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17 de dezembro de 2008

O DIA DOS CHATOS

Na projecção de imprensa, de manhã, dois presentes na fila da frente que não costumam aparecer começam a falar a meio do filme e mando-os calar com um sonoro "shhhh!". Riem-se enquanto olham para trás. Quando o genérico final acaba, levantam-se e começam a conversar em frente ao projector, tapando o écrã. "Saiam da frente!", lanço-lhes.

No café, à hora de almoço, a empregada que está à caixa passa metade do tempo a pedir ajuda às colegas para registar os pedidos, corrigi-los, fazer o troco e quando lhe peço um "ice tea" de limão ela diz-me "é uma água?".

No posto dos correios, ao princípio da tarde, seis dos sete balcões estão a funcionar mas os funcionários parecem não conseguir dar vazão: durante os 45 minutos que aguardo pacientemente a minha vez, dois dos balcões continuam com os mesmos clientes, um dos quais com uma cliente com centenas de envelopes para franquear e com a empregada a tentar explicar-lhe, sem sucesso, como é que se fecha o telemóvel depois de meter o cartão, forçando-a a pedir ajuda a uma colega. Um senhor idoso que quer pôr uma carta em correio azul obriga a funcionária a repetir-lhe tudo duas vezes por não conseguir perceber; uma senhora que foi apenas pagar contas tira muito devagarinho as facturas da mala e os envelopes separados para pagar cada uma delas; uma outra fica dez minutos a escolher quais os cartões de Natal que quer comprar para enviar. Não sei se sou eu que tenho pontaria para os dias em que vou ao correio ou se é uma conjugação de circunstâncias, mas lá que hoje tudo conspirou para me irritar...

16 de dezembro de 2008

COISAS QUE SE OUVEM NA RÁDIO DE MANHÃ

O despertador dispara com a TSF, como habitualmente, e começo por ouvir que Mário Soares escreve no Diário de Notícias que se está a instalar um "clima explosivo" em Portugal; diz, cito, que 
Para se perceber que há um clima de desconfiança e de revolta (...) basta ouvir as pessoas nas ruas, nos transportes públicos ou nas empresas que ameaçam falir.
O que me fez confusão nisto era eu não saber que Mário Soares andava de transportes públicos.

12 de dezembro de 2008

VIVA LA VIDA

Gosto dos Coldplay — sempre gostei, não é de agora. Brian Eno fez-lhes bem, acho eu. E estas canções sabem-me tão bem nestes dias frios e face ao turbilhão de emoções dos últimos meses. 



Coldplay, "Viva la Vida" (in Viva la Vida or Death and All His Friends, Parlophone/EMI, 2008)
Realização: Hype Williams



Coldplay, "Lovers in Japan" (in Viva la Vida or Death and All His Friends, Parlophone/EMI, 2008)
Realização: Mat Whitecross

11 de dezembro de 2008

O CARTEIRO TOCA SEMPRE TRÊS VEZES

Da primeira vez, há bastante tempo, embarquei na história bem contada da senhora a quem a vida estava a correr mal e que precisava de uma ajuda. Da segunda, pareceu-me reconhecer aquela cara e aquela voz, e tive a certeza quando a história que a senhora estava a contar estava a ser contada exactamente da mesma maneira que da primeira vez. Da terceira vez, ontem de manhã, apenas reparei que a mesma senhora estava bastante bem vestida e arranjada e já nem a deixei começar a contar a história da desgraçadinha com que me enganou da primeira vez. Tocar à mesma porta duas vezes pode acontecer. Tocar à mesma porta três vezes já me parece desleixo. 

10 de dezembro de 2008

HUMOR INGLÊS DO NORTE

Um maravilhoso exemplo de humor inglês a propósito de si próprio: 

STOICISM is something the British are world-famous for. They carry on; they make do; they seldom complain, but form an orderly line to take whatever Fate may throw at them. At very bad moments—the Blitz, for example—they laugh and tell jokes against the enemy. Modern Britons are by and large a feebler and non-queuing race, as hedonistic, wasteful and complaining as anyone else; but the stereotype persists, and a moment of crisis is sure to bring it out again. For the British are subject to two utterly random forces that regularly test their stoicism and their patience: the weather and the buses.

The weather and the buses are known to be in league with each other. The worse the one, the fewer of the other, and the more dismal life in general.

15 MINUTOS DE FAMA

O restaurante ao pé de minha casa onde por vezes almoço estava hoje mais vazio do que é habitual e sem razão aparente (acabou por encher mas mais tarde, quando eu já me estava a vir embora). Talvez por só lá estar eu e as empregadas tenha sido tão curioso vê-las a correrem entre a porta e o balcão, para irem buscar papel, uma caneta, um telemóvel para tirar uma fotografia. Motivo? A presença do outro lado da rua do cantor Mickael Carreira. Diz a gerente a uma das empregadas toda contente por ele lhe ter dado um beijinho: "hoje nem lavas a cara". Diz o cozinheiro que veio cá fora ver o que se passava: "Olha o carro dele, é um BMW 318, sim senhor". Diz um dos empregados: "Vais pedir-lhe um autógrafo? Aos bombeiros e aos polícias é que devias pedir autógrafos, eles é que são os heróis."

