sempre a melhor e mais consistente mana dos manos todos — Michael, em rigor, morreu ao fim de dois álbuns, Off the Wall (Epic 1979) e Thriller (Epic 1982) e daí para a frente foi só viver à conta do nome; Janet só disparou ao terceiro, Control (A&M 1986), que todos estes anos depois continua a ser um marco da nova música negra - o que os ex-acólitos da então sua majestade púrpura Jimmy Jam & Terry Lewis fizeram com a maninha soa-me hoje completamente visionário e nada longe do experimentalismo geométrico-abstracto das produções que fizeram o nome de Timbaland. E quando ela fazia pop - estou-me a lembrar de "When I Think of You" ou "Escapade" - os meninos que se cuidem.
Continuar a descobrir os tesouros que se escondem na estupenda caixa de raridades e inéditos do divino Lloyd Cole, Cleaning Out the Ashtrays (Tapete 2009) - quatro CDs de maquetas, versões alternativas, covers, lados B e canções perdidas por entre confusões editoriais, com meia-dúzia de pérolas de estarrecer que não se consegue perceber como é que nunca ninguém reparou que isto era espantoso. Exemplos: "Wild Orphan", que foi retirado de Lloyd Cole (Polydor 1990) à última hora para fazer espaço para "No Blue Skies"; "Blame Mary Jane", uma versão notável do "Most of the Time" de Dylan, "4MB" e "Sold", todas atiradas escandalosamente para lados B esquecidos.
A extraordinária entrevista de Nick Cave que foi capa da Mojo de Março - dá vontade de passar a gostar da obra que impõe respeito do homem, mesmo que a música continue a não me dizer nada.
A saga de D. Crocodila e da Zeeba Neighbah no sítio do costume.
D. Diogo a acordar-me de manhã a cheirar-me o nariz, como quem se prepara para lhe dar uma dentada.
16 de março de 2009
ON/OFF
Uma das melhores reflexões que li recentemente sobre o futuro do jornalismo, por Michael Scherer.
3 de março de 2009
18 de fevereiro de 2009
AS PALAVRAS DO MESTRE
"Let go of the spirit of the departed, and continue your life's celebration"
— Allen Ginsberg a Patti Smith, citado no soberbo filme-ensaio de Steven Sebring, Dream of Life (estreia a 5 de Março).
DESCONTEXTUALIZAR POR AÍ
"Ilda Figueiredo na marcha da radioactividade" — título do jornal Avante!, visto esta manhã numa banca de jornais
16/02/2009: TXL
São onze da manhã, estou à beira de fazer o check-out do hotel embora só tenha vôo às três da tarde (para Frankfurt e daí para Lisboa às seis da tarde, que a Lufthansa não tem vôos directos Berlim-Lisboa) e dou uma espreitadela no site do aeroporto para confirmar tudo — e lá está: os vôos para Frankfurt estão cancelados.
Não penso duas vezes e despacho-me a ir para o aeroporto para tentar resolver a questão; eu e mais não sei quantas pessoas que estavam marcadas para o vôo anterior a fazer fila em frente ao balcão da Lufthansa, 45 minutos no meu caso. Dou as boas tardes à funcionária e digo-lhe que tinha lugar num dos vôos cancelados, a senhora solta um suspiro e lança, "pois, estamos aqui desde manhã a resolver isto, é muito frustrante queremos ajudar sem podermos...". Ao que parece, Frankfurt está fechado por causa do mau tempo, e Berlim também esteve a meio gás, afinal tinha estado a nevar non-stop desde a noite de sábado.
Mas quando lhe digo que vou para Lisboa ela fica mais animadinha, "ah! assim é capaz de ser mais fácil". Numa demonstração de eficiência germânica a toda a prova, daí a dez minutos estou no vôo para Munique, que devia ter saído à uma da tarde mas atrasou uma hora, para apanhar depois a ligação para Lisboa às sete e meia.
Com tudo isto, só cheguei a Lisboa uma hora mais tarde do que originalmente previsto.
