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26 de novembro de 2007

THIS IS THE WORLD CALLING

Estou-me a borrifar que o video não seja grande coisa. É a melhor canção que o Bob Geldof fez na vida ("I Don't Like Mondays" incluido) e quando a diva Annie aparece no refrão é de ir às lágrimas. Sobretudo depois do episódio de hoje da minha série de cabeceira.

25 de novembro de 2007

BOLETIM CLÍNICO: GATO ENTREVADO

O doente retirou o penso amarelo que lhe cobria a pata traseira esquerda na tarde de sábado e recuperou a sua movimentação normal, andando já a saltar outra vez pela casa fora e a enroscar-se todo para dormir ao pé do aquecedor ligado. Tomou o antibiótico mastigável sem problemas até à manhã de domingo, altura em que fez fita e foi obrigado a levá-lo pela goela abaixo. Tem lambido a patinha, mas não tem procurado tirar os pontos e por isso não tem necessitado de usar colar. Tem também mantido o dono à distância, como quem diz, "estás na lista negra e tão cedo não esperes que eu te desculpe".

23 de novembro de 2007

GATO ENTREVADO

D. Diogo sofreu um pequeno ferimento doméstico que exigiu três pontos numa patinha. Agora anda para ali com a pata ligada num enorme penso amarelo mas em apenas três horas já passou de se arrastar, fiteiro, a fazer os seus saltos arriscados para tudo quanto é sítio como se a ligadura não fosse impedimento.

O problema vai ser o antibiótico.

22 de novembro de 2007

FUGIR COM O CIENTISTA

Soube-me tão bem ouvir isto outra vez hoje. E lembrou-me tanto de ti.

estaremos juntos separados como amantes
nesta viagem com água sem retorno
entre as queimadas vento Norte viajante
é o cacimbo africano Moçambique

ao terraço e à varanda do avô
passeios da dimensão do anarquista
ao teatro ao professor à fantasia
no matope um sono de marimbas

limpidez das areias tem
em teias de caniço
fugir com o cientista tem
estrelas a perder de vista

são trovoadas que caem no capim
o som do zinco o sentido às caminhadas
passos compridos e a voz dos velhos sábios
são a memória da sombra das acácias

ondas que cavam as areias do Bilene
e as histórias que contava José Bila
ventos parados ao subir às papaeiras
e a maravilha do canto do magaíça

limpidez das areias tem
em teias de caniço
fugir com o cientista tem
estrelas a perder de vista.


— João Afonso, "Fugir com o Cientista", in "Missangas" (Mercury/Universal, 1997)

IT'S ONLY LOVE (ou: you otter know)

Olha a bela lontra!



happy birthday, D.

21 de novembro de 2007

UMA DÚVIDA EXISTENCIAL

Agora que o Millennium BCP se vai fundir com o BPI, como é que é com o pessoal que tem contas nos dois bancos?

POETA CASTRADO NÃO

A minha mãe sempre achou que o Ary dos Santos era maluco mas tinha repentes fabulosos, como este lido na longa entrevista de José Manuel Osório ao seu filho Luís Osório (Quanto Tempo, Oficina do Livro, 2003).

Eu conto-te uma outra história do Zé Carlos Ary dos Santos. Uma vez alguém lhe perguntou se alguma vez dormira com uma mulher. E ele respondeu com um murro na mesa: por vezes dou uma voltinha para a esquerda, mas não quero que se saiba porque isso me desprestigia.

20 de novembro de 2007

JÁ NINGUÉM ESCREVE COISAS DESTA MANEIRA

Mas, em 1903, escreviam-se coisas desta maneira...

O Magiolly amancebou-se com uma cantadora famosa, a Ana do Porto. Entre os seus percalços, cita-se o de ter gramado uma facada do D. Miguel Soutto de El-Rei, mas aquele, depois, partiu a cabeça a este com um cacete à porta do Marrare do Arco do Bandeira.

— José Pinto Ribeiro de Carvalho (Tinop), in História do Fado (Lisboa: Dom Quixote, 2003 [5ª ed.])

19 de novembro de 2007

OS PEQUENOS PROBLEMAS DA IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA (no regresso após uma pausa algo longa)

Na cantina da menina alice — que ficará condignamente anónima para não a deixar ainda mais triste do que ela já está — comem-se umas chamuças sublimes paredes-meias com o pornográfico e uns maravilhosos bojés. Mas há qualquer coisa no tempero ou na arte da cozinha goesa que não só não me seduz como uma porno-tikka aveludada como me deixa sempre com o estômago ó-tio-ó-tio (apesar do caril de gambas estar genuinamente bom).

11 de novembro de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #48

Passar por alguém que conhecemos na rua sem reparar nela porque vamos a pensar noutra coisa qualquer (as minhas desculpas à Mónica Bello no largo do Carmo e ao Tozé Brito no Colombo).

10 de novembro de 2007

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #83

Patibular.

(ouvida duas vezes no espaço de seis dias, pronunciada pelo Alexandre na sua fascinante alocução arqueológica e pelo João no contexto de uma conversa sobre televisão)

8 de novembro de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #47

Ter um porradão de moedas em casa, esquecer-me de as meter no bolso, e só reparar nisso quando levo a mão ao bolso para pagar o café ou o pequeno-almoço.

6 de novembro de 2007

ORA AQUI ESTÁ UMA BELA DEFINIÇÃO

Amigo meu americano que esteve a semana passada por Lisboa mostrou-se espantado com o pessoal que atravessa as ruas à lagardère, fora das passadeiras e sem sequer ver se vem trânsito.

Chamou-lhes "transeuntes kamikaze".

5 de novembro de 2007

QUE BEM QUE SE GUIA EM PORTUGAL

Primeiro, foi o Porsche Cayenne que uma tia arrumou em plena linha do eléctrico (25, para quem quiser saber) na rua de S. Domingos à Lapa para ir à farmácia comprar não sei o quê. Depois, foi o Mercedes classe C que um executivo que provavelmente devia ter bebido um copinho ou dois a mais ao almoço arrumou à trouxe-mouxe à minha frente na rua do Salitre. Em ambos os casos, com o mais extraordinário desinteresse pela plebe que não guia Mercedes nem tem sinais exteriores de riqueza.

3 de novembro de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #46

Os ciclistas de domingo e fim-de-semana que abrandam imenso o trânsito nas longas rectas da 24 de Julho e de Belém.

