Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
13 de maio de 2009
PORTUGAL NO SEU MELHOR
Gostei muito de ler no Público de hoje que os políticos portugueses não estão genuinamente interessados na política mas sim apenas no tacho e que os utilizadores do Magalhães correm o risco de ficar míopes.
YAMAHA DIVERSION 900
O meu amigo John leva-me numa volta de motocicleta pelos arredores de Nijmegen. Dá-lhe jeito: é dia da mulher a dias vir limpar a casa. Fazemos qualquer coisa como 40, talvez 50 km à volta da cidade, atravessando a combinação de canais, comportas e pradaria que rodeia a cidade, passando por dentro ou ao lado de uma série de pequenas aldeias como Lent, Bemmel ou Doorneburg, onde paramos no castelo medieval para tomar um café.
Problema: são 10h40 da manhã e o café do castelo ainda não abriu (só abre às 11h00), mas o dono é um porreiro que até nos utiliza como "cobaias" da nova máquina que acaba de ser instalada. Infelizmente, é bem evidente que ainda ninguém sabe mexer bem na máquina e o café não é grande coisa. Enquanto tomamos um café no pátio do hotel, um enorme cão branco não larga o John e sempre que ele o manda embora o cão apenas se instala mais aos seus pés. De Doorneburg seguimos para mais alguns arredores, atravessamos um dos canais próximos numa das plataformas móveis (que estão a cair em desuso) que fazem a ligação entre margens, atravessamos a fronteira para ir ao supermercado a Kleve, na Alemanha, onde alguns bens essenciais são mais baratos que na Holanda.
À noite, vamos tomar café a casa da irmã do John, que fica a cinco minutos fora de Nijmegen, no meio da Natureza: é uma construção moderna, de uma sobriedade escandinava, que ela mandou construir há dez anos num terreno anteriormente ocupado por um pequeno bungalow rústico de férias. O escritório tem uma varanda panorâmica com uma vista deslumbrante sobre os arredores rurais de Nijmegen — e aqui é mesmo verde, bosque, floresta a perder de vista. Qualidade de vida, digo-vos.
À noite, vamos tomar café a casa da irmã do John, que fica a cinco minutos fora de Nijmegen, no meio da Natureza: é uma construção moderna, de uma sobriedade escandinava, que ela mandou construir há dez anos num terreno anteriormente ocupado por um pequeno bungalow rústico de férias. O escritório tem uma varanda panorâmica com uma vista deslumbrante sobre os arredores rurais de Nijmegen — e aqui é mesmo verde, bosque, floresta a perder de vista. Qualidade de vida, digo-vos.
DE GOFFERT
Qualidade de vida é isto: morar no centro urbano de uma cidade de classe média-alta de 170 mil habitantes como se morássemos na província, com um jardim por trás da casa a dar para o que parece ser (mas não é) um bosque. E grande parte de Nijmegen é assim, composto por vivendas mais ou menos modernas ou mais ou menos antigas, com grandes janelas panorâmicas deixadas aberta que permitem ver todo o interior da sala, com os nomes dos residentes afixados às portas em placas.
12 de maio de 2009
VERTREK: INTERCITY NIJMEGEN
Às 11h30 da manhã, embarco, na plataforma 3 da estação de comboio do aeroporto de Schiphol, no intercidades para Nijmegen. Não faço ideia de onde vem (talvez Den Halder?) mas sei que passa em Schiphol todos os 30 minutos e que não passa pelo centro de Amesterdão (mas passa pelo estádio do Ajax em Amsterdam Bijlmer).
A viagem para Nijmegen leva 90 minutos por uma paisagem verde e plana pontuada por canais e ribeiros e riachos e cavalos e vacas e ovelhas e estradas e cidades. Nesses 90 minutos que me levam à cidade mais antiga da Holanda (a poucos quilómetros da fronteira com a Alemanha), atravesso Utrecht, Driebergen-Zeist, Ede-Wageningen e Arnhem; a carruagem tem dois níveis e as cadeiras são confortáveis, há quem durma ou quem almoce uma sanduíche ou um bolo. De Amesterdão a Utrecht são 30 minutos e começo a perceber o que me tinham dito quanto ao comboio ser a maneira mais prática de viajar nos Países Baixos.
06/05/2009: KL 1692 LIS 07h10-AMS 11h00
O embarque no avião – que vai completamente cheio – é lento: supostamente começa às 06h30, mas na realidade a coisa parece decorrer a passo de caracol, e às 07h10, supostamente hora de partida, ainda há gente a entrar. Mas o avião acaba por sair apenas com dez minutos de atraso, e como há uma senhora com um pé partido na saída de emergência, a hospedeira do ar diz-lhe que não pode ficar ali sentada e pergunta-me se não me importo de trocar com a senhora (que não ficou especialmente agradada e fez questão de só trocar para uma coxia).
Ao meu lado, um jovem casal holandês lê violentamente durante as quase três horas de vôo. Ele não faço ideia do que está a ler. Ela está a ler “Het Bernini Mysterie” — que o mesmo é dizer, “Anjos e Demónios” em tradução holandesa.
4 de maio de 2009
FELIS PERDIDUS
Anúncio de gato perdido colado numa esquina da avenida Duque de Ávila:
"Felídeo. Encontrou-se. Entrega-se a quem provar pertencer-lhe".
(não tenho certeza que as outras frases estejam cem por cento correctas, mas estou certíssimo que "Felídeo" estava lá, em garrafais de máquina de escrever simulada em computador.)
"Felídeo. Encontrou-se. Entrega-se a quem provar pertencer-lhe".
(não tenho certeza que as outras frases estejam cem por cento correctas, mas estou certíssimo que "Felídeo" estava lá, em garrafais de máquina de escrever simulada em computador.)
29 de abril de 2009
CONSULTÓRIO, BOA TARDE
Os consultórios dos médicos têm sempre as televisões ligadas nos programas da manhã e da tarde (geralmente aos altos berros) e revistas de sociedade e suplementos dos semanários de fim-de-semana antigas nas mesas para os pacientes se entreterem de modo enjoado.
As recepcionistas, descobri agora, também têm o computador aberto no Hi5, pelo menos até o médico chegar, altura em que passam a ter o site do Público.
As recepcionistas, descobri agora, também têm o computador aberto no Hi5, pelo menos até o médico chegar, altura em que passam a ter o site do Público.
28 de abril de 2009
GRIPE POLITICAMENTE CORRECTA
Há quem prefira chamar à "gripe suína" "gripe mexicana" porque o judaísmo e o islamismo consideram o porco uma carne impura.
25 de abril de 2009
25 DE ABRIL SEMPRE
...mas não há cafés abertos para ir tomar o pequeno-almoço.
Num dos poucos, um senhor e três senhoras dos seus 50 e muitos anos celebram o 25 de Abril contando episódios caricatos de resistência à ditadura e histórias do tempo da outra senhora, mas fazem-no num tom de voz que obriga quem esteja num raio de dez metros a ouvir. Três cadeiras mais ao lado, um homem passa a vida a olhar para um telemóvel que apita a cada dois minutos com avisos de mensagem que até a vinte metros se devem ouvir.
22 de abril de 2009
PARE, ESCUTE E OLHE
Não percebi exactamente o que aconteceu; só ouvi um estrondo e vi um corpo a cair e a levantar-se logo a seguir, coxeando de uma perna, descalço de um pé. O carro parou uns metros à frente, algumas pessoas juntaram-se com os telemóveis na mão logo ao pé do rapaz, que continuava a andar para cima e para baixo, coxeando, mochila às costas, um pé descalço. Não percebi se o rapaz tinha escorregado ou tentado atravessar com o sinal fechado para os peões. Tudo à distância, do outro lado da rua. O que ficou foi o estrondo e um fotograma que não sou capaz de decifrar.
As sinceras melhoras.
As sinceras melhoras.
21 de abril de 2009
POLÍTICA
Leio muito sobre a "polarização" da vida política americana, cada vez mais partidarizada entre Democratas e Republicanos. Olho para Portugal e tenho a vaga sensação que essa "polarização" está cada vez mais instalada por cá, só que não entre Democratas e Republicanos mas sim entre governo e oposição. A questão é que "governo" e "oposição" são muito mais intermutáveis do que "Democratas" e "Republicanos".
20 de abril de 2009
RENHAU
Descoberta dos últimos dias: um gato consegue espreguiçar-se em todo o tipo de superfícies, desde sofás a secretárias passando por varandas, marquises e alguidares.