4 de fevereiro de 2009
PIAZZA ROSSA
Janto em Berlim num restaurante italiano, sentado ao lado de dois espanhóis que encomendam a refeição em inglês ao empregado alemão e falam um com o outro em catalão.
04/02/2009: LH 178 FRA 11h35-TXL 12h40
Nunca vi um vôo doméstico que não estivesse a abarrotar - e este, de Frankfurt para Berlim, estava mesmo em "overbooking" (sabe-se que um avião está em "overbooking" quando cinco minutos antes da hora da partida continua a entrar gente e já não há sítio para arrumar as malas que toda a gente quer trazer consigo).
Vou na coxia. À minha esquerda, senta-se um espanhol corpulento (mas não em excesso) que dormita enquanto o vôo não descola e, quando partimos, faz o sinal da cruz antes de voltar a adormecer.
04/02/2009: LH 4537 LIS 06h50-FRA 10h50
A única vantagem de apanhar um vôo tão madrugador é que o check-in, a segurança e o controle se fazem num instante, e temos tempo para nos sentarmos a tomar o pequeno-almoço descansados. Mesmo que ao nosso lado estejam três executivos que têm aquelas conversas de almoço entre executivos e que veja uma excursão turística de orientais que atravessam repetidamente o aeroporto à procura de alguma coisa que esteja aberta.
1 de fevereiro de 2009
23/01/2009: CO 64 EWR 20h15-LIS 08h10
No vôo para Lisboa, nota-se a subida no número de passageiros portugueses assim que tomo o meu lugar e começo a ouvir as conversas. Uma família americana que mora em Portugal diz a um casal americano que visita o país pela primeira vez que as pessoas são muio simpáticas e amistosas e o país é lindíssimo, mas que os transportes públicos não funcionam e para terem cuidado com os couverts nas mesas dos restaurantes. Um casal de idosos que viaja com a filha e que está sentado na fila atrás de mim fala um com o outro de modo quase monossilábico: "Deixa-me ir para o meio." "Vai lá filha." Uma senhora que passa na coxia com a sua bagagem de cabina à frente diz para o seu colega de viagem enquanto olha para os compartimentos de bagagem sobre os lugares: "Ai, eu acho que a minha mala não cabe numa coisa destas." E, à saída do vôo, à espera que as bagagens saiam, dois homens com ar de bancários ou colegas de trabalho regressados de uma viagem de trabalho resmungam com o modo como as malas caem no carrocel de bagagens em cima das malas de um vôo anterior que ainda não foram levantadas porque os passageiros ainda estão a passar o controle dos Estrangeiros e Fronteiras.
23/01/2009: CO 62 IAH 14h22-EWR 19h00
Nem todos os vôos domésticos americanos fornecem refeição à borla — em alguns casos, há comida mas é paga à parte —, o que explica porque é que vejo tantos passageiros a embarcarem com sacos de papel do McDonald's, do Wendy's, do Starbucks, ou com garrafas de água ou de refrigerantes, ou com copos de café. No entanto, nos vôos que fiz nesta viagem (todos com a Continental), serviram refeição gratuita (mesmo que não muito melhor que o fast food do aeroporto...). O mais curioso foi mesmo observar as consequências dos fusos horários que "desaparecem" quando se viaja da Costa Oeste para a Costa Leste: saio de São Francisco no vôo para Houston das 7h40, servem o pequeno-almoço. Três horas de vôo depois, aterro em Houston às 13h23, para apanhar o vôo que sai para Newark às 14h22, onde servem almoço. Três horas de vôo depois, aterro em Newark às 19h00 para apanhar o vôo que sai para Lisboa às 20h15, onde servem jantar.
23/01/2009: CO 1444 SFO 07h40-IAH 13h23
A célebre frase "quando mija um português mijam logo dois ou três" não é um exclusivo luso. É ver, nos vôos domésticos americanos, como toda a gente — sobretudo quem está sentado na coxia — se levanta assim que o sinal de "apertar os cintos" se apaga para usar a casa de banho.
