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9 de setembro de 2007

POLAROID: JAYWALKING

Para a senhora idosa que atravessa a Álvares Cabral nesta tarde de domingo arrastando o carrinho de compras atrás de si, não existem passadeiras, semáforos ou automóveis: as quatro faixas de asfalto da avenida são apenas uma extensão do passeio, e a senhora atravessa a avenida onde muito bem entende, como muito bem entende, pelo meio do trânsito que apita e que ela ignora com um acenar de mãos, como quem diz volte-lá-para-a-sua-rua-e-não-me-mace.

MÚSICA NO GINÁSIO #29



Todos estes anos depois, The Lexicon of Love (Neutron/Mercury/Universal, 1982) explica que os ABC (ou antes: Martin Fry e Mark White mais os comparsas da altura) queriam fazer "blue-eyed soul" inspirada por Smokey Robinson, pelos tempos áureos da Motown, pelo hedonismo dos Chic e pela simplicidade pop da melhor música negra. Só que revista e corrigida pelos olhos de adolescentes ingleses escapistas em plena era Thatcher, criados com a tradição da pantomima e do "glam-rock", e burilada pela produção tecnológica do ex-Buggles Trevor Horn, então a sonhar ser o Phil Spector de Londres. 25 anos depois, não devia continuar a fazer sentido. Mas faz, e muito.



"The Look of Love"



"Poison Arrow"

6 de setembro de 2007

POLAROID: PEQUENO-ALMOÇO

Longe de mim pôr em causa o sacrossanto livre-arbítrio de cada um escolher o que se põe na mesa do pequeno-almoço. Mas não é muito normal ver cinco imperiais à frente de uma pessoa às nove da manhã numa pastelaria.

4 de setembro de 2007

FAMEL ZUNDAPP

Uma coisa é um mocinho motard dar boleia à garina numa dessas Yamahas ou Suzukis ou Hondas todas artilhadas como as super-sport dos corredores dos grandes prémios, e ultrapassarem-nos pela esquerda como quem está a guiar um Maserati enquanto o nosso reles Renault 5 vai ficando para trás à distância.

Outra coisa é um mocinho aspirante a motard querer impressionar a garina que vai de boleia com uma Famel Zundapp artilhada a fingir que é Yamaha ou Suzuki ou Honda super-sport, com decoração à Valentino Rossi e tudo, mas que faz uma barulheira de 125 azul que nunca mais acaba e parece um caracol com ambição de lesma a subir a Joaquim Bonifácio a prender o trânsito e a obrigar não sei quantos carros a seguir atrás como na velha estrada para o Algarve em que os camiões a transbordar de palha criavam filas intermináveis que o traço contínuo impedia de ultrapassar.

3 de setembro de 2007

GATO É AMOR

A quantidade de cadáveres de mosca que tenho encontrado espalhados pela casa dá a entender que o Diogo está a transformar-se num temível predador. Mais do que um gato, um verdadeiro tigre.

MÚSICA NO GINÁSIO #28



The River in Reverse (Verve Forecast/Universal, 2006), de Elvis Costello e Allen Toussaint — ou como o Bardo Cínico da New Wave se confirma como um estudioso do songwriting clássico e deixa ao veterano do R&B americano à la Nova Orleães todo o espaço para brilhar. Até neste video para "Who's Gonna Help Brother Get Further" que os chatos da Universal me obrigam a linkar porque não deixam pô-lo aqui no blog. É, além do mais, um grande álbum político, misto de celebração e requiem pela alma de uma cidade submersa.

O respeitinho pelos clássicos é muito bonito.

2 de setembro de 2007

PAGINA 3

Vem na capa de um dos tablóides ingleses a propósito da pretensa orgia de Cristiano Ronaldo: "I turned Ronaldo on with my Tesco knickers". Palavras para quê?

MÚSICA NO GINÁSIO #27



Toda a gente fala do primeiro álbum dos Stooges, The Stooges (Elektra/Warner, 1969), como um dos pontos zero do punk. Mas porque é que tão pouca gente fala dele como o ponto zero do "stoner rock" ou como um dos álbuns mais psicadélicos dos anos 60 sem ter um grama de psicadelismo?



"No Fun" (ao vivo em Detroit na recente reformação, já que não se encontraram imagens da época))

1 de setembro de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #44

Ser acordado às oito da manhã de sábado pelo ruído de um berbequim industrial ou de outra coisa igualmente barulhenta que parece ser conduzida pelas paredes do prédio. As obras nas traseiras já podiam ter acabado — ou pelo menos quem as está a fazer podia ter o bom senso de tentar não obrigar as pessoas a madrugar de fim-de-semana.

31 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #26




Face a The Temple Bell (Bor Land, 2007), terceiro disco mágico de Old Jerusalem, quem é quer realmente perder tempo com Bill Callahan, David Berman, Will Oldham e outros Dave Pajo quando temos um Francisco Silva nosso tão bom ou melhor que os "originais"?



