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17 de fevereiro de 2008

HOME AWAY FROM HOME

Este ano, o hotel que me serviu de base de trabalho durante Berlim não foi o habitual Park Inn, em plena Alexanderplatz, mas sim um outro hotel que eu receava ser um bocadinho mais longe e, na prática, acabou por me ficar mais perto. 

O Innside Premium tem todo o aspecto de estar aqui há pouco tempo, fazendo parte de um dos habituais blocos mistos de escritórios e comércio que pululam em Berlim e a que eles chamam de "carré" (este chama-se City Carré). À esquina há um supermercado da cadeia Netto, um bar, uma loja de conveniência de indianos, uma pastelaria e os escritórios do Dresdner Bank; atravessando a rua há um armazém Kaufhof Galeria; a única coisa que trai a existência do hotel, cuja entrada é uma reentrância do bloco, é o neon azul que diz "hotel" cá fora.

Cá dentro, o Innside Premium é um hotel boutique feito a pensar nos negócios — não é muito grande (133 quartos), os quartos são espaçosos, com wi-fi da T-Mobile (pelo menos o hotel aqui não chula com aqueles preços inflacionados, mesmo que a T-Mobile não se faça barata), um pequeno frigorífico, micro-ondas, placa eléctrica e pacotinhos de café e chá, uma chaise-longue muito simpática e um chuveiro todo futurista. O televisor é que é uma decepção (claramente cortaram no orçamento aqui...) e o edredon apesar de quentinho podia ser maior. A almofada é uma chatice, é muito baixinha para o meu gosto.

Ficando em plena ex-Berlim Leste, para lá de Alexanderplatz, eu achava que ia poder ser mais complicado chegar ao centro da cidade. Mentira: embora não haja metro aqui (está no centro de um vazio entre as linhas U1, U5 e U8), o hotel está mesmo à esquina (literalmente: viro a esquina e lá está ela) da estação de comboios Ostbahnhof, que dá acesso rápido ao centro e a ligações para todo o lado. 

(Innside Premium Berlin: Lange Straße, 31; comboio S3/S5/S7/S75/S9 Ostbahnhof)

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA (já que estamos a falar de comida)

Surpresa hoje a jantar no meu bem-amado Oranium: pedi o farfalle com molho de laranja e manjericão sem saber muito bem o que ia sair dali, e o que saiu foi apenas maravilhoso, acompanhado por dois peitos de peru no espeto e um molho com a dose certa de picante para contrastar o sabor delicado da laranja. Mesmo, mesmo, mesmo uma surpresa.

Para quem gosta de italiano, dois outros sítios simpáticos e que não são caros. Um já conhecia do ano passado, embora agora tenha mudado para a porta ao lado e esteja significativamente maior: a Trattoria Piazza Rossa, que continua a ter as pizzas mais descomunais que já vi. Outro eu não conhecia: o Marinelli, que é simpático e bastante em conta em termos de preços, para além de ser bem servido.

Falta apenas dar um toque sobre o More, café e restaurante muito trendy que tem uns bifes maravilhosos a preços razoáveis.

(Oranium: Oranienburger Straße, 33, Berlin-Mitte; metro U6 Oranienburger Tor, comboio S1/S2/S25 Oranienburger Straße, eléctrico M6 Oranienburger Straße. Piazza Rossa: Rathausstraße, 5, Berlin-Mitte; metro U2/U5/U8 Alexanderplatz, comboio S5/S7/S75/S9 Alexanderplatz. Ristorante Marinelli: Anhalter Straße, 1, Berlin-Mitte; comboio S1/S2/S25 Anhalter Bahnhof. More: Motzstraße, 28, Berlin-Schöneberg; metro U1/U2/U3/U4 Nollendorfplatz. )

BRUNCH BERLINENSE

O brunch berlinense de domingo chama-se frühstück — é a mesma palavra de pequeno-almoço, mas o pão, a manteiga, a compota, o café, o sumo de laranja ou o croissant é reforçado com fruta, queijo, carnes frias e quentes, bolos.

A minha tentativa de brunch no Café Einstein (na esquina de Kurfürstenstraße com a maravilhosa avenida Unter den Linden) falhou vergonhosamente porque estava a abarrotar de gente. Como aliás quase todos os cafés abertos por onde passei (todas as lojas e bastantes restaurantes estão fechados ao domingo em Berlim), acabando por voltar ao poiso ocasional que é o Café Berio (no início da Maaßenstraße, ao pé de Nollendorfplatz) — belíssimos croissants, a propósito, e tudo rematado com um bolo de chocolate e noz que não vos digo nada. 

(Café Einstein: Kurfürstenstraße, 58, Berlin-Mitte; metro U6 Friedrichstraße, comboio S1/S2 Unter den Linden ou Friedrichstraße. Café Berio: Maaßenstraße, 7, Berlin-Schöneberg; metro U1/U2/U3/U4 Nollendorfplatz)

PONTUALIDADE GERMÂNICA

Estão a ver a tal cena dos transportes públicos com a pontualidade germânica?

Descobri hoje duas coisas.

Primeira: aos domingos (em que os comboios passam todos os 10 minutos e não uns a seguir aos outros) a pontualidade atrasa-se um ou dois minutos.

Segunda: os alemães levam muito a mal que o outro chegue atrasado, mas eles arrogam-se o direito de chegarem 15 minutos mais tarde se for caso disso. (Isto não se aplica ao transporte público.)

15 de fevereiro de 2008

É VERDADE: OS ALEMÃES NÃO SÃO PESSOAS MUITO SIMPÁTICAS

Sentado na sala de imprensa a escrever, com uma mocinha italiana a escrever ao meu lado com o seu kispo dobrado por cima do sofá. De repente, alguém da organização (presumo eu) chega-se ao pé da mocinha italiana e pega no kispo, perguntando-lhe em alemão "o casaco é seu?". Ela, com um ar surpreendido, em alemão: "Sim." "É que me estava a cheirar a queimado" e mostra-lhe que o casaco dobrado por cima do sofá mas com a ponta em cima de uma das lâmpadas que estão por trás do sofá a fazer luz indirecta. 

A italiana vai-lhe agradecendo com ar encavacado, misturando algum alemão com italiano. Mas o alemão, mesmo depois de perceber que ela não é alemã, insiste em falar apenas alemão (mais dois ou três alemães aparecem a perguntar o que se passa), até ela pedir desculpa pela distracção e ele dizer "o casaco é seu". 

