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14 de agosto de 2008

AS TIAS-AVÓS

Muita da frequência na cafetaria do Corte Inglés à hora do almoço são senhoras idosas de porte aristocrático, aspecto elegante e/ou discurso educado, que almoçam juntas ou sozinhas — como as duas senhoras dos seus 60, 70 anos que almoçavam na mesa ao meu lado, que ao longo de uma hora não trocaram absolutamente nenhuma informação pessoal ou familiar. Entre longos silêncios, falaram apenas de duas coisas: dos programas que estavam a dar na televisão (e eram programas dos canais de séries, não dos canais portugueses), e da alegria que lhes deu terem aberto a cafetaria do Corte Inglés por lhes dar um sítio simpático e agradável perto de casa para poderem almoçar e estar juntas sem terem de ficar fechadas em casa. Por vezes, basta ter alguém ao lado para não se estar sozinho.

13 de agosto de 2008

PRAÇA VERMELHA

Muito se tem falado de Moscovo nos últimos tempos - a National Geographic de Agosto traz uma reportagem fascinante sobre a noite da capital russa, assinada pelo romancista Martin Cruz Smith e com fotografias assombrosas de Gerd Ludwig.

O FUTURO DO INGLÊS É O CHINÊS

O coreano Hong Sang-soo chamou a um filme seu "A Mulher é o Futuro do Homem" (depois de ter chamado a outros filmes seus "A Virgem Desnudada pelos Seus Pretendentes" e "O Dia em que o Porco Caiu ao Poço"); o jornalista Michael Erard propõe (na Wired de Julho) que o futuro do inglês é o chinês. Linguistas, tremam. 

OH CARACOL

Vejo numa farmácia um anúncio a um produto cosmético anti-rugas que diz ser feito de "baba de caracol". Depois do Botox, isto não me devia surpreender. 

11 de agosto de 2008

EQUILÍBRIOS PRECÁRIOS #4

D. Noémia regressou ontem a sua casa depois de, ao longo dos dias, se ter progressivamente sentido mais à vontade cá em casa, ao ponto de tomar alguns poisos em comum com D. Diogo, mas mantendo sempre o distanciamento devido a uma diva, incluindo até rosnar ao anfitrião quando este apenas lhe queria fazer uma festinha. No entanto, como a diva é uma senhora, fez o favor de fazer uma turrinha ao anfitrião antes de se ir embora, como quem diz que a hospitalidade, por apenas tolerável que tenha sido, foi bem-vinda. 

D. Diogo retomou o usufruto exclusivo da Mansão Segundo Andar Direito com a mesma calma e descontracção com que recebeu D. Noémia e como se nada se tivesse passado. 

8 de agosto de 2008

VERÃO CONSTRUTIVO

Isto parece-me muito bom e tenho de apanhar o raio do disco o mais depressa possível. De Brooklyn, The Hold Steady, "Constructive Summer". 


7 de agosto de 2008

I VANT TO BE ALÔNE

D. Noémia sente-se já bem à vontade, como se estivesse em casa dela, tendo já encontrado vários cantinhos que lhe permitem enroscar-se, aninhar-se ou observar o que a rodeia. A sua relação com o primo D. Diogo, essa, continua um pouco aos solavancos, até porque o primo continua a achar, face a algumas atitudes um pouco obscuras de D. Noémia, que não percebe as mulheres. 

6 de agosto de 2008

POLAROID: TRIÂNGULO DE SINALIZAÇÃO

A minha rua tem um pequeno problema: é de sentido único, o que implica que, se eu sair com o carro e não tiver lugar à porta, tenho de ir dar uma volta razoável para arrumar nas redondezas. Isto não é por si um problema não se desse o caso de, ao fim da manhã, eu ter entrado na rua e deparado com uma senhora a sair de um monovolume de matrícula francesa para pôr o triângulo de sinalização na rua, senhora essa que depois voltou a entrar no carro para descer a rua. 

Naquele preciso instante, tive uma violenta vontade de sair do carro e insultar a senhora porque o ar displicente com que o triângulo foi colocado deu-me a entender que não havia ali nenhuma avaria nem nenhum problema, apenas a vontade de parar o carro no meio da rua para carregar ou descarregar (passageiros ou objectos, não faço ideia), o que não é necessário porque habitualmente há sempre espaço para parar em segunda fila sem afectar o trânsito. Confirmei-o minutos mais tarde, depois de ter dado a tal volta razoável e de ter arrumado o carro nas traseiras: quando desci a minha rua já a pé, não havia triângulo de sinalização em lado nenhum. 

Também não havia lugares para arrumar, é verdade, mas isso não invalidou o meu mau feitio. 

5 de agosto de 2008

PUT ON YOUR SUNDAY CLOTHES

Amo "O Segredo de um Cuscus", que é um filme extraordinário, mas isto é, até ver, o meu filme do ano. Quando virem (a partir de dia 14), vão perceber. (E, já agora, o filme é ainda melhor do que o trailer - o que, hoje em dia, é só por si um milagre.)

3 de agosto de 2008

AS PALAVRAS DO MESTRE #7: SENSIBILIDADE E BOM SENSO

«Resumamos. Esta rubrica semanal não gostaria de se limitar a registar os sucessos garantidos. Também não tem a pretensão (que seria ridícula) de rever os lugares-comuns críticos. Também não é um índice infalível dos filmes "a ver" ou "a não ver". Simplesmente, falamos dos filmes que nos parecem interessantes por razões que nos agrada discutir com o leitor. Dizer "mal" de um filme não significa de todo que dissuadamos o leitor de o ver; tal como não garantimos que o leitor tenha certamente prazer a ver um outro filme de que dizemos bem, não apenas porque a infalibilidade não é o nosso forte, mas porque esse bem e esse mal não tem muitas vezes nenhuma medida comum. (...) As referências críticas não são as mesmas. Mal falamos da mesma coisa, mesmo que se trate de cinema. Gostaríamos que o leitor não esperasse de nós uma direcção de consciência, nem sequer um catálogo dos filmes a ver, mas simplesmente reflexões sobre acontecimentos cinematográficos que lhe caberá a ele situar relativamente à variedade dos géneros cinematográficos e naturalmente dos seus gostos particulares. Agradecemos-lhe de antemão por isso.»

Estas palavras (traduzidas do francês por moi-même) extremamente sábias e sensatas sobre a crítica (no caso de cinema, mas que são aplicáveis a praticamente tudo, quer seja literatura, televisão, música, teatro, artes plásticas ou outra coisa qualquer) foram lidas na última edição da habitualmente bem intelectual e nem sempre sensata revista francesa Cahiers du Cinéma (nº 636, de Julho/Agosto de 2008). 

Mas não foram escritas hoje, mas sim há 50 anos: mais precisamente em Junho de 1952, por André Bazin, fundador, em 1951, da revista e um dos mais influentes teóricos da arte da crítica. Ao longo de 2008, por ocasião do cinquentenário da morte de Bazin (que faleceu, aos 40 anos, em 1958 e já não teve oportunidade de ver a eclosão, no ano seguinte, do novo cinema francês que seria designado por Nouvelle Vague), a revista tem reproduzido todos os meses um dos milhares de artigos que o crítico publicou em vida mas nunca foram recuperados ou republicados nas várias antologias do seu trabalho.

E a verdade é que a simplicidade e a sensatez do trabalho crítico de Bazin nada tem a ver com muito do que passa hoje por ser "crítica": a simplicidade não implica preguiça, o pensamento não implica intelectualização. É tudo uma questão de sensibilidade e bom senso. Bazin tinha-as, muitos dos seus seguidores nem por isso. 

2 de agosto de 2008

EQUILÍBRIOS PRECÁRIOS #3

D. Noémia continua niilista e refilona, e pregou-me um valente susto quando encontrou um esconderijo tão bom mas tão bom mas tão bom que não só eu não a conseguia encontrar como só depois dos seus legítimos donos terem cá dado um pulo ela se dignou abandoná-lo. Depois da saída dos donos, ela voltou ao seu rosnar de grande felina sempre que alguém se aproxima, mas pelo menos já não se tem escondido debaixo da cama e já tem andado a passear pela casa. 

