Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
16 de maio de 2009
BABEL
Ouve-se muita língua diferente nas ruas de Amesterdão; é a capital mais turística que conheço, o que é surpreendente para uma cidade de apenas 750 mil habitantes. Em qualquer altura do fim-de-semana que lá passo, mais de metade das pessoas por quem passo são turistas (identificáveis não apenas pelas máquinas fotográficas, pelas mochilas ou pelos mapas nas mãos, mas também por viajarem em grupos, por terem sacos de lojas de souvenirs ou simplesmente por falarem línguas mais reconhecíveis que o holandês). Uns quantos ingleses, muitos franceses — perto de Oude Zijde Voorburgwal, uma francesa de bicicleta delira ao telemóvel: "Amsterdam, c'est génial, j'ai dormi deux heures mais bon...". Uns quantos espanhóis e, surpreendentemente, alguns argentinos, alemães, até portugueses (ouvir a palavra "merda" numa das pontes dos canais é, ao mesmo tempo, surpreendente e hilariante). E o caos absoluto nas ruas principais, com a combinação de trânsito automóvel, eléctricos e bicicletas a desorientarem ainda mais gente que não vem de sítios onde a bicicleta é um banal transporte quotidiano.
14 de maio de 2009
MOLENPOORT PASSAGE
Antes de apanhar o comboio para Amesterdão, o John leva-me a conhecer o centro histórico de Nijmegen, confirmando o que eu suspeitava sobre o modo civilizado como os holandeses souberam manter a sua identidade histórica sem abdicarem dos confortos modernos. A par de igrejas antigas impecavelmente restauradas e de parques públicos onde se desmontam as tendas montadas para as celebrações do Dia da Rainha, há edifícios de uma modernidade extraordinária como a Biblioteca Pública (completamente informatizada e onde os membros podem levantar e devolver livros sem precisarem de falar com um assistente), as espantosas arcadas de Marikenstraat onde nos perdemos a passear na livraria Selexyz Dekker van de Vegt (onde compro a Mojo de Junho com Nick Drake na capa e um CD de raridades da Island que o empregado me diz "parecer uma excelente edição"), ou o Lux, um moderníssimo multiplex de oito salas dedicado exclusivamente ao cinema de autor (e que foi inaugurado por... Catherine Deneuve). E tudo isto atravessado por pistas para ciclistas que estão por vezes mais cheias que as próprias estradas — para já não falar dos parques de estacionamento para bicicletas que existem por todo o lado.
13 de maio de 2009
PORTUGAL NO SEU MELHOR
Gostei muito de ler no Público de hoje que os políticos portugueses não estão genuinamente interessados na política mas sim apenas no tacho e que os utilizadores do Magalhães correm o risco de ficar míopes.
YAMAHA DIVERSION 900
O meu amigo John leva-me numa volta de motocicleta pelos arredores de Nijmegen. Dá-lhe jeito: é dia da mulher a dias vir limpar a casa. Fazemos qualquer coisa como 40, talvez 50 km à volta da cidade, atravessando a combinação de canais, comportas e pradaria que rodeia a cidade, passando por dentro ou ao lado de uma série de pequenas aldeias como Lent, Bemmel ou Doorneburg, onde paramos no castelo medieval para tomar um café.
Problema: são 10h40 da manhã e o café do castelo ainda não abriu (só abre às 11h00), mas o dono é um porreiro que até nos utiliza como "cobaias" da nova máquina que acaba de ser instalada. Infelizmente, é bem evidente que ainda ninguém sabe mexer bem na máquina e o café não é grande coisa. Enquanto tomamos um café no pátio do hotel, um enorme cão branco não larga o John e sempre que ele o manda embora o cão apenas se instala mais aos seus pés. De Doorneburg seguimos para mais alguns arredores, atravessamos um dos canais próximos numa das plataformas móveis (que estão a cair em desuso) que fazem a ligação entre margens, atravessamos a fronteira para ir ao supermercado a Kleve, na Alemanha, onde alguns bens essenciais são mais baratos que na Holanda.
À noite, vamos tomar café a casa da irmã do John, que fica a cinco minutos fora de Nijmegen, no meio da Natureza: é uma construção moderna, de uma sobriedade escandinava, que ela mandou construir há dez anos num terreno anteriormente ocupado por um pequeno bungalow rústico de férias. O escritório tem uma varanda panorâmica com uma vista deslumbrante sobre os arredores rurais de Nijmegen — e aqui é mesmo verde, bosque, floresta a perder de vista. Qualidade de vida, digo-vos.
À noite, vamos tomar café a casa da irmã do John, que fica a cinco minutos fora de Nijmegen, no meio da Natureza: é uma construção moderna, de uma sobriedade escandinava, que ela mandou construir há dez anos num terreno anteriormente ocupado por um pequeno bungalow rústico de férias. O escritório tem uma varanda panorâmica com uma vista deslumbrante sobre os arredores rurais de Nijmegen — e aqui é mesmo verde, bosque, floresta a perder de vista. Qualidade de vida, digo-vos.