14 de fevereiro de 2008

VERKEHRSVERBUND BERLIN-BRANDENBURG

O que é divertido no sistema de transporte público de Berlim, para além de ser de uma pontualidade germânica a toda a prova que mete qualquer outra cidade no chinelo, é o facto do comboio poder ser metro e do metro também poder ser comboio, mas do comboio não ser metro e do metro não ser comboio.

Trocando por miúdos (e não estou a tentar ser filosófico nem nada que se pareça): a rede de comboios sub/urbanos que atravessa Berlim chama-se S-Bahn (de Stadtbahn, "comboio de cidade"), mas algumas das linhas de S-Bahn são subterrâneas sem que por isso deixem de ser linhas de comboio.

A rede de metropolitano chama-se U-Bahn (de Untergrundsbahn, "comboio subterrâneo"), mas quase todas as linhas de U-Bahn têm secçoes elevadas ao ar livre sem que por isso deixem de ser linhas de metro. 

Exemplo prático: hoje apanhei a linha de metro U1 de Nollendorfplatz em direcção a Warschauer Straße. Em Nollendorfplatz, a linha é subterrânea, mas a partir da estação de Gleisdreieck e até ao términus em Warschauer Straße, é elevada ao ar livre.

Já as linhas de comboio S1, S2 ou S25 que apanho em Friedrichstraße para ir para a Potsdamer Platz são subterrâneas no percurso entre estas estações.

As composições do metro são uma espécie de "S-Bahn de bolso" para caberem nos túneis subterrâneos — mas podíamos ficar aqui até amanhã a discutir os pormenores. Como na questão dos géneros das palavras (que em alemão podem ser masculino, feminino ou neutro de modo absolutamente aleatório), as linhas são o que são e ponto final. 

O MUNDO AO CONTRÁRIO

Conceito de "lanche" de um mocinho alemão sentado ao meu lado: duas salsichas e uma salada de batata, acompanhadas por café.

O MUNDO AO CONTRÁRIO

Uma das coisas mais curiosas quando estou em Berlim é que as portas deles abrem ao contrário — em vez de as empurrarmos para dentro, temos de as puxar para fora. Esqueço-me sempre disso e só ao fim de uma semana consigo atinar e acertar no movimento correcto. 

10 de fevereiro de 2008

SE BEBER NÃO CONDUZA

Às onze e meia da noite de domingo, os transportes públicos estão cheios de gente que volta para casa, tal como já tinham estado cheios de gente às onze e meia das noites de sexta e sábado (mas aí não me acredito que fossem todos para casa a essas horas). 

Comum aos três dias são as garrafas de cerveja, coca-cola ou espumante que muita gente, sozinha ou em grupos, traz na mão e bebe durante o trajecto, depositando as garrafas vazias nos vidrões que há em cada estação ou (se não estiverem para isso) em cima de parapeitos ou encostados a escadas.  

SUNRISE

7h45 da manhã. Céu azul e frio matinal sobre Berlim com o sol a nascer forte e alaranjado por entre as torres de apartamentos de modelo institucional, os palácios imperiais, as linhas de comboio que atravessam a cidade. E os vendedores que montam as suas bancas de antiguidades, velharias, segunda mão em frente à estação de Ostbahnhof.

9 de fevereiro de 2008

MOJO IN BERLIN

À mesa do jantar, leio a Mojo de Janeiro para pôr em dia leituras atrasadas. A propósito dos My Bloody Valentine (que parece que vão voltar), descubro que o que nos anos 1980 se chamava "shoegazing" passou agora a ser denominado "feedback pop". E também que Amy Winehouse "smoked dope, drank heavily and swore like a football manager". O que me fez pensar, acreditem ou não, mais em José Mourinho do que em Jaime Pacheco. 

S-BAHN

Este ano, não fiquei instalado no habitual hotel de Alexanderplatz que tinha linha directa de metro para a zona do festival, mas sim um pouco mais longe, num hotel muito simpático ainda e sempre na antiga Berlim Leste, em Ostbahnhof. Que não tem estação de metro ao pé, mas não faz mal, porque fica mesmo ao lado de uma das gares centrais de comboio - assim a modos que Sete Rios ou Entrecampos. 

Todos os dias de manhã apanho um de quatro comboios possíveis das linhas urbanas berlinenses, o célebre S-Bahn. É indiferente qual das linhas é ou qual dos comboios eu apanho, desde que passe por Friedrichstraße, onde tenho de mudar de cais para apanhar as linhas S1 ou S2 com paragem em Potsdamer Platz. A parte engraçada é que, de comboio urbano (pensem linha de Cascais, Sintra, Azambuja) à superfície (ou melhor: elevado em muitas linhas), as S1 e S2 são maioritariamente subterrâneas, tipo metro. 

O curioso é que, mesmo tendo de mudar de linha para ir de Ostbahnhof a Potsdamer Platz, levo menos tempo do que levava de metro. 

7 de fevereiro de 2008

CHOCOLATE CHERRY MUFFIN

Em plena Alte Potsdamer Straße, quase em frente do palácio dos festivais, há um Starbucks que é um dos meus poisos preferidos no meio do frenesi dos três filmes por dia (quando não mais). É um reduto confortável onde bebo um café e como um muffin (hoje foi o de chocolate e cereja; as sanduíches também não são más) à laia de pequeno-almoço ou numa pausa entre dois filmes. Está sempre cheio, mas isso é porque a maior parte dos jornalistas e outros profissionais em serviço só gostam do que têm em casa e já conhecem, enquanto que eu não tenho Starbucks em Lisboa (e também não sei se quero ter, mas isso são outras conversas). Mas a verdade é que não há muitos cafés onde se ouça Thelonious Monk, Bob Dylan ou Leonard Cohen enquanto se bebe um café e come um muffin. 

Quase toda a gente sentada nas mesas e nos bancos altos tem um passe do festival ao pescoço, folheia programas ou informações de projecções, revistas da profissão, quando não mesmo o calhamaço de 400 páginas que é o catálogo, provavelmente à procura daquela descoberta que não está a concurso e onde pode estar o futuro (?) do cinema (ou pelo menos o futuro de hoje do cinema, porque amanhã a coisa pode mudar). E, ao meu lado, a Katrin (o nome está escrito a feltro no copo alto de café ao seu lado) escreve num Sony Vaio daqueles pequeninos que dão novo nome à palavra "portátil". 

