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24 de junho de 2008

OS PAIS NAO DEVIAM MESMO GOSTAR NADA DELA

Nome da empregada que me atendeu hoje num dos cafés do Picoas Plaza, escrito na conta: Irondina. 

POLAROID

Quando entro no café, a rua estreita de sentido único está semi-entupida por um camião parado em cima do passeio a descarregar andaimes. Isto por si só não entupiria a rua, não se desse o caso de haver três carros estacionados em cima do outro passeio; isto obriga os carros que querem passar a guiarem muito devagarinho para não baterem nem no camião nem nos carros estacionados, mas cria também uma fila de carros que entope o trânsito até à avenida. Há um taxista velhote, cinquentão, que sai do carro exasperado; há um carro da polícia que está também na fila que quer virar. O taxista exasperado barafusta com o pessoal do camião e depois vai falar com os polícias, como quem diz, vocês estão aqui, façam o vosso trabalho.

Quando saio do café, a fila desapareceu, os polícias desapareceram, o taxista desapareceu. Mas o camião ainda lá está. 

18 de junho de 2008

POLAROID: AEROPORTO

Segunda coisa que vejo ao chegar ao aeroporto de Lisboa (porque a primeira foi a fila para o controle de passaportes de cidadãos não-europeus): o mesmo carrocel de bagagem onde vão sair as bagagens do meu vôo recebe as bagagens de um vôo proveniente de Amesterdão que parece ter transportado uma comitiva de... padres católicos. A quantidade de sotainas à espera das malas não engana. 

16/06/2008: US 738 PHL 20h20 - LIS 08h30

Três horas de escala no aeroporto de Filadélfia (porque o vôo de São Francisco chegou antes da hora) deram para perceber que as instalações do aeroporto são muito simpáticas (com cadeiras de baloiço espalhadas pelos corredores, muitas delas junto a tomadas de electricidade que dão para ligar o portátil e aproveitar a internet sem fios que o aeroporto mantém), mas também para confirmar que os controles nos aeroportos americanos são mais rigorosos à entrada do que à saída. Na escala de ida, depois de ter passado o guichet do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras americano, a bagagem de porão tem de ser levantada e reembarcada e temos de voltar a passar pelo controle de segurança; na escala de volta nada disso acontece, é como se fosse uma escala normal em território europeu, sem precisar de levantar e reembarcar a bagagem nem de voltar a passar pela segurança.

Ao contrário do que tem sido habitual, o vôo para Lisboa vem completamente cheio; fico ao lado de um casal que viaja com os filhos adolescentes (que ficaram na fila de trás) e que se pergunta em voz alta quanto português os seus conhecimentos de espanhol lhes vão permitir compreender de uma língua que lhes foi anunciada como uma mistura de polaco e espanhol. Na fila de frente, viaja um casal com três filhos pequeninos; duas filas à frente, um casal com um bebé e uma filha pequena; duas atrás, um casal com um bebé; e o comissário de bordo é o mesmo que apanhei no vôo de Filadélfia para Lisboa, com o mesmo sotaque brasileiro, só que desta vez com o ar enfastiado de quem não tem vontade nenhuma de estar ali. Levámos 40 minutos desde sair da porta de embarque até descolarmos — só por causa da fila de aviões a descolar... — e dormir durante as seis horas de vôo foi mentira, graças aos encontrões das hospedeiras quando passavam pelo meu lugar, às birras das criancinhas ou às visitas ao toilette dos vizinhos de fila. Ou se calhar sou só eu que estava chateado por voltar de férias. 

16/06/2008: UA 184 SFO 9h01 - PHL 17h33

No aeroporto de São Francisco, ao embarque de regresso a Filadélfia, a porta 87 tem um écrã LCD por cima do balcão de embarque que mantém — como deve ser — os passageiros informados do estado do vôo. Não apenas se o avião já chegou ou se já está pronto para embarcar, mas sobretudo se os passageiros que solicitaram um upgrade de cabine vão conseguir tê-lo (não conseguiram) e se os passageiros em "standby" ou em "overbooking" vão conseguir viajar neste vôo (a maior parte deles conseguiram). A parte chata — lá está, é a democratização do transporte aéreo... — é que o embarque faz-se por zonas e quando chegou à minha zona, já não tinha onde meter a bagagem de mão, porque estava tudo cheio (e a United ainda não tinha começado a cobrar os 15 dólares que vai começar a cobrar por cada mala embarcada no porão...). Não fosse a simpatia da vizinha de coxia que pegou no portátil e o enfiou debaixo do assento e não estou muito bem a ver onde é que eu ia meter a mochila. Chato mesmo foi a viagem em ritmo "camioneta de carreira", com muita ondulação... 

16 de junho de 2008

DAR A VOLTA AO QUARTEIRÃO

Uma das peculiaridades de São Francisco de que nunca me lembro (e que não posso dizer se é um exclusivo da cidade porque nunca reparei nas outras) é a política de ruas de sentido único na grelha central da Baixa. Que o mesmo é dizer que só as artérias mais centrais, como a Market ou o Embarcadero ou a Post, permitem a circulação nos dois sentidos: as paralelas e transversais são de sentido único, o que dá um novo sentido à frase "dar a volta ao quarteirão" (porque para reentrar numa rua de sentido único é mesmo preciso dar a volta ao quarteirão, e o trânsito está concebida para permitir isso). O quarteirão é a medida-base de distância urbana, e cada quarteirão corresponde a x números de uma rua, devidamente identificados na placa toponímica (que pode dizer, por exemplo, "O'Farrell 700" com uma seta a indicar onde começa o 700 e acaba o 799).

SE CONDUZIR...

Estão a ver aqueles autocolantes que começaram a aparecer em Lisboa que dizem "Esta viatura é conduzida por um profissional. Se detectar alguma coisa de errado, telefone para o xxx-xxx-xxx"? O equivalente americano, visto hoje numa carrinha blindada de recolha de valores em plena Market, diz apenas "How's my driving?" e dá o número para onde ligar em baixo.

Uns quarteirões mais à frente, um motociclista furioso puxa o capacete no meio da Geary e faz os possíveis para ir às trombas de um gorducho com ar de Soprano maçado que saiu do seu monovolume bem volumoso, com outro motociclista a tentar impedi-lo. Não percebi exactamente o que aconteceu nem se chegou a haver acidente — não havia vidros no chão nem polícia à volta — mas o que não faltava eram mirones, tal e qual como em Lisboa.  

A ARTE DO BUMPER STICKER

Visto num carro algures na Market:

"Try Jesus!"

e em baixo, em letras pequenas:

"If you don't like him, the devil can always take you back." 

13 de junho de 2008

LER

Não tenho uma boa explicação, mas praticamente todos os livros que tenho lido nestas férias são livros sobre cinema - é um pouco como se trouxesse trabalho de casa, só que não é, porque não os estou a ler por obrigação mas sim por prazer. E o acaso quis que, primeiro, fossem todos sobre cinema, e, segundo, que parte deles tenham sido comprados em São Francisco, nesse tesouro do livro em segunda mão que é a Aardvark Books (227 Church na esquina com a Market).

Future Noir: The Making of Blade Runner, de Paul M. Sammon (Nova Iorque: HarperPrism, 1996), é o que o seu título indica - a história da criação e produção do filme de Ridley Scott de que eu tanto gosto. De certa maneira, é o equivalente literário do fabuloso documentário que acompanhava a recente edição em DVD do filme, só que anterior aí uns bons dez anos. É um livro claramente de "obsessivo", meticulosamente pesquisado, e por isso mesmo pontualmente enfastiante na sua preocupação com pormenores que não têm verdadeiramente a importância que Sammon lhes quer dar. Alguns capítulos são genuinamente supérfluos e há momentos em que se percebe que Sammon não sabe o que dizer, outros são pequenas jóias (as discussões sobre as várias versões do argumento e sobre a relação problemática de Philip K. Dick com a produção são notáveis).

