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2 de setembro de 2007

PAGINA 3

Vem na capa de um dos tablóides ingleses a propósito da pretensa orgia de Cristiano Ronaldo: "I turned Ronaldo on with my Tesco knickers". Palavras para quê?

MÚSICA NO GINÁSIO #27



Toda a gente fala do primeiro álbum dos Stooges, The Stooges (Elektra/Warner, 1969), como um dos pontos zero do punk. Mas porque é que tão pouca gente fala dele como o ponto zero do "stoner rock" ou como um dos álbuns mais psicadélicos dos anos 60 sem ter um grama de psicadelismo?



"No Fun" (ao vivo em Detroit na recente reformação, já que não se encontraram imagens da época))

1 de setembro de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #44

Ser acordado às oito da manhã de sábado pelo ruído de um berbequim industrial ou de outra coisa igualmente barulhenta que parece ser conduzida pelas paredes do prédio. As obras nas traseiras já podiam ter acabado — ou pelo menos quem as está a fazer podia ter o bom senso de tentar não obrigar as pessoas a madrugar de fim-de-semana.

31 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #26




Face a The Temple Bell (Bor Land, 2007), terceiro disco mágico de Old Jerusalem, quem é quer realmente perder tempo com Bill Callahan, David Berman, Will Oldham e outros Dave Pajo quando temos um Francisco Silva nosso tão bom ou melhor que os "originais"?



"Her Scarf"

A HISTÓRIA SECRETA DOS CORREDORES MISTERIOSOS

No túnel do metro, logo a seguir à saída da estação do Jardim Zoológico, em direcção à estação das Laranjeiras, quem estiver a olhar para o interior do túnel verá, iluminado por uma das lâmpadas fluorescentes do tecto, antigos cartazes eleitorais da APU. Afinal, cada centímetro conta, não é?

30 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #25



The Times They Are A-Changin' (Columbia/Sony BMG, 1964), de Bob Dylan. Porque quando se escreve poesia como Dylan já então escrevia (mesmo que poesia de intervenção) a afinação passa a ser um conceito pequeno-burguês.



"The Times They Are A-Changin'" (ao vivo em 1965)

29 de agosto de 2007

OS HABITANTES DO METRO

São aquelas pessoas que nunca vemos fora dos corredores das estações ou dos comboios em movimento. Os pedintes que se sucedem ou que reconhecemos se fizermos o mesmo percurso diariamente, da senhora idosa que percorre as carruagens com uma muleta enquanto pede esmola com uma voz chorosa aos seguranças vestidos de preto com o logotipo da empresa a vermelho. Mas nunca vi nenhum como os dois com que me cruzei na linha azul a uma semana de intervalo.

Uma senhora negra, razoavelmente bem vestida e carregando sacos de plástico do supermercado, entra na carruagem a falar sozinha em voz alta, mas percebo depois que não está a falar sozinha: está a anunciar a quem a quiser ouvir do apocalipse que se aproxima, embora ela própria diga que não sabe quando vai ser nem como vai ser, se será água, fogo ou outra coisa qualquer. Algumas pessoas fingem não ouvir, outras sorriem. A senhora continua a pregar, perfeitamente alheia às reacções dos outros passageiros.

Hoje, um senhor dos seus 60 anos percorre a estação agitando uma velha flâmula do Benfica, dizendo entre sorrisos meio tolos a quem o quiser ouvir que "hoje eu sou do Benfica".

28 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #24



The Whole Story (EMI, 1986), "resumo" dos primeiros quase-dez anos de carreira de Kate Bush que explicam duas coisas. Primeira: como "Wuthering Heights" foi o sucesso que foi em plena explosão do punk e da new-wave nunca será inteiramente compreendido. Segunda: neste período, Bush conseguiu convencer as massas a comprar alguma da música pop mais ousada e experimental da época como se fosse pop orelhuda (que, em alguns casos, também era). Alguns arranjos (sobretudo nos dois primeiros álbuns, The Kick Inside e Lionheart, ambos de 1978) dataram, mas as canções nem por isso; e tudo o que ela fez de 1980 para a frente é uma das mais espantosas singularidades da pop inglesa de qualquer época.



"Wuthering Heights"



"Babooshka"



"Army Dreamers"



"Hounds of Love"

26 de agosto de 2007

POLAROID: CAFE

A família de quatro entra no café pouco depois da hora de almoço: pai (T-shirt escura de "Porto Galinhas, Pernambuco"), calções, carteira, chaves de casa e telemóvel na mão), mãe, dois miúdos hiperactivos para quem tudo parece ser novidade mesmo quando não é. O pai pede um gelado, três tostas mistas, três copos de leite morno; a empregada esquece-se de contabilizar o gelado na conta, e o pai abre a carteira para tirar o dinheiro, mas acaba por se virar para a esposa. "Oh Cristina, não tens aí moedas?"

25 de agosto de 2007

PROXIMA ESTAÇAO: BAIXA-CHIADO

Muitas vezes dou por mim no metro, distraidamente, a fazer playback da senhora que dá voz às informações que se ouvem no interior das carruagens. "Próxima estação: Marquês de Pombal. Há correspondência com a linha azul". E não falho. Até a mim próprio me irrito.

23 de agosto de 2007

CONTINUA A IMPOR-SE A PARABENIZAÇAO...

...desta vez à Veronica e ao Tiago, pela Maria.

(Escolheram todos a mesma altura...)

22 de agosto de 2007

NA VIDA REAL

"...Like one of those heartbreaking Raymond Carver stories in which a luckless character catches a glimpse of something better, a small moment of rightness about the world, and, instead of cheering us, this glimmer of hope makes us even more anxious — because we know it can’t possibly last."

— Tom Barbash, na sua crítica ao romance de Ron Carlson "Five Skies" publicada no New York Times Sunday Book Review de domingo, 19 de Agosto

21 de agosto de 2007

POLAROID: MÃES E FILHOS

As mães e outros parentes que viajam nos transportes públicos com as suas criancinhas têm essencialmente duas opções de comportamento quando confrontadas com a hiperactividade pública das criancinhas. Uma: ignoram-nas com um ar ausente, como quem diz, "são miúdos, isto já passa". Outra: fazerem má cara e olharem para elas com o ar "não perdes pela demora". Seria interessante ver também porque é que as criancinhas ficam tão hiperactivas nos transportes públicos, mas isso são outras histórias.

20 de agosto de 2007

COMO DETECTAR UM TURISTA ESPANHOL NO METRO DE LISBOA

Não é nada difícil. Estão quase sempre em grupos (mínimo de quatro) a falar entre si em espanhol, e muito alto.