D. Diogo chegou à conclusão que não vale a pena antagonizar a gata niilista refilona e faz calmamente a sua vida como se não fosse nada com ele. 

1 de agosto de 2008

EQUILÍBRIOS PRECÁRIOS #2

D. Noémia veio passar uns dias a casa do primo D. Diogo mas, pelos vistos, veio contrariada, e tem estado a exibir o seu melhor mau feitio de diva misantropa "I-vant-to-be-alône". Passou a maior parte do dia debaixo da cama improvisada do quarto de hóspedes, rosnando qual leoa a quem ousasse penetrar no seu santuário, e quando finalmente se decidiu a abandoná-lo fê-lo com a vocalização arrepiante de um ninja em formação de ataque, dando uma rápida volta pela casa antes de se refugiar debaixo da cama do quarto, e continuando a rosnar qual leoa. 

O primo D. Diogo mantém-se um cavalheiro imperturbável que ronda a sua prima a tentar acalmá-la. Isto é tudo uma questão de tempo, acho eu. 

27 de julho de 2008

EQUILÍBRIOS PRECÁRIOS

Como se pode ver pela imagem junta, D. Diogo tem uma especial atracção pelo meu ombro (ou, mais precisamente, pelo ombro do meu roupão) sempre que eu saio do banho. 

Tentem lá agora ter um gato de 3,6kg a equilibrar-se nos vossos ombros enquanto estão a fazer a barba.

26 de julho de 2008

SONHOS SONHOS SÃO

A 18 de Setembro de 2007, Randy Pausch, professor de ciência informática na universidade Carnegie Mellon, deu uma palestra inserida na velha tradição académica da "última aula", sobre a importância de ter sonhos e de fazer tudo para os concretizar — e para concretizar os sonhos dos outros também. Esta palestra extraordinária correu mundo, tornou-se num fenómeno viral, levou Pausch ao programa de Oprah Winfrey, transformou-se num livro que vendeu milhões. 


O que diferencia esta palestra de tantas outras? O facto de Pausch ter sido diagnosticado com um cancro pancreático e o de saber, quando deu esta palestra, que era realmente a "última aula" e que os seus dias estavam contados. E, contudo, ao longo dos 75 minutos da aula, é a vida que se celebra a cem por cento. 

A lição é só uma: o único obstáculo aos nossos sonhos somos nós próprios.

Randy Pausch morreu ontem, 25 de Julho de 2008, aos 47 anos. 

19 de julho de 2008

A PROPÓSITO DO NOSSO IMAGINÁRIO CULTURAL

Andava há anos à procura dos álbuns de Luc Orient, uma das personagens que mais retive na memória da velha revista Tintin — uma série de ficção científica que combinava elementos da "space opera" mais tradicional (e muito derivativa de Flash Gordon) com uma abordagem científica mais circunspecta e uma série de visuais psicadélicos muito anos 1970, com argumentos de Greg e desenhos de Eddy Paape. Depois de investigar um bocadinho, lá descobri que a série foi criada em 1967 e deixou-se acabar por 1981, apesar de tentativas pontuais de a retomar, com um total de 18 álbuns publicados em França. 

Que eu me recorde, a edição portuguesa da revista Tintin publicou os primeiros 14 episódios da série, mas em álbum a Bertrand só lançou três (O Senhor de Terango, O Segredo das 7 Luzes — capa em cima — e 24 Horas para o Planeta Terra). E quando comecei à procura dos álbuns em francês, já tinham todos sido descatalogados.

Fiquei, então, muito feliz quando, numa visita à Fnac outro dia, dei lá com o segundo volume de uma "Intégrale Luc Orient" que as edições do Lombard começaram a publicar este ano, em cinco volumes  que reunem a totalidade dos álbuns originais. A Fnac só tinha o segundo, tirei-me de cuidados, liguei-me à net e mandei vir da Fnac francesa os três já publicados, não sem aquela trepidação: será que este fragmento do meu imaginário cultural resistiu ao tempo?

Digerido pacientemente o ciclo de Terango (Os Dragões de Fogo, 1967; Os Sóis de Gelo, 1967, O Senhor de Terango, 1968; O Planeta da Angústia, 1969; e A Floresta de Aço, 1969 — cinco aventuras sequenciais onde os cientistas do laboratório Eurocristal descobrem a existência de uma benfazeja civilização extra-terrestre cujo planeta de origem foi entretanto subjugado por um tirano que pretende atacar a Terra), a resposta é positiva. A meio caminho entre a estranheza poética da ficção científica europeia modelo Druillet/Heavy Metal e a "space opera" mais convencional, a série criava algumas visões verdadeiramente inspiradas, mesmo que aqui e ali os guiões se resolvessem de modo mais atabalhoado (O Planeta da Angústia sobretudo tem problemas sérios). Apesar disso, contudo, parte do charme da série é precisamente esse lado "datado" (hoje em dia dificilmente se faria banda-desenhada de ficção-científica deste modo a um tempo desprendido e inspirado). O contemporâneo Valérian é outra coisa, mas Luc Orient é tão interessante quanto eu me lembrava dele. 

18 de julho de 2008

PERPLEXIDADES

Confesso que continuo sem perceber como é que há quem consiga beber uma imperial ao pequeno-almoço.

15 de julho de 2008

VERÃO POP

Resultado do PDC do dia com o mestre da elegância pop em francês Etienne Daho.


"Tombé pour la France" (single de 1985, do LP Pop Satori, Virgin 1986 - clip realizado por Jean-Pierre Jeunet)



"Comme un Igloo" (do LP Paris Ailleurs, Virgin 1991)


"Les Voyages immobiles" (do LP Paris ailleurs, Virgin 1991 - clip realizado por Michel Gondry)


"Au commencement" (do LP Eden, Virgin 1996 - clip filmado em Portugal por Philippe Gautier)


"Idéal" (do CD Singles, Virgin 1998)


"Retour à toi" (do CD Reévolution, Virgin 2003)

12 de julho de 2008

APRENDER A LIÇÃO

Há coisa de três anos, achei que tinha perdido a carteira. Foi num sábado à tarde, em que depois de ter ido ao supermercado fazer as compras da semana, não conseguia encontrar a carteira em lado nenhum — não estava na mesa onde a costumo deixar, não estava nos bolsos das calças nem dos casacos nem das camisas, não estava caída no chão do corredor, no patamar, no elevador, no átrio, não tinha sido entregue no supermercado, enfim, uma desgraça. 

No dia a seguir, a carteira apareceu — eu tinha estado a procurar fotografias antigas numa caixa que guardo no escritório e, sem eu dar por isso, a carteira tinha ido "de arrasto" para dentro da caixa. 

Isto vem a propósito de eu ter andado dois ou três dias sem saber do meu B. I., que costuma andar sempre comigo mas, desta vez, não estava em lado nenhum nem sequer tinha ficado esquecido num par de calças que foram para lavar. Desta vez, contudo, aprendida a lição do caso anterior, fui a todas as caixas de arrumação em que andei a mexer nos últimos dias — e lá estava o B. I. junto às fotografias. 

7 de julho de 2008

BOMBEIROS MEETS SEINFELD (ou: o carro de George)

Tentava eu arrumar o carro ao pé de casa hoje após o almoço (tarefa quase impossível que me ocupou 30 minutos) quando começo a ouvir um, dois, três carros de bombeiros de sirenes no máximo atrás de mim. Deixei-o passar. Mas qual não foi o meu espanto quando percebi que o carro de bombeiros estava praticamente a fazer o mesmo circuito que eu estava a fazer, só que eu estava a tentar arrumar o carro e ele a tentar descobrir onde raio era o incêndio. Não era num sítio nada óbvio e não fiquei surpreendido por ter levado algum tempo, mas fiquei com pena dos bombeiros que se estavam a tentar equipar dentro do carro enquanto o condutor fazia curvas, contra-curvas e mais curvas à procura da entrada correcta para o dédalo de ruas de sentido único entre a Lapa, a Estrela e São Bento. 

De qualquer maneira eles chegaram ao incêndio a tempo e eu continuei a tentar encontrar sítio para arrumar o carro legalmente. Eles levaram menos tempo que eu. 

