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8 de dezembro de 2008

727

A senhora entra no 727 na paragem quase à esquina da Braancamp com a Alexandre Herculano. É uma senhora obesa, que tem de se agarrar ao corrimão da porta para subir para o autocarro, com sacos na mão. O autocarro está relativamente vazio e há bastantes lugares, inclusive de acesso mais fácil, mas percebo logo que a senhora se quer sentar no lugar da frente do lado direito, por cima da roda, onde vou sentado. A senhora deixa-se ficar ali ao pé, agarrada ao varão, e começa a falar sozinha, que gostava mais de se sentar naquele lugar, dá-lhe mais jeito por causa dos sacos, mas não faz mal, vai de pé. Aproxima-se a paragem do Rato, onde vou sair, e quando me levanto a senhora faz o jogo todo, "não se levante por minha causa, deixe-se estar". Respondo-lhe: "Vou sair na próxima paragem, mas se a senhora não se quisesse sentar neste lugar não estava para aí a falar." 

IT'S HAPPY HOUR AGAIN

Alguém sabe explicar porque é que a música de fundo no Corte Inglés esta manhã (que, ainda assim, faz uma refrescante variação das habituais músicas natalícias) era o "best of" dos Housemartins? (E não, eu não andei ao consumismo natalício. Foi mesmo trabalho.)

7 de dezembro de 2008

AS MADALENAS DE PROUST

De repente, sem aviso prévio, há um pequeno momento do quotidiano que ressurge e me recorda daquilo que ficou irremediavelmente perdido para trás no tempo. Como o puré de feijão branco que fiz esta noite para o jantar e cuja primeira colher me recordou inevitavelmente do puré de feijão encarnado com esparguete que era uma sopa clássica de Inverno lá em casa. A par dos escalopes de peru com cogumelos e molho de natas, do caldo de carne com grão e dos panados de peru como nunca comi em nenhum restaurante. Gostos que passaram a ser madalenas de Proust, perdidas nos arquivos da memória até algo surgir para os reacordar. 

DRIBLE

Estava o televisor a dar o Marítimo-Benfica e de repente vejo o meu gato Diogo, que um minuto antes estava sossegadinho sentado em frente ao aquecedor, a tentar agarrar a bola no écrã. 

26 de novembro de 2008

MÉDICO DE FAMÍLIA

No meio disto tudo, o despertador toca com a TSF, e a rubrica do "Médico de Família". Agora vejam lá o que é acordar com este frio todo e um médico a falar todo lampeiro do cancro do testículo e da sua posição no escroto. 

25 de novembro de 2008

O ELEFANTE NA LOJA DE PORCELANAS

Ao longo da última semana, o assunto tem sido uma espécie de elefante na loja de porcelanas — parado para que qualquer movimento não dê cabo das fragilidades à volta — mas não há realmente volta a dar-lhe e as palavras também não conseguem transcrever as emoções. 

Os dias têm corrido atordoados, estranhamente distantes, como se houvesse um vazio invisível que não se consegue explicar nem descrever. 

24 de novembro de 2008


Belmira de Almeida Veríssimo Mourinha
5 de Novembro de 1929—18 de Novembro de 2008

Há uma semana, o mundo mudou sem que nada o fizesse prever — e sem sequer parecer que mudou. 

17 de novembro de 2008

O MÊS DO CORAÇÃO

OK, eu sei que muitas vezes as máquinas de venda que se encontram nos hospitais não se destinam aos doentes, que têm a sua própria dieta fornecida pelo catering do hospital. Mas não deixa de ser irónico que todas elas tenham os habituais chocolates, bolos, snacks, pacotes de batatas fritas e outros paradigmas da junk-food que os médicos passam o tempo a desaconselhar.

12 de novembro de 2008

HAVIA UMA CANÇÃO DOS STARSHIP CHAMADA "SARA"

...mas não me parece que fosse dedicada a Sarah Palin. Enquanto David Lavery se indigna com a defesa da Barbie do Alasca por figura tão icónica como Camille Paglia, a Economist desta semana traz um artigo bem interessante sobre a possibilidade da moça se candidatar a Presidente em 2012, com esta frase maravilhosa:

Barely two months ago, she was virtually unknown outside Alaska. Now she has supplanted Hillary Clinton as the most divisive woman in American politics. Democrats advertise their contempt for her with “Mooselini” T-shirts and “Bro’s before Ho’s” badges. Feminists revile her in language they would hesitate to use about a man.

758

No 758 na Estrada de Benfica, entra uma senhora de cabelo ruivo e voz rouca, arrastada, que se senta em frente a uma jovem com um bebé, faz alguns elogios à criança e, sem que ninguém tivesse metido conversa, começa a contar a história da sua vida à senhora idosa que está sentada ao seu lado, que ouve com atenção mas não mete prego nem estopa na conversa. 

Saio no Rato e a senhora continua a contar a história da sua vida. 

11 de novembro de 2008

FRAGRÂNCIAS PRIMAVERIS

Porque carga d'água é que a maior parte dos elevadores do metro de Lisboa têm aquele peculiar cheiro a urina velha, como se alguém que não tomasse banho ou usasse regularmente uma casa de banho lá tivesse morado durante semanas? 

10 de novembro de 2008

SENTINELA

No metro do Marquês de Pombal para o Colégio Militar, a porta que dá para a cabine de condução da carruagem está aberta, coisa rara nunca vista, com um outro funcionário de pé, encostado a ela, mantendo-a aberta para que ela não esteja sempre a bater com as curvas e contra-curvas do percurso. Nas Laranjeiras, o funcionário sai e regressa instantes depois com um dos seguranças de serviço ao metro, a quem explica a situação e pede para o substituir na posição de "sentinela" — presumivelmente para garantir que ninguém entra na cabine ou tenta desviar o comboio. 

9 de novembro de 2008

MÃE HÁ SÓ UMA

Aquela que, pelo meio do sofrimento das suas dores e da sua preocupação, é capaz de ouvir um espirro e parar por um instante a sua ladaínha para reconfortar o filho: "Pois! Quem é que te mandou a ti cortares o cabelo dessa maneira em pleno Inverno? Agora estás constipado. É bem feito. Nunca ouvem a mãe, é o que é."

5 de novembro de 2008

"I NEVER LIKED BLIND FAITH IN THE FIRST PLACE, AND MARIJUANA MAKES EVERYTHING SOUND LIKE FAD GADGET AND THE FALL"

No espaço de dois parágrafos, num texto "menor", o rapaz dá cabo dos paradigmas de "gosto" e "elitismo", e consegue ser ao mesmo tempo sensato e provocador. Leiam e aprendam. 

[...] listening to music recorded 20, 30 years ago is not living in the past, is not nostalgia. According to my dictionary, nostalgia is "homesickness... a longing for something far away or long ago or for former happy circumstances." The truth is that that the Sixties, not to mention the Fifties, sucked in the first place and you wouldn't like it if you were back there in a time when people did things like informing you you were mentally ill or worse if you didn't wanna take a toke on the doob. [...] No one in his right mind would want to return to either of those eras, which is why the lie in rosy confections like Grease and Beatlemania is despicable. But preferring Hank Williams or Charlie Parker or the Sun Sessions or the Velvet Underground to Squeeze and Rickie Lee Jones and the Go-Gos and the Psychedelic Furs is not nostalgia, it's good taste. Just like listening to Beck, Bogert & Appice or Clock DVA and the Fall are bad taste. So I'll take my bad taste and you're welcome to yours, and maybe someday something will actually happen again and then we'll both be happy.

[...] I asked my friend James Marshall if he thought the current dismal state of music was likely to improve. "No," he said. "It's got to get worse, because everybody's into their own thing and doesn't wanna know. Pretty soon every band will have no more than three fans, and nobody will even have any friends. Then after that you'll start resenting the other guy because he likes the same thing you like: it's your turf! How dare he encroach? So then people will start killing each other for appropriating each other's musical tastes and thus infringing on the neighbor's hipness space. How can you be smug about being the only person in the world cool enough to appreciate some piece of New Wave shit, or a blues band or arcane jazz artist for that matter, if you find out somebody else likes it? Don't dare tell 'em! Don't even tell your wife or girlfriend! Keep it safe inside your Walkman!" 

Lester Bangs. Em 1982. 