Adventures in the Screen Trade: A Personal View of Hollywood and Screenwriting, de William Goldman (Nova Iorque: Warner Books, 1984), é uma mistura de memória pessoal e introdução sucinta ao funcionamento de Hollywood escrita por um romancista e dramaturgo que se tornou argumentista de sucesso (Dois Homens e um Destino, Os Homens do Presidente). É um retrato notável, lúcido e incisivo, da Hollywood pós-1970 que, apesar de escrito há quase 25 anos, continua a ser de uma actualidade arrepiante; ao mesmo tempo, é também um dos mais extraordinários retratos que já li do que significa escrever, quer seja para um livro ou para o cinema. Dispensavam-se as bojardas à teoria dos autores (muito pragmaticamente americanas), e pelo final, quando Goldman começa a dissecar como se escreve um argumento, a coisa começa a ser demasiado técnica - o que não invalida que eu ache que devia ser leitura obrigatória para qualquer cineasta português (lema muito grande: "SCREENPLAY IS STRUCTURE").

All About "All About Eve", de Sam Staggs (Nova Iorque: St. Martin's Press, 2000), é o único dos três que não foi comprado mas sim emprestado pelo Michael: é uma combinação de história da produção de um dos filmes mais aclamados da Hollywood dos anos 1950, All About Eve de Joseph L. Mankiewicz, e comentário sociológico sobre a sua longevidade enquanto filme clássico e objecto de culto pelas comunidades profissionais do teatro e gay (que não são necessariamente a mesma). Meticulosamente pesquisado e montado a partir de depoimentos recolhidos noutros livros e artigos (quando Staggs começou a escrever, a maior parte dos envolvidos no filme já haviam falecido), All About "All About Eve" é fascinante enquanto história da produção de um filme de prestígio dentro do sistema de estúdio da Hollywood clássica, e intrigante no modo como investiga ao milímetro a base real da sua história ficcional e o que o filme representou para cada um dos intervenientes. No entanto, assim que Staggs começa a entrar em áreas de crítica cinematográfica e comentário sociológico, o livro afoga-se por completo, com o autor a arranjar justificações que pura e simplesmente não se aguentam à tona para justificar o culto. Isto para já não falar do inexplicável desprezo que Staggs vota à obra posterior de Mankiewicz e da displicência com que trata Minnelli e Fassbinder como fraudes empoladas. Pessoalmente, teria gostado bem mais do livro se Staggs não se tivesse deixado levar por uma agenda que o texto não consegue justificar.

POLAROID: AUTOCARRO

Um pai e uma filha descem a Hyde, alheios aos bêbados, drogados e outros sem'abrigo que se amontoam nas esquinas ou junto às entradas dos mini-mercados da zona; a miúda, dos seus seis-sete anos, mochila da escola às costas, brinca alheada de tudo o que a rodeia, o pai olha para trás enquanto estuga o passo, como se estivesse a ser perseguido. De repente, o pai diz qualquer coisa à miúda em chinês e ambos começam a correr para apanhar o autocarro que se aproxima da paragem ao fim do quarteirão. São sete e meia da manhã.

12 de junho de 2008

SEAMUS O'FARRELL, P. C., ESQ.

Seamus O'Farrell, P. C., Esq., instalado confortavelmente nos seus cobertores de estimação, observa o mundo do outro lado da janela do nº 730 da O'Farrell Street, em São Francisco, com o seu olhar arguto e o seu distanciamento felino. 

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Provavelmente, a maior parte das pessoas terá por esta altura começado a achar que estas férias em São Francisco têm sido um pretexto para alambazar vergonhosamente. Não é verdade a cem por cento - mas é verdade que se come tão bem em São Francisco que não aproveitar é que é mais ou menos vergonhoso, tal é a quantidade de óptimos restaurantes que existem por aqui.

Mais dois exemplos, estes italianos para juntar à lista. Um já vem de visitas anteriores - o Nob Hill Café no 1172 da Taylor (à esquina da catedral Grace) é um cantinho aconchegado ao qual tem de se chegar com tempo ou, alternativamente, de marcar mesa (não leva muita gente e é bastante concorrido), mas que, em termos de jantar, foi das melhores relações preço-qualidade que já apanhei por aqui e aquele que mais se aproximou do tamanho europeu da dose servida. (O repasto consistiu de excelentíssimo pão de alho polvilhado com parmesão e gnocchi de batata doce em molho bolonhês, rematado por um gelato de chocolate servido em massa de tarte - e, por incrível que possa parecer, tudo na dose certa para não encher, porque se tivesse enchido eu não tinha conseguido ir à sobremesa.)

Outro é uma estreia inaugurada pouco antes do Natal - o Chiaroscuro, no 550 da Washington (esquina com a Hotaling, à sombra da Pirâmide Transamerica), é um italiano mais sofisticado mas não menos excelente. A bruschetta da casa traz seis fatias pequenas de pão de alho (fabricado no próprio restaurante) com seis coberturas diferentes, que vão de tomates cereja a presunto de Parma; o hamburger de vitela caseiro é servido em pão focaccia grelhado, com queijo brie e cebolas fritas e uma salada verde a acompanhar em vez de batata frita. E mesmo apesar da vitela ser uma carne mais leve e do hamburger estar maravilhosamente feito, já não consegui ir à sobremesa. Pormenor importante: a bica é convenientemente europeia (maravilha), e os biscoitinhos secos que a acompanham não menos deliciosos. O preço é que é um pouco mais caro, porque também se paga a localização (fica no Financial District, e a clientela é obviamente mais endinheirada) e o design (muito europeu, muito sofisticado, muito Peter Saville).

9 de junho de 2008

POLAROID: PEQUENO-ALMOÇO

Um bom exemplo do que é entendido pelos americanos como pequeno-almoço, tirado do menu do Harvey's, um diner modernaço na esquina da Castro com a 18th: o "Basic Breakfast" consiste de dois ovos feitos à escolha do freguês, acompanhados por uma torrada ou um scone com manteiga, batatas fritas caseiras condimentadas e uma escolha de bacon estaladiço, fiambre grelhado ou salsicha fumada em madeira de macieira e grelhada, o "Hungry Man Combo" consiste exactamente no mesmo mas sem batatas fritas e substituindo a torrada/scone pela French Toast — que é basicamente um aparentado das nossas fatias douradas, consistindo em pão mergulhado em ovos mexidos e depois torrado ou frito. 

Depois queixem-se da obesidade e do colesterol. 

(Eu cá é mais panquecas, sobretudo com noz pecan ou amoras. Mas o sumo de laranja deles é bom.)

KOMPENSAN

Nos EUA não há Kompensan. Há outra coisa chamada Tums — que são basicamente Kompensans mastigáveis, com sabores sortidos (hortelã-pimenta, tutti-frutti...) e cores sortidas, e são vendidos nos supermercados em frascos de plástico com cem comprimidos ao pé das pastas de dentes e dos champôs.  

8 de junho de 2008

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Eu não sou nada de ostras e outros moluscos, mas o David jurava a pés juntos que o Anchor Oyster Bar (579 Castro) era uma pérola rara.  Tinha razão. Eu não toquei nas ostras (haverá quem goste, eu não, mas quem percebe jura a pés juntos que são do melhor) mas os pastéis de caranguejo com molho tártaro, batata assada e salada com molho de alho eram absolutamente divinais — chamar "pastel de caranguejo" àquela espécie de mousse de caranguejo leve e suave ligeiramente tostada dos dois lados é extraordinariamente redutor. Aquilo era completamente maravilhoso, bem como o ravioli tricolor caseiro de acelga e alho francês em molho de limão. O sítio é careiro como o caraças e absolutamente minúsculo (quatro mesas e um balcão corrido) mas vale absolutamente cada dólar dos muitos que o jantar custou. 

ELÉCTRICO

O truque para andar de "cable car" em São Francisco não é ir apanhá-los ao terminal da Powell, que está sempre cheio de turistas (e a maior parte das paragens ao longo da Powell até Union Square também). É ir apanhar a outra linha (California-Van Ness) uns quantos quarteirões mais abaixo na Market, na esquina da Drumm com a California, à beirinha do Embarcadero — têm sempre menos gente e dá para ir em pé agarrado aos varões (que é, admita-se, exactamente o que toda a gente quer fazer num eléctrico de São Francisco — subir e descer as encostas íngremes de pé à porta do eléctrico, comportamento que é aliás perfeitamente encorajado pelos maquinistas e agradaria sobremaneira aos miúdos que adoram apanhar boleia na parte de trás do eléctrico, embora, obviamente, a coisa tenha muito mais graça se não for encorajado). 

SURPRESAS

A descer para a estação de metro de Civic Center, um asiático que sobe na escada rolante usa um boné azul bebé que tem, em grandes letras brancas, as palavras "Fátima - Portugal".