O PASSADO É UM PAÍS DISTANTE
Estou sentado no Starbucks da 18th com a Castro, a organizar notas, pensamentos, ideias, no dia a seguir à inauguração de Barack Obama e a meio das entrevistas que me trouxeram a São Francisco. Esta foi uma viagem "estranha", no sentido em que é a primeira vez que viajo em trabalho para uma cidade que até aqui só conheci enquanto destino de férias. Duas mesas mais à direita, dois homens de meia-idade de camisa aos quadrados, com aparência de camionistas (só faltam os bonés), discutem o vôo da US Airways que aterrou no rio Hudson. Na mesa à esquerda, um jovem que parece ter voltado do ginásio, a julgar pela toalha que espreita de um pequeno saco, afadiga-se a anotar em pequenos cartões palavras que lê num volumoso manual, com o telemóvel aberto junto ao computador. Uma mesa mais à frente, outro jovem trabalha frente a um portátil aberto. Quem não está ao telefone ou ao computador está a conversar ou a ler o jornal; "The world has changed", lê-se na primeira página do San Francisco Chronicle. Senti-o ontem quando vi, às nove da manhã locais, a inauguração em directo na televisão; sentiu-se a importância, o peso, a gravidade do momento. A ideia de que não vai ser fácil, mas que não temos medo e estamos aqui para as curvas. Apesar de todo o mal que se pode dizer dos americanos, há algo de notável neste desejo de reinvenção, nesta vontade de recomeçar do zero e fazer tábua rasa do que ficou para trás. O passado é um país distante, já dizia o Sérgio Godinho.
ESTA
ESTA significa "Electronic System for Travel Authorization" e são as iniciais do novo sistema de autorização prévia que começou a ser obrigatório para todos os viajantes com destino aos EUA no dia 12 de Janeiro, poucos dias antes de eu viajar para São Francisco. Teoricamente, substitui os velhos formulários verdes, brancos e azuis que se preenchiam ao check-in ou no avião, eram entregues no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras à entrada nos EUA e eram agrafados ao passaporte e, por consequente, acelerar e reduzir todo o "processamento".
Digo "teoricamente" porque, no avião, a tripulação continuou a distribuir os formulários e, à minha passagem pelo SEF americano em Newark, ficou bem explícito que eles continuavam a ser solicitados, como disse bem alto uma das funcionárias: "Mesmo que tenham obtido a autorização online continua a ser necessário preencher os formulários verdes." Não abordei o assunto com o funcionário que processou os meus formulários, mas o viajante à minha frente abordou, na desportiva, e o funcionário, também na desportiva, explicou que ainda não tinham tido instruções para deixar de aceitar os formulários. Provavelmente porque ainda estávamos nos primeiros dias do novo sistema e era capaz de ser mais seguro garantir um backup no caso do sistema bloquear (o terminal 5 de Heathrow vem-me à cabeça).
20 de janeiro de 2009
OLHA O BELO PASTEL DE NATA
Visto numa padaria chinesa perto da 19th Avenue, um tabuleiro de "Portuguese custard cakes". Tradução: pastel de nata, só que com mais ar de queijada que outra coisa.
14/01/2009: CO 348 EWR 18h10-SFO 21h58
Enquanto espero que o avião saia de Newark, noto que o vôo está cheio a abarrotar e três em cada quatro passageiros não largam esse pequeno símbolo do "always on" da vida moderna que é o Blackberry, ou em alternativa o iPhone (o meu vizinho de fila tem, ao mesmo tempo, o iPod, o iPhone e o computador em cima do tabuleiro). Noto também que há coisas em que os americanos são como os portugueses, nomeadamente na quantidade de sacos e bagagens que transportam consigo no avião em vez de despacharem no porão. A senhora na fila da frente pede ajuda a uma das hospedeiras para arrumar uma mala de viagem que não conseguiu colocar em nenhum dos compartimentos; a hospedeira pergunta-lhe se sabe quanto pesa e a senhora responde "sei sim porque a pesei: nove quilos". O avião acaba por sair com quase uma hora de atraso porque houve um passageiro que - para além de ter sido um dos últimos a embarcar - decidiu desembarcar à última da hora, alegando que se sentia mal.