19 de agosto de 2007

POLAROID: Ó DA GUARDA

Sexta-feira de manhã, perto da embaixada inglesa, uma senhora grita em altos berros, de pé junto à porta do condutor aberta de um jipe; enquanto atendo uma chamada telefónica, os gritos aceleram, o carro tenta arrancar ainda com a senhora de pé e a porta aberta, com uma criança aos berros no banco de trás, até que um dos transeuntes que tem estado a observar a cena chama a polícia que costuma estar a montar guarda à Embaixada. Entre a chamada telefónica e a chegada da polícia, não percebo nada do que se passa mas pergunto-me se o que se passa ali é uma discussão conjugal, um prelúdio de divórcio ou um problema de custódia. Em qualquer dos casos, é estranho ver gente a mostrar os seus problemas pessoais no meio da rua.

18 de agosto de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #43

Não sei de quem foi a brilhante ideia de encerrar a loja de conveniência da avenida Álvares Cabral (por acaso até sei: foi dos proprietários da rede Sprint, que chegaram à conclusão que a rede não dava lucro e fecharam as lojas todas, incluindo as únicas duas que davam lucro, uma das quais a da Álvares Cabral), mas apetece-me espancá-lo com a moca dos pregos. Porque o resultado prático é que agora não se conseguem comprar jornais nesta zona: depois do fecho da tabacaria do salão Monumental ao pé do antigo Jardim Cinema (com o salão de jogos transformado em pseudo-Zara de terceira categoria), e com os quiosques do largo do Rato fechados para férias, sobra só o quiosque da Basílica da Estrela — e mesmo esse não sei se está aberto. Agosto em Lisboa tem as suas vantagens, mas esta não parece ser uma delas.

17 de agosto de 2007

A MINHA FAMÍLIA DAVA UMA SITCOM: D. LIVIA SOPRANO

"Ai, o teu pai faz-me tanta falta."
"Pobrezinho de quem precisa."
"Ninguém vos chamou cá, vão-se embora! Vão lá para as vossas mulas! Venham quando eu vos chamar!"
"Sim, eu sei que sou muito má. Só tenho é defeitos. O vosso pai é que é um santo. É, é."
"Para mim estão sempre com sete pedras na mão, mas depois vão para casa e têm medo delas. Elas comem-vos as papas na cabeça. São umas espertalhonas. Chama-lhes parvas."
"O teu irmão ontem torrou-me uma carcaça. Porque é que tu não me torras uma carcaça?"
"Puseste açúcar? Este chá está amargoso."

16 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #23



Waking Up the Neighbours (A&M/Universal, 1991), de Bryan Adams: é isto que o rock'n'roll devia ser. E poucos discos terão chegado tão perto da imagem icónica do rock'n'roll: cinco amigos a curtirem que nem loucos em cima de um palco e a festa a passar à audiência. E foi preciso um canadiano para o fazer. Waking Up the Neighbours é um disco de festa — que faz a festa e lança os foguetes e desafia toda a gente a ir atrás - "gotta be guilty having too much fun". Quem não for não sabe o que perde.


"Can't Stop This Thing We Started"


"Thought I'd Died and Gone to Heaven"

AS PALAVRAS DO MESTRE #4

Algumas frases de infinita sabedoria do mestre Claude Chabrol na excelente entrevista a Sophie Grassin publicada na edição de Agosto da Première francesa:

"Para um homem de constituição normal, as mulheres são ao mesmo tempo um fascínio e um mistério. Colaborar com elas evita-me assim escrever parvoíces sobre as minhas protagonistas femininas"

"Prefiro definitivamente as mulheres aos homens. Se lermos bem a Bíblia, aliás, Deus parece partilhar a minha opinião"

"Evito escolher actores aos quais convém relembrar que o avô era carpinteiro para que eles possam abrir uma porta. Há actores assim. «Qual é a minha motivação?» O teu cheque!"

"O pai da minha primeira mulher dirigia o banco Rothschild. Em seguida casei com uma actriz, depois com uma anotadora... Podemos assim falar de um declínio total"

15 de agosto de 2007

POLAROID

O Polo escuro está parado à minha frente num dos sinais que atravessa a Avenida da Liberdade, mas não avança quando o sinal abre. Eventualmente, lá avança mas a velocidade muito moderada em direcção à rua das Pretas/do Telhal; contra a luz dos candeeiros, o condutor, com um boné de basebol na cabeça, gesticula para o passageiro enquanto mexe no tablier, com ar de quem está a concentrar-se em tudo menos na condução, mas regressa à "normalidade" assim que entra na íngreme Calçada do Moinho de Vento.

14 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #22



With Teeth (Nothing/Interscope/Universal, 2005), dos Nine Inch Nails: ou como o "rock industrial" se cruza com a influência do tecno-pop pioneiro dos primórdios dos anos 80 e Trent Reznor vira rock de estádio de bom recorte. E porque há dias em que só a paranóia enérgica de arestas limadas serve de banda-sonora.



"The Hand That Feeds"

13 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #21



Hoje precisei de alguma coisa que me animasse e a passear pelas playlists achei que The Singles Collection 1984-1990 (London/Warner Music, 1990) podia ser o disco certo. Já não ouvia há muito tempo esta resenha dos singles tecno-pop/eurodisco de Jimmy Somerville, o careca escocês do falsete soul que, nos idos de 1986/1987, dominava as tabelas de venda com os Communards, depois de o ter feito com os Bronski Beat. O que acho que passou ao lado de muitos dos que consumiam esta pop electrónica paredes-meias com o disco-xunga hedonista era o fortíssimo activismo pro-gay dos projectos de Somerville: esta era pop política que queria mudar o mundo dançando, e provavelmente ninguém fora de Inglaterra (ou muito pouca gente) terá percebido que "There's More to Love Than Boy Meets Girl" era uma ode pansexual, que "Smalltown Boy" celebrava a fuga da tacanhez provinciana, que "For a Friend" era uma elegia por um amigo morto, que "Read My Lips" era um hino contra a SIDA. Hoje, ouvir estes singles todos é uma espécie de cápsula do tempo que mantém intacto o activismo e a pontaria pop de Somerville. Mesmo que, sim, o falsete irrite aqui e ali.

E, sim, animou-me.


"There's More to Love Than Boy Meets Girl"


"Don't Leave Me This Way"


"Never Can Say Goodbye"

9 de agosto de 2007

EXCLUSIVO TVI

A comissária da PSP que estava a falar para a câmara ia sendo atropelada em directo pelo autocarro que passava pela rua.

7 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #20



Aimee Mann Op. 4: Lost in Space (Superego/V2, 2002), o momento em que um manto escuro classicista e as aspirações da grande pop seventies começaram a cobrir a falsa alegria dos discos anteriores. "Pavlov's Bell" explica.

