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12 de setembro de 2007

TERRENO MINADO (ou que não se diga que os soldados americanos não têm sentido de humor)

A propósito das dez horas de audiência perante o Congresso norte-americano nas quais o general americano David Petraeus apresentou o seu relatório sobre a situação militar no Iraque, em citação do New York Times de hoje:

“I’d much rather be back in Iraq,” said Col. Steve Boylan, the spokesman for General Petraeus who had traveled from Baghdad, during one of the day’s few brief breaks. “It’s much safer.”

11 de setembro de 2007

POLAROID: CARREIRA 28

O eléctrico 28 vem da Sé em direcção à Estrela. Vem cheio, embora não a abarrotar, e numa das paragens da Baixa entra um casal muito bem vestido, ele de fato e gravata impecável, ela num saia-casaco cor-de-rosa com sapatos creme, pastas nas mãos, como quem vem de uma reunião de trabalho. Não é preciso estar muito atento para perceber que não são clientes habituais dos transportes públicos. E, de facto, até eu sair no Chiado, o senhor (mais velho que a senhora) desenrola uma série de queixas bem-dispostas, desde o preço do bilhete (€1.30, tarifa única, quando antes se pagavam sete tostões para ir do Calhariz ao Camões e dez para ir até à Estrela) ao pior serviço, sobretudo comparado ao táxi que apenas lhes custou €2.50 do Camões até ali e se calhar levava menos tempo que o eléctrico, ao que o condutor respondia que contra o trânsito da cidade ele não podia fazer nada. A senhora, essa, apenas disse que "tem tanta piada andar de eléctrico".

10 de setembro de 2007

MUSICA NO GINASIO #30



The Randy Newman Songbook, vol. 1 (Nonesuch/Warner, 2003). Porque, como todos sabem (e se não sabem deviam saber), Randy Newman é um dos maiores songwriters vivos, e um dos raros a trabalhar na canção clássica americana à Cole Porter, Hoagy Carmichael ou Johnny Mercer. Mas com um veneno de fazer inveja a Elvis Costello.



"Sail Away" (ao vivo)



"Rednecks" (ao vivo)

OLHÁ BELA PEIXEIRADA

Nas renovadas urgências do hospital de São José, é o balcão de informações na sala de espera que parece dar autorização para os familiares poderem entrar para ver um ente querido sob observação no serviço de urgência. Digo parece porque a resposta - dada sempre de modo muito simpático pela assistente administrativa que toma conta das informações ao fim de semana - é que não podem deixar ninguém entrar, apesar de muito do restante pessoal do hospital poder ignorá-la a seu bel prazer.

Com a minha mãe internada de urgência ontem à tarde, estivemos cerca de três horas à espera de ser informados do estado de saúde dela ou sequer de alguém poder entrar para lhe dar uma palavrinha de conforto, e o meu pai e os meus irmãos foram sistematicamente perguntando informações que se resumiam ao mesmo: a minha mãe estava sob observação e para já não podiam deixar entrar e alguém nos viria dizer alguma coisa.

O facto é que ninguém nos veio dizer nada até ao momento em que a mesma senhora nos disse que afinal ela ia ficar internada durante a noite para observações e ninguém nos tinha vindo sequer entregar as roupas dela e que não lhe era possível deixar-nos entrar. A assistente administrativa a quem fomos solicitar as roupas foi infinitamente mais prestável que a senhora das informações e com duas chamadas telefónicas entrou na urgência com o meu pai para ele ir ver a minha mãe, com a anuência da enfermeira e do médico de serviço que autorizaram aquilo que a senhora das informações dizia eles não autorizarem.

Assim que a senhora das informações percebeu que tinha sido ultrapassada, foi fazer peixeirada com a assistente administrativa que tinha levado o meu pai lá dentro sem ser a obrigação dela. Os meus irmãos meteram-se na peixeirada para a meter no seu devido lugar.

Eu cá acho que devia fazer-se uma reclamação contra a senhora das informações, e acho tudo isto de uma profunda e inexplicável mesquinhez. O que interessa aqui não é quem manda; estamos a falar de um hospital. A ideia não é impedir as pessoas de saberem como está a saúde do familiar. E se tivéssemos confiado na senhora das informações, teríamos saído do hospital sem ver a minha mãe, sem saber como ela estava, sem as roupas.