(Starbucks: Alte Potsdamer Straße, 7, Berlin-Mitte; metro U2 Potsdamer Platz, comboio S1/S2/S25 Potsdamer Platz)

6 de fevereiro de 2008

06/02/2008: LH 218 MUC 11h10 - TXL 12h20

Eu sei o que é um Blackberry. Conheço até um viciado em Blackberry. Mas mesmo o viciado em Blackberry que eu conheço não é nada viciado quando comparado com a mocinha que vai na fila da frente do meu vôo para Berlim, que não o desliga nem por mais uma excepto quando o avião acaba de descolar, escrevendo e consultando como quem tem nervoso miudinho. É a isto que se chama Crackberry?

Durante a aterragem em Berlin-Tegel (o tal aeroporto das ilhas), dou por mim a pensar que um avião deve ser parecido com um carro e ter as suas idiossincrasias que qualquer bom piloto - ler chofer - sabe identificar e compensar. Isto porque há um barulhinho irritante que é provavelmente um contentor de catering ou uma cafeteira que está um bocadinho solta ou que não ficou bem presa quando o comissário de bordo o/a arrumou e que faz uma tremideira de fazer ranger os dentes de irritante ao longo da aterragem. E dei por mim a pensar no comandante a dizer ao co-piloto: "oh Manel, dá aí um piparote no indicador da velocidade que está a zeros e não pode ser".

06/02/2008: LH 4545 LIS 06h25 - MUC 10h15

É a primeira vez que vejo as hospedeiras de bordo fazer "avançar" os cortinados que separam a "primeira classe" da "económica" num avião. É fixe: tem um certo ar "plug and play", de Legos que se desmontam e passam para a fila da frente. Há quem ressone durante as duas horas e meia de vôo. É um português. 

3 de fevereiro de 2008

É FRANCESA, O QUE É QUE QUEREM

Senão, vejamos: Carla Bruni (linda) já esteve romanticamente ligada a Eric Clapton, Mick Jagger ou Donald Trump e agora casou-se com Nicolas Sarkozy. Mas para pai do seu filho escolheu... um professor de filosofia.

29 de janeiro de 2008

19 de janeiro de 2008

17 de janeiro de 2008

É CAPAZ DE HAVER MALES QUE VÊM POR BEM

Descobriu-se então que o enxofre vertido na Faculdade de Farmácia se deveu a uma empregada da limpeza que decidiu deitar fora um frasco partido ao que parece sem dar cavaco às melgas e sem perceber que era (nas palavras de outra senhora da limpeza) "tóshico". 

De onde se retira que isto de haver senhoras da limpeza sobre-qualificadas para o emprego que têm pode não ser tão problemático como parece.

POLAROID: METRO

À saída do metro do Saldanha, esta manhã, um jovem à minha frente com auscultadores nos ouvidos cantava em altos berros e numa voz incompreensível uma canção que descobri com alguma atenção ser "Não Sou o Único" (não sei é em que versão). Depois dei por mim a pensar que é provavelmente aquela mesma figura que eu faço quando ando de auscultadores por Lisboa. 

16 de janeiro de 2008

POLAROID

O ar infeliz dos fumadores que se vêem obrigados a vir para a rua fumar de manhãzinha nota-se mais quando estão quatro ou cinco à porta do escritório, todos à espera que a/o última/o que ainda está a fumar acabe para poderem voltar todos para dentro. 

8 de janeiro de 2008

LAGOSTA CURTE LARGO


Esta canção devia vir dentro de uma daquelas caixinhas de vidro com um martelo ao lado e a indicação: "Partir vidro em caso de necessidade". E basta uma audição para alegrar qualquer dia mais cinzento. E pensar que "Rock Lobster" já tem quase 30 anos em cima... 



The B-52's, "Rock Lobster" (in "The B-52's", Island, 1979)

OUÇA LÁ

Cheguei hoje à conclusão que tentar manter uma conversa com alguém que usa um aparelho auditivo  pode limitar-se a manter contacto visual e a fazer que sim com a cabeça — porque qualquer resposta que se possa dar não vai ser ouvida e a coisa vai descambar verdadeiramente num diálogo de surdos. 

7 de janeiro de 2008

PEQUENO-ALMOÇO

A confeitaria Marquês de Pombal tem uma das melhores torradas do mundo, mas leva tempo a fazer, como descobriu esta manhã por sua conta e risco um turista que pediu à empregada para lhe trazer uma igual à minha (mmmm, pãozinho integral de forma caseira, manteiga no ponto certo) e ficou à espera dela dez minutos, com um ar muito irritado de quem sentia estar num terceiro mundo do qual não compreendia nada. Diga-se em abono da verdade que a empregada não estava nos seus dias, como fica provado quando eu lhe peço "um galão e uma torrada" e ela repete "um pão com manteiga?".

5 de janeiro de 2008

VÍCIO

Se gostam de chocolate, vejam só esta perdição

HORA DE PONTA

Como, durante a semana, não tenho por hábito conduzir em Lisboa, no outro dia um amigo meu ficou bastante surpreendido por perceber que eu tinha carro — ao que lhe expliquei que tenho, mas durante a semana uso os transportes públicos. Hoje que precisei de sair com o carro, voltei a lembrar-me porque é que não gosto de sair com o carro em Lisboa.

Primeiro, estava a chover, o que tem o efeito de trazer mais carros para as ruas e de desacelerar o trânsito até ao ritmo de uma hora de ponta de dia de semana. Depois, ao fim-de-semana todos aqueles que, como eu, não conduzem durante a semana saem com o carro, o que coloca nas ruas uma quantidade assinalável de condutores de domingo. Com o resultado de que levei quase hora e meia para uma ida e volta que me costuma levar metade do tempo — e eu aí recordo-me porque é que andar de carro em Lisboa é tão desgastante e nos faz perder tanto tempo produtivo. 

3 de janeiro de 2008

O AMARELO DA CARRIS (slight return)

Num 28 cheio com um forte cheiro acre a passagem-subterrânea-por-baixo-da-linha-férrea de Belém, uma senhora tenta forçar passagem para a frente até eu lhe dizer que não vale a pena estar a forçar porque não há espaço mais à frente — é o problema dos miúdos irem em pé, parece que não está lá ninguém. 

2 de janeiro de 2008

OS AMARELOS DA CARRIS

À ida, no 28 para o Martim Moniz: descendo a Calçada da Estrela nos traços de um 28 para a Graça a abarrotar, uma fila de passageiros a querer subir é empatada por um passageiro que compra bilhete com uma nota alta. Com uma camioneta em segunda fila a empatar o trânsito na outra direcção, não é preciso muito tempo para o trânsito ficar engarrafado e se começarem a ouvir as proverbiais buzinadelas dos apressadinhos.