6 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #19



Aimee Mann Op. 3 (vá lá: 3.5 se quisermos contar com as canções do filme Magnolia): Bachelor no. 2, or the Last Remains of the Dodo (Superego/V2, 2000). São umas atrás das outras, canções, bem entendido, clássicas, com uma identidade própria que não enjeita as influências dos Beatles, de Bacharach, de Costello e do songwriting clássico americano: "How Am I Different?", "Driving Sideways", "Red Vines", "Nothing Is Good Enough", "You Do", "Ghost World" (video em baixo), "Satellite", "It Takes All Kinds"... E se este disco fosse uma espécie de "greatest hits" que ainda não o tinham sido?

POLAROID: EMEL

Um rapaz está sentado em cima de uma mota à porta de um edifício; muito provavelmente, é um estafeta à espera de um serviço. De repente, um outro rapaz sai do edifício com ar apressado, olha rapidamente à sua volta e, dirigindo-se ao rapaz em cima da mota, pergunta-lhe: "Desculpe, não viu por aí ninguém da EMEL, pois não?..."

5 de agosto de 2007

AS PALAVRAS DO MESTRE #3

"É óbvio que a arte não pode ensinar nada a ninguém, uma vez que, em quatro mil anos, a humanidade não aprendeu absolutamente nada."

— Andrei Tarkovski, in Esculpir o Tempo (na tradução brasileira a partir da versão inglesa [!] de Jefferson Luiz Camargo, São Paulo: Martins Fontes, 1998)

4 de agosto de 2007

O SENHOR GUARDA NÃO TEM CULPA

...de se chamar Edu Barato.

MÚSICA NO GINÁSIO #18



Segundo episódio das obras completas de Aimee Mann, I'm with Stupid (DGC/Geffen/Universal, 1995) foi durante muito tempo o disco dela de que eu menos gostava, em parte devido à produção rococó de Jon Brion, que na altura me parecia um bocadinho preciosa demais para a simplicidade das canções. Estava, claro, enganado — as pérolas que se escondem neste álbum nunca mais acabam ("Choice in the Matter", "That's Just Who You Are", "You Could Make a Killing", "Sugarcoated", "Long Shot", o espantoso "Amateur" cujo teledisco está aqui em baixo...) e a injustiça deve ser reparada.

3 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #17



Whatever (Imago/Geffen/Universal, 1993), o primeiro trabalho a solo de Aimee Mann, numa altura muito pré-Magnolia em que se estava tudo a borrifar para a senhora — e faziam mal, porque tudo aquilo que hoje todos gostam nela já estava intacto aqui. E porque, depois do belíssimo concerto do Coliseu, me apeteceu voltar a ouvi-lo. E aos outros todos.

(Em baixo, o video do maravilhoso "Stupid Thing".)

2 de agosto de 2007

A LÍNGUA ESPANHOLA É MUITO TRAIÇOEIRA

Vejo na rua cartazes para campanha de preservativos que anunciam "o estímulo afrodisíaco do pêssego". Eu não acho o pêssego nada afrodisíaco, mas aceito que haja quem ache. Mas mesmo esses devem ter alguns problemas quando, como eu, lêem na embalagem dos preservativos em questão "el estimulo afrodisiaco del melocotón". É que não há afrodisíaco que resista.

1 de agosto de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #11-16



Seguir There Is a Season (Columbia Legacy/Sony BMG, 2006), a mais recente caixa retrospectiva dos Byrds, é entrar numa montanha russa esquizofrénica que começa com o grupo como uma espécie de Beatles de terceira em versão xoninhas, termina com os moços a aproximarem-se perigosamente do rock FM californiano da década de 70. Mas, pelo meio, há uma invenção melódica e guitarrística absolutamente notável, há aqueles carrocéis de Rickenbackers cintilantes e a impecável prestação vocal e instrumental dos rapazes, há a amplitude térmica que ia dos Dylanismos traduzidos para as massas à invenção do country-rock com um respeito insuspeito pela tradição (muitos anos antes dos manos Coen devolverem a "mountain music" às parangonas com a banda-sonora de Irmão, Onde Estás?, já Roger McGuinn & cª, com a ajuda preciosa de Gram Parsons, tinham percebido o que de bom ali se podia recuperar). O título é enganador: não há uma única estação em There Is a Season, há uma viagem pelo ciclo do tempo com todas as voltas que isso implica.



"Mr. Tambourine Man"



"I'll Feel a Whole Lot Better"

31 de julho de 2007

NEM O CARRINHO DE GOLFE ESCAPA

Uma deliciosa foto publicada no New York Times no fim-de-semana mostra o presidente americano, George W. Bush, conduzindo o primeiro-ministro inglês, Gordon Brown, num carrinho de golfe que tem um autocolante na frente com o selo presidencial americano e a frase "Golf Cart One".

30 de julho de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #42

O casal trintão com ar de funcionário público suburbano, ele de pochette sobre T-shirt à moda e óculos grossos, ela com umas calças de cor garrida justas que só realçavam a celulite dos glúteos, que empatou a fila da loja de sanduíches por não saber o que queria comer e fazer perguntas e mais perguntas sobre tudo e mais alguma coisa e mudar o pedido a meio, obrigando dois dos três empregados a dedicarem-se-lhes exclusivamente sem sequer se preocuparem se estavam ou não a empatar as pessoas.

Em todos os self-services devia haver uma fila separada com a indicação "FILA LENTA — SÓ PARA EMPATAS".

POLAROID

Ouço música reggae em altos berros a vir de um automóvel estacionado. Será uma carrinha de surfista? Um freakomóvel? Não: vem de uma berlina Audi como nova, onde um rapaz musculoso e careca de camisola sem mangas lê um jornal desportivo.

29 de julho de 2007

A PROPÓSITO DAS PEQUENAS CONTRADIÇÕES

Lembram-se do BMW Z3 estacionado à minha porta com o plástico do capot rasgado?

Agora tem, a tapar a matrícula da frente, uma folha de papel onde se pode ler, escrito a esferográfica: "ALUGA-SE".

28 de julho de 2007

A ELOQUÊNCIA LACÓNICA DOS GRAFFITIS DE BENFICA (post com palavras eventualmente chocantes)

Na Conde de Almoster, em frente ao stand da Smart: "António, amo-te. O eu"

Algures na Estrada de Benfica: "Merda caralho"

26 de julho de 2007

COMO NOS ANOS 70, SÓ QUE COM TELEMÓVEIS

Que Aimee Mann é grande, já todos sabíamos (embora não desconfiássemos que ela fosse tão alta). Só faltava descobrir que, ao vivo, ainda é melhor e assinou um concertão daqueles que não se esquece tão cedo (nem nós nem, pelos vistos, ela). Tomem nota: Coliseu de Lisboa, 25 de Julho de 2007, 22h05.