17 de abril de 2009
SORRISO PEPSODENT
Isto é um bocado estranho, eu sei, mas não só não tenho grandes problemas em ir ao dentista como, quando faço a limpeza regular, gosto imenso de bochechar com aqueles elixires de cores de rebuçado que sabem sempre a menta fresca, de sentir a escovagem vigorosa com a pasta ou com o desinfectante - e hoje, o meu dentista nem resistiu a mostrar-me a plaquinha de tártaro que saiu inteirinha do intervalo entre dois dentes, nem a pedir-me para agarrar no espelho enquanto me explicava porque é que ela tinha saído assim em vez de cair aos bocadinhos. O que não tem tanta graça mas é óptimo para descontrair e, sobretudo, desmistificar o processo.
16 de abril de 2009
POLAROID: MAIS PERTO DO QUE É IMPORTANTE
Entro no Ben & Jerry's do Chiado para algum reforço positivo (mint chocolate chunk, mmmmm) e enquanto estou a ser atendido, entra um dos mendigos que costumam estar nas igrejas do Chiado, com um telemóvel e um carregador na mão. Diz, num português arrevesado, que não quer pedir esmola, quer apenas carregar o telemóvel, e a empregada indica-lhe que pode carregá-lo numa tomada que fica numa das paredes junto às mesas. Quando ele liga o carregador, começa a dirigir-se para a porta, e a empregada pergunta-lhe, "mas vai ficar ao pé do carregador ou não?" e ele lá explica, no seu português arrevesado, que não; que vai voltar para a igreja e deixar ali o telemóvel. A empregada diz-lhe que nem pensar, que não se responsabiliza pelo que possa acontecer ao telemóvel, e dá-lhe a escolher: ou fica ali enquanto o telemóvel está a carregar, ou se vai embora e leva o telemóvel. O mendigo prefere levar o telemóvel.
por outras palavras:
é a cultura,
polaroid,
telemóvel
15 de abril de 2009
PEQUENAS ALEGRIAS FELINAS
Acordar às cinco e meia da manhã já de si não é bom. Acordar às cinco e meia da manhã com um gato a expectorar bolas de pêlo piora um bocado as coisas — não porque as bolas de pêlo expectoradas sejam assim a modos que do tamanho de um capachinho, mas porque implica ir buscar o balde e a esfregona para limpar o chão enquanto o gato fica parado em frente às ditas cujas e olha para mim com o seu melhor ar "Vá, faz o que te compete e limpa a porcaria que eu fiz". E eu limpo e passados cinco minutos, quando estou de regresso à cama, o gato salta para a cama e vem-me afofar enquanto ronrona alegremente, como quem diz "és tão fixe, obrigado por tomares conta de mim".
14 de abril de 2009
13 de abril de 2009
AUTOCARRO(s)
Há sempre qualquer coisa a acontecer num autocarro, ou numa paragem de autocarro. Na semana passada, uma viagem no 727 ficou marcada por uma senhora que tinha, literalmente, tomado banho em perfume - e, ainda por cima, num daqueles perfumes enjoativos e baratos que identificamos com as viúvas ou solteironas idosas - e que decidiu sentar-se ao meu lado durante umas quantas paragens. Hoje, uma paragem da Fontes Pereira de Melo viu duas velhotas incapazes de comunicar com dois turistas que queriam apanhar um autocarro para Alcântara e literalmente recrutarem um adolescente que tinha acabado de chegar à paragem para fazer o favor de tentar perceber o que é que eles queriam, independentemente de saberem se o rapaz falava ou não a língua dos turistas, qualquer que ela fosse. Era puto, andava na escola, tinha obrigação de falar estrangeiro.
12 de abril de 2009
FIM-DE-SEMANA PROLONGADO
Redescobrir os bons álbuns de Janet Jackson, ainda e sempre a melhor e mais consistente mana dos manos todos — Michael, em rigor, morreu ao fim de dois álbuns, Off the Wall (Epic 1979) e Thriller (Epic 1982) e daí para a frente foi só viver à conta do nome; Janet só disparou ao terceiro, Control (A&M 1986), que todos estes anos depois continua a ser um marco da nova música negra - o que os ex-acólitos da então sua majestade púrpura Jimmy Jam & Terry Lewis fizeram com a maninha soa-me hoje completamente visionário e nada longe do experimentalismo geométrico-abstracto das produções que fizeram o nome de Timbaland. E quando ela fazia pop - estou-me a lembrar de "When I Think of You" ou "Escapade" - os meninos que se cuidem.
Continuar a descobrir os tesouros que se escondem na estupenda caixa de raridades e inéditos do divino Lloyd Cole, Cleaning Out the Ashtrays (Tapete 2009) - quatro CDs de maquetas, versões alternativas, covers, lados B e canções perdidas por entre confusões editoriais, com meia-dúzia de pérolas de estarrecer que não se consegue perceber como é que nunca ninguém reparou que isto era espantoso. Exemplos: "Wild Orphan", que foi retirado de Lloyd Cole (Polydor 1990) à última hora para fazer espaço para "No Blue Skies"; "Blame Mary Jane", uma versão notável do "Most of the Time" de Dylan, "4MB" e "Sold", todas atiradas escandalosamente para lados B esquecidos.
A extraordinária entrevista de Nick Cave que foi capa da Mojo de Março - dá vontade de passar a gostar da obra que impõe respeito do homem, mesmo que a música continue a não me dizer nada.
A saga de D. Crocodila e da Zeeba Neighbah no sítio do costume.
D. Diogo a acordar-me de manhã a cheirar-me o nariz, como quem se prepara para lhe dar uma dentada.
16 de março de 2009
ON/OFF
Uma das melhores reflexões que li recentemente sobre o futuro do jornalismo, por Michael Scherer.
3 de março de 2009
18 de fevereiro de 2009
AS PALAVRAS DO MESTRE
"Let go of the spirit of the departed, and continue your life's celebration"
— Allen Ginsberg a Patti Smith, citado no soberbo filme-ensaio de Steven Sebring, Dream of Life (estreia a 5 de Março).
DESCONTEXTUALIZAR POR AÍ
"Ilda Figueiredo na marcha da radioactividade" — título do jornal Avante!, visto esta manhã numa banca de jornais
16/02/2009: TXL
São onze da manhã, estou à beira de fazer o check-out do hotel embora só tenha vôo às três da tarde (para Frankfurt e daí para Lisboa às seis da tarde, que a Lufthansa não tem vôos directos Berlim-Lisboa) e dou uma espreitadela no site do aeroporto para confirmar tudo — e lá está: os vôos para Frankfurt estão cancelados.
Não penso duas vezes e despacho-me a ir para o aeroporto para tentar resolver a questão; eu e mais não sei quantas pessoas que estavam marcadas para o vôo anterior a fazer fila em frente ao balcão da Lufthansa, 45 minutos no meu caso. Dou as boas tardes à funcionária e digo-lhe que tinha lugar num dos vôos cancelados, a senhora solta um suspiro e lança, "pois, estamos aqui desde manhã a resolver isto, é muito frustrante queremos ajudar sem podermos...". Ao que parece, Frankfurt está fechado por causa do mau tempo, e Berlim também esteve a meio gás, afinal tinha estado a nevar non-stop desde a noite de sábado.
Mas quando lhe digo que vou para Lisboa ela fica mais animadinha, "ah! assim é capaz de ser mais fácil". Numa demonstração de eficiência germânica a toda a prova, daí a dez minutos estou no vôo para Munique, que devia ter saído à uma da tarde mas atrasou uma hora, para apanhar depois a ligação para Lisboa às sete e meia.
Com tudo isto, só cheguei a Lisboa uma hora mais tarde do que originalmente previsto.
4 de fevereiro de 2009
PIAZZA ROSSA
Janto em Berlim num restaurante italiano, sentado ao lado de dois espanhóis que encomendam a refeição em inglês ao empregado alemão e falam um com o outro em catalão.
04/02/2009: LH 178 FRA 11h35-TXL 12h40
Nunca vi um vôo doméstico que não estivesse a abarrotar - e este, de Frankfurt para Berlim, estava mesmo em "overbooking" (sabe-se que um avião está em "overbooking" quando cinco minutos antes da hora da partida continua a entrar gente e já não há sítio para arrumar as malas que toda a gente quer trazer consigo).
Vou na coxia. À minha esquerda, senta-se um espanhol corpulento (mas não em excesso) que dormita enquanto o vôo não descola e, quando partimos, faz o sinal da cruz antes de voltar a adormecer.