2 de novembro de 2007

A ARTE SUBTIL DO BLOGUISMO

Na Economist desta semana:

"If a novelist and a professor argue in a forest, and no one else hears them, can it count as a controversy? Of course not (unless they blog about it afterwards)."

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #45

As absurdas revistas institucionais que regularmente enchem os jornais sobretudo à aproximação do fim-de-semana e que toda a gente deita automaticamente para o lixo sem sequer ler. Sei que estas revistas pagam a renda a bastante gente mas pergunto-me sempre o mesmo: será que quem as faz tem plena consciência que está a trabalhar para o boneco?

31 de outubro de 2007

A LOJINHA DAS CURIOSIDADES

Num dos cafés no Rato onde às vezes tomo o pequeno-almoço, tomo sempre a mesma coisa - o mesmo galão de máquina e o mesmo croissant com manteiga - e sou sempre atendido pelo mesmo empregado.

Mas nunca pago o mesmo preço.

30 de outubro de 2007

THEORY OF ENCRYPTION

Já me tinha esquecido como a casmurrice e a estupidez baseadas na ignorância podem consumir desnecessariamente tempo e paciência.

29 de outubro de 2007

Estava eu pacatamente a almoçar no meu poiso habitual, e entre as outras pessoas que também elegem o meu poiso habitual como seu poiso habitual estava uma sra. professora a conversar com amigas, talvez colegas. O restaurante não estava muito cheio e por isso a sra. professora, que tinha uma daqueles vozes que projectam bem, ouvia-se bem mesmo à distância. E ao longo dos 40 minutos que estive a almoçar, a sra. professora esteve a falar, indignada, às amigas, talvez colegas, que... não, não estava a falar das suas aulas nem dos seus alunos: estava a resmungar por causa dos seus escalões de funcionalismo. Dei por mim a pensar que quando uma professora está mais interessada na sua remuneração do que no seu trabalho, alguma coisa não está a bater certo.

28 de outubro de 2007

A recente ausência de novidades por estes cantos não é sinal de desinteresse nem de cansaço com o blogismo; apenas uma sobredose de trabalho que veio reduzir temporariamente o exercício de observação que sustenta estas prosas telegráficas. O serviço normal será retomado progressivamente. Obrigado pela paciência.

24 de outubro de 2007

E JÁ QUE ESTAMOS A FALAR DE HOBBES

Adoro aquela tira em que Calvin pergunta se a cauda de um tigre é "uma gravata para o teu rabinho".

O CULTO DO MAC ENQUANTO GRANDE FELINO

O novo sistema operativo Apple para os computadores Macintosh chama-se Leopard. (Como diria o Hobbes, um nome felino fica sempre melhor.) Versões anteriores chamavam-se Jaguar e Tiger. Fico à espera do dia em que, por ter esgotado os nomes felinos existentes (ainda estou para ver um Mac OSX Lion), a Apple tenha que se contentar com o nome Cat.

20 de outubro de 2007

FRANCISCO, ESTEJA QUIETO

É sábado de manhã, está uma brisa leve a refrescar este Verão tardio no meio da esplanada rodeada de árvores e verde no meio da cidade. O pai, de óculos escuros, lê o jornal; a mãe, de vaporosa blusa branca, lê a revista do jornal; a filha adolescente, de T-shirt vermelha, de costas para mim, escreve qualquer coisa com aquela curvatura atenta da adolescente que está a ter cuidado com o que escreve. Só o filho, dos seus cinco anos, não pára quieto, sentado no chão a brincar com os camiões em miniatura, encostado á esquina das placas de vidro que fecham o espaço e deixam passar a luz do sol para dentro da cafetaria, gatinhando para a frente e para trás, para o meio da porta que dá acesso à esplanada, enquanto os pais a cada cinco minutos resmungam para ele estar sossegado, com aquela velha frase das famílias bem: "Francisco, esteja quieto".

Dois minutos depois, a filha volta a correr para pegar na bolsa de que se esqueceu pendurada na cadeira.

PRAZERES SIMPLES

Depois de uma semana fechado em casa a "aviar" DVDs para fazer a cobertura que o glorioso DocLisboa deste ano merece, a felicidade pode ser ver um gatinho a brincar sozinho à apanhada com os restos de um brinquedo de peluche mastigado para lá de qualquer reconhecimento.

Ou pode ser um calmíssimo passeio de automóvel do Parque das Nações a Paço d'Arcos pela marginal beira-rio, mesmo que ainda haja obras do Metro a tapar o dito cujo aqui e ali, sob o glorioso sol de Verão tardio, a ver o mar calmo onde o rio desagua a brilhar com mil centelhas de luz reflectida.

Ou pode ser uma chamada telefónica de longa distância onde ouvimos aquela voz que tanto nos diz e da qual tantas saudades temos.

Ou pode ser, apenas, estar longe da voragem.

15 de outubro de 2007

MONARCHY IN THE UK, PERDÃO, EM PORTUGAL

Tenho para mim que, se em vez de termos D. Duarte Pio como descendente da monarquia portuguesa, tivéssemos alguém com a pinta de D. Felipe de Borbón, príncipe das Astúrias (perguntem à minha mãe, que diz que aquilo é que um príncipe como deve ser), os portugueses e sobretudo as portuguesas seriam muito mais monárquicos do que são.

O lado de má-língua e resmunguice que os portugueses têm sempre de ter seria então canalizado para D. Letizia e estou já a ver as velhotas alentejanas a dizerem que ela tem o nariz muito empinado e que não é nada simpática e que o marido é que um nobre a sério enquanto ela é uma dessas espertalhonas que se agarrou a ele.

14 de outubro de 2007

MISANTROPIA

Já me tinha esquecido como não gosto de ir ao cinema quando o cinema está cheio. Ele é as arrumadoras que não arrumam nada e só deixam a porta aberta para as pessoas entrarem; ele é as espanholas que falam pelos cotovelos; ele é as matronas que deixam os telemóveis ligados e os atendem a meio do filme; ele é o casal na moda que fala aos cochichos ao telemóvel; ele é os bandos de jovens intelectuais na moda que têm sempre alguma coisa a dizer sobre o filme; ele é o pessoal que chega atrasado e incomoda toda a gente.

12 de outubro de 2007

OS PAIS NAO DEVIAM MESMO GOSTAR NADA DELE...

...mas o senhor guarda por quem passo na rua não tem culpa de se chamar Marco Paulo, como estava aliás bem legível na chapa de identificação na camisa.