Little Bombs
You Could Make a Killing
One
Video
You Got a Lot of Money
(inédita)
Going Through the Motions
Save Me
Amateur
Driving Sideways
You Do
Momentum
31 Today
(inédita)
How Am I Different?
She Really Wants You
Way Back When
--
Red Vines
Humpty Dumpty
--
Wise Up
Deathly

25 de julho de 2007

A LÓGICA DAS MULTIDÕES

Visto ontem nos noticiários da noite: El Solitario, o assaltante espanhol capturado na Figueira da Foz, alvo dos insultos e do ódio dos mirones reunidos que lhe chamavam "assassino", "ladrão", e outros mimos. Apesar do homem nunca ter chegado a cometer nenhum assalto em Portugal e de nenhum deles saber sequer quem era El Solitario antes da televisão ter feito na véspera grandes parangonas com a sua captura.

24 de julho de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #41

Pessoal que me liga para o telemóvel repetidamente de "números privados" mas não deixam recado nem mandam SMS. (Só hoje foram três vezes no espaço de uma hora.)

POLAROID: TATUAGEM

Um trintão de férias e ar eventualmente estrangeiro: boné, calções, T-shirt debaixo de camisa aberta, mochila, ténis e meias de desporto, dois filhos miúdos e duas senhoras atrás (possivelmente esposa/companheira/namorada e amiga/irmã/cunhada?). E duas tatuagens nos tornozelos, a aparecerem por cima das meias: do lado esquerdo Astérix, do lado direito Obélix.

22 de julho de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #5-10



Thirty Years of Maximum R&B (Polydor/Universal, 1994), o box-set retrospectivo da carreira dos Who. Para perceber como é que se consegue declinar a palavra "energia" de tantas maneiras diferentes ao longo de tanto tempo sem baixar o nível, como é que se pode conjugar a palavra "rock" em inglês da Grã-Bretanha sem nunca perder de vista as raízes nos blues — e porque só já na transição da década de 70 para a década de 80 é que o nível baixou precipitadamente. (A culpa é dos sintetizadores. E a mim ninguém me tira que "You Better You Bet" é o melhor êxito dos Cars que Ric Ocasek nunca escreveu.)


"My Generation" (ao vivo em Monterey)


"Baba O'Reilly" (ao vivo algures)

20 de julho de 2007

CELEBRITY WATCH

José Pacheco Pereira a tomar café na zona das comidas do Colombo e José António Teixeira a sair do metro do Rato.

19 de julho de 2007

POLAROID: RATO

Passo pelo Rato quando o inconfundível som das sirenes dos batedores da PSP anuncia que se aproxima uma das individualidades que visitou hoje Lisboa, com a barulheira dos estafetas e dos carros oficiais rodeados por uma escolta em movimento a parar o tráfego de automóveis e de gente. Atrás de mim, um velhote indignado grita a altos berros, protestando não percebi muito bem contra o quê, mas com ar de quem não achava graça nenhuma que o governo gastasse dinheiro nestas escoltas.

18 de julho de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #40

Tias que vão almoçar em grupo ao self-service e empatam o serviço a conversar umas com as outras, obrigando a empregada a perguntar três vezes, cada vez mais alto, o que é quer comer e ficando ali especadas a conversar a deixarem a fila atrás ficar cada vez maior, como se não fosse nada com elas.

16 de julho de 2007

PEQUENAS CONTRADIÇÕES

Na minha rua costuma estacionar um BMW Z3 descapotável, de pintura impecável em cor escura e em evidente bom estado, com a capota de lona subida, e o plástico que serve de "vidro" traseiro amarelecido e rasgado.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE APLICAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #82

Hirsuto.

15 de julho de 2007

O FUNGAGÁ DA BICHARADA

É uma das campanhas de publicidade mais divertidas de que me lembro. Vejam os "commercials for your computer" e curtam que nem castores sem precisarem de ir às parties da Dentagard. O caranguejo então é o delírio absoluto.

O MARKETING É UMA COISA ENGRAÇADA

A tentar explicar ao David o que é a Becel (que, há 30 anos atrás, era receitada pelos médicos ao pessoal com colesterol, porque era receitada ao meu pai, e a minha mãe não nos deixava comer Becel porque dizia que era só para as pessoas doentes), descobri que a Becel nos EUA se chama Promise e em Inglaterra Flora (mas o logotipo é igual em todo o mundo). Podem confirmar tudo aqui.

Quando expliquei ao David que a Becel é a nossa Promise, ele disse "yuck". E depois disse que continua a preferir pão com manteiga.

14 de julho de 2007

MAIS COISAS QUE SE OUVEM AO JANTAR

"Já alguma vez curtiste que nem um castor?"

"Só nas parties da Dentagard."

(com agradecimentos à C.)

AS COISAS QUE SE OUVEM AO JANTAR

"A Jennifer Lopez? Mais um ano e vai-se escadeirar toda, vai ficar com o cu no chão e como não tem mamas para equilibrar..."

"A Jennifer Lopez é muito Paulo Gonzo."

(diálogo entre A. e G.)

13 de julho de 2007

12 de julho de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #3



Vinho dos Amantes (Som Livre, 2007), de Janita Salomé. É daqueles discos para os quais não há palavras. (Mas há imagens, mesmo que não sejam da melhor canção do disco, e dá para ouvir a magia que o imenso Mário Delgado trouxe ao álbum.)

A VIA LÁCTEA

Devo ter o único gato do mundo que gosta mais de iogurtes do que eu.

10 de julho de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #2



Estava eu a almoçar com a Marta e ela estava a elogiar os Mountain Goats, vai daí apeteceu-me recordar o sublime We Shall All Be Healed (4AD, 2004), que funciona esquizofrenicamente num equilíbrio entre a força das melodias (a lembrar a big music dos Waterboys) e o fundo do poço das letras. Foi o primeiro disco do grupo de John Darnielle que me bateu a sério.

9 de julho de 2007

MÚSICA NO GINÁSIO #1



Jorge Palma, Voo Nocturno (Capitol/EMI, 2007). É o meu Palma preferido em muitos anos, mesmo apesar do excelente comeback de 2001 — parece que o homem reencontrou a boa forma do Lado Errado da Noite. E canções como "Encosta-te a Mim" ou o sublime "Olá (Cá Estamos Nós Outra Vez)" não aparecem por aí aos pontapés.

(Não acho o teledisco extraordinário, acho ao mesmo tempo sentido e algo fúnebre. Mas a canção é daquelas que resistem a tudo.)

8 de julho de 2007

POLAROID: METRO

Dois dos mendigos cegos portugueses que fazem diariamente o percurso das carruagens de metro na linha azul encontram-se na mesma carruagem vindos de pontas diferentes e fazem uma grande festa um ao outro. Durante algumas estações, agarram-se a um dos varões centrais e conversam sobre a vida num tom de quem acabou de sair do trabalho ou está a fazer uma pausa para uma ginjinha ou um café. Só quando chegam ao Marquês de Pombal páram com a conversa e seguem cada um na direcção em que iam antes de se encontrarem.

