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28 de setembro de 2007

ELÉCTRICO 25

Isto de ser um alfacinha de gema não quer dizer que se conheçam todos os recantos de Lisboa — hoje, pela primeira vez em 40 anos, desci a rua das Flores (sim, a da tragédia) até à rua de São Paulo e apanhei o eléctrico 25, que vai da Alfândega aos Prazeres pelo Conde Barão, por Santos, pela Lapa e pela Estrela e dá para gozar a viagem muito mais calmamente do que o mais turístico 28, aproveitando para ver ruas que eu conhecia de maneiras completamente diferentes. Claro que na rua de São Paulo se pára de cinco em cinco metros por causa das carrinhas que descarregam mercadorias, mas é bom fazer estas pausas no meio da lufa-lufa da cidade.

26 de setembro de 2007

AS PALAVRAS DO MESTRE #6

"I really think that we shouldn't just accept rites-of-passage opportunities as they come, because what we'll find is that they don't come in our world anymore. And we shouldn't look at them as a kind of luxury or romantic dream but as something vital to being alive."

— Sean Penn a Lev Grossman, da revista Time, citado na edição de 1 de Outubro a propósito do seu novo filme Into the Wild

25 de setembro de 2007

OLHA A BELA IMAGEM

Luís Marques Mendes diz que Luís Filipe Menezes está a pôr em causa "a boa imagem do partido". Mas algum partido tem "boa imagem" hoje em dia?

É TAO BONITO DESCONTEXTUALIZAR

"Mas agora passei a aturar crianças?", pergunta uma senhora de meia-idade à porta dos Armazéns do Chiado. "Com uma voz dessas...", apeteceu-me dizer.

POLAROID: CARREIRA 28

Sentado à janela do eléctrico, na Calçada do Combro passo por um polícia de trânsito que está a controlar as movimentações de um camião em manobras, com uma pasta A4 castanha e um exemplar do Correio da Manhã do dia debaixo do braço.

24 de setembro de 2007

POLAROID: METRO

Duas mulheres, conversando animadamente em crioulo, entram na última carruagem do metro e, sem grande vontade de irem em pé, tentam abrir a porta que daria para a carruagem da frente. Ao encontrarem-na trancada, acham estranho e insistem até perceberem que ela não abre mesmo e desistirem. Estive quase para lhes dizer: lá fora é que há correspondência entre as carruagens.

23 de setembro de 2007

AUTUMN CLEANING

Inspirado certamente pelo ímpeto arrumativo da Mui Nobre e Sábia Ursa Maior, o meu fim-de-semana foi dedicado à redecoração de duas zonas essenciais da Maison Mourinha, a saber a sala de estar e o escritório, com vista a um mais útil e ergonómico aproveitamento do espaço disponível, enquanto D. Diogo observava com nítida curiosidade as movimentações frenéticas de móveis entre a sala, o quarto das arrumações e o escritório.

Seguiu-se a confecção de uma reconfortante e mui saudável Sopa de Legumes à Urso (cebola, cenoura, abóbora, feijão verde e espinafres em caldo de galinha caseiro).

22 de setembro de 2007

AINDA SOBRE O ASSUNTO DO GATO

A minha mãe acha uma malvadez muito grande emascular um gatinho.

LEMBRAM-SE DA PIADA DO COMPRIMIDO DO GATO?

Isso de ser difícil dar um comprimido a um gato, afinal, é um bocado mito urbano. Tenho tido de dar o antibiótico duas vezes por dia ao Diogo desde que ele foi emasculado e, embora não seja a coisa mais fácil do mundo, também não é o pesadelo anunciado. E como não vai a bem — ele bem cheira o comprimido, que até parece uma guloseima, mas topa logo que estou a querer enganá-lo — tem de ir a mal. Ajoelho-me no chão, pego no Diogo, prendo-o entre os joelhos, esfrego-lhe o nariz, abro-lhe a boca e atiro o comprimido lá para dentro o mais para trás que consigo, esfrego-lhe a garganta para ele não o cuspir e solto-o. Depois dou-lhe uma guloseima e faço-lhe uma festinha.

Até ver, ele nunca cuspiu o comprimido, mesmo que tenha sido mais fácil ao princípio, quando ele ainda estava meio pedrado da operação.

21 de setembro de 2007

AS PALAVRAS DO MESTRE #5

"Talvez não saiba, mas é uma bênção podermos tornar-nos amigos dos nossos pais. Porque, se eles desaparecerem antes de compreendermos que eles são seres humanos, antes que possamos travar-nos de amizade com eles, eles manter-se-ão personagens toda a nossa vida. E, na nossa existência, haverá sempre algo que ficou por resolver."

— Ingmar Bergman, em entrevista a Olivier Assayas e Stig Björkman em Março de 1990, parcialmente reproduzida no número especial dedicado pela revista Cahiers du Cinéma a Bergman e Antonioni

POLAROID: PRAZERES

À porta do cemitério, o segurança que monta guarda à entrada sorri para as empregadas da limpeza que estão a entrar, anunciando-lhes que o almoço do dia são pataniscas de bacalhau com arroz de feijão.

20 de setembro de 2007

POLAROID: JARDIM DA ESTRELA

Um avô dá de comer aos pombos enquanto disparata com o neto dos seus cinco-seis anos, cuja bola de brincar foi parar a um laguinho onde os patos nadam pacatamente. "Nem penses. Agora a bola fica lá. Eu avisei-te para não a chutares, agora não vais lá buscá-la, ela fica lá. Achas isso bem?" Sem dar sequer tempo para o menino protestar. De um banco distante alguns metros, a avó junta-se à conversa com um tom reprovador. "Rodrigo! O que é que eu te disse? Não te disse para não chutares a bola?"