4 de julho de 2008

GILLETTE

Sempre detestei fazer a barba porque me chateava sair da cama e cortar-me todo com a lâmina de barbear. O meu irmão sempre me disse que eu devia era fazer a barba depois do banho para não me cortar tanto. Como sou um sacana preguiçoso e o meu bigode sempre foi um tanto ou quanto ralo acabei por deixar crescer a barba, aparando-a a intervalos mais ou menos regulares, até aderir à pêra que, a intervalos irregulares, voltava a ser barba, com a milagrosa ajuda da máquina de barbear eléctrica que, como se confirma, para mim tem mesmo de ser Philishave porque a minha barba não se dá de todo com as Braun. 

Seja como for: tudo isto para dizer que voltei à lâmina de barbear, agora depois do banho. E sim, corto-me menos, mas já me tinha esquecido que quando está na altura de trocar de Gillette continuo a cortar-me. 

30 de junho de 2008

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Vejo o Jornal das 7 da SIC Notícias. Fala-se do aumento dos preços dos transportes públicos (cinco cêntimos na maior parte dos bilhetes) e ouve-se um utente a dizer que este governo está a roubar o país e este povo está muito tolerante. Na peça seguinte, diz-se que os preços das missas e dos sacramentos aumentaram 33% (uma missa que custava €7,50 passa a custar €10) e ouvem-se fiéis a dizer que os padres também precisam de viver e que se toda a gente sobe os preços eles também devem subir. 

MAL EMPREGADA

A loja Ben & Jerry's do Chiado (que como todos sabemos é o equivalente do paraíso, embora eu esteja particularmente descontente por não ter havido nos últimos tempos o pornográfico Oatmeal Cookie Chunk) supostamente funciona em pré-pagamento. Digo supostamente porque jamais nas minhas visitas pós-prandiais ao recinto foi exigido o pré-pagamento — até ao momento em que, na minha mais recente visita, a empregada informou do pré-pagamento quando chegou a nossa vez de ser atendidos, e depois atendeu primeiro um casal que tinha chegado depois. O que não nos deixou, a mim e à Marta, nada satisfeitos, e levou-me a dar na mocinha uma descompostura, civilizada mas descompostura, como já não dava há muito tempo (e que me soube muitíssimo bem, aqui entre nós — será que sou sádico e não sabia?), fazendo-a ver que nós tínhamos chegado primeiro e que, aparentemente, só se lembram do pré-pagamento quando convém aos empregados, e que ela tinha sorte de eu não pedir o livro de reclamações...

...desta vez. Eu sei que há um papel a pedir "colaboradores" na montra da loja (de facto aquilo não deve ser nada bem pago) e que trabalhar ao balcão de uma geladaria está longe de ser o sonho de qualquer um, mas custa tanto fazer bem como fazer mal e, que raio!, fazer um sorriso para os clientes não custa nada. 

26 de junho de 2008

MAL EMPREGADO

Na cafetaria do Corte Inglés, uso o cartão de crédito para pagar o almoço, mas nunca mais mo devolvem e às tantas o empregado vem ter comigo a dizer que o cartão dá erro, porque "ainda não está activo - só começa a 2 de Julho", apontando para a data que está no cartão. Mostro-lhe um talão do cartão da véspera e digo-lhe: "desculpe, mas ainda ontem paguei sem problemas com este cartão. E essa data não é 2 de Julho — é Fevereiro de 2007, que foi quando o cartão entrou em funcionamento". 

Claro que o cartão passou. 

24 de junho de 2008

A FÚRIA DO PANDA

O trailer é tão absolutamente maravilhoso que quaisquer palavras são desnecessárias.

OS PAIS NAO DEVIAM MESMO GOSTAR NADA DELA

Nome da empregada que me atendeu hoje num dos cafés do Picoas Plaza, escrito na conta: Irondina. 

POLAROID

Quando entro no café, a rua estreita de sentido único está semi-entupida por um camião parado em cima do passeio a descarregar andaimes. Isto por si só não entupiria a rua, não se desse o caso de haver três carros estacionados em cima do outro passeio; isto obriga os carros que querem passar a guiarem muito devagarinho para não baterem nem no camião nem nos carros estacionados, mas cria também uma fila de carros que entope o trânsito até à avenida. Há um taxista velhote, cinquentão, que sai do carro exasperado; há um carro da polícia que está também na fila que quer virar. O taxista exasperado barafusta com o pessoal do camião e depois vai falar com os polícias, como quem diz, vocês estão aqui, façam o vosso trabalho.

Quando saio do café, a fila desapareceu, os polícias desapareceram, o taxista desapareceu. Mas o camião ainda lá está. 

18 de junho de 2008

POLAROID: AEROPORTO

Segunda coisa que vejo ao chegar ao aeroporto de Lisboa (porque a primeira foi a fila para o controle de passaportes de cidadãos não-europeus): o mesmo carrocel de bagagem onde vão sair as bagagens do meu vôo recebe as bagagens de um vôo proveniente de Amesterdão que parece ter transportado uma comitiva de... padres católicos. A quantidade de sotainas à espera das malas não engana. 

16/06/2008: US 738 PHL 20h20 - LIS 08h30

Três horas de escala no aeroporto de Filadélfia (porque o vôo de São Francisco chegou antes da hora) deram para perceber que as instalações do aeroporto são muito simpáticas (com cadeiras de baloiço espalhadas pelos corredores, muitas delas junto a tomadas de electricidade que dão para ligar o portátil e aproveitar a internet sem fios que o aeroporto mantém), mas também para confirmar que os controles nos aeroportos americanos são mais rigorosos à entrada do que à saída. Na escala de ida, depois de ter passado o guichet do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras americano, a bagagem de porão tem de ser levantada e reembarcada e temos de voltar a passar pelo controle de segurança; na escala de volta nada disso acontece, é como se fosse uma escala normal em território europeu, sem precisar de levantar e reembarcar a bagagem nem de voltar a passar pela segurança.

Ao contrário do que tem sido habitual, o vôo para Lisboa vem completamente cheio; fico ao lado de um casal que viaja com os filhos adolescentes (que ficaram na fila de trás) e que se pergunta em voz alta quanto português os seus conhecimentos de espanhol lhes vão permitir compreender de uma língua que lhes foi anunciada como uma mistura de polaco e espanhol. Na fila de frente, viaja um casal com três filhos pequeninos; duas filas à frente, um casal com um bebé e uma filha pequena; duas atrás, um casal com um bebé; e o comissário de bordo é o mesmo que apanhei no vôo de Filadélfia para Lisboa, com o mesmo sotaque brasileiro, só que desta vez com o ar enfastiado de quem não tem vontade nenhuma de estar ali. Levámos 40 minutos desde sair da porta de embarque até descolarmos — só por causa da fila de aviões a descolar... — e dormir durante as seis horas de vôo foi mentira, graças aos encontrões das hospedeiras quando passavam pelo meu lugar, às birras das criancinhas ou às visitas ao toilette dos vizinhos de fila. Ou se calhar sou só eu que estava chateado por voltar de férias. 

16/06/2008: UA 184 SFO 9h01 - PHL 17h33

No aeroporto de São Francisco, ao embarque de regresso a Filadélfia, a porta 87 tem um écrã LCD por cima do balcão de embarque que mantém — como deve ser — os passageiros informados do estado do vôo. Não apenas se o avião já chegou ou se já está pronto para embarcar, mas sobretudo se os passageiros que solicitaram um upgrade de cabine vão conseguir tê-lo (não conseguiram) e se os passageiros em "standby" ou em "overbooking" vão conseguir viajar neste vôo (a maior parte deles conseguiram). A parte chata — lá está, é a democratização do transporte aéreo... — é que o embarque faz-se por zonas e quando chegou à minha zona, já não tinha onde meter a bagagem de mão, porque estava tudo cheio (e a United ainda não tinha começado a cobrar os 15 dólares que vai começar a cobrar por cada mala embarcada no porão...). Não fosse a simpatia da vizinha de coxia que pegou no portátil e o enfiou debaixo do assento e não estou muito bem a ver onde é que eu ia meter a mochila. Chato mesmo foi a viagem em ritmo "camioneta de carreira", com muita ondulação... 