7 de julho de 2007

POLAROID: METRO

A jovem sai do comboio para o cais a correr, como se estivesse atrasada ou não quisesse perder o autocarro. Pára para descalçar as sandálias que a atrapalham e sobe as escadas descalça, a correr, antes de atender o telemóvel e parar logo antes dos torniquetes.

6 de julho de 2007

POST FELINO SEMANAL

Há um momento em que o meu gato Diogo pára tudo o que está a fazer — inclusive a sua todo-importante higiene corporal regular — para olhar para mim: quando eu estou a bocejar. Com aquele ar arisco que os gatos têm, aquela capacidade de olhar para nós como se nunca nos tivessem visto antes, uma expressão do género "olha! este também boceja como eu". Excepto, claro, na questão do hálito, porque eu não tenho hálito de gato.

3 de julho de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #39

Empregadas que nos atendem como se nos estivessem a fazer um grande favor com um ar de frete que nunca mais acaba. (São as chamadas mal empregadas.)

ESTAMOS AGORA ABERTOS AO PUBLICO

O mais divertido de frequentar regularmente o Corte Inglés é identificar correctamente a frequência: ver as verdadeiras tias, as aspirantes a tias, as pindéricas que gostavam de ser tias e os velhotes que passam cá o dia. Isto tudo enquanto eu me debato com os problemas da auto-disciplina.

2 de julho de 2007

1 de julho de 2007

POLAROID: BEIJO

As arcadas do Colombo são o sítio ideal para os adolescentes que não querem outra coisa se beijarem longamente na sombra dos pilares, sem que ninguém (a não ser os seguranças que têm de andar por ali) veja ou mostre sequer interesse.

30 de junho de 2007

POLAROID: TELEMÓVEL

De pé ao fundo das escadas que levam ao átrio da estação de metro do Colégio Militar, o jovem vestido à moda a falar ao telemóvel olha em frente sem realmente ver, absorvido naquilo que está a ouvir. Sem uma palavra, desliga o telemóvel e baixa-o lentamente, continuando a olhar em frente como se ainda estivesse a ouvir, como se estivesse noutro sítio e não a receber aquela chamada ao fundo das escadas que levam ao átrio da estação.

29 de junho de 2007

É TÃO BONITO DESCONTEXTUALIZAR

Juro que não estou a inventar o nome que vi numa placa num respeitável prédio de escritórios da Alexandre Herculano esta manhã:

MC Caixinha

27 de junho de 2007

BELIEVE THE HYPE

No New York Times de hoje a propósito da histeria do iPhone que é lançado nos EUA depois de amanhã e já tem gente a fazer fila para ser o primeiro a comprar:

And what will happen on Friday at 6? “It’s going to be like the world’s biggest bra sale at Macy’s, with screaming, shoving and yelling,” said a former advertising executive who used to work on the Apple account. “Then everyone who gets one will be like postinjection heroin addicts, sitting there placidly with their iPhones.”

A EDUCAÇAO E UMA COISA TAO BONITA

Na assistência técnica do Corte Inglés, chega um cavalheiro de fato branco, com aquele misto de arrogância e confiança própria dos endinheirados, com um relógio na mão. Dirige-se ao funcionário entregando-lhe o relógio com uma única palavra: "Parou", como se o funcionário fosse um empregado privativo seu.

26 de junho de 2007

GANHAR A VIDA

A quantidade de empregos existentes no nosso mercado de trabalho que implicam não se fazer absolutamente nada (ou muito pouco) durante o horário laboral é uma coisa extraordinária.

25 de junho de 2007

E LEMBREI-ME DA DORY DO "À PROCURA DE NEMO"

Peço um galão à empregada de um dos muitos cafés do Corte Inglés, que me recebe com um "bom dia senhor" invulgar em empregados de sotaque português. A empregada vira-se para a máquina e passados dois segundos está-me a perguntar, "o senhor é um café?" "Um galão," respondo-lhe.

22 de junho de 2007

CRANBERRY BREAD

O cranberry (que alguns dicionários traduzem por arando) é um fruto vermelho de sabor ligeiramente amargo, muito apreciado pelos americanos, que o usam por exemplo para fazer o molho do peru do dia de Acção de Graças ou todo o tipo de bolos. Apesar da coisa se chamar "pão de arando", o "cranberry bread" é na realidade um bolo caseiro que está algures entre o bolo inglês e o bolo de laranja: a uma massa base de açúcar, farinha, manteiga, ovos, bicarbonato de soda, fermento Royal e raspas e sumo de laranja adicionam-se nozes pecan e arandos inteiros. É melhor frio do que acabado de sair do forno e os americanos, fiéis à designação de "cranberry bread", barram as fatias com manteiga (depois queixem-se da obesidade...). E, com ou sem manteiga, é muito bom.

21 de junho de 2007

POLAROID: METRO

Duas senhoras aguardam pacientemente pelo metro, mas no cais errado da estação do Rato — no cais terminal, onde são as únicas passageiras sentadas, enquanto no cais oposto as pessoas aguardam o próximo comboio. Esperam alguém ou enganaram-se na direcção?

20 de junho de 2007

19 de junho de 2007

CAFFÉ À L'ITALIANA

Nesta série de fotografias visível no site da Time a acompanhar esta peça do dossier dedicado à comida mundial. Onde também se fala da Galiza, da verdadeira cozinha japonesa (qual sushi qual carapuça) e dos laboratórios onde a Nestlé cria sopas Maggi diferentes para todo o mundo.

E O COMÉRCIO TRADICIONAL VAI FECHANDO

Antes de eu ir de férias, foram as lojas de conveniência da rede Sprint que fecharam — privando-me da loja de conveniência ao cimo da rua que era o único sítio onde se podia comprar jornais no bairro ao fim-de-semana (e, já agora, onde se podiam comprar jornais também durante a semana e levantar dinheiro antes de começar o dia e essas coisas todas que só quando a loja fecha é que percebemos que falta nos fazem). Agora, é a geladaria do Ben & Jerry's no Colombo que fechou ignominiosamente as portas, obrigando-me a satisfazer os meus apetites na loja da rua da Misericórdia. (Mas hoje passei por lá e portei-me bem, não entrei.)

18 de junho de 2007

TENHAM MEDO. TENHAM MUITO MEDO

Recebi informação que hoje o Arena Lounge do Casino Lisboa recebe Guida de Palma e o projecto Jazzinho, cantora portuguesa radicada em Londres, responsável por um álbum produzido por Ed Motta, figura que muito estimo e prezo.