A ARTE DO BUMPER STICKER

Não é exactamente um autocolante (foi visto numa T-shirt esta manhã no Embarcadero), mas podia ser:

"Eat. Sleep. Hunt. (Repeat.)"

6 de junho de 2008

ELÉCTRICO

Também há eléctricos em São Francisco: os "tramways" clássicos da F-Line que vai da esquina da Market com a Castro até Fisherman's Wharf, e os "cable cars" que sobem as íngremes encostas, que só existem em três linhas (Powell & Mason, Powell & Hyde, California). Mas tentar apanhar o "cable car" na Powell, junto a Union Square, à loja da Apple e à Virgin Megastore, é absolutamente mentira, porque estamos essencialmente a falar de turismo, um pouco como os eléctricos antigos que ainda resistem em Lisboa: mais do que transporte público dos nativos, é transporte público para os visitantes, embora dê um jeitão para subir as encostas íngremes (e são mesmo íngremes) que levam à California. 

Claro que, para um lisboeta, o eléctrico não tem a mesma magia do desconhecido: funciona antes como um ponto de contacto (mais um) entre duas cidades nos extremos ocidentais dos respectivos países.

IN THE ZONE

Vou poupar-vos às imagens trágicas, mas percebi finalmente porque é que há uns meses atrás tive uma ferida no nariz que nunca mais curava e porque é que passei a maior parte destas férias com feridas na testa que parecem resultado de uma alergia ou de uma mordidela de insecto. 

I have two words for you: herpes zoster. Ou, por outras palavras, zona — o vírus da varicela que se mantém dormente no nosso corpo e que, às tantas, volta a acordar (ao que parece por causa do stress). Vem uma pessoa de férias para não se chatear e dá-lhe isto. Uma semana de Valtrex e a coisa melhora, mas vai levar uns tempos até a testa ficar limpa. E agora percebi de onde é que apareceu a tal ferida no nariz há uns meses. 

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Maravilhoso jantar maravilhoso - comida vietnamita moderna no Zadin (4039 18th Street, à esquina da Hartford, no Castro). Entradas: calamares panados em sal e pimenta com molho de lima e coentros, crepes de porco, camarão e legumes com molho de amendoim. Pratos principais: camarões fritos em molho de alho e chili com arroz de coco, massa salteada em molho picante com galinha, camarão e legumes. Tudo acompanhado por um maravilhoso chá de jasmim. 

4 de junho de 2008

O EURO NOS EUA

(estamos, claro, a falar do campeonato de futebol e não da moeda...)

Num dos restaurantes italianos de North Beach, um painel diz: "LIVE SOCCER — FORZA AZZURRI".

E o equipamento de Portugal está à venda na loja da Nike em Union Square...

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Tomem nota: Caffe Delucchi, 500 Columbus, na esquina com a Stockton, em North Beach. Os pastéis de caranguejo com puré de batata com alho e espinafres salteados eram maravilhosos, e a sobremesa foi vilmente e obscenamente divina: biscoito de avelã servido com gelado de baunilha. Hedonismo puro. 

CONTRASTES

Uma das coisas boas em São Francisco é que é uma cidade de bairros em que cada bairro tem a sua própria personalidade, a sua identidade — North Beach com os restaurantes italianos porta sim porta sim paredes meias com Chinatown e os restaurantes chineses porta sim porta sim; o graffiti e os prédios decrépitos do Tenderloin à beira dos magníficos museus e edifícios de arte da área do Civic Center; o sossego elegante e discreto de Nob Hill, o charme boémio e descomprometido de Noe Valley, a despretensão acolhedora do Castro. E transportes públicos — autocarros, metropolitano, eléctricos — a ligar tudo, apesar dos semáforos a cada quarteirão da grelha quadriculada do centro urbano que abrandam forçosamente qualquer carro.  

3 de junho de 2008

KQED PUBLIC RADIO. THIS IS NPR NEWS

Chama-se "serviço público", 24 horas por dia, 7 dias por semana, na frequência 88.5 de São Francisco, sem publicidade de espécie nenhuma (mas com patrocinadores cujo nome é lido a espaços pelos locutores e que financiam programas específicos). Estão a ver a TSF? Tirem-lhe a música e os jingles, substituam-na por peças longas (várias por hora) que tanto falam das guerras de gangues em Los Angeles ou de colunistas independentes em Karachi - e ficam com a ideia do que é uma rádio pura e dura de notícias, alternando entre os estúdios de São Francisco da KQED e a "sede" da National Public Radio em Washington. Dá para ouvir no site para fazerem uma ideia.

2 de junho de 2008

CONTRASTES

Noite de sábado, jantar casual na California Pizza Kitchen da Van Ness, mas do outro lado da avenida a estrada está cortada pela polícia devido ao Black & White Ball, um evento de beneficência organizado anualmente pela Ópera de São Francisco, com tendas e camiões de aluguer a rodear as traseiras do edifício. E é ver sem-abrigos que empurram carrinhos de supermercado pela avenida acima por entre convidados de smoking e vestido de noite que tentam sem grande sucesso agasalhar-se contra o vento que se levantou com o anoitecer. 

A MASSA NINJA

Não consigo comer com pauzinhos (eu sei que é uma questão de hábito e prática, mas como não como muita comida japonesa...). Isso torna ir comigo ao restaurante japonês uma experiência divertida. Muito divertida, como ficou provado ontem quando pedi no Mifune (no edifício Kinokuniya, em Japantown, na Post com a Webster) um prato de "udon": um pote de sopa com massa grossa, galinha, caranguejo e camarão em tempura, cogumelos shiitake e legumes. Claro que não se come com pauzinhos - o pote vem acompanhado de uma tigela com uma colher - mas passar a massa (que é grossa e longa, uma espécie de esparguete com o triplo da grossura pelo menos) da sopa para a tigela é uma experiência.

Digamos que, da próxima vez que formos comer ao japonês, o David quer vender bilhetes para o espectáculo. 

31 de maio de 2008

ACORDO ORTOGRÁFICO

Não resisto a partilhar convosco a palavra que os brasileiros usam para definir o "balão" onde os condutores alcoolizados têm de soprar quando são apanhados pela polícia:

"Bafômetro"

OBRIGADO POR TEREM VINDO

OK, eu admito que é um bocado idiota: uma pessoa não vai de férias para se meter no cinema (e ir ao cinema não é a única coisa que eu tenho feito em São Francisco). Mas é engraçado perceber que São Francisco é exactamente igual a Lisboa em certas coisas. Esta semana estreou o filme do "Sexo e a Cidade" que, só no multiplex da esquina, ocupa três salas (e o AMC 1000 Van Ness tem 14 salas...), fora os multiplexes todos da cidade (que são menos que em Lisboa, mas têm geralmente mais salas). E estreou também "Alexandra" de Alexander Sokurov, que só está no Opera Plaza, 500 metros mais abaixo na Van Ness entre a Turk e a Golden Gate - um equivalente possível do King, só que com quatro salas todas elas mais pequenas que a mais pequena do King, com projecção certinha e som aceitável mas sem condições equiparáveis às do multiplex mais michuruca. Que o mesmo é dizer que também por aqui os filmes "de arte e ensaio" lutam por serem vistos e são relegados para salas especializadas que não conseguem competir com os multiplex (mas também oferecem pipocas, doces e refrigerantes...). 

Apesar disto tudo: não tenho certeza que em Lisboa "Alexandra" tivesse um terço da sala na primeira matinée de sexta feira. E tenho certeza que nenhum dos espectadores de Sokurov em Lisboa vai comer pipocas e beber coca-cola como muitos dos espectadores dessa primeira matinée de sexta-feira. E tenho ainda mais certeza que qualquer sessão não seria antecedida pelo toque pessoal de um dos funcionários da sala vir dizer à plateia "obrigado por terem vindo ao Opera Plaza, vamos agora começar a nossa sessão, esperamos que gostem do filme".  

30 de maio de 2008

SAX ROHMER #1

Levou muito tempo até eu ouvir o raio do disco (apesar de ter sido oficialmente editado em Fevereiro, encontrá-lo numa discoteca portuguesa, que parecem só ter o catálogo anterior, foi mentira, mas na Virgin da Market Street em São Francisco foi logo à primeira) mas, agora que fiz a experiência, é oficial: ainda não é com Heretic Pride que John Darnielle fez um mau disco dos Mountain Goats, e para já parece-me até uns largos furos acima de Get Lonely.