9 de dezembro de 2008

CTT

Estou na estação de correios das Picoas, à espera da minha vez de ser atendido, quando ouço a voz de característica alfacinha, como quem apregoa limões na rua, de uma das funcionárias a explicar a um cliente (não sei de que sexo): "Isto não é assim que se faz. Estou eu para aqui a explicar como é que se faz e nem sequer está a prestar atenção".

8 de dezembro de 2008

727

A senhora entra no 727 na paragem quase à esquina da Braancamp com a Alexandre Herculano. É uma senhora obesa, que tem de se agarrar ao corrimão da porta para subir para o autocarro, com sacos na mão. O autocarro está relativamente vazio e há bastantes lugares, inclusive de acesso mais fácil, mas percebo logo que a senhora se quer sentar no lugar da frente do lado direito, por cima da roda, onde vou sentado. A senhora deixa-se ficar ali ao pé, agarrada ao varão, e começa a falar sozinha, que gostava mais de se sentar naquele lugar, dá-lhe mais jeito por causa dos sacos, mas não faz mal, vai de pé. Aproxima-se a paragem do Rato, onde vou sair, e quando me levanto a senhora faz o jogo todo, "não se levante por minha causa, deixe-se estar". Respondo-lhe: "Vou sair na próxima paragem, mas se a senhora não se quisesse sentar neste lugar não estava para aí a falar." 

IT'S HAPPY HOUR AGAIN

Alguém sabe explicar porque é que a música de fundo no Corte Inglés esta manhã (que, ainda assim, faz uma refrescante variação das habituais músicas natalícias) era o "best of" dos Housemartins? (E não, eu não andei ao consumismo natalício. Foi mesmo trabalho.)

7 de dezembro de 2008

AS MADALENAS DE PROUST

De repente, sem aviso prévio, há um pequeno momento do quotidiano que ressurge e me recorda daquilo que ficou irremediavelmente perdido para trás no tempo. Como o puré de feijão branco que fiz esta noite para o jantar e cuja primeira colher me recordou inevitavelmente do puré de feijão encarnado com esparguete que era uma sopa clássica de Inverno lá em casa. A par dos escalopes de peru com cogumelos e molho de natas, do caldo de carne com grão e dos panados de peru como nunca comi em nenhum restaurante. Gostos que passaram a ser madalenas de Proust, perdidas nos arquivos da memória até algo surgir para os reacordar. 

DRIBLE

Estava o televisor a dar o Marítimo-Benfica e de repente vejo o meu gato Diogo, que um minuto antes estava sossegadinho sentado em frente ao aquecedor, a tentar agarrar a bola no écrã. 

26 de novembro de 2008

MÉDICO DE FAMÍLIA

No meio disto tudo, o despertador toca com a TSF, e a rubrica do "Médico de Família". Agora vejam lá o que é acordar com este frio todo e um médico a falar todo lampeiro do cancro do testículo e da sua posição no escroto. 

25 de novembro de 2008

O ELEFANTE NA LOJA DE PORCELANAS

Ao longo da última semana, o assunto tem sido uma espécie de elefante na loja de porcelanas — parado para que qualquer movimento não dê cabo das fragilidades à volta — mas não há realmente volta a dar-lhe e as palavras também não conseguem transcrever as emoções. 

Os dias têm corrido atordoados, estranhamente distantes, como se houvesse um vazio invisível que não se consegue explicar nem descrever. 

24 de novembro de 2008


Belmira de Almeida Veríssimo Mourinha
5 de Novembro de 1929—18 de Novembro de 2008

Há uma semana, o mundo mudou sem que nada o fizesse prever — e sem sequer parecer que mudou. 

17 de novembro de 2008

O MÊS DO CORAÇÃO

OK, eu sei que muitas vezes as máquinas de venda que se encontram nos hospitais não se destinam aos doentes, que têm a sua própria dieta fornecida pelo catering do hospital. Mas não deixa de ser irónico que todas elas tenham os habituais chocolates, bolos, snacks, pacotes de batatas fritas e outros paradigmas da junk-food que os médicos passam o tempo a desaconselhar.

12 de novembro de 2008

HAVIA UMA CANÇÃO DOS STARSHIP CHAMADA "SARA"

...mas não me parece que fosse dedicada a Sarah Palin. Enquanto David Lavery se indigna com a defesa da Barbie do Alasca por figura tão icónica como Camille Paglia, a Economist desta semana traz um artigo bem interessante sobre a possibilidade da moça se candidatar a Presidente em 2012, com esta frase maravilhosa:

Barely two months ago, she was virtually unknown outside Alaska. Now she has supplanted Hillary Clinton as the most divisive woman in American politics. Democrats advertise their contempt for her with “Mooselini” T-shirts and “Bro’s before Ho’s” badges. Feminists revile her in language they would hesitate to use about a man.

758

No 758 na Estrada de Benfica, entra uma senhora de cabelo ruivo e voz rouca, arrastada, que se senta em frente a uma jovem com um bebé, faz alguns elogios à criança e, sem que ninguém tivesse metido conversa, começa a contar a história da sua vida à senhora idosa que está sentada ao seu lado, que ouve com atenção mas não mete prego nem estopa na conversa. 

Saio no Rato e a senhora continua a contar a história da sua vida. 

11 de novembro de 2008

FRAGRÂNCIAS PRIMAVERIS

Porque carga d'água é que a maior parte dos elevadores do metro de Lisboa têm aquele peculiar cheiro a urina velha, como se alguém que não tomasse banho ou usasse regularmente uma casa de banho lá tivesse morado durante semanas?