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2 de junho de 2007

O PAO NOSSO DE CADA DIA

Em São Francisco, isso é o fabuloso pão "sourdough" , a meio caminho entre a consistência do tigre e o sabor acre do pão ázimo, mas mais delicioso que qualquer um deles.

A GASTRONOMIA E O SUBURBIO

Imaginem um supermercado de luxo inteiramente dedicado a gastronomia no meio da Gare Marítima de Alcântara ou no terminal do Terreiro do Paço. Isso é o Ferry Building Marketplace, um centro comercial no terminal dos "cacilheiros" que atravessam a Baía de São Francisco, cheio de lojas dedicadas exclusivamente a azeites, cogumelos, chocolates (de luxo, evidentemente), especialidades italianas, talhos, comidas rápidas gourmet, gelados e outros que tais. Enquanto, pelo meio, os sub/urbanos que precisam de atravessar a Baía vão comprar bilhetes e seguir o seu dia de trabalho.

1 de junho de 2007

OLHA O BELO GATO



Apresento-vos Seamus O'Farrell Kitty, Esq., primo afastado por afinidade de D. Diogo.

31 de maio de 2007

OLHA A BELA FARMACIA

Nos EUA não há farmácias como as portuguesas, que só vendem medicamentos. Em vez disso, há "drugstores" ou "pharmacies", que têm um departamento de farmácia que vende medicamentos sob receita em embalagens personalizadas para cada cliente de acordo com a receita do medico, mas que são também supermercados de medicamentos genéricos ou de venda livre (antiácidos, aspirinas, analgésicos, antipiréticos, pastilhas para a garganta) e lojas de conveniência que vendem gelados, bebidas, chocolates, pão, congelados, revistas, escovas de dentes, lâminas de barbear, papel higiénico, fraldas, etc. E também revelam fotografias e têm multibancos. São, no fundo, uma espécie de mini-supermercados de artigos de segunda necessidade-

A DIFICULDADE DA ESCOLHA

Que os EUA são um país de contrastes, já sabia; que são um país consumista, idem aspas; mas não deixo nunca de ficar de boca a banda quando vejo que, possivelmente, a maior dificuldade que um consumidor normal tem quando vai ao supermercado é escolher entre as dúzias de marcas e variedades diferentes de um mesmo produto, seja ele gelado, chocolate, pão, manteiga, iogurtes ou café. Perde-se um tempo infindo a escolher exactamente quais os sabores de iogurtes que se quer meter no frigorífico — porque as promoções dos supermercados são do género dez iogurtes por cinco dólares. Que o mesmo é dizer, dez boiões de iogurte que levam cada um o dobro de um boião de iogurte português, por três euros.

30 de maio de 2007

CONTRASTES

No espaço de três quarteirões na O'Farrell Street: o representante local da Bentley; um stand da Mercedes; o cinema pornográfico O'Farrell Theatre; a sala de concertos rock Great American Music Hall; um multiplex de cinemas de estreia da AMC na esquina com a Van Ness; duas garagens; muitos sinais de apartamentos para alugar; sem-abrigos, bêbados, drogados.

NOTICE OF BAGGAGE INSPECTION

Chegado ao estúdio acolhedor (com gato incluído - já falamos disso) onde vou passar as minhas férias na cidade da baía, abro a mala e dou lá dentro com um papelinho da Transportation Security Administration do US Department of Homeland Security a dizer "Notice of Baggage Inspection". Em duas línguas, inglês e castelhano, explicando muito bem como os EUA se estão a tornar num país bilingue.

"To protect you and your fellow passengers, the Transportation Security Administration (TSA) is required by law to inspect all checked baggage. As part of this process, some bags are opened and physically inspected. Your bag was among those selected for physical inspection.

During the inspection, your bag and its contents may have been searched for prohibited items. At the completion of the inspection, the contents were returned to your bag.

If the TSA security officer was unable to open your bag for inspection because it was locked, the officer may have been forced to break the locks on your bag. TSA sincerely regrets having to do this, however TSA is not liable for damage to your locks resulting from this necessary security precaution. (...)

We appreciate your understanding and cooperation."

Escusado será dizer, estava tudo dentro da mala e no sítio onde era suposto estar.

A MORALIDADE FELINA

A promiscuidade não é um exclusivo humano.

28 de maio de 2007

26/05/07: US 650 PHL 16h10 - SFO 19h22

No vôo de Filadélfia para São Francico, o comandante faz uestão de agradecer aos soldados que estão a bordo (um dos quais fardado), numa prova do respeito que os americanos têm pelas suas forças armadas mesmo quando não concordam com os conflitos armados em que eles se envolvem. Ainda por cima, hoje é o arranque do fim-de-semana prolongado do Memorial Day (hoje, segunda 28 de Maio) que celebra todos aqueles que deram a sua vida pelos EUA em conflitos militares.

