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29 de dezembro de 2008

AS PALAVRAS DO MESTRE

The word "career" always had a very unattractive and burdensome resonance in my heart. My idea mostly was to avoid participating in that activity called "career" — and I've been pretty much able to avoid it.

Leonard Cohen a Sylvie Simmons no número de Dezembro da revista Mojo.

My sentiments, exactly. 

AS PALAVRAS DO MESTRE

O desejo não é difícil. Satisfazê-lo é que é duro.
Abdellatif Kechiche, realizador de O Segredo de um Cuscus, a Steven Erlanger do New York Times

28 de dezembro de 2008

foto de Véronique Rolland, para as sessões do álbum Stumble into Grace

Os últimos quatro álbuns de originais de Emmylou Harris são quatro pérolas que ainda não deixaram de revelar os seus segredos e me parece que o vão continuar a fazer por muito tempo. Quem ainda tem presente a Emmylou mais abertamente country dos seus discos clássicos dos anos 1970 e 1980 vai levar um choque de todo o tamanho com a modernidade de Wrecking Ball (Asylum/Elektra, 1995), Red Dirt Girl (Nonesuch, 2000), Stumble into Grace (Nonesuch, 2003) e All I Intended to Be (Nonesuch, 2008). Daniel Lanois produziu o primeiro, o seu cúmplice Malcolm Burn os dois seguintes, e o último marcou o reencontro de Emmylou com Brian Ahern, o produtor que assinou todos os seus discos entre 1975 e 1984. Mas quem os ouvir perceberá que são todos provenientes de uma única mente: Emmylou ela própria, inteira, honesta, sem ter que provar nada, a fazer a única música que sabe fazer. A música de uma América telúrica e emocional, melhor do que a maior parte de nós acha que ela é.

São discos aos quais dou por mim a voltar repetidamente. E que, este Natal, voltaram a reabrir-se para revelar muito mais; são discos que crescem com quem os ouve e mostram apenas aquilo que estamos preparados para ouvir de cada vez que os pomos a rodar. Este domingo, trouxeram-me conforto; dorido, emocional, cansado, mas conforto.

26 de dezembro de 2008

SEMÂNTICA

O cartaz do Bloco de Esquerda diz: "O governo protege os banqueiros. E quem protege as pessoas?" Que é como quem diz que os banqueiros não são pessoas; são outra coisa. 

25 de dezembro de 2008

TRADIÇÕES

Duas semanas antes, geralmente na última semana de aulas antes das férias do Natal, depois de almoço, íamos buscar os enfeites e o presépio à despensa, onde estavam guardados em caixas velhas. A árvore, até certa altura, era um pinheirinho de Natal comprado nem eu sei bem onde; depois, passou a ser uma construção plástica made-in-China, que era colocada em cima do "banco da cozinha" — um banquinho pequenino de madeira escura, sólida e resistente, como se fosse um banquinho de menino — revestido de papel verde. 

Os enfeites da árvore e do presépio eram muitas vezes de plástico tosco, comprados em barateiros ou parte de conjuntos com defeito; as figurinhas do presépio vinham das viagens que os meus pais faziam em autocarros para ver jogos do Benfica. Bocadinhos de algodão a fingir de neve, luzes coloridas que acendiam e apagavam intermitentemente. Depois, o presépio, montado sobre papel de embrulho ou papel de lustro verde, com uma estrela improvisada forrada a prata de chocolate presa com fita-cola por cima da cabana; um espelho a fingir de lago onde patinhos de plástico escorregavam; pescadores e varinas e moleiros e pastores dos quatro cantos de Portugal. 

O cheiro da resina do pinheiro nos primeiros dias, que se ia perdendo com o tempo; as luzes acesas na véspera de Natal, que a minha mãe passava na cozinha, a fazer os biscoitos, a bolema, os sonhos. E, mais para a noite, o bacalhau cozido e a carne de porco frita. 

A árvore ficava sempre montada durante os primeiros dez dias do Ano Novo, até passar o dia de Reis e o aniversário do meu irmão, para o qual a minha mãe fazia arroz doce polvilhado com canela que depois colocava em pires brancos com um bonito desenho de flores silvestres; havia sempre alguns pires onde a minha mãe não punha canela, mas não sei para qual dos meus irmãos era.

Deixei de gostar do Natal já há muitos anos.

23 de dezembro de 2008

PARABÉNS A VOCÊ

Reparei hoje que este blog cumpriu, fez pouco mais de uma semana, cinco anos de existência, e eu, preso nos prazos e fechos antecipados do meu day job, não marquei condignamente a ocasião. O que há de engraçado nisto tudo é ver as voltas que o (meu) mundo e a (minha) vida deram nos últimos cinco anos. E perceber como, como já dizia o Bryan Ferry há quase 25 anos,
though your world is changing, I will stay the same
O que não é inteiramente verdade, porque, mesmo sendo o mesmo de há cinco anos, não sou o mesmo de há cinco anos. 

Obrigado por continuarem desse lado. Por aqui, não faço tenção de parar (mesmo que de vez em quando abrande). A todos um bom Natal. 