DE GOFFERT
Qualidade de vida é isto: morar no centro urbano de uma cidade de classe média-alta de 170 mil habitantes como se morássemos na província, com um jardim por trás da casa a dar para o que parece ser (mas não é) um bosque. E grande parte de Nijmegen é assim, composto por vivendas mais ou menos modernas ou mais ou menos antigas, com grandes janelas panorâmicas deixadas aberta que permitem ver todo o interior da sala, com os nomes dos residentes afixados às portas em placas.
12 de maio de 2009
VERTREK: INTERCITY NIJMEGEN
Às 11h30 da manhã, embarco, na plataforma 3 da estação de comboio do aeroporto de Schiphol, no intercidades para Nijmegen. Não faço ideia de onde vem (talvez Den Halder?) mas sei que passa em Schiphol todos os 30 minutos e que não passa pelo centro de Amesterdão (mas passa pelo estádio do Ajax em Amsterdam Bijlmer).
A viagem para Nijmegen leva 90 minutos por uma paisagem verde e plana pontuada por canais e ribeiros e riachos e cavalos e vacas e ovelhas e estradas e cidades. Nesses 90 minutos que me levam à cidade mais antiga da Holanda (a poucos quilómetros da fronteira com a Alemanha), atravesso Utrecht, Driebergen-Zeist, Ede-Wageningen e Arnhem; a carruagem tem dois níveis e as cadeiras são confortáveis, há quem durma ou quem almoce uma sanduíche ou um bolo. De Amesterdão a Utrecht são 30 minutos e começo a perceber o que me tinham dito quanto ao comboio ser a maneira mais prática de viajar nos Países Baixos.
06/05/2009: KL 1692 LIS 07h10-AMS 11h00
O embarque no avião – que vai completamente cheio – é lento: supostamente começa às 06h30, mas na realidade a coisa parece decorrer a passo de caracol, e às 07h10, supostamente hora de partida, ainda há gente a entrar. Mas o avião acaba por sair apenas com dez minutos de atraso, e como há uma senhora com um pé partido na saída de emergência, a hospedeira do ar diz-lhe que não pode ficar ali sentada e pergunta-me se não me importo de trocar com a senhora (que não ficou especialmente agradada e fez questão de só trocar para uma coxia).
Ao meu lado, um jovem casal holandês lê violentamente durante as quase três horas de vôo. Ele não faço ideia do que está a ler. Ela está a ler “Het Bernini Mysterie” — que o mesmo é dizer, “Anjos e Demónios” em tradução holandesa.
4 de maio de 2009
FELIS PERDIDUS
Anúncio de gato perdido colado numa esquina da avenida Duque de Ávila:
"Felídeo. Encontrou-se. Entrega-se a quem provar pertencer-lhe".
(não tenho certeza que as outras frases estejam cem por cento correctas, mas estou certíssimo que "Felídeo" estava lá, em garrafais de máquina de escrever simulada em computador.)
"Felídeo. Encontrou-se. Entrega-se a quem provar pertencer-lhe".
(não tenho certeza que as outras frases estejam cem por cento correctas, mas estou certíssimo que "Felídeo" estava lá, em garrafais de máquina de escrever simulada em computador.)
29 de abril de 2009
CONSULTÓRIO, BOA TARDE
Os consultórios dos médicos têm sempre as televisões ligadas nos programas da manhã e da tarde (geralmente aos altos berros) e revistas de sociedade e suplementos dos semanários de fim-de-semana antigas nas mesas para os pacientes se entreterem de modo enjoado.
As recepcionistas, descobri agora, também têm o computador aberto no Hi5, pelo menos até o médico chegar, altura em que passam a ter o site do Público.
As recepcionistas, descobri agora, também têm o computador aberto no Hi5, pelo menos até o médico chegar, altura em que passam a ter o site do Público.
28 de abril de 2009
GRIPE POLITICAMENTE CORRECTA
Há quem prefira chamar à "gripe suína" "gripe mexicana" porque o judaísmo e o islamismo consideram o porco uma carne impura.
25 de abril de 2009
25 DE ABRIL SEMPRE
...mas não há cafés abertos para ir tomar o pequeno-almoço.
Num dos poucos, um senhor e três senhoras dos seus 50 e muitos anos celebram o 25 de Abril contando episódios caricatos de resistência à ditadura e histórias do tempo da outra senhora, mas fazem-no num tom de voz que obriga quem esteja num raio de dez metros a ouvir. Três cadeiras mais ao lado, um homem passa a vida a olhar para um telemóvel que apita a cada dois minutos com avisos de mensagem que até a vinte metros se devem ouvir.
