Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
20 de janeiro de 2009
OLHA O BELO PASTEL DE NATA
Visto numa padaria chinesa perto da 19th Avenue, um tabuleiro de "Portuguese custard cakes". Tradução: pastel de nata, só que com mais ar de queijada que outra coisa.
14/01/2009: CO 348 EWR 18h10-SFO 21h58
Enquanto espero que o avião saia de Newark, noto que o vôo está cheio a abarrotar e três em cada quatro passageiros não largam esse pequeno símbolo do "always on" da vida moderna que é o Blackberry, ou em alternativa o iPhone (o meu vizinho de fila tem, ao mesmo tempo, o iPod, o iPhone e o computador em cima do tabuleiro). Noto também que há coisas em que os americanos são como os portugueses, nomeadamente na quantidade de sacos e bagagens que transportam consigo no avião em vez de despacharem no porão. A senhora na fila da frente pede ajuda a uma das hospedeiras para arrumar uma mala de viagem que não conseguiu colocar em nenhum dos compartimentos; a hospedeira pergunta-lhe se sabe quanto pesa e a senhora responde "sei sim porque a pesei: nove quilos". O avião acaba por sair com quase uma hora de atraso porque houve um passageiro que - para além de ter sido um dos últimos a embarcar - decidiu desembarcar à última da hora, alegando que se sentia mal.
CAI NEVE EM NOVA IORQUE
Literalmente. Estão temperaturas negativas em Newark e debaixo do céu que alterna entre azul brilhante de inverno e nublado de cinzento quase escuro, flocos de neve volteiam no ar como pequenas partículas brancas transportadas pelo vento.
19 de janeiro de 2009
14/01/2009: CO 65 LIS 10h25-EWR 13h45
Viajo na Continental pela primeira vez, com destino ao aeroporto de Newark, onde vou passar os Estrangeiros e Fronteiras e esperar três horas pela ligação a São Francisco. Sobrevoamos o Canadá; o céu está limpo e vê-se lá em baixo o recorte da costa - pelo menos o recorte que o motor do avião permite. A senhora do check-in foi uma querida e marcou lugar na fila de aída sobre as asas; a parte chata é que os assentos não recostam, mas em contrapartida tenho a fila só para mim.
Ao embarque, reparo que um passageiro português pergunta a um comissário de bordo, em português: "desculpe, o vôo vai cheio?" O comissário não lhe liga, quer por estar distraído quer por não perceber que é com ele que estão a falar quer por não falar português. E o senhor, parado na coxia, insiste, até uma hospedeira que também não fala português pedir para continuar a andar para não empatar.
O vôo leva um pouco mais de tempo que se esperaria, segundo o comandante para evitarmos o mau tempo. Parece que estava a nevar em Nova Iorque quando saímos (à hora) de Lisboa, mas em Lisboa estava a chover a potes. Como de costume, o lusófono de serviço na tripulação fala português com um forte sotaque brasileiro, mas percebe-se que é espanhol (ou pelo menos hispânico). Em contrapartida, o assistente de bordo que serve o almoço é americano de New Jersey, com sotaque Soprano e tudo, mas fala bem português (luso-americano de segunda geração?). Enquanto serve o almoço (lasanha ou galinha Vesúvio), ouço-o a brincar com a colega que o ajuda sobre as idiossincrasias do emprego: o modo como um passageiro responde à pergunta "e o que vai beber?" com a pergunta "o que é que tem?"; o modo como outro passageiro pede uma "sevenep" (presumo que, pelo modo como o pronunciou, seja português). O facto de adorar o seu trabalho e de o adorar ainda mais quando chega a casa.
