A italiana vai-lhe agradecendo com ar encavacado, misturando algum alemão com italiano. Mas o alemão, mesmo depois de perceber que ela não é alemã, insiste em falar apenas alemão (mais dois ou três alemães aparecem a perguntar o que se passa), até ela pedir desculpa pela distracção e ele dizer "o casaco é seu".
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
15 de fevereiro de 2008
É VERDADE: OS ALEMÃES NÃO SÃO PESSOAS MUITO SIMPÁTICAS
Sentado na sala de imprensa a escrever, com uma mocinha italiana a escrever ao meu lado com o seu kispo dobrado por cima do sofá. De repente, alguém da organização (presumo eu) chega-se ao pé da mocinha italiana e pega no kispo, perguntando-lhe em alemão "o casaco é seu?". Ela, com um ar surpreendido, em alemão: "Sim." "É que me estava a cheirar a queimado" e mostra-lhe que o casaco dobrado por cima do sofá mas com a ponta em cima de uma das lâmpadas que estão por trás do sofá a fazer luz indirecta.
por outras palavras:
ich bin ein Berliner,
observações descentradas
14 de fevereiro de 2008
VERKEHRSVERBUND BERLIN-BRANDENBURG
O que é divertido no sistema de transporte público de Berlim, para além de ser de uma pontualidade germânica a toda a prova que mete qualquer outra cidade no chinelo, é o facto do comboio poder ser metro e do metro também poder ser comboio, mas do comboio não ser metro e do metro não ser comboio.
Trocando por miúdos (e não estou a tentar ser filosófico nem nada que se pareça): a rede de comboios sub/urbanos que atravessa Berlim chama-se S-Bahn (de Stadtbahn, "comboio de cidade"), mas algumas das linhas de S-Bahn são subterrâneas sem que por isso deixem de ser linhas de comboio.
A rede de metropolitano chama-se U-Bahn (de Untergrundsbahn, "comboio subterrâneo"), mas quase todas as linhas de U-Bahn têm secçoes elevadas ao ar livre sem que por isso deixem de ser linhas de metro.
Exemplo prático: hoje apanhei a linha de metro U1 de Nollendorfplatz em direcção a Warschauer Straße. Em Nollendorfplatz, a linha é subterrânea, mas a partir da estação de Gleisdreieck e até ao términus em Warschauer Straße, é elevada ao ar livre.
Já as linhas de comboio S1, S2 ou S25 que apanho em Friedrichstraße para ir para a Potsdamer Platz são subterrâneas no percurso entre estas estações.
As composições do metro são uma espécie de "S-Bahn de bolso" para caberem nos túneis subterrâneos — mas podíamos ficar aqui até amanhã a discutir os pormenores. Como na questão dos géneros das palavras (que em alemão podem ser masculino, feminino ou neutro de modo absolutamente aleatório), as linhas são o que são e ponto final.
por outras palavras:
a aventura continua,
é a cultura,
ich bin ein Berliner,
viva o transporte público
O MUNDO AO CONTRÁRIO
Conceito de "lanche" de um mocinho alemão sentado ao meu lado: duas salsichas e uma salada de batata, acompanhadas por café.
por outras palavras:
a aventura continua,
gastronomia para todos,
ich bin ein Berliner
O MUNDO AO CONTRÁRIO
Uma das coisas mais curiosas quando estou em Berlim é que as portas deles abrem ao contrário — em vez de as empurrarmos para dentro, temos de as puxar para fora. Esqueço-me sempre disso e só ao fim de uma semana consigo atinar e acertar no movimento correcto.
10 de fevereiro de 2008
SE BEBER NÃO CONDUZA
Às onze e meia da noite de domingo, os transportes públicos estão cheios de gente que volta para casa, tal como já tinham estado cheios de gente às onze e meia das noites de sexta e sábado (mas aí não me acredito que fossem todos para casa a essas horas).
