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18 de junho de 2009

SPRING CLEANING

Vários anos sem olhar a sério para as caixas fechadas que vieram da morada anterior e que foram ficando = uma dezena de sacos de plástico grandes cheios de lixo, uma dezena de caixas para reciclagem, coisas que já nem me recordava que estavam cá em casa. Vamos em três noites três de arrumações e ainda se prevêem mais um bom par delas a arrumar o menos que sobrou.

17 de junho de 2009

7 de junho de 2009

JAYWALKING

"Jaywalking" é o nome dado em inglês ao pessoal que atravessa a rua fora da passadeira. É espantoso como, sendo Portugal um país tão dado a essa prática, desde velhotes que atravessam avenidas inteiras com o sinal vermelho a fazerem sinal com a mão para os automobilistas esperarem a senhores de camisola de marca, telemóvel e carteira na mão e jornal debaixo do braço que atravessam a meio da rua para regressarem ao carro que deixaram arrumado em segunda mão com os quatro piscas do outro lado da rua, não temos uma expressão que a defina. Confesso: eu sou sempre a favor dos direitos dos peões quando eles protestam quanto aos carros estarem mal arrumados em cima do passeio ou das passadeiras. Mas espanto-me como nunca ninguém se recorda de que isso não lhes dá o direito de andarem pelo meio da estrada como se ela fosse um passeio — como as senhoras que esta tarde passeavam pelo meio da rua como se não fosse nada com elas enquanto eu tentava arrumar o carro.

5 de junho de 2009

QUANDO O TELEFONE TOCA

No restaurante, a hora de almoço é interrompida repetidamente por telefones que tocam e gente que os atende entre duas garfadas do prato do dia. Quando são grandes mesas com sete, oito e nove colegas de emprego que vêm almoçar juntos, todos impecáveis de fatinho e gravata e smartphone de último modelo em cima da carteira, a barulheira pode ser bastante cacofónica.

No autocarro, uma senhora fala muito alto e toda a gente ouve a conversa com a mãe que tem de ir fazer o controle dos diabetes e não há maneira de ir. Não sei se a senhora fala alto para a mãe a ouvir ou porque sim.

2 de junho de 2009

10/05/2009: KL 1697 AMS 21h00-LIS 22h55

É a irritação total: um puto que não se cala na fila de trás, em conversa com o avô, perguntando o que é isto sobre tudo e mais alguma coisa. Três miúdas portuguesas com tom de voz beto que viajam com uma ama estrangeira, que travaram, sozinhas, durante 15 minutos, uma fila do Burger King no aeroporto de Schiphol a protestar em inglês perfeito que não foi aquilo que pediram, também estão a bordo e não se calam mas, felizmente, estão lá para trás. Na fila da frente, há um tipo que faz um ruído que me parece ser teclar num computador mas que, vai-se a ver, está apenas a brincar com um copo de plástico. E, quando quero refrescar-me na casa de banho, sou travado durante dez minutos pelo duty-free que foi parado quatro vezes — três das quais por portugueses que não se decidiam se queriam ou não levar o produto e depois queriam pagar com notas altas para as quais o comissário de bordo não tinha troco, resultando numa fila de gente agastada porque o comissário de bordo não avançava nem deixava passar.

Quando chego a Lisboa, está a chover que é uma coisa estúpida.

31 de maio de 2009

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Numa rua do Bairro das Colónias, um casal dos seus 60 anos passa por uma tasca que está fechada. Ela comenta: "Olha, este também fechou". Ele responde-lhe, com desdém mal disfarçado: "Não lhe apeteceu trabalhar". 

28 de maio de 2009

DESCONTEXTUALIZAR POR AÍ

Lia-se numa carrinha que passou por mim hoje na rua: "Associação para o Desenvolvimento de Cabeça Gorda".

FRASE POP DO DIA

"We'll get there fast and then we'll take it slow" — os Beach Boys, em "Kokomo".

GAS GUZZLERS

Parece-me haver qualquer coisa de irónico quando se fala tanto da falência técnica dos fabricantes de automóveis americanos mas nunca se viram tantos carros americanos nas estradas portuguesas — Chryslers, Dodges, Jeeps, Chevrolets. E não estou a falar dos antigos Daewoo que agora passaram a ser vendidos na Europa como Chevys... 

26 de maio de 2009

OLHOS NOS OLHOS

Sempre que mudo de óculos - quer porque a velha armação deu a alma ao criador, quer porque o médico reajustou a graduação das lentes - há sempre um par de dias estranhos, em que a cabeça me dói ao fim de um certo tempo, estranho a clareza das lentes (que ainda não estão sujas nem riscadas do uso), e a conjugação de lentes novas, graduação nova e armação nova dá-me a sensação de andar a flutuar, de o mundo estar de algum modo "descentrado" e desfasado. O ajuste é imperceptível — ao fim de alguns dias, é como se nunca tivesse usado outros óculos e o mundo retoma os seus parâmetros habituais — mas a princípio há sempre a sensação de que há qualquer coisa fora do sítio, de que tudo não encaixa bem no sítio certo.

25 de maio de 2009

POLAROID: ESPLANADA

Na esplanada do café onde tomo o pequeno-almoço, quatro adolescentes partilham duas a duas os seus iPods. E uma delas canta, em voz alta, tão alta que se ouve através da janela sobre o barulho do trânsito. E canta o quê? "Eu Sou Aquele" dos Excesso. 

24 de maio de 2009

UM SEGREDO MUITO NOSSO

A vinte quilómetros a Norte de Amesterdão, esconde-se o segredo bem guardado de Broek en Waterland, pacatíssima cidadezinha que está suficientemente próxima para poder ser considerada subúrbio, mas que a presença constante de canais e vegetação torna num oásis bucólico a meia hora da cidade. O centro (como de costume à volta da igreja...) mantém intactas a traça e a arquitectura originais, mesmo que por dentro as casas tenham todos os confortos modernos. O Taco explica que os habitantes são essencialmente gente endinheirada pouco ou nada interessada no turismo, e que o bucolismo que a torna tão atraente é algo que eles não querem, de todo, partilhar com o mundo exterior. Parece-me que têm razão.














(Fotos: Taco van der Werf, Maio de 2009 - dank je wel)

23 de maio de 2009

MORDE AQUI A VER SE EU DEIXO

D. Diogo, o bichano que partilha o meu apartamento, é um gatinho reconhecido como mimado, amistoso e brincalhão. 

No consultório do veterinário, contudo, a fera selvagem e sanguinária que está sempre latente sob a superfície, e que em casa só noto quando um qualquer insecto descuidado se atravessa no seu ângulo de visão, acordando o seu instinto de caçador, revelou-se em toda a sua gloriosa determinação. Depois de ter assustado um cão convalescente com o simples poder das frequências baixas do seu rosnar, D. Diogo mostrou o seu desagrado com o termómetro anal e resistiu heroicamente à injecção da vacina, utilizando as garras e dentes de origem, e rosnou em seguida ao comprimido de desparasitação, esperando certamente que a mesma táctica que resultara com o cão resultaria igualmente com o comprimido (não resultou).

Regressado a casa, voltou a ser o paz d'alma brincalhão e afectuoso que conhecemos. Mas, na primeira oportunidade, não deixou de mostrar o seu desagrado mordendo-me o nariz. Como quem diz: "achas que eu me esqueci, não? Pois fica sabendo que tenho tudo anotado no caderninho." 

Presumo que a internet felina com quem D. Diogo comunica por c-mail sempre que nós viramos costas esteja actualmente a deliciar-se com a história. 

21 de maio de 2009

AS MELHORES SÉRIES DE TELEVISÃO DE SEMPRE ... NOT

O rapaz Alexandre desafiou-me a escolher as melhores séries de televisão de sempre. Confesso que não sei se estas são as melhores de sempre (algumas serão, outras nem por isso); é uma escolha pessoal de coisas que me marcaram mais ou menos ao longo dos anos, apresentadas por ordem alfabética. Sem mais demoras:

Os Sopranos - esta merece destaque separado, porque, enfim, é Os Sopranos.