The Mountain Goats, "Sax Rohmer #1" do álbum Heretic Pride (4AD, 2008); video dirigido por Ace Norton

OS PUBLICITÁRIOS SÃO UNS EXAGERADOS

Sobretudo os publicitários americanos: é impossível apanhar um bloco publicitário que seja sem apanhar um anúncio de medicamentos. E não estou a falar de medicamentos de venda livre como as aspirinas e afins — estou a falar de medicamentos que exigem receita médica, tipo Viagra ou Prozac ou Zoloft. E medicamentos cujos efeitos secundários, que têm de ser obrigatoriamente referidos na publicidade, são coisas do género náuseas, vómitos, tensão baixa, tensão alta... ou mesmo risco de vida (juro que ouvi isso num anúncio). Mas tudo dito com a voz mais melíflua, sedutora e comercial que se possa imaginar, e com a frase "pergunte ao seu médico se este medicamento é o mais indicado para si". Como quem diz "é você que lhe paga o salário, portanto tente lá convencê-lo a receitar-lhe isto porque pode ser a solução milagrosa para a sua doença". Como se houvesse soluções milagrosas...

A ARTE DO BUMPER STICKER

"Come to the dark side - we have cookies."

É uma das frases do ano.

28 de maio de 2008

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Só para confirmar que a arte do pequeno-almoço pode ter formas muito diferentes do proverbial galão-e-torrada ou café-e-queque ou meia de leite-e-croissant: a primeira refeição do dia no Americano, o discreto restaurante do luxuoso Hotel Vitale, mesmo à esquina do Ferry Terminal (mas infelizmente sem vista para a baía), inclui como "amuse-bouche" um delicioso smoothie de morango, café de qualidade e sumo de laranja fresquíssimo. As opções incluem salmão fumado em pão torrado com rosmaninho, acompanhado por queijo creme caseiro, cebola e agriões; fritata de legumes acompanhada por salada de espinafres com queijo parmesão e tomate bebé; panquecas de banana servidas com manteiga caseira e xarope de ácer; omelete de cogumelos silvestres com queijo parmesão e trufa negra ralada. 

Depois disto, almoçar é mentira.

27 de maio de 2008

MUITO LÁ DE CASA

É um cinema "à antiga", que resistiu aos tempos e evitou a divisão em multi-salas - um dos raros em São Francisco a ter conseguido escapar ao camartelo. Entrar no Castro é uma experiência que recorda os bons velhos tempos em que ir ao cinema não era a banalidade pipoqueira mas sim uma experiência quase religiosa — e o Castro, inaugurado em 1922, reproduz na fachada uma catedral mexicana. E, uma vez lá dentro, o enorme candelabro art-déco, o órgão centrado no fosso de orquestra por baixo do écrã, o cortinado de veludo vermelho são relíquias de outra era que não agradarão apenas aos nostálgicos.

Claro que as pipocas e outras guloseimas são inevitáveis (afinal, não foram os EUA quem inventou a ideia de enfardar no cinema?) mas, quando as luzes se apagam e o cortinado abre, ver um écrã grande a iluminar-se é maravilhoso. Sobretudo quando o filme em questão é Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, que parece feito para os prazeres fora de moda de uma sala de cinema à antiga, com direito a fila à porta para marcar lugar meia hora antes das portas abrirem — e com uma sala suficientemente grande para haver lugar para todos.  

25 de maio de 2008

23/05/2008: US 650 PHL 16h25 - SFO 19h34

Parecendo que não, o vôo não dura três horas mas seis — é o que dá jogar com as diferenças horárias de um país onde às cinco da tarde da Costa Leste são duas da tarde na Costa Oeste e que leva à volta de seis horas a atravessar de ponta a ponta. A maior parte dos vôos intra-europeus são apenas de três horas. E dou por mim a pensar nas ironias de um vôo transcontinental de sete horas dar direito a almoço (mesmo que de avião) e lanche quando um vôo doméstico de seis horas só dá direito a bebidas à borla e um saquinho de aperitivos (quem quiser mais alguma coisa que pague, e ao que parece as companhias americanas já estão a pensar seriamente em começar a cobrar por despachar bagagem no porão). 

Dito isto, num vôo completamente cheio como foi o Filadélfia-São Francisco da tarde em sexta véspera de fim-de-semana prolongado (o fim-de-semana do Memorial Day que comemora a memória dos que morreram em combate), qualquer tentativa de dormir é mentira absoluta, sobretudo quando se tem 1m90 e se vai sentado na coxia de classe económica de um Airbus.

23/05/2008: US 739 LIS 10h35-PHL 13h25

Aterragem em Filadélfia por entre nuvens que parecem algodão doce ou fios de ovo escalfado sob um céu azul. Vista de cima, a subúrbia americana é lindíssima, com a formatação geométrica das ruas e dos bairros entrecortada por imenso verde. Claro que deve ser mesmo só de cima. 

23/05/2008: US 739 LIS 10h35-PHL 13h25

É simpático que os vôos Lisboa-Filadélfia (e vice-versa) da US Airways tenham uma tripulação bilingue em inglês e português (e, já agora, que não estejam a abarrotar de cheios, porque assim uma pessoa pode tentar dormir um bocadinho numa fila vazia, e de caminho dar um jeito ao pescoço, mas é o que dá não estar para pagar as fortunas que eles pedem pela primeira classe nem ter milhas no cartão de "frequent flyer" que dêem para fazer o upgrade). 

É compreensível que o português da tripulação bilingue seja mais brasileiro que português (devido à proximidade americana) embora não forçosamente aceitável (visto que é mais normal terem portugueses lusos do que brasileiros num vôo Lisboa-Filadélfia). 

O que eu não percebo, mesmo, de todo, é porque é que todos eles dizem que estamos quase a aterrar "NA Filadélfia", porque é como dizer que estamos a aterrar "NA Lisboa" ou "NA Nova Iorque". Mas se é por isso é verdade que o equivalente inglês "at" é perfeitamente neutro. (Mais uma razão para a versatilidade do inglês.)

18 de maio de 2008

COISAS QUE NUNCA SE DEVEM PERGUNTAR A UM FUNCIONÁRIO DE MUSEU

"Desculpe, sabe-me dizer onde é que é a conferência de imprensa?"

(com melífula educação) "Não, não, aqui não é, não sei de nada."

"Ah, mas o seu colega disse-me que seria aqui."

"O meu colega?"

"O seu colega, desculpe, o segurança..."

(com um sorriso condescendente) "Ah! Não, não, o segurança não sabe de nada."

17 de maio de 2008

O REGRESSO

O meu querido amigo Luís Peixoto, que tanto me ensinou sobre o grande rock americano e inglês nos tempos gloriosos da crítica musical portuguesa, criou o seu cantinho na net para mostrar a música que anda a descrever. As saudades que eu já tinha de o ler. Confiram s. f. f. aqui

16 de maio de 2008

DESCULPE?

Eu juro que o título não é inventado - é um programa que vai passar no National Geographic na próxima semana: "Total Selvagem - Os Caracóis Zombie".

14 de maio de 2008

BIPOLAR, COMO OS INTERRUPTORES

Há dias assim, em que não conseguimos adormecer porque cá-dentro-inquietação-inquietação, e depois quando acordamos recuperados ficamos sempre à espera que caia a bigorna, como nos desenhos animados, e depois o capacete começa a levantar apesar do tempo estar feio, e há um gato felpudo que dorme todo sossegado no sofá como se não fosse nada com ele, e uma pessoa fica bem disposta. 

12 de maio de 2008

PEQUENA DÚVIDA EXISTENCIAL

É impressão minha, ou as pessoas deixaram de saber ler?

PDC (Processo de Digitalização em Curso)

Isto continua a ser tão bom.


Cocteau Twins, "Carolyn's Fingers" (in Blue Bell Knoll, 4AD 1988)

6 de maio de 2008

OBAMA Ó QUE LINDO OBAMA

Isto é profundamente genial. E Nuno Lopes legisla tão despoticamente que até faz impressão. 

5 de maio de 2008

OS PAIS NAO DEVIAM MESMO GOSTAR NADA DELE

Vi hoje no Telejornal que foi nomeado para director-geral do serviço de geologia (seja lá isso o que for) um senhor de seu nome José Luís Perdigoto.

4 de maio de 2008

A NOVA TENDÊNCIA

Gotta love these guys.

