Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
7 de dezembro de 2008
AS MADALENAS DE PROUST
De repente, sem aviso prévio, há um pequeno momento do quotidiano que ressurge e me recorda daquilo que ficou irremediavelmente perdido para trás no tempo. Como o puré de feijão branco que fiz esta noite para o jantar e cuja primeira colher me recordou inevitavelmente do puré de feijão encarnado com esparguete que era uma sopa clássica de Inverno lá em casa. A par dos escalopes de peru com cogumelos e molho de natas, do caldo de carne com grão e dos panados de peru como nunca comi em nenhum restaurante. Gostos que passaram a ser madalenas de Proust, perdidas nos arquivos da memória até algo surgir para os reacordar.
DRIBLE
Estava o televisor a dar o Marítimo-Benfica e de repente vejo o meu gato Diogo, que um minuto antes estava sossegadinho sentado em frente ao aquecedor, a tentar agarrar a bola no écrã.
26 de novembro de 2008
MÉDICO DE FAMÍLIA
No meio disto tudo, o despertador toca com a TSF, e a rubrica do "Médico de Família". Agora vejam lá o que é acordar com este frio todo e um médico a falar todo lampeiro do cancro do testículo e da sua posição no escroto.
25 de novembro de 2008
O ELEFANTE NA LOJA DE PORCELANAS
Ao longo da última semana, o assunto tem sido uma espécie de elefante na loja de porcelanas — parado para que qualquer movimento não dê cabo das fragilidades à volta — mas não há realmente volta a dar-lhe e as palavras também não conseguem transcrever as emoções.
Os dias têm corrido atordoados, estranhamente distantes, como se houvesse um vazio invisível que não se consegue explicar nem descrever.
24 de novembro de 2008
17 de novembro de 2008
O MÊS DO CORAÇÃO
OK, eu sei que muitas vezes as máquinas de venda que se encontram nos hospitais não se destinam aos doentes, que têm a sua própria dieta fornecida pelo catering do hospital. Mas não deixa de ser irónico que todas elas tenham os habituais chocolates, bolos, snacks, pacotes de batatas fritas e outros paradigmas da junk-food que os médicos passam o tempo a desaconselhar.
12 de novembro de 2008
HAVIA UMA CANÇÃO DOS STARSHIP CHAMADA "SARA"
...mas não me parece que fosse dedicada a Sarah Palin. Enquanto David Lavery se indigna com a defesa da Barbie do Alasca por figura tão icónica como Camille Paglia, a Economist desta semana traz um artigo bem interessante sobre a possibilidade da moça se candidatar a Presidente em 2012, com esta frase maravilhosa:
Barely two months ago, she was virtually unknown outside Alaska. Now she has supplanted Hillary Clinton as the most divisive woman in American politics. Democrats advertise their contempt for her with “Mooselini” T-shirts and “Bro’s before Ho’s” badges. Feminists revile her in language they would hesitate to use about a man.
758
No 758 na Estrada de Benfica, entra uma senhora de cabelo ruivo e voz rouca, arrastada, que se senta em frente a uma jovem com um bebé, faz alguns elogios à criança e, sem que ninguém tivesse metido conversa, começa a contar a história da sua vida à senhora idosa que está sentada ao seu lado, que ouve com atenção mas não mete prego nem estopa na conversa.
Saio no Rato e a senhora continua a contar a história da sua vida.
11 de novembro de 2008
FRAGRÂNCIAS PRIMAVERIS
Porque carga d'água é que a maior parte dos elevadores do metro de Lisboa têm aquele peculiar cheiro a urina velha, como se alguém que não tomasse banho ou usasse regularmente uma casa de banho lá tivesse morado durante semanas?
10 de novembro de 2008
SENTINELA
No metro do Marquês de Pombal para o Colégio Militar, a porta que dá para a cabine de condução da carruagem está aberta, coisa rara nunca vista, com um outro funcionário de pé, encostado a ela, mantendo-a aberta para que ela não esteja sempre a bater com as curvas e contra-curvas do percurso. Nas Laranjeiras, o funcionário sai e regressa instantes depois com um dos seguranças de serviço ao metro, a quem explica a situação e pede para o substituir na posição de "sentinela" — presumivelmente para garantir que ninguém entra na cabine ou tenta desviar o comboio.
9 de novembro de 2008
MÃE HÁ SÓ UMA
Aquela que, pelo meio do sofrimento das suas dores e da sua preocupação, é capaz de ouvir um espirro e parar por um instante a sua ladaínha para reconfortar o filho: "Pois! Quem é que te mandou a ti cortares o cabelo dessa maneira em pleno Inverno? Agora estás constipado. É bem feito. Nunca ouvem a mãe, é o que é."
5 de novembro de 2008
"I NEVER LIKED BLIND FAITH IN THE FIRST PLACE, AND MARIJUANA MAKES EVERYTHING SOUND LIKE FAD GADGET AND THE FALL"
No espaço de dois parágrafos, num texto "menor", o rapaz dá cabo dos paradigmas de "gosto" e "elitismo", e consegue ser ao mesmo tempo sensato e provocador. Leiam e aprendam.