Absolutely Fabulous ("dahling sweetie")
All in the Family (Uma Família às Direitas)
Alô, Alô
("good meurning" ou "I shall say zis only once")
Band of Brothers (Irmãos de Armas)
Black Adder ("I have a cunning plan")
Espaço: 1999
The Golden Girls (Sarilhos com Elas)
I, Claudius (Eu, Cláudio)
The Mary Tyler Moore Show (As Solteironas)
Soap (Tudo em Família)
Twin Peaks
The Twilight Zone (A Quinta Dimensão)
The X-Files (Ficheiros Secretos)
Veronica Mars

Hoje, são estas. É uma lista que provavelmente mudará amanhã ou depois — mas que posso dizer que não inclui 24 porque nunca consegui entrar na série, que não inclui Six Feet Under (Sete Palmos de Terra) porque nunca a consegui ver (sempre me fez muita confusão), que não inclui The Wire (Sob Escuta) nem The Shield (O Protector) nem Generation Kill porque ainda não tive hipótese de as ver todas.

Como sou suposto pedir a cinco amigos que prossigam a conversa, faço-o ao Mr. Steed (ninguém te mandou pores um comentário num post que ainda era um rascunho que eu publiquei sem perceber...), à menina Alice, ao João, ao Luís Miguel e ao Pedro.

20 de maio de 2009

PATHÉ DE MUNT

É uma das fachadas mais extraordinárias que já tive hipótese de ver e pertence ao arquitecto Christian de Portzamparc. Está em pleno centro de Amesterdão e podem vê-la aqui.

19 de maio de 2009

A CONCORRÊNCIA NÃO É SAUDÁVEL

Uma das coisas que me surpreendeu bastante foi a abertura de duas agências imobiliárias a poucas semanas uma da outra na Álvares Cabral. Hoje reparei que uma delas estava vazia e tinha na janela um cartaz a dizer "Arrenda-se". (Não deixa de ser irónico, evidentemente, que uma imobiliária dê por si a arrendar as suas próprias instalações...) A coexistência das duas imobiliárias terá durado talvez nem um ano...

O DESIGN QUANDO É BOM É MUITO BOM

Como fica provado aqui (com agradecimentos especiais a isto).

18 de maio de 2009

A CONCORRÊNCIA É SAUDÁVEL

Gosto muito do ar desempoeirado, limpinho e certinho e do tamanho maneirinho do I. Não gosto nada da revista de fim-de-semana, nem de ver que o espaço para a cultura é mínimo e reduz-se aos "soundbites" que são de rigor actualmente, apesar do resto do jornal não funcionar nada em termos de "soundbites".

GASTRONOMIA PARA TODOS

Os holandeses comem ao contrário de nós, e um bocado à americana (embora a comparação não funcione da mesma maneira, porque como sabemos os americanos abusam das doses, e os holandeses nem por isso, mas como andam muito de transporte público e de bicicleta acabam por gastar mais calorias). Fazem um bom pequeno-almoço, com café, fruta, sumos, queijo, cereais, leite; comem depois um almoço pequeno, ligeiro (na base do queijo, pão, carnes frias, etc); e a refeição principal do dia acaba por ser o jantar, que comem por volta das seis, sete da tarde (embora jantem até às nove). Uma das coisas mais peculiares que por lá descobri é o que eles chamam de "hagelslag" (o equivalente holandês do nosso granizo): aquilo que nós usamos como decorações de açúcar colorido ou de chocolate em bolos eles comem sobre torradas, pão de forma ou "beschuit" — uma tosta local conhecida fora da Holanda como "zwieback", por ir ao forno duas vezes. 

16 de maio de 2009

PARANOID PARK

Atravesso Amesterdão a pé da estação central até aos museus — digo mais tarde, a brincar, aos meus amigos holandeses que já visitei metade da cidade, e eles não acham assim tão estranho como isso. Mesmo ao lado do Rijksmuseum (que está em obras e só tem uma das alas abertas, com uma exposição sobre Vermeer), há uma piscina pública e o proverbial parque de estacionamento de bicicletas. Desemboco em Museumplein, a praça dos museus, é um jardim completamente moderno, com árvores e um pequeno lago ao centro, um parque infantil, esplanadas, cafés, barracas de comes e bebes (do proverbial hamburger ao muito típico arenque), a loja dos museus, gente sentada na relva a desfrutar do bom tempo ou a ensaiar coreografias ou a jogar futebol ou a andar de bicicleta ou apenas deitada na relva. E um skate park ali mesmo ao lado, embora vazio a estas horas. Numa ponta, o Rijksmuseum, na outra o Concertgebouw (aparentemente, uma das melhores acústicas do mundo), pelo meio o Van Gogh, único dos museus da praça que está em funcionamento a cem por cento (o Stedelijk está também ele fechado para obras). E os museus todos — que, pormenor importante, não fecham ao domingo e em alguns casos nem mesmo aos feriados — com filas que nunca mais acabam... 

BABEL

Ouve-se muita língua diferente nas ruas de Amesterdão; é a capital mais turística que conheço, o que é surpreendente para uma cidade de apenas 750 mil habitantes. Em qualquer altura do fim-de-semana que lá passo, mais de metade das pessoas por quem passo são turistas (identificáveis não apenas pelas máquinas fotográficas, pelas mochilas ou pelos mapas nas mãos, mas também por viajarem em grupos, por terem sacos de lojas de souvenirs ou simplesmente por falarem línguas mais reconhecíveis que o holandês). Uns quantos ingleses, muitos franceses — perto de Oude Zijde Voorburgwal, uma francesa de bicicleta delira ao telemóvel: "Amsterdam, c'est génial, j'ai dormi deux heures mais bon...". Uns quantos espanhóis e, surpreendentemente, alguns argentinos, alemães, até portugueses (ouvir a palavra "merda" numa das pontes dos canais é, ao mesmo tempo, surpreendente e hilariante). E o caos absoluto nas ruas principais, com a combinação de trânsito automóvel, eléctricos e bicicletas a desorientarem ainda mais gente que não vem de sítios onde a bicicleta é um banal transporte quotidiano. 

14 de maio de 2009

REFORÇO POSITIVO

Cookie Dough e Coconut Almond Fudge Chip com cobertura de American Cookies. 

MOLENPOORT PASSAGE

Antes de apanhar o comboio para Amesterdão, o John leva-me a conhecer o centro histórico de Nijmegen, confirmando o que eu suspeitava sobre o modo civilizado como os holandeses souberam manter a sua identidade histórica sem abdicarem dos confortos modernos. A par de igrejas antigas impecavelmente restauradas e de parques públicos onde se desmontam as tendas montadas para as celebrações do Dia da Rainha, há edifícios de uma modernidade extraordinária como a Biblioteca Pública (completamente informatizada e onde os membros podem levantar e devolver livros sem precisarem de falar com um assistente), as espantosas arcadas de Marikenstraat onde nos perdemos a passear na livraria Selexyz Dekker van de Vegt (onde compro a Mojo de Junho com Nick Drake na capa e um CD de raridades da Island que o empregado me diz "parecer uma excelente edição"), ou o Lux, um moderníssimo multiplex de oito salas dedicado exclusivamente ao cinema de autor (e que foi inaugurado por... Catherine Deneuve). E tudo isto atravessado por pistas para ciclistas que estão por vezes mais cheias que as próprias estradas — para já não falar dos parques de estacionamento para bicicletas que existem por todo o lado.

13 de maio de 2009

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Gostei muito de ler no Público de hoje que os políticos portugueses não estão genuinamente interessados na política mas sim apenas no tacho e que os utilizadores do Magalhães correm o risco de ficar míopes.