04/02/2009: LH 4537 LIS 06h50-FRA 10h50
A única vantagem de apanhar um vôo tão madrugador é que o check-in, a segurança e o controle se fazem num instante, e temos tempo para nos sentarmos a tomar o pequeno-almoço descansados. Mesmo que ao nosso lado estejam três executivos que têm aquelas conversas de almoço entre executivos e que veja uma excursão turística de orientais que atravessam repetidamente o aeroporto à procura de alguma coisa que esteja aberta.
1 de fevereiro de 2009
23/01/2009: CO 64 EWR 20h15-LIS 08h10
No vôo para Lisboa, nota-se a subida no número de passageiros portugueses assim que tomo o meu lugar e começo a ouvir as conversas. Uma família americana que mora em Portugal diz a um casal americano que visita o país pela primeira vez que as pessoas são muio simpáticas e amistosas e o país é lindíssimo, mas que os transportes públicos não funcionam e para terem cuidado com os couverts nas mesas dos restaurantes. Um casal de idosos que viaja com a filha e que está sentado na fila atrás de mim fala um com o outro de modo quase monossilábico: "Deixa-me ir para o meio." "Vai lá filha." Uma senhora que passa na coxia com a sua bagagem de cabina à frente diz para o seu colega de viagem enquanto olha para os compartimentos de bagagem sobre os lugares: "Ai, eu acho que a minha mala não cabe numa coisa destas." E, à saída do vôo, à espera que as bagagens saiam, dois homens com ar de bancários ou colegas de trabalho regressados de uma viagem de trabalho resmungam com o modo como as malas caem no carrocel de bagagens em cima das malas de um vôo anterior que ainda não foram levantadas porque os passageiros ainda estão a passar o controle dos Estrangeiros e Fronteiras.
23/01/2009: CO 62 IAH 14h22-EWR 19h00
Nem todos os vôos domésticos americanos fornecem refeição à borla — em alguns casos, há comida mas é paga à parte —, o que explica porque é que vejo tantos passageiros a embarcarem com sacos de papel do McDonald's, do Wendy's, do Starbucks, ou com garrafas de água ou de refrigerantes, ou com copos de café. No entanto, nos vôos que fiz nesta viagem (todos com a Continental), serviram refeição gratuita (mesmo que não muito melhor que o fast food do aeroporto...). O mais curioso foi mesmo observar as consequências dos fusos horários que "desaparecem" quando se viaja da Costa Oeste para a Costa Leste: saio de São Francisco no vôo para Houston das 7h40, servem o pequeno-almoço. Três horas de vôo depois, aterro em Houston às 13h23, para apanhar o vôo que sai para Newark às 14h22, onde servem almoço. Três horas de vôo depois, aterro em Newark às 19h00 para apanhar o vôo que sai para Lisboa às 20h15, onde servem jantar.
23/01/2009: CO 1444 SFO 07h40-IAH 13h23
A célebre frase "quando mija um português mijam logo dois ou três" não é um exclusivo luso. É ver, nos vôos domésticos americanos, como toda a gente — sobretudo quem está sentado na coxia — se levanta assim que o sinal de "apertar os cintos" se apaga para usar a casa de banho.
O PASSADO É UM PAÍS DISTANTE
Estou sentado no Starbucks da 18th com a Castro, a organizar notas, pensamentos, ideias, no dia a seguir à inauguração de Barack Obama e a meio das entrevistas que me trouxeram a São Francisco. Esta foi uma viagem "estranha", no sentido em que é a primeira vez que viajo em trabalho para uma cidade que até aqui só conheci enquanto destino de férias. Duas mesas mais à direita, dois homens de meia-idade de camisa aos quadrados, com aparência de camionistas (só faltam os bonés), discutem o vôo da US Airways que aterrou no rio Hudson. Na mesa à esquerda, um jovem que parece ter voltado do ginásio, a julgar pela toalha que espreita de um pequeno saco, afadiga-se a anotar em pequenos cartões palavras que lê num volumoso manual, com o telemóvel aberto junto ao computador. Uma mesa mais à frente, outro jovem trabalha frente a um portátil aberto. Quem não está ao telefone ou ao computador está a conversar ou a ler o jornal; "The world has changed", lê-se na primeira página do San Francisco Chronicle. Senti-o ontem quando vi, às nove da manhã locais, a inauguração em directo na televisão; sentiu-se a importância, o peso, a gravidade do momento. A ideia de que não vai ser fácil, mas que não temos medo e estamos aqui para as curvas. Apesar de todo o mal que se pode dizer dos americanos, há algo de notável neste desejo de reinvenção, nesta vontade de recomeçar do zero e fazer tábua rasa do que ficou para trás. O passado é um país distante, já dizia o Sérgio Godinho.
ESTA
ESTA significa "Electronic System for Travel Authorization" e são as iniciais do novo sistema de autorização prévia que começou a ser obrigatório para todos os viajantes com destino aos EUA no dia 12 de Janeiro, poucos dias antes de eu viajar para São Francisco. Teoricamente, substitui os velhos formulários verdes, brancos e azuis que se preenchiam ao check-in ou no avião, eram entregues no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras à entrada nos EUA e eram agrafados ao passaporte e, por consequente, acelerar e reduzir todo o "processamento".
Digo "teoricamente" porque, no avião, a tripulação continuou a distribuir os formulários e, à minha passagem pelo SEF americano em Newark, ficou bem explícito que eles continuavam a ser solicitados, como disse bem alto uma das funcionárias: "Mesmo que tenham obtido a autorização online continua a ser necessário preencher os formulários verdes." Não abordei o assunto com o funcionário que processou os meus formulários, mas o viajante à minha frente abordou, na desportiva, e o funcionário, também na desportiva, explicou que ainda não tinham tido instruções para deixar de aceitar os formulários. Provavelmente porque ainda estávamos nos primeiros dias do novo sistema e era capaz de ser mais seguro garantir um backup no caso do sistema bloquear (o terminal 5 de Heathrow vem-me à cabeça).
20 de janeiro de 2009
OLHA O BELO PASTEL DE NATA
Visto numa padaria chinesa perto da 19th Avenue, um tabuleiro de "Portuguese custard cakes". Tradução: pastel de nata, só que com mais ar de queijada que outra coisa.
14/01/2009: CO 348 EWR 18h10-SFO 21h58
Enquanto espero que o avião saia de Newark, noto que o vôo está cheio a abarrotar e três em cada quatro passageiros não largam esse pequeno símbolo do "always on" da vida moderna que é o Blackberry, ou em alternativa o iPhone (o meu vizinho de fila tem, ao mesmo tempo, o iPod, o iPhone e o computador em cima do tabuleiro). Noto também que há coisas em que os americanos são como os portugueses, nomeadamente na quantidade de sacos e bagagens que transportam consigo no avião em vez de despacharem no porão. A senhora na fila da frente pede ajuda a uma das hospedeiras para arrumar uma mala de viagem que não conseguiu colocar em nenhum dos compartimentos; a hospedeira pergunta-lhe se sabe quanto pesa e a senhora responde "sei sim porque a pesei: nove quilos". O avião acaba por sair com quase uma hora de atraso porque houve um passageiro que - para além de ter sido um dos últimos a embarcar - decidiu desembarcar à última da hora, alegando que se sentia mal.
CAI NEVE EM NOVA IORQUE
Literalmente. Estão temperaturas negativas em Newark e debaixo do céu que alterna entre azul brilhante de inverno e nublado de cinzento quase escuro, flocos de neve volteiam no ar como pequenas partículas brancas transportadas pelo vento.
19 de janeiro de 2009
14/01/2009: CO 65 LIS 10h25-EWR 13h45
Viajo na Continental pela primeira vez, com destino ao aeroporto de Newark, onde vou passar os Estrangeiros e Fronteiras e esperar três horas pela ligação a São Francisco. Sobrevoamos o Canadá; o céu está limpo e vê-se lá em baixo o recorte da costa - pelo menos o recorte que o motor do avião permite. A senhora do check-in foi uma querida e marcou lugar na fila de aída sobre as asas; a parte chata é que os assentos não recostam, mas em contrapartida tenho a fila só para mim.
Ao embarque, reparo que um passageiro português pergunta a um comissário de bordo, em português: "desculpe, o vôo vai cheio?" O comissário não lhe liga, quer por estar distraído quer por não perceber que é com ele que estão a falar quer por não falar português. E o senhor, parado na coxia, insiste, até uma hospedeira que também não fala português pedir para continuar a andar para não empatar.