Apenas vos posso informar que tive o desprazer de assistir a Guida de Palma e Jazzinho ao vivo no Ondajazz há algumas semanas e fiquei com a sensação de que devia haver ali algum equívoco. Lembrei-me de um concerto de Bebel Gilberto no CCB que estava a abarrotar e que toda a gente estava a adorar e que eu achei que era verdadeiramente música de casino no pior sentido da palavra.

17 de junho de 2007

CONDUTORES DE DOMINGO

Hoje em dia, quase só conduzo ao fim-de-semana, já que durante a semana me movimento quase só por Lisboa e nessas ocasiões pouco compensa sair com o carro. Sou, por isso, o verdadeiro "condutor de domingo", mas comparado com alguns dos condutores de domingo com que me cruzo na rua, não me sinto nada condutor de domingo: hoje, então, desde condutores que ignoraram sinais de prioridade e até semáforos e ausências de piscas e mudanças de faixa sem assinalar, vi de tudo. Claro que, hoje, há condutores de domingo todos os dias.

16 de junho de 2007

SÓ PARA NÃO ESTRAGAR O ARRANJINHO...

Sim, eu sei o final dos Sopranos. Não vi o último episódio da série (os meus aposentos em São Francisco não dispunham de HBO, que é um canal pago à parte) mas qualquer residente nos EUA não conseguiu escapar, no dia seguinte, às infinitas discussões sobre o final da série, que deixou quase toda a gente de boca aberta, com reacções polarizadas entre a decepção e o aplauso a monopolizar jornais, rádios e televisões. A única coisa que vos digo quanto ao final é muito simples: se David Chase passou a série toda a subverter as expectativas dos espectadores, porque é que não haveria de o fazer com o final? E porque carga d'água é que ele haveria agora de começar a fazê-lo, no preciso momento em que não precisava mesmo de o fazer?

15 de junho de 2007

PECULIARIDADES

A segurança nos aeroportos americanos é uma coisa inexplicavelmente curiosa. À ida para São Francisco, a minha mala foi verificada por um agente de pré-check-in em Lisboa, que lhe colou um autocolante de segurança; depois, tive de a levantar na recolha de bagagens após passar pela imigração em Filadélfia para a deixar num ponto específico para ela ir para o porão da bagagem do vôo para São Francisco; ao chegar aos meus aposentos em São Francisco descobri que a mala havia sido revistada em Filadélfia (não faltava nada). Eu próprio passei pela segurança primeiro em Lisboa e depois de novo em Filadélfia.

Ao regresso a Lisboa, nada disto: a mala seguiu directa para o porão no aeroporto de São Francisco, ponto final parágrafo - e só passei pela segurança em São Francisco, não tendo necessitado de fazer mais nada em Filadélfia, o que me deu muito jeito porque o vôo atrasou uma hora e eu estava a ficar com medo de perder a ligação.

14 de junho de 2007

UMA QUESTÃO DE GOSTO

Parecendo que não, há algumas coisas que sabem de maneira completamente diferente em Portugal e nos EUA. Do outro lado do Atlântico, qualquer refrigerante é servido num copo cheio de gelo, e a Coca-Cola tem um sabor significativamente mais doce do que em Portugal. A mesma coisa acontece com os meus cereais de pequeno-almoço: enquanto que cá só encontramos os Cheerios normais e integrais, lá existem pelo menos mais cinco variedades (ficou-me o olho na variante mel e nozes), e a fórmula dos integrais é diferente da nossa, também com um sabor significativamente mais doce — ao ponto dos portugueses, esta manhã, me saberem um bocadinho ensossos. Claro que é uma questão de reabituação (e eu gosto francamente mais da fórmula portuguesa).

13 de junho de 2007

12/06/2007: United 184, SFO 09h22 – PHL 17h57

Na segunda-feira, no noticiário principal do serviço público televisivo americano PBS (KQED9 na Bay Area), um analista de aviação falava dos atrasos que iriam forçosamente afectar os viajantes americanos agora que chegou o Verão e as grandes massas começam a cruzar os EUA. Falou-se do inexplicável caso do atraso (de vários meses, mesmo) na emissão de passaportes de cidadãos americanos, relacionados com os novos regulamentos de segurança impostos aos residentes em viagem para o Canadá, América Latina e Caraíbas, mas falou-se também dos atrasos típicos destas ocasiões, com as companhias aéreas a fazerem overbooking para compensar a percentagem de desistências e os atrasos em aeroportos sobrelotados.

Fiz a experiência desse efeito dominó na manhã de terça-feira: a ligação com Filadélfia, onde iria apanhar o vôo para Lisboa, saíu com uma hora de atraso porque o avião chegou a São Francisco com uma hora de atraso, e aterrou em Filadélfia com outra hora de atraso, equivalente ao tempo que estivemos no ar a voar em círculos à espera que o aeroporto nos desse luz verde para aterrar. A United permite aos seus passageiros ouvir as comunicações entre o cockpit e a torre de controle no canal 9 de audio, e garanto-vos que foi uma experiência peculiar. Aparentemente, a motivação por trás deste programa é acalmar os passageiros mais nervosos — comigo, no entanto, teve um efeito misto, porque, se por um lado me acalmou saber que há um porradão de profissionais a trabalhar para que tudo corra bem, o linguajar arcano cheio de abreviaturas e códigos deixa-nos completamente na mesma.

Fazer a aterragem a ouvir as comunicações é, aliás, uma experiência que qualquer viajante regular deveria fazer pelo menos uma vez: ainda mais neste caso em que o piloto ia mantendo os passageiros (que lotavam quase por completo o avião) ao corrente da situação, enquanto no canal 9 decorria uma elaboradíssima estafeta entre controladores aéreos de várias torres a dar instruções a uma série de aviões no ar, designando os rumos e rotas a tomar, avisando de tráfego na zona ou de condições meteorológicas adversas. Não deve ser nada fácil ser controlador aéreo.

JET-LAG

O nascer do sol a dez mil metros de altitude pela janela de um Boeing 757 a voar por cima de um oceano de algodão doce a desenhar lentamente os contornos do avião à medida que o céu azul profundo se aclara, que a bola laranja lentamente se ergue das profundezas cinzentas e brancas do espesso tapete de nuvens. Suspenso entre dois fusos horários. A minha cabeça ainda está oito horas atrás, em São Francisco, mas o meu corpo já está oito horas à frente, em Lisboa, e as duas horas de soneca retemperadora na minha cama não apagaram a sensação do oceano de algodão doce ter invadido os recantos do meu crânio. Saí de São Francisco ontem às nove da manhã locais, cheguei a Lisboa hoje às oito e meia da manhã locais, mas tenho a sensação de que perdi um dia entre fusos horários (para compensar o dia mais longo que ganhei à ida?). Voltar a casa tem destas coisas.