O vôo vai cheio e as simpatiquíssimas hospedeiras perguntam-me se não me importo de trocar de lugar com uma família que foi colocada na saída de emergência. Aceito com muito gosto, porque isto de ter 1m88 de altura e ter de viajar em coxias de classe económica não é fácil, e acaba por ser a primeira vez que viajo longas distâncias com espaço para esticar as pernas. Mas descubro também que, nos EUA, estar sentado na fila da saída de emergência equivale a disponibilizar-se para ajudar as hospedeiras no caso de alguma coisa correr mal. Todo o pessoal é significativamente mais simpático do que a equipa do vôo de Lisboa. Quase como se tivessem verdadeiramente prazer em trabalhar — e as hospedeiras de serviço à cabine já têm claramente muitos anos disto. No entanto, os auscultadores continuam a ser pagos e, aqui, a comida também (cinco dólares por uma sanduíche de frango que não era nada má, embora um pouco seca). Tudo o que é refrigerantes e águas é gratuito, mas quem quiser beber álcool tem de pagar e de mostrar a identificação se parecer mais novo do que a idade que tem.

E juro que vi um anúncio da CIA a passar no sistema de entretenimento a bordo.

PHILADELPHIA INTERNATIONAL

Tenho aproximadamente duas horas entre desembarcar do avião e ir apanhar o vôo para São Francisco para passar o guichet do serviço de estrangeiros e fronteiras local, levantar a bagagem e transferi-la para o novo vôo. O processo é de algum modo perseguido por uma série de alemãs muito chatos que, vindos de um país conhecido pelas suas qualidades organizacionais, adoram resmungar sobre a organização dos outros. Uma familia alargada atrás de mim na fila para passar a imigração estavam irritadíssimos com a lentidão do atendimento (tornado ainda mais lento pela quantidade de famílias alargadas a passar os guichets juntos ou em múltiplos de dois), aparentemente porque tinham também eles de ir apanhar um voo doméstico. Mais à frente, apanho um outro casal alemão que resmunga por ter que passar outra fila de copntrole de passaportes e passagens. Felizmente, nenhum deles está no meu vôo para São Francisco.

27 de maio de 2007

26/05/07: US 739 LIS 10h25 - PHL 14h10

O vôo para Filadélfia sai com 80 minutos de atraso sobre a hora prevista. Estava já tudo pronto para partir, quando o piloto avisa que "estamos com um problema nos lavatórios e vamos ter de chamar a manutenção", que leva 30 minutos a chegar e 15 a resolver o problema. Na realidade o problema era com um dos lavatórios das traseiras, pelo que houve um sem-número de pessoal a levantar-se e a ir à casa de banho da frente enquanto o avião não descola. Antes da saída, uma das portas da frente teimava em não selar devidamente. Teve de se abrir três vezes antes de perceberem que era a manivela de fora que não estava bem fechada.

Na US Airways os auscultadores para se ouvir a música ou o filme a bordo são pagos (cinco dólares ou cinco euros, o que não é exactamente a mesma coisa). No entanto, uma das hospedeiras, de traços asiáticos, não se entende grandemente com o novo sistema de entretenimento a bordo, que explica ter acabado de ser instalado e é baseado em disco rígido, e passa a vida arrancar com as coisas fora de tempo. Um dos comissários de bordo fala brasileiro sem sotaque, mas as traduções dos discursos são hilariantes. O serviço não é brilhante, parece que estão todos ali porque têm de estar, a fazer um frete desgraçado. Percebo, depois, no vôo entre Filadélfia e São Francisco, que o pessoal da US Airways no serviço doméstico interno é muito mais eficaz, eficiente, prestável e competente. Mas sobre isso mais num próximo post.

A DEMOCRATIZAÇAO DO TRANSPORTE AEREO TEM MUITO QUE SE LHE DIGA

Aeroporto de Lisboa, sábado, 26 de Maio. O aeroporto fervilha de gente. Pergunto-me se não deveria ter vindo mais cedo. Fila para fazer o "check-in" no vôo até Filadélfia, com muita gente que transporta malas para tacos de golfe. Fila, longa mas despachada rapidamente, para passar o controle de bagagens; duas inglesas de meia-idade resmungam que isto nunca mais acaba e que isto é uma grande desorganização. Fila para o balcão de câmbios e para o pequeno-almoço — desisto. Fila, longa ainda mais, para passar o controle de passaportes antes de aceder ao portão de embarque — se não tivesse tido o bom senso de me meter na fila dos "passaportes electrónicos" ainda lá estava, sobretudo porque se percebia que havia muito brasileiro com vontade de lançar um motim ali mesmo no momento. O tempo entre chegar ao aeroporto e embarcar no avião passou depressa, mas isso não invalida que eu esteja cheio de fome e continue a só ter euros na carteira. Dez minutos antes da hora de descolagem marcada, ainda há gente a entrar no avião; ouço uma americana algumas filas atrás resmungar que se não tivessem lá ido buscá-los para passar o controle com prioridade ainda lá estavam.