O vôo leva um pouco mais de tempo que se esperaria, segundo o comandante para evitarmos o mau tempo. Parece que estava a nevar em Nova Iorque quando saímos (à hora) de Lisboa, mas em Lisboa estava a chover a potes. Como de costume, o lusófono de serviço na tripulação fala português com um forte sotaque brasileiro, mas percebe-se que é espanhol (ou pelo menos hispânico). Em contrapartida, o assistente de bordo que serve o almoço é americano de New Jersey, com sotaque Soprano e tudo, mas fala bem português (luso-americano de segunda geração?). Enquanto serve o almoço (lasanha ou galinha Vesúvio), ouço-o a brincar com a colega que o ajuda sobre as idiossincrasias do emprego: o modo como um passageiro responde à pergunta "e o que vai beber?" com a pergunta "o que é que tem?"; o modo como outro passageiro pede uma "sevenep" (presumo que, pelo modo como o pronunciou, seja português). O facto de adorar o seu trabalho e de o adorar ainda mais quando chega a casa.
10 de janeiro de 2009
720
Na Infante Santo, espero por um de dois autocarros que passam perto de minha casa — o primeiro a chegar é o 720, que esvazia a maior parte dos passageiros que aguardam na paragem. Mas, rapidamente, percebo que o 720 não vai a lado nenhum; o condutor do autocarro levanta-se e chama um jovem negro, de mochila e boné, que entrou num grupo e não apresentou passe nem pagou bilhete. Não percebi se o jovem não pagou bilhete para deixar os restantes passageiros entrar, ou se não fazia tenção de pagar bilhete; em qualquer dos casos, isso tornou-se rapidamente irrelevante, porque o condutor recusou-se a arrancar com o autocarro enquanto o jovem não pagasse bilhete ou saisse, e o jovem começou a "tourear" o condutor. Nem o autocarro arrancava nem o rapaz pagava, houve logo dois ou três passageiros que começaram a resmungar e a mandar vir com o condutor, e eu segui a atitude de outros dois ou três passageiros que voltaram para a paragem e esperaram pelo 738, que vinha mesmo aí atrás. O 720 ainda ficou dois ou três minutos parado e depois lá arrancou — sem o rapaz ter saído. Não sei como é que a história ficou.
9 de janeiro de 2009
OS PAIS NÃO DEVIAM GOSTAR MESMO NADA DELA
Ouvido na TSF, esta manhã: a arquitecta paisagista Aurora Carapinha. Estou certo que é um encanto de senhora, mas não consigo evitar achar o nome infeliz.
7 de janeiro de 2009
A FELICIDADE
...pode ser uma coisa glandular, segundo o escritor Robertson Davies.
(obrigado pela dica a David Lavery)
6 de janeiro de 2009
PORTUGAL NO SEU MELHOR
Ouvido no Telejornal desta noite: a propósito da recessão e de um miúdo que diz gostar de ter uma PSP (PlayStationPortable), a mãe diz-lhe que "vais ali à PSP de Linda-a-Velha e é se quiseres". Será que o miúdo ficou traumatizado por ver a mãe gozar com ele na televisão?
5 de janeiro de 2009
A MORTE NUNCA EXISTIU
Os meus pais não me levavam aos funerais de familiares.
O primeiro funeral a que fui foi o do Rui Ferreira, de quem nunca me despedi verdadeiramente. É um dos maiores remorsos que transporto: nunca disse adeus a uma das pessoas que, depois da minha família, significou mais para mim, que me ensinou mais, que mais me aturou birras e inocências e inexperiências. Ao Rui devo muito daquilo que sei e que sou, e nunca lho disse.
Mas o Rui não era família.
É diferente quando somos nós que vamos a seguir o caixão à cabeça do cortejo. É como se houvesse um desdobramento; é como se não fôssemos nós que ali vamos, como se estivéssemos ali sem estar. Não sei como definir de outra maneira a estranheza desse distanciamento, de uma ausência que se sente nos ossos mas que não se consegue transmitir, explicar, abarcar. Essa ausência continua a trabalhar aqui dentro, metódica, discreta, constante, inserindo uma nota de vazio no quotidiano que, acabadas as festas, regressa à rotina habitual.
Foi ela que me lembrou hoje do Rui. É ela que me faz compreender que, para mim, por muito que pensasse nela, a morte nunca existiu verdadeiramente, fisicamente, como uma ausência que não se vai embora, antes de 18 de Novembro de 2008.
4 de janeiro de 2009
PEQUENO INTERLÚDIO POLÍTICO
... a propósito de Israel, Gaza, Hamas, Avi Mograbi, Valsa com Bashir, etc., etc.: Avram Burg diz à Time coisas com cabeça sobre a actual identidade israelita. Money quote:
Give me war, give me pogrom, give me disaster, and I know what to do; give me peace and tranquility, and I'm lost.
2 de janeiro de 2009
LOJA DO CIDADÃO
Na Loja do Cidadão dos Restauradores, passo uma hora à espera que me atendam para renovar um documento que foi inadvertidamente à máquina de lavar. Está uma tarde chuvosa e escura e o recinto está cheio; um senhor protesta alto e bom som no balcão da PT, atendido por duas funcionárias (uma das quais com todo o ar de chefa) e com um segurança a assistir. O mesmo segurança que explica a vários utentes que o Cartão do Cidadão não vai emitir mais senhas hoje, só amanhã, o que é corroborado poucos minutos mais tarde pela voz feminina e incorpórea dos altifalantes que informa que por problemas do sistema informático pelos quais pedem desculpa o balcão não está a funcionar. O que não impede as pessoas de fazerem fila nas informações.
31 de dezembro de 2008
2008 IMAGENS
1. WALL-E (2008, Andrew Stanton)
2. Australia/AUSTRÁLIA (2008, Baz Luhrmann)
3. Hunger/FOME (2008, Steve McQueen)
4. La Graine et le mulet/O SEGREDO DE UM CUSCUS (2007, Abdellatif Kechiche)
5. GOMORRA (2008, Matteo Garrone)
Les Amours d'Astrée et de Céladon/OS AMORES DE ASTRÉA E CELADON (2006, Eric Rohmer)
2. Australia/AUSTRÁLIA (2008, Baz Luhrmann)
3. Hunger/FOME (2008, Steve McQueen)
4. La Graine et le mulet/O SEGREDO DE UM CUSCUS (2007, Abdellatif Kechiche)
5. GOMORRA (2008, Matteo Garrone)
e, por ordem alfabética,
Les Amours d'Astrée et de Céladon/OS AMORES DE ASTRÉA E CELADON (2006, Eric Rohmer)
BALLAST (2007, Lance Hammer)
The Dark Knight/O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008, Christopher Nolan)
Coeurs/CORAÇÕES (2006, Alain Resnais)
George A. Romero's Diary of the Dead/DIÁRIO DOS MORTOS (2007, George A. Romero)
Auf der anderen Seite/DO OUTRO LADO (2007, Fatih Akin)
Angel/ENCANTO E SEDUÇÃO (2007, François Ozon)
No Country for Old Men/ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS (2007, Joel Coen/Ethan Coen)
Coeurs/CORAÇÕES (2006, Alain Resnais)
George A. Romero's Diary of the Dead/DIÁRIO DOS MORTOS (2007, George A. Romero)
Auf der anderen Seite/DO OUTRO LADO (2007, Fatih Akin)
Angel/ENCANTO E SEDUÇÃO (2007, François Ozon)
No Country for Old Men/ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS (2007, Joel Coen/Ethan Coen)
LA FRANCE (2007, Serge Bozon)
HAPPY-GO-LUCKY (2007, Mike Leigh)
Charlie Wilson's War/JOGOS DE PODER (2007, Mike Nichols)
Charlie Wilson's War/JOGOS DE PODER (2007, Mike Nichols)
MUST READ AFTER MY DEATH (2007, Morgan Dews)
The Mist/NEVOEIRO MISTERIOSO (2007, Frank Darabont)
Once/NO MESMO TOM (2006, John Carney)
In the Valley of Elah/NO VALE DE ELAH (2007, Paul Haggis)
Persepolis/PERSÉPOLIS (2007, Marjane Satrapi/Vincent Paronnaud)
4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile/4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (2007, Cristian Mungiu)
Youth without Youth/UMA SEGUNDA JUVENTUDE (2007, Francis Ford Coppola)
La Soledad/A SOLIDÃO (2007, Jaime Rosales)
In the Valley of Elah/NO VALE DE ELAH (2007, Paul Haggis)
Persepolis/PERSÉPOLIS (2007, Marjane Satrapi/Vincent Paronnaud)
4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile/4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (2007, Cristian Mungiu)
Youth without Youth/UMA SEGUNDA JUVENTUDE (2007, Francis Ford Coppola)
La Soledad/A SOLIDÃO (2007, Jaime Rosales)
SPARROW (2008, Johnnie To)
STANDARD OPERATING PROCEDURE (2008, Errol Morris)
Entre les murs/A TURMA (2008, Laurent Cantet)
Entre les murs/A TURMA (2008, Laurent Cantet)
2008 SONS
CAMANÉ, Sempre de Mim (Capitol)
COLDPLAY, Viva la Vida or Death and All His Friends (Parlophone)Ry COODER, I, Flathead (Nonesuch)
Emmylou HARRIS, All I Intended to Be (Nonesuch)
Aimee MANN, @#%&*! Smilers (Superego)
The MOUNTAIN GOATS, Heretic Pride (4AD)
The NATIONAL, Boxer (Beggars Banquet; é de 2007, mas ouvi-o tanto que conta como se fosse do ano)
Randy NEWMAN, Harps & Angels (Nonesuch)
Thomas NEWMAN, Music from the Motion Picture Wall-E (Walt Disney)
António PINHO VARGAS, Solo (David Ferreira)
Rui REININHO, Companhia das Índias (Sony Music)
Mafalda VEIGA, Chão (Valentim de Carvalho/iPlay)
30 de dezembro de 2008
29 de dezembro de 2008
AS PALAVRAS DO MESTRE
The word "career" always had a very unattractive and burdensome resonance in my heart. My idea mostly was to avoid participating in that activity called "career" — and I've been pretty much able to avoid it.