16 de junho de 2008

DAR A VOLTA AO QUARTEIRÃO

Uma das peculiaridades de São Francisco de que nunca me lembro (e que não posso dizer se é um exclusivo da cidade porque nunca reparei nas outras) é a política de ruas de sentido único na grelha central da Baixa. Que o mesmo é dizer que só as artérias mais centrais, como a Market ou o Embarcadero ou a Post, permitem a circulação nos dois sentidos: as paralelas e transversais são de sentido único, o que dá um novo sentido à frase "dar a volta ao quarteirão" (porque para reentrar numa rua de sentido único é mesmo preciso dar a volta ao quarteirão, e o trânsito está concebida para permitir isso). O quarteirão é a medida-base de distância urbana, e cada quarteirão corresponde a x números de uma rua, devidamente identificados na placa toponímica (que pode dizer, por exemplo, "O'Farrell 700" com uma seta a indicar onde começa o 700 e acaba o 799).

SE CONDUZIR...

Estão a ver aqueles autocolantes que começaram a aparecer em Lisboa que dizem "Esta viatura é conduzida por um profissional. Se detectar alguma coisa de errado, telefone para o xxx-xxx-xxx"? O equivalente americano, visto hoje numa carrinha blindada de recolha de valores em plena Market, diz apenas "How's my driving?" e dá o número para onde ligar em baixo.

Uns quarteirões mais à frente, um motociclista furioso puxa o capacete no meio da Geary e faz os possíveis para ir às trombas de um gorducho com ar de Soprano maçado que saiu do seu monovolume bem volumoso, com outro motociclista a tentar impedi-lo. Não percebi exactamente o que aconteceu nem se chegou a haver acidente — não havia vidros no chão nem polícia à volta — mas o que não faltava eram mirones, tal e qual como em Lisboa.  

A ARTE DO BUMPER STICKER

Visto num carro algures na Market:

"Try Jesus!"

e em baixo, em letras pequenas:

"If you don't like him, the devil can always take you back." 

13 de junho de 2008

LER

Não tenho uma boa explicação, mas praticamente todos os livros que tenho lido nestas férias são livros sobre cinema - é um pouco como se trouxesse trabalho de casa, só que não é, porque não os estou a ler por obrigação mas sim por prazer. E o acaso quis que, primeiro, fossem todos sobre cinema, e, segundo, que parte deles tenham sido comprados em São Francisco, nesse tesouro do livro em segunda mão que é a Aardvark Books (227 Church na esquina com a Market).

Future Noir: The Making of Blade Runner, de Paul M. Sammon (Nova Iorque: HarperPrism, 1996), é o que o seu título indica - a história da criação e produção do filme de Ridley Scott de que eu tanto gosto. De certa maneira, é o equivalente literário do fabuloso documentário que acompanhava a recente edição em DVD do filme, só que anterior aí uns bons dez anos. É um livro claramente de "obsessivo", meticulosamente pesquisado, e por isso mesmo pontualmente enfastiante na sua preocupação com pormenores que não têm verdadeiramente a importância que Sammon lhes quer dar. Alguns capítulos são genuinamente supérfluos e há momentos em que se percebe que Sammon não sabe o que dizer, outros são pequenas jóias (as discussões sobre as várias versões do argumento e sobre a relação problemática de Philip K. Dick com a produção são notáveis).

Adventures in the Screen Trade: A Personal View of Hollywood and Screenwriting, de William Goldman (Nova Iorque: Warner Books, 1984), é uma mistura de memória pessoal e introdução sucinta ao funcionamento de Hollywood escrita por um romancista e dramaturgo que se tornou argumentista de sucesso (Dois Homens e um Destino, Os Homens do Presidente). É um retrato notável, lúcido e incisivo, da Hollywood pós-1970 que, apesar de escrito há quase 25 anos, continua a ser de uma actualidade arrepiante; ao mesmo tempo, é também um dos mais extraordinários retratos que já li do que significa escrever, quer seja para um livro ou para o cinema. Dispensavam-se as bojardas à teoria dos autores (muito pragmaticamente americanas), e pelo final, quando Goldman começa a dissecar como se escreve um argumento, a coisa começa a ser demasiado técnica - o que não invalida que eu ache que devia ser leitura obrigatória para qualquer cineasta português (lema muito grande: "SCREENPLAY IS STRUCTURE").

All About "All About Eve", de Sam Staggs (Nova Iorque: St. Martin's Press, 2000), é o único dos três que não foi comprado mas sim emprestado pelo Michael: é uma combinação de história da produção de um dos filmes mais aclamados da Hollywood dos anos 1950, All About Eve de Joseph L. Mankiewicz, e comentário sociológico sobre a sua longevidade enquanto filme clássico e objecto de culto pelas comunidades profissionais do teatro e gay (que não são necessariamente a mesma). Meticulosamente pesquisado e montado a partir de depoimentos recolhidos noutros livros e artigos (quando Staggs começou a escrever, a maior parte dos envolvidos no filme já haviam falecido), All About "All About Eve" é fascinante enquanto história da produção de um filme de prestígio dentro do sistema de estúdio da Hollywood clássica, e intrigante no modo como investiga ao milímetro a base real da sua história ficcional e o que o filme representou para cada um dos intervenientes. No entanto, assim que Staggs começa a entrar em áreas de crítica cinematográfica e comentário sociológico, o livro afoga-se por completo, com o autor a arranjar justificações que pura e simplesmente não se aguentam à tona para justificar o culto. Isto para já não falar do inexplicável desprezo que Staggs vota à obra posterior de Mankiewicz e da displicência com que trata Minnelli e Fassbinder como fraudes empoladas. Pessoalmente, teria gostado bem mais do livro se Staggs não se tivesse deixado levar por uma agenda que o texto não consegue justificar.

POLAROID: AUTOCARRO

Um pai e uma filha descem a Hyde, alheios aos bêbados, drogados e outros sem'abrigo que se amontoam nas esquinas ou junto às entradas dos mini-mercados da zona; a miúda, dos seus seis-sete anos, mochila da escola às costas, brinca alheada de tudo o que a rodeia, o pai olha para trás enquanto estuga o passo, como se estivesse a ser perseguido. De repente, o pai diz qualquer coisa à miúda em chinês e ambos começam a correr para apanhar o autocarro que se aproxima da paragem ao fim do quarteirão. São sete e meia da manhã.

12 de junho de 2008

SEAMUS O'FARRELL, P. C., ESQ.

Seamus O'Farrell, P. C., Esq., instalado confortavelmente nos seus cobertores de estimação, observa o mundo do outro lado da janela do nº 730 da O'Farrell Street, em São Francisco, com o seu olhar arguto e o seu distanciamento felino. 

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Provavelmente, a maior parte das pessoas terá por esta altura começado a achar que estas férias em São Francisco têm sido um pretexto para alambazar vergonhosamente. Não é verdade a cem por cento - mas é verdade que se come tão bem em São Francisco que não aproveitar é que é mais ou menos vergonhoso, tal é a quantidade de óptimos restaurantes que existem por aqui.

Mais dois exemplos, estes italianos para juntar à lista. Um já vem de visitas anteriores - o Nob Hill Café no 1172 da Taylor (à esquina da catedral Grace) é um cantinho aconchegado ao qual tem de se chegar com tempo ou, alternativamente, de marcar mesa (não leva muita gente e é bastante concorrido), mas que, em termos de jantar, foi das melhores relações preço-qualidade que já apanhei por aqui e aquele que mais se aproximou do tamanho europeu da dose servida. (O repasto consistiu de excelentíssimo pão de alho polvilhado com parmesão e gnocchi de batata doce em molho bolonhês, rematado por um gelato de chocolate servido em massa de tarte - e, por incrível que possa parecer, tudo na dose certa para não encher, porque se tivesse enchido eu não tinha conseguido ir à sobremesa.)