SONHOS SONHOS SÃO

Eu não ando a tomar os mesmos comprimidos para deixar de fumar que a Alice andou a tomar durante uns tempos (porque não fumo), mas lá que ando a ter sonhos dignos de filmes de David Cronenberg... 

3 de maio de 2008

SÁBADO

Não é nenhuma novidade que os portugueses não são grandes condutores, mas irrita-me andar a ver tanta gente que tem carros topo de gama (sobretudo descapotáveis ou carros obscenamente caros como Mercedes ou Porsches) a guiá-los pelo meio do trânsito de Lisboa, e a guiá-los mal. (É a isto que se chamam "sinais exteriores de riqueza"?)

No entanto, um bocadinho pior do que isso é ouvir a minha mãe a escandalizar-se com a incultura das gerações mais jovens que não sabem quem foi Humberto Delgado e logo a seguir a culpar por essa incultura os pais que, esses, não são incultos porque sabem quem foi Humberto Delgado. Logo a seguir a dizer que toda a gente na família dela é burra, à excepção da própria. 

28 de abril de 2008

NOSTALGIA

Não ouvia isto há qualquer coisa como vinte anos (nunca tive o disco e lembrava-me do teledisco dos tempos do Countdown no canal 2 da RTP) e é espantoso como, depois deste tempo todo, continua a deixar-me com um sorriso idiota de orelha a orelha. Não gosto tanto das outras coisas que conheço dos rapazes e em rigor os Red Box nunca passaram de uma nota de rodapé no carrocel pop. Mas só esta canção merece o raio da nota: esta é música feliz.  


Red Box - "Heart of the Sun" (do LP The Circle and the Square, Sire/WEA 1986)

24 de abril de 2008

DESCUBRAM AS DIFERENÇAS




Carter The Unstoppable Sex Machine  - "Sheriff Fatman" (do LP 101 Damnations, Big Cat 1990)


Pet Shop Boys - "Absolutely Fabulous" (single de beneficência para o Comic Relief)

OBSERVAÇÕES, AUSÊNCIAS E OUTROS VAZIOS

Este blog não está interrompido, tem estado só remetido para segundo plano porque tenho passado os dias a escrever e não é certo que me apeteça chegar ao fim do dia e ter coisas para dizer aqui. É um bom sinal que ando a precisar de férias, mas por outro lado isso quer dizer que não me apetece necessariamente passar as férias a actualizar blogs ou ao computador.

Acabo de descobrir na minha conta do Gmail que tinha 515 mensagens de junk mail, das quais 450 em caracteres chineses, alfabeto que não domino de todo. O que quer dizer que ou alguém acha que eu sei falar chinês (mas era mandarim ou cantonês?) ou alguém se enganou a mandar junk mail. Ou, pior ainda, os remetentes de junk mail passaram-se de vez.

Quando a única coisa que me apetece realmente fazer é ursar no cadeirão a ver séries de enfiada (actualmente: segunda temporada de "CSI", Las Vegas bem entendido, segunda de "Ossos" e primeira de "Veronica Mars", todos em atraso) enquanto o gato dormita tranquilamente no sofá, isso é outro sinal que estou a precisar de férias. 

O PDC (Processo de Digitalização em Curso) continua paulatinamente e irei chocar certamente muita gente que me tinha em conta de rapaz de bom gosto e requintada exigência ao dizer que um dos últimos CDs que digitalizei foi o único álbum que possuo de Nick Cave e que é, acreditem ou não, o "Best of" de 1998. (Lamento. Tenho mesmo um problema qualquer com o homem; mas também admito que gosto da "Ship Song" e de "Red Right Hand".)

Fiz uma maravilhosa sopa creme de milho que foi uma revelação. Antes disso tinha feito caldo de galinha caseiro que me deixou com frango cozido para três boas saladas mas só durou para um litro e pouco de sopa (o tal creme de milho, que também levava alho francês e molho tabasco e era uma delícia cremosa e saborosa). 

Ainda não me decidi se esta cena do PSD em auto-desintegração é uma tragédia ou uma farsa.


17 de abril de 2008

NA CONTINUAÇÃO DO PDC (processo de digitalização em curso)

It's only pop music, but we like it.


Belinda Carlisle, "I Get Weak" (do LP Heaven on Earth, Virgin, 1987)



Belinda Carlisle, "Heaven Is a Place on Earth" (do LP Heaven on Earth, Virgin, 1987)


13 de abril de 2008

POLAROID: CARREIRA 28

No eléctrico 28 da Estrela para o Camões, entram meia-dúzia de adeptos do Glasgow Rangers facilmente identificáveis pelas camisolas do clube (e, já agora, pelo sotaque escocês cerradíssimo). Um idoso desdentado, sentado com um saco do supermercado nas mãos, levanta-se e começa a dizer para quem quiser ouvir que se fosse a ele atirava-os a todos para o Tejo e partia-lhes os dentes todos, que fossem roubar lá para a terra deles e, ao sair no Camões, ainda ameaçou que ia dizer à polícia. 

8 de abril de 2008

A FILOSOFIA NO QUOTIDIANO

O que estava a ler o distribuidor do Destak esta manhã à entrada do metro?

Não, não estava a ler o jornal que distribui gratuitamente todos os dias, mas sim um livro chamado Perspectiva Filosófica

7 de abril de 2008

DÚVIDA EXISTENCIAL

Segundo a RTP, o líder do PSD preferiria que a nova ponte sobre o Tejo seguisse o percurso Algés-Trafaria. Será que, se esse fosse o percurso escolhido, o líder do PSD preferiria o percurso Chelas-Montijo? 

PDC (Processo de Digitalização em Curso)

É uma maravilha (passe a publicidade) isto da opção shuffle no iTunes do computador, ainda por cima quando já se tem uma quantidade considerável de música digitalizada. É francamente melhor do que ter de apanhar coisas de que não se gosta na rádio e ainda por cima a função tem bom gosto que isto de passar do Camané para A Naifa e dos Grant Lee Buffalo para Springsteen não é para qualquer um.

31 de março de 2008

O DIA DOS CROMOS

Na Fnac do Colombo, dois adolescentes de mochilas às costas observam o monitor de televisão que exibe imagens de "Beowulf". Um deles, mais baixo, de óculos e boné, descreve pormenorizadamente ao outro o filme bem como as imagens que estão a ver, com uma voz razoavelmente irritante e num volume um pouco mais alto do que seria desejável. Quando saio da loja depois de ter tomado café e comprado um DVD, 20 minutos depois, ainda lá estão.

No gabinete de atendimento ao cliente da estação de metro do Marquês de Pombal, o funcionário de serviço ausenta-se para procurar um documento qualquer. A idosa que ele está a atender, ao fim de um instante, levanta-se com dificuldade, contorna a secretária e olha fixamente para o écrã do computador. Quando percebe que a estou a ver, olha para mim com aquela frieza indignada de porteirinha que acha que sou um coscuvilheiro me estou a meter onde não sou chamado. 

30 de março de 2008

SONHOS SONHOS SÃO

Não me costumo lembrar dos meus sonhos, mas esta noite sonhei que José Mário Branco me perguntava quem tinha os direitos do filme de Luís Galvão Teles "A Confederação" enquanto eu tentava impedir o meu gato Diogo de subir para um eléctrico 28 em movimento algures numa rua parecida com as Escolas Gerais mas que tinha um arco do género do arco da Rua das Amoreiras. 

28 de março de 2008

AS CANÇÕES QUE NUNCA OUVIMOS

Niall Redmond merece ser eternamente louvaminhado por ter postado estes inéditos que os mocinhos ainda não gravaram. Eu, pelo menos, estou-lhe eternamente agradecido. Mesmo que a imagem seja uma merda e o som fraquito. 


"Meanwhile"


"Runaround Girl"


"Start Again"

FICA

Algumas bandas nunca deviam fazer telediscos — mas quando os fazem é como se não os tivessem feito, porque as canções não saem afectadas. The Blue Nile.


27 de março de 2008

COISAS QUE SE VÊEM NA TELEVISÃO

A nossa primeira dama com trajes africanos e o nosso presidente com um gorro que só me fazia lembrar de Pedro Abrunhosa.

25 de março de 2008

É TÃO BOM SER INDIVIDUALISTA

Primeiro, é a matrona da tesouraria da repartição de finanças que faz a sua melhor voz enfadada enquanto explica às pessoas que não, o sistema informático não pode funcionar, e por isso só pode vender impressos (a chamada voz "desamparem-me-a-loja-que-eu-estou-farta-de-aturar-gente-estúpida").