(A minha mãe está melhor, muito obrigado. Não parece ser nada de grave.)

9 de setembro de 2007

POLAROID: JAYWALKING

Para a senhora idosa que atravessa a Álvares Cabral nesta tarde de domingo arrastando o carrinho de compras atrás de si, não existem passadeiras, semáforos ou automóveis: as quatro faixas de asfalto da avenida são apenas uma extensão do passeio, e a senhora atravessa a avenida onde muito bem entende, como muito bem entende, pelo meio do trânsito que apita e que ela ignora com um acenar de mãos, como quem diz volte-lá-para-a-sua-rua-e-não-me-mace.

MÚSICA NO GINÁSIO #29



Todos estes anos depois, The Lexicon of Love (Neutron/Mercury/Universal, 1982) explica que os ABC (ou antes: Martin Fry e Mark White mais os comparsas da altura) queriam fazer "blue-eyed soul" inspirada por Smokey Robinson, pelos tempos áureos da Motown, pelo hedonismo dos Chic e pela simplicidade pop da melhor música negra. Só que revista e corrigida pelos olhos de adolescentes ingleses escapistas em plena era Thatcher, criados com a tradição da pantomima e do "glam-rock", e burilada pela produção tecnológica do ex-Buggles Trevor Horn, então a sonhar ser o Phil Spector de Londres. 25 anos depois, não devia continuar a fazer sentido. Mas faz, e muito.



"The Look of Love"



"Poison Arrow"

6 de setembro de 2007

POLAROID: PEQUENO-ALMOÇO

Longe de mim pôr em causa o sacrossanto livre-arbítrio de cada um escolher o que se põe na mesa do pequeno-almoço. Mas não é muito normal ver cinco imperiais à frente de uma pessoa às nove da manhã numa pastelaria.

4 de setembro de 2007

FAMEL ZUNDAPP

Uma coisa é um mocinho motard dar boleia à garina numa dessas Yamahas ou Suzukis ou Hondas todas artilhadas como as super-sport dos corredores dos grandes prémios, e ultrapassarem-nos pela esquerda como quem está a guiar um Maserati enquanto o nosso reles Renault 5 vai ficando para trás à distância.

Outra coisa é um mocinho aspirante a motard querer impressionar a garina que vai de boleia com uma Famel Zundapp artilhada a fingir que é Yamaha ou Suzuki ou Honda super-sport, com decoração à Valentino Rossi e tudo, mas que faz uma barulheira de 125 azul que nunca mais acaba e parece um caracol com ambição de lesma a subir a Joaquim Bonifácio a prender o trânsito e a obrigar não sei quantos carros a seguir atrás como na velha estrada para o Algarve em que os camiões a transbordar de palha criavam filas intermináveis que o traço contínuo impedia de ultrapassar.

3 de setembro de 2007

GATO É AMOR

A quantidade de cadáveres de mosca que tenho encontrado espalhados pela casa dá a entender que o Diogo está a transformar-se num temível predador. Mais do que um gato, um verdadeiro tigre.

MÚSICA NO GINÁSIO #28



The River in Reverse (Verve Forecast/Universal, 2006), de Elvis Costello e Allen Toussaint — ou como o Bardo Cínico da New Wave se confirma como um estudioso do songwriting clássico e deixa ao veterano do R&B americano à la Nova Orleães todo o espaço para brilhar. Até neste video para "Who's Gonna Help Brother Get Further" que os chatos da Universal me obrigam a linkar porque não deixam pô-lo aqui no blog. É, além do mais, um grande álbum político, misto de celebração e requiem pela alma de uma cidade submersa.

O respeitinho pelos clássicos é muito bonito.

2 de setembro de 2007

PAGINA 3

Vem na capa de um dos tablóides ingleses a propósito da pretensa orgia de Cristiano Ronaldo: "I turned Ronaldo on with my Tesco knickers". Palavras para quê?

MÚSICA NO GINÁSIO #27



Toda a gente fala do primeiro álbum dos Stooges, The Stooges (Elektra/Warner, 1969), como um dos pontos zero do punk. Mas porque é que tão pouca gente fala dele como o ponto zero do "stoner rock" ou como um dos álbuns mais psicadélicos dos anos 60 sem ter um grama de psicadelismo?