[...] listening to music recorded 20, 30 years ago is not living in the past, is not nostalgia. According to my dictionary, nostalgia is "homesickness... a longing for something far away or long ago or for former happy circumstances." The truth is that that the Sixties, not to mention the Fifties, sucked in the first place and you wouldn't like it if you were back there in a time when people did things like informing you you were mentally ill or worse if you didn't wanna take a toke on the doob. [...] No one in his right mind would want to return to either of those eras, which is why the lie in rosy confections like Grease and Beatlemania is despicable. But preferring Hank Williams or Charlie Parker or the Sun Sessions or the Velvet Underground to Squeeze and Rickie Lee Jones and the Go-Gos and the Psychedelic Furs is not nostalgia, it's good taste. Just like listening to Beck, Bogert & Appice or Clock DVA and the Fall are bad taste. So I'll take my bad taste and you're welcome to yours, and maybe someday something will actually happen again and then we'll both be happy.
[...] I asked my friend James Marshall if he thought the current dismal state of music was likely to improve. "No," he said. "It's got to get worse, because everybody's into their own thing and doesn't wanna know. Pretty soon every band will have no more than three fans, and nobody will even have any friends. Then after that you'll start resenting the other guy because he likes the same thing you like: it's your turf! How dare he encroach? So then people will start killing each other for appropriating each other's musical tastes and thus infringing on the neighbor's hipness space. How can you be smug about being the only person in the world cool enough to appreciate some piece of New Wave shit, or a blues band or arcane jazz artist for that matter, if you find out somebody else likes it? Don't dare tell 'em! Don't even tell your wife or girlfriend! Keep it safe inside your Walkman!"
Lester Bangs. Em 1982.
4 de novembro de 2008
DIA DE ELEIÇÕES
Já nem falo do interesse que as eleições presidenciais americanas têm gerado em todo o mundo: nos próprios EUA, e independentemente do resultado, os americanos têm ido às urnas como nunca antes. Tenho estado a acompanhar o processo no blog do comentador Andrew Sullivan, The Daily Dish, que hoje "abriu" o blog aos seus leitores para eles contarem as suas experiências de votação ao longo do dia. E é inevitável perceber que algo de histórico se está a passar do lado de lá do Atlântico.
1 de novembro de 2008
A REVISTA DA QUALIDADE
Entre a quantidade de suplementos e revistas que enchem os jornais de sexta-feira e de fim-de-semana, vinha esta sexta a Revista da Qualidade, com uma fotografia de Isaltino Morais na capa e o título muito apelativo "O Centro de Arte Manuel de Brito é um pólo gerador de novas sinergias culturais e turísticas".
Não ficaram com vontade de ler o resto da revista?
31 de outubro de 2008
A INSUSTENTÁVEL SAGEZA DO FELINO
EU NÃO ERA ASSIM QUANDO TINHA A IDADE DELES
Por vezes, almoço no Pizza Hut da Álvares Cabral, que costuma oferecer um buffet de pizzas que é uma opção porreira para almoçar sem gastar muito dinheiro. O problema essencial de almoçar ali — e a razão porque vou lá tão pouco — é a presença de quantidades absurdas de tinaigeres inconscientes, presumo que oriundos do Pedro Nunes, que aproveitam a situação exactamente pela mesma razão que eu: almoça-se sem gastar muito dinheiro.
Hoje, por exemplo, estariam facilmente para aí uns trinta miúdos a almoçarem ali, comportando-se como se estivessem em casa deles ou numa festa de liceu, gritando uns com os outros, rindo alarvemente, dando-se encontrões ou impedindo um outro de se servir, correndo para o buffet assim que as pizzas saidas do forno eram colocadas e acotovelando-se como na entrada para um concerto de rock, fazendo fila para pagar e "roubando" uma fatia para irem a comer num guardanapo até ao liceu.
A maior parte dos adultos que ali estavam a almoçar — desde professores do João de Deus a funcionários dos bancos e das empresas que rodeiam o restaurante — olhavam para eles com um misto de enfado e desinteresse e concentravam-se no seu próprio almoço, mesmo que ficassem irritadíssimos sempre que eles se precipitivam para o buffet e impediam os restantes comensais de lá chegar.
Ficou-me na imagem uma miúda que sempre que ia buscar uma fatia descobria que os colegas já tinham esvaziado a forma da pizza que ela queria e que voltava para a mesa a resmungar enquanto se ria: "eles não me deixam nada!".
29 de outubro de 2008
CONSTATAÇÃO
O salário mínimo nacional não chega aos 500 euros e as pequenas e médias empresas dizem que se o governo o aumentar vão ser obrigados a despedir contratados a prazo. Posto desta maneira, vejo para as pequenas e médias empresas um sério problema de imagem a muito curto prazo.
28 de outubro de 2008
A BEM DIZER
Dois velhotes encontram-se no 709 e um deles diz ao outro: "já me viu este tempo? isto até parece Inverno..." Pois... até parece que Outubro é o pino do Verão...
23 de outubro de 2008
SONÍFERO
O Valdispert pode ser (é) muito bom, mas não há como um bom livro e uma chávena de leite quente quando nos enroscamos nos lençóis para uma boa noite de sono. Se houver um gato por ali a enroscar-se aos pés da cama melhor ainda.
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