Se calhar era capaz de fazer sentido resolverem os problemas da Portela antes de começarem a pensar na Ota.

25 de maio de 2007

TÊM CERTEZA QUE FOI EM KEITH RICHARDS QUE JOHNNY DEPP SE INSPIROU?

Por falar em prazeres culpados, acho que este é daqueles que fica sempre bem/mal. Curiosidades para os trivia fans: quem dirigiu foi Russell Mulcahy (que, anos mais tarde, infligiria a série de filmes dos "Highlander" e Christophe Lambert), e esta é a versão original que só saiu num single e nunca mais voltou a aparecer. How eighties.

24 de maio de 2007

OS PAIS NÃO DEVIAM GOSTAR MESMO NADA DELES

Claro que os senhores em questão não têm culpa nenhuma dos seus nomes serem tão pouco apropriados para as profissões que honrosamente exercem.

Mas lá que um advogado se chamar Mimoso de Freitas e uma arquitecta paisagista Aurora Carapinha não lembra ao diabo, ah não lembra não senhor. Estão a ver o "sr. dr. Mimoso" e a "sra. arquitecta Carapinha"?

23 de maio de 2007

A CULPA É DO VH1

Isto dos "guilty pleasures" às vezes tem destas coisas. O filme até nem era mau (vejam se reconhecem as caras) mas o ar de gebo de província do tipo e os sintetizadores manhosos à Chicago da fase má estragam tudo — ou talvez não, porque a coisa entretanto ganhou uma patine kitsch imbatível. Foi há vinte anos.

22 de maio de 2007

CHAMEM A POLÍCIA

Estava eu hoje a ouvir isto e de repente lembrei-me dos Dire Straits. Porque será?

(Não é o teledisco, mas é a única coisa que encontrei que dá para ouvir a música.)

21 de maio de 2007

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #38

Nunca tiveram a sensação que — tal como os departamentos de informática geralmente não percebem patavina de computadores, com honrosas excepções — os departamentos de contabilidade apenas existem para não pagar as despesas que se realizam?

20 de maio de 2007

A VELOCIDADE DO SOM

Pelas duas horas e meia da manhã, era possível ouvir, das janelas da minha casa junto à Estrela, muito à distância mas perfeitamente nítido, o som de palco do Creamfields na Bela Vista.

19 de maio de 2007

PORTUGAL NO SEU MELHOR

A ler hoje o Público, descubro que:

- há um menino com cancro no Porto que não vai à escola porque era maltratado pelos colegas e a direcção da escola nada fez para o impedir
- houve um funcionário público suspenso porque fez uma piada a propósito do célebre caso do diploma de engenharia
- afinal as eleições para a câmara de Lisboa não podem ser na data marcada pelo Governo Civil
- o Ministério da Cultura quer definir planos de acção aproveitando a presidência portuguesa da União Europeia

É só impressão minha, ou há aqui qualquer coisa que não bate lá muito certo?

18 de maio de 2007

MY MIND IS NOT RIGHT (dispensam-se bocas foleiras)

A primeira vez que ouvi "Alligator" foi no Natal de 2005, estava eu com uma p*** de uma amigdalite, a passar a consoada na Mansão Satori de Benfica. Meses mais tarde, cravei o disco mas as vezes que o ouvi pareceu-me tudo denso e opressivo, fiquei sem vontade de lá voltar. Numa peça da Village Voice desta semana a propósito de concertos ao vivo dos National em Nova Iorque, Rob Harvilla foi buscar o meu bem-amado Springsteen e eu fui ao sítio de Sua Lisboeza tentar perceber um bocadinho melhor. Ainda não estou inteiramente convencido, mas há três ou quatro canções em "Alligator" que mexem comigo (e sim, há ali qualquer coisa de "cavalo à solta" Springsteeniano, de urgência quase irreprimível).

De então para cá "Lit Up" e, sobretudo, "Abel" têm andado em "repeat". Pistas para perceber porquê. The National.

17 de maio de 2007

JA QUE TENHO A FAMA...

...pois que tenha também o proveito.

CRESCIMENTO ACELERADO

O meu gato adora saltar-me para os ombros quando estou de roupão de banho, fazer turrinhas, enroscar-se todo no meu pescoço e arranhar o felpo do roupão.