10 de outubro de 2007

A PROPÓSITO DA CASA PIA

Primeiro, Catalina Pestana; agora, Joaquina Madeira. Eles têm pontaria para os nomes, hem?

9 de outubro de 2007

8 de outubro de 2007

POLAROID: ENTRADAS POR SAÍDAS

Na Confeitaria Marquês de Pombal, à esquina da avenida da Liberdade com a Alexandre Herculano (e onde se come uma das melhores torradas de Lisboa), há uma porta automática que só dá entrada e outra que só dá saída. Nos 30 minutos que lá passei a lanchar hoje, a percentagem de pessoas que tentavam entrar pela saída e sair pela entrada sem olharem para os letreiros (contudo extremamente visíveis!) nem perceberem que estavam a fazer tudo ao contrário era tão alta que me perguntei se seria realmente uma boa ideia ter portas separadas.

4 de outubro de 2007

UMA INTERROGAÇÃO PREMENTE NAS CABEÇAS DE TODO O MUNDO

Porque é que o Devendra Banhart gostava tanto de ser o Caetano Veloso? E porque é que o Caetano Veloso não lhe diz para estar calado?

MULTIBANCO

No multibanco do supermercado, pago a conta da água com dois miúdos novinhos, crianças dos seus cinco anos, a correr à minha volta enquanto a mãe fala ao telemóvel de costas para eles. Um deles, uma menina de casaco cor-de-rosa que está a comer um bollycao, aponta para o écrã e diz "tens de carregar ali" e, quando aparece um anúncio da BMW no écrã, pergunta "vais comprar um carro?".

Quando termino as operações, viro-me para a senhora, que acaba de desligar o telemóvel com um ar muito atarefado e continua de costas, e toco-lhe ao de leve no ombro. "Ai que susto!", diz a senhora. "Desculpe," digo-lhe eu, "mas era capaz de não ser má ideia tomar conta da sua filha. É que pode haver pessoas que não achem tanta graça como eu a ter uma miudinha a controlar-lhe os movimentos do multibanco." A senhora não percebe bem mas pede desculpa na mesma.

2 de outubro de 2007

POLAROID: TAXI

Enquanto espera que surja um táxi livre para o poder apanhar, a senhora, loura, de óculos escuros, atravessa displicentemente a rua, ignorando o facto do sinal estar fechado para os peões. Quando um automóvel lhe apita por ela estar no meio da rua, a senhora faz ao condutor a cara típica da senhora que acha que tudo lhe é devido e que tem todo o direito de estar ali no meio da rua a passear à espera de um táxi livre.

30 de setembro de 2007

29 de setembro de 2007

É TÃO BOM ENCONTRAR A SOLUÇÃO PARA UM PROBLEMA

Tenho para mim que as páginas de televisão da Time Out Lisboa me vão dar um jeitão do caraças. É que isto de ter finalmente uma TVGuia que se consegue ler...

28 de setembro de 2007

ELÉCTRICO 25

Isto de ser um alfacinha de gema não quer dizer que se conheçam todos os recantos de Lisboa — hoje, pela primeira vez em 40 anos, desci a rua das Flores (sim, a da tragédia) até à rua de São Paulo e apanhei o eléctrico 25, que vai da Alfândega aos Prazeres pelo Conde Barão, por Santos, pela Lapa e pela Estrela e dá para gozar a viagem muito mais calmamente do que o mais turístico 28, aproveitando para ver ruas que eu conhecia de maneiras completamente diferentes. Claro que na rua de São Paulo se pára de cinco em cinco metros por causa das carrinhas que descarregam mercadorias, mas é bom fazer estas pausas no meio da lufa-lufa da cidade.

26 de setembro de 2007

AS PALAVRAS DO MESTRE #6

"I really think that we shouldn't just accept rites-of-passage opportunities as they come, because what we'll find is that they don't come in our world anymore. And we shouldn't look at them as a kind of luxury or romantic dream but as something vital to being alive."

— Sean Penn a Lev Grossman, da revista Time, citado na edição de 1 de Outubro a propósito do seu novo filme Into the Wild

25 de setembro de 2007

OLHA A BELA IMAGEM

Luís Marques Mendes diz que Luís Filipe Menezes está a pôr em causa "a boa imagem do partido". Mas algum partido tem "boa imagem" hoje em dia?

É TAO BONITO DESCONTEXTUALIZAR

"Mas agora passei a aturar crianças?", pergunta uma senhora de meia-idade à porta dos Armazéns do Chiado. "Com uma voz dessas...", apeteceu-me dizer.

POLAROID: CARREIRA 28

Sentado à janela do eléctrico, na Calçada do Combro passo por um polícia de trânsito que está a controlar as movimentações de um camião em manobras, com uma pasta A4 castanha e um exemplar do Correio da Manhã do dia debaixo do braço.

24 de setembro de 2007

POLAROID: METRO

Duas mulheres, conversando animadamente em crioulo, entram na última carruagem do metro e, sem grande vontade de irem em pé, tentam abrir a porta que daria para a carruagem da frente. Ao encontrarem-na trancada, acham estranho e insistem até perceberem que ela não abre mesmo e desistirem. Estive quase para lhes dizer: lá fora é que há correspondência entre as carruagens.

23 de setembro de 2007

AUTUMN CLEANING

Inspirado certamente pelo ímpeto arrumativo da Mui Nobre e Sábia Ursa Maior, o meu fim-de-semana foi dedicado à redecoração de duas zonas essenciais da Maison Mourinha, a saber a sala de estar e o escritório, com vista a um mais útil e ergonómico aproveitamento do espaço disponível, enquanto D. Diogo observava com nítida curiosidade as movimentações frenéticas de móveis entre a sala, o quarto das arrumações e o escritório.

Seguiu-se a confecção de uma reconfortante e mui saudável Sopa de Legumes à Urso (cebola, cenoura, abóbora, feijão verde e espinafres em caldo de galinha caseiro).

22 de setembro de 2007

AINDA SOBRE O ASSUNTO DO GATO

A minha mãe acha uma malvadez muito grande emascular um gatinho.

LEMBRAM-SE DA PIADA DO COMPRIMIDO DO GATO?