YAMAHA DIVERSION 900

O meu amigo John leva-me numa volta de motocicleta pelos arredores de Nijmegen. Dá-lhe jeito: é dia da mulher a dias vir limpar a casa. Fazemos qualquer coisa como 40, talvez 50 km à volta da cidade, atravessando a combinação de canais, comportas e pradaria que rodeia a cidade, passando por dentro ou ao lado de uma série de pequenas aldeias como Lent, Bemmel ou Doorneburg, onde paramos no castelo medieval para tomar um café. 

Problema: são 10h40 da manhã e o café do castelo ainda não abriu (só abre às 11h00), mas o dono é um porreiro que até nos utiliza como "cobaias" da nova máquina que acaba de ser instalada. Infelizmente, é bem evidente que ainda ninguém sabe mexer bem na máquina e o café não é grande coisa. Enquanto tomamos um café no pátio do hotel, um enorme cão branco não larga o John e sempre que ele o manda embora o cão apenas se instala mais aos seus pés. De Doorneburg seguimos para mais alguns arredores, atravessamos um dos canais próximos numa das plataformas móveis (que estão a cair em desuso) que fazem a ligação entre margens, atravessamos a fronteira para ir ao supermercado a Kleve, na Alemanha, onde alguns bens essenciais são mais baratos que na Holanda.

À noite, vamos tomar café a casa da irmã do John, que fica a cinco minutos fora de Nijmegen, no meio da Natureza: é uma construção moderna, de uma sobriedade escandinava, que ela mandou construir há dez anos num terreno anteriormente ocupado por um pequeno bungalow rústico de férias. O escritório tem uma varanda panorâmica com uma vista deslumbrante sobre os arredores rurais de Nijmegen — e aqui é mesmo verde, bosque, floresta a perder de vista. Qualidade de vida, digo-vos.

DE GOFFERT

Qualidade de vida é isto: morar no centro urbano de uma cidade de classe média-alta de 170 mil habitantes como se morássemos na província, com um jardim por trás da casa a dar para o que parece ser (mas não é) um bosque. E grande parte de Nijmegen é assim, composto por vivendas mais ou menos modernas ou mais ou menos antigas, com grandes janelas panorâmicas deixadas aberta que permitem ver todo o interior da sala, com os nomes dos residentes afixados às portas em placas. 

12 de maio de 2009

VERTREK: INTERCITY NIJMEGEN

Às 11h30 da manhã, embarco, na plataforma 3 da estação de comboio do aeroporto de Schiphol, no intercidades para Nijmegen. Não faço ideia de onde vem (talvez Den Halder?) mas sei que passa em Schiphol todos os 30 minutos e que não passa pelo centro de Amesterdão (mas passa pelo estádio do Ajax em Amsterdam Bijlmer). 

A viagem para Nijmegen leva 90 minutos por uma paisagem verde e plana pontuada por canais e ribeiros e riachos e cavalos e vacas e ovelhas e estradas e cidades. Nesses 90 minutos que me levam à cidade mais antiga da Holanda (a poucos quilómetros da fronteira com a Alemanha), atravesso Utrecht, Driebergen-Zeist, Ede-Wageningen e Arnhem; a carruagem tem dois níveis e as cadeiras são confortáveis, há quem durma ou quem almoce uma sanduíche ou um bolo. De Amesterdão a Utrecht são 30 minutos e começo a perceber o que me tinham dito quanto ao comboio ser a maneira mais prática de viajar nos Países Baixos.  

06/05/2009: KL 1692 LIS 07h10-AMS 11h00

O embarque no avião – que vai completamente cheio – é lento: supostamente começa às 06h30, mas na realidade a coisa parece decorrer a passo de caracol, e às 07h10, supostamente hora de partida, ainda há gente a entrar. Mas o avião acaba por sair apenas com dez minutos de atraso, e como há uma senhora com um pé partido na saída de emergência, a hospedeira do ar diz-lhe que não pode ficar ali sentada e pergunta-me se não me importo de trocar com a senhora (que não ficou especialmente agradada e fez questão de só trocar para uma coxia). 

Ao meu lado, um jovem casal holandês lê violentamente durante as quase três horas de vôo. Ele não faço ideia do que está a ler. Ela está a ler “Het Bernini Mysterie” — que o mesmo é dizer, “Anjos e Demónios” em tradução holandesa.

4 de maio de 2009

FELIS PERDIDUS

Anúncio de gato perdido colado numa esquina da avenida Duque de Ávila:

"Felídeo. Encontrou-se. Entrega-se a quem provar pertencer-lhe".

(não tenho certeza que as outras frases estejam cem por cento correctas, mas estou certíssimo que "Felídeo" estava lá, em garrafais de máquina de escrever simulada em computador.)

29 de abril de 2009

CONSULTÓRIO, BOA TARDE

Os consultórios dos médicos têm sempre as televisões ligadas nos programas da manhã e da tarde (geralmente aos altos berros) e revistas de sociedade e suplementos dos semanários de fim-de-semana antigas nas mesas para os pacientes se entreterem de modo enjoado.

As recepcionistas, descobri agora, também têm o computador aberto no Hi5, pelo menos até o médico chegar, altura em que passam a ter o site do Público.

28 de abril de 2009

GRIPE POLITICAMENTE CORRECTA

Há quem prefira chamar à "gripe suína" "gripe mexicana" porque o judaísmo e o islamismo consideram o porco uma carne impura.

25 de abril de 2009

25 DE ABRIL SEMPRE

...mas não há cafés abertos para ir tomar o pequeno-almoço.

Num dos poucos, um senhor e três senhoras dos seus 50 e muitos anos celebram o 25 de Abril contando episódios caricatos de resistência à ditadura e histórias do tempo da outra senhora, mas fazem-no num tom de voz que obriga quem esteja num raio de dez metros a ouvir. Três cadeiras mais ao lado, um homem passa a vida a olhar para um telemóvel que apita a cada dois minutos com avisos de mensagem que até a vinte metros se devem ouvir. 

22 de abril de 2009

PARE, ESCUTE E OLHE

Não percebi exactamente o que aconteceu; só ouvi um estrondo e vi um corpo a cair e a levantar-se logo a seguir, coxeando de uma perna, descalço de um pé. O carro parou uns metros à frente, algumas pessoas juntaram-se com os telemóveis na mão logo ao pé do rapaz, que continuava a andar para cima e para baixo, coxeando, mochila às costas, um pé descalço. Não percebi se o rapaz tinha escorregado ou tentado atravessar com o sinal fechado para os peões. Tudo à distância, do outro lado da rua. O que ficou foi o estrondo e um fotograma que não sou capaz de decifrar.

As sinceras melhoras.

21 de abril de 2009

POLÍTICA

Leio muito sobre a "polarização" da vida política americana, cada vez mais partidarizada entre Democratas e Republicanos. Olho para Portugal e tenho a vaga sensação que essa "polarização" está cada vez mais instalada por cá, só que não entre Democratas e Republicanos mas sim entre governo e oposição. A questão é que "governo" e "oposição" são muito mais intermutáveis do que "Democratas" e "Republicanos".

20 de abril de 2009

RENHAU

Descoberta dos últimos dias: um gato consegue espreguiçar-se em todo o tipo de superfícies, desde sofás a secretárias passando por varandas, marquises e alguidares.

17 de abril de 2009

SORRISO PEPSODENT

Isto é um bocado estranho, eu sei, mas não só não tenho grandes problemas em ir ao dentista como, quando faço a limpeza regular, gosto imenso de bochechar com aqueles elixires de cores de rebuçado que sabem sempre a menta fresca, de sentir a escovagem vigorosa com a pasta ou com o desinfectante - e hoje, o meu dentista nem resistiu a mostrar-me a plaquinha de tártaro que saiu inteirinha do intervalo entre dois dentes, nem a pedir-me para agarrar no espelho enquanto me explicava porque é que ela tinha saído assim em vez de cair aos bocadinhos. O que não tem tanta graça mas é óptimo para descontrair e, sobretudo, desmistificar o processo.