12 de junho de 2007

OLHA O BELO BAGEL

Já aqui vos falei do pao sourdough que é uma especialidade de Sao Francisco, deixem-me agora falar-vos mais em pormenor do bagel, essa deliciosa invençao que substitui o pao na dieta de muitos americanos e que, por exemplo, pode ser saboreada no seu melhor numa padaria da Castro chamada Posh Bagel que oferece todo o tipo de bagels para levar para casa, desde simples a bagels salgados ou doces que sao por si só toda uma refeiçao. Mas nada de confusoes: o bagel nao é um donut, estando mais próximo em travo dos paes ázimos judeus só que em forma de donut e massa de pao. Eu prefiro barrado com queijo creme e recheado de salmao fumado e cebolinhos.

11 de junho de 2007

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF #2

Já que estamos a falar de delícias para o paladar, será inevitável falar do Mangarosa, um restaurante de fusao italo-brasileira (!!!!) na Stockton, mesmo ali na fronteira entre Chinatown e a zona italiana de North Beach. Porque é o primeiro restaurante em que como nos EUA em que a dose por pessoa está mais próxima da média europeia (satisfaz sem encher) e porque, parecendo que nao, a comida é verdadeiramente excelente - à entrada, soufflé de polenta; os gnocchi com molho de queijo e cogumelos eram de chorar por mais; para sobremesa, uma tarte de lima que nao vos digo nada. Atençao, contudo, que o bicho é carote, um tudo nada mais que o 2223.

10 de junho de 2007

POST FELINO SEMANAL



O Farrell já não é um gatinho. Tem dois anos de idade e foi recolhido pelo David no jardim nas traseiras do apartamento, onde tinha sido abandonado pelos donos e onde viveu durante três meses a comer o que aparecia e o que algum residente mais benfazejo lhe ia deixando. Como qualquer gato que se preze, o Farrell passa o dia a dormir, interrompendo as sonecas para se passear pela casa, realizar as suas abluções e se alimentar nas tigelas que o David lhe deixa na cozinha: uma para água, uma para comida seca e uma para comida húmida. A comida húmida é o jantar: se, entre as sete e as oito, a comida do dia não é posta na sua tigela, ele começa a miar até ser servido. Mas, talvez por ter sido abandonado, o Farrell não se dá tanto ao mimo como o Diogo. Faz-se às festinhas, sobe para a mesa ou para a cama ou para a cadeira e pede festas miando ou roçando-se, dando saltinhos para sentir as mãos do dono, sempre que se entra em casa ele vem à porta receber miando. Mas raramente ou quase nunca deixa que lhe peguem ao colo, esquiva-se aos beijinhos, e porta-se geralmente de maneira muito circunspecta.

A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA ESPECIAL SF

Ponto alto gastronómico desta visita a São Francisco: o magnífico jantar no 2223, restaurante "New American" em plena Market, com um fabuloso frango assado em ervas acompanhado por puré de batata com alho, feijão verde grelhado e aros de cebola a reinar sobre a refeição (outros mimos são a limonada com infusão de hortelã-pimenta, o fantástico pão grelhado com rosmaninho de entrada e a manteiga com alfazema para acompanhar o bom sourdough colocado na mesa). Contudo, nada bate a sobremesa: bolo de chocolate e coco com uma bolacha torrada de chocolate e amêndoa, para lá de hedonista, verdadeiramente pornográfico. Preço médio por pessoa: 40 dólares, ou seja, perto de 30 euros. E, como em qualquer restaurante americano, pode-se trazer para casa os restos.

9 de junho de 2007

MONSOON FALLS

A feira popular americana chama-se parque de diversões, fica geralmente fora dos centros urbanos, leva um dia inteiro a percorrer (quando não mais) e está cheia de atracções que eu só recomendaria aos amadores de emoções fortes, mas onde se podem ver famílias inteiras a gritar em conjunto (e como eles gostam de gritar, muito antes sequer da coisa começar a andar. A Disneyland é uma coisa, mas o Six Flags Discovery Kingdom em Vallejo, a 50km de São Francisco, é outra completamente diferente, uma mistura de jardim zoológico com animais selvagens (os tigres, leões e pumas são magnificos, as focas e leões marinhos deliciosos) com parque de diversões.

É também um sorvedouro de dinheiro: um adulto paga 50 dólares de entrada, o que dá acesso a todas as atracções gratuitamente, mas a comida é obviamente paga à parte e é tudo fast-food absurdamente cara (o gelado mais barato são seis dólares, mas é verdade que é uma dose colossal), já para não falar dos souvenirs, do peixinho para dar de comer às focas, etc. Tudo tem, além do mais, um certo ar de linha de montagem — não há a sensação (mesmo que cuidadosamente fabricada), como na Disneyland, de que estamos num local mágico. Tudo parece cansado, velho, forçado, a olhar mais para o lucro do que para o visitante — o que explica, aliás, porque é que as montanhas russas mais hardcore são o centro da atenção, com filas de quase uma hora para as mais violentas (o site mostra, tenham medo, tenham muito medo). Aqui, há os animais, as atracções muito soft para miúdos e as atracções hardcore para os mais velhos, não há meio-termo. (E mesmo o que eles chamam de "family rides" deixavam qualquer família portuguesa traumatizada...)

Recusando-me eu a entrar em qualquer montanha russa com quedas quase verticais ou loopings assustadores (mas estive quase a entrar na Roar porque não tinha loopings, antes de me acagaçar quando vi um carro parado logo antes da grande descida quase vertical com que tudo começa), a única em que aceitei ir foi Monsoon Falls, uma queda quase livre que me deixou completamente encharcado. E, num parque de diversões, toda a gente nos consegue ouvir gritar. Aliás, é praticamente obrigatório.

8 de junho de 2007

A ARTE DO BUMPER STICKER

O "bumper sticker" é o autocolante que se põe nas traseiras do carro e que foi elevado pelos americanos a uma arte. Como este magnífico visto no parque de estacionamento do jardim zoológico:

Never underestimate the power of stupid people in large groups.

OS ANIMAIS SAO NOSSOS AMIGOS

No entanto, convém definir quais animais, porque uma visita ao Jardim Zoológico de São Francisco na primeira quarta-feira de cada mês vê o povo precipitar-se para visitar o zoo sem pagar entrada (que pode custar nove dólares para um adulto). Claro que, uma vez lá dentro, muito pouco é gratuito (até a viagem no comboiozinho do parque é paga). A verdade é que, quando cheio como nesta quarta-feira ventosa mas solarenga de Junho, o Zoo de São Francisco fica completo com uma exposição de homo sapiens de todos os tamanhos, idades e feitios, com especial destaque para as excursões escolares. Infelizmente, apanhei o zoo em pleno trabalho de renovação: os ursos pardos só chegam na próxima semana, os paquidermes e as águias estão de férias enquanto se refazem as suas áreas, os leões, tigres e leopardos estavam a dormir ao sol, só os ursos polares (encantadores) se dignaram mostrar o focinho, os chimpanzés estavam-se nas tintas. O parque é descomunal e muito bonito mas é uma pena que esteja tudo em fluxo.