À volta, no 25 para os Prazeres: subindo a Calçada Ribeiro Santos, alguém deixou um VW com os quatro piscas ligados parado em pleno percurso dos carris, e só depois de longas buzinadelas do condutor é que o automobolista se digna descer pacatamente como se não fosse nada com ele. 

1 de janeiro de 2008

RELATIVIZEMOS

"Ano novo, vida nova"? "Resoluções de Ano Novo", tomadas às doze badaladas?

A meia-noite de Lisboa são as quatro da tarde de São Francisco ou a uma da tarde de Sydney. É só uma mudança de calendário, um mês que acaba outro que  começa, um dia que acaba outro que começa. O Ano Novo é uma construção abstracta diferente em cada país do mundo. Se quiséssemos ser pragmáticos, as "resoluções de Ano Novo" deviam ser tomadas todos os dias, cada dia, em vez de decididas no primeiro dia do ano e esquecidas no segundo. 

Tudo isto porque passei uma maravilhosa passagem de ano — sozinho com o gato, em casa, no quentinho aconchegado do sofá, a ver bom cinema e a ler boa literatura, longe das celebrações mais ou menos frenéticas de quem quer que o Ano Novo tenha um significado especial. É só uma noite como as outras (e um bom pretexto, é certo, para apanhar uma tosga ou ficar na cama até mais tarde no dia a seguir) — e cabe-nos a nós investir o nosso significado nesta como noutras noites. 

Dito tudo isto, Bom Ano para vocês. 

31 de dezembro de 2007

PEQUENO DESVIO PELA ACTUALIDADE INTERNACIONAL

Para quem tem acompanhado as notícias sobre a investigação do assassínio da antiga primeiro-ministro paquistanesa Benazir Bhutto, é impossível não ter um sorriso amarelo sempre que o porta-voz do governo do presidente Musharraf, o brigadeiro Cheema, aparece a falar inglês com o seu grande bigode; só me lembro daquela série cómica da BBC, "Goodness Gracious Me", sobre os indianos em Inglaterra. Essa comparação um tudo nada de humor negro reapareceu hoje quando li que o brigadeiro explicitou a rejeição pelo governo paquistanês da colaboração de investigadores ingleses dizendo que os investigadores estrangeiros não estão inteiramente a par do que se passa no Paquistão, e rematando com a seguinte frase: "A Scotland Yard não pode investigar no Waziristão. Não falam pashto". 

Se tudo isto não fosse tão perturbantemente real, seria hilariante. 

30 de dezembro de 2007

OBRIGADO AO BASTONÁRIO DA ORDEM DOS MÉDICOS DENTISTAS

...por nos dizer, na capa da "Revista da Qualidade" distribuida gratuitamente com o Público de sexta-feira, que a "medicina dentária portuguesa vive um momento histórico". Sinto-me feliz e realizado por viver neste grande momento histórico para a medicina dentária portuguesa, imediatamente antes de atirar a "Revista da Qualidade" para o caixote do lixo do papel a reciclar juntamente com a quantidade de papel absurda que os jornais de fim-de-semana trazem sem que ninguém esteja realmente interessado nele. 

29 de dezembro de 2007

2007 IMAGENS

1. Letters from Iwo Jima/CARTAS DE IWO JIMA, Clint Eastwood, 2007
2. Ratatouille/RATATUI, Brad Bird & Jan Pinkava, 2007
3. The Fountain/O ÚLTIMO CAPÍTULO, Darren Aronofsky, 2006
4. Moartea Domnului Lazarescu/A MORTE DO SR. LAZARESCU, Cristi Puiu, 2004
5. Sunshine/MISSÃO SOLAR, Danny Boyle, 2007

seguidos de

300/300, Zack Snyder, 2007
Death Proof/À PROVA DE MORTE, Quentin Tarantino, 2007
Across the Universe/ACROSS THE UNIVERSE, Julie Taymor, 2007
ANGEL, François Ozon, 2006
Shoot 'Em Up/ATIRAR A MATAR, Michael Davis, 2007
Knocked Up/UM AZAR DO CARAÇAS, Judd Apatow, 2007
Flags of Our Fathers/AS BANDEIRAS DOS NOSSOS PAIS, Clint Eastwood, 2006
The Good German/O BOM ALEMÃO, Steven Soderbergh, 2006
The Good Shepherd/O BOM PASTOR, Robert de Niro, 2006
Bug/BUG, William Friedkin, 2006
The Golden Compass/A BÚSSOLA DOURADA, Chris Weitz, 2007
CALLE SANTA FE, Carmen Castillo, 2007
Iklimler/CLIMAS, Nuri Bilge Ceylan, 2006
Stranger than Fiction/CONTADO NINGUÉM ACREDITA, Marc Forster, 2006
Control/CONTROL, Anton Corbijn, 2007
Gwoemul/A CRIATURA, Bong Joon-Ho, 2006
Blood Diamond/DIAMANTE DE SANGUE, Edward Zwick, 2006
Half Nelson/ENCURRALADOS, Ryan Fleck, 2006
Hot Fuzz/ESQUADRÃO DE PROVÍNCIA, Edgar Wright, 2007
FARVÄL FALKENBERG, Jesper Ganslandt, 2006
Fay Grim/FAY GRIM, Hal Hartley, 2006
El Laberinto del Fauno/O LABIRINTO DO FAUNO, Guillermo del Toro, 2006 
Stardust/O MISTÉRIO DA ESTRELA CADENTE, Matthew Vaughn, 2007
NE TOUCHEZ PAS LA HACHE, Jacques Rivette, 2006
LE PAPIER NE PEUT PAS ENVELOPPER LA BRAISE, Rithy Panh, 2006
Paranoid Park/PARANOID PARK, Gus van Sant, 2007
PERSEPOLIS, Marjane Satrapi & Vincent Paronnaud, 2007
Planet Terror/PLANETA TERROR, Robert Rodriguez, 2007
Eastern Promises/PROMESSAS PERIGOSAS, David Cronenberg, 2007
Renaissance/RENASCIMENTO, Christian Volckman, 2005
RETOUR EN NORMANDIE, Nicolas Philibert, 2006
Shortbus/SHORTBUS, John Cameron Mitchell, 2006
Das Leben der Anderen/AS VIDAS DOS OUTROS, Florian Henckel von Donnersmarck, 2006
Zidane - a 21st Century Portrait/ZIDANE, UM RETRATO DO SÉCULO XXI, Douglas Gordon & Philippe Parreno, 2006
Zodiac/ZODIAC, David Fincher, 2007

25 de dezembro de 2007

MAS COMO HA SEMPRE MAIS DO QUE UMA PERPLEXIDADE NATALÍCIA

Uma das coisas que mais me irrita no Natal é a quantidade absurda de papel de embrulho e embalagens bonitas em que se investe para acabarem no caixote do lixo no dia seguinte. Eu nisso sou muito mais económico: reciclo revistas e jornais antigos. Mas como a quantidade de prendas tambem não é descomunal não reciclo tanto como poderia. 