Isso de ser difícil dar um comprimido a um gato, afinal, é um bocado mito urbano. Tenho tido de dar o antibiótico duas vezes por dia ao Diogo desde que ele foi emasculado e, embora não seja a coisa mais fácil do mundo, também não é o pesadelo anunciado. E como não vai a bem — ele bem cheira o comprimido, que até parece uma guloseima, mas topa logo que estou a querer enganá-lo — tem de ir a mal. Ajoelho-me no chão, pego no Diogo, prendo-o entre os joelhos, esfrego-lhe o nariz, abro-lhe a boca e atiro o comprimido lá para dentro o mais para trás que consigo, esfrego-lhe a garganta para ele não o cuspir e solto-o. Depois dou-lhe uma guloseima e faço-lhe uma festinha.

Até ver, ele nunca cuspiu o comprimido, mesmo que tenha sido mais fácil ao princípio, quando ele ainda estava meio pedrado da operação.

21 de setembro de 2007

AS PALAVRAS DO MESTRE #5

"Talvez não saiba, mas é uma bênção podermos tornar-nos amigos dos nossos pais. Porque, se eles desaparecerem antes de compreendermos que eles são seres humanos, antes que possamos travar-nos de amizade com eles, eles manter-se-ão personagens toda a nossa vida. E, na nossa existência, haverá sempre algo que ficou por resolver."

— Ingmar Bergman, em entrevista a Olivier Assayas e Stig Björkman em Março de 1990, parcialmente reproduzida no número especial dedicado pela revista Cahiers du Cinéma a Bergman e Antonioni

POLAROID: PRAZERES

À porta do cemitério, o segurança que monta guarda à entrada sorri para as empregadas da limpeza que estão a entrar, anunciando-lhes que o almoço do dia são pataniscas de bacalhau com arroz de feijão.

20 de setembro de 2007

POLAROID: JARDIM DA ESTRELA

Um avô dá de comer aos pombos enquanto disparata com o neto dos seus cinco-seis anos, cuja bola de brincar foi parar a um laguinho onde os patos nadam pacatamente. "Nem penses. Agora a bola fica lá. Eu avisei-te para não a chutares, agora não vais lá buscá-la, ela fica lá. Achas isso bem?" Sem dar sequer tempo para o menino protestar. De um banco distante alguns metros, a avó junta-se à conversa com um tom reprovador. "Rodrigo! O que é que eu te disse? Não te disse para não chutares a bola?"

E ainda há quem diga que os avós estragam os netos com mimos.

18 de setembro de 2007

BOLETIM CLINICO FELINO

Na sequência da descoberta do desejo e da luxúria durante o seu reencontro com a sedutora D. Mathilde, e de dois dias de concerto coral constante na Mansão Mourinha (nunca eu pensei que o meu gato tivesse tanto jeito para fazer serenatas às garinas felinas), D. Diogo de Mourinha visitou hoje o veterinário e foi devidamente emasculado — uma situação que ele certamente não esperaria mas da qual parece não se ter ainda recomposto, dormindo pacatamente em cima da (minha) cama com um colarinho plástico para o impedir de pôr a língua onde (ainda) não deve. Já esteve a comer mas ainda não se habituou a percorrer a casa com o colarinho plástico que fica preso em muitas esquinas e o impede de se coçar (o que ele muito agradece).

D. Diogo está portanto em franca convalescença e em seu nome agradeço os vários votos de rápidas melhoras que tenho recebido.

MODA CRISE VERAO 2007

Proponho que a venda de T-shirts de manga cava ou sem mangas, lisas, com padrões ou de clubes desportivos, seja proibida a todos aqueles a quem seja provado que não ficam bem. Eu sei que isso implicaria uma enorme perda de lucros para alguns fabricantes, mas seria tão melhor para os nossos olhos.

17 de setembro de 2007

POLAROID: CONSULTÓRIO

A enfermeira do consultório onde costumo fazer os meus electrocardiogramas de rotina estava hoje com uma dor de cabeça "que não sei de onde apareceu que ninguém a chamou, logo hoje que tenho um dia terrível. Se estivesse em casa fazia uma chávenazinha de leite mas assim... Ainda por cima tenho sinosite, o que não ajuda nada."

15 de setembro de 2007

NA CELEBRAÇAO DO PRIMEIRO ANIVERSARIO FELINO

Foi ontem, 14 de Setembro, que se marcou a celebração do Primeiro Aniversário Felino do Clã von Satori. Fez ontem um ano, Gueixa von Satori dava à luz as quatro amorosas crias da sua fugaz (e nem sempre bem resolvida) relação com Gattuso de Lisboa (também conhecido pelo Velho Surdo), que ontem se reuniram parcialmente na Maison Benfica de Lisboa.

Perante o ar razoavelmente displicente da mãe Gueixa, D. Mathilde von Satori exercitou os seus dotes de lasciva Lolita felina, procurando seduzir com requintes de luxúria o completamente impreparado D. Diogo de Mourinha, com o qual D. Bowie von Satori efectuou umas quantas gestas amigáveis com direito a muito rosnar, alguns fortuitos ataques ninja e muito rebolar felinoerótico no chão. Ausentes, por motivos de relações difíceis, estavam o progenitor Gattuso de Lisboa e D. Cowboy de Lisboa, que terão direito em breve a celebração privativa com a presença do clã alargado.

Entre a magnífica sopa de feijão, o pudim de salmão fingido com molho de tomate e cebola e o bolo de aniversário, alguns convivas recearam que a sedução lasciva de D. Mathilde tenha exercido os seus poderes sobre D. Diogo ao ponto de se consumar... mas D. Diogo é um cavalheiro e honrará — na medida da sua felinidade — quaisquer compromissos que provem ser necessários.

Espera-se que em breve as fotografias de D. Maria possam afiançar do momento de rara felicidade felina que decorreu na Maison Benfica na noite de 14 de Setembro.

13 de setembro de 2007

PROMOÇÃO DESAVERGONHADA



...mas necessária. Primeiro, porque o António é um amigo; segundo, porque já comprei e já me diverti muito a ler passagens; terceiro, porque é importante que haja livros assim, porque Portugal é um país que não toma conta da sua memória e é importante registar as histórias pequenas da grande história da cultura popular — e é ainda mais importante que haja mais livros assim e que este não fique como caso único. Um amigo meu dizia, sim, mas tinha de se começar pelo Quarteto 1111? E eu respondi-lhe, é um ponto de partida tão bom como qualquer outro.