E ainda há quem diga que os avós estragam os netos com mimos.

18 de setembro de 2007

BOLETIM CLINICO FELINO

Na sequência da descoberta do desejo e da luxúria durante o seu reencontro com a sedutora D. Mathilde, e de dois dias de concerto coral constante na Mansão Mourinha (nunca eu pensei que o meu gato tivesse tanto jeito para fazer serenatas às garinas felinas), D. Diogo de Mourinha visitou hoje o veterinário e foi devidamente emasculado — uma situação que ele certamente não esperaria mas da qual parece não se ter ainda recomposto, dormindo pacatamente em cima da (minha) cama com um colarinho plástico para o impedir de pôr a língua onde (ainda) não deve. Já esteve a comer mas ainda não se habituou a percorrer a casa com o colarinho plástico que fica preso em muitas esquinas e o impede de se coçar (o que ele muito agradece).

D. Diogo está portanto em franca convalescença e em seu nome agradeço os vários votos de rápidas melhoras que tenho recebido.

MODA CRISE VERAO 2007

Proponho que a venda de T-shirts de manga cava ou sem mangas, lisas, com padrões ou de clubes desportivos, seja proibida a todos aqueles a quem seja provado que não ficam bem. Eu sei que isso implicaria uma enorme perda de lucros para alguns fabricantes, mas seria tão melhor para os nossos olhos.

17 de setembro de 2007

POLAROID: CONSULTÓRIO

A enfermeira do consultório onde costumo fazer os meus electrocardiogramas de rotina estava hoje com uma dor de cabeça "que não sei de onde apareceu que ninguém a chamou, logo hoje que tenho um dia terrível. Se estivesse em casa fazia uma chávenazinha de leite mas assim... Ainda por cima tenho sinosite, o que não ajuda nada."

15 de setembro de 2007

NA CELEBRAÇAO DO PRIMEIRO ANIVERSARIO FELINO

Foi ontem, 14 de Setembro, que se marcou a celebração do Primeiro Aniversário Felino do Clã von Satori. Fez ontem um ano, Gueixa von Satori dava à luz as quatro amorosas crias da sua fugaz (e nem sempre bem resolvida) relação com Gattuso de Lisboa (também conhecido pelo Velho Surdo), que ontem se reuniram parcialmente na Maison Benfica de Lisboa.

Perante o ar razoavelmente displicente da mãe Gueixa, D. Mathilde von Satori exercitou os seus dotes de lasciva Lolita felina, procurando seduzir com requintes de luxúria o completamente impreparado D. Diogo de Mourinha, com o qual D. Bowie von Satori efectuou umas quantas gestas amigáveis com direito a muito rosnar, alguns fortuitos ataques ninja e muito rebolar felinoerótico no chão. Ausentes, por motivos de relações difíceis, estavam o progenitor Gattuso de Lisboa e D. Cowboy de Lisboa, que terão direito em breve a celebração privativa com a presença do clã alargado.

Entre a magnífica sopa de feijão, o pudim de salmão fingido com molho de tomate e cebola e o bolo de aniversário, alguns convivas recearam que a sedução lasciva de D. Mathilde tenha exercido os seus poderes sobre D. Diogo ao ponto de se consumar... mas D. Diogo é um cavalheiro e honrará — na medida da sua felinidade — quaisquer compromissos que provem ser necessários.

Espera-se que em breve as fotografias de D. Maria possam afiançar do momento de rara felicidade felina que decorreu na Maison Benfica na noite de 14 de Setembro.

13 de setembro de 2007

PROMOÇÃO DESAVERGONHADA



...mas necessária. Primeiro, porque o António é um amigo; segundo, porque já comprei e já me diverti muito a ler passagens; terceiro, porque é importante que haja livros assim, porque Portugal é um país que não toma conta da sua memória e é importante registar as histórias pequenas da grande história da cultura popular — e é ainda mais importante que haja mais livros assim e que este não fique como caso único. Um amigo meu dizia, sim, mas tinha de se começar pelo Quarteto 1111? E eu respondi-lhe, é um ponto de partida tão bom como qualquer outro.

12 de setembro de 2007

TERRENO MINADO (ou que não se diga que os soldados americanos não têm sentido de humor)

A propósito das dez horas de audiência perante o Congresso norte-americano nas quais o general americano David Petraeus apresentou o seu relatório sobre a situação militar no Iraque, em citação do New York Times de hoje:

“I’d much rather be back in Iraq,” said Col. Steve Boylan, the spokesman for General Petraeus who had traveled from Baghdad, during one of the day’s few brief breaks. “It’s much safer.”

11 de setembro de 2007

POLAROID: CARREIRA 28

O eléctrico 28 vem da Sé em direcção à Estrela. Vem cheio, embora não a abarrotar, e numa das paragens da Baixa entra um casal muito bem vestido, ele de fato e gravata impecável, ela num saia-casaco cor-de-rosa com sapatos creme, pastas nas mãos, como quem vem de uma reunião de trabalho. Não é preciso estar muito atento para perceber que não são clientes habituais dos transportes públicos. E, de facto, até eu sair no Chiado, o senhor (mais velho que a senhora) desenrola uma série de queixas bem-dispostas, desde o preço do bilhete (€1.30, tarifa única, quando antes se pagavam sete tostões para ir do Calhariz ao Camões e dez para ir até à Estrela) ao pior serviço, sobretudo comparado ao táxi que apenas lhes custou €2.50 do Camões até ali e se calhar levava menos tempo que o eléctrico, ao que o condutor respondia que contra o trânsito da cidade ele não podia fazer nada. A senhora, essa, apenas disse que "tem tanta piada andar de eléctrico".