16 de abril de 2009

POLAROID: MAIS PERTO DO QUE É IMPORTANTE

Entro no Ben & Jerry's do Chiado para algum reforço positivo (mint chocolate chunk, mmmmm) e enquanto estou a ser atendido, entra um dos mendigos que costumam estar nas igrejas do Chiado, com um telemóvel e um carregador na mão. Diz, num português arrevesado, que não quer pedir esmola, quer apenas carregar o telemóvel, e a empregada indica-lhe que pode carregá-lo numa tomada que fica numa das paredes junto às mesas. Quando ele liga o carregador, começa a dirigir-se para a porta, e a empregada pergunta-lhe, "mas vai ficar ao pé do carregador ou não?" e ele lá explica, no seu português arrevesado, que não; que vai voltar para a igreja e deixar ali o telemóvel. A empregada diz-lhe que nem pensar, que não se responsabiliza pelo que possa acontecer ao telemóvel, e dá-lhe a escolher: ou fica ali enquanto o telemóvel está a carregar, ou se vai embora e leva o telemóvel. O mendigo prefere levar o telemóvel.

15 de abril de 2009

PEQUENAS ALEGRIAS FELINAS

Acordar às cinco e meia da manhã já de si não é bom. Acordar às cinco e meia da manhã com um gato a expectorar bolas de pêlo piora um bocado as coisas — não porque as bolas de pêlo expectoradas sejam assim a modos que do tamanho de um capachinho, mas porque implica ir buscar o balde e a esfregona para limpar o chão enquanto o gato fica parado em frente às ditas cujas e olha para mim com o seu melhor ar "Vá, faz o que te compete e limpa a porcaria que eu fiz". E eu limpo e passados cinco minutos, quando estou de regresso à cama, o gato salta para a cama e vem-me afofar enquanto ronrona alegremente, como quem diz "és tão fixe, obrigado por tomares conta de mim".

13 de abril de 2009

AUTOCARRO(s)

Há sempre qualquer coisa a acontecer num autocarro, ou numa paragem de autocarro. Na semana passada, uma viagem no 727 ficou marcada por uma senhora que tinha, literalmente, tomado banho em perfume - e, ainda por cima, num daqueles perfumes enjoativos e baratos que identificamos com as viúvas ou solteironas idosas - e que decidiu sentar-se ao meu lado durante umas quantas paragens. Hoje, uma paragem da Fontes Pereira de Melo viu duas velhotas incapazes de comunicar com dois turistas que queriam apanhar um autocarro para Alcântara e literalmente recrutarem um adolescente que tinha acabado de chegar à paragem para fazer o favor de tentar perceber o que é que eles queriam, independentemente de saberem se o rapaz falava ou não a língua dos turistas, qualquer que ela fosse. Era puto, andava na escola, tinha obrigação de falar estrangeiro.

12 de abril de 2009

FIM-DE-SEMANA PROLONGADO

Redescobrir os bons álbuns de Janet Jackson, ainda e sempre a melhor e mais consistente mana dos manos todos — Michael, em rigor, morreu ao fim de dois álbuns, Off the Wall (Epic 1979) e Thriller (Epic 1982) e daí para a frente foi só viver à conta do nome; Janet só disparou ao terceiro, Control (A&M 1986), que todos estes anos depois continua a ser um marco da nova música negra - o que os ex-acólitos da então sua majestade púrpura Jimmy Jam & Terry Lewis fizeram com a maninha soa-me hoje completamente visionário e nada longe do experimentalismo geométrico-abstracto das produções que fizeram o nome de Timbaland. E quando ela fazia pop - estou-me a lembrar de "When I Think of You" ou "Escapade" - os meninos que se cuidem.

Continuar a descobrir os tesouros que se escondem na estupenda caixa de raridades e inéditos do divino Lloyd Cole, Cleaning Out the Ashtrays (Tapete 2009) - quatro CDs de maquetas, versões alternativas, covers, lados B e canções perdidas por entre confusões editoriais, com meia-dúzia de pérolas de estarrecer que não se consegue perceber como é que nunca ninguém reparou que isto era espantoso. Exemplos: "Wild Orphan", que foi retirado de Lloyd Cole (Polydor 1990) à última hora para fazer espaço para "No Blue Skies"; "Blame Mary Jane", uma versão notável do "Most of the Time" de Dylan, "4MB" e "Sold", todas atiradas escandalosamente para lados B esquecidos.

A extraordinária entrevista de Nick Cave que foi capa da Mojo de Março - dá vontade de passar a gostar da obra que impõe respeito do homem, mesmo que a música continue a não me dizer nada. 

A saga de D. Crocodila e da Zeeba Neighbah no sítio do costume.

D. Diogo a acordar-me de manhã a cheirar-me o nariz, como quem se prepara para lhe dar uma dentada.

18 de fevereiro de 2009

AS PALAVRAS DO MESTRE

"Let go of the spirit of the departed, and continue your life's celebration" 

— Allen Ginsberg a Patti Smith, citado no soberbo filme-ensaio de Steven Sebring, Dream of Life (estreia a 5 de Março). 
 

DESCONTEXTUALIZAR POR AÍ

"Ilda Figueiredo na marcha da radioactividade" — título do jornal Avante!, visto esta manhã numa banca de jornais

16/02/2009: TXL

São onze da manhã, estou à beira de fazer o check-out do hotel embora só tenha vôo às três da tarde (para Frankfurt e daí para Lisboa às seis da tarde, que a Lufthansa não tem vôos directos Berlim-Lisboa) e dou uma espreitadela no site do aeroporto para confirmar tudo — e lá está: os vôos para Frankfurt estão cancelados. 

Não penso duas vezes e despacho-me a ir para o aeroporto para tentar resolver a questão; eu e mais não sei quantas pessoas que estavam marcadas para o vôo anterior a fazer fila em frente ao balcão da Lufthansa, 45 minutos no meu caso. Dou as boas tardes à funcionária e digo-lhe que tinha lugar num dos vôos cancelados, a senhora solta um suspiro e lança, "pois, estamos aqui desde manhã a resolver isto, é muito frustrante queremos ajudar sem podermos...". Ao que parece, Frankfurt está fechado por causa do mau tempo, e Berlim também esteve a meio gás, afinal tinha estado a nevar non-stop desde a noite de sábado. 

Mas quando lhe digo que vou para Lisboa ela fica mais animadinha, "ah! assim é capaz de ser mais fácil". Numa demonstração de eficiência germânica a toda a prova, daí a dez minutos estou no vôo para Munique, que devia ter saído à uma da tarde mas atrasou uma hora, para apanhar depois a ligação para Lisboa às sete e meia. 

Com tudo isto, só cheguei a Lisboa uma hora mais tarde do que originalmente previsto. 

4 de fevereiro de 2009

PIAZZA ROSSA

Janto em Berlim num restaurante italiano, sentado ao lado de dois espanhóis que encomendam a refeição em inglês ao empregado alemão e falam um com o outro em catalão.

04/02/2009: LH 178 FRA 11h35-TXL 12h40

Nunca vi um vôo doméstico que não estivesse a abarrotar - e este, de Frankfurt para Berlim, estava mesmo em "overbooking" (sabe-se que um avião está em "overbooking" quando cinco minutos antes da hora da partida continua a entrar gente e já não há sítio para arrumar as malas que toda a gente quer trazer consigo). 

Vou na coxia. À minha esquerda, senta-se um espanhol corpulento (mas não em excesso) que dormita enquanto o vôo não descola e, quando partimos, faz o sinal da cruz antes de voltar a adormecer.  

04/02/2009: LH 4537 LIS 06h50-FRA 10h50

A única vantagem de apanhar um vôo tão madrugador é que o check-in, a segurança e o controle se fazem num instante, e temos tempo para nos sentarmos a tomar o pequeno-almoço descansados. Mesmo que ao nosso lado estejam três executivos que têm aquelas conversas de almoço entre executivos e que veja uma excursão turística de orientais que atravessam repetidamente o aeroporto à procura de alguma coisa que esteja aberta.  