Isto tem tudo muita graça mas o Diogo já tem quase nove meses e está a ficar demasiado grande para se conseguir equilibrar nos meus ombros. O que não o impede de o continuar a fazer, recorrendo estrategicamente a alguns golpes de garra.

14 de maio de 2007

ORA NEM MAIS

A história de Portugal é, de facto, singular. Os portugueses foram para todo o lado, mas nunca saíram, levaram a casinha com eles. (...) Veja um acontecimento como o das qualificações académicas do primeiro-ministro, sem dimensão, sem interesse, nem dentro nem fora de fronteiras, mas que pode ocupar o país um mês inteiro. Isto numa altura em que se estão a passar no mundo coisas que interessam aos destinos da humanidade. (...) O que nos interessa mesmo é o que se passa cá em casa. Mais uma vez, o Eça ilustrou isto: "O que nos interessa é o pé da Luisinha".

— Eduardo Lourenço a Luís Miguel Queirós, na Pública de ontem

13 de maio de 2007

DESCONTEXTUALIZAR POR AÍ

"Eu gosto de ficar com buraquinhos daqueles que doem" — ouvido a uma amiga que ficará incógnita na noite de sexta-feira.

12 de maio de 2007

POLAROID: ELÉCTRICO 28

Dois miúdos vão à pendura nas traseiras do eléctrico para não terem de pagar bilhete. Quando o eléctrico pára no sinal junto à Assembleia da República, um turista espanhol do outro lado da rua, de óculos escuros, faz cara de mau e diz-lhes "desçam daí". Os miúdos fazem de conta que não ouvem. O turista insiste. "Desçam daí". "O senhor deixou-nos". "Quem é que vos deixou?" Silêncio. "Desçam daí". O turista começa a mover-se em direcção ao eléctrico para os tirar. "A gente já desce." Os dois miúdos acabam por descer e seguem a linha do eléctrico - assim que o turista está fora do alcance eles desatam a correr para apanhar o eléctrico que entretanto entrou em andamento um pouco mais à frente.

10 de maio de 2007

NEOLOGISMO HOUSE DO DIA

"While you were still wearing your Frankie Says: Relax T-shirts..."

OS PUBLICITÁRIOS SÃO UNS EXAGERADOS

Lê-se no anúncio de um telemóvel empunhado por Beyoncé Knowles: "Imagine passar da música para a vida real, e voltar".

Mas não é exactamente isso que fazemos sempre que estamos a ouvir um disco e ele acaba?

8 de maio de 2007

POLAROID: METRO

No metro em direcção ao Marquês de Pombal, começa a ouvir-se a certa altura o som de um acordeão mal tocado que procura desenhar a melodia do "Over the Rainbow", sem o conseguir. Quando passa por mim, vejo que é um dos "mendigos profissionais" que chegaram de Leste, e que o seu domínio do instrumento é fraco para não dizer quase inexistente. Rapidamente, contudo, o som do seu acordeão é abafado por um outro acordeão que vem do fundo da carruagem, forçando-o a sentar-se num lugar vazio à espera que o comboio chegue ao Marquês. O outro acordeão é tocado por um cego português que já há muitos anos vejo a tocar no metro, e do instrumento sai uma marchinha de Lisboa afinada e reconhecível.

7 de maio de 2007

OLHÓ SABÃO FRESQUINHO

Já alguém reparou que os gelados Magnum, nos actuais anúncios colados nas estações de metro, parecem autênticas barras de sabão?

6 de maio de 2007

MERCI SEGOLENE

Mas alguma vez em Portugal alguém concede uma derrota numa eleição com um sorriso nos lábios como Ségolène Royal o fez esta noite nas eleições francesas? (Ou será que a rapariga estava a rir a pensar, "olha do que eu me livrei..."?)

FELIZ ANIVERSARIO

Não sei exactamente quem fez anos na minha rua, mas a festa está a ser de arromba — desde as quatro da tarde que há música africana aos altos berros a ouvir-se pela rua toda, acompanhada de gritos e de manifestações que não destoariam num concerto.

4 de maio de 2007

PEQUENO MOMENTO BELEZA AMERICANA DO DIA

Enquanto espero pela chegada do comboio, páginas de um jornal gratuito, levadas pelo vento que entra na estação do Marquês de Pombal por uma das entradas, voam para a linha férrea.

2 de maio de 2007

POLAROID: METRO

Duas pedintes cegas cruzam-se a meio da mesma carruagem longa do metro, depois de terem começado nas pontas opostas uma da outra; as suas melopeias, as suas vozes, o ritmo que batem com a bengala diferenciam-se significativamente. Um cavalheiro idoso de fato e gravata bate sem querer com o chapéu de chuva numa senhora sentada e pede desculpa.