Depois, é a caixa do supermercado que diz que tem de me passar os legumes à parte para eu usufruir do desconto, só porque lhe apetece e porque tem vontade de empatar a fila que já de si está grandota.

Finalmente, é o velhote mal-disposto que escolheu o meio do passeio para ficar parado a acender o cigarro, independentemente de estar muita ou pouca gente a passar (e está muita). 

16 de março de 2008

QUE FAZES AÍ LISBOA

Está um rapaz dos seus 25, 30 anos a tomar café quando aparece um daqueles alfacinhas de gema, cinquentão (pelo menos) de barriga protuberante e voz de bagaço, que gosta de falar alto para mostrar a toda a gente que chegou e acha que tem muita graça quando faz perguntas do género "então também bebes cafés?". Será vizinho ou conhecido do rapaz e o modo como o cumprimenta — com a tal voz de bagaço a falar alto que se ouve em todo o lado no café que não é pequeno — dá a entender que têm um certo grau de familiaridade, e continua com as suas perguntas do género "estás contente por ter nascido?". Como quem sente que só recorrendo a chavões gastos e pretensamente bem-humorados consegue afastar o cinzento do rame-rame quotidiano sem perceber que está a ser um chato. 

12 de março de 2008

YO

Diariamente passo por uma porta na Alexandre Herculano que tem a identificação de uma firma de contabilidade que se chama MC Caixinha. 

7 de março de 2008

I WANT TO CRAWL ALL OVER HER

Hoje deu-me para Blur, desculpem lá.



"She's So High" (1990, realização David Balfe; white noise onírico)



"Girls & Boys" (1994, realização Kevin Godley; tecno-trash-cinismo)



"To The End" (1994, realização David Mould; pastiche-ersatz Resnais)



"The Universal" (1995, realização Jonathan Glazer; pastiche-ersatz Burgess/Kubrick)

6 de março de 2008

COPS

O uivo proverbial da sirene de um carro de polícia a preencher o largo do Rato vinha, desta vez, não dos habituais Volkswagen azuis e brancos mas... de um Smart de duas portas com a pintura da Escola Segura da PSP, a dar-lhe com todo o gás com o sinal vermelho da Escola Politécnica para a Alexandre Herculano.

5 de março de 2008

OH MÃE

Na fila para o café, noto que à minha frente está uma adolescente acompanhada pelo irmão miúdo encostado ao balcão com uma nota de vinte euros na mão, à espera que a empregada encha o tabuleiro do pequeno-almoço com cafés, galões, bolos. O irmão miúdo, no entanto, não se cala: está a trautear para si uma cançoneta indecifrável em tom de ruído branco. O pior, no entanto, ainda está para vir: ao longo de todo o pequeno-almoço, enquanto a adolescente conversa com a mãe e o avô, o miúdo interrompe regularmente num tom de voz que se ouve em todo o café, mesmo a várias mesas de distância, "oh mãe", "oh mãe", "oh mãe", exigindo a atenção que a mãe não lhe dá. E não se cala ao longo de vinte minutos. 

1 de março de 2008

ESTES PUBLICITÁRIOS

Vejo nos anúncios que agora está a ser lançado por cá o Chevrolet Aveo, que quase estive à beira de guiar em Los Angeles há dois anos (se não fosse o caso do rent-a-car ter feito o upgrade para o Chevy Cobalt, o que me parece que ia dar ao mesmo). Cá, a campanha publicitária posiciona-o como uma berlina familiar com um toquezinho de requinte; lá, é um compacto baratinho para o pessoal que quer um segundo carro ou um automóvel para guiar em cidade. 

CASINO, CASINO

Acho delicioso que Francisco Louçã, que tem sido descrito como fazendo parte da "esquerda caviar", venha agora falar de "políticos de casino". 

27 de fevereiro de 2008

MULHERES DE ONTEM E DE HOJE

A minha querida amiga Cristina sobre Javier Bardem ser um dos homens mais sexy do mundo: "Porra! Sexy sou eu, aquilo é um portento."

A minha mãe sobre o comentário da minha amiga Cristina: "Que horror! Estas mulheres de hoje não têm olhos, chamar sexy a um homem tão feio."

26 de fevereiro de 2008

QUANDO O TELEFONE TOCA

Um auricular Bluetooth no ouvido de um executivo ou de um bancário de fatinho e gravata ou saia e casaco ainda passa. Agora, no ouvido de uma mocinha com ar de boutique da moda com botas altas de camurça creme e sotaque nortenho carregado, é muito estranho. 

25 de fevereiro de 2008

O SOSSEGO DO FELINO

Um gato pode ser tão insuportável como uma criança birrenta quando decide que é isto que ela quer e mais nada — e o Diogo tem os seus ataques quando lhe dá para começar a perseguir cabos de carregadores de telemóvel (à última contagem, já ia em cinco destruídos). 

Mas um gato é também capaz de ser um momento de pausa retemperadora quando ele nos obriga a interromper o que quer que seja que estamos a fazer com as suas turras e os seus ronronares — como quando, estava eu a ver o telejornal depois de jantar, o Diogo me saltou para o colo e, ronronando, se enroscou em cima da minha barriga como se fosse a almofada preferida dele, e se deixou ali ficar um quarto de hora ronronando enquanto eu lhe fazia festas no lombo peludo.

Nesses momentos do sossego do felino, em que ele dormita descansado com um esboço de sorriso no focinho que, visto em grande plano, sugere o de um grande leão ou tigre descansando, parece que está tudo bem com o mundo. 

22 de fevereiro de 2008

400 MILES THROUGH FIELDS OF FIRE

Já há muito tempo que não ouvia Big Country e já me tinha esquecido como, quando eles foram bons (o tempo do primeiro LP, "The Crossing", de 1983, e momentos soltos dos seguintes "Steeltown", de 1984, "The Seer", de 1986, e "Peace in Our Time", de 1988), eles eram mesmo muito bons. Mesmo que o teledisco seja uma merda, havia qualquer coisa de heróico, de optimista, de grandioso na música do grupo. O que torna ainda mais triste que Stuart Adamson, o líder, cantor, guitarrista e principal compositor, se tenha suicidado em 2001. 



"Fields of Fire"




"In a Big Country"



"Harvest Home"
(todos do LP "The Crossing", Mercury/Universal, 1983)

21 de fevereiro de 2008

18/02/2008: LH 4536 FRA 21H05 - LIS 23H00

Estava eu convencido que ia ser um voozinho sossegado com pouca gente por ser voo nocturno de segunda-feira — ia, ia. Afinal, o avião vai cheio e fiquei sentado ao lado de pai e filho chinês (filho a fazer birra o voo quase todo) com o miúdo com um casal português a fingir muito mal que é cosmopolita na fila da frente (ela tem uma daquelas vozes de funcionária pública que regista a 15 filas de distância, mas vai à minha frente), um português a devorar as revistas da semana e um alemão de fato de treino a tentar dormir encostado à cadeira do outro lado da coxia. 

18/02/2008: LH 195 TXL 18h45 - FRA 19h55

O shuttle Berlim-Frankfurt de fim de dia vai bastante ocupado, com uns quantos alemães que já devem ter bebido umas bjecas e uns italianos que voltam de férias e conversam entre si ruidosamente como só os italianos sabem. O voo é tão curto — não chega a uma hora — que o comissário de bordo basicamente só tem tempo para servir as bebidas. Mas fá-lo muito bem e com muita convicção. 

EM BERLIM NÃO HÁ FNAC

...ou, pelo menos, não há Fnac que eu tenha visto. Mas há a Dussmann, "das Kulturkaufhaus", que o mesmo é dizer, "a loja da cultura", uma megastore de três andares que vende livros, discos, filmes, bilhetes para concertos e merchandising em pleno centro da cidade, à esquina de Unter den Linden e à saída do metro de Friedrichstraße. Não se deixem enganar por cadeias como a Hugendubel (só vende livros) nem pela ubíqua Media Markt/Saturn (tal como cá, vende tudo e mais alguma coisa): foi na Dussmann que eu finalmente encontrei as reedições do Leonard Cohen que a Sony BMG teima em não repôr nas discotecas portuguesas. Não vale a pena é andarem à procura de livros estrangeiros — também os há, mas os alemães traduzem tudo para alemão. 