1 de fevereiro de 2009

23/01/2009: CO 64 EWR 20h15-LIS 08h10

No vôo para Lisboa, nota-se a subida no número de passageiros portugueses assim que tomo o meu lugar e começo a ouvir as conversas. Uma família americana que mora em Portugal diz a um casal americano que visita o país pela primeira vez que as pessoas são muio simpáticas e amistosas e o país é lindíssimo, mas que os transportes públicos não funcionam e para terem cuidado com os couverts nas mesas dos restaurantes. Um casal de idosos que viaja com a filha e que está sentado na fila atrás de mim fala um com o outro de modo quase monossilábico: "Deixa-me ir para o meio." "Vai lá filha." Uma senhora que passa na coxia com a sua bagagem de cabina à frente diz para o seu colega de viagem enquanto olha para os compartimentos de bagagem sobre os lugares: "Ai, eu acho que a minha mala não cabe numa coisa destas." E, à saída do vôo, à espera que as bagagens saiam, dois homens com ar de bancários ou colegas de trabalho regressados de uma viagem de trabalho resmungam com o modo como as malas caem no carrocel de bagagens em cima das malas de um vôo anterior que ainda não foram levantadas porque os passageiros ainda estão a passar o controle dos Estrangeiros e Fronteiras.

23/01/2009: CO 62 IAH 14h22-EWR 19h00

Nem todos os vôos domésticos americanos fornecem refeição à borla — em alguns casos, há comida mas é paga à parte —, o que explica porque é que vejo tantos passageiros a embarcarem com sacos de papel do McDonald's, do Wendy's, do Starbucks, ou com garrafas de água ou de refrigerantes, ou com copos de café. No entanto, nos vôos que fiz nesta viagem (todos com a Continental), serviram refeição gratuita (mesmo que não muito melhor que o fast food do aeroporto...). O mais curioso foi mesmo observar as consequências dos fusos horários que "desaparecem" quando se viaja da Costa Oeste para a Costa Leste: saio de São Francisco no vôo para Houston das 7h40, servem o pequeno-almoço. Três horas de vôo depois, aterro em Houston às 13h23, para apanhar o vôo que sai para Newark às 14h22, onde servem almoço. Três horas de vôo depois, aterro em Newark às 19h00 para apanhar o vôo que sai para Lisboa às 20h15, onde servem jantar. 

23/01/2009: CO 1444 SFO 07h40-IAH 13h23

A célebre frase "quando mija um português mijam logo dois ou três" não é um exclusivo luso. É ver, nos vôos domésticos americanos, como toda a gente — sobretudo quem está sentado na coxia — se levanta assim que o sinal de "apertar os cintos" se apaga para usar a casa de banho. 

O PASSADO É UM PAÍS DISTANTE

Estou sentado no Starbucks da 18th com a Castro, a organizar notas, pensamentos, ideias, no dia a seguir à inauguração de Barack Obama e a meio das entrevistas que me trouxeram a São Francisco. Esta foi uma viagem "estranha", no sentido em que é a primeira vez que viajo em trabalho para uma cidade que até aqui só conheci enquanto destino de férias. Duas mesas mais à direita, dois homens de meia-idade de camisa aos quadrados, com aparência de camionistas (só faltam os bonés), discutem o vôo da US Airways que aterrou no rio Hudson. Na mesa à esquerda, um jovem que parece ter voltado do ginásio, a julgar pela toalha que espreita de um pequeno saco, afadiga-se a anotar em pequenos cartões palavras que lê num volumoso manual, com o telemóvel aberto junto ao computador. Uma mesa mais à frente, outro jovem trabalha frente a um portátil aberto. Quem não está ao telefone ou ao computador está a conversar ou a ler o jornal; "The world has changed", lê-se na primeira página do San Francisco Chronicle. Senti-o ontem quando vi, às nove da manhã locais, a inauguração em directo na televisão; sentiu-se a importância, o peso, a gravidade do momento. A ideia de que não vai ser fácil, mas que não temos medo e estamos aqui para as curvas. Apesar de todo o mal que se pode dizer dos americanos, há algo de notável neste desejo de reinvenção, nesta vontade de recomeçar do zero e fazer tábua rasa do que ficou para trás. O passado é um país distante, já dizia o Sérgio Godinho. 

ESTA

ESTA significa "Electronic System for Travel Authorization" e são as iniciais do novo sistema de autorização prévia que começou a ser obrigatório para todos os viajantes com destino aos EUA no dia 12 de Janeiro, poucos dias antes de eu viajar para São Francisco. Teoricamente, substitui os velhos formulários verdes, brancos e azuis que se preenchiam ao check-in ou no avião, eram entregues no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras à entrada nos EUA e eram agrafados ao passaporte e, por consequente, acelerar e reduzir todo o "processamento". 

Digo "teoricamente" porque, no avião, a tripulação continuou a distribuir os formulários e, à minha passagem pelo SEF americano em Newark, ficou bem explícito que eles continuavam a ser solicitados, como disse bem alto uma das funcionárias: "Mesmo que tenham obtido a autorização online continua a ser necessário preencher os formulários verdes." Não abordei o assunto com o funcionário que processou os meus formulários, mas o viajante à minha frente abordou, na desportiva, e o funcionário, também na desportiva, explicou que ainda não tinham tido instruções para deixar de aceitar os formulários. Provavelmente porque ainda estávamos nos primeiros dias do novo sistema e era capaz de ser mais seguro garantir um backup no caso do sistema bloquear (o terminal 5 de Heathrow vem-me à cabeça).

20 de janeiro de 2009

OLHA O BELO PASTEL DE NATA

Visto numa padaria chinesa perto da 19th Avenue, um tabuleiro de "Portuguese custard cakes". Tradução: pastel de nata, só que com mais ar de queijada que outra coisa.

14/01/2009: CO 348 EWR 18h10-SFO 21h58

Enquanto espero que o avião saia de Newark, noto que o vôo está cheio a abarrotar e três em cada quatro passageiros não largam esse pequeno símbolo do "always on" da vida moderna que é o Blackberry, ou em alternativa o iPhone (o meu vizinho de fila tem, ao mesmo tempo, o iPod, o iPhone e o computador em cima do tabuleiro). Noto também que há coisas em que os americanos são como os portugueses, nomeadamente na quantidade de sacos e bagagens que transportam consigo no avião em vez de despacharem no porão. A senhora na fila da frente pede ajuda a uma das hospedeiras para arrumar uma mala de viagem que não conseguiu colocar em nenhum dos compartimentos; a hospedeira pergunta-lhe se sabe quanto pesa e a senhora responde "sei sim porque a pesei: nove quilos". O avião acaba por sair com quase uma hora de atraso porque houve um passageiro que - para além de ter sido um dos últimos a embarcar - decidiu desembarcar à última da hora, alegando que se sentia mal. 

CAI NEVE EM NOVA IORQUE

Literalmente. Estão temperaturas negativas em Newark e debaixo do céu que alterna entre azul brilhante de inverno e nublado de cinzento quase escuro, flocos de neve volteiam no ar como pequenas partículas brancas transportadas pelo vento. 

19 de janeiro de 2009

14/01/2009: CO 65 LIS 10h25-EWR 13h45

Viajo na Continental pela primeira vez, com destino ao aeroporto de Newark, onde vou passar os Estrangeiros e Fronteiras e esperar três horas pela ligação a São Francisco. Sobrevoamos o Canadá; o céu está limpo e vê-se lá em baixo o recorte da costa - pelo menos o recorte que o motor do avião permite. A senhora do check-in foi uma querida e marcou lugar na fila de aída sobre as asas; a parte chata é que os assentos não recostam, mas em contrapartida tenho a fila só para mim.