Comum aos três dias são as garrafas de cerveja, coca-cola ou espumante que muita gente, sozinha ou em grupos, traz na mão e bebe durante o trajecto, depositando as garrafas vazias nos vidrões que há em cada estação ou (se não estiverem para isso) em cima de parapeitos ou encostados a escadas.
por outras palavras:
a aventura continua,
ich bin ein Berliner,
viva o transporte público
SUNRISE
7h45 da manhã. Céu azul e frio matinal sobre Berlim com o sol a nascer forte e alaranjado por entre as torres de apartamentos de modelo institucional, os palácios imperiais, as linhas de comboio que atravessam a cidade. E os vendedores que montam as suas bancas de antiguidades, velharias, segunda mão em frente à estação de Ostbahnhof.
por outras palavras:
a aventura continua,
ich bin ein Berliner,
viva o transporte público
9 de fevereiro de 2008
MOJO IN BERLIN
À mesa do jantar, leio a Mojo de Janeiro para pôr em dia leituras atrasadas. A propósito dos My Bloody Valentine (que parece que vão voltar), descubro que o que nos anos 1980 se chamava "shoegazing" passou agora a ser denominado "feedback pop". E também que Amy Winehouse "smoked dope, drank heavily and swore like a football manager". O que me fez pensar, acreditem ou não, mais em José Mourinho do que em Jaime Pacheco.
S-BAHN
Este ano, não fiquei instalado no habitual hotel de Alexanderplatz que tinha linha directa de metro para a zona do festival, mas sim um pouco mais longe, num hotel muito simpático ainda e sempre na antiga Berlim Leste, em Ostbahnhof. Que não tem estação de metro ao pé, mas não faz mal, porque fica mesmo ao lado de uma das gares centrais de comboio - assim a modos que Sete Rios ou Entrecampos.
Todos os dias de manhã apanho um de quatro comboios possíveis das linhas urbanas berlinenses, o célebre S-Bahn. É indiferente qual das linhas é ou qual dos comboios eu apanho, desde que passe por Friedrichstraße, onde tenho de mudar de cais para apanhar as linhas S1 ou S2 com paragem em Potsdamer Platz. A parte engraçada é que, de comboio urbano (pensem linha de Cascais, Sintra, Azambuja) à superfície (ou melhor: elevado em muitas linhas), as S1 e S2 são maioritariamente subterrâneas, tipo metro.
O curioso é que, mesmo tendo de mudar de linha para ir de Ostbahnhof a Potsdamer Platz, levo menos tempo do que levava de metro.
por outras palavras:
a aventura continua,
ich bin ein Berliner,
viva o transporte público
7 de fevereiro de 2008
CHOCOLATE CHERRY MUFFIN
Em plena Alte Potsdamer Straße, quase em frente do palácio dos festivais, há um Starbucks que é um dos meus poisos preferidos no meio do frenesi dos três filmes por dia (quando não mais). É um reduto confortável onde bebo um café e como um muffin (hoje foi o de chocolate e cereja; as sanduíches também não são más) à laia de pequeno-almoço ou numa pausa entre dois filmes. Está sempre cheio, mas isso é porque a maior parte dos jornalistas e outros profissionais em serviço só gostam do que têm em casa e já conhecem, enquanto que eu não tenho Starbucks em Lisboa (e também não sei se quero ter, mas isso são outras conversas). Mas a verdade é que não há muitos cafés onde se ouça Thelonious Monk, Bob Dylan ou Leonard Cohen enquanto se bebe um café e come um muffin.
Quase toda a gente sentada nas mesas e nos bancos altos tem um passe do festival ao pescoço, folheia programas ou informações de projecções, revistas da profissão, quando não mesmo o calhamaço de 400 páginas que é o catálogo, provavelmente à procura daquela descoberta que não está a concurso e onde pode estar o futuro (?) do cinema (ou pelo menos o futuro de hoje do cinema, porque amanhã a coisa pode mudar). E, ao meu lado, a Katrin (o nome está escrito a feltro no copo alto de café ao seu lado) escreve num Sony Vaio daqueles pequeninos que dão novo nome à palavra "portátil".
(Starbucks: Alte Potsdamer Straße, 7, Berlin-Mitte; metro U2 Potsdamer Platz, comboio S1/S2/S25 Potsdamer Platz)
por outras palavras:
café culture,
ich bin ein Berliner,
polaroid
6 de fevereiro de 2008
06/02/2008: LH 218 MUC 11h10 - TXL 12h20
Eu sei o que é um Blackberry. Conheço até um viciado em Blackberry. Mas mesmo o viciado em Blackberry que eu conheço não é nada viciado quando comparado com a mocinha que vai na fila da frente do meu vôo para Berlim, que não o desliga nem por mais uma excepto quando o avião acaba de descolar, escrevendo e consultando como quem tem nervoso miudinho. É a isto que se chama Crackberry?