10 de janeiro de 2009
720
Na Infante Santo, espero por um de dois autocarros que passam perto de minha casa — o primeiro a chegar é o 720, que esvazia a maior parte dos passageiros que aguardam na paragem. Mas, rapidamente, percebo que o 720 não vai a lado nenhum; o condutor do autocarro levanta-se e chama um jovem negro, de mochila e boné, que entrou num grupo e não apresentou passe nem pagou bilhete. Não percebi se o jovem não pagou bilhete para deixar os restantes passageiros entrar, ou se não fazia tenção de pagar bilhete; em qualquer dos casos, isso tornou-se rapidamente irrelevante, porque o condutor recusou-se a arrancar com o autocarro enquanto o jovem não pagasse bilhete ou saisse, e o jovem começou a "tourear" o condutor. Nem o autocarro arrancava nem o rapaz pagava, houve logo dois ou três passageiros que começaram a resmungar e a mandar vir com o condutor, e eu segui a atitude de outros dois ou três passageiros que voltaram para a paragem e esperaram pelo 738, que vinha mesmo aí atrás. O 720 ainda ficou dois ou três minutos parado e depois lá arrancou — sem o rapaz ter saído. Não sei como é que a história ficou.
9 de janeiro de 2009
OS PAIS NÃO DEVIAM GOSTAR MESMO NADA DELA
Ouvido na TSF, esta manhã: a arquitecta paisagista Aurora Carapinha. Estou certo que é um encanto de senhora, mas não consigo evitar achar o nome infeliz.
7 de janeiro de 2009
A FELICIDADE
...pode ser uma coisa glandular, segundo o escritor Robertson Davies.
(obrigado pela dica a David Lavery)
6 de janeiro de 2009
PORTUGAL NO SEU MELHOR
Ouvido no Telejornal desta noite: a propósito da recessão e de um miúdo que diz gostar de ter uma PSP (PlayStationPortable), a mãe diz-lhe que "vais ali à PSP de Linda-a-Velha e é se quiseres". Será que o miúdo ficou traumatizado por ver a mãe gozar com ele na televisão?
5 de janeiro de 2009
A MORTE NUNCA EXISTIU
Os meus pais não me levavam aos funerais de familiares.
O primeiro funeral a que fui foi o do Rui Ferreira, de quem nunca me despedi verdadeiramente. É um dos maiores remorsos que transporto: nunca disse adeus a uma das pessoas que, depois da minha família, significou mais para mim, que me ensinou mais, que mais me aturou birras e inocências e inexperiências. Ao Rui devo muito daquilo que sei e que sou, e nunca lho disse.
Mas o Rui não era família.
É diferente quando somos nós que vamos a seguir o caixão à cabeça do cortejo. É como se houvesse um desdobramento; é como se não fôssemos nós que ali vamos, como se estivéssemos ali sem estar. Não sei como definir de outra maneira a estranheza desse distanciamento, de uma ausência que se sente nos ossos mas que não se consegue transmitir, explicar, abarcar. Essa ausência continua a trabalhar aqui dentro, metódica, discreta, constante, inserindo uma nota de vazio no quotidiano que, acabadas as festas, regressa à rotina habitual.
Foi ela que me lembrou hoje do Rui. É ela que me faz compreender que, para mim, por muito que pensasse nela, a morte nunca existiu verdadeiramente, fisicamente, como uma ausência que não se vai embora, antes de 18 de Novembro de 2008.
4 de janeiro de 2009
PEQUENO INTERLÚDIO POLÍTICO
... a propósito de Israel, Gaza, Hamas, Avi Mograbi, Valsa com Bashir, etc., etc.: Avram Burg diz à Time coisas com cabeça sobre a actual identidade israelita. Money quote:
Give me war, give me pogrom, give me disaster, and I know what to do; give me peace and tranquility, and I'm lost.
2 de janeiro de 2009
LOJA DO CIDADÃO
Na Loja do Cidadão dos Restauradores, passo uma hora à espera que me atendam para renovar um documento que foi inadvertidamente à máquina de lavar. Está uma tarde chuvosa e escura e o recinto está cheio; um senhor protesta alto e bom som no balcão da PT, atendido por duas funcionárias (uma das quais com todo o ar de chefa) e com um segurança a assistir. O mesmo segurança que explica a vários utentes que o Cartão do Cidadão não vai emitir mais senhas hoje, só amanhã, o que é corroborado poucos minutos mais tarde pela voz feminina e incorpórea dos altifalantes que informa que por problemas do sistema informático pelos quais pedem desculpa o balcão não está a funcionar. O que não impede as pessoas de fazerem fila nas informações.