REIZINHO REININHO

Estou rendido. Companhia das Índias é um grande, grande, grande disco pop. "Dr. Optimista", "Triste S (1857)", "Turbina e Moça" e "Laika Virgem" (soberba melodia de Alexandre Soares) são GNR puro da colheita 1980, mesmo que escritas hoje. E "Morremos a Rir" é uma filha da p*** de uma canção pop que não me sai do ouvido (daquelas que o Steed diz que deviam ser programadas no chip). Vejam só a letra Reininho vintage:

À partida
num quarto escuro sem roupa dorme a miss Velha Europa
acorda na Grande Migalha da China
sonhava ter descoberto a América ao sair da tropa
a escrava africana soprava as velas à pequenina

Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumenos romenas ciganas mas mais indianas
florbelas cancelas abertas sem condomínio

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir

Alguém sabe onde é o Quinto Império
alguém sabe onde mora o terceiro mundo

Venham mais mouras e celtas vândalos poetas
marquises de alumenos romenas ciganas mas mais indianas
florbelas cancelas abertas sem condomínio

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá subir sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir
vamos adorar o TGV chegar
vamos aterrar sem sair do hangar

Fomos todos parir se o esperma permitir
morremos a rir

Fomos viajar sem sair do lugar
vamos encalhar se o motor não pegar
vamos lá voar sem tentar decair
fomos naufragar e morremos a rir

E com isto tudo o "Bem Bom" é que é o single?

20 de dezembro de 2008

COISAS INDIZÍVEIS

É impressão minha ou aquele anúncio do barquinho com a canção do musical Annie e com a Bárbara Guimarães a não se perceber muito bem o que está lá a fazer é uma coisa indizível?

18 de dezembro de 2008

PALAVRAS SÁBIAS

I sometimes got the feeling that she went to everything all the time as a way of staying one step ahead of her melancholy.
- Darryl Pinckney sobre Susan Sontag na New Yorker de 15 de Dezembro.

17 de dezembro de 2008

SUBSCRIÇÃO PÚBLICA

Era só para subscrever o que o Pedro diz aqui. Não necessariamente pelas mesmas razões que ele, mas vai tudo dar ao mesmo. 

PARA AS SOGRAS QUE ENCONTREI NA VIDA

É uma carta ao editor publicada na última edição da Economist:

SIR - Lexington stated that Mr Obama faces "a mother-in-law of a recession". This is not a wholly accurate description. Unlike mother-in-laws, recessions rarely arrive unexpectedly on one's doorstep. Nor do they exhibit behavioural patterns that defy normal rational explanation. And although both share a capacity to inflict misery and despair on the innocent, the scars from a recession will eventually heal.
Finbar O'Keeffe
Studio City, California

O DIA DOS CHATOS

Na projecção de imprensa, de manhã, dois presentes na fila da frente que não costumam aparecer começam a falar a meio do filme e mando-os calar com um sonoro "shhhh!". Riem-se enquanto olham para trás. Quando o genérico final acaba, levantam-se e começam a conversar em frente ao projector, tapando o écrã. "Saiam da frente!", lanço-lhes.

No café, à hora de almoço, a empregada que está à caixa passa metade do tempo a pedir ajuda às colegas para registar os pedidos, corrigi-los, fazer o troco e quando lhe peço um "ice tea" de limão ela diz-me "é uma água?".

No posto dos correios, ao princípio da tarde, seis dos sete balcões estão a funcionar mas os funcionários parecem não conseguir dar vazão: durante os 45 minutos que aguardo pacientemente a minha vez, dois dos balcões continuam com os mesmos clientes, um dos quais com uma cliente com centenas de envelopes para franquear e com a empregada a tentar explicar-lhe, sem sucesso, como é que se fecha o telemóvel depois de meter o cartão, forçando-a a pedir ajuda a uma colega. Um senhor idoso que quer pôr uma carta em correio azul obriga a funcionária a repetir-lhe tudo duas vezes por não conseguir perceber; uma senhora que foi apenas pagar contas tira muito devagarinho as facturas da mala e os envelopes separados para pagar cada uma delas; uma outra fica dez minutos a escolher quais os cartões de Natal que quer comprar para enviar. Não sei se sou eu que tenho pontaria para os dias em que vou ao correio ou se é uma conjugação de circunstâncias, mas lá que hoje tudo conspirou para me irritar...

16 de dezembro de 2008

COISAS QUE SE OUVEM NA RÁDIO DE MANHÃ

O despertador dispara com a TSF, como habitualmente, e começo por ouvir que Mário Soares escreve no Diário de Notícias que se está a instalar um "clima explosivo" em Portugal; diz, cito, que 
Para se perceber que há um clima de desconfiança e de revolta (...) basta ouvir as pessoas nas ruas, nos transportes públicos ou nas empresas que ameaçam falir.
O que me fez confusão nisto era eu não saber que Mário Soares andava de transportes públicos.

12 de dezembro de 2008

VIVA LA VIDA

Gosto dos Coldplay — sempre gostei, não é de agora. Brian Eno fez-lhes bem, acho eu. E estas canções sabem-me tão bem nestes dias frios e face ao turbilhão de emoções dos últimos meses. 



Coldplay, "Viva la Vida" (in Viva la Vida or Death and All His Friends, Parlophone/EMI, 2008)
Realização: Hype Williams



Coldplay, "Lovers in Japan" (in Viva la Vida or Death and All His Friends, Parlophone/EMI, 2008)
Realização: Mat Whitecross

11 de dezembro de 2008

O CARTEIRO TOCA SEMPRE TRÊS VEZES

Da primeira vez, há bastante tempo, embarquei na história bem contada da senhora a quem a vida estava a correr mal e que precisava de uma ajuda. Da segunda, pareceu-me reconhecer aquela cara e aquela voz, e tive a certeza quando a história que a senhora estava a contar estava a ser contada exactamente da mesma maneira que da primeira vez. Da terceira vez, ontem de manhã, apenas reparei que a mesma senhora estava bastante bem vestida e arranjada e já nem a deixei começar a contar a história da desgraçadinha com que me enganou da primeira vez. Tocar à mesma porta duas vezes pode acontecer. Tocar à mesma porta três vezes já me parece desleixo.