12 de setembro de 2007

TERRENO MINADO (ou que não se diga que os soldados americanos não têm sentido de humor)

A propósito das dez horas de audiência perante o Congresso norte-americano nas quais o general americano David Petraeus apresentou o seu relatório sobre a situação militar no Iraque, em citação do New York Times de hoje:

“I’d much rather be back in Iraq,” said Col. Steve Boylan, the spokesman for General Petraeus who had traveled from Baghdad, during one of the day’s few brief breaks. “It’s much safer.”

11 de setembro de 2007

POLAROID: CARREIRA 28

O eléctrico 28 vem da Sé em direcção à Estrela. Vem cheio, embora não a abarrotar, e numa das paragens da Baixa entra um casal muito bem vestido, ele de fato e gravata impecável, ela num saia-casaco cor-de-rosa com sapatos creme, pastas nas mãos, como quem vem de uma reunião de trabalho. Não é preciso estar muito atento para perceber que não são clientes habituais dos transportes públicos. E, de facto, até eu sair no Chiado, o senhor (mais velho que a senhora) desenrola uma série de queixas bem-dispostas, desde o preço do bilhete (€1.30, tarifa única, quando antes se pagavam sete tostões para ir do Calhariz ao Camões e dez para ir até à Estrela) ao pior serviço, sobretudo comparado ao táxi que apenas lhes custou €2.50 do Camões até ali e se calhar levava menos tempo que o eléctrico, ao que o condutor respondia que contra o trânsito da cidade ele não podia fazer nada. A senhora, essa, apenas disse que "tem tanta piada andar de eléctrico".

10 de setembro de 2007

MUSICA NO GINASIO #30



The Randy Newman Songbook, vol. 1 (Nonesuch/Warner, 2003). Porque, como todos sabem (e se não sabem deviam saber), Randy Newman é um dos maiores songwriters vivos, e um dos raros a trabalhar na canção clássica americana à Cole Porter, Hoagy Carmichael ou Johnny Mercer. Mas com um veneno de fazer inveja a Elvis Costello.



"Sail Away" (ao vivo)



"Rednecks" (ao vivo)

OLHÁ BELA PEIXEIRADA

Nas renovadas urgências do hospital de São José, é o balcão de informações na sala de espera que parece dar autorização para os familiares poderem entrar para ver um ente querido sob observação no serviço de urgência. Digo parece porque a resposta - dada sempre de modo muito simpático pela assistente administrativa que toma conta das informações ao fim de semana - é que não podem deixar ninguém entrar, apesar de muito do restante pessoal do hospital poder ignorá-la a seu bel prazer.

Com a minha mãe internada de urgência ontem à tarde, estivemos cerca de três horas à espera de ser informados do estado de saúde dela ou sequer de alguém poder entrar para lhe dar uma palavrinha de conforto, e o meu pai e os meus irmãos foram sistematicamente perguntando informações que se resumiam ao mesmo: a minha mãe estava sob observação e para já não podiam deixar entrar e alguém nos viria dizer alguma coisa.

O facto é que ninguém nos veio dizer nada até ao momento em que a mesma senhora nos disse que afinal ela ia ficar internada durante a noite para observações e ninguém nos tinha vindo sequer entregar as roupas dela e que não lhe era possível deixar-nos entrar. A assistente administrativa a quem fomos solicitar as roupas foi infinitamente mais prestável que a senhora das informações e com duas chamadas telefónicas entrou na urgência com o meu pai para ele ir ver a minha mãe, com a anuência da enfermeira e do médico de serviço que autorizaram aquilo que a senhora das informações dizia eles não autorizarem.

Assim que a senhora das informações percebeu que tinha sido ultrapassada, foi fazer peixeirada com a assistente administrativa que tinha levado o meu pai lá dentro sem ser a obrigação dela. Os meus irmãos meteram-se na peixeirada para a meter no seu devido lugar.

Eu cá acho que devia fazer-se uma reclamação contra a senhora das informações, e acho tudo isto de uma profunda e inexplicável mesquinhez. O que interessa aqui não é quem manda; estamos a falar de um hospital. A ideia não é impedir as pessoas de saberem como está a saúde do familiar. E se tivéssemos confiado na senhora das informações, teríamos saído do hospital sem ver a minha mãe, sem saber como ela estava, sem as roupas.

(A minha mãe está melhor, muito obrigado. Não parece ser nada de grave.)

9 de setembro de 2007

POLAROID: JAYWALKING

Para a senhora idosa que atravessa a Álvares Cabral nesta tarde de domingo arrastando o carrinho de compras atrás de si, não existem passadeiras, semáforos ou automóveis: as quatro faixas de asfalto da avenida são apenas uma extensão do passeio, e a senhora atravessa a avenida onde muito bem entende, como muito bem entende, pelo meio do trânsito que apita e que ela ignora com um acenar de mãos, como quem diz volte-lá-para-a-sua-rua-e-não-me-mace.

MÚSICA NO GINÁSIO #29



Todos estes anos depois, The Lexicon of Love (Neutron/Mercury/Universal, 1982) explica que os ABC (ou antes: Martin Fry e Mark White mais os comparsas da altura) queriam fazer "blue-eyed soul" inspirada por Smokey Robinson, pelos tempos áureos da Motown, pelo hedonismo dos Chic e pela simplicidade pop da melhor música negra. Só que revista e corrigida pelos olhos de adolescentes ingleses escapistas em plena era Thatcher, criados com a tradição da pantomima e do "glam-rock", e burilada pela produção tecnológica do ex-Buggles Trevor Horn, então a sonhar ser o Phil Spector de Londres. 25 anos depois, não devia continuar a fazer sentido. Mas faz, e muito.



"The Look of Love"



"Poison Arrow"

6 de setembro de 2007

POLAROID: PEQUENO-ALMOÇO

Longe de mim pôr em causa o sacrossanto livre-arbítrio de cada um escolher o que se põe na mesa do pequeno-almoço. Mas não é muito normal ver cinco imperiais à frente de uma pessoa às nove da manhã numa pastelaria.

4 de setembro de 2007

FAMEL ZUNDAPP

Uma coisa é um mocinho motard dar boleia à garina numa dessas Yamahas ou Suzukis ou Hondas todas artilhadas como as super-sport dos corredores dos grandes prémios, e ultrapassarem-nos pela esquerda como quem está a guiar um Maserati enquanto o nosso reles Renault 5 vai ficando para trás à distância.