31 de dezembro de 2008
2008 IMAGENS
1. WALL-E (2008, Andrew Stanton)
2. Australia/AUSTRÁLIA (2008, Baz Luhrmann)
3. Hunger/FOME (2008, Steve McQueen)
4. La Graine et le mulet/O SEGREDO DE UM CUSCUS (2007, Abdellatif Kechiche)
5. GOMORRA (2008, Matteo Garrone)
Les Amours d'Astrée et de Céladon/OS AMORES DE ASTRÉA E CELADON (2006, Eric Rohmer)
2. Australia/AUSTRÁLIA (2008, Baz Luhrmann)
3. Hunger/FOME (2008, Steve McQueen)
4. La Graine et le mulet/O SEGREDO DE UM CUSCUS (2007, Abdellatif Kechiche)
5. GOMORRA (2008, Matteo Garrone)
e, por ordem alfabética,
Les Amours d'Astrée et de Céladon/OS AMORES DE ASTRÉA E CELADON (2006, Eric Rohmer)
BALLAST (2007, Lance Hammer)
The Dark Knight/O CAVALEIRO DAS TREVAS (2008, Christopher Nolan)
Coeurs/CORAÇÕES (2006, Alain Resnais)
George A. Romero's Diary of the Dead/DIÁRIO DOS MORTOS (2007, George A. Romero)
Auf der anderen Seite/DO OUTRO LADO (2007, Fatih Akin)
Angel/ENCANTO E SEDUÇÃO (2007, François Ozon)
No Country for Old Men/ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS (2007, Joel Coen/Ethan Coen)
Coeurs/CORAÇÕES (2006, Alain Resnais)
George A. Romero's Diary of the Dead/DIÁRIO DOS MORTOS (2007, George A. Romero)
Auf der anderen Seite/DO OUTRO LADO (2007, Fatih Akin)
Angel/ENCANTO E SEDUÇÃO (2007, François Ozon)
No Country for Old Men/ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS (2007, Joel Coen/Ethan Coen)
LA FRANCE (2007, Serge Bozon)
HAPPY-GO-LUCKY (2007, Mike Leigh)
Charlie Wilson's War/JOGOS DE PODER (2007, Mike Nichols)
Charlie Wilson's War/JOGOS DE PODER (2007, Mike Nichols)
MUST READ AFTER MY DEATH (2007, Morgan Dews)
The Mist/NEVOEIRO MISTERIOSO (2007, Frank Darabont)
Once/NO MESMO TOM (2006, John Carney)
In the Valley of Elah/NO VALE DE ELAH (2007, Paul Haggis)
Persepolis/PERSÉPOLIS (2007, Marjane Satrapi/Vincent Paronnaud)
4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile/4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (2007, Cristian Mungiu)
Youth without Youth/UMA SEGUNDA JUVENTUDE (2007, Francis Ford Coppola)
La Soledad/A SOLIDÃO (2007, Jaime Rosales)
In the Valley of Elah/NO VALE DE ELAH (2007, Paul Haggis)
Persepolis/PERSÉPOLIS (2007, Marjane Satrapi/Vincent Paronnaud)
4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile/4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (2007, Cristian Mungiu)
Youth without Youth/UMA SEGUNDA JUVENTUDE (2007, Francis Ford Coppola)
La Soledad/A SOLIDÃO (2007, Jaime Rosales)
SPARROW (2008, Johnnie To)
STANDARD OPERATING PROCEDURE (2008, Errol Morris)
Entre les murs/A TURMA (2008, Laurent Cantet)
Entre les murs/A TURMA (2008, Laurent Cantet)
2008 SONS
CAMANÉ, Sempre de Mim (Capitol)
COLDPLAY, Viva la Vida or Death and All His Friends (Parlophone)Ry COODER, I, Flathead (Nonesuch)
Emmylou HARRIS, All I Intended to Be (Nonesuch)
Aimee MANN, @#%&*! Smilers (Superego)
The MOUNTAIN GOATS, Heretic Pride (4AD)
The NATIONAL, Boxer (Beggars Banquet; é de 2007, mas ouvi-o tanto que conta como se fosse do ano)
Randy NEWMAN, Harps & Angels (Nonesuch)
Thomas NEWMAN, Music from the Motion Picture Wall-E (Walt Disney)
António PINHO VARGAS, Solo (David Ferreira)
Rui REININHO, Companhia das Índias (Sony Music)
Mafalda VEIGA, Chão (Valentim de Carvalho/iPlay)
30 de dezembro de 2008
29 de dezembro de 2008
AS PALAVRAS DO MESTRE
The word "career" always had a very unattractive and burdensome resonance in my heart. My idea mostly was to avoid participating in that activity called "career" — and I've been pretty much able to avoid it.