1 de maio de 2007

PEQUENAS MEDITAÇÕES FELINAS

O Diogo está quase a fazer seis meses que partilha a minha casa. (Ou melhor, deveria dizer que está quase a fazer seis meses que manda cá em casa, porque um gato não partilha, domina e condescende que nós partilhemos com ele.) Não é a primeira vez que tenho um gato, mas é a primeira desde que era muito menino e que o último gato que os meus pais tiveram lá em casa, o Farrusco, desapareceu pelo quintal sem dar cavaco. O Diogo já é algo mais do que um mero animal de estimação: é uma personalidade de corpo inteiro que, como eu, tem as suas rotinas, os seus pequenos confortos, as suas irritações e a sua vida própria. Consoante a hora do dia, o Diogo é um boneco de peluche com vida que dorme descansado como um bebé no sofá da sala, um animal feroz e ameaçador que percorre a casa com uma elegância felina à busca de algo que possa surpreender ou ferrar o dente, um adolescente que arregala os olhos sempre que aparece alguma coisa nova que ele tenta compreender.

O Diogo já faz parte da família.

27 de abril de 2007

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #15



Por motivos profissionais, tenho passado muito tempo no Forum Lisboa, que convém sempre explicar ser o antigo cinema Roma — e, por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, imprimiu-se agora um pequeno caderninho com a história daquela sala inaugurada em Março de 1957 e encerrada à exibição cinematográfica em Outubro de 1988, numa altura em que os seus perto de mil lugares já haviam deixado de fazer sentido.

Arquitectonicamente, o Roma construia-se como um daqueles anfiteatros em declive (com os balcões no prolongamento desnivelado da plateia em vez de suspensos como varandas) que, por exemplo, o Europa (Campo de Ourique) também tinha, com uma daquelas magníficas fachadas "cegas" típicas da década de 50. Nunca foi sala que eu tivesse frequentado muito — os meus "poisos" mais regulares eram as noites de estreia do Império, do Monumental, do São Jorge... - mas o Roma tem um lugar muito especial na minha memória porque foi a primeira sala de Lisboa onde fui ao cinema sozinho, no final do Verão de 1980, para ver "Vagabundos Selvagens", um western que hoje se diria "crepuscular" de Blake Edwards com William Holden e Ryan O'Neal, numa "matinée" de terça-feira das reposições que eram então hábito regular das temporadas de Verão dos cinemas de Lisboa.

Foi também lá que vi o filme-concerto que Hal Ashby rodou com os Rolling Stones, "Let's Spend the Night Together" (cujo título em português não me vem agora à mente), e o "Purple Rain" com Prince, que fez uma semana de exibição, numa tarde de semana de 1985 com cinco pessoas na sala e uma projecção escandalosamente má. E foi lá que vi, em 1986, o "Era uma Vez na América" de Leone, na versão integral europeia de quase quatro horas, numa sessão da noite que acabou para lá da uma da manhã numa sala já decadente, com não mais de uma dezena de pessoas numa sala de quase mil lugares desconfortável e fria.

Gosto de reencontrar no Forum Lisboa a traça e a arquitectura do velho Roma que foi armazém de cópias durante muitos dos anos em que esteve fechado.

25 de abril de 2007

25 DE ABRIL SEMPRE

Será que a inauguração do túnel do Marquês é mais uma achega para a relevância da expressão "25 de Abril Sempre"?

E TAO BOM SER ADOLESCENTE

Eu não costumo fazer estas coisas. Mas desde que piquei esta canção no site de Les Inrockuptibles que não quero ouvir outra coisa. Senhoras e senhores, The Teenagers, com "Starlett Johansson".

24 de abril de 2007

VOX POPULI

"Se português fosse a luz do mundo eu ia preferir viver no escuro"

(graffiti visto na estação de metro do Marquês de Pombal)

22 de abril de 2007

AS MASSAS FALARAM E MOVIMENTARAM-SE

Cerca de 5900 militantes votaram em Paulo Portas para novo presidente do CDS. Cerca de 1900 votaram em Ribeiro e Castro.

COISAS QUE NÃO SE DEVEM FAZER AO PÉ DE UM GATO

Beber um iogurte líquido: enquanto não acabo de o beber, o meu gato não me larga e assim que pouso a garrafinha ele precipita-se para lamber o resto.