4 de novembro de 2008

DIA DE ELEIÇÕES

Já nem falo do interesse que as eleições presidenciais americanas têm gerado em todo o mundo: nos próprios EUA, e independentemente do resultado, os americanos têm ido às urnas como nunca antes. Tenho estado a acompanhar o processo no blog do comentador Andrew Sullivan, The Daily Dish, que hoje "abriu" o blog aos seus leitores para eles contarem as suas experiências de votação ao longo do dia. E é inevitável perceber que algo de histórico se está a passar do lado de lá do Atlântico.  

1 de novembro de 2008

A REVISTA DA QUALIDADE

Entre a quantidade de suplementos e revistas que enchem os jornais de sexta-feira e de fim-de-semana, vinha esta sexta a Revista da Qualidade, com uma fotografia de Isaltino Morais na capa e o título muito apelativo "O Centro de Arte Manuel de Brito é um pólo gerador de novas sinergias culturais e turísticas".

Não ficaram com vontade de ler o resto da revista? 

31 de outubro de 2008

A INSUSTENTÁVEL SAGEZA DO FELINO

Eles sabem.

cat

mais, muito mais gatos aqui. Hours of fun for all the family!

EU NÃO ERA ASSIM QUANDO TINHA A IDADE DELES

Por vezes, almoço no Pizza Hut da Álvares Cabral, que costuma oferecer um buffet de pizzas que é uma opção porreira para almoçar sem gastar muito dinheiro. O problema essencial de almoçar ali — e a razão porque vou lá tão pouco — é a presença de quantidades absurdas de tinaigeres inconscientes, presumo que oriundos do Pedro Nunes, que aproveitam a situação exactamente pela mesma razão que eu: almoça-se sem gastar muito dinheiro. 

Hoje, por exemplo, estariam facilmente para aí uns trinta miúdos a almoçarem ali, comportando-se como se estivessem em casa deles ou numa festa de liceu, gritando uns com os outros, rindo alarvemente, dando-se encontrões ou impedindo um outro de se servir, correndo para o buffet assim que as pizzas saidas do forno eram colocadas e acotovelando-se como na entrada para um concerto de rock, fazendo fila para pagar e "roubando" uma fatia para irem a comer num guardanapo até ao liceu. 

A maior parte dos adultos que ali estavam a almoçar — desde professores do João de Deus a funcionários dos bancos e das empresas que rodeiam o restaurante — olhavam para eles com um misto de enfado e desinteresse e concentravam-se no seu próprio almoço, mesmo que ficassem irritadíssimos sempre que eles se precipitivam para o buffet e impediam os restantes comensais de lá chegar. 

Ficou-me na imagem uma miúda que sempre que ia buscar uma fatia descobria que os colegas já tinham esvaziado a forma da pizza que ela queria e que voltava para a mesa a resmungar enquanto se ria: "eles não me deixam nada!". 

29 de outubro de 2008

CONSTATAÇÃO

O salário mínimo nacional não chega aos 500 euros e as pequenas e médias empresas dizem que se o governo o aumentar vão ser obrigados a despedir contratados a prazo. Posto desta maneira, vejo para as pequenas e médias empresas um sério problema de imagem a muito curto prazo.

28 de outubro de 2008

A BEM DIZER

Dois velhotes encontram-se no 709 e um deles diz ao outro: "já me viu este tempo? isto até parece Inverno..." Pois... até parece que Outubro é o pino do Verão...

709

Quase 20 minutos à espera do autocarro e aparecem dois de seguida.

23 de outubro de 2008

SONÍFERO

O Valdispert pode ser (é) muito bom, mas não há como um bom livro e uma chávena de leite quente quando nos enroscamos nos lençóis para uma boa noite de sono. Se houver um gato por ali a enroscar-se aos pés da cama melhor ainda. 

SEMÁFORO

Porque é que os idosos lisboetas adoram atravessar ruas o mais pacatamente que lhes é possível com o sinal vermelho para os peões e ainda resmungam quando os condutores apitam, como se as ruas fossem para eles? 

22 de outubro de 2008

TEMPO

É uma das coisas boas de fazer uma pausa no ritmo louco diário das coisas: pode-se tirar tempo para pensar um bocadinho no porquê e no como.

BLOGAR OU NÃO BLOGAR, EIS A QUESTÃO

Este blog tem andado razoavelmente sossegado, não por má vontade, não por falta de paciência, um pouco por falta de tempo e bastante por muito trabalho. Dito isto, há alturas em que me dá mais vontade de blogar que outras mas não há grande assunto, e outras em que há assunto a dar com um pau e eu não tenho tempo, é a cena do costume, preso por ter cão, preso por não ter. Isto tudo vem a propósito do ensaio de Andrew Sullivan na Atlantic deste mês precisamente sobre blogar ou não blogar, e da video-conversa de Sullivan com Marc Ambinder a propósito de blogar a dar com um pau. Em quaisquer dos casos, vale a pena parar o resto tudo e prestar atenção ao homem. 

16 de outubro de 2008

16/10/2008: TP 355 LHR 11h40-LIS 14h10

O regresso a Lisboa sai à hora marcada e chega à hora marcada. Em vez de almoço, servem uma sanduíche quente de carne assada com ananás (o ananás ficou na embalagem, que meter fruta numa sanduíche quente de carne assada é anátema); o inglês com ar de bulldog que vai à janela pede um copo de vinho branco a acompanhar, coloca o tabuleiro da refeição na mesinha do assento vazio entre nós os dois, e dorme a sono solto pelo meio de um breve momento de turbulência. 

Duas filas à frente, uma senhora idosa chama a hospedeira e diz resmungando que tem de mudar de lugar porque ficou na coxia e já teve de se levantar duas vezes para deixar o senhor que vai à janela ir à casa de banho e não está para isso e quer mudar de lugar para uma das filas vazias atrás de mim. Tudo isto com a maior educação mas com uma frieza de cortar à faca e um tom geral de "comigo ninguém brinca porque eu vivi a guerra e meninas como você como-as todos os dias ao pequeno-almoço". Do outro lado da minha fila, uma outra senhora inglesa idosa liga a intervalos regulares uma pequena ventoinha a pilhas que faz um barulho irritante. 

OLHA O BELO HOTEL LONDRINO

Sim, eu sei que os conceitos de "belo hotel" e Londres são um bocado complicados de juntar na mesma frase, a não ser que se pague uma pequena fortuna. O Courthouse é um desses "boutique hotels" tão na moda, com relativamente poucos quartos mas muito bem acabados (apesar de eu achar que o chuveiro da maravilhosa casa de banho era complicado de regular), e extraordinariamente bem localizado na Great Marlborough Street, à esquina de Regent Street e de Oxford Circus, logo em frente a Carnaby Street. Rodeado por um porradão de restaurantes, desde o Ping Pong (dim sum de manhã, à tarde e à noitinha, do meio-dia à meia-noite) ao O'Neil's (pub irlandês para os fãs de Guinness), ao lado dos canais de cabo Turner, da Sony Computer Entertainment e da empresa de efeitos especiais Framestore, e a dois passos do Soho. O hotel é um velho tribunal convertido (foi ali que Charles Dickens acompanhou julgamentos...) e um dos restaurantes (onde é servido o pequeno-almoço) está instalado na sala de audiências original (havia salmão fumado e uma cozinheira a fazer omeletes à la carte, mas a escolha de pães era fraquinha). E foi uma das melhores camas em que já dormi num hotel inglês. (Melhor mesmo só a do Metropole em Brighton há qualquer coisa como 12 anos, mas provavelmente hoje já não é o que era.)

Claro que depois é uma chatice que estas viagens-relâmpago em trabalho não dêem tempo para andar a passear por Londres. Mas, por outro lado, ainda bem: é que ao preço a que as coisas estão não há orçamento que resista em Londres.

15 de outubro de 2008

PEQUENA CONSTATAÇÃO (não exclusivamente londrina)

O Starbucks é o novo McDonald's, só que com café em vez de hamburgers. 

(E aquele malfadado "chocolate caramel shortbread" em que me ficou o olho e que não descansei enquanto não provei e não lambi todas as 470 calorias que contém é tão hedonista que devia ser proibido.)

HEATHROW CONNECT

Viajo de Heathrow para o centro de Londres no Heathrow Connect, um dos dois serviços de comboio rápido que liga o aeroporto à estação de comboios de Paddington (pára em meia-dúzia de estações suburbanas, mas é muito mais barato que o serviço non-stop Heathrow Express e leva metade dos 50 minutos da viagem de metro), e descubro que afinal os portugueses não são os únicos que contam a sua vida ao telemóvel nos transportes públicos para toda a gente ouvir, mesmo aqueles que não querem. 