Leonard Cohen a Sylvie Simmons no número de Dezembro da revista Mojo.
My sentiments, exactly.
28 de dezembro de 2008

foto de Véronique Rolland, para as sessões do álbum Stumble into Grace
Os últimos quatro álbuns de originais de Emmylou Harris são quatro pérolas que ainda não deixaram de revelar os seus segredos e me parece que o vão continuar a fazer por muito tempo. Quem ainda tem presente a Emmylou mais abertamente country dos seus discos clássicos dos anos 1970 e 1980 vai levar um choque de todo o tamanho com a modernidade de Wrecking Ball (Asylum/Elektra, 1995), Red Dirt Girl (Nonesuch, 2000), Stumble into Grace (Nonesuch, 2003) e All I Intended to Be (Nonesuch, 2008). Daniel Lanois produziu o primeiro, o seu cúmplice Malcolm Burn os dois seguintes, e o último marcou o reencontro de Emmylou com Brian Ahern, o produtor que assinou todos os seus discos entre 1975 e 1984. Mas quem os ouvir perceberá que são todos provenientes de uma única mente: Emmylou ela própria, inteira, honesta, sem ter que provar nada, a fazer a única música que sabe fazer. A música de uma América telúrica e emocional, melhor do que a maior parte de nós acha que ela é.
São discos aos quais dou por mim a voltar repetidamente. E que, este Natal, voltaram a reabrir-se para revelar muito mais; são discos que crescem com quem os ouve e mostram apenas aquilo que estamos preparados para ouvir de cada vez que os pomos a rodar. Este domingo, trouxeram-me conforto; dorido, emocional, cansado, mas conforto.
26 de dezembro de 2008
SEMÂNTICA
O cartaz do Bloco de Esquerda diz: "O governo protege os banqueiros. E quem protege as pessoas?" Que é como quem diz que os banqueiros não são pessoas; são outra coisa.
25 de dezembro de 2008
TRADIÇÕES
Duas semanas antes, geralmente na última semana de aulas antes das férias do Natal, depois de almoço, íamos buscar os enfeites e o presépio à despensa, onde estavam guardados em caixas velhas. A árvore, até certa altura, era um pinheirinho de Natal comprado nem eu sei bem onde; depois, passou a ser uma construção plástica made-in-China, que era colocada em cima do "banco da cozinha" — um banquinho pequenino de madeira escura, sólida e resistente, como se fosse um banquinho de menino — revestido de papel verde.
Os enfeites da árvore e do presépio eram muitas vezes de plástico tosco, comprados em barateiros ou parte de conjuntos com defeito; as figurinhas do presépio vinham das viagens que os meus pais faziam em autocarros para ver jogos do Benfica. Bocadinhos de algodão a fingir de neve, luzes coloridas que acendiam e apagavam intermitentemente. Depois, o presépio, montado sobre papel de embrulho ou papel de lustro verde, com uma estrela improvisada forrada a prata de chocolate presa com fita-cola por cima da cabana; um espelho a fingir de lago onde patinhos de plástico escorregavam; pescadores e varinas e moleiros e pastores dos quatro cantos de Portugal.
O cheiro da resina do pinheiro nos primeiros dias, que se ia perdendo com o tempo; as luzes acesas na véspera de Natal, que a minha mãe passava na cozinha, a fazer os biscoitos, a bolema, os sonhos. E, mais para a noite, o bacalhau cozido e a carne de porco frita.
A árvore ficava sempre montada durante os primeiros dez dias do Ano Novo, até passar o dia de Reis e o aniversário do meu irmão, para o qual a minha mãe fazia arroz doce polvilhado com canela que depois colocava em pires brancos com um bonito desenho de flores silvestres; havia sempre alguns pires onde a minha mãe não punha canela, mas não sei para qual dos meus irmãos era.
Deixei de gostar do Natal já há muitos anos.
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