Ao embarque, reparo que um passageiro português pergunta a um comissário de bordo, em português: "desculpe, o vôo vai cheio?" O comissário não lhe liga, quer por estar distraído quer por não perceber que é com ele que estão a falar quer por não falar português. E o senhor, parado na coxia, insiste, até uma hospedeira que também não fala português pedir para continuar a andar para não empatar. 

O vôo leva um pouco mais de tempo que se esperaria, segundo o comandante para evitarmos o mau tempo. Parece que estava a nevar em Nova Iorque quando saímos (à hora) de Lisboa, mas em Lisboa estava a chover a potes. Como de costume, o lusófono de serviço na tripulação fala português com um forte sotaque brasileiro, mas percebe-se que é espanhol (ou pelo menos hispânico). Em contrapartida, o assistente de bordo que serve o almoço é americano de New Jersey, com sotaque Soprano e tudo, mas fala bem português (luso-americano de segunda geração?). Enquanto serve o almoço (lasanha ou galinha Vesúvio), ouço-o a brincar com a colega que o ajuda sobre as idiossincrasias do emprego: o modo como um passageiro responde à pergunta "e o que vai beber?" com a pergunta "o que é que tem?"; o modo como outro passageiro pede uma "sevenep" (presumo que, pelo modo como o pronunciou, seja português). O facto de adorar o seu trabalho e de o adorar ainda mais quando chega a casa. 

10 de janeiro de 2009

720

Na Infante Santo, espero por um de dois autocarros que passam perto de minha casa — o primeiro a chegar é o 720, que esvazia a maior parte dos passageiros que aguardam na paragem. Mas, rapidamente, percebo que o 720 não vai a lado nenhum; o condutor do autocarro levanta-se e chama um jovem negro, de mochila e boné, que entrou num grupo e não apresentou passe nem pagou bilhete. Não percebi se o jovem não pagou bilhete para deixar os restantes passageiros entrar, ou se não fazia tenção de pagar bilhete; em qualquer dos casos, isso tornou-se rapidamente irrelevante, porque o condutor recusou-se a arrancar com o autocarro enquanto o jovem não pagasse bilhete ou saisse, e o jovem começou a "tourear" o condutor. Nem o autocarro arrancava nem o rapaz pagava, houve logo dois ou três passageiros que começaram a resmungar e a mandar vir com o condutor, e eu segui a atitude de outros dois ou três passageiros que voltaram para a paragem e esperaram pelo 738, que vinha mesmo aí atrás. O 720 ainda ficou dois ou três minutos parado e depois lá arrancou — sem o rapaz ter saído. Não sei como é que a história ficou. 

9 de janeiro de 2009

OS PAIS NÃO DEVIAM GOSTAR MESMO NADA DELA

Ouvido na TSF, esta manhã: a arquitecta paisagista Aurora Carapinha. Estou certo que é um encanto de senhora, mas não consigo evitar achar o nome infeliz. 

6 de janeiro de 2009

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Ouvido no Telejornal desta noite: a propósito da recessão e de um miúdo que diz gostar de ter uma PSP (PlayStationPortable), a mãe diz-lhe que "vais ali à PSP de Linda-a-Velha e é se quiseres". Será que o miúdo ficou traumatizado por ver a mãe gozar com ele na televisão?

5 de janeiro de 2009

A MORTE NUNCA EXISTIU

Os meus pais não me levavam aos funerais de familiares. 

O primeiro funeral a que fui foi o do Rui Ferreira, de quem nunca me despedi verdadeiramente. É um dos maiores remorsos que transporto: nunca disse adeus a uma das pessoas que, depois da minha família, significou mais para mim, que me ensinou mais, que mais me aturou birras e inocências e inexperiências. Ao Rui devo muito daquilo que sei e que sou, e nunca lho disse. 

Mas o Rui não era família. 

É diferente quando somos nós que vamos a seguir o caixão à cabeça do cortejo. É como se houvesse um desdobramento; é como se não fôssemos nós que ali vamos, como se estivéssemos ali sem estar. Não sei como definir de outra maneira a estranheza desse distanciamento, de uma ausência que se sente nos ossos mas que não se consegue transmitir, explicar, abarcar. Essa ausência continua a trabalhar aqui dentro, metódica, discreta, constante, inserindo uma nota de vazio no quotidiano que, acabadas as festas, regressa à rotina habitual. 

Foi ela que me lembrou hoje do Rui. É ela que me faz compreender que, para mim, por muito que pensasse nela, a morte nunca existiu verdadeiramente, fisicamente, como uma ausência que não se vai embora, antes de 18 de Novembro de 2008.

(tudo isto a propósito disto; com um abraço para o A.)

2 de janeiro de 2009

LOJA DO CIDADÃO

Na Loja do Cidadão dos Restauradores, passo uma hora à espera que me atendam para renovar um documento que foi inadvertidamente à máquina de lavar. Está uma tarde chuvosa e escura e o recinto está cheio; um senhor protesta alto e bom som no balcão da PT, atendido por duas funcionárias (uma das quais com todo o ar de chefa) e com um segurança a assistir. O mesmo segurança que explica a vários utentes que o Cartão do Cidadão não vai emitir mais senhas hoje, só amanhã, o que é corroborado poucos minutos mais tarde pela voz feminina e incorpórea dos altifalantes que informa que por problemas do sistema informático pelos quais pedem desculpa o balcão não está a funcionar. O que não impede as pessoas de fazerem fila nas informações. 

31 de dezembro de 2008

2008 IMAGENS

1. WALL-E (2008, Andrew Stanton)
2. Australia/AUSTRÁLIA (2008, Baz Luhrmann)
3. Hunger/FOME (2008, Steve McQueen)
4. La Graine et le mulet/O SEGREDO DE UM CUSCUS (2007, Abdellatif Kechiche)
5. GOMORRA (2008, Matteo Garrone)

e, por ordem alfabética,

Les Amours d'Astrée et de Céladon/OS AMORES DE ASTRÉA E CELADON (2006, Eric Rohmer)
BALLAST (2007, Lance Hammer)
The Dark Knight/O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008, Christopher Nolan)
Coeurs/CORAÇÕES (2006, Alain Resnais)
George A. Romero's Diary of the Dead/DIÁRIO DOS MORTOS (2007, George A. Romero)
Auf der anderen Seite/DO OUTRO LADO (2007, Fatih Akin)
Angel/ENCANTO E SEDUÇÃO (2007, François Ozon)
No Country for Old Men/ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS (2007, Joel Coen/Ethan Coen)
LA FRANCE (2007, Serge Bozon)
HAPPY-GO-LUCKY (2007, Mike Leigh)
Charlie Wilson's War/JOGOS DE PODER (2007, Mike Nichols)
MUST READ AFTER MY DEATH (2007, Morgan Dews)
The Mist/NEVOEIRO MISTERIOSO (2007, Frank Darabont)
Once/NO MESMO TOM (2006, John Carney)
In the Valley of Elah/NO VALE DE ELAH (2007, Paul Haggis)
Persepolis/PERSÉPOLIS (2007, Marjane Satrapi/Vincent Paronnaud)
4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile/4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (2007, Cristian Mungiu)
Youth without Youth/UMA SEGUNDA JUVENTUDE (2007, Francis Ford Coppola)
La Soledad/A SOLIDÃO (2007, Jaime Rosales)
SPARROW (2008, Johnnie To)
STANDARD OPERATING PROCEDURE (2008, Errol Morris)
Entre les murs/A TURMA (2008, Laurent Cantet)

2008 SONS

CAMANÉ, Sempre de Mim (Capitol)
COLDPLAY
, Viva la Vida or Death and All His Friends (Parlophone)
Ry COODER, I, Flathead (Nonesuch)
Emmylou HARRIS, All I Intended to Be (Nonesuch)
Aimee MANN, @#%&*! Smilers (Superego)
The MOUNTAIN GOATS, Heretic Pride (4AD)
The NATIONAL, Boxer (Beggars Banquet; é de 2007, mas ouvi-o tanto que conta como se fosse do ano)
Randy NEWMAN, Harps & Angels (Nonesuch)
Thomas NEWMAN, Music from the Motion Picture Wall-E (Walt Disney)
António PINHO VARGAS, Solo (David Ferreira)
Rui REININHO, Companhia das Índias (Sony Music)
Mafalda VEIGA, Chão (Valentim de Carvalho/iPlay)

29 de dezembro de 2008

AS PALAVRAS DO MESTRE

The word "career" always had a very unattractive and burdensome resonance in my heart. My idea mostly was to avoid participating in that activity called "career" — and I've been pretty much able to avoid it.