Na fila atrás de mim, um homem passa os 25 minutos da viagem a falar dos problemas familiares com um/a irmã/o que anda a querer forçar não-sei-o-quê com os pais mas não se dá sequer ao trabalho de os ir visitar ou coisa que o valha. A verborreia apenas é interrompida quando ele se debruça sobre a fila para me perguntar "excuse me, is this train going into London?" e para me agradecer a resposta positiva com um coloquial "cheers". Quando uma jovem entra numa estação mais à frente e se senta à minha frente com um livro na mão, quando percebe que o homem não se cala lança-lhe um olhar desaprovador (daqueles muito ingleses) e tenta concentrar-se no livro.

15/10/2008: TP 354 LIS 08h10-LHR 10h50

Supostamente, o vôo estaria a sair a esta hora mas ainda há gente a entrar e o comandante perde cinco minutos a explicar ao intercomunicador (primeiro em português e depois em inglês) que o atraso se deve a dois passageiros que vêm do Senegal num vôo atrasado, e que foi preciso tirar as suas bagagens do porão; mas também (e, tenho eu cá para mim, sobretudo) que a empresa de logística estava com "dificuldades" (eufemismo que eu entendi como pouco pessoal ou pessoal insuficientemente treinado). Já no autocarro que leva da porta de embarque ao avião, enquanto esperávamos pela partida, se ouvia no intercomunicador um supervisor enfadado por ter de explicar três vezes à/ao colega que "aqui cada um fala na sua vez senão ninguém se entende". 

O vôo é sossegado, até porque ainda é cedo e a maior parte das pessoas vem meio ensonada (ao meu lado, um casal brasileiro dorme a sono solto a maior parte do tempo). Saímos com 20-25 minutos de atraso e aterramos com outro tanto de atraso, depois de termos de estar a fazer tempo às voltinhas sobre Londres à espera do OK para aterrar. Nas últimas três filas de um dos lados do avião, uma senhora viaja esticada numa maca colocada por cima das cadeiras, com soro e oxigénio, acompanhada por uma enfermeira, ambas mordiscando meio distraídas a sanduíche de carne assada do pequeno-almoço. Quando aterramos, a hospedeira diz que é uma hora a mais em Londres do que em Lisboa e dois minutos depois, depois de um colega lhe ter chamado a atenção, vem corrigir e dizer que afinal não, Londres está na mesma hora de Lisboa. 

14 de outubro de 2008

É POR ESTAS E POR OUTRAS QUE A RÁDIO ANDA COMO ANDA

Hoje de manhã, a TSF anuncia que Aimee Mann toca no Coliseu de Lisboa no sábado e traz na bagagem um novo álbum (como pronunciar @#%&*! Smilers é difícil e fica mal dizer em público o Fuckin que aquelas sinalefas são supostas representar, o locutor de serviço disse apenas Smilers).

E o que é que se ouviu logo a seguir a este anúncio? "Wise Up", da banda-sonora de Magnolia. Que tem quase dez anos. 

10 de outubro de 2008

ALGUNS PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS DOS ÚLTIMOS DIAS

- Liceais inconscientes que vão ao supermercado da esquina comprar sanduíches, sumos e bolos para um almoço improvisado nas entradas dos prédios e depois deixam o lixo todo à porta como se não fosse nada com eles.

- Almoços de "empresa" ou de "colegas" que são sempre mais do que as mães, empatam imenso o serviço e fazem imenso barulho nos restaurantes.

- Tias que vão a passear tão descontraidamente ao lado umas das outras em passeios estreitos e não deixam ninguém passar, obrigando as pessoas a atirarem-se para a estrada.

- Senhoras de meia-idade que passam dez minutos no multibanco a pagar contas e levantar dinheiro e quando dão por elas têm atrás filas de cinco e seis pessoas à espera de usar a caixa.

- Telefonistas de call centers que nos ligam para casa à hora do jantar.

- Bifes bêbados que cantam êxitos dos Queen em altos berros no meio das Docas.

(sim, estou numa fase misantropa)

7 de outubro de 2008

DEFESA PESSOAL

Acabo de ver na RTP-N que em Estarreja existe um curso de defesa pessoal para idosos que tem sido muito útil para gerir o stress. 

4 de outubro de 2008

VERÃO É QUANDO UM HOMEM QUISER (OU PDC DO DIA)

Mais pop que os Fountains of Wayne é impossível.



Fountains of Wayne, "Radiation Vibe" (in Fountains of Wayne, Atlantic 1996)



Fountains of Wayne, "Denise" (in Utopia Parkway, Atlantic 1999)



Fountains of Wayne, "Stacy's Mom" (in Welcome Interstate Managers, S-Curve 2003)



Fountains of Wayne, "Someone to Love You" (in Traffic and Weather, Virgin 2007)

1 de outubro de 2008

Ó SR. PRIMEIRO-MINISTRO

Sabe que mais? Eu cá acho que essa história do Simplex é uma treta, porque nesta altura do campeonato estou a perceber que está a ser mais difícil provar que sou um contribuinte responsável e que um pagamento foi efectivamente feito do que teria sido resolver a situação se não tivesse efectivamente pago. São pequenas situações como estas, em que os sistemas informáticos pura e simplesmente não comunicam entre si, que dão mau nome às Finanças, apesar do atendimento que me foi prestado (registe-se o nome: Susana Gonçalves) ter sido absolutamente exemplar de cortesia e diligência. Simplex? Like hell it is! 

30 de setembro de 2008

SYNCHRONICITY

Li isto ontem à noite e bate muito certo com tudo o que está a acontecer nos EUA. 

I said to Andy that I'd foreseen the seam-ripping of America's frayed old frock coat, and I added: "I supposed it couldn't be otherwise..." and she said "Democracy won't work, it's a shame but it just won't work" and I said, "The reason it's falling apart this way is that the people of America have been living in the past too long... For too long we've broadcasted the American Dream on all networks as gospel and everybody's been content... living in the past... The nation is falling now because its people haven't been able to face it when the granite thunderbolt plows square into their upper plates, that the American Dream is only a dream, and that the American Reality is imperative, a powder-keg situation."

Estas palavras foram escritas pelo lendário crítico de rock Lester Bangs para um manuscrito autobiográfico que nunca viu a luz do dia. Foram publicadas pela primeira vez em 2003, na antologia Mainlines, Blood Feasts and Bad Taste (Londres: Serpent's Tail, 2003) organizada por John Morthland, num de três "fragmentos" dessa autobiografia inédita. 

Foram escritas em 1968, o ano de todas as revoluções, em resposta às mortes de Andy Warhol e Robert Kennedy. 

26 de setembro de 2008

O INFERNO E NOVA IORQUE

Já me tinha esquecido como isto é brutal. Tem, além do mais, Emma Thompson (volta, tudo te está perdoado) e o grande Jeffrey Wright (quando é que lhe dão um papel decente num filme a sério?). E, hoje, vejo muito mais em Anjos na América do que vi há cinco anos. 

19 de setembro de 2008

CALME, LUXE ET VOLUPTÉ

Mais charme do que isto é impossível.



Roxy Music, "More than This" (in Avalon, EG/Polydor 1982)



Roxy Music, "Avalon" (in Avalon, EG/Polydor 1982)



Bryan Ferry, "Slave to Love" (in Boys and Girls, EG 1985)



Bryan Ferry, "Will You Love Me Tomorrow" (in Taxi, Virgin 1993)



Bryan Ferry, "Mamouna" (in Mamouna, Virgin 1994)

17 de setembro de 2008

A GAIVOTA

Será que a célebre canção da gaivota revolucionária da Ermelinda Duarte, "Somos Livres", era uma espécie de versão nacional-cançonetista-politicamente-correcta (ai aquele Mellotron...) do "Jonathan Livingston Seagull" de Neil Diamond? 

11 de setembro de 2008

TOPONÍMIA

Há algumas coisas que eu não compreendo muito bem e a toponímia é responsável pela maior parte delas. Como, por exemplo:

- onde é que Almada começa e Pragal acaba, e vice-versa?
- porque é que uma rua perfeitamente normal, que tem os números ímpares de um lado e os pares do outro, vê a numeração par "saltar" de repente para a rua do lado nas traseiras dos prédios ímpares?
- porque é que as tesourarias das repartições de finanças nunca ficam na mesma porta das repartições propriamente ditas, mas sempre duas portas acima ou abaixo?
- porque é que há avenidas mais estreitas que algumas ruas?