A SOLUÇÃO DA PERPLEXIDADE NATALÍCIA

Afinal, a barulheira natalícia era a vizinha de cima a montar os móveis novos. 

24 de dezembro de 2007

A PERPLEXIDADE NATALÍCIA

Alguém que me explique s. f. f. porque raio é que alguém se lembra de fazer furos e martelar a parede numa véspera de Natal. 

23 de dezembro de 2007

MELHOR QUE UM GATO, SÓ MESMO DOIS GATOS



D. Diogo partilha um momento de entendimento com D. Noémia, a Diva de Carnaxide, que veio passar o Natal cá a casa. Ou melhor: veio dormir cá a casa pelo Natal, que ela não tem feito outra coisa (nem ele, já agora).

21 de dezembro de 2007

19 de dezembro de 2007

CHAMEM A POLÍCIA QUE EU NÃO PAGO

No metro do Marquês de Pombal perto da hora do almoço, uma senhora de voz rouca e chapéu-de-chuva encharcado resmunga em voz muito alta que ressoa de modo particularmente sonoro na acústica da estação a dizer que não tem a renda em atraso não senhor a um senhor que diz que isso não é nada com ele e ela que vá queixar-se à senhoria.

18 de dezembro de 2007

É NATAL, É NATAL

... e na mesa ao lado da minha no restaurante onde hoje almocei, três senhoras com aspecto de funcionárias públicas suburbanas e um senhor com ar de chefe de secção terminam o almoço, depois da sobremesa e do café, trocando lembrancinhas de Natal minuciosamente embrulhadas em papel festivo e transportadas em sacos de papel alusivos à quadra (ah, aquele Pai Natal bonacheirão tão típico de saco industrial de loja dos 300), que vão dos anjinhos decorativos às molduras com espaço para toda a família incluindo o novo netinho — as lembrancinhas que das duas uma: ou são logo enfiadas no fundo de uma gaveta ou numa prateleira recôndita do armário para de lá só sairem no caso de visita do ofertador; ou são consideradas giríssimas e ocupam desde logo lugar digno por entre o bric-à-brac de bugigangas que preenche cada recanto da lareira, da cómoda ou da cristaleira lá de casa.

INTERROMPEMOS ESTE PROGRAMA PARA UMA INFORMAÇÃO IMPORTANTE

Em condições iguais de temperatura e pressão, uma bela sopa de espinafres caseira é infinitamente mais saudável do que processar vencimentos.

17 de dezembro de 2007

PARABÉNS A VOCÊ

Cumpriram-se ontem quatro anos em roda livre. Obrigado por continuarem a estar aí.

ELÉCTRICO 28

É verdade que era sexta-feira, a pouco mais de uma semana do Natal, perto das oito da noite, e que sair do emprego a essa hora não deixa ninguém genuinamente bem disposto — mas isso não invalida que a mocinha que subiu para o 28 comigo na Basílica da Estrela e passou toda a viagem até à Sé a desabafar em voz alta com a amiga do outro lado do telemóvel como quem está a gritar com alguém na sala lá de casa me tenha deixado no mínimo atordoado. Senti-me - e penso que também os outros passageiros - como se estivéssemos a assistir a uma discussão para a qual não tínhamos sido convidados, só que num lugar público.

15 de dezembro de 2007

OS PUBLICITÁRIOS SÃO UNS EXAGERADOS

Ninguém é capaz de explicar ao pessoal de Nestlé que aquela campanha do ice tea da geração mudasti não tem graça nenhuma? Ou era mesmo essa a ideia?

SEXTA-FEIRA (NEM QUE CHOVA)

Maravilha: quando o frio mais aperta, o esquentador dá a alma ao criador (antes o esquentador que o aquecedor, o gato agradece), e descubro que a "cantina" do outro lado da rua onde almoço quando trabalho por casa vai fechar de vez. Dois copos de vinho tinto ao jantar e, hop!, a gargalhada não engana, bebo tão pouco que quando bebo a coisa nota-se logo. Três da manhã e estou a ressonar, o alarme toca às nove porque tenho onde estar às onze mas só acordo às dez e meia e tenho de sair badalhoco porque não há esquentador. Antes o esquentador que o aquecedor, nisso estou com o gato. Viva os sábados no cadeirão da sala com o banho tomado, o aquecedor ligado e o gato a dormir enroscado no sofá (porque eu estou sentado no cadeirão para insatisfação felina), o Henrique Sá Pessoa a fazer comida de goa e a salada de alface e rúcola com atum, azeitonas e massa biológica para um jantar leve. Estão ali uns biscoitos de canela a rir-se para mim, mas hoje não pode ser, que o bolo de banana com pepitas de chocolate encheu-me as medidas ontem.

13 de dezembro de 2007

OLHANDO DUAS VEZES

Dulce Pontes actuou para os dignitários que assistiram à assinatura do Tratado de Lisboa. Mas, a julgar pela amostra que passou no noticiário da noite, aquilo não era a Dulce Pontes mas sim um clone disposto a fazer ruir a sua reputação e a destruir-lhe a carreira. Não encontro outra explicação, a sério. É que para ser Kate Bush não chega querer.

POST FELINO SEMANAL

O desporto preferido do meu gato Diogo é saltar-me para os ombros várias vezes ao dia e mordiscar afectuosamente as minhas orelhas enquanto se roça na minha nuca. Tem imensa graça até ele ferrar os dentes no lóbulo com um ronronar afectuoso ou até ele decidir que quer ver ao que sabe o meu nariz e se esticar para tentar mordê-lo.

Gato pode ser amor, como diz a minha amiga Marta, mas gato é também a prova que o amor magoa. (Soa melhor em inglês, eu sei.)

12 de dezembro de 2007

OLHANDO DUAS VEZES

Acabei de ver Ricardo Quaresma de boné a falar ao Jornal da Noite a propósito da vitória do Porto sobre o Besiktas.

O problema é que me pareceu ver Nuno Guerreiro, vocalista dos Ala dos Namorados, e não Quaresma. Seria do boné?