Leonard Cohen a Sylvie Simmons no número de Dezembro da revista Mojo.

My sentiments, exactly. 

AS PALAVRAS DO MESTRE

O desejo não é difícil. Satisfazê-lo é que é duro.
Abdellatif Kechiche, realizador de O Segredo de um Cuscus, a Steven Erlanger do New York Times

28 de dezembro de 2008

foto de Véronique Rolland, para as sessões do álbum Stumble into Grace

Os últimos quatro álbuns de originais de Emmylou Harris são quatro pérolas que ainda não deixaram de revelar os seus segredos e me parece que o vão continuar a fazer por muito tempo. Quem ainda tem presente a Emmylou mais abertamente country dos seus discos clássicos dos anos 1970 e 1980 vai levar um choque de todo o tamanho com a modernidade de Wrecking Ball (Asylum/Elektra, 1995), Red Dirt Girl (Nonesuch, 2000), Stumble into Grace (Nonesuch, 2003) e All I Intended to Be (Nonesuch, 2008). Daniel Lanois produziu o primeiro, o seu cúmplice Malcolm Burn os dois seguintes, e o último marcou o reencontro de Emmylou com Brian Ahern, o produtor que assinou todos os seus discos entre 1975 e 1984. Mas quem os ouvir perceberá que são todos provenientes de uma única mente: Emmylou ela própria, inteira, honesta, sem ter que provar nada, a fazer a única música que sabe fazer. A música de uma América telúrica e emocional, melhor do que a maior parte de nós acha que ela é.

São discos aos quais dou por mim a voltar repetidamente. E que, este Natal, voltaram a reabrir-se para revelar muito mais; são discos que crescem com quem os ouve e mostram apenas aquilo que estamos preparados para ouvir de cada vez que os pomos a rodar. Este domingo, trouxeram-me conforto; dorido, emocional, cansado, mas conforto.

26 de dezembro de 2008

SEMÂNTICA

O cartaz do Bloco de Esquerda diz: "O governo protege os banqueiros. E quem protege as pessoas?" Que é como quem diz que os banqueiros não são pessoas; são outra coisa. 

25 de dezembro de 2008

TRADIÇÕES

Duas semanas antes, geralmente na última semana de aulas antes das férias do Natal, depois de almoço, íamos buscar os enfeites e o presépio à despensa, onde estavam guardados em caixas velhas. A árvore, até certa altura, era um pinheirinho de Natal comprado nem eu sei bem onde; depois, passou a ser uma construção plástica made-in-China, que era colocada em cima do "banco da cozinha" — um banquinho pequenino de madeira escura, sólida e resistente, como se fosse um banquinho de menino — revestido de papel verde. 

Os enfeites da árvore e do presépio eram muitas vezes de plástico tosco, comprados em barateiros ou parte de conjuntos com defeito; as figurinhas do presépio vinham das viagens que os meus pais faziam em autocarros para ver jogos do Benfica. Bocadinhos de algodão a fingir de neve, luzes coloridas que acendiam e apagavam intermitentemente. Depois, o presépio, montado sobre papel de embrulho ou papel de lustro verde, com uma estrela improvisada forrada a prata de chocolate presa com fita-cola por cima da cabana; um espelho a fingir de lago onde patinhos de plástico escorregavam; pescadores e varinas e moleiros e pastores dos quatro cantos de Portugal. 

O cheiro da resina do pinheiro nos primeiros dias, que se ia perdendo com o tempo; as luzes acesas na véspera de Natal, que a minha mãe passava na cozinha, a fazer os biscoitos, a bolema, os sonhos. E, mais para a noite, o bacalhau cozido e a carne de porco frita. 

A árvore ficava sempre montada durante os primeiros dez dias do Ano Novo, até passar o dia de Reis e o aniversário do meu irmão, para o qual a minha mãe fazia arroz doce polvilhado com canela que depois colocava em pires brancos com um bonito desenho de flores silvestres; havia sempre alguns pires onde a minha mãe não punha canela, mas não sei para qual dos meus irmãos era.

Deixei de gostar do Natal já há muitos anos.

23 de dezembro de 2008

PARABÉNS A VOCÊ

Reparei hoje que este blog cumpriu, fez pouco mais de uma semana, cinco anos de existência, e eu, preso nos prazos e fechos antecipados do meu day job, não marquei condignamente a ocasião. O que há de engraçado nisto tudo é ver as voltas que o (meu) mundo e a (minha) vida deram nos últimos cinco anos. E perceber como, como já dizia o Bryan Ferry há quase 25 anos,
though your world is changing, I will stay the same
O que não é inteiramente verdade, porque, mesmo sendo o mesmo de há cinco anos, não sou o mesmo de há cinco anos. 

Obrigado por continuarem desse lado. Por aqui, não faço tenção de parar (mesmo que de vez em quando abrande). A todos um bom Natal. 

REIZINHO REININHO

Estou rendido. Companhia das Índias é um grande, grande, grande disco pop. "Dr. Optimista", "Triste S (1857)", "Turbina e Moça" e "Laika Virgem" (soberba melodia de Alexandre Soares) são GNR puro da colheita 1980, mesmo que escritas hoje. E "Morremos a Rir" é uma filha da p*** de uma canção pop que não me sai do ouvido (daquelas que o Steed diz que deviam ser programadas no chip). Vejam só a letra Reininho vintage:

À partida
num quarto escuro sem roupa dorme a miss Velha Europa
acorda na Grande Migalha da China
sonhava ter descoberto a América ao sair da tropa
a escrava africana soprava as velas à pequenina

Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumenos romenas ciganas mas mais indianas
florbelas cancelas abertas sem condomínio

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir

Alguém sabe onde é o Quinto Império
alguém sabe onde mora o terceiro mundo

Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumenos romenas ciganas mas mais indianas
florbelas cancelas abertas sem condomínio

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
vamos adorar o TGV chegar
vamos aterrar sem sair do hangar

Fomos todos parir se o esperma permitir
morremos a rir

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá voar sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir

E com isto tudo o "Bem Bom" é que é o single?

20 de dezembro de 2008

COISAS INDIZÍVEIS

É impressão minha ou aquele anúncio do barquinho com a canção do musical Annie e com a Bárbara Guimarães a não se perceber muito bem o que está lá a fazer é uma coisa indizível?

18 de dezembro de 2008

PALAVRAS SÁBIAS

I sometimes got the feeling that she went to everything all the time as a way of staying one step ahead of her melancholy.
- Darryl Pinckney sobre Susan Sontag na New Yorker de 15 de Dezembro.

17 de dezembro de 2008

SUBSCRIÇÃO PÚBLICA

Era só para subscrever o que o Pedro diz aqui. Não necessariamente pelas mesmas razões que ele, mas vai tudo dar ao mesmo. 