8 de setembro de 2008

4 de setembro de 2008

Ó FREGUESA

A cigana idosa, vestida de preto, desce a avenida nesta manhã cinzenta e chuvosa a vender panos com uma trouxa à cabeça, oferecendo a mercadoria às mulheres que vão subindo a avenida. Uma jovem negra faz que não com a cabeça e, para sua surpresa, vê a cigana idosa dizer-lhe umas quantas que estou demasiado longe para ouvir (mas onde noto um nítido aumento do volume de som na sua voz) e às quais apenas é capaz de responder "está parva!". Depois deste episódio, as duas continuam como se nada fosse. 

3 de setembro de 2008

ACREDITAR NO PAI NATAL

Vejo no Telejornal que o Millennium BCP tem uma rede de bancos na Polónia chamada Millennium Bank, com o mesmo logotipo e imagem gráfica da rede portuguesa. Espero apenas que os empregados do banco sejam mais bem-educados do que o que me coube em sorte ontem e que não primava pela cortesia — eu compreendo que seja muito chato responder a perguntas difíceis a meia-hora do fecho da agência mas daí a pôr-me fora de mim ao ponto de eu me vir embora antes que dissesse qualquer coisa menos feliz garanto-vos que não acontece muito. Talvez não me devesse surpreender — afinal Portugal é um país pouco dado ao serviço em pessoa ao cliente, tal a quantidade de balconistas que têm um ar de quem quer estar em qualquer lado menos ali — mas de vez em quando há casos assim.

31 de agosto de 2008

ATÉ NA FÍSICA HÁ MACHISMO

Estava eu muito sossegadinho a ler sobre as experiências científicas que acabaram de identificar a existência da célebre "matéria negra" quando apanho com esta fantástica designação: 
According to one model, dark matter may be comprised of exotic sub-atomic "stuff" known as Weakly Interacting Massive Particles (WIMPS).
Others hold that the dark substance consists of everyday matter, rather than some elusive sub-atomic particle. However, this ordinary matter, referred to as Massive Astrophysical Compact Halo Objects (MACHOS), happens to radiate little or no light.

24 de agosto de 2008

PDC DO DIA

Quando eram bons, eles eram, mesmo, muito bons.



Echo & The Bunnymen, "Bring On the Dancing Horses" (do álbum Songs to Learn & Sing, Korova/WEA, 1985; video dirigido por Anton Corbijn)



Echo & The Bunnymen, "The Game" (do álbum Echo & The Bunnymen, WEA, 1987; video dirigido por Anton Corbijn)

22 de agosto de 2008

MÚSICA NO GINÁSIO #33

Não há ninguém capaz de escrever sobre as neuras como se fosse uma canção do Elton John dos bons tempos como Aimee Mann, que cada vez mais parece que devia ter nascido nos anos 1970, tal é a afinidade sonora com os grandes singers-songwriters da época. @#%&*! Smilers é outro disco do caraças, e "31 Today" tem uma letra filha da mãe que diz tanto a tanta gente

I thought my life would be different by now
I thought my life would be better somehow
but it's not and I don't know where to turn

E o teledisco até tem um gato.


Aimee Mann, "31 Today" (do álbum @#%&*! Smilers, Superego, 2008)


21 de agosto de 2008

O BELO ACORDO ORTOGRÁFICO

Afinal, não somos só nós que precisamos de um acordo ortográfico

AS MEDALHAS, OS JOGOS OLÍMPICOS E O MIGUEL GASPAR

Queria eu partilhar convosco aqui a fantástica coluna do Miguel Gaspar na última página do Público de hoje, onde ele comenta os desaires recentes da comitiva olímpica portuguesa, mas não posso porque online é só para assinantes. Mas é daquelas que gostava de ter sido eu a escrever.  

20 de agosto de 2008

MÚSICA NO GINÁSIO #32

Parece impossível que eu não tivesse ainda descoberto que o meu bem-amado Etienne Daho tivesse um disco novo com mais de seis meses — afinal, tinha e L'Invitation é um belíssimo álbum de pop clássica que abandona a tendência mais rock do anterior Reévolution para mostrar como o conceito de "cantor de charme" não é incompatível com "pop moderna". Ainda por cima, é um reencontro — com os velhos cúmplices Xavier Géronimi e com os incontornáveis Valentins (aliás Edith Fambuena e Jean-Louis Piérot) que já tinham estado presentes nas obras-primas Paris ailleurs e Corps et armes. É, por trás das melodias aéreas e dos arranjos elegantes, um disco surpreendentemente grave, que tem no sublime "Boulevard des Capucines" uma das mais belas canções dos últimos anos. Não tenho ideia que tenha sido distribuído por cá. 


Etienne Daho, "L'Invitation" (do álbum L'invitation, Capitol, 2007)

19 de agosto de 2008

THE HORROR. THE HORROR

Olha para o que me havia de dar hoje (será da história da senhora que empurrou o ladrão da varanda?).


Duran Duran, "My Own Way" (versão single nunca editada em álbum, EMI, 1981)


Duran Duran, "Planet Earth" (do LP Duran Duran, EMI, 1981)


Duran Duran, "Is There Something I Should Know?" (single nunca incluido em álbum, EMI, 1983)


18 de agosto de 2008

VER OS JOGOS POR UM CANUDO

Anthony Lane, um dos críticos de cinema da revista The New Yorker, foi a Pequim ver os Jogos Olímpicos e o resultado é esta peça absolutamente maravilhosa com um sentido de humor perfeitamente imbatível (um beagle de guarda chamado Snu Pi? Elton John num trampolim?). 

17 de agosto de 2008

A ACADEMIA DOS SONHOS

Efeitos do já célebre PDC: hoje redescobri a obra dos mui esquecidos Dream Academy e descobri que, todos estes anos depois, a magia continua a existir.


"Life in a Northern Town" (do LP The Dream Academy, Blanco y Negro/Warner, 1985)


"Indian Summer" (do LP Remembrance Days, Reprise, 1987)



"Love", versão do tema de John Lennon (do LP A Different Kind of Weather, Reprise 1991)

16 de agosto de 2008

!$%&"$!@!±#! WOT IZ TURKEY SUZPRIZE?


Um é o Diabo da Tasmânia tal como o conhecemos dos cartoons da Warner Bros. dos anos 1940. O outro é a "real thing". Em comum, para além da bocarra e do dentinho afiado, têm o mau feitio: aquela barulheira que o Taz faz quando se atira ao Bugs Bunny é igualzinha à barulheira que os diabos da Tasmânia fazem quando estão a jantar, segundo vi num documentário da National Geographic. A única diferença é que os resmungos e grunhidos que eles fazem não servem para mandarem vir uns com os outros, tipo "desampara-me a loja senão levas nas trombas", mas é mais uma cena sociável, tipo "olha, se faz favor, importavas-te de me passar essa coxa?" ou "então como vai a família?". 

15 de agosto de 2008

CALL CENTER

Já fui contactado três vezes esta semana pela PT Comunicações para me "apresentarem" o serviço Meo. Como disse educadamente à terceira senhora que me telefonou, gostava de tentar perceber porque é que eles não comunicam entre si para deixarem de maçar as pessoas ao fim do primeiro não. E, já agora, alguém que me explique porque é que as senhoras têm esta voz tão melíflua que supostamente deve acalmar e "amolecer" o cliente mas, em vez disso, apenas me consegue irritar e dar vontade de as mandar dar uma volta, mesmo sabendo que a culpa não é delas e que estão apenas a fazer o seu trabalho. 

14 de agosto de 2008

AS TIAS-AVÓS

Muita da frequência na cafetaria do Corte Inglés à hora do almoço são senhoras idosas de porte aristocrático, aspecto elegante e/ou discurso educado, que almoçam juntas ou sozinhas — como as duas senhoras dos seus 60, 70 anos que almoçavam na mesa ao meu lado, que ao longo de uma hora não trocaram absolutamente nenhuma informação pessoal ou familiar. Entre longos silêncios, falaram apenas de duas coisas: dos programas que estavam a dar na televisão (e eram programas dos canais de séries, não dos canais portugueses), e da alegria que lhes deu terem aberto a cafetaria do Corte Inglés por lhes dar um sítio simpático e agradável perto de casa para poderem almoçar e estar juntas sem terem de ficar fechadas em casa. Por vezes, basta ter alguém ao lado para não se estar sozinho.