O FATO DE TREINO FAJUTO EM COR GARRIDA

Num azul muito forte e com um ar baratucho, e reproduzindo na perfeição o logotipo da Adidas, usado por um senhor barrigudo de cabelo encaracolado com uma T-shirt branca por baixo no metro em direcção a Benfica.

Só que, em vez de Adidas, dizia Acliclas.

11 de dezembro de 2007

OS PAIS NAO DEVIAM MESMO GOSTAR NADA DELE...

O senhor que apareceu hoje na televisão envolvido em mais um caso complexo de custódia de uma criança adoptada (não retive se estava do lado da família de acolhimento ou da família biológica, as minhas desculpas, mas também para o caso não vem ao caso) chamava-se Délio Carqueija.

10 de dezembro de 2007

BALCANIZAR POR AÍ

Ou como o Largo do Chiado foi invadido por uma mini-orquestra klezmer-Kusturica à hora do almoço de segunda-feira e ficamos todos um bocado sem saber o que fazer.

DESPORTIVISMO

No espaço de dois minutos num resumo de um jogo da liga inglesa (Premier League) na Sport TV, vejo um jogador a tirar macacos do nariz, outro a cuspir e outro a escarrar. O desporto é uma coisa linda.

MÚSICA NO GINÁSIO #31

Porque carga d'água este homem canta desta maneira extraordinária e nunca na vida fez um álbum decente nunca hei-de perceber. "System" (Warner Bros., 2007) é mais do mesmo: duas grandes canções (e esta, infelizmente, não é uma delas) chamadas "If It's in My Mind, It's on My Face" e "Just Like Before", uma produção de luxo (desta vez, Stuart Price, ele de Les Rythmes Digitales, ele de Madonna) e a sensação de que esta voz merece mais e melhor.

8 de dezembro de 2007

4 de dezembro de 2007

O MELHOR BOLO DE CHOCOLATE DO MUNDO

É como o restaurante da Cinemateca, 39 Degraus de seu nome, chama ao seu hedonista bolo de chocolate. Não tenho certeza que seja o melhor bolo de chocolate mas lá que é bastante bom é. A ver se agora não me afinfo à sobremesa durante o resto da semana.

3 de dezembro de 2007

EU NÃO PEÇO DESCULPA

A partir deste momento, telefone, internet, está tudo desligado. Estou a entrar em estágio para o final da melhor série de televisão de sempre (desde a última melhor série de televisão de sempre e até à próxima melhor série de televisão de sempre).

2 de dezembro de 2007

ISTO DE UMA PESSOA NÃO ESTAR HABITUADO

Uma pessoa às tantas esquece-se que já é Dezembro e só dá por isso quando tem de ligar o aquecedor para a casa ficar aconchegadinha.

1 de dezembro de 2007

OS A PRENDA

Porque é que eles insistem todos em chamar-lhes "os The Gift" quando a formulação correcta seria "os Gift"? Afinal, ninguém diz "os The Beatles" ou "os The Rolling Stones" (embora "os The Who" já seja mais dúbio).

INTELIGÊNCIA PRÁTICA

É coisa que, lamentavelmente, só tenho para algumas coisas.

29 de novembro de 2007

UNS SÃO SOBRINHOS, OUTROS SOBRINHOS-NETOS

Já alguém reparou que a cafetaria do Corte Inglés de Lisboa, mais do que estar cheia de tias, está cheia de tias-avós que pedem hamburger com ananás e torcem o nariz por levar tempo a chegar?

27 de novembro de 2007

POLAROID: ELÉCTRICO 28 (post com conteúdo eventualmente chocante)

O 28 vem cheio — com um segundo 28 vazio alguns automóveis atrás — e não pára na paragem da Calçada do Combro que está também ela cheia de passageiros aguardando a carreira. Uma jovem lança para o eléctrico que não pára, com a sua melhor voz de peixeira de mercado: "Grande filho da puta que não páras com a merda do eléctrico vazio cá atrás!"

Os passageiros que vão como sardinha em lata na parte de trás do eléctrico cheio mostram-se um tudo nada surpreendidos, mas sorriem.

26 de novembro de 2007

THIS IS THE WORLD CALLING

Estou-me a borrifar que o video não seja grande coisa. É a melhor canção que o Bob Geldof fez na vida ("I Don't Like Mondays" incluido) e quando a diva Annie aparece no refrão é de ir às lágrimas. Sobretudo depois do episódio de hoje da minha série de cabeceira.

25 de novembro de 2007

BOLETIM CLÍNICO: GATO ENTREVADO

O doente retirou o penso amarelo que lhe cobria a pata traseira esquerda na tarde de sábado e recuperou a sua movimentação normal, andando já a saltar outra vez pela casa fora e a enroscar-se todo para dormir ao pé do aquecedor ligado. Tomou o antibiótico mastigável sem problemas até à manhã de domingo, altura em que fez fita e foi obrigado a levá-lo pela goela abaixo. Tem lambido a patinha, mas não tem procurado tirar os pontos e por isso não tem necessitado de usar colar. Tem também mantido o dono à distância, como quem diz, "estás na lista negra e tão cedo não esperes que eu te desculpe".

23 de novembro de 2007

GATO ENTREVADO

D. Diogo sofreu um pequeno ferimento doméstico que exigiu três pontos numa patinha. Agora anda para ali com a pata ligada num enorme penso amarelo mas em apenas três horas já passou de se arrastar, fiteiro, a fazer os seus saltos arriscados para tudo quanto é sítio como se a ligadura não fosse impedimento.

O problema vai ser o antibiótico.

22 de novembro de 2007

FUGIR COM O CIENTISTA

Soube-me tão bem ouvir isto outra vez hoje. E lembrou-me tanto de ti.

estaremos juntos separados como amantes
nesta viagem com água sem retorno
entre as queimadas vento Norte viajante
é o cacimbo africano Moçambique

ao terraço e à varanda do avô
passeios da dimensão do anarquista
ao teatro ao professor à fantasia
no matope um sono de marimbas

limpidez das areias tem
em teias de caniço
fugir com o cientista tem
estrelas a perder de vista

são trovoadas que caem no capim
o som do zinco o sentido às caminhadas
passos compridos e a voz dos velhos sábios
são a memória da sombra das acácias

ondas que cavam as areias do Bilene
e as histórias que contava José Bila
ventos parados ao subir às papaeiras
e a maravilha do canto do magaíça

limpidez das areias tem
em teias de caniço
fugir com o cientista tem
estrelas a perder de vista.