(Dussmann: Friedrichstraße, 90, Berlin-Mitte; metro U6 Friedrichstraße; comboio S1/S2/S25/S5/S7/S75/S9 Friedrichstraße)

20 de fevereiro de 2008

NÃO SEJA ANTI-SOCIAL

Os berlinenses também são histéricos do telemóvel — toda a gente tem o seu, toda a gente anda com ele na mão (cheguei até a ver um mocinho com o computador portátil ligado... dentro do metro). 

Talvez por isso, é divertido ver um cartaz colado nas carruagens de metro a dizer "der Handy ist kein Lautsprecher": "o telemóvel não é um megafone". Como quem diz: não ande aos gritos no meio da rua. 

A EXPERIÊNCIA EINSTEIN

Eu avisei: na segunda-feira, não resisti, e ala para o Café Einstein para a verdadeira experiência de café berlinense. 

A decoração é clássica: bancos de couro castanho, cadeiras de madeira sólida, mesas de mármore ora redondas ora quadradas, luz indirecta suave, os jornais do dia suspensos na parede, as janelas para a rua (Kürfurstenstraße na esquina com Unter den Linden) veladas. Criados de camisa branca, colete preto, laço e avental branco. 

O cappuccino (em alemão "mélange") é maravilhoso, acompanhado por um copo de shot com água. "Pariser frühstück": uma baguette fresquíssima, saída do forno, cortada em fatias pequenas, acompanhada por manteiga da casa num pequeno recipiente de vidro, um frasquinho de mel e um frasquinho de compota de morango; um croissant de massa folhada também saído do forno; e uma pequena madalena com o toque exacto de baunilha para rematar. 


BOUTADE

A passear por Berlim no domingo, vejo uma coisa que nunca pensei ver, junto à estação de metro de Kleistpark: uma rua que sobe. Inclinada. Elevada. Chamem-lhe o que quiserem. Não era muito inclinada nem muito elevada — mas numa cidade tão completamente "flat" como Berlim, faz figura de surpresa. 

17 de fevereiro de 2008

HOME AWAY FROM HOME

Este ano, o hotel que me serviu de base de trabalho durante Berlim não foi o habitual Park Inn, em plena Alexanderplatz, mas sim um outro hotel que eu receava ser um bocadinho mais longe e, na prática, acabou por me ficar mais perto. 

O Innside Premium tem todo o aspecto de estar aqui há pouco tempo, fazendo parte de um dos habituais blocos mistos de escritórios e comércio que pululam em Berlim e a que eles chamam de "carré" (este chama-se City Carré). À esquina há um supermercado da cadeia Netto, um bar, uma loja de conveniência de indianos, uma pastelaria e os escritórios do Dresdner Bank; atravessando a rua há um armazém Kaufhof Galeria; a única coisa que trai a existência do hotel, cuja entrada é uma reentrância do bloco, é o neon azul que diz "hotel" cá fora.

Cá dentro, o Innside Premium é um hotel boutique feito a pensar nos negócios — não é muito grande (133 quartos), os quartos são espaçosos, com wi-fi da T-Mobile (pelo menos o hotel aqui não chula com aqueles preços inflacionados, mesmo que a T-Mobile não se faça barata), um pequeno frigorífico, micro-ondas, placa eléctrica e pacotinhos de café e chá, uma chaise-longue muito simpática e um chuveiro todo futurista. O televisor é que é uma decepção (claramente cortaram no orçamento aqui...) e o edredon apesar de quentinho podia ser maior. A almofada é uma chatice, é muito baixinha para o meu gosto.

Ficando em plena ex-Berlim Leste, para lá de Alexanderplatz, eu achava que ia poder ser mais complicado chegar ao centro da cidade. Mentira: embora não haja metro aqui (está no centro de um vazio entre as linhas U1, U5 e U8), o hotel está mesmo à esquina (literalmente: viro a esquina e lá está ela) da estação de comboios Ostbahnhof, que dá acesso rápido ao centro e a ligações para todo o lado. 

(Innside Premium Berlin: Lange Straße, 31; comboio S3/S5/S7/S75/S9 Ostbahnhof)

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA (já que estamos a falar de comida)

Surpresa hoje a jantar no meu bem-amado Oranium: pedi o farfalle com molho de laranja e manjericão sem saber muito bem o que ia sair dali, e o que saiu foi apenas maravilhoso, acompanhado por dois peitos de peru no espeto e um molho com a dose certa de picante para contrastar o sabor delicado da laranja. Mesmo, mesmo, mesmo uma surpresa.

Para quem gosta de italiano, dois outros sítios simpáticos e que não são caros. Um já conhecia do ano passado, embora agora tenha mudado para a porta ao lado e esteja significativamente maior: a Trattoria Piazza Rossa, que continua a ter as pizzas mais descomunais que já vi. Outro eu não conhecia: o Marinelli, que é simpático e bastante em conta em termos de preços, para além de ser bem servido.

Falta apenas dar um toque sobre o More, café e restaurante muito trendy que tem uns bifes maravilhosos a preços razoáveis.

(Oranium: Oranienburger Straße, 33, Berlin-Mitte; metro U6 Oranienburger Tor, comboio S1/S2/S25 Oranienburger Straße, eléctrico M6 Oranienburger Straße. Piazza Rossa: Rathausstraße, 5, Berlin-Mitte; metro U2/U5/U8 Alexanderplatz, comboio S5/S7/S75/S9 Alexanderplatz. Ristorante Marinelli: Anhalter Straße, 1, Berlin-Mitte; comboio S1/S2/S25 Anhalter Bahnhof. More: Motzstraße, 28, Berlin-Schöneberg; metro U1/U2/U3/U4 Nollendorfplatz. )

BRUNCH BERLINENSE

O brunch berlinense de domingo chama-se frühstück — é a mesma palavra de pequeno-almoço, mas o pão, a manteiga, a compota, o café, o sumo de laranja ou o croissant é reforçado com fruta, queijo, carnes frias e quentes, bolos.

A minha tentativa de brunch no Café Einstein (na esquina de Kurfürstenstraße com a maravilhosa avenida Unter den Linden) falhou vergonhosamente porque estava a abarrotar de gente. Como aliás quase todos os cafés abertos por onde passei (todas as lojas e bastantes restaurantes estão fechados ao domingo em Berlim), acabando por voltar ao poiso ocasional que é o Café Berio (no início da Maaßenstraße, ao pé de Nollendorfplatz) — belíssimos croissants, a propósito, e tudo rematado com um bolo de chocolate e noz que não vos digo nada. 

(Café Einstein: Kurfürstenstraße, 58, Berlin-Mitte; metro U6 Friedrichstraße, comboio S1/S2 Unter den Linden ou Friedrichstraße. Café Berio: Maaßenstraße, 7, Berlin-Schöneberg; metro U1/U2/U3/U4 Nollendorfplatz)

PONTUALIDADE GERMÂNICA

Estão a ver a tal cena dos transportes públicos com a pontualidade germânica?

Descobri hoje duas coisas.

Primeira: aos domingos (em que os comboios passam todos os 10 minutos e não uns a seguir aos outros) a pontualidade atrasa-se um ou dois minutos.

Segunda: os alemães levam muito a mal que o outro chegue atrasado, mas eles arrogam-se o direito de chegarem 15 minutos mais tarde se for caso disso. (Isto não se aplica ao transporte público.)

15 de fevereiro de 2008

É VERDADE: OS ALEMÃES NÃO SÃO PESSOAS MUITO SIMPÁTICAS

Sentado na sala de imprensa a escrever, com uma mocinha italiana a escrever ao meu lado com o seu kispo dobrado por cima do sofá. De repente, alguém da organização (presumo eu) chega-se ao pé da mocinha italiana e pega no kispo, perguntando-lhe em alemão "o casaco é seu?". Ela, com um ar surpreendido, em alemão: "Sim." "É que me estava a cheirar a queimado" e mostra-lhe que o casaco dobrado por cima do sofá mas com a ponta em cima de uma das lâmpadas que estão por trás do sofá a fazer luz indirecta. 

A italiana vai-lhe agradecendo com ar encavacado, misturando algum alemão com italiano. Mas o alemão, mesmo depois de perceber que ela não é alemã, insiste em falar apenas alemão (mais dois ou três alemães aparecem a perguntar o que se passa), até ela pedir desculpa pela distracção e ele dizer "o casaco é seu". 