"No Fun" (ao vivo em Detroit na recente reformação, já que não se encontraram imagens da época))

1 de setembro de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #44

Ser acordado às oito da manhã de sábado pelo ruído de um berbequim industrial ou de outra coisa igualmente barulhenta que parece ser conduzida pelas paredes do prédio. As obras nas traseiras já podiam ter acabado — ou pelo menos quem as está a fazer podia ter o bom senso de tentar não obrigar as pessoas a madrugar de fim-de-semana.

31 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #26




Face a The Temple Bell (Bor Land, 2007), terceiro disco mágico de Old Jerusalem, quem é quer realmente perder tempo com Bill Callahan, David Berman, Will Oldham e outros Dave Pajo quando temos um Francisco Silva nosso tão bom ou melhor que os "originais"?



"Her Scarf"

A HISTÓRIA SECRETA DOS CORREDORES MISTERIOSOS

No túnel do metro, logo a seguir à saída da estação do Jardim Zoológico, em direcção à estação das Laranjeiras, quem estiver a olhar para o interior do túnel verá, iluminado por uma das lâmpadas fluorescentes do tecto, antigos cartazes eleitorais da APU. Afinal, cada centímetro conta, não é?

30 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #25



The Times They Are A-Changin' (Columbia/Sony BMG, 1964), de Bob Dylan. Porque quando se escreve poesia como Dylan já então escrevia (mesmo que poesia de intervenção) a afinação passa a ser um conceito pequeno-burguês.



"The Times They Are A-Changin'" (ao vivo em 1965)

29 de agosto de 2007

OS HABITANTES DO METRO

São aquelas pessoas que nunca vemos fora dos corredores das estações ou dos comboios em movimento. Os pedintes que se sucedem ou que reconhecemos se fizermos o mesmo percurso diariamente, da senhora idosa que percorre as carruagens com uma muleta enquanto pede esmola com uma voz chorosa aos seguranças vestidos de preto com o logotipo da empresa a vermelho. Mas nunca vi nenhum como os dois com que me cruzei na linha azul a uma semana de intervalo.

Uma senhora negra, razoavelmente bem vestida e carregando sacos de plástico do supermercado, entra na carruagem a falar sozinha em voz alta, mas percebo depois que não está a falar sozinha: está a anunciar a quem a quiser ouvir do apocalipse que se aproxima, embora ela própria diga que não sabe quando vai ser nem como vai ser, se será água, fogo ou outra coisa qualquer. Algumas pessoas fingem não ouvir, outras sorriem. A senhora continua a pregar, perfeitamente alheia às reacções dos outros passageiros.

Hoje, um senhor dos seus 60 anos percorre a estação agitando uma velha flâmula do Benfica, dizendo entre sorrisos meio tolos a quem o quiser ouvir que "hoje eu sou do Benfica".

28 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #24



The Whole Story (EMI, 1986), "resumo" dos primeiros quase-dez anos de carreira de Kate Bush que explicam duas coisas. Primeira: como "Wuthering Heights" foi o sucesso que foi em plena explosão do punk e da new-wave nunca será inteiramente compreendido. Segunda: neste período, Bush conseguiu convencer as massas a comprar alguma da música pop mais ousada e experimental da época como se fosse pop orelhuda (que, em alguns casos, também era). Alguns arranjos (sobretudo nos dois primeiros álbuns, The Kick Inside e Lionheart, ambos de 1978) dataram, mas as canções nem por isso; e tudo o que ela fez de 1980 para a frente é uma das mais espantosas singularidades da pop inglesa de qualquer época.



"Wuthering Heights"



"Babooshka"



"Army Dreamers"



"Hounds of Love"

26 de agosto de 2007

POLAROID: CAFE

A família de quatro entra no café pouco depois da hora de almoço: pai (T-shirt escura de "Porto Galinhas, Pernambuco"), calções, carteira, chaves de casa e telemóvel na mão), mãe, dois miúdos hiperactivos para quem tudo parece ser novidade mesmo quando não é. O pai pede um gelado, três tostas mistas, três copos de leite morno; a empregada esquece-se de contabilizar o gelado na conta, e o pai abre a carteira para tirar o dinheiro, mas acaba por se virar para a esposa. "Oh Cristina, não tens aí moedas?"