— João Afonso, "Fugir com o Cientista", in "Missangas" (Mercury/Universal, 1997)

IT'S ONLY LOVE (ou: you otter know)

Olha a bela lontra!



happy birthday, D.

21 de novembro de 2007

UMA DÚVIDA EXISTENCIAL

Agora que o Millennium BCP se vai fundir com o BPI, como é que é com o pessoal que tem contas nos dois bancos?

POETA CASTRADO NÃO

A minha mãe sempre achou que o Ary dos Santos era maluco mas tinha repentes fabulosos, como este lido na longa entrevista de José Manuel Osório ao seu filho Luís Osório (Quanto Tempo, Oficina do Livro, 2003).

Eu conto-te uma outra história do Zé Carlos Ary dos Santos. Uma vez alguém lhe perguntou se alguma vez dormira com uma mulher. E ele respondeu com um murro na mesa: por vezes dou uma voltinha para a esquerda, mas não quero que se saiba porque isso me desprestigia.

20 de novembro de 2007

JÁ NINGUÉM ESCREVE COISAS DESTA MANEIRA

Mas, em 1903, escreviam-se coisas desta maneira...

O Magiolly amancebou-se com uma cantadora famosa, a Ana do Porto. Entre os seus percalços, cita-se o de ter gramado uma facada do D. Miguel Soutto de El-Rei, mas aquele, depois, partiu a cabeça a este com um cacete à porta do Marrare do Arco do Bandeira.

— José Pinto Ribeiro de Carvalho (Tinop), in História do Fado (Lisboa: Dom Quixote, 2003 [5ª ed.])

19 de novembro de 2007

OS PEQUENOS PROBLEMAS DA IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA (no regresso após uma pausa algo longa)

Na cantina da menina alice — que ficará condignamente anónima para não a deixar ainda mais triste do que ela já está — comem-se umas chamuças sublimes paredes-meias com o pornográfico e uns maravilhosos bojés. Mas há qualquer coisa no tempero ou na arte da cozinha goesa que não só não me seduz como uma porno-tikka aveludada como me deixa sempre com o estômago ó-tio-ó-tio (apesar do caril de gambas estar genuinamente bom).

11 de novembro de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #48

Passar por alguém que conhecemos na rua sem reparar nela porque vamos a pensar noutra coisa qualquer (as minhas desculpas à Mónica Bello no largo do Carmo e ao Tozé Brito no Colombo).

10 de novembro de 2007

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #83

Patibular.

(ouvida duas vezes no espaço de seis dias, pronunciada pelo Alexandre na sua fascinante alocução arqueológica e pelo João no contexto de uma conversa sobre televisão)

8 de novembro de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #47

Ter um porradão de moedas em casa, esquecer-me de as meter no bolso, e só reparar nisso quando levo a mão ao bolso para pagar o café ou o pequeno-almoço.

6 de novembro de 2007

ORA AQUI ESTÁ UMA BELA DEFINIÇÃO

Amigo meu americano que esteve a semana passada por Lisboa mostrou-se espantado com o pessoal que atravessa as ruas à lagardère, fora das passadeiras e sem sequer ver se vem trânsito.

Chamou-lhes "transeuntes kamikaze".

5 de novembro de 2007

QUE BEM QUE SE GUIA EM PORTUGAL

Primeiro, foi o Porsche Cayenne que uma tia arrumou em plena linha do eléctrico (25, para quem quiser saber) na rua de S. Domingos à Lapa para ir à farmácia comprar não sei o quê. Depois, foi o Mercedes classe C que um executivo que provavelmente devia ter bebido um copinho ou dois a mais ao almoço arrumou à trouxe-mouxe à minha frente na rua do Salitre. Em ambos os casos, com o mais extraordinário desinteresse pela plebe que não guia Mercedes nem tem sinais exteriores de riqueza.

3 de novembro de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #46

Os ciclistas de domingo e fim-de-semana que abrandam imenso o trânsito nas longas rectas da 24 de Julho e de Belém.

2 de novembro de 2007

A ARTE SUBTIL DO BLOGUISMO

Na Economist desta semana:

"If a novelist and a professor argue in a forest, and no one else hears them, can it count as a controversy? Of course not (unless they blog about it afterwards)."

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #45

As absurdas revistas institucionais que regularmente enchem os jornais sobretudo à aproximação do fim-de-semana e que toda a gente deita automaticamente para o lixo sem sequer ler. Sei que estas revistas pagam a renda a bastante gente mas pergunto-me sempre o mesmo: será que quem as faz tem plena consciência que está a trabalhar para o boneco?

31 de outubro de 2007

A LOJINHA DAS CURIOSIDADES

Num dos cafés no Rato onde às vezes tomo o pequeno-almoço, tomo sempre a mesma coisa - o mesmo galão de máquina e o mesmo croissant com manteiga - e sou sempre atendido pelo mesmo empregado.

Mas nunca pago o mesmo preço.

30 de outubro de 2007

THEORY OF ENCRYPTION

Já me tinha esquecido como a casmurrice e a estupidez baseadas na ignorância podem consumir desnecessariamente tempo e paciência.

29 de outubro de 2007

Estava eu pacatamente a almoçar no meu poiso habitual, e entre as outras pessoas que também elegem o meu poiso habitual como seu poiso habitual estava uma sra. professora a conversar com amigas, talvez colegas. O restaurante não estava muito cheio e por isso a sra. professora, que tinha uma daqueles vozes que projectam bem, ouvia-se bem mesmo à distância. E ao longo dos 40 minutos que estive a almoçar, a sra. professora esteve a falar, indignada, às amigas, talvez colegas, que... não, não estava a falar das suas aulas nem dos seus alunos: estava a resmungar por causa dos seus escalões de funcionalismo. Dei por mim a pensar que quando uma professora está mais interessada na sua remuneração do que no seu trabalho, alguma coisa não está a bater certo.

28 de outubro de 2007

A recente ausência de novidades por estes cantos não é sinal de desinteresse nem de cansaço com o blogismo; apenas uma sobredose de trabalho que veio reduzir temporariamente o exercício de observação que sustenta estas prosas telegráficas. O serviço normal será retomado progressivamente. Obrigado pela paciência.

24 de outubro de 2007

E JÁ QUE ESTAMOS A FALAR DE HOBBES

Adoro aquela tira em que Calvin pergunta se a cauda de um tigre é "uma gravata para o teu rabinho".