13 de agosto de 2008

PRAÇA VERMELHA

Muito se tem falado de Moscovo nos últimos tempos - a National Geographic de Agosto traz uma reportagem fascinante sobre a noite da capital russa, assinada pelo romancista Martin Cruz Smith e com fotografias assombrosas de Gerd Ludwig.

O FUTURO DO INGLÊS É O CHINÊS

O coreano Hong Sang-soo chamou a um filme seu "A Mulher é o Futuro do Homem" (depois de ter chamado a outros filmes seus "A Virgem Desnudada pelos Seus Pretendentes" e "O Dia em que o Porco Caiu ao Poço"); o jornalista Michael Erard propõe (na Wired de Julho) que o futuro do inglês é o chinês. Linguistas, tremam. 

OH CARACOL

Vejo numa farmácia um anúncio a um produto cosmético anti-rugas que diz ser feito de "baba de caracol". Depois do Botox, isto não me devia surpreender. 

11 de agosto de 2008

EQUILÍBRIOS PRECÁRIOS #4

D. Noémia regressou ontem a sua casa depois de, ao longo dos dias, se ter progressivamente sentido mais à vontade cá em casa, ao ponto de tomar alguns poisos em comum com D. Diogo, mas mantendo sempre o distanciamento devido a uma diva, incluindo até rosnar ao anfitrião quando este apenas lhe queria fazer uma festinha. No entanto, como a diva é uma senhora, fez o favor de fazer uma turrinha ao anfitrião antes de se ir embora, como quem diz que a hospitalidade, por apenas tolerável que tenha sido, foi bem-vinda. 

D. Diogo retomou o usufruto exclusivo da Mansão Segundo Andar Direito com a mesma calma e descontracção com que recebeu D. Noémia e como se nada se tivesse passado. 

8 de agosto de 2008

VERÃO CONSTRUTIVO

Isto parece-me muito bom e tenho de apanhar o raio do disco o mais depressa possível. De Brooklyn, The Hold Steady, "Constructive Summer". 


7 de agosto de 2008

I VANT TO BE ALÔNE

D. Noémia sente-se já bem à vontade, como se estivesse em casa dela, tendo já encontrado vários cantinhos que lhe permitem enroscar-se, aninhar-se ou observar o que a rodeia. A sua relação com o primo D. Diogo, essa, continua um pouco aos solavancos, até porque o primo continua a achar, face a algumas atitudes um pouco obscuras de D. Noémia, que não percebe as mulheres. 

6 de agosto de 2008

POLAROID: TRIÂNGULO DE SINALIZAÇÃO

A minha rua tem um pequeno problema: é de sentido único, o que implica que, se eu sair com o carro e não tiver lugar à porta, tenho de ir dar uma volta razoável para arrumar nas redondezas. Isto não é por si um problema não se desse o caso de, ao fim da manhã, eu ter entrado na rua e deparado com uma senhora a sair de um monovolume de matrícula francesa para pôr o triângulo de sinalização na rua, senhora essa que depois voltou a entrar no carro para descer a rua. 

Naquele preciso instante, tive uma violenta vontade de sair do carro e insultar a senhora porque o ar displicente com que o triângulo foi colocado deu-me a entender que não havia ali nenhuma avaria nem nenhum problema, apenas a vontade de parar o carro no meio da rua para carregar ou descarregar (passageiros ou objectos, não faço ideia), o que não é necessário porque habitualmente há sempre espaço para parar em segunda fila sem afectar o trânsito. Confirmei-o minutos mais tarde, depois de ter dado a tal volta razoável e de ter arrumado o carro nas traseiras: quando desci a minha rua já a pé, não havia triângulo de sinalização em lado nenhum. 

Também não havia lugares para arrumar, é verdade, mas isso não invalidou o meu mau feitio. 

5 de agosto de 2008

PUT ON YOUR SUNDAY CLOTHES

Amo "O Segredo de um Cuscus", que é um filme extraordinário, mas isto é, até ver, o meu filme do ano. Quando virem (a partir de dia 14), vão perceber. (E, já agora, o filme é ainda melhor do que o trailer - o que, hoje em dia, é só por si um milagre.)

3 de agosto de 2008

AS PALAVRAS DO MESTRE #7: SENSIBILIDADE E BOM SENSO

«Resumamos. Esta rubrica semanal não gostaria de se limitar a registar os sucessos garantidos. Também não tem a pretensão (que seria ridícula) de rever os lugares-comuns críticos. Também não é um índice infalível dos filmes "a ver" ou "a não ver". Simplesmente, falamos dos filmes que nos parecem interessantes por razões que nos agrada discutir com o leitor. Dizer "mal" de um filme não significa de todo que dissuadamos o leitor de o ver; tal como não garantimos que o leitor tenha certamente prazer a ver um outro filme de que dizemos bem, não apenas porque a infalibilidade não é o nosso forte, mas porque esse bem e esse mal não tem muitas vezes nenhuma medida comum. (...) As referências críticas não são as mesmas. Mal falamos da mesma coisa, mesmo que se trate de cinema. Gostaríamos que o leitor não esperasse de nós uma direcção de consciência, nem sequer um catálogo dos filmes a ver, mas simplesmente reflexões sobre acontecimentos cinematográficos que lhe caberá a ele situar relativamente à variedade dos géneros cinematográficos e naturalmente dos seus gostos particulares. Agradecemos-lhe de antemão por isso.»

Estas palavras (traduzidas do francês por moi-même) extremamente sábias e sensatas sobre a crítica (no caso de cinema, mas que são aplicáveis a praticamente tudo, quer seja literatura, televisão, música, teatro, artes plásticas ou outra coisa qualquer) foram lidas na última edição da habitualmente bem intelectual e nem sempre sensata revista francesa Cahiers du Cinéma (nº 636, de Julho/Agosto de 2008). 

Mas não foram escritas hoje, mas sim há 50 anos: mais precisamente em Junho de 1952, por André Bazin, fundador, em 1951, da revista e um dos mais influentes teóricos da arte da crítica. Ao longo de 2008, por ocasião do cinquentenário da morte de Bazin (que faleceu, aos 40 anos, em 1958 e já não teve oportunidade de ver a eclosão, no ano seguinte, do novo cinema francês que seria designado por Nouvelle Vague), a revista tem reproduzido todos os meses um dos milhares de artigos que o crítico publicou em vida mas nunca foram recuperados ou republicados nas várias antologias do seu trabalho.

E a verdade é que a simplicidade e a sensatez do trabalho crítico de Bazin nada tem a ver com muito do que passa hoje por ser "crítica": a simplicidade não implica preguiça, o pensamento não implica intelectualização. É tudo uma questão de sensibilidade e bom senso. Bazin tinha-as, muitos dos seus seguidores nem por isso. 

2 de agosto de 2008

EQUILÍBRIOS PRECÁRIOS #3

D. Noémia continua niilista e refilona, e pregou-me um valente susto quando encontrou um esconderijo tão bom mas tão bom mas tão bom que não só eu não a conseguia encontrar como só depois dos seus legítimos donos terem cá dado um pulo ela se dignou abandoná-lo. Depois da saída dos donos, ela voltou ao seu rosnar de grande felina sempre que alguém se aproxima, mas pelo menos já não se tem escondido debaixo da cama e já tem andado a passear pela casa. 

D. Diogo chegou à conclusão que não vale a pena antagonizar a gata niilista refilona e faz calmamente a sua vida como se não fosse nada com ele. 

1 de agosto de 2008

EQUILÍBRIOS PRECÁRIOS #2

D. Noémia veio passar uns dias a casa do primo D. Diogo mas, pelos vistos, veio contrariada, e tem estado a exibir o seu melhor mau feitio de diva misantropa "I-vant-to-be-alône". Passou a maior parte do dia debaixo da cama improvisada do quarto de hóspedes, rosnando qual leoa a quem ousasse penetrar no seu santuário, e quando finalmente se decidiu a abandoná-lo fê-lo com a vocalização arrepiante de um ninja em formação de ataque, dando uma rápida volta pela casa antes de se refugiar debaixo da cama do quarto, e continuando a rosnar qual leoa. 

O primo D. Diogo mantém-se um cavalheiro imperturbável que ronda a sua prima a tentar acalmá-la. Isto é tudo uma questão de tempo, acho eu. 

27 de julho de 2008

EQUILÍBRIOS PRECÁRIOS

Como se pode ver pela imagem junta, D. Diogo tem uma especial atracção pelo meu ombro (ou, mais precisamente, pelo ombro do meu roupão) sempre que eu saio do banho. 