Leonard Cohen a Sylvie Simmons no número de Dezembro da revista Mojo.
My sentiments, exactly.
28 de dezembro de 2008

foto de Véronique Rolland, para as sessões do álbum Stumble into Grace
Os últimos quatro álbuns de originais de Emmylou Harris são quatro pérolas que ainda não deixaram de revelar os seus segredos e me parece que o vão continuar a fazer por muito tempo. Quem ainda tem presente a Emmylou mais abertamente country dos seus discos clássicos dos anos 1970 e 1980 vai levar um choque de todo o tamanho com a modernidade de Wrecking Ball (Asylum/Elektra, 1995), Red Dirt Girl (Nonesuch, 2000), Stumble into Grace (Nonesuch, 2003) e All I Intended to Be (Nonesuch, 2008). Daniel Lanois produziu o primeiro, o seu cúmplice Malcolm Burn os dois seguintes, e o último marcou o reencontro de Emmylou com Brian Ahern, o produtor que assinou todos os seus discos entre 1975 e 1984. Mas quem os ouvir perceberá que são todos provenientes de uma única mente: Emmylou ela própria, inteira, honesta, sem ter que provar nada, a fazer a única música que sabe fazer. A música de uma América telúrica e emocional, melhor do que a maior parte de nós acha que ela é.
São discos aos quais dou por mim a voltar repetidamente. E que, este Natal, voltaram a reabrir-se para revelar muito mais; são discos que crescem com quem os ouve e mostram apenas aquilo que estamos preparados para ouvir de cada vez que os pomos a rodar. Este domingo, trouxeram-me conforto; dorido, emocional, cansado, mas conforto.
26 de dezembro de 2008
SEMÂNTICA
O cartaz do Bloco de Esquerda diz: "O governo protege os banqueiros. E quem protege as pessoas?" Que é como quem diz que os banqueiros não são pessoas; são outra coisa.
25 de dezembro de 2008
TRADIÇÕES
Duas semanas antes, geralmente na última semana de aulas antes das férias do Natal, depois de almoço, íamos buscar os enfeites e o presépio à despensa, onde estavam guardados em caixas velhas. A árvore, até certa altura, era um pinheirinho de Natal comprado nem eu sei bem onde; depois, passou a ser uma construção plástica made-in-China, que era colocada em cima do "banco da cozinha" — um banquinho pequenino de madeira escura, sólida e resistente, como se fosse um banquinho de menino — revestido de papel verde.
Os enfeites da árvore e do presépio eram muitas vezes de plástico tosco, comprados em barateiros ou parte de conjuntos com defeito; as figurinhas do presépio vinham das viagens que os meus pais faziam em autocarros para ver jogos do Benfica. Bocadinhos de algodão a fingir de neve, luzes coloridas que acendiam e apagavam intermitentemente. Depois, o presépio, montado sobre papel de embrulho ou papel de lustro verde, com uma estrela improvisada forrada a prata de chocolate presa com fita-cola por cima da cabana; um espelho a fingir de lago onde patinhos de plástico escorregavam; pescadores e varinas e moleiros e pastores dos quatro cantos de Portugal.
O cheiro da resina do pinheiro nos primeiros dias, que se ia perdendo com o tempo; as luzes acesas na véspera de Natal, que a minha mãe passava na cozinha, a fazer os biscoitos, a bolema, os sonhos. E, mais para a noite, o bacalhau cozido e a carne de porco frita.
A árvore ficava sempre montada durante os primeiros dez dias do Ano Novo, até passar o dia de Reis e o aniversário do meu irmão, para o qual a minha mãe fazia arroz doce polvilhado com canela que depois colocava em pires brancos com um bonito desenho de flores silvestres; havia sempre alguns pires onde a minha mãe não punha canela, mas não sei para qual dos meus irmãos era.
Deixei de gostar do Natal já há muitos anos.
23 de dezembro de 2008
PARABÉNS A VOCÊ
Reparei hoje que este blog cumpriu, fez pouco mais de uma semana, cinco anos de existência, e eu, preso nos prazos e fechos antecipados do meu day job, não marquei condignamente a ocasião. O que há de engraçado nisto tudo é ver as voltas que o (meu) mundo e a (minha) vida deram nos últimos cinco anos. E perceber como, como já dizia o Bryan Ferry há quase 25 anos,
though your world is changing, I will stay the sameO que não é inteiramente verdade, porque, mesmo sendo o mesmo de há cinco anos, não sou o mesmo de há cinco anos.
Obrigado por continuarem desse lado. Por aqui, não faço tenção de parar (mesmo que de vez em quando abrande). A todos um bom Natal.
REIZINHO REININHO

Estou rendido. Companhia das Índias é um grande, grande, grande disco pop. "Dr. Optimista", "Triste S (1857)", "Turbina e Moça" e "Laika Virgem" (soberba melodia de Alexandre Soares) são GNR puro da colheita 1980, mesmo que escritas hoje. E "Morremos a Rir" é uma filha da p*** de uma canção pop que não me sai do ouvido (daquelas que o Steed diz que deviam ser programadas no chip). Vejam só a letra Reininho vintage:
À partida
num quarto escuro sem roupa dorme a miss Velha Europaacorda na Grande Migalha da China
sonhava ter descoberto a América ao sair da tropa
a escrava africana soprava as velas à pequenina
Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumenos romenas ciganas mas mais indianas
florbelas cancelas abertas sem condomínio
Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
Alguém sabe onde é o Quinto Império
alguém sabe onde mora o terceiro mundo
Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumenos romenas ciganas mas mais indianas
florbelas cancelas abertas sem condomínio
Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
vamos adorar o TGV chegar
vamos aterrar sem sair do hangar
Fomos todos parir se o esperma permitir
morremos a rir
Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá voar sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
E com isto tudo o "Bem Bom" é que é o single?
21 de dezembro de 2008
20 de dezembro de 2008
COISAS INDIZÍVEIS
É impressão minha ou aquele anúncio do barquinho com a canção do musical Annie e com a Bárbara Guimarães a não se perceber muito bem o que está lá a fazer é uma coisa indizível?
19 de dezembro de 2008
LOUCURA CONTROLADA
Estou completamente fã dos Caçadores de Mitos.
18 de dezembro de 2008
PALAVRAS SÁBIAS
I sometimes got the feeling that she went to everything all the time as a way of staying one step ahead of her melancholy.- Darryl Pinckney sobre Susan Sontag na New Yorker de 15 de Dezembro.
17 de dezembro de 2008
SUBSCRIÇÃO PÚBLICA
Era só para subscrever o que o Pedro diz aqui. Não necessariamente pelas mesmas razões que ele, mas vai tudo dar ao mesmo.