Durante a aterragem em Berlin-Tegel (o tal aeroporto das ilhas), dou por mim a pensar que um avião deve ser parecido com um carro e ter as suas idiossincrasias que qualquer bom piloto - ler chofer - sabe identificar e compensar. Isto porque há um barulhinho irritante que é provavelmente um contentor de catering ou uma cafeteira que está um bocadinho solta ou que não ficou bem presa quando o comissário de bordo o/a arrumou e que faz uma tremideira de fazer ranger os dentes de irritante ao longo da aterragem. E dei por mim a pensar no comandante a dizer ao co-piloto: "oh Manel, dá aí um piparote no indicador da velocidade que está a zeros e não pode ser".
por outras palavras:
a aventura continua,
a democratização do transporte aéreo
06/02/2008: LH 4545 LIS 06h25 - MUC 10h15
É a primeira vez que vejo as hospedeiras de bordo fazer "avançar" os cortinados que separam a "primeira classe" da "económica" num avião. É fixe: tem um certo ar "plug and play", de Legos que se desmontam e passam para a fila da frente. Há quem ressone durante as duas horas e meia de vôo. É um português.
3 de fevereiro de 2008
É FRANCESA, O QUE É QUE QUEREM
Senão, vejamos: Carla Bruni (linda) já esteve romanticamente ligada a Eric Clapton, Mick Jagger ou Donald Trump e agora casou-se com Nicolas Sarkozy. Mas para pai do seu filho escolheu... um professor de filosofia.
por outras palavras:
observações descentradas,
quem sabe sabe
2 de fevereiro de 2008
MAIS CANÇÕES PARA PREENCHER VOCÊS SABEM O QUÊ
(versão ao vivo)
(versão original)
por outras palavras:
James Bom,
o meu nome é Bom,
obsessões pop
29 de janeiro de 2008
CANÇÕES PARA PREENCHER O VAZIO
(e que ninguém me venha dizer que we'll get there fast and then we'll take it slow não é um one-liner de génio)
por outras palavras:
anos 80 bem medidos,
obsessões pop,
prazeres culpados
19 de janeiro de 2008
SAUDADES
O Pedro Aniceto está na minha outra cidade e eu estou todo invejoso.
17 de janeiro de 2008
É CAPAZ DE HAVER MALES QUE VÊM POR BEM
Descobriu-se então que o enxofre vertido na Faculdade de Farmácia se deveu a uma empregada da limpeza que decidiu deitar fora um frasco partido ao que parece sem dar cavaco às melgas e sem perceber que era (nas palavras de outra senhora da limpeza) "tóshico".
De onde se retira que isto de haver senhoras da limpeza sobre-qualificadas para o emprego que têm pode não ser tão problemático como parece.
POLAROID: METRO
À saída do metro do Saldanha, esta manhã, um jovem à minha frente com auscultadores nos ouvidos cantava em altos berros e numa voz incompreensível uma canção que descobri com alguma atenção ser "Não Sou o Único" (não sei é em que versão). Depois dei por mim a pensar que é provavelmente aquela mesma figura que eu faço quando ando de auscultadores por Lisboa.
por outras palavras:
é a cultura,
Lisboa tem muito trânsito
16 de janeiro de 2008
POLAROID
O ar infeliz dos fumadores que se vêem obrigados a vir para a rua fumar de manhãzinha nota-se mais quando estão quatro ou cinco à porta do escritório, todos à espera que a/o última/o que ainda está a fumar acabe para poderem voltar todos para dentro.
8 de janeiro de 2008
LAGOSTA CURTE LARGO
Esta canção devia vir dentro de uma daquelas caixinhas de vidro com um martelo ao lado e a indicação: "Partir vidro em caso de necessidade". E basta uma audição para alegrar qualquer dia mais cinzento. E pensar que "Rock Lobster" já tem quase 30 anos em cima...
The B-52's, "Rock Lobster" (in "The B-52's", Island, 1979)
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