Outro é uma estreia inaugurada pouco antes do Natal - o Chiaroscuro, no 550 da Washington (esquina com a Hotaling, à sombra da Pirâmide Transamerica), é um italiano mais sofisticado mas não menos excelente. A bruschetta da casa traz seis fatias pequenas de pão de alho (fabricado no próprio restaurante) com seis coberturas diferentes, que vão de tomates cereja a presunto de Parma; o hamburger de vitela caseiro é servido em pão focaccia grelhado, com queijo brie e cebolas fritas e uma salada verde a acompanhar em vez de batata frita. E mesmo apesar da vitela ser uma carne mais leve e do hamburger estar maravilhosamente feito, já não consegui ir à sobremesa. Pormenor importante: a bica é convenientemente europeia (maravilha), e os biscoitinhos secos que a acompanham não menos deliciosos. O preço é que é um pouco mais caro, porque também se paga a localização (fica no Financial District, e a clientela é obviamente mais endinheirada) e o design (muito europeu, muito sofisticado, muito Peter Saville).

9 de junho de 2008

POLAROID: PEQUENO-ALMOÇO

Um bom exemplo do que é entendido pelos americanos como pequeno-almoço, tirado do menu do Harvey's, um diner modernaço na esquina da Castro com a 18th: o "Basic Breakfast" consiste de dois ovos feitos à escolha do freguês, acompanhados por uma torrada ou um scone com manteiga, batatas fritas caseiras condimentadas e uma escolha de bacon estaladiço, fiambre grelhado ou salsicha fumada em madeira de macieira e grelhada, o "Hungry Man Combo" consiste exactamente no mesmo mas sem batatas fritas e substituindo a torrada/scone pela French Toast — que é basicamente um aparentado das nossas fatias douradas, consistindo em pão mergulhado em ovos mexidos e depois torrado ou frito. 

Depois queixem-se da obesidade e do colesterol. 

(Eu cá é mais panquecas, sobretudo com noz pecan ou amoras. Mas o sumo de laranja deles é bom.)

KOMPENSAN

Nos EUA não há Kompensan. Há outra coisa chamada Tums — que são basicamente Kompensans mastigáveis, com sabores sortidos (hortelã-pimenta, tutti-frutti...) e cores sortidas, e são vendidos nos supermercados em frascos de plástico com cem comprimidos ao pé das pastas de dentes e dos champôs.  

8 de junho de 2008

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Eu não sou nada de ostras e outros moluscos, mas o David jurava a pés juntos que o Anchor Oyster Bar (579 Castro) era uma pérola rara.  Tinha razão. Eu não toquei nas ostras (haverá quem goste, eu não, mas quem percebe jura a pés juntos que são do melhor) mas os pastéis de caranguejo com molho tártaro, batata assada e salada com molho de alho eram absolutamente divinais — chamar "pastel de caranguejo" àquela espécie de mousse de caranguejo leve e suave ligeiramente tostada dos dois lados é extraordinariamente redutor. Aquilo era completamente maravilhoso, bem como o ravioli tricolor caseiro de acelga e alho francês em molho de limão. O sítio é careiro como o caraças e absolutamente minúsculo (quatro mesas e um balcão corrido) mas vale absolutamente cada dólar dos muitos que o jantar custou. 

ELÉCTRICO

O truque para andar de "cable car" em São Francisco não é ir apanhá-los ao terminal da Powell, que está sempre cheio de turistas (e a maior parte das paragens ao longo da Powell até Union Square também). É ir apanhar a outra linha (California-Van Ness) uns quantos quarteirões mais abaixo na Market, na esquina da Drumm com a California, à beirinha do Embarcadero — têm sempre menos gente e dá para ir em pé agarrado aos varões (que é, admita-se, exactamente o que toda a gente quer fazer num eléctrico de São Francisco — subir e descer as encostas íngremes de pé à porta do eléctrico, comportamento que é aliás perfeitamente encorajado pelos maquinistas e agradaria sobremaneira aos miúdos que adoram apanhar boleia na parte de trás do eléctrico, embora, obviamente, a coisa tenha muito mais graça se não for encorajado). 

SURPRESAS

A descer para a estação de metro de Civic Center, um asiático que sobe na escada rolante usa um boné azul bebé que tem, em grandes letras brancas, as palavras "Fátima - Portugal".

A ARTE DO BUMPER STICKER

Não é exactamente um autocolante (foi visto numa T-shirt esta manhã no Embarcadero), mas podia ser:

"Eat. Sleep. Hunt. (Repeat.)"

6 de junho de 2008

ELÉCTRICO

Também há eléctricos em São Francisco: os "tramways" clássicos da F-Line que vai da esquina da Market com a Castro até Fisherman's Wharf, e os "cable cars" que sobem as íngremes encostas, que só existem em três linhas (Powell & Mason, Powell & Hyde, California). Mas tentar apanhar o "cable car" na Powell, junto a Union Square, à loja da Apple e à Virgin Megastore, é absolutamente mentira, porque estamos essencialmente a falar de turismo, um pouco como os eléctricos antigos que ainda resistem em Lisboa: mais do que transporte público dos nativos, é transporte público para os visitantes, embora dê um jeitão para subir as encostas íngremes (e são mesmo íngremes) que levam à California. 

Claro que, para um lisboeta, o eléctrico não tem a mesma magia do desconhecido: funciona antes como um ponto de contacto (mais um) entre duas cidades nos extremos ocidentais dos respectivos países.

IN THE ZONE

Vou poupar-vos às imagens trágicas, mas percebi finalmente porque é que há uns meses atrás tive uma ferida no nariz que nunca mais curava e porque é que passei a maior parte destas férias com feridas na testa que parecem resultado de uma alergia ou de uma mordidela de insecto. 

I have two words for you: herpes zoster. Ou, por outras palavras, zona — o vírus da varicela que se mantém dormente no nosso corpo e que, às tantas, volta a acordar (ao que parece por causa do stress). Vem uma pessoa de férias para não se chatear e dá-lhe isto. Uma semana de Valtrex e a coisa melhora, mas vai levar uns tempos até a testa ficar limpa. E agora percebi de onde é que apareceu a tal ferida no nariz há uns meses. 

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Maravilhoso jantar maravilhoso - comida vietnamita moderna no Zadin (4039 18th Street, à esquina da Hartford, no Castro). Entradas: calamares panados em sal e pimenta com molho de lima e coentros, crepes de porco, camarão e legumes com molho de amendoim. Pratos principais: camarões fritos em molho de alho e chili com arroz de coco, massa salteada em molho picante com galinha, camarão e legumes. Tudo acompanhado por um maravilhoso chá de jasmim. 

4 de junho de 2008

O EURO NOS EUA

(estamos, claro, a falar do campeonato de futebol e não da moeda...)

Num dos restaurantes italianos de North Beach, um painel diz: "LIVE SOCCER — FORZA AZZURRI".

E o equipamento de Portugal está à venda na loja da Nike em Union Square...

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Tomem nota: Caffe Delucchi, 500 Columbus, na esquina com a Stockton, em North Beach. Os pastéis de caranguejo com puré de batata com alho e espinafres salteados eram maravilhosos, e a sobremesa foi vilmente e obscenamente divina: biscoito de avelã servido com gelado de baunilha. Hedonismo puro. 

CONTRASTES

Uma das coisas boas em São Francisco é que é uma cidade de bairros em que cada bairro tem a sua própria personalidade, a sua identidade — North Beach com os restaurantes italianos porta sim porta sim paredes meias com Chinatown e os restaurantes chineses porta sim porta sim; o graffiti e os prédios decrépitos do Tenderloin à beira dos magníficos museus e edifícios de arte da área do Civic Center; o sossego elegante e discreto de Nob Hill, o charme boémio e descomprometido de Noe Valley, a despretensão acolhedora do Castro. E transportes públicos — autocarros, metropolitano, eléctricos — a ligar tudo, apesar dos semáforos a cada quarteirão da grelha quadriculada do centro urbano que abrandam forçosamente qualquer carro.  

3 de junho de 2008

KQED PUBLIC RADIO. THIS IS NPR NEWS

Chama-se "serviço público", 24 horas por dia, 7 dias por semana, na frequência 88.5 de São Francisco, sem publicidade de espécie nenhuma (mas com patrocinadores cujo nome é lido a espaços pelos locutores e que financiam programas específicos). Estão a ver a TSF? Tirem-lhe a música e os jingles, substituam-na por peças longas (várias por hora) que tanto falam das guerras de gangues em Los Angeles ou de colunistas independentes em Karachi - e ficam com a ideia do que é uma rádio pura e dura de notícias, alternando entre os estúdios de São Francisco da KQED e a "sede" da National Public Radio em Washington. Dá para ouvir no site para fazerem uma ideia.