Outra coisa é um mocinho aspirante a motard querer impressionar a garina que vai de boleia com uma Famel Zundapp artilhada a fingir que é Yamaha ou Suzuki ou Honda super-sport, com decoração à Valentino Rossi e tudo, mas que faz uma barulheira de 125 azul que nunca mais acaba e parece um caracol com ambição de lesma a subir a Joaquim Bonifácio a prender o trânsito e a obrigar não sei quantos carros a seguir atrás como na velha estrada para o Algarve em que os camiões a transbordar de palha criavam filas intermináveis que o traço contínuo impedia de ultrapassar.

3 de setembro de 2007

GATO É AMOR

A quantidade de cadáveres de mosca que tenho encontrado espalhados pela casa dá a entender que o Diogo está a transformar-se num temível predador. Mais do que um gato, um verdadeiro tigre.

MÚSICA NO GINÁSIO #28



The River in Reverse (Verve Forecast/Universal, 2006), de Elvis Costello e Allen Toussaint — ou como o Bardo Cínico da New Wave se confirma como um estudioso do songwriting clássico e deixa ao veterano do R&B americano à la Nova Orleães todo o espaço para brilhar. Até neste video para "Who's Gonna Help Brother Get Further" que os chatos da Universal me obrigam a linkar porque não deixam pô-lo aqui no blog. É, além do mais, um grande álbum político, misto de celebração e requiem pela alma de uma cidade submersa.

O respeitinho pelos clássicos é muito bonito.

2 de setembro de 2007

PAGINA 3

Vem na capa de um dos tablóides ingleses a propósito da pretensa orgia de Cristiano Ronaldo: "I turned Ronaldo on with my Tesco knickers". Palavras para quê?

MÚSICA NO GINÁSIO #27



Toda a gente fala do primeiro álbum dos Stooges, The Stooges (Elektra/Warner, 1969), como um dos pontos zero do punk. Mas porque é que tão pouca gente fala dele como o ponto zero do "stoner rock" ou como um dos álbuns mais psicadélicos dos anos 60 sem ter um grama de psicadelismo?



"No Fun" (ao vivo em Detroit na recente reformação, já que não se encontraram imagens da época))

1 de setembro de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #44

Ser acordado às oito da manhã de sábado pelo ruído de um berbequim industrial ou de outra coisa igualmente barulhenta que parece ser conduzida pelas paredes do prédio. As obras nas traseiras já podiam ter acabado — ou pelo menos quem as está a fazer podia ter o bom senso de tentar não obrigar as pessoas a madrugar de fim-de-semana.

31 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #26




Face a The Temple Bell (Bor Land, 2007), terceiro disco mágico de Old Jerusalem, quem é quer realmente perder tempo com Bill Callahan, David Berman, Will Oldham e outros Dave Pajo quando temos um Francisco Silva nosso tão bom ou melhor que os "originais"?



"Her Scarf"

A HISTÓRIA SECRETA DOS CORREDORES MISTERIOSOS

No túnel do metro, logo a seguir à saída da estação do Jardim Zoológico, em direcção à estação das Laranjeiras, quem estiver a olhar para o interior do túnel verá, iluminado por uma das lâmpadas fluorescentes do tecto, antigos cartazes eleitorais da APU. Afinal, cada centímetro conta, não é?

30 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #25



The Times They Are A-Changin' (Columbia/Sony BMG, 1964), de Bob Dylan. Porque quando se escreve poesia como Dylan já então escrevia (mesmo que poesia de intervenção) a afinação passa a ser um conceito pequeno-burguês.



"The Times They Are A-Changin'" (ao vivo em 1965)

29 de agosto de 2007

OS HABITANTES DO METRO

São aquelas pessoas que nunca vemos fora dos corredores das estações ou dos comboios em movimento. Os pedintes que se sucedem ou que reconhecemos se fizermos o mesmo percurso diariamente, da senhora idosa que percorre as carruagens com uma muleta enquanto pede esmola com uma voz chorosa aos seguranças vestidos de preto com o logotipo da empresa a vermelho. Mas nunca vi nenhum como os dois com que me cruzei na linha azul a uma semana de intervalo.

Uma senhora negra, razoavelmente bem vestida e carregando sacos de plástico do supermercado, entra na carruagem a falar sozinha em voz alta, mas percebo depois que não está a falar sozinha: está a anunciar a quem a quiser ouvir do apocalipse que se aproxima, embora ela própria diga que não sabe quando vai ser nem como vai ser, se será água, fogo ou outra coisa qualquer. Algumas pessoas fingem não ouvir, outras sorriem. A senhora continua a pregar, perfeitamente alheia às reacções dos outros passageiros.

Hoje, um senhor dos seus 60 anos percorre a estação agitando uma velha flâmula do Benfica, dizendo entre sorrisos meio tolos a quem o quiser ouvir que "hoje eu sou do Benfica".

28 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #24



The Whole Story (EMI, 1986), "resumo" dos primeiros quase-dez anos de carreira de Kate Bush que explicam duas coisas. Primeira: como "Wuthering Heights" foi o sucesso que foi em plena explosão do punk e da new-wave nunca será inteiramente compreendido. Segunda: neste período, Bush conseguiu convencer as massas a comprar alguma da música pop mais ousada e experimental da época como se fosse pop orelhuda (que, em alguns casos, também era). Alguns arranjos (sobretudo nos dois primeiros álbuns, The Kick Inside e Lionheart, ambos de 1978) dataram, mas as canções nem por isso; e tudo o que ela fez de 1980 para a frente é uma das mais espantosas singularidades da pop inglesa de qualquer época.



"Wuthering Heights"



"Babooshka"



"Army Dreamers"



"Hounds of Love"

26 de agosto de 2007

POLAROID: CAFE

A família de quatro entra no café pouco depois da hora de almoço: pai (T-shirt escura de "Porto Galinhas, Pernambuco"), calções, carteira, chaves de casa e telemóvel na mão), mãe, dois miúdos hiperactivos para quem tudo parece ser novidade mesmo quando não é. O pai pede um gelado, três tostas mistas, três copos de leite morno; a empregada esquece-se de contabilizar o gelado na conta, e o pai abre a carteira para tirar o dinheiro, mas acaba por se virar para a esposa. "Oh Cristina, não tens aí moedas?"

25 de agosto de 2007

PROXIMA ESTAÇAO: BAIXA-CHIADO

Muitas vezes dou por mim no metro, distraidamente, a fazer playback da senhora que dá voz às informações que se ouvem no interior das carruagens. "Próxima estação: Marquês de Pombal. Há correspondência com a linha azul". E não falho. Até a mim próprio me irrito.