PARA AS SOGRAS QUE ENCONTREI NA VIDA

É uma carta ao editor publicada na última edição da Economist:

SIR - Lexington stated that Mr Obama faces "a mother-in-law of a recession". This is not a wholly accurate description. Unlike mother-in-laws, recessions rarely arrive unexpectedly on one's doorstep. Nor do they exhibit behavioural patterns that defy normal rational explanation. And although both share a capacity to inflict misery and despair on the innocent, the scars from a recession will eventually heal.
Finbar O'Keeffe
Studio City, California

O DIA DOS CHATOS

Na projecção de imprensa, de manhã, dois presentes na fila da frente que não costumam aparecer começam a falar a meio do filme e mando-os calar com um sonoro "shhhh!". Riem-se enquanto olham para trás. Quando o genérico final acaba, levantam-se e começam a conversar em frente ao projector, tapando o écrã. "Saiam da frente!", lanço-lhes.

No café, à hora de almoço, a empregada que está à caixa passa metade do tempo a pedir ajuda às colegas para registar os pedidos, corrigi-los, fazer o troco e quando lhe peço um "ice tea" de limão ela diz-me "é uma água?".

No posto dos correios, ao princípio da tarde, seis dos sete balcões estão a funcionar mas os funcionários parecem não conseguir dar vazão: durante os 45 minutos que aguardo pacientemente a minha vez, dois dos balcões continuam com os mesmos clientes, um dos quais com uma cliente com centenas de envelopes para franquear e com a empregada a tentar explicar-lhe, sem sucesso, como é que se fecha o telemóvel depois de meter o cartão, forçando-a a pedir ajuda a uma colega. Um senhor idoso que quer pôr uma carta em correio azul obriga a funcionária a repetir-lhe tudo duas vezes por não conseguir perceber; uma senhora que foi apenas pagar contas tira muito devagarinho as facturas da mala e os envelopes separados para pagar cada uma delas; uma outra fica dez minutos a escolher quais os cartões de Natal que quer comprar para enviar. Não sei se sou eu que tenho pontaria para os dias em que vou ao correio ou se é uma conjugação de circunstâncias, mas lá que hoje tudo conspirou para me irritar...

16 de dezembro de 2008

COISAS QUE SE OUVEM NA RÁDIO DE MANHÃ

O despertador dispara com a TSF, como habitualmente, e começo por ouvir que Mário Soares escreve no Diário de Notícias que se está a instalar um "clima explosivo" em Portugal; diz, cito, que 
Para se perceber que há um clima de desconfiança e de revolta (...) basta ouvir as pessoas nas ruas, nos transportes públicos ou nas empresas que ameaçam falir.
O que me fez confusão nisto era eu não saber que Mário Soares andava de transportes públicos.

12 de dezembro de 2008

VIVA LA VIDA

Gosto dos Coldplay — sempre gostei, não é de agora. Brian Eno fez-lhes bem, acho eu. E estas canções sabem-me tão bem nestes dias frios e face ao turbilhão de emoções dos últimos meses. 



Coldplay, "Viva la Vida" (in Viva la Vida or Death and All His Friends, Parlophone/EMI, 2008)
Realização: Hype Williams



Coldplay, "Lovers in Japan" (in Viva la Vida or Death and All His Friends, Parlophone/EMI, 2008)
Realização: Mat Whitecross

11 de dezembro de 2008

O CARTEIRO TOCA SEMPRE TRÊS VEZES

Da primeira vez, há bastante tempo, embarquei na história bem contada da senhora a quem a vida estava a correr mal e que precisava de uma ajuda. Da segunda, pareceu-me reconhecer aquela cara e aquela voz, e tive a certeza quando a história que a senhora estava a contar estava a ser contada exactamente da mesma maneira que da primeira vez. Da terceira vez, ontem de manhã, apenas reparei que a mesma senhora estava bastante bem vestida e arranjada e já nem a deixei começar a contar a história da desgraçadinha com que me enganou da primeira vez. Tocar à mesma porta duas vezes pode acontecer. Tocar à mesma porta três vezes já me parece desleixo. 

10 de dezembro de 2008

HUMOR INGLÊS DO NORTE

Um maravilhoso exemplo de humor inglês a propósito de si próprio: 

STOICISM is something the British are world-famous for. They carry on; they make do; they seldom complain, but form an orderly line to take whatever Fate may throw at them. At very bad moments—the Blitz, for example—they laugh and tell jokes against the enemy. Modern Britons are by and large a feebler and non-queuing race, as hedonistic, wasteful and complaining as anyone else; but the stereotype persists, and a moment of crisis is sure to bring it out again. For the British are subject to two utterly random forces that regularly test their stoicism and their patience: the weather and the buses.

The weather and the buses are known to be in league with each other. The worse the one, the fewer of the other, and the more dismal life in general.

15 MINUTOS DE FAMA

O restaurante ao pé de minha casa onde por vezes almoço estava hoje mais vazio do que é habitual e sem razão aparente (acabou por encher mas mais tarde, quando eu já me estava a vir embora). Talvez por só lá estar eu e as empregadas tenha sido tão curioso vê-las a correrem entre a porta e o balcão, para irem buscar papel, uma caneta, um telemóvel para tirar uma fotografia. Motivo? A presença do outro lado da rua do cantor Mickael Carreira. Diz a gerente a uma das empregadas toda contente por ele lhe ter dado um beijinho: "hoje nem lavas a cara". Diz o cozinheiro que veio cá fora ver o que se passava: "Olha o carro dele, é um BMW 318, sim senhor". Diz um dos empregados: "Vais pedir-lhe um autógrafo? Aos bombeiros e aos polícias é que devias pedir autógrafos, eles é que são os heróis."

9 de dezembro de 2008

CTT

Estou na estação de correios das Picoas, à espera da minha vez de ser atendido, quando ouço a voz de característica alfacinha, como quem apregoa limões na rua, de uma das funcionárias a explicar a um cliente (não sei de que sexo): "Isto não é assim que se faz. Estou eu para aqui a explicar como é que se faz e nem sequer está a prestar atenção".

8 de dezembro de 2008

727

A senhora entra no 727 na paragem quase à esquina da Braancamp com a Alexandre Herculano. É uma senhora obesa, que tem de se agarrar ao corrimão da porta para subir para o autocarro, com sacos na mão. O autocarro está relativamente vazio e há bastantes lugares, inclusive de acesso mais fácil, mas percebo logo que a senhora se quer sentar no lugar da frente do lado direito, por cima da roda, onde vou sentado. A senhora deixa-se ficar ali ao pé, agarrada ao varão, e começa a falar sozinha, que gostava mais de se sentar naquele lugar, dá-lhe mais jeito por causa dos sacos, mas não faz mal, vai de pé. Aproxima-se a paragem do Rato, onde vou sair, e quando me levanto a senhora faz o jogo todo, "não se levante por minha causa, deixe-se estar". Respondo-lhe: "Vou sair na próxima paragem, mas se a senhora não se quisesse sentar neste lugar não estava para aí a falar." 

IT'S HAPPY HOUR AGAIN

Alguém sabe explicar porque é que a música de fundo no Corte Inglés esta manhã (que, ainda assim, faz uma refrescante variação das habituais músicas natalícias) era o "best of" dos Housemartins? (E não, eu não andei ao consumismo natalício. Foi mesmo trabalho.)

7 de dezembro de 2008

AS MADALENAS DE PROUST

De repente, sem aviso prévio, há um pequeno momento do quotidiano que ressurge e me recorda daquilo que ficou irremediavelmente perdido para trás no tempo. Como o puré de feijão branco que fiz esta noite para o jantar e cuja primeira colher me recordou inevitavelmente do puré de feijão encarnado com esparguete que era uma sopa clássica de Inverno lá em casa. A par dos escalopes de peru com cogumelos e molho de natas, do caldo de carne com grão e dos panados de peru como nunca comi em nenhum restaurante. Gostos que passaram a ser madalenas de Proust, perdidas nos arquivos da memória até algo surgir para os reacordar. 

DRIBLE

Estava o televisor a dar o Marítimo-Benfica e de repente vejo o meu gato Diogo, que um minuto antes estava sossegadinho sentado em frente ao aquecedor, a tentar agarrar a bola no écrã.