2 de junho de 2008

CONTRASTES

Noite de sábado, jantar casual na California Pizza Kitchen da Van Ness, mas do outro lado da avenida a estrada está cortada pela polícia devido ao Black & White Ball, um evento de beneficência organizado anualmente pela Ópera de São Francisco, com tendas e camiões de aluguer a rodear as traseiras do edifício. E é ver sem-abrigos que empurram carrinhos de supermercado pela avenida acima por entre convidados de smoking e vestido de noite que tentam sem grande sucesso agasalhar-se contra o vento que se levantou com o anoitecer. 

A MASSA NINJA

Não consigo comer com pauzinhos (eu sei que é uma questão de hábito e prática, mas como não como muita comida japonesa...). Isso torna ir comigo ao restaurante japonês uma experiência divertida. Muito divertida, como ficou provado ontem quando pedi no Mifune (no edifício Kinokuniya, em Japantown, na Post com a Webster) um prato de "udon": um pote de sopa com massa grossa, galinha, caranguejo e camarão em tempura, cogumelos shiitake e legumes. Claro que não se come com pauzinhos - o pote vem acompanhado de uma tigela com uma colher - mas passar a massa (que é grossa e longa, uma espécie de esparguete com o triplo da grossura pelo menos) da sopa para a tigela é uma experiência.

Digamos que, da próxima vez que formos comer ao japonês, o David quer vender bilhetes para o espectáculo. 

31 de maio de 2008

ACORDO ORTOGRÁFICO

Não resisto a partilhar convosco a palavra que os brasileiros usam para definir o "balão" onde os condutores alcoolizados têm de soprar quando são apanhados pela polícia:

"Bafômetro"

OBRIGADO POR TEREM VINDO

OK, eu admito que é um bocado idiota: uma pessoa não vai de férias para se meter no cinema (e ir ao cinema não é a única coisa que eu tenho feito em São Francisco). Mas é engraçado perceber que São Francisco é exactamente igual a Lisboa em certas coisas. Esta semana estreou o filme do "Sexo e a Cidade" que, só no multiplex da esquina, ocupa três salas (e o AMC 1000 Van Ness tem 14 salas...), fora os multiplexes todos da cidade (que são menos que em Lisboa, mas têm geralmente mais salas). E estreou também "Alexandra" de Alexander Sokurov, que só está no Opera Plaza, 500 metros mais abaixo na Van Ness entre a Turk e a Golden Gate - um equivalente possível do King, só que com quatro salas todas elas mais pequenas que a mais pequena do King, com projecção certinha e som aceitável mas sem condições equiparáveis às do multiplex mais michuruca. Que o mesmo é dizer que também por aqui os filmes "de arte e ensaio" lutam por serem vistos e são relegados para salas especializadas que não conseguem competir com os multiplex (mas também oferecem pipocas, doces e refrigerantes...). 

Apesar disto tudo: não tenho certeza que em Lisboa "Alexandra" tivesse um terço da sala na primeira matinée de sexta feira. E tenho certeza que nenhum dos espectadores de Sokurov em Lisboa vai comer pipocas e beber coca-cola como muitos dos espectadores dessa primeira matinée de sexta-feira. E tenho ainda mais certeza que qualquer sessão não seria antecedida pelo toque pessoal de um dos funcionários da sala vir dizer à plateia "obrigado por terem vindo ao Opera Plaza, vamos agora começar a nossa sessão, esperamos que gostem do filme".  

30 de maio de 2008

SAX ROHMER #1

Levou muito tempo até eu ouvir o raio do disco (apesar de ter sido oficialmente editado em Fevereiro, encontrá-lo numa discoteca portuguesa, que parecem só ter o catálogo anterior, foi mentira, mas na Virgin da Market Street em São Francisco foi logo à primeira) mas, agora que fiz a experiência, é oficial: ainda não é com Heretic Pride que John Darnielle fez um mau disco dos Mountain Goats, e para já parece-me até uns largos furos acima de Get Lonely.



The Mountain Goats, "Sax Rohmer #1" do álbum Heretic Pride (4AD, 2008); video dirigido por Ace Norton

OS PUBLICITÁRIOS SÃO UNS EXAGERADOS

Sobretudo os publicitários americanos: é impossível apanhar um bloco publicitário que seja sem apanhar um anúncio de medicamentos. E não estou a falar de medicamentos de venda livre como as aspirinas e afins — estou a falar de medicamentos que exigem receita médica, tipo Viagra ou Prozac ou Zoloft. E medicamentos cujos efeitos secundários, que têm de ser obrigatoriamente referidos na publicidade, são coisas do género náuseas, vómitos, tensão baixa, tensão alta... ou mesmo risco de vida (juro que ouvi isso num anúncio). Mas tudo dito com a voz mais melíflua, sedutora e comercial que se possa imaginar, e com a frase "pergunte ao seu médico se este medicamento é o mais indicado para si". Como quem diz "é você que lhe paga o salário, portanto tente lá convencê-lo a receitar-lhe isto porque pode ser a solução milagrosa para a sua doença". Como se houvesse soluções milagrosas...

A ARTE DO BUMPER STICKER

"Come to the dark side - we have cookies."

É uma das frases do ano.

28 de maio de 2008

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Só para confirmar que a arte do pequeno-almoço pode ter formas muito diferentes do proverbial galão-e-torrada ou café-e-queque ou meia de leite-e-croissant: a primeira refeição do dia no Americano, o discreto restaurante do luxuoso Hotel Vitale, mesmo à esquina do Ferry Terminal (mas infelizmente sem vista para a baía), inclui como "amuse-bouche" um delicioso smoothie de morango, café de qualidade e sumo de laranja fresquíssimo. As opções incluem salmão fumado em pão torrado com rosmaninho, acompanhado por queijo creme caseiro, cebola e agriões; fritata de legumes acompanhada por salada de espinafres com queijo parmesão e tomate bebé; panquecas de banana servidas com manteiga caseira e xarope de ácer; omelete de cogumelos silvestres com queijo parmesão e trufa negra ralada. 

Depois disto, almoçar é mentira.

27 de maio de 2008

MUITO LÁ DE CASA

É um cinema "à antiga", que resistiu aos tempos e evitou a divisão em multi-salas - um dos raros em São Francisco a ter conseguido escapar ao camartelo. Entrar no Castro é uma experiência que recorda os bons velhos tempos em que ir ao cinema não era a banalidade pipoqueira mas sim uma experiência quase religiosa — e o Castro, inaugurado em 1922, reproduz na fachada uma catedral mexicana. E, uma vez lá dentro, o enorme candelabro art-déco, o órgão centrado no fosso de orquestra por baixo do écrã, o cortinado de veludo vermelho são relíquias de outra era que não agradarão apenas aos nostálgicos.

Claro que as pipocas e outras guloseimas são inevitáveis (afinal, não foram os EUA quem inventou a ideia de enfardar no cinema?) mas, quando as luzes se apagam e o cortinado abre, ver um écrã grande a iluminar-se é maravilhoso. Sobretudo quando o filme em questão é Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, que parece feito para os prazeres fora de moda de uma sala de cinema à antiga, com direito a fila à porta para marcar lugar meia hora antes das portas abrirem — e com uma sala suficientemente grande para haver lugar para todos.  

25 de maio de 2008

23/05/2008: US 650 PHL 16h25 - SFO 19h34

Parecendo que não, o vôo não dura três horas mas seis — é o que dá jogar com as diferenças horárias de um país onde às cinco da tarde da Costa Leste são duas da tarde na Costa Oeste e que leva à volta de seis horas a atravessar de ponta a ponta. A maior parte dos vôos intra-europeus são apenas de três horas. E dou por mim a pensar nas ironias de um vôo transcontinental de sete horas dar direito a almoço (mesmo que de avião) e lanche quando um vôo doméstico de seis horas só dá direito a bebidas à borla e um saquinho de aperitivos (quem quiser mais alguma coisa que pague, e ao que parece as companhias americanas já estão a pensar seriamente em começar a cobrar por despachar bagagem no porão). 