23 de agosto de 2007

CONTINUA A IMPOR-SE A PARABENIZAÇAO...

...desta vez à Veronica e ao Tiago, pela Maria.

(Escolheram todos a mesma altura...)

22 de agosto de 2007

NA VIDA REAL

"...Like one of those heartbreaking Raymond Carver stories in which a luckless character catches a glimpse of something better, a small moment of rightness about the world, and, instead of cheering us, this glimmer of hope makes us even more anxious — because we know it can’t possibly last."

— Tom Barbash, na sua crítica ao romance de Ron Carlson "Five Skies" publicada no New York Times Sunday Book Review de domingo, 19 de Agosto

21 de agosto de 2007

POLAROID: MÃES E FILHOS

As mães e outros parentes que viajam nos transportes públicos com as suas criancinhas têm essencialmente duas opções de comportamento quando confrontadas com a hiperactividade pública das criancinhas. Uma: ignoram-nas com um ar ausente, como quem diz, "são miúdos, isto já passa". Outra: fazerem má cara e olharem para elas com o ar "não perdes pela demora". Seria interessante ver também porque é que as criancinhas ficam tão hiperactivas nos transportes públicos, mas isso são outras histórias.

20 de agosto de 2007

COMO DETECTAR UM TURISTA ESPANHOL NO METRO DE LISBOA

Não é nada difícil. Estão quase sempre em grupos (mínimo de quatro) a falar entre si em espanhol, e muito alto.

19 de agosto de 2007

POLAROID: Ó DA GUARDA

Sexta-feira de manhã, perto da embaixada inglesa, uma senhora grita em altos berros, de pé junto à porta do condutor aberta de um jipe; enquanto atendo uma chamada telefónica, os gritos aceleram, o carro tenta arrancar ainda com a senhora de pé e a porta aberta, com uma criança aos berros no banco de trás, até que um dos transeuntes que tem estado a observar a cena chama a polícia que costuma estar a montar guarda à Embaixada. Entre a chamada telefónica e a chegada da polícia, não percebo nada do que se passa mas pergunto-me se o que se passa ali é uma discussão conjugal, um prelúdio de divórcio ou um problema de custódia. Em qualquer dos casos, é estranho ver gente a mostrar os seus problemas pessoais no meio da rua.

18 de agosto de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #43

Não sei de quem foi a brilhante ideia de encerrar a loja de conveniência da avenida Álvares Cabral (por acaso até sei: foi dos proprietários da rede Sprint, que chegaram à conclusão que a rede não dava lucro e fecharam as lojas todas, incluindo as únicas duas que davam lucro, uma das quais a da Álvares Cabral), mas apetece-me espancá-lo com a moca dos pregos. Porque o resultado prático é que agora não se conseguem comprar jornais nesta zona: depois do fecho da tabacaria do salão Monumental ao pé do antigo Jardim Cinema (com o salão de jogos transformado em pseudo-Zara de terceira categoria), e com os quiosques do largo do Rato fechados para férias, sobra só o quiosque da Basílica da Estrela — e mesmo esse não sei se está aberto. Agosto em Lisboa tem as suas vantagens, mas esta não parece ser uma delas.

17 de agosto de 2007

A MINHA FAMÍLIA DAVA UMA SITCOM: D. LIVIA SOPRANO

"Ai, o teu pai faz-me tanta falta."
"Pobrezinho de quem precisa."
"Ninguém vos chamou cá, vão-se embora! Vão lá para as vossas mulas! Venham quando eu vos chamar!"
"Sim, eu sei que sou muito má. Só tenho é defeitos. O vosso pai é que é um santo. É, é."
"Para mim estão sempre com sete pedras na mão, mas depois vão para casa e têm medo delas. Elas comem-vos as papas na cabeça. São umas espertalhonas. Chama-lhes parvas."
"O teu irmão ontem torrou-me uma carcaça. Porque é que tu não me torras uma carcaça?"
"Puseste açúcar? Este chá está amargoso."

16 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #23



Waking Up the Neighbours (A&M/Universal, 1991), de Bryan Adams: é isto que o rock'n'roll devia ser. E poucos discos terão chegado tão perto da imagem icónica do rock'n'roll: cinco amigos a curtirem que nem loucos em cima de um palco e a festa a passar à audiência. E foi preciso um canadiano para o fazer. Waking Up the Neighbours é um disco de festa — que faz a festa e lança os foguetes e desafia toda a gente a ir atrás - "gotta be guilty having too much fun". Quem não for não sabe o que perde.


"Can't Stop This Thing We Started"


"Thought I'd Died and Gone to Heaven"

AS PALAVRAS DO MESTRE #4

Algumas frases de infinita sabedoria do mestre Claude Chabrol na excelente entrevista a Sophie Grassin publicada na edição de Agosto da Première francesa:

"Para um homem de constituição normal, as mulheres são ao mesmo tempo um fascínio e um mistério. Colaborar com elas evita-me assim escrever parvoíces sobre as minhas protagonistas femininas"

"Prefiro definitivamente as mulheres aos homens. Se lermos bem a Bíblia, aliás, Deus parece partilhar a minha opinião"

"Evito escolher actores aos quais convém relembrar que o avô era carpinteiro para que eles possam abrir uma porta. Há actores assim. «Qual é a minha motivação?» O teu cheque!"

"O pai da minha primeira mulher dirigia o banco Rothschild. Em seguida casei com uma actriz, depois com uma anotadora... Podemos assim falar de um declínio total"

15 de agosto de 2007

POLAROID

O Polo escuro está parado à minha frente num dos sinais que atravessa a Avenida da Liberdade, mas não avança quando o sinal abre. Eventualmente, lá avança mas a velocidade muito moderada em direcção à rua das Pretas/do Telhal; contra a luz dos candeeiros, o condutor, com um boné de basebol na cabeça, gesticula para o passageiro enquanto mexe no tablier, com ar de quem está a concentrar-se em tudo menos na condução, mas regressa à "normalidade" assim que entra na íngreme Calçada do Moinho de Vento.

14 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #22



With Teeth (Nothing/Interscope/Universal, 2005), dos Nine Inch Nails: ou como o "rock industrial" se cruza com a influência do tecno-pop pioneiro dos primórdios dos anos 80 e Trent Reznor vira rock de estádio de bom recorte. E porque há dias em que só a paranóia enérgica de arestas limadas serve de banda-sonora.