CAI NEVE EM NOVA IORQUE
Literalmente. Estão temperaturas negativas em Newark e debaixo do céu que alterna entre azul brilhante de inverno e nublado de cinzento quase escuro, flocos de neve volteiam no ar como pequenas partículas brancas transportadas pelo vento.
19 de janeiro de 2009
14/01/2009: CO 65 LIS 10h25-EWR 13h45
Viajo na Continental pela primeira vez, com destino ao aeroporto de Newark, onde vou passar os Estrangeiros e Fronteiras e esperar três horas pela ligação a São Francisco. Sobrevoamos o Canadá; o céu está limpo e vê-se lá em baixo o recorte da costa - pelo menos o recorte que o motor do avião permite. A senhora do check-in foi uma querida e marcou lugar na fila de aída sobre as asas; a parte chata é que os assentos não recostam, mas em contrapartida tenho a fila só para mim.
Ao embarque, reparo que um passageiro português pergunta a um comissário de bordo, em português: "desculpe, o vôo vai cheio?" O comissário não lhe liga, quer por estar distraído quer por não perceber que é com ele que estão a falar quer por não falar português. E o senhor, parado na coxia, insiste, até uma hospedeira que também não fala português pedir para continuar a andar para não empatar.
O vôo leva um pouco mais de tempo que se esperaria, segundo o comandante para evitarmos o mau tempo. Parece que estava a nevar em Nova Iorque quando saímos (à hora) de Lisboa, mas em Lisboa estava a chover a potes. Como de costume, o lusófono de serviço na tripulação fala português com um forte sotaque brasileiro, mas percebe-se que é espanhol (ou pelo menos hispânico). Em contrapartida, o assistente de bordo que serve o almoço é americano de New Jersey, com sotaque Soprano e tudo, mas fala bem português (luso-americano de segunda geração?). Enquanto serve o almoço (lasanha ou galinha Vesúvio), ouço-o a brincar com a colega que o ajuda sobre as idiossincrasias do emprego: o modo como um passageiro responde à pergunta "e o que vai beber?" com a pergunta "o que é que tem?"; o modo como outro passageiro pede uma "sevenep" (presumo que, pelo modo como o pronunciou, seja português). O facto de adorar o seu trabalho e de o adorar ainda mais quando chega a casa.
10 de janeiro de 2009
720
Na Infante Santo, espero por um de dois autocarros que passam perto de minha casa — o primeiro a chegar é o 720, que esvazia a maior parte dos passageiros que aguardam na paragem. Mas, rapidamente, percebo que o 720 não vai a lado nenhum; o condutor do autocarro levanta-se e chama um jovem negro, de mochila e boné, que entrou num grupo e não apresentou passe nem pagou bilhete. Não percebi se o jovem não pagou bilhete para deixar os restantes passageiros entrar, ou se não fazia tenção de pagar bilhete; em qualquer dos casos, isso tornou-se rapidamente irrelevante, porque o condutor recusou-se a arrancar com o autocarro enquanto o jovem não pagasse bilhete ou saisse, e o jovem começou a "tourear" o condutor. Nem o autocarro arrancava nem o rapaz pagava, houve logo dois ou três passageiros que começaram a resmungar e a mandar vir com o condutor, e eu segui a atitude de outros dois ou três passageiros que voltaram para a paragem e esperaram pelo 738, que vinha mesmo aí atrás. O 720 ainda ficou dois ou três minutos parado e depois lá arrancou — sem o rapaz ter saído. Não sei como é que a história ficou.
9 de janeiro de 2009
OS PAIS NÃO DEVIAM GOSTAR MESMO NADA DELA
Ouvido na TSF, esta manhã: a arquitecta paisagista Aurora Carapinha. Estou certo que é um encanto de senhora, mas não consigo evitar achar o nome infeliz.
7 de janeiro de 2009
A FELICIDADE
...pode ser uma coisa glandular, segundo o escritor Robertson Davies.
(obrigado pela dica a David Lavery)
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