PARA AS SOGRAS QUE ENCONTREI NA VIDA
É uma carta ao editor publicada na última edição da Economist:
SIR - Lexington stated that Mr Obama faces "a mother-in-law of a recession". This is not a wholly accurate description. Unlike mother-in-laws, recessions rarely arrive unexpectedly on one's doorstep. Nor do they exhibit behavioural patterns that defy normal rational explanation. And although both share a capacity to inflict misery and despair on the innocent, the scars from a recession will eventually heal.Finbar O'KeeffeStudio City, California
O DIA DOS CHATOS
Na projecção de imprensa, de manhã, dois presentes na fila da frente que não costumam aparecer começam a falar a meio do filme e mando-os calar com um sonoro "shhhh!". Riem-se enquanto olham para trás. Quando o genérico final acaba, levantam-se e começam a conversar em frente ao projector, tapando o écrã. "Saiam da frente!", lanço-lhes.
No café, à hora de almoço, a empregada que está à caixa passa metade do tempo a pedir ajuda às colegas para registar os pedidos, corrigi-los, fazer o troco e quando lhe peço um "ice tea" de limão ela diz-me "é uma água?".
No posto dos correios, ao princípio da tarde, seis dos sete balcões estão a funcionar mas os funcionários parecem não conseguir dar vazão: durante os 45 minutos que aguardo pacientemente a minha vez, dois dos balcões continuam com os mesmos clientes, um dos quais com uma cliente com centenas de envelopes para franquear e com a empregada a tentar explicar-lhe, sem sucesso, como é que se fecha o telemóvel depois de meter o cartão, forçando-a a pedir ajuda a uma colega. Um senhor idoso que quer pôr uma carta em correio azul obriga a funcionária a repetir-lhe tudo duas vezes por não conseguir perceber; uma senhora que foi apenas pagar contas tira muito devagarinho as facturas da mala e os envelopes separados para pagar cada uma delas; uma outra fica dez minutos a escolher quais os cartões de Natal que quer comprar para enviar. Não sei se sou eu que tenho pontaria para os dias em que vou ao correio ou se é uma conjugação de circunstâncias, mas lá que hoje tudo conspirou para me irritar...
16 de dezembro de 2008
COISAS QUE SE OUVEM NA RÁDIO DE MANHÃ
O despertador dispara com a TSF, como habitualmente, e começo por ouvir que Mário Soares escreve no Diário de Notícias que se está a instalar um "clima explosivo" em Portugal; diz, cito, que
Para se perceber que há um clima de desconfiança e de revolta (...) basta ouvir as pessoas nas ruas, nos transportes públicos ou nas empresas que ameaçam falir.O que me fez confusão nisto era eu não saber que Mário Soares andava de transportes públicos.
15 de dezembro de 2008
13 de dezembro de 2008
LE TOUR DU CHOCOLAT
Este fabuloso artigo do New York Times de hoje sobre a "rota parisiense" dos mestres chocolateiros é uma perdição.
12 de dezembro de 2008
VIVA LA VIDA
Gosto dos Coldplay — sempre gostei, não é de agora. Brian Eno fez-lhes bem, acho eu. E estas canções sabem-me tão bem nestes dias frios e face ao turbilhão de emoções dos últimos meses.
Coldplay, "Viva la Vida" (in Viva la Vida or Death and All His Friends, Parlophone/EMI, 2008)
Realização: Hype Williams
Coldplay, "Lovers in Japan" (in Viva la Vida or Death and All His Friends, Parlophone/EMI, 2008)
Coldplay, "Lovers in Japan" (in Viva la Vida or Death and All His Friends, Parlophone/EMI, 2008)
Realização: Mat Whitecross
11 de dezembro de 2008
O CARTEIRO TOCA SEMPRE TRÊS VEZES
Da primeira vez, há bastante tempo, embarquei na história bem contada da senhora a quem a vida estava a correr mal e que precisava de uma ajuda. Da segunda, pareceu-me reconhecer aquela cara e aquela voz, e tive a certeza quando a história que a senhora estava a contar estava a ser contada exactamente da mesma maneira que da primeira vez. Da terceira vez, ontem de manhã, apenas reparei que a mesma senhora estava bastante bem vestida e arranjada e já nem a deixei começar a contar a história da desgraçadinha com que me enganou da primeira vez. Tocar à mesma porta duas vezes pode acontecer. Tocar à mesma porta três vezes já me parece desleixo.
10 de dezembro de 2008
HUMOR INGLÊS DO NORTE
Um maravilhoso exemplo de humor inglês a propósito de si próprio:
STOICISM is something the British are world-famous for. They carry on; they make do; they seldom complain, but form an orderly line to take whatever Fate may throw at them. At very bad moments—the Blitz, for example—they laugh and tell jokes against the enemy. Modern Britons are by and large a feebler and non-queuing race, as hedonistic, wasteful and complaining as anyone else; but the stereotype persists, and a moment of crisis is sure to bring it out again. For the British are subject to two utterly random forces that regularly test their stoicism and their patience: the weather and the buses.
The weather and the buses are known to be in league with each other. The worse the one, the fewer of the other, and the more dismal life in general.
A origem desta pérola? O obituário do actor Reg Varney e do meteorologista televisivo Jack Scott na última edição do Economist.
15 MINUTOS DE FAMA
O restaurante ao pé de minha casa onde por vezes almoço estava hoje mais vazio do que é habitual e sem razão aparente (acabou por encher mas mais tarde, quando eu já me estava a vir embora). Talvez por só lá estar eu e as empregadas tenha sido tão curioso vê-las a correrem entre a porta e o balcão, para irem buscar papel, uma caneta, um telemóvel para tirar uma fotografia. Motivo? A presença do outro lado da rua do cantor Mickael Carreira. Diz a gerente a uma das empregadas toda contente por ele lhe ter dado um beijinho: "hoje nem lavas a cara". Diz o cozinheiro que veio cá fora ver o que se passava: "Olha o carro dele, é um BMW 318, sim senhor". Diz um dos empregados: "Vais pedir-lhe um autógrafo? Aos bombeiros e aos polícias é que devias pedir autógrafos, eles é que são os heróis."
9 de dezembro de 2008
CTT
Estou na estação de correios das Picoas, à espera da minha vez de ser atendido, quando ouço a voz de característica alfacinha, como quem apregoa limões na rua, de uma das funcionárias a explicar a um cliente (não sei de que sexo): "Isto não é assim que se faz. Estou eu para aqui a explicar como é que se faz e nem sequer está a prestar atenção".
8 de dezembro de 2008
727
A senhora entra no 727 na paragem quase à esquina da Braancamp com a Alexandre Herculano. É uma senhora obesa, que tem de se agarrar ao corrimão da porta para subir para o autocarro, com sacos na mão. O autocarro está relativamente vazio e há bastantes lugares, inclusive de acesso mais fácil, mas percebo logo que a senhora se quer sentar no lugar da frente do lado direito, por cima da roda, onde vou sentado. A senhora deixa-se ficar ali ao pé, agarrada ao varão, e começa a falar sozinha, que gostava mais de se sentar naquele lugar, dá-lhe mais jeito por causa dos sacos, mas não faz mal, vai de pé. Aproxima-se a paragem do Rato, onde vou sair, e quando me levanto a senhora faz o jogo todo, "não se levante por minha causa, deixe-se estar". Respondo-lhe: "Vou sair na próxima paragem, mas se a senhora não se quisesse sentar neste lugar não estava para aí a falar."
IT'S HAPPY HOUR AGAIN
Alguém sabe explicar porque é que a música de fundo no Corte Inglés esta manhã (que, ainda assim, faz uma refrescante variação das habituais músicas natalícias) era o "best of" dos Housemartins? (E não, eu não andei ao consumismo natalício. Foi mesmo trabalho.)
7 de dezembro de 2008
AS MADALENAS DE PROUST
De repente, sem aviso prévio, há um pequeno momento do quotidiano que ressurge e me recorda daquilo que ficou irremediavelmente perdido para trás no tempo. Como o puré de feijão branco que fiz esta noite para o jantar e cuja primeira colher me recordou inevitavelmente do puré de feijão encarnado com esparguete que era uma sopa clássica de Inverno lá em casa. A par dos escalopes de peru com cogumelos e molho de natas, do caldo de carne com grão e dos panados de peru como nunca comi em nenhum restaurante. Gostos que passaram a ser madalenas de Proust, perdidas nos arquivos da memória até algo surgir para os reacordar.
DRIBLE
Estava o televisor a dar o Marítimo-Benfica e de repente vejo o meu gato Diogo, que um minuto antes estava sossegadinho sentado em frente ao aquecedor, a tentar agarrar a bola no écrã.
26 de novembro de 2008
MÉDICO DE FAMÍLIA
No meio disto tudo, o despertador toca com a TSF, e a rubrica do "Médico de Família". Agora vejam lá o que é acordar com este frio todo e um médico a falar todo lampeiro do cancro do testículo e da sua posição no escroto.