"The Hand That Feeds"

13 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #21



Hoje precisei de alguma coisa que me animasse e a passear pelas playlists achei que The Singles Collection 1984-1990 (London/Warner Music, 1990) podia ser o disco certo. Já não ouvia há muito tempo esta resenha dos singles tecno-pop/eurodisco de Jimmy Somerville, o careca escocês do falsete soul que, nos idos de 1986/1987, dominava as tabelas de venda com os Communards, depois de o ter feito com os Bronski Beat. O que acho que passou ao lado de muitos dos que consumiam esta pop electrónica paredes-meias com o disco-xunga hedonista era o fortíssimo activismo pro-gay dos projectos de Somerville: esta era pop política que queria mudar o mundo dançando, e provavelmente ninguém fora de Inglaterra (ou muito pouca gente) terá percebido que "There's More to Love Than Boy Meets Girl" era uma ode pansexual, que "Smalltown Boy" celebrava a fuga da tacanhez provinciana, que "For a Friend" era uma elegia por um amigo morto, que "Read My Lips" era um hino contra a SIDA. Hoje, ouvir estes singles todos é uma espécie de cápsula do tempo que mantém intacto o activismo e a pontaria pop de Somerville. Mesmo que, sim, o falsete irrite aqui e ali.

E, sim, animou-me.


"There's More to Love Than Boy Meets Girl"


"Don't Leave Me This Way"


"Never Can Say Goodbye"

9 de agosto de 2007

EXCLUSIVO TVI

A comissária da PSP que estava a falar para a câmara ia sendo atropelada em directo pelo autocarro que passava pela rua.

7 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #20



Aimee Mann Op. 4: Lost in Space (Superego/V2, 2002), o momento em que um manto escuro classicista e as aspirações da grande pop seventies começaram a cobrir a falsa alegria dos discos anteriores. "Pavlov's Bell" explica.

6 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #19



Aimee Mann Op. 3 (vá lá: 3.5 se quisermos contar com as canções do filme Magnolia): Bachelor no. 2, or the Last Remains of the Dodo (Superego/V2, 2000). São umas atrás das outras, canções, bem entendido, clássicas, com uma identidade própria que não enjeita as influências dos Beatles, de Bacharach, de Costello e do songwriting clássico americano: "How Am I Different?", "Driving Sideways", "Red Vines", "Nothing Is Good Enough", "You Do", "Ghost World" (video em baixo), "Satellite", "It Takes All Kinds"... E se este disco fosse uma espécie de "greatest hits" que ainda não o tinham sido?

POLAROID: EMEL

Um rapaz está sentado em cima de uma mota à porta de um edifício; muito provavelmente, é um estafeta à espera de um serviço. De repente, um outro rapaz sai do edifício com ar apressado, olha rapidamente à sua volta e, dirigindo-se ao rapaz em cima da mota, pergunta-lhe: "Desculpe, não viu por aí ninguém da EMEL, pois não?..."

5 de agosto de 2007

AS PALAVRAS DO MESTRE #3

"É óbvio que a arte não pode ensinar nada a ninguém, uma vez que, em quatro mil anos, a humanidade não aprendeu absolutamente nada."

— Andrei Tarkovski, in Esculpir o Tempo (na tradução brasileira a partir da versão inglesa [!] de Jefferson Luiz Camargo, São Paulo: Martins Fontes, 1998)

4 de agosto de 2007

O SENHOR GUARDA NÃO TEM CULPA

...de se chamar Edu Barato.

MÚSICA NO GINÁSIO #18



Segundo episódio das obras completas de Aimee Mann, I'm with Stupid (DGC/Geffen/Universal, 1995) foi durante muito tempo o disco dela de que eu menos gostava, em parte devido à produção rococó de Jon Brion, que na altura me parecia um bocadinho preciosa demais para a simplicidade das canções. Estava, claro, enganado — as pérolas que se escondem neste álbum nunca mais acabam ("Choice in the Matter", "That's Just Who You Are", "You Could Make a Killing", "Sugarcoated", "Long Shot", o espantoso "Amateur" cujo teledisco está aqui em baixo...) e a injustiça deve ser reparada.

3 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #17



Whatever (Imago/Geffen/Universal, 1993), o primeiro trabalho a solo de Aimee Mann, numa altura muito pré-Magnolia em que se estava tudo a borrifar para a senhora — e faziam mal, porque tudo aquilo que hoje todos gostam nela já estava intacto aqui. E porque, depois do belíssimo concerto do Coliseu, me apeteceu voltar a ouvi-lo. E aos outros todos.

(Em baixo, o video do maravilhoso "Stupid Thing".)

2 de agosto de 2007

A LÍNGUA ESPANHOLA É MUITO TRAIÇOEIRA

Vejo na rua cartazes para campanha de preservativos que anunciam "o estímulo afrodisíaco do pêssego". Eu não acho o pêssego nada afrodisíaco, mas aceito que haja quem ache. Mas mesmo esses devem ter alguns problemas quando, como eu, lêem na embalagem dos preservativos em questão "el estimulo afrodisiaco del melocotón". É que não há afrodisíaco que resista.

1 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #11-16



Seguir There Is a Season (Columbia Legacy/Sony BMG, 2006), a mais recente caixa retrospectiva dos Byrds, é entrar numa montanha russa esquizofrénica que começa com o grupo como uma espécie de Beatles de terceira em versão xoninhas, termina com os moços a aproximarem-se perigosamente do rock FM californiano da década de 70. Mas, pelo meio, há uma invenção melódica e guitarrística absolutamente notável, há aqueles carrocéis de Rickenbackers cintilantes e a impecável prestação vocal e instrumental dos rapazes, há a amplitude térmica que ia dos Dylanismos traduzidos para as massas à invenção do country-rock com um respeito insuspeito pela tradição (muitos anos antes dos manos Coen devolverem a "mountain music" às parangonas com a banda-sonora de Irmão, Onde Estás?, já Roger McGuinn & cª, com a ajuda preciosa de Gram Parsons, tinham percebido o que de bom ali se podia recuperar). O título é enganador: não há uma única estação em There Is a Season, há uma viagem pelo ciclo do tempo com todas as voltas que isso implica.



"Mr. Tambourine Man"



"I'll Feel a Whole Lot Better"