7 de junho de 2007

E A CULTURA, ESTUPIDO

Muitos dos museus de São Francisco têm entrada livre na primeira terça-feira de cada mês: todas as exposições disponíveis podem ser visitadas sem precisar de pagar bilhete. Os museus de São Francisco já de si costumam ter muitos visitantes, mas nestes dias as enchentes são monumentais, quer por parte dos locais quer por parte dos turistas (em excursões-Rodarte ou não, com muitos asiáticos e latinos). Aproveitando a ocasião, visitamos o Museu de Arte Asiática (em pleno centro da cidade no Civic Center, esquina da Larkin com a McAllister, em frente à Câmara Municipal e à Biblioteca Pública, a dois passos da Market), com duas exposições de arte popular japonesa: as espantosas ilustrações de Taiso Yoshitoshi de finais do século XIX, que abrangem o período de abertura do Japão à cultura ocidental, e uma retrospectiva de Tezuka Osamu, um dos reis do manga japonês, que prova a quem quiser que não, a BD japonesa não é só Heidis e Marcos e Dragonballs e pode ser algo de muito mais perturbante, escuro e desafiador. (As filas para entrar na exposição de Tezuka eram granditas; a exposição, organizada por um museu australiano, pode ser vista até 9 de Setembro em exclusivo no museu, enquanto a de Yoshitoshi está até 2 de Setembro).

Paramos para almoçar e seguimos para o extraordinário Museu da Legião de Honra, um extraordinário palácio neo-clássico que é uma réplica do palácio parisiense da Légion d'Honneur numa das pontas da cidade em Lincoln Park, com uma vista sumptuosa sobre a Golden Gate. Em exposição uma série de peças de joalharia francesa do século XX, da Art Nouveau aos nossos dias, cedidas maioritariamente por coleccionadores privados (entre os quais Elizabeth Taylor) e onde pontificam deslumbrantes criações de René Lalique. As excursões-Rodarte eram aqui de matronas americanas de classe média ou média-baixa deslumbradas ou de turistas asiáticas que se fartavam de tomar notas sobre cada peça em linguagens ideográficas. Diziam-me ao ouvido que o intuito de tanta nota era criar réplicas baratas para os mercados orientais, mas quero acreditar que não passava de má língua.

OLHA SE OS SINDICATOS PORTUGUESES SABEM

Nos EUA, os bancos não fecham às três da tarde: estão abertos durante o expediente normal até às seis da tarde. Inclusive ao sábado.

6 de junho de 2007

BEM COMER EM SAO FRANCISCO #1

Come-se bem em São Francisco. Independentemente do que se quer comer — há de tudo para todas as bolsas (e não, não estou a falar dos fast-foods tipo McDonald's, KFC, Taco Bell ou Pizza Hut — que, aliás, aqui quase não existem, substituidos por cadeias de sandwiches como a Subway ou a Quiznos Sub). O David diz-me que um bom guia para a relação preço-qualidade é a presença de carros ou motos da polícia à porta — os polícias sabem geralmente onde se come bem sem gastar muito. Seguindo o conselho, almoçámos hoje no Mangosteen, na zona mal frequentada do Tenderloin/Civic Center (esquina da Larkin com a Eddy), porque vimos um carro e uma mota da polícia à porta. É um restaurante vietnamita (aparentada com a chinesa, mas mais apimentada) que não tem nada a ver com o resto da zona e é elegante, moderno, simpático e chique — e um almoço para dois custou 25 dólares (19 euros ao câmbio do dia), o que mesmo para os padrões americanos é baratíssimo.

Para o belo pequeno-almoço à americana, o Chloe's Cafe em Noe Valley (na Church, entre a Clipper e a 26th), o Nob Hill Café em Nob Hill (na Taylor, a dois quarteirões da Catedral Grace) ou o Ella's em Laurel Heights (na esquina da California com a Presidio) são imbativeis: o Chloe's propõe panquecas de banana e avelã ou de noz pecan, o Ella's tem um "sticky bun" de canela e noz de chorar por mais, o queque de milho com pimentos jalapeños não vos passa pela cabeça. Como vos disse em tempos, os pequenos-almoços americanos são de farta-brutos, mas pode-se facilmente fugir aos ovos ou aos bacons (e quase todos servem saladas ao pequeno-almoço).

5 de junho de 2007

NAPA VALLEY

É um dos passeios preferidos dos habitantes de São Francisco: atravessar a Baía e passar o dia a visitar as vinhas de Napa Valley, a 90 km aproximadamente, onde praticamente todos os produtores locais oferecem visitas e provas das colheitas locais (oferecem, é como quem diz: a maior parte cobra pelas provas valores que vão dos cinco aos vinte dólares por pessoa) e disponibilizam lojas onde se pode comprar todo o tipo de memorabilia, de ursinhos de peluche a flautas e copos de pé, passando por livros de culinária, camisolas monogramadas e colheitas exclusivas ou de produção limitada. Tudo isso, no entanto, empalidece face à beleza da paisagem, aos verdes e dourados e castanhos que se estendem por quilómetros e quilómetros, às longas fileiras de vinhas entrecortadas por mansões de estilos vagamente coloniais ou europeus. Ao longo da estadual 29, sucedem-se as saídas (devidamente marcadas) para dezenas e dezenas de quintas cujos parques de estacionamento fervilham com carros que entram e saem depois das visitas guiadas ou das provas, guiados por visitantes que tanto podem ser uma família suburbana local ou um casal de franceses empertigados que conversam entre si.

4 de junho de 2007

SAN FRANCISCO BY BIKE

Não há nada como sair de São Francisco pela Golden Gate completamente envolvida em nevoeiro que nem sequer permite ver os topos dos arcos e, chegado a meio da ponte, ver o nevoeiro desaparecer magicamente para revelar um sol luminoso e um calor quase de Verão, prolongado pelas dezenas de turistas que atravessam a ponte a pé ou de carro em direcção a Vista Point para ver a vista da cidade do outro lado da baía.

3 de junho de 2007

DEPOIS QUEIXEM-SE DA OBESIDADE

Supostamente isto é uma invenção de Verão, mas para mim tem tudo a ver com o Inverno.

OLHA O BELO WOK

Sim, é verdade: em São Francisco existe uma loja exclusivamente dedicada ao wok, aos utensílios de wok e aos acessórios de wok. Vendem, inclusive, woks pré-condicionados.