19 de abril de 2007

DISLEXIAS POLITICAMENTE INCORRECTAS

Olhando eu hoje da janela do autocarro para uma carrinha de uma firma de enchidos, reparei que a frase "Pata Negra" estava pintada de um modo que a tornava muito fácil de tresler. Escusado será dizer que a correcção política que neste momento percorre a sociedade portuguesa me impede de escrever publicamente aquilo que eu li em vez do que devia ter lido, mas tenho certeza que a vossa experiência vos permitirá preencher o espaço em branco.

18 de abril de 2007

RECLAMAÇÃO, RECLAMAÇÃO, RECLAMAÇÃO, RECLAMAÇÃO (slight return)

Lembram-se da reclamação que fiz aos CTT por ter de pagar direitos alfandegários sobre uma prenda que vinha especificada como tal?

Recebi uma carta do apoio a clientes dos CTT que reza assim na íntegra (respeitando as maiúsculas e outras pontuações sortidas):

"Ex.mo(a) Senhor(a)

A comunicação enviada por V. Ex.a, mereceu por parte destes serviços a nossa melhor atenção e agradecimento.

Em face da questão apresentada esclarecemos que nos países de destino as encomendas estão sujeitas a taxas alfandegárias quer circulem pelos Correios quer por qualquer outra Via.

Certos da melhor compreensão para os nossos esclarecimentos, apresentamos os melhores cumprimentos"


Sentem-se esclarecidos? Eu também não.

17 de abril de 2007

BORLA AI

As filas da loja Ben & Jerry's na Rua da Misericórdia hoje eram descomunais. Muito pouco habitual, apesar dos gelados serem uma maravilha. Era o calor que convidava ao olá fresquinho?

Não. Estavam a dar gelados de borla.

16 de abril de 2007

POLAROID

O que distinguia aquela senhora de meia-idade com ar de beata portuguesa (o casaco de cores desmaiadas, o sapato raso, o cabelo grisalho, os óculos tintados, a mala discreta) era o cordão do Sapo que usava à volta do pescoço, com o casaco a tapar o que estava dele pendurado (o passe? as chaves? o telemóvel?).

15 de abril de 2007

MARIA (OU) ODETE

Parece que há quem ache que a voz da actual campanha de rádio da cervejaria Portugália recorda a inigualável (ex-)deputada do PCP Odete Santos. No entanto, sempre que a ouço não ouço nada disso e parece-me antes ouvir a Maria Rueff a fazer do taxista Zé Manel. Sou eu que sou surdo ou são os outros que estão a ouvir mal?

12 de abril de 2007

DISLEXIA

Ao ver um cartaz de um solário anunciando uma "massagem localizada", apercebi-me que um disléxico a leria como "mensagem localizada" e acharia que se tratava de uma promoção a um tarifário de SMS.

11 de abril de 2007

POLAROID: LARGO DO CHIADO

Passa pouco das 13h00. Em frente à esplanada da Brasileira e à saída do metro, promovendo o que parece ser um livro, uma menina passeia-se arrastando uma coleira vazia e um senhor passeia-se de blazer, sapatos e meias, mas sem calças. Passa um eléctrico 28 com uma matrona portuguesa e resmungar. O sinal abre e o eléctrico parte, deixando espaço para dois homens atravessarem a rua, um deles com ar de operário, o outro com ar de cristianoronaldo. Este último diz alto, "Olha, ainda ali está o maluco dos calções!". Repete-o em voz alta para que todos percebam que ele é muito engraçado, mas ao fazê-lo quase tropeça num dos pilares que impede o estacionamento no largo, olhando em volta muito incomodado.

10 de abril de 2007

OS MENDIGOS JÁ NÃO SÃO O QUE ERAM

Os mendigos de Leste de que vos falei há algumas semanas insistem em continuar a instalar-se regularmente à porta do meu supermercado, desta vez com uma criancinha loura e razoavelmente asseada.

No entanto, depois de ter visto hoje a criancinha a usar um par de óculos escuros, cada vez mais duvido que consigam convencer alguém.

9 de abril de 2007

7 de abril de 2007

03/04/2007: TP 737, BCN 19h50 - LIS 20h35

Saio da esquadra de Las Ramblas e dirijo-me a pé para a Plaça de Catalunya para apanhar táxi para o aeroporto; à minha volta, vejo turistas que passeiam sob o tempo frio e encoberto arrastando atrás de si mochilas e malas, pergunto-me quantos deles ainda as terão consigo pelo fim do dia enquanto, ainda abananado pelo que acabou de acontecer, procuro incessantemente por um sinal da minha mochila. Acabo por apanhar táxi na praça de táxis, o taxista, bem-disposto, pergunta-me em castelhano se tenho trajecto preferido, respondo-lhe igualmente em castelhano que vá pelo que lhe parecer mais rápido, ao que ele responde que, com este tempo, é moeda ao ar. Ao que parece, os condutores barceloneses em tempo de chuva são iguais aos portugueses, e o taxista, entre contar a desgraça que foi voltar ao trabalho com mau tempo depois de ter estado uma semana de cama com varicela, resmunga com os velhotes que atravessam a rua fora das passadeiras.