O CULTO DO MAC ENQUANTO GRANDE FELINO

O novo sistema operativo Apple para os computadores Macintosh chama-se Leopard. (Como diria o Hobbes, um nome felino fica sempre melhor.) Versões anteriores chamavam-se Jaguar e Tiger. Fico à espera do dia em que, por ter esgotado os nomes felinos existentes (ainda estou para ver um Mac OSX Lion), a Apple tenha que se contentar com o nome Cat.

20 de outubro de 2007

FRANCISCO, ESTEJA QUIETO

É sábado de manhã, está uma brisa leve a refrescar este Verão tardio no meio da esplanada rodeada de árvores e verde no meio da cidade. O pai, de óculos escuros, lê o jornal; a mãe, de vaporosa blusa branca, lê a revista do jornal; a filha adolescente, de T-shirt vermelha, de costas para mim, escreve qualquer coisa com aquela curvatura atenta da adolescente que está a ter cuidado com o que escreve. Só o filho, dos seus cinco anos, não pára quieto, sentado no chão a brincar com os camiões em miniatura, encostado á esquina das placas de vidro que fecham o espaço e deixam passar a luz do sol para dentro da cafetaria, gatinhando para a frente e para trás, para o meio da porta que dá acesso à esplanada, enquanto os pais a cada cinco minutos resmungam para ele estar sossegado, com aquela velha frase das famílias bem: "Francisco, esteja quieto".

Dois minutos depois, a filha volta a correr para pegar na bolsa de que se esqueceu pendurada na cadeira.

PRAZERES SIMPLES

Depois de uma semana fechado em casa a "aviar" DVDs para fazer a cobertura que o glorioso DocLisboa deste ano merece, a felicidade pode ser ver um gatinho a brincar sozinho à apanhada com os restos de um brinquedo de peluche mastigado para lá de qualquer reconhecimento.

Ou pode ser um calmíssimo passeio de automóvel do Parque das Nações a Paço d'Arcos pela marginal beira-rio, mesmo que ainda haja obras do Metro a tapar o dito cujo aqui e ali, sob o glorioso sol de Verão tardio, a ver o mar calmo onde o rio desagua a brilhar com mil centelhas de luz reflectida.

Ou pode ser uma chamada telefónica de longa distância onde ouvimos aquela voz que tanto nos diz e da qual tantas saudades temos.

Ou pode ser, apenas, estar longe da voragem.

15 de outubro de 2007

MONARCHY IN THE UK, PERDÃO, EM PORTUGAL

Tenho para mim que, se em vez de termos D. Duarte Pio como descendente da monarquia portuguesa, tivéssemos alguém com a pinta de D. Felipe de Borbón, príncipe das Astúrias (perguntem à minha mãe, que diz que aquilo é que um príncipe como deve ser), os portugueses e sobretudo as portuguesas seriam muito mais monárquicos do que são.

O lado de má-língua e resmunguice que os portugueses têm sempre de ter seria então canalizado para D. Letizia e estou já a ver as velhotas alentejanas a dizerem que ela tem o nariz muito empinado e que não é nada simpática e que o marido é que um nobre a sério enquanto ela é uma dessas espertalhonas que se agarrou a ele.

14 de outubro de 2007

MISANTROPIA

Já me tinha esquecido como não gosto de ir ao cinema quando o cinema está cheio. Ele é as arrumadoras que não arrumam nada e só deixam a porta aberta para as pessoas entrarem; ele é as espanholas que falam pelos cotovelos; ele é as matronas que deixam os telemóveis ligados e os atendem a meio do filme; ele é o casal na moda que fala aos cochichos ao telemóvel; ele é os bandos de jovens intelectuais na moda que têm sempre alguma coisa a dizer sobre o filme; ele é o pessoal que chega atrasado e incomoda toda a gente.

12 de outubro de 2007

OS PAIS NAO DEVIAM MESMO GOSTAR NADA DELE...

...mas o senhor guarda por quem passo na rua não tem culpa de se chamar Marco Paulo, como estava aliás bem legível na chapa de identificação na camisa.

10 de outubro de 2007

A PROPÓSITO DA CASA PIA

Primeiro, Catalina Pestana; agora, Joaquina Madeira. Eles têm pontaria para os nomes, hem?

9 de outubro de 2007

8 de outubro de 2007

POLAROID: ENTRADAS POR SAÍDAS

Na Confeitaria Marquês de Pombal, à esquina da avenida da Liberdade com a Alexandre Herculano (e onde se come uma das melhores torradas de Lisboa), há uma porta automática que só dá entrada e outra que só dá saída. Nos 30 minutos que lá passei a lanchar hoje, a percentagem de pessoas que tentavam entrar pela saída e sair pela entrada sem olharem para os letreiros (contudo extremamente visíveis!) nem perceberem que estavam a fazer tudo ao contrário era tão alta que me perguntei se seria realmente uma boa ideia ter portas separadas.

4 de outubro de 2007

UMA INTERROGAÇÃO PREMENTE NAS CABEÇAS DE TODO O MUNDO

Porque é que o Devendra Banhart gostava tanto de ser o Caetano Veloso? E porque é que o Caetano Veloso não lhe diz para estar calado?

MULTIBANCO

No multibanco do supermercado, pago a conta da água com dois miúdos novinhos, crianças dos seus cinco anos, a correr à minha volta enquanto a mãe fala ao telemóvel de costas para eles. Um deles, uma menina de casaco cor-de-rosa que está a comer um bollycao, aponta para o écrã e diz "tens de carregar ali" e, quando aparece um anúncio da BMW no écrã, pergunta "vais comprar um carro?".

Quando termino as operações, viro-me para a senhora, que acaba de desligar o telemóvel com um ar muito atarefado e continua de costas, e toco-lhe ao de leve no ombro. "Ai que susto!", diz a senhora. "Desculpe," digo-lhe eu, "mas era capaz de não ser má ideia tomar conta da sua filha. É que pode haver pessoas que não achem tanta graça como eu a ter uma miudinha a controlar-lhe os movimentos do multibanco." A senhora não percebe bem mas pede desculpa na mesma.

2 de outubro de 2007

POLAROID: TAXI

Enquanto espera que surja um táxi livre para o poder apanhar, a senhora, loura, de óculos escuros, atravessa displicentemente a rua, ignorando o facto do sinal estar fechado para os peões. Quando um automóvel lhe apita por ela estar no meio da rua, a senhora faz ao condutor a cara típica da senhora que acha que tudo lhe é devido e que tem todo o direito de estar ali no meio da rua a passear à espera de um táxi livre.