Tentem lá agora ter um gato de 3,6kg a equilibrar-se nos vossos ombros enquanto estão a fazer a barba.

26 de julho de 2008

SONHOS SONHOS SÃO

A 18 de Setembro de 2007, Randy Pausch, professor de ciência informática na universidade Carnegie Mellon, deu uma palestra inserida na velha tradição académica da "última aula", sobre a importância de ter sonhos e de fazer tudo para os concretizar — e para concretizar os sonhos dos outros também. Esta palestra extraordinária correu mundo, tornou-se num fenómeno viral, levou Pausch ao programa de Oprah Winfrey, transformou-se num livro que vendeu milhões. 


O que diferencia esta palestra de tantas outras? O facto de Pausch ter sido diagnosticado com um cancro pancreático e o de saber, quando deu esta palestra, que era realmente a "última aula" e que os seus dias estavam contados. E, contudo, ao longo dos 75 minutos da aula, é a vida que se celebra a cem por cento. 

A lição é só uma: o único obstáculo aos nossos sonhos somos nós próprios.

Randy Pausch morreu ontem, 25 de Julho de 2008, aos 47 anos. 

19 de julho de 2008

A PROPÓSITO DO NOSSO IMAGINÁRIO CULTURAL

Andava há anos à procura dos álbuns de Luc Orient, uma das personagens que mais retive na memória da velha revista Tintin — uma série de ficção científica que combinava elementos da "space opera" mais tradicional (e muito derivativa de Flash Gordon) com uma abordagem científica mais circunspecta e uma série de visuais psicadélicos muito anos 1970, com argumentos de Greg e desenhos de Eddy Paape. Depois de investigar um bocadinho, lá descobri que a série foi criada em 1967 e deixou-se acabar por 1981, apesar de tentativas pontuais de a retomar, com um total de 18 álbuns publicados em França. 

Que eu me recorde, a edição portuguesa da revista Tintin publicou os primeiros 14 episódios da série, mas em álbum a Bertrand só lançou três (O Senhor de Terango, O Segredo das 7 Luzes — capa em cima — e 24 Horas para o Planeta Terra). E quando comecei à procura dos álbuns em francês, já tinham todos sido descatalogados.

Fiquei, então, muito feliz quando, numa visita à Fnac outro dia, dei lá com o segundo volume de uma "Intégrale Luc Orient" que as edições do Lombard começaram a publicar este ano, em cinco volumes  que reunem a totalidade dos álbuns originais. A Fnac só tinha o segundo, tirei-me de cuidados, liguei-me à net e mandei vir da Fnac francesa os três já publicados, não sem aquela trepidação: será que este fragmento do meu imaginário cultural resistiu ao tempo?

Digerido pacientemente o ciclo de Terango (Os Dragões de Fogo, 1967; Os Sóis de Gelo, 1967, O Senhor de Terango, 1968; O Planeta da Angústia, 1969; e A Floresta de Aço, 1969 — cinco aventuras sequenciais onde os cientistas do laboratório Eurocristal descobrem a existência de uma benfazeja civilização extra-terrestre cujo planeta de origem foi entretanto subjugado por um tirano que pretende atacar a Terra), a resposta é positiva. A meio caminho entre a estranheza poética da ficção científica europeia modelo Druillet/Heavy Metal e a "space opera" mais convencional, a série criava algumas visões verdadeiramente inspiradas, mesmo que aqui e ali os guiões se resolvessem de modo mais atabalhoado (O Planeta da Angústia sobretudo tem problemas sérios). Apesar disso, contudo, parte do charme da série é precisamente esse lado "datado" (hoje em dia dificilmente se faria banda-desenhada de ficção-científica deste modo a um tempo desprendido e inspirado). O contemporâneo Valérian é outra coisa, mas Luc Orient é tão interessante quanto eu me lembrava dele. 

18 de julho de 2008

PERPLEXIDADES

Confesso que continuo sem perceber como é que há quem consiga beber uma imperial ao pequeno-almoço.

15 de julho de 2008

VERÃO POP

Resultado do PDC do dia com o mestre da elegância pop em francês Etienne Daho.


"Tombé pour la France" (single de 1985, do LP Pop Satori, Virgin 1986 - clip realizado por Jean-Pierre Jeunet)



"Comme un Igloo" (do LP Paris Ailleurs, Virgin 1991)


"Les Voyages immobiles" (do LP Paris ailleurs, Virgin 1991 - clip realizado por Michel Gondry)


"Au commencement" (do LP Eden, Virgin 1996 - clip filmado em Portugal por Philippe Gautier)


"Idéal" (do CD Singles, Virgin 1998)


"Retour à toi" (do CD Reévolution, Virgin 2003)

12 de julho de 2008

APRENDER A LIÇÃO

Há coisa de três anos, achei que tinha perdido a carteira. Foi num sábado à tarde, em que depois de ter ido ao supermercado fazer as compras da semana, não conseguia encontrar a carteira em lado nenhum — não estava na mesa onde a costumo deixar, não estava nos bolsos das calças nem dos casacos nem das camisas, não estava caída no chão do corredor, no patamar, no elevador, no átrio, não tinha sido entregue no supermercado, enfim, uma desgraça. 

No dia a seguir, a carteira apareceu — eu tinha estado a procurar fotografias antigas numa caixa que guardo no escritório e, sem eu dar por isso, a carteira tinha ido "de arrasto" para dentro da caixa. 

Isto vem a propósito de eu ter andado dois ou três dias sem saber do meu B. I., que costuma andar sempre comigo mas, desta vez, não estava em lado nenhum nem sequer tinha ficado esquecido num par de calças que foram para lavar. Desta vez, contudo, aprendida a lição do caso anterior, fui a todas as caixas de arrumação em que andei a mexer nos últimos dias — e lá estava o B. I. junto às fotografias. 

7 de julho de 2008

BOMBEIROS MEETS SEINFELD (ou: o carro de George)

Tentava eu arrumar o carro ao pé de casa hoje após o almoço (tarefa quase impossível que me ocupou 30 minutos) quando começo a ouvir um, dois, três carros de bombeiros de sirenes no máximo atrás de mim. Deixei-o passar. Mas qual não foi o meu espanto quando percebi que o carro de bombeiros estava praticamente a fazer o mesmo circuito que eu estava a fazer, só que eu estava a tentar arrumar o carro e ele a tentar descobrir onde raio era o incêndio. Não era num sítio nada óbvio e não fiquei surpreendido por ter levado algum tempo, mas fiquei com pena dos bombeiros que se estavam a tentar equipar dentro do carro enquanto o condutor fazia curvas, contra-curvas e mais curvas à procura da entrada correcta para o dédalo de ruas de sentido único entre a Lapa, a Estrela e São Bento. 

De qualquer maneira eles chegaram ao incêndio a tempo e eu continuei a tentar encontrar sítio para arrumar o carro legalmente. Eles levaram menos tempo que eu. 

4 de julho de 2008

GILLETTE

Sempre detestei fazer a barba porque me chateava sair da cama e cortar-me todo com a lâmina de barbear. O meu irmão sempre me disse que eu devia era fazer a barba depois do banho para não me cortar tanto. Como sou um sacana preguiçoso e o meu bigode sempre foi um tanto ou quanto ralo acabei por deixar crescer a barba, aparando-a a intervalos mais ou menos regulares, até aderir à pêra que, a intervalos irregulares, voltava a ser barba, com a milagrosa ajuda da máquina de barbear eléctrica que, como se confirma, para mim tem mesmo de ser Philishave porque a minha barba não se dá de todo com as Braun. 

Seja como for: tudo isto para dizer que voltei à lâmina de barbear, agora depois do banho. E sim, corto-me menos, mas já me tinha esquecido que quando está na altura de trocar de Gillette continuo a cortar-me. 

30 de junho de 2008

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Vejo o Jornal das 7 da SIC Notícias. Fala-se do aumento dos preços dos transportes públicos (cinco cêntimos na maior parte dos bilhetes) e ouve-se um utente a dizer que este governo está a roubar o país e este povo está muito tolerante. Na peça seguinte, diz-se que os preços das missas e dos sacramentos aumentaram 33% (uma missa que custava €7,50 passa a custar €10) e ouvem-se fiéis a dizer que os padres também precisam de viver e que se toda a gente sobe os preços eles também devem subir. 