Já no avião de regresso a Lisboa, penso que é estranho fazer uma viagem sem bagagem. Enquanto vou alinhavando no meu bloco notas para a peça que vim cá fazer, dou por mim sentado na fila atrás de três africanos que viajam sozinhos mas muito rapidamente metem conversa, apesar de só um deles falar português fluente. Nenhum deles come a refeição ligeira oferecida pela companhia, para espanto do comissário de bordo; um deles ainda vê o que é antes de dizer que não, obrigado.

Quando o avião aterra e me dirijo para a saída, volto a achar ainda mais estranho atravessar a zona de recolha de bagagem sem mochila. A única recordação física que trago comigo desta viagem-relâmpago é o boné Kangol azul-quase-negro que comprei no Corte Inglés da Plaça de Catalunya para proteger a minha moleirinha da chuva que foi caindo.

6 de abril de 2007

A RAINY DAY IN BARCELONA

De facto, desconfiei desde o início que aquele moço magro, de cabelo curto e casaco de fato de treino, que rondava as mesas como quem tenta que um computador funcione, não augurava nada de bom e se estava a preparar para roubar alguma coisa a alguém. Não desconfiei que essa "alguma coisa" fosse a minha mochila e que esse "alguém" fosse eu. Entre as muitas pragas que lhe roguei e continuo a rogar, não me esqueço também de rogar pragas aos empregados do café que fizeram um ar atónito, do género "você foi roubado? no NOSSO café? como é possível?", ou ao mocinho de Alicante que me perguntou, "desculpe, aquele tipo não acabou de roubar a sua mochila?".

Não sei onde está neste momento o meu iPod ou o DVD do "Ghost Dog" de Jim Jarmusch que tinha acabado de comprar na Fnac El Triangle (em super-promoção a seis euros). Sei que concentrar-me nisso não me vai fazer absolutamente bem nenhum (até porque o passaporte, o dinheiro, os cartões, o telemóvel, estavam todos comigo e não na mochila roubada — thank Heaven for small mercies).

Sei, em contra-partida, que os polícias com quem falei, naquela tarde chuvosa que passei na esquadra da Guardia Urbana de Las Ramblas e, depois, na esquadra dos Mossos d'Esquadra do Carrer Nou de la Rambla, foram extremamente simpáticos, de uma cortesia inigualável e de um cosmopolitismo a toda a prova. Um deles — que atendera um casal de turistas igualmente roubados — falava um alemão fluentíssimo e sem sotaque, e, quando lhe expliquei que era português, falou comigo em catalão e disse-me que falasse em português que ele me entendia perfeitamente (e entendeu). Outro falou comigo em português perfeito, sem sotaque. E em ambos os casos percebi que este tipo de roubos são o pão nosso de cada dia na cidade condal: no Carrer Nou de la Rambla, a fila de atendimento para participação de roubos ultrapassava a hora de espera, valor essa ampliado do habitual pela quantidade de turistas que visitavam a cidade em início de semana santa.

Mas nós pensamos sempre que só acontece aos outros.

5 de abril de 2007

DESIGN UTILITÁRIO NA CASA DE BANHO MODERNA

Mesmo à esquina do hotel Arts Barcelona, onde faz agora dez anos passei um magnífico fim-de-semana na cidade condal — e é mesmo literalmente à esquina —, fico instalado no recém-criado AB Skipper, que não lhe fica atrás em termos de sofisticação: o televisor é um Sony Bravia écrã plano incrustado na parede, com um DVD ao lado; a decoração é toda em bom gosto minimalista quase-escandinavo; o quarto tem até uma porta embutida que permite separar a zona de dormir da casa de banho. (Por outro lado, o isolamento sonoro era fraquinho, porque a chuva a cair ouvia-se toda na casa de banho, que nem sequer ficava encostada à fachada, o ar condicionado estava demasiado quente e não havia sabonete na casa de banho, apenas gel.)

O mais curioso, no entanto, foi o futurismo cromado dos chuveiros da casa de banho: um instalado na banheira grande, o outro num poliban glorificado revestido a vidro com uma porta deslizante partilhada com o WC, com ar de microfones metálicos. E antes que os conseguisse pôr a trabalhar?... Digamos apenas que não é nada intuitivo ter de girar a torneira da água fria apenas para ligar o chuveiro e regular a intensidade do fluxo de água, e a da água quente apenas para regular a temperatura da água. Perdi uns bons cinco minutos a tentar perceber onde raio abria a água. Quando descobri, consegui não me sentir burro. Digamos que é um mau exemplo de design: forma que não explica a função.