Dito isto, num vôo completamente cheio como foi o Filadélfia-São Francisco da tarde em sexta véspera de fim-de-semana prolongado (o fim-de-semana do Memorial Day que comemora a memória dos que morreram em combate), qualquer tentativa de dormir é mentira absoluta, sobretudo quando se tem 1m90 e se vai sentado na coxia de classe económica de um Airbus.

23/05/2008: US 739 LIS 10h35-PHL 13h25

Aterragem em Filadélfia por entre nuvens que parecem algodão doce ou fios de ovo escalfado sob um céu azul. Vista de cima, a subúrbia americana é lindíssima, com a formatação geométrica das ruas e dos bairros entrecortada por imenso verde. Claro que deve ser mesmo só de cima. 

23/05/2008: US 739 LIS 10h35-PHL 13h25

É simpático que os vôos Lisboa-Filadélfia (e vice-versa) da US Airways tenham uma tripulação bilingue em inglês e português (e, já agora, que não estejam a abarrotar de cheios, porque assim uma pessoa pode tentar dormir um bocadinho numa fila vazia, e de caminho dar um jeito ao pescoço, mas é o que dá não estar para pagar as fortunas que eles pedem pela primeira classe nem ter milhas no cartão de "frequent flyer" que dêem para fazer o upgrade). 

É compreensível que o português da tripulação bilingue seja mais brasileiro que português (devido à proximidade americana) embora não forçosamente aceitável (visto que é mais normal terem portugueses lusos do que brasileiros num vôo Lisboa-Filadélfia). 

O que eu não percebo, mesmo, de todo, é porque é que todos eles dizem que estamos quase a aterrar "NA Filadélfia", porque é como dizer que estamos a aterrar "NA Lisboa" ou "NA Nova Iorque". Mas se é por isso é verdade que o equivalente inglês "at" é perfeitamente neutro. (Mais uma razão para a versatilidade do inglês.)

18 de maio de 2008

COISAS QUE NUNCA SE DEVEM PERGUNTAR A UM FUNCIONÁRIO DE MUSEU

"Desculpe, sabe-me dizer onde é que é a conferência de imprensa?"

(com melífula educação) "Não, não, aqui não é, não sei de nada."

"Ah, mas o seu colega disse-me que seria aqui."

"O meu colega?"

"O seu colega, desculpe, o segurança..."

(com um sorriso condescendente) "Ah! Não, não, o segurança não sabe de nada."

17 de maio de 2008

O REGRESSO

O meu querido amigo Luís Peixoto, que tanto me ensinou sobre o grande rock americano e inglês nos tempos gloriosos da crítica musical portuguesa, criou o seu cantinho na net para mostrar a música que anda a descrever. As saudades que eu já tinha de o ler. Confiram s. f. f. aqui

16 de maio de 2008

DESCULPE?

Eu juro que o título não é inventado - é um programa que vai passar no National Geographic na próxima semana: "Total Selvagem - Os Caracóis Zombie".

14 de maio de 2008

BIPOLAR, COMO OS INTERRUPTORES

Há dias assim, em que não conseguimos adormecer porque cá-dentro-inquietação-inquietação, e depois quando acordamos recuperados ficamos sempre à espera que caia a bigorna, como nos desenhos animados, e depois o capacete começa a levantar apesar do tempo estar feio, e há um gato felpudo que dorme todo sossegado no sofá como se não fosse nada com ele, e uma pessoa fica bem disposta. 

12 de maio de 2008

PEQUENA DÚVIDA EXISTENCIAL

É impressão minha, ou as pessoas deixaram de saber ler?

PDC (Processo de Digitalização em Curso)

Isto continua a ser tão bom.


Cocteau Twins, "Carolyn's Fingers" (in Blue Bell Knoll, 4AD 1988)

6 de maio de 2008

OBAMA Ó QUE LINDO OBAMA

Isto é profundamente genial. E Nuno Lopes legisla tão despoticamente que até faz impressão. 

5 de maio de 2008

OS PAIS NAO DEVIAM MESMO GOSTAR NADA DELE

Vi hoje no Telejornal que foi nomeado para director-geral do serviço de geologia (seja lá isso o que for) um senhor de seu nome José Luís Perdigoto.

4 de maio de 2008

A NOVA TENDÊNCIA

Gotta love these guys.

SONHOS SONHOS SÃO

Eu não ando a tomar os mesmos comprimidos para deixar de fumar que a Alice andou a tomar durante uns tempos (porque não fumo), mas lá que ando a ter sonhos dignos de filmes de David Cronenberg... 

3 de maio de 2008

SÁBADO

Não é nenhuma novidade que os portugueses não são grandes condutores, mas irrita-me andar a ver tanta gente que tem carros topo de gama (sobretudo descapotáveis ou carros obscenamente caros como Mercedes ou Porsches) a guiá-los pelo meio do trânsito de Lisboa, e a guiá-los mal. (É a isto que se chamam "sinais exteriores de riqueza"?)

No entanto, um bocadinho pior do que isso é ouvir a minha mãe a escandalizar-se com a incultura das gerações mais jovens que não sabem quem foi Humberto Delgado e logo a seguir a culpar por essa incultura os pais que, esses, não são incultos porque sabem quem foi Humberto Delgado. Logo a seguir a dizer que toda a gente na família dela é burra, à excepção da própria. 

28 de abril de 2008

NOSTALGIA

Não ouvia isto há qualquer coisa como vinte anos (nunca tive o disco e lembrava-me do teledisco dos tempos do Countdown no canal 2 da RTP) e é espantoso como, depois deste tempo todo, continua a deixar-me com um sorriso idiota de orelha a orelha. Não gosto tanto das outras coisas que conheço dos rapazes e em rigor os Red Box nunca passaram de uma nota de rodapé no carrocel pop. Mas só esta canção merece o raio da nota: esta é música feliz.  


Red Box - "Heart of the Sun" (do LP The Circle and the Square, Sire/WEA 1986)

24 de abril de 2008

DESCUBRAM AS DIFERENÇAS




Carter The Unstoppable Sex Machine  - "Sheriff Fatman" (do LP 101 Damnations, Big Cat 1990)


Pet Shop Boys - "Absolutely Fabulous" (single de beneficência para o Comic Relief)

OBSERVAÇÕES, AUSÊNCIAS E OUTROS VAZIOS

Este blog não está interrompido, tem estado só remetido para segundo plano porque tenho passado os dias a escrever e não é certo que me apeteça chegar ao fim do dia e ter coisas para dizer aqui. É um bom sinal que ando a precisar de férias, mas por outro lado isso quer dizer que não me apetece necessariamente passar as férias a actualizar blogs ou ao computador.

Acabo de descobrir na minha conta do Gmail que tinha 515 mensagens de junk mail, das quais 450 em caracteres chineses, alfabeto que não domino de todo. O que quer dizer que ou alguém acha que eu sei falar chinês (mas era mandarim ou cantonês?) ou alguém se enganou a mandar junk mail. Ou, pior ainda, os remetentes de junk mail passaram-se de vez.

Quando a única coisa que me apetece realmente fazer é ursar no cadeirão a ver séries de enfiada (actualmente: segunda temporada de "CSI", Las Vegas bem entendido, segunda de "Ossos" e primeira de "Veronica Mars", todos em atraso) enquanto o gato dormita tranquilamente no sofá, isso é outro sinal que estou a precisar de férias. 

O PDC (Processo de Digitalização em Curso) continua paulatinamente e irei chocar certamente muita gente que me tinha em conta de rapaz de bom gosto e requintada exigência ao dizer que um dos últimos CDs que digitalizei foi o único álbum que possuo de Nick Cave e que é, acreditem ou não, o "Best of" de 1998. (Lamento. Tenho mesmo um problema qualquer com o homem; mas também admito que gosto da "Ship Song" e de "Red Right Hand".)

Fiz uma maravilhosa sopa creme de milho que foi uma revelação. Antes disso tinha feito caldo de galinha caseiro que me deixou com frango cozido para três boas saladas mas só durou para um litro e pouco de sopa (o tal creme de milho, que também levava alho francês e molho tabasco e era uma delícia cremosa e saborosa). 

Ainda não me decidi se esta cena do PSD em auto-desintegração é uma tragédia ou uma farsa.


17 de abril de 2008

NA CONTINUAÇÃO DO PDC (processo de digitalização em curso)

It's only pop music, but we like it.