MAL EMPREGADA

A loja Ben & Jerry's do Chiado (que como todos sabemos é o equivalente do paraíso, embora eu esteja particularmente descontente por não ter havido nos últimos tempos o pornográfico Oatmeal Cookie Chunk) supostamente funciona em pré-pagamento. Digo supostamente porque jamais nas minhas visitas pós-prandiais ao recinto foi exigido o pré-pagamento — até ao momento em que, na minha mais recente visita, a empregada informou do pré-pagamento quando chegou a nossa vez de ser atendidos, e depois atendeu primeiro um casal que tinha chegado depois. O que não nos deixou, a mim e à Marta, nada satisfeitos, e levou-me a dar na mocinha uma descompostura, civilizada mas descompostura, como já não dava há muito tempo (e que me soube muitíssimo bem, aqui entre nós — será que sou sádico e não sabia?), fazendo-a ver que nós tínhamos chegado primeiro e que, aparentemente, só se lembram do pré-pagamento quando convém aos empregados, e que ela tinha sorte de eu não pedir o livro de reclamações...

...desta vez. Eu sei que há um papel a pedir "colaboradores" na montra da loja (de facto aquilo não deve ser nada bem pago) e que trabalhar ao balcão de uma geladaria está longe de ser o sonho de qualquer um, mas custa tanto fazer bem como fazer mal e, que raio!, fazer um sorriso para os clientes não custa nada. 

26 de junho de 2008

MAL EMPREGADO

Na cafetaria do Corte Inglés, uso o cartão de crédito para pagar o almoço, mas nunca mais mo devolvem e às tantas o empregado vem ter comigo a dizer que o cartão dá erro, porque "ainda não está activo - só começa a 2 de Julho", apontando para a data que está no cartão. Mostro-lhe um talão do cartão da véspera e digo-lhe: "desculpe, mas ainda ontem paguei sem problemas com este cartão. E essa data não é 2 de Julho — é Fevereiro de 2007, que foi quando o cartão entrou em funcionamento". 

Claro que o cartão passou. 

24 de junho de 2008

A FÚRIA DO PANDA

O trailer é tão absolutamente maravilhoso que quaisquer palavras são desnecessárias.

OS PAIS NAO DEVIAM MESMO GOSTAR NADA DELA

Nome da empregada que me atendeu hoje num dos cafés do Picoas Plaza, escrito na conta: Irondina. 

POLAROID

Quando entro no café, a rua estreita de sentido único está semi-entupida por um camião parado em cima do passeio a descarregar andaimes. Isto por si só não entupiria a rua, não se desse o caso de haver três carros estacionados em cima do outro passeio; isto obriga os carros que querem passar a guiarem muito devagarinho para não baterem nem no camião nem nos carros estacionados, mas cria também uma fila de carros que entope o trânsito até à avenida. Há um taxista velhote, cinquentão, que sai do carro exasperado; há um carro da polícia que está também na fila que quer virar. O taxista exasperado barafusta com o pessoal do camião e depois vai falar com os polícias, como quem diz, vocês estão aqui, façam o vosso trabalho.

Quando saio do café, a fila desapareceu, os polícias desapareceram, o taxista desapareceu. Mas o camião ainda lá está. 

18 de junho de 2008

POLAROID: AEROPORTO

Segunda coisa que vejo ao chegar ao aeroporto de Lisboa (porque a primeira foi a fila para o controle de passaportes de cidadãos não-europeus): o mesmo carrocel de bagagem onde vão sair as bagagens do meu vôo recebe as bagagens de um vôo proveniente de Amesterdão que parece ter transportado uma comitiva de... padres católicos. A quantidade de sotainas à espera das malas não engana. 

16/06/2008: US 738 PHL 20h20 - LIS 08h30

Três horas de escala no aeroporto de Filadélfia (porque o vôo de São Francisco chegou antes da hora) deram para perceber que as instalações do aeroporto são muito simpáticas (com cadeiras de baloiço espalhadas pelos corredores, muitas delas junto a tomadas de electricidade que dão para ligar o portátil e aproveitar a internet sem fios que o aeroporto mantém), mas também para confirmar que os controles nos aeroportos americanos são mais rigorosos à entrada do que à saída. Na escala de ida, depois de ter passado o guichet do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras americano, a bagagem de porão tem de ser levantada e reembarcada e temos de voltar a passar pelo controle de segurança; na escala de volta nada disso acontece, é como se fosse uma escala normal em território europeu, sem precisar de levantar e reembarcar a bagagem nem de voltar a passar pela segurança.

Ao contrário do que tem sido habitual, o vôo para Lisboa vem completamente cheio; fico ao lado de um casal que viaja com os filhos adolescentes (que ficaram na fila de trás) e que se pergunta em voz alta quanto português os seus conhecimentos de espanhol lhes vão permitir compreender de uma língua que lhes foi anunciada como uma mistura de polaco e espanhol. Na fila de frente, viaja um casal com três filhos pequeninos; duas filas à frente, um casal com um bebé e uma filha pequena; duas atrás, um casal com um bebé; e o comissário de bordo é o mesmo que apanhei no vôo de Filadélfia para Lisboa, com o mesmo sotaque brasileiro, só que desta vez com o ar enfastiado de quem não tem vontade nenhuma de estar ali. Levámos 40 minutos desde sair da porta de embarque até descolarmos — só por causa da fila de aviões a descolar... — e dormir durante as seis horas de vôo foi mentira, graças aos encontrões das hospedeiras quando passavam pelo meu lugar, às birras das criancinhas ou às visitas ao toilette dos vizinhos de fila. Ou se calhar sou só eu que estava chateado por voltar de férias. 

16/06/2008: UA 184 SFO 9h01 - PHL 17h33

No aeroporto de São Francisco, ao embarque de regresso a Filadélfia, a porta 87 tem um écrã LCD por cima do balcão de embarque que mantém — como deve ser — os passageiros informados do estado do vôo. Não apenas se o avião já chegou ou se já está pronto para embarcar, mas sobretudo se os passageiros que solicitaram um upgrade de cabine vão conseguir tê-lo (não conseguiram) e se os passageiros em "standby" ou em "overbooking" vão conseguir viajar neste vôo (a maior parte deles conseguiram). A parte chata — lá está, é a democratização do transporte aéreo... — é que o embarque faz-se por zonas e quando chegou à minha zona, já não tinha onde meter a bagagem de mão, porque estava tudo cheio (e a United ainda não tinha começado a cobrar os 15 dólares que vai começar a cobrar por cada mala embarcada no porão...). Não fosse a simpatia da vizinha de coxia que pegou no portátil e o enfiou debaixo do assento e não estou muito bem a ver onde é que eu ia meter a mochila. Chato mesmo foi a viagem em ritmo "camioneta de carreira", com muita ondulação... 

16 de junho de 2008

DAR A VOLTA AO QUARTEIRÃO

Uma das peculiaridades de São Francisco de que nunca me lembro (e que não posso dizer se é um exclusivo da cidade porque nunca reparei nas outras) é a política de ruas de sentido único na grelha central da Baixa. Que o mesmo é dizer que só as artérias mais centrais, como a Market ou o Embarcadero ou a Post, permitem a circulação nos dois sentidos: as paralelas e transversais são de sentido único, o que dá um novo sentido à frase "dar a volta ao quarteirão" (porque para reentrar numa rua de sentido único é mesmo preciso dar a volta ao quarteirão, e o trânsito está concebida para permitir isso). O quarteirão é a medida-base de distância urbana, e cada quarteirão corresponde a x números de uma rua, devidamente identificados na placa toponímica (que pode dizer, por exemplo, "O'Farrell 700" com uma seta a indicar onde começa o 700 e acaba o 799).

SE CONDUZIR...

Estão a ver aqueles autocolantes que começaram a aparecer em Lisboa que dizem "Esta viatura é conduzida por um profissional. Se detectar alguma coisa de errado, telefone para o xxx-xxx-xxx"? O equivalente americano, visto hoje numa carrinha blindada de recolha de valores em plena Market, diz apenas "How's my driving?" e dá o número para onde ligar em baixo.

Uns quarteirões mais à frente, um motociclista furioso puxa o capacete no meio da Geary e faz os possíveis para ir às trombas de um gorducho com ar de Soprano maçado que saiu do seu monovolume bem volumoso, com outro motociclista a tentar impedi-lo. Não percebi exactamente o que aconteceu nem se chegou a haver acidente — não havia vidros no chão nem polícia à volta — mas o que não faltava eram mirones, tal e qual como em Lisboa.  