25 de novembro de 2008
O ELEFANTE NA LOJA DE PORCELANAS
Ao longo da última semana, o assunto tem sido uma espécie de elefante na loja de porcelanas — parado para que qualquer movimento não dê cabo das fragilidades à volta — mas não há realmente volta a dar-lhe e as palavras também não conseguem transcrever as emoções.
Os dias têm corrido atordoados, estranhamente distantes, como se houvesse um vazio invisível que não se consegue explicar nem descrever.
24 de novembro de 2008
17 de novembro de 2008
O MÊS DO CORAÇÃO
OK, eu sei que muitas vezes as máquinas de venda que se encontram nos hospitais não se destinam aos doentes, que têm a sua própria dieta fornecida pelo catering do hospital. Mas não deixa de ser irónico que todas elas tenham os habituais chocolates, bolos, snacks, pacotes de batatas fritas e outros paradigmas da junk-food que os médicos passam o tempo a desaconselhar.
12 de novembro de 2008
HAVIA UMA CANÇÃO DOS STARSHIP CHAMADA "SARA"
...mas não me parece que fosse dedicada a Sarah Palin. Enquanto David Lavery se indigna com a defesa da Barbie do Alasca por figura tão icónica como Camille Paglia, a Economist desta semana traz um artigo bem interessante sobre a possibilidade da moça se candidatar a Presidente em 2012, com esta frase maravilhosa:
Barely two months ago, she was virtually unknown outside Alaska. Now she has supplanted Hillary Clinton as the most divisive woman in American politics. Democrats advertise their contempt for her with “Mooselini” T-shirts and “Bro’s before Ho’s” badges. Feminists revile her in language they would hesitate to use about a man.
758
No 758 na Estrada de Benfica, entra uma senhora de cabelo ruivo e voz rouca, arrastada, que se senta em frente a uma jovem com um bebé, faz alguns elogios à criança e, sem que ninguém tivesse metido conversa, começa a contar a história da sua vida à senhora idosa que está sentada ao seu lado, que ouve com atenção mas não mete prego nem estopa na conversa.
Saio no Rato e a senhora continua a contar a história da sua vida.
11 de novembro de 2008
FRAGRÂNCIAS PRIMAVERIS
Porque carga d'água é que a maior parte dos elevadores do metro de Lisboa têm aquele peculiar cheiro a urina velha, como se alguém que não tomasse banho ou usasse regularmente uma casa de banho lá tivesse morado durante semanas?
10 de novembro de 2008
SENTINELA
No metro do Marquês de Pombal para o Colégio Militar, a porta que dá para a cabine de condução da carruagem está aberta, coisa rara nunca vista, com um outro funcionário de pé, encostado a ela, mantendo-a aberta para que ela não esteja sempre a bater com as curvas e contra-curvas do percurso. Nas Laranjeiras, o funcionário sai e regressa instantes depois com um dos seguranças de serviço ao metro, a quem explica a situação e pede para o substituir na posição de "sentinela" — presumivelmente para garantir que ninguém entra na cabine ou tenta desviar o comboio.
9 de novembro de 2008
MÃE HÁ SÓ UMA
Aquela que, pelo meio do sofrimento das suas dores e da sua preocupação, é capaz de ouvir um espirro e parar por um instante a sua ladaínha para reconfortar o filho: "Pois! Quem é que te mandou a ti cortares o cabelo dessa maneira em pleno Inverno? Agora estás constipado. É bem feito. Nunca ouvem a mãe, é o que é."
5 de novembro de 2008
"I NEVER LIKED BLIND FAITH IN THE FIRST PLACE, AND MARIJUANA MAKES EVERYTHING SOUND LIKE FAD GADGET AND THE FALL"
No espaço de dois parágrafos, num texto "menor", o rapaz dá cabo dos paradigmas de "gosto" e "elitismo", e consegue ser ao mesmo tempo sensato e provocador. Leiam e aprendam.
[...] listening to music recorded 20, 30 years ago is not living in the past, is not nostalgia. According to my dictionary, nostalgia is "homesickness... a longing for something far away or long ago or for former happy circumstances." The truth is that that the Sixties, not to mention the Fifties, sucked in the first place and you wouldn't like it if you were back there in a time when people did things like informing you you were mentally ill or worse if you didn't wanna take a toke on the doob. [...] No one in his right mind would want to return to either of those eras, which is why the lie in rosy confections like Grease and Beatlemania is despicable. But preferring Hank Williams or Charlie Parker or the Sun Sessions or the Velvet Underground to Squeeze and Rickie Lee Jones and the Go-Gos and the Psychedelic Furs is not nostalgia, it's good taste. Just like listening to Beck, Bogert & Appice or Clock DVA and the Fall are bad taste. So I'll take my bad taste and you're welcome to yours, and maybe someday something will actually happen again and then we'll both be happy.
[...] I asked my friend James Marshall if he thought the current dismal state of music was likely to improve. "No," he said. "It's got to get worse, because everybody's into their own thing and doesn't wanna know. Pretty soon every band will have no more than three fans, and nobody will even have any friends. Then after that you'll start resenting the other guy because he likes the same thing you like: it's your turf! How dare he encroach? So then people will start killing each other for appropriating each other's musical tastes and thus infringing on the neighbor's hipness space. How can you be smug about being the only person in the world cool enough to appreciate some piece of New Wave shit, or a blues band or arcane jazz artist for that matter, if you find out somebody else likes it? Don't dare tell 'em! Don't even tell your wife or girlfriend! Keep it safe inside your Walkman!"
Lester Bangs. Em 1982.
4 de novembro de 2008
DIA DE ELEIÇÕES
Já nem falo do interesse que as eleições presidenciais americanas têm gerado em todo o mundo: nos próprios EUA, e independentemente do resultado, os americanos têm ido às urnas como nunca antes. Tenho estado a acompanhar o processo no blog do comentador Andrew Sullivan, The Daily Dish, que hoje "abriu" o blog aos seus leitores para eles contarem as suas experiências de votação ao longo do dia. E é inevitável perceber que algo de histórico se está a passar do lado de lá do Atlântico.
1 de novembro de 2008
A REVISTA DA QUALIDADE
Entre a quantidade de suplementos e revistas que enchem os jornais de sexta-feira e de fim-de-semana, vinha esta sexta a Revista da Qualidade, com uma fotografia de Isaltino Morais na capa e o título muito apelativo "O Centro de Arte Manuel de Brito é um pólo gerador de novas sinergias culturais e turísticas".
Não ficaram com vontade de ler o resto da revista?
31 de outubro de 2008
A INSUSTENTÁVEL SAGEZA DO FELINO
EU NÃO ERA ASSIM QUANDO TINHA A IDADE DELES
Por vezes, almoço no Pizza Hut da Álvares Cabral, que costuma oferecer um buffet de pizzas que é uma opção porreira para almoçar sem gastar muito dinheiro. O problema essencial de almoçar ali — e a razão porque vou lá tão pouco — é a presença de quantidades absurdas de tinaigeres inconscientes, presumo que oriundos do Pedro Nunes, que aproveitam a situação exactamente pela mesma razão que eu: almoça-se sem gastar muito dinheiro.
Hoje, por exemplo, estariam facilmente para aí uns trinta miúdos a almoçarem ali, comportando-se como se estivessem em casa deles ou numa festa de liceu, gritando uns com os outros, rindo alarvemente, dando-se encontrões ou impedindo um outro de se servir, correndo para o buffet assim que as pizzas saidas do forno eram colocadas e acotovelando-se como na entrada para um concerto de rock, fazendo fila para pagar e "roubando" uma fatia para irem a comer num guardanapo até ao liceu.
A maior parte dos adultos que ali estavam a almoçar — desde professores do João de Deus a funcionários dos bancos e das empresas que rodeiam o restaurante — olhavam para eles com um misto de enfado e desinteresse e concentravam-se no seu próprio almoço, mesmo que ficassem irritadíssimos sempre que eles se precipitivam para o buffet e impediam os restantes comensais de lá chegar.
Ficou-me na imagem uma miúda que sempre que ia buscar uma fatia descobria que os colegas já tinham esvaziado a forma da pizza que ela queria e que voltava para a mesa a resmungar enquanto se ria: "eles não me deixam nada!".
29 de outubro de 2008
CONSTATAÇÃO
O salário mínimo nacional não chega aos 500 euros e as pequenas e médias empresas dizem que se o governo o aumentar vão ser obrigados a despedir contratados a prazo. Posto desta maneira, vejo para as pequenas e médias empresas um sério problema de imagem a muito curto prazo.