"Her Scarf"

A HISTÓRIA SECRETA DOS CORREDORES MISTERIOSOS

No túnel do metro, logo a seguir à saída da estação do Jardim Zoológico, em direcção à estação das Laranjeiras, quem estiver a olhar para o interior do túnel verá, iluminado por uma das lâmpadas fluorescentes do tecto, antigos cartazes eleitorais da APU. Afinal, cada centímetro conta, não é?

30 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #25



The Times They Are A-Changin' (Columbia/Sony BMG, 1964), de Bob Dylan. Porque quando se escreve poesia como Dylan já então escrevia (mesmo que poesia de intervenção) a afinação passa a ser um conceito pequeno-burguês.



"The Times They Are A-Changin'" (ao vivo em 1965)

29 de agosto de 2007

OS HABITANTES DO METRO

São aquelas pessoas que nunca vemos fora dos corredores das estações ou dos comboios em movimento. Os pedintes que se sucedem ou que reconhecemos se fizermos o mesmo percurso diariamente, da senhora idosa que percorre as carruagens com uma muleta enquanto pede esmola com uma voz chorosa aos seguranças vestidos de preto com o logotipo da empresa a vermelho. Mas nunca vi nenhum como os dois com que me cruzei na linha azul a uma semana de intervalo.

Uma senhora negra, razoavelmente bem vestida e carregando sacos de plástico do supermercado, entra na carruagem a falar sozinha em voz alta, mas percebo depois que não está a falar sozinha: está a anunciar a quem a quiser ouvir do apocalipse que se aproxima, embora ela própria diga que não sabe quando vai ser nem como vai ser, se será água, fogo ou outra coisa qualquer. Algumas pessoas fingem não ouvir, outras sorriem. A senhora continua a pregar, perfeitamente alheia às reacções dos outros passageiros.

Hoje, um senhor dos seus 60 anos percorre a estação agitando uma velha flâmula do Benfica, dizendo entre sorrisos meio tolos a quem o quiser ouvir que "hoje eu sou do Benfica".

28 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #24



The Whole Story (EMI, 1986), "resumo" dos primeiros quase-dez anos de carreira de Kate Bush que explicam duas coisas. Primeira: como "Wuthering Heights" foi o sucesso que foi em plena explosão do punk e da new-wave nunca será inteiramente compreendido. Segunda: neste período, Bush conseguiu convencer as massas a comprar alguma da música pop mais ousada e experimental da época como se fosse pop orelhuda (que, em alguns casos, também era). Alguns arranjos (sobretudo nos dois primeiros álbuns, The Kick Inside e Lionheart, ambos de 1978) dataram, mas as canções nem por isso; e tudo o que ela fez de 1980 para a frente é uma das mais espantosas singularidades da pop inglesa de qualquer época.



"Wuthering Heights"



"Babooshka"



"Army Dreamers"



"Hounds of Love"

26 de agosto de 2007

POLAROID: CAFE

A família de quatro entra no café pouco depois da hora de almoço: pai (T-shirt escura de "Porto Galinhas, Pernambuco"), calções, carteira, chaves de casa e telemóvel na mão), mãe, dois miúdos hiperactivos para quem tudo parece ser novidade mesmo quando não é. O pai pede um gelado, três tostas mistas, três copos de leite morno; a empregada esquece-se de contabilizar o gelado na conta, e o pai abre a carteira para tirar o dinheiro, mas acaba por se virar para a esposa. "Oh Cristina, não tens aí moedas?"

25 de agosto de 2007

PROXIMA ESTAÇAO: BAIXA-CHIADO

Muitas vezes dou por mim no metro, distraidamente, a fazer playback da senhora que dá voz às informações que se ouvem no interior das carruagens. "Próxima estação: Marquês de Pombal. Há correspondência com a linha azul". E não falho. Até a mim próprio me irrito.

23 de agosto de 2007

CONTINUA A IMPOR-SE A PARABENIZAÇAO...

...desta vez à Veronica e ao Tiago, pela Maria.

(Escolheram todos a mesma altura...)

22 de agosto de 2007

NA VIDA REAL

"...Like one of those heartbreaking Raymond Carver stories in which a luckless character catches a glimpse of something better, a small moment of rightness about the world, and, instead of cheering us, this glimmer of hope makes us even more anxious — because we know it can’t possibly last."

— Tom Barbash, na sua crítica ao romance de Ron Carlson "Five Skies" publicada no New York Times Sunday Book Review de domingo, 19 de Agosto

21 de agosto de 2007

POLAROID: MÃES E FILHOS

As mães e outros parentes que viajam nos transportes públicos com as suas criancinhas têm essencialmente duas opções de comportamento quando confrontadas com a hiperactividade pública das criancinhas. Uma: ignoram-nas com um ar ausente, como quem diz, "são miúdos, isto já passa". Outra: fazerem má cara e olharem para elas com o ar "não perdes pela demora". Seria interessante ver também porque é que as criancinhas ficam tão hiperactivas nos transportes públicos, mas isso são outras histórias.