A ARTE DO BUMPER STICKER

Visto num carro algures na Market:

"Try Jesus!"

e em baixo, em letras pequenas:

"If you don't like him, the devil can always take you back." 

13 de junho de 2008

LER

Não tenho uma boa explicação, mas praticamente todos os livros que tenho lido nestas férias são livros sobre cinema - é um pouco como se trouxesse trabalho de casa, só que não é, porque não os estou a ler por obrigação mas sim por prazer. E o acaso quis que, primeiro, fossem todos sobre cinema, e, segundo, que parte deles tenham sido comprados em São Francisco, nesse tesouro do livro em segunda mão que é a Aardvark Books (227 Church na esquina com a Market).

Future Noir: The Making of Blade Runner, de Paul M. Sammon (Nova Iorque: HarperPrism, 1996), é o que o seu título indica - a história da criação e produção do filme de Ridley Scott de que eu tanto gosto. De certa maneira, é o equivalente literário do fabuloso documentário que acompanhava a recente edição em DVD do filme, só que anterior aí uns bons dez anos. É um livro claramente de "obsessivo", meticulosamente pesquisado, e por isso mesmo pontualmente enfastiante na sua preocupação com pormenores que não têm verdadeiramente a importância que Sammon lhes quer dar. Alguns capítulos são genuinamente supérfluos e há momentos em que se percebe que Sammon não sabe o que dizer, outros são pequenas jóias (as discussões sobre as várias versões do argumento e sobre a relação problemática de Philip K. Dick com a produção são notáveis).

Adventures in the Screen Trade: A Personal View of Hollywood and Screenwriting, de William Goldman (Nova Iorque: Warner Books, 1984), é uma mistura de memória pessoal e introdução sucinta ao funcionamento de Hollywood escrita por um romancista e dramaturgo que se tornou argumentista de sucesso (Dois Homens e um Destino, Os Homens do Presidente). É um retrato notável, lúcido e incisivo, da Hollywood pós-1970 que, apesar de escrito há quase 25 anos, continua a ser de uma actualidade arrepiante; ao mesmo tempo, é também um dos mais extraordinários retratos que já li do que significa escrever, quer seja para um livro ou para o cinema. Dispensavam-se as bojardas à teoria dos autores (muito pragmaticamente americanas), e pelo final, quando Goldman começa a dissecar como se escreve um argumento, a coisa começa a ser demasiado técnica - o que não invalida que eu ache que devia ser leitura obrigatória para qualquer cineasta português (lema muito grande: "SCREENPLAY IS STRUCTURE").

All About "All About Eve", de Sam Staggs (Nova Iorque: St. Martin's Press, 2000), é o único dos três que não foi comprado mas sim emprestado pelo Michael: é uma combinação de história da produção de um dos filmes mais aclamados da Hollywood dos anos 1950, All About Eve de Joseph L. Mankiewicz, e comentário sociológico sobre a sua longevidade enquanto filme clássico e objecto de culto pelas comunidades profissionais do teatro e gay (que não são necessariamente a mesma). Meticulosamente pesquisado e montado a partir de depoimentos recolhidos noutros livros e artigos (quando Staggs começou a escrever, a maior parte dos envolvidos no filme já haviam falecido), All About "All About Eve" é fascinante enquanto história da produção de um filme de prestígio dentro do sistema de estúdio da Hollywood clássica, e intrigante no modo como investiga ao milímetro a base real da sua história ficcional e o que o filme representou para cada um dos intervenientes. No entanto, assim que Staggs começa a entrar em áreas de crítica cinematográfica e comentário sociológico, o livro afoga-se por completo, com o autor a arranjar justificações que pura e simplesmente não se aguentam à tona para justificar o culto. Isto para já não falar do inexplicável desprezo que Staggs vota à obra posterior de Mankiewicz e da displicência com que trata Minnelli e Fassbinder como fraudes empoladas. Pessoalmente, teria gostado bem mais do livro se Staggs não se tivesse deixado levar por uma agenda que o texto não consegue justificar.

POLAROID: AUTOCARRO

Um pai e uma filha descem a Hyde, alheios aos bêbados, drogados e outros sem'abrigo que se amontoam nas esquinas ou junto às entradas dos mini-mercados da zona; a miúda, dos seus seis-sete anos, mochila da escola às costas, brinca alheada de tudo o que a rodeia, o pai olha para trás enquanto estuga o passo, como se estivesse a ser perseguido. De repente, o pai diz qualquer coisa à miúda em chinês e ambos começam a correr para apanhar o autocarro que se aproxima da paragem ao fim do quarteirão. São sete e meia da manhã.

12 de junho de 2008

SEAMUS O'FARRELL, P. C., ESQ.

Seamus O'Farrell, P. C., Esq., instalado confortavelmente nos seus cobertores de estimação, observa o mundo do outro lado da janela do nº 730 da O'Farrell Street, em São Francisco, com o seu olhar arguto e o seu distanciamento felino. 

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Provavelmente, a maior parte das pessoas terá por esta altura começado a achar que estas férias em São Francisco têm sido um pretexto para alambazar vergonhosamente. Não é verdade a cem por cento - mas é verdade que se come tão bem em São Francisco que não aproveitar é que é mais ou menos vergonhoso, tal é a quantidade de óptimos restaurantes que existem por aqui.

Mais dois exemplos, estes italianos para juntar à lista. Um já vem de visitas anteriores - o Nob Hill Café no 1172 da Taylor (à esquina da catedral Grace) é um cantinho aconchegado ao qual tem de se chegar com tempo ou, alternativamente, de marcar mesa (não leva muita gente e é bastante concorrido), mas que, em termos de jantar, foi das melhores relações preço-qualidade que já apanhei por aqui e aquele que mais se aproximou do tamanho europeu da dose servida. (O repasto consistiu de excelentíssimo pão de alho polvilhado com parmesão e gnocchi de batata doce em molho bolonhês, rematado por um gelato de chocolate servido em massa de tarte - e, por incrível que possa parecer, tudo na dose certa para não encher, porque se tivesse enchido eu não tinha conseguido ir à sobremesa.)

Outro é uma estreia inaugurada pouco antes do Natal - o Chiaroscuro, no 550 da Washington (esquina com a Hotaling, à sombra da Pirâmide Transamerica), é um italiano mais sofisticado mas não menos excelente. A bruschetta da casa traz seis fatias pequenas de pão de alho (fabricado no próprio restaurante) com seis coberturas diferentes, que vão de tomates cereja a presunto de Parma; o hamburger de vitela caseiro é servido em pão focaccia grelhado, com queijo brie e cebolas fritas e uma salada verde a acompanhar em vez de batata frita. E mesmo apesar da vitela ser uma carne mais leve e do hamburger estar maravilhosamente feito, já não consegui ir à sobremesa. Pormenor importante: a bica é convenientemente europeia (maravilha), e os biscoitinhos secos que a acompanham não menos deliciosos. O preço é que é um pouco mais caro, porque também se paga a localização (fica no Financial District, e a clientela é obviamente mais endinheirada) e o design (muito europeu, muito sofisticado, muito Peter Saville).

9 de junho de 2008

POLAROID: PEQUENO-ALMOÇO

Um bom exemplo do que é entendido pelos americanos como pequeno-almoço, tirado do menu do Harvey's, um diner modernaço na esquina da Castro com a 18th: o "Basic Breakfast" consiste de dois ovos feitos à escolha do freguês, acompanhados por uma torrada ou um scone com manteiga, batatas fritas caseiras condimentadas e uma escolha de bacon estaladiço, fiambre grelhado ou salsicha fumada em madeira de macieira e grelhada, o "Hungry Man Combo" consiste exactamente no mesmo mas sem batatas fritas e substituindo a torrada/scone pela French Toast — que é basicamente um aparentado das nossas fatias douradas, consistindo em pão mergulhado em ovos mexidos e depois torrado ou frito. 

Depois queixem-se da obesidade e do colesterol. 

(Eu cá é mais panquecas, sobretudo com noz pecan ou amoras. Mas o sumo de laranja deles é bom.)

KOMPENSAN

Nos EUA não há Kompensan. Há outra coisa chamada Tums — que são basicamente Kompensans mastigáveis, com sabores sortidos (hortelã-pimenta, tutti-frutti...) e cores sortidas, e são vendidos nos supermercados em frascos de plástico com cem comprimidos ao pé das pastas de dentes e dos champôs.