22 de abril de 2009
PARE, ESCUTE E OLHE
Não percebi exactamente o que aconteceu; só ouvi um estrondo e vi um corpo a cair e a levantar-se logo a seguir, coxeando de uma perna, descalço de um pé. O carro parou uns metros à frente, algumas pessoas juntaram-se com os telemóveis na mão logo ao pé do rapaz, que continuava a andar para cima e para baixo, coxeando, mochila às costas, um pé descalço. Não percebi se o rapaz tinha escorregado ou tentado atravessar com o sinal fechado para os peões. Tudo à distância, do outro lado da rua. O que ficou foi o estrondo e um fotograma que não sou capaz de decifrar.
As sinceras melhoras.
As sinceras melhoras.
21 de abril de 2009
POLÍTICA
Leio muito sobre a "polarização" da vida política americana, cada vez mais partidarizada entre Democratas e Republicanos. Olho para Portugal e tenho a vaga sensação que essa "polarização" está cada vez mais instalada por cá, só que não entre Democratas e Republicanos mas sim entre governo e oposição. A questão é que "governo" e "oposição" são muito mais intermutáveis do que "Democratas" e "Republicanos".
20 de abril de 2009
RENHAU
Descoberta dos últimos dias: um gato consegue espreguiçar-se em todo o tipo de superfícies, desde sofás a secretárias passando por varandas, marquises e alguidares.
17 de abril de 2009
SORRISO PEPSODENT
Isto é um bocado estranho, eu sei, mas não só não tenho grandes problemas em ir ao dentista como, quando faço a limpeza regular, gosto imenso de bochechar com aqueles elixires de cores de rebuçado que sabem sempre a menta fresca, de sentir a escovagem vigorosa com a pasta ou com o desinfectante - e hoje, o meu dentista nem resistiu a mostrar-me a plaquinha de tártaro que saiu inteirinha do intervalo entre dois dentes, nem a pedir-me para agarrar no espelho enquanto me explicava porque é que ela tinha saído assim em vez de cair aos bocadinhos. O que não tem tanta graça mas é óptimo para descontrair e, sobretudo, desmistificar o processo.
16 de abril de 2009
POLAROID: MAIS PERTO DO QUE É IMPORTANTE
Entro no Ben & Jerry's do Chiado para algum reforço positivo (mint chocolate chunk, mmmmm) e enquanto estou a ser atendido, entra um dos mendigos que costumam estar nas igrejas do Chiado, com um telemóvel e um carregador na mão. Diz, num português arrevesado, que não quer pedir esmola, quer apenas carregar o telemóvel, e a empregada indica-lhe que pode carregá-lo numa tomada que fica numa das paredes junto às mesas. Quando ele liga o carregador, começa a dirigir-se para a porta, e a empregada pergunta-lhe, "mas vai ficar ao pé do carregador ou não?" e ele lá explica, no seu português arrevesado, que não; que vai voltar para a igreja e deixar ali o telemóvel. A empregada diz-lhe que nem pensar, que não se responsabiliza pelo que possa acontecer ao telemóvel, e dá-lhe a escolher: ou fica ali enquanto o telemóvel está a carregar, ou se vai embora e leva o telemóvel. O mendigo prefere levar o telemóvel.
por outras palavras:
é a cultura,
polaroid,
telemóvel
15 de abril de 2009
PEQUENAS ALEGRIAS FELINAS
Acordar às cinco e meia da manhã já de si não é bom. Acordar às cinco e meia da manhã com um gato a expectorar bolas de pêlo piora um bocado as coisas — não porque as bolas de pêlo expectoradas sejam assim a modos que do tamanho de um capachinho, mas porque implica ir buscar o balde e a esfregona para limpar o chão enquanto o gato fica parado em frente às ditas cujas e olha para mim com o seu melhor ar "Vá, faz o que te compete e limpa a porcaria que eu fiz". E eu limpo e passados cinco minutos, quando estou de regresso à cama, o gato salta para a cama e vem-me afofar enquanto ronrona alegremente, como quem diz "és tão fixe, obrigado por tomares conta de mim".
14 de abril de 2009
13 de abril de 2009
AUTOCARRO(s)
Há sempre qualquer coisa a acontecer num autocarro, ou numa paragem de autocarro. Na semana passada, uma viagem no 727 ficou marcada por uma senhora que tinha, literalmente, tomado banho em perfume - e, ainda por cima, num daqueles perfumes enjoativos e baratos que identificamos com as viúvas ou solteironas idosas - e que decidiu sentar-se ao meu lado durante umas quantas paragens. Hoje, uma paragem da Fontes Pereira de Melo viu duas velhotas incapazes de comunicar com dois turistas que queriam apanhar um autocarro para Alcântara e literalmente recrutarem um adolescente que tinha acabado de chegar à paragem para fazer o favor de tentar perceber o que é que eles queriam, independentemente de saberem se o rapaz falava ou não a língua dos turistas, qualquer que ela fosse. Era puto, andava na escola, tinha obrigação de falar estrangeiro.
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