28 de outubro de 2008
A BEM DIZER
Dois velhotes encontram-se no 709 e um deles diz ao outro: "já me viu este tempo? isto até parece Inverno..." Pois... até parece que Outubro é o pino do Verão...
23 de outubro de 2008
SONÍFERO
O Valdispert pode ser (é) muito bom, mas não há como um bom livro e uma chávena de leite quente quando nos enroscamos nos lençóis para uma boa noite de sono. Se houver um gato por ali a enroscar-se aos pés da cama melhor ainda.
SEMÁFORO
Porque é que os idosos lisboetas adoram atravessar ruas o mais pacatamente que lhes é possível com o sinal vermelho para os peões e ainda resmungam quando os condutores apitam, como se as ruas fossem para eles?
22 de outubro de 2008
TEMPO
É uma das coisas boas de fazer uma pausa no ritmo louco diário das coisas: pode-se tirar tempo para pensar um bocadinho no porquê e no como.
BLOGAR OU NÃO BLOGAR, EIS A QUESTÃO
Este blog tem andado razoavelmente sossegado, não por má vontade, não por falta de paciência, um pouco por falta de tempo e bastante por muito trabalho. Dito isto, há alturas em que me dá mais vontade de blogar que outras mas não há grande assunto, e outras em que há assunto a dar com um pau e eu não tenho tempo, é a cena do costume, preso por ter cão, preso por não ter. Isto tudo vem a propósito do ensaio de Andrew Sullivan na Atlantic deste mês precisamente sobre blogar ou não blogar, e da video-conversa de Sullivan com Marc Ambinder a propósito de blogar a dar com um pau. Em quaisquer dos casos, vale a pena parar o resto tudo e prestar atenção ao homem.
16 de outubro de 2008
16/10/2008: TP 355 LHR 11h40-LIS 14h10
O regresso a Lisboa sai à hora marcada e chega à hora marcada. Em vez de almoço, servem uma sanduíche quente de carne assada com ananás (o ananás ficou na embalagem, que meter fruta numa sanduíche quente de carne assada é anátema); o inglês com ar de bulldog que vai à janela pede um copo de vinho branco a acompanhar, coloca o tabuleiro da refeição na mesinha do assento vazio entre nós os dois, e dorme a sono solto pelo meio de um breve momento de turbulência.
Duas filas à frente, uma senhora idosa chama a hospedeira e diz resmungando que tem de mudar de lugar porque ficou na coxia e já teve de se levantar duas vezes para deixar o senhor que vai à janela ir à casa de banho e não está para isso e quer mudar de lugar para uma das filas vazias atrás de mim. Tudo isto com a maior educação mas com uma frieza de cortar à faca e um tom geral de "comigo ninguém brinca porque eu vivi a guerra e meninas como você como-as todos os dias ao pequeno-almoço". Do outro lado da minha fila, uma outra senhora inglesa idosa liga a intervalos regulares uma pequena ventoinha a pilhas que faz um barulho irritante.
OLHA O BELO HOTEL LONDRINO
Sim, eu sei que os conceitos de "belo hotel" e Londres são um bocado complicados de juntar na mesma frase, a não ser que se pague uma pequena fortuna. O Courthouse é um desses "boutique hotels" tão na moda, com relativamente poucos quartos mas muito bem acabados (apesar de eu achar que o chuveiro da maravilhosa casa de banho era complicado de regular), e extraordinariamente bem localizado na Great Marlborough Street, à esquina de Regent Street e de Oxford Circus, logo em frente a Carnaby Street. Rodeado por um porradão de restaurantes, desde o Ping Pong (dim sum de manhã, à tarde e à noitinha, do meio-dia à meia-noite) ao O'Neil's (pub irlandês para os fãs de Guinness), ao lado dos canais de cabo Turner, da Sony Computer Entertainment e da empresa de efeitos especiais Framestore, e a dois passos do Soho. O hotel é um velho tribunal convertido (foi ali que Charles Dickens acompanhou julgamentos...) e um dos restaurantes (onde é servido o pequeno-almoço) está instalado na sala de audiências original (havia salmão fumado e uma cozinheira a fazer omeletes à la carte, mas a escolha de pães era fraquinha). E foi uma das melhores camas em que já dormi num hotel inglês. (Melhor mesmo só a do Metropole em Brighton há qualquer coisa como 12 anos, mas provavelmente hoje já não é o que era.)
Claro que depois é uma chatice que estas viagens-relâmpago em trabalho não dêem tempo para andar a passear por Londres. Mas, por outro lado, ainda bem: é que ao preço a que as coisas estão não há orçamento que resista em Londres.
15 de outubro de 2008
PEQUENA CONSTATAÇÃO (não exclusivamente londrina)
O Starbucks é o novo McDonald's, só que com café em vez de hamburgers.
(E aquele malfadado "chocolate caramel shortbread" em que me ficou o olho e que não descansei enquanto não provei e não lambi todas as 470 calorias que contém é tão hedonista que devia ser proibido.)
HEATHROW CONNECT
Viajo de Heathrow para o centro de Londres no Heathrow Connect, um dos dois serviços de comboio rápido que liga o aeroporto à estação de comboios de Paddington (pára em meia-dúzia de estações suburbanas, mas é muito mais barato que o serviço non-stop Heathrow Express e leva metade dos 50 minutos da viagem de metro), e descubro que afinal os portugueses não são os únicos que contam a sua vida ao telemóvel nos transportes públicos para toda a gente ouvir, mesmo aqueles que não querem.
Na fila atrás de mim, um homem passa os 25 minutos da viagem a falar dos problemas familiares com um/a irmã/o que anda a querer forçar não-sei-o-quê com os pais mas não se dá sequer ao trabalho de os ir visitar ou coisa que o valha. A verborreia apenas é interrompida quando ele se debruça sobre a fila para me perguntar "excuse me, is this train going into London?" e para me agradecer a resposta positiva com um coloquial "cheers". Quando uma jovem entra numa estação mais à frente e se senta à minha frente com um livro na mão, quando percebe que o homem não se cala lança-lhe um olhar desaprovador (daqueles muito ingleses) e tenta concentrar-se no livro.
15/10/2008: TP 354 LIS 08h10-LHR 10h50
Supostamente, o vôo estaria a sair a esta hora mas ainda há gente a entrar e o comandante perde cinco minutos a explicar ao intercomunicador (primeiro em português e depois em inglês) que o atraso se deve a dois passageiros que vêm do Senegal num vôo atrasado, e que foi preciso tirar as suas bagagens do porão; mas também (e, tenho eu cá para mim, sobretudo) que a empresa de logística estava com "dificuldades" (eufemismo que eu entendi como pouco pessoal ou pessoal insuficientemente treinado). Já no autocarro que leva da porta de embarque ao avião, enquanto esperávamos pela partida, se ouvia no intercomunicador um supervisor enfadado por ter de explicar três vezes à/ao colega que "aqui cada um fala na sua vez senão ninguém se entende".
O vôo é sossegado, até porque ainda é cedo e a maior parte das pessoas vem meio ensonada (ao meu lado, um casal brasileiro dorme a sono solto a maior parte do tempo). Saímos com 20-25 minutos de atraso e aterramos com outro tanto de atraso, depois de termos de estar a fazer tempo às voltinhas sobre Londres à espera do OK para aterrar. Nas últimas três filas de um dos lados do avião, uma senhora viaja esticada numa maca colocada por cima das cadeiras, com soro e oxigénio, acompanhada por uma enfermeira, ambas mordiscando meio distraídas a sanduíche de carne assada do pequeno-almoço. Quando aterramos, a hospedeira diz que é uma hora a mais em Londres do que em Lisboa e dois minutos depois, depois de um colega lhe ter chamado a atenção, vem corrigir e dizer que afinal não, Londres está na mesma hora de Lisboa.
14 de outubro de 2008
É POR ESTAS E POR OUTRAS QUE A RÁDIO ANDA COMO ANDA
Hoje de manhã, a TSF anuncia que Aimee Mann toca no Coliseu de Lisboa no sábado e traz na bagagem um novo álbum (como pronunciar @#%&*! Smilers é difícil e fica mal dizer em público o Fuckin que aquelas sinalefas são supostas representar, o locutor de serviço disse apenas Smilers).
E o que é que se ouviu logo a seguir a este anúncio? "Wise Up", da banda-sonora de Magnolia. Que tem quase dez anos.
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