Belinda Carlisle, "I Get Weak" (do LP Heaven on Earth, Virgin, 1987)



Belinda Carlisle, "Heaven Is a Place on Earth" (do LP Heaven on Earth, Virgin, 1987)


13 de abril de 2008

POLAROID: CARREIRA 28

No eléctrico 28 da Estrela para o Camões, entram meia-dúzia de adeptos do Glasgow Rangers facilmente identificáveis pelas camisolas do clube (e, já agora, pelo sotaque escocês cerradíssimo). Um idoso desdentado, sentado com um saco do supermercado nas mãos, levanta-se e começa a dizer para quem quiser ouvir que se fosse a ele atirava-os a todos para o Tejo e partia-lhes os dentes todos, que fossem roubar lá para a terra deles e, ao sair no Camões, ainda ameaçou que ia dizer à polícia. 

8 de abril de 2008

A FILOSOFIA NO QUOTIDIANO

O que estava a ler o distribuidor do Destak esta manhã à entrada do metro?

Não, não estava a ler o jornal que distribui gratuitamente todos os dias, mas sim um livro chamado Perspectiva Filosófica

7 de abril de 2008

DÚVIDA EXISTENCIAL

Segundo a RTP, o líder do PSD preferiria que a nova ponte sobre o Tejo seguisse o percurso Algés-Trafaria. Será que, se esse fosse o percurso escolhido, o líder do PSD preferiria o percurso Chelas-Montijo? 

PDC (Processo de Digitalização em Curso)

É uma maravilha (passe a publicidade) isto da opção shuffle no iTunes do computador, ainda por cima quando já se tem uma quantidade considerável de música digitalizada. É francamente melhor do que ter de apanhar coisas de que não se gosta na rádio e ainda por cima a função tem bom gosto que isto de passar do Camané para A Naifa e dos Grant Lee Buffalo para Springsteen não é para qualquer um.

31 de março de 2008

O DIA DOS CROMOS

Na Fnac do Colombo, dois adolescentes de mochilas às costas observam o monitor de televisão que exibe imagens de "Beowulf". Um deles, mais baixo, de óculos e boné, descreve pormenorizadamente ao outro o filme bem como as imagens que estão a ver, com uma voz razoavelmente irritante e num volume um pouco mais alto do que seria desejável. Quando saio da loja depois de ter tomado café e comprado um DVD, 20 minutos depois, ainda lá estão.

No gabinete de atendimento ao cliente da estação de metro do Marquês de Pombal, o funcionário de serviço ausenta-se para procurar um documento qualquer. A idosa que ele está a atender, ao fim de um instante, levanta-se com dificuldade, contorna a secretária e olha fixamente para o écrã do computador. Quando percebe que a estou a ver, olha para mim com aquela frieza indignada de porteirinha que acha que sou um coscuvilheiro me estou a meter onde não sou chamado. 

30 de março de 2008

SONHOS SONHOS SÃO

Não me costumo lembrar dos meus sonhos, mas esta noite sonhei que José Mário Branco me perguntava quem tinha os direitos do filme de Luís Galvão Teles "A Confederação" enquanto eu tentava impedir o meu gato Diogo de subir para um eléctrico 28 em movimento algures numa rua parecida com as Escolas Gerais mas que tinha um arco do género do arco da Rua das Amoreiras. 

28 de março de 2008

AS CANÇÕES QUE NUNCA OUVIMOS

Niall Redmond merece ser eternamente louvaminhado por ter postado estes inéditos que os mocinhos ainda não gravaram. Eu, pelo menos, estou-lhe eternamente agradecido. Mesmo que a imagem seja uma merda e o som fraquito. 


"Meanwhile"


"Runaround Girl"


"Start Again"

FICA

Algumas bandas nunca deviam fazer telediscos — mas quando os fazem é como se não os tivessem feito, porque as canções não saem afectadas. The Blue Nile.


27 de março de 2008

COISAS QUE SE VÊEM NA TELEVISÃO

A nossa primeira dama com trajes africanos e o nosso presidente com um gorro que só me fazia lembrar de Pedro Abrunhosa.

25 de março de 2008

É TÃO BOM SER INDIVIDUALISTA

Primeiro, é a matrona da tesouraria da repartição de finanças que faz a sua melhor voz enfadada enquanto explica às pessoas que não, o sistema informático não pode funcionar, e por isso só pode vender impressos (a chamada voz "desamparem-me-a-loja-que-eu-estou-farta-de-aturar-gente-estúpida").

Depois, é a caixa do supermercado que diz que tem de me passar os legumes à parte para eu usufruir do desconto, só porque lhe apetece e porque tem vontade de empatar a fila que já de si está grandota.

Finalmente, é o velhote mal-disposto que escolheu o meio do passeio para ficar parado a acender o cigarro, independentemente de estar muita ou pouca gente a passar (e está muita). 

16 de março de 2008

QUE FAZES AÍ LISBOA

Está um rapaz dos seus 25, 30 anos a tomar café quando aparece um daqueles alfacinhas de gema, cinquentão (pelo menos) de barriga protuberante e voz de bagaço, que gosta de falar alto para mostrar a toda a gente que chegou e acha que tem muita graça quando faz perguntas do género "então também bebes cafés?". Será vizinho ou conhecido do rapaz e o modo como o cumprimenta — com a tal voz de bagaço a falar alto que se ouve em todo o lado no café que não é pequeno — dá a entender que têm um certo grau de familiaridade, e continua com as suas perguntas do género "estás contente por ter nascido?". Como quem sente que só recorrendo a chavões gastos e pretensamente bem-humorados consegue afastar o cinzento do rame-rame quotidiano sem perceber que está a ser um chato. 

12 de março de 2008

YO

Diariamente passo por uma porta na Alexandre Herculano que tem a identificação de uma firma de contabilidade que se chama MC Caixinha. 

7 de março de 2008

I WANT TO CRAWL ALL OVER HER

Hoje deu-me para Blur, desculpem lá.



"She's So High" (1990, realização David Balfe; white noise onírico)



"Girls & Boys" (1994, realização Kevin Godley; tecno-trash-cinismo)



"To The End" (1994, realização David Mould; pastiche-ersatz Resnais)



"The Universal" (1995, realização Jonathan Glazer; pastiche-ersatz Burgess/Kubrick)

6 de março de 2008

COPS

O uivo proverbial da sirene de um carro de polícia a preencher o largo do Rato vinha, desta vez, não dos habituais Volkswagen azuis e brancos mas... de um Smart de duas portas com a pintura da Escola Segura da PSP, a dar-lhe com todo o gás com o sinal vermelho da Escola Politécnica para a Alexandre Herculano.

5 de março de 2008

OH MÃE

Na fila para o café, noto que à minha frente está uma adolescente acompanhada pelo irmão miúdo encostado ao balcão com uma nota de vinte euros na mão, à espera que a empregada encha o tabuleiro do pequeno-almoço com cafés, galões, bolos. O irmão miúdo, no entanto, não se cala: está a trautear para si uma cançoneta indecifrável em tom de ruído branco. O pior, no entanto, ainda está para vir: ao longo de todo o pequeno-almoço, enquanto a adolescente conversa com a mãe e o avô, o miúdo interrompe regularmente num tom de voz que se ouve em todo o café, mesmo a várias mesas de distância, "oh mãe", "oh mãe", "oh mãe", exigindo a atenção que a mãe não lhe dá. E não se cala ao longo de vinte minutos. 

1 de março de 2008

ESTES PUBLICITÁRIOS

Vejo nos anúncios que agora está a ser lançado por cá o Chevrolet Aveo, que quase estive à beira de guiar em Los Angeles há dois anos (se não fosse o caso do rent-a-car ter feito o upgrade para o Chevy Cobalt, o que me parece que ia dar ao mesmo). Cá, a campanha publicitária posiciona-o como uma berlina familiar com um toquezinho de requinte; lá, é um compacto baratinho para o pessoal que quer um segundo carro ou um automóvel para guiar em cidade. 

CASINO, CASINO

Acho delicioso que Francisco Louçã, que tem sido descrito como fazendo parte da "esquerda caviar", venha agora falar de "políticos de casino".