14 de fevereiro de 2008

VERKEHRSVERBUND BERLIN-BRANDENBURG

O que é divertido no sistema de transporte público de Berlim, para além de ser de uma pontualidade germânica a toda a prova que mete qualquer outra cidade no chinelo, é o facto do comboio poder ser metro e do metro também poder ser comboio, mas do comboio não ser metro e do metro não ser comboio.

Trocando por miúdos (e não estou a tentar ser filosófico nem nada que se pareça): a rede de comboios sub/urbanos que atravessa Berlim chama-se S-Bahn (de Stadtbahn, "comboio de cidade"), mas algumas das linhas de S-Bahn são subterrâneas sem que por isso deixem de ser linhas de comboio.

A rede de metropolitano chama-se U-Bahn (de Untergrundsbahn, "comboio subterrâneo"), mas quase todas as linhas de U-Bahn têm secçoes elevadas ao ar livre sem que por isso deixem de ser linhas de metro. 

Exemplo prático: hoje apanhei a linha de metro U1 de Nollendorfplatz em direcção a Warschauer Straße. Em Nollendorfplatz, a linha é subterrânea, mas a partir da estação de Gleisdreieck e até ao términus em Warschauer Straße, é elevada ao ar livre.

Já as linhas de comboio S1, S2 ou S25 que apanho em Friedrichstraße para ir para a Potsdamer Platz são subterrâneas no percurso entre estas estações.

As composições do metro são uma espécie de "S-Bahn de bolso" para caberem nos túneis subterrâneos — mas podíamos ficar aqui até amanhã a discutir os pormenores. Como na questão dos géneros das palavras (que em alemão podem ser masculino, feminino ou neutro de modo absolutamente aleatório), as linhas são o que são e ponto final. 

O MUNDO AO CONTRÁRIO

Conceito de "lanche" de um mocinho alemão sentado ao meu lado: duas salsichas e uma salada de batata, acompanhadas por café.

O MUNDO AO CONTRÁRIO

Uma das coisas mais curiosas quando estou em Berlim é que as portas deles abrem ao contrário — em vez de as empurrarmos para dentro, temos de as puxar para fora. Esqueço-me sempre disso e só ao fim de uma semana consigo atinar e acertar no movimento correcto. 

10 de fevereiro de 2008

SE BEBER NÃO CONDUZA

Às onze e meia da noite de domingo, os transportes públicos estão cheios de gente que volta para casa, tal como já tinham estado cheios de gente às onze e meia das noites de sexta e sábado (mas aí não me acredito que fossem todos para casa a essas horas). 

Comum aos três dias são as garrafas de cerveja, coca-cola ou espumante que muita gente, sozinha ou em grupos, traz na mão e bebe durante o trajecto, depositando as garrafas vazias nos vidrões que há em cada estação ou (se não estiverem para isso) em cima de parapeitos ou encostados a escadas.  

SUNRISE

7h45 da manhã. Céu azul e frio matinal sobre Berlim com o sol a nascer forte e alaranjado por entre as torres de apartamentos de modelo institucional, os palácios imperiais, as linhas de comboio que atravessam a cidade. E os vendedores que montam as suas bancas de antiguidades, velharias, segunda mão em frente à estação de Ostbahnhof.

9 de fevereiro de 2008

MOJO IN BERLIN

À mesa do jantar, leio a Mojo de Janeiro para pôr em dia leituras atrasadas. A propósito dos My Bloody Valentine (que parece que vão voltar), descubro que o que nos anos 1980 se chamava "shoegazing" passou agora a ser denominado "feedback pop". E também que Amy Winehouse "smoked dope, drank heavily and swore like a football manager". O que me fez pensar, acreditem ou não, mais em José Mourinho do que em Jaime Pacheco. 

S-BAHN

Este ano, não fiquei instalado no habitual hotel de Alexanderplatz que tinha linha directa de metro para a zona do festival, mas sim um pouco mais longe, num hotel muito simpático ainda e sempre na antiga Berlim Leste, em Ostbahnhof. Que não tem estação de metro ao pé, mas não faz mal, porque fica mesmo ao lado de uma das gares centrais de comboio - assim a modos que Sete Rios ou Entrecampos. 

Todos os dias de manhã apanho um de quatro comboios possíveis das linhas urbanas berlinenses, o célebre S-Bahn. É indiferente qual das linhas é ou qual dos comboios eu apanho, desde que passe por Friedrichstraße, onde tenho de mudar de cais para apanhar as linhas S1 ou S2 com paragem em Potsdamer Platz. A parte engraçada é que, de comboio urbano (pensem linha de Cascais, Sintra, Azambuja) à superfície (ou melhor: elevado em muitas linhas), as S1 e S2 são maioritariamente subterrâneas, tipo metro. 

O curioso é que, mesmo tendo de mudar de linha para ir de Ostbahnhof a Potsdamer Platz, levo menos tempo do que levava de metro. 

7 de fevereiro de 2008

CHOCOLATE CHERRY MUFFIN

Em plena Alte Potsdamer Straße, quase em frente do palácio dos festivais, há um Starbucks que é um dos meus poisos preferidos no meio do frenesi dos três filmes por dia (quando não mais). É um reduto confortável onde bebo um café e como um muffin (hoje foi o de chocolate e cereja; as sanduíches também não são más) à laia de pequeno-almoço ou numa pausa entre dois filmes. Está sempre cheio, mas isso é porque a maior parte dos jornalistas e outros profissionais em serviço só gostam do que têm em casa e já conhecem, enquanto que eu não tenho Starbucks em Lisboa (e também não sei se quero ter, mas isso são outras conversas). Mas a verdade é que não há muitos cafés onde se ouça Thelonious Monk, Bob Dylan ou Leonard Cohen enquanto se bebe um café e come um muffin. 

Quase toda a gente sentada nas mesas e nos bancos altos tem um passe do festival ao pescoço, folheia programas ou informações de projecções, revistas da profissão, quando não mesmo o calhamaço de 400 páginas que é o catálogo, provavelmente à procura daquela descoberta que não está a concurso e onde pode estar o futuro (?) do cinema (ou pelo menos o futuro de hoje do cinema, porque amanhã a coisa pode mudar). E, ao meu lado, a Katrin (o nome está escrito a feltro no copo alto de café ao seu lado) escreve num Sony Vaio daqueles pequeninos que dão novo nome à palavra "portátil". 

(Starbucks: Alte Potsdamer Straße, 7, Berlin-Mitte; metro U2 Potsdamer Platz, comboio S1/S2/S25 Potsdamer Platz)

6 de fevereiro de 2008

06/02/2008: LH 218 MUC 11h10 - TXL 12h20

Eu sei o que é um Blackberry. Conheço até um viciado em Blackberry. Mas mesmo o viciado em Blackberry que eu conheço não é nada viciado quando comparado com a mocinha que vai na fila da frente do meu vôo para Berlim, que não o desliga nem por mais uma excepto quando o avião acaba de descolar, escrevendo e consultando como quem tem nervoso miudinho. É a isto que se chama Crackberry?

Durante a aterragem em Berlin-Tegel (o tal aeroporto das ilhas), dou por mim a pensar que um avião deve ser parecido com um carro e ter as suas idiossincrasias que qualquer bom piloto - ler chofer - sabe identificar e compensar. Isto porque há um barulhinho irritante que é provavelmente um contentor de catering ou uma cafeteira que está um bocadinho solta ou que não ficou bem presa quando o comissário de bordo o/a arrumou e que faz uma tremideira de fazer ranger os dentes de irritante ao longo da aterragem. E dei por mim a pensar no comandante a dizer ao co-piloto: "oh Manel, dá aí um piparote no indicador da velocidade que está a zeros e não pode ser".

06/02/2008: LH 4545 LIS 06h25 - MUC 10h15

É a primeira vez que vejo as hospedeiras de bordo fazer "avançar" os cortinados que separam a "primeira classe" da "económica" num avião. É fixe: tem um certo ar "plug and play", de Legos que se desmontam e passam para a fila da frente. Há quem ressone durante as duas horas e meia de vôo. É um português. 

3 de fevereiro de 2008

É FRANCESA, O QUE É QUE QUEREM

Senão, vejamos: Carla Bruni (linda) já esteve romanticamente ligada a Eric Clapton, Mick Jagger ou Donald Trump e agora casou-se com Nicolas Sarkozy. Mas para pai do seu filho escolheu... um professor de filosofia.