4 de abril de 2007

A RAINY NIGHT IN BARCELONA

Está a chover em Barcelona neste princípio de semana santa mas, apesar da chuva, a cidade está cheia de turistas (estrangeiros e espanhóis) e nativos que enchem os restaurantes do Barri Gotic - e ainda só são nove e meia. Acabo a jantar uma refeição sem especial requinte (apesar da carne grelhada ser de boa qualidade) numa "brasserie" do outro lado da rua do recém-renovado Palau de la Musica, dos poucos restaurantes que não está cheio, sobretudo porque esta noite não há espectáculo. Se ainda deu para apanhar o metro da Vila Olimpica para o centro antes (bilhete só de ida, €1.25), à saída do restaurante está a cair água a potes, forçando-me a apanhar um táxi de regresso ao hotel. Já depois de recolher, o temporal dura cerca de três horas, com relâmpagos e trovões a intervalos regulares e chuva a cair a potes; a 3/24 fala de cheias e recordes de precipitação na Catalunha.

02/04/2007: TP0756, LIS 16h25 - BCN 19h05

Quando chego ao aeroporto, os altifalantes emitem avisos da TAP anunciando atrasos nos seus vôos de minuto a minuto. O meu vôo para Barcelona está 40 minutos atrasado e o check-in ainda nem sequer começou, com a voz impessoal nos altifalantes a anunciar que o atraso se deve à chegada tardia do avião. Depois, no embarque, a mesma voz anuncia que se vai dar início ao embarque... mas, no balcão de embarque, não está ninguém.

Não há muitos passageiros — aí uns 30 se tanto — que descem para o autocarro que nos leva ao avião. Quando lá chegamos, o condutor do autocarro irrita-se por ninguém lhe dizer para abrir a porta; sai, vai à escada do avião, bate no corrimão, acaba por subir a escada. Desce pouco depois, entra, senta-se, fica a pensar e depois arranca com o autocarro de regresso à entrada. Quando lá chega, sai e explica que voltou para trás porque o avião estava vazio e não podia ficar ali à espera connosco no autocarro; sobe ao balcão de embarque para perceber o que se passa, e passados alguns minutos regressa informando que a tripulação já está a bordo.

O vôo acaba por sair com uma hora de atraso, com as desculpas da tripulação que atribuiu o atraso adicional a problemas meteorológicos em Barcelona (está a chover quando chego, e deparo com uma noite de temporal com fortíssima trovoada durante quase duas horas). Mas o que não percebo mesmo é como, com um avião vazio, me colocam exactamente ao lado de uma senhora que passou o vôo todo a tossir e expectorar.

3 de abril de 2007

LISBOA-BARCELONA-LISBOA

...em 24 horas: o check-in atrasado, o café mau, o condutor furioso, o avião sem tripulação, a guia turística com tosse, a basílica que não é catedral, a catedral que não é basílica, os restaurantes que estão cheios, o jantar nem-por-isso, o hotel luxuoso minimalista, o chuveiro tão estilizado que não percebo como se liga, o boné Kangol, o polícia catalão que me entende a falar português, o tradutor que fala português perfeito sem sotaque, o taxista com varicela, os africanos que não comem a sanduíche da TAP, o comissário de bordo bem disposto, o fusível do táxi.

Tudo isto em 24 horas... a seguir (continua).

31 de março de 2007

POLAROID: ELÉCTRICO 28

É fim-de-semana. O 28 devia ser exclusivo dos turistas e passar a intervalos regulares, visto que o trânsito de Lisboa é teoricamente menor — mas leva quase meia-hora a aparecer um eléctrico que, ainda por cima, vem de tal maneira cheio que não pára, tal como na hora de ponta de dia de semana. (Já que a Carris tanto andou a falar de renovação de redes e maior atenção ao consumidor, podiam ao menos tentar que o sistema de informação de próximos autocarros/eléctricos funcionasse e não alterasse a informação de cinco em cinco minutos.)

Mas, cinco minutos depois, aparece outro 28, este menos cheio. O meu recém-carregado passe recusa-se a validar, pelo que me desvio para o lado do condutor para deixar outros passageiros entrar enquanto volto a tentar, e depois de conseguir percebo que descobri o sítio ideal para fazer a viagem: de pé, à frente, à esquerda do condutor, encostado à divisória, na primeira fila da viagem. E é muito bonito ver Lisboa na pequena montanha-russa em slow-motion que é viajar de eléctrico, apesar dos carros que de vez em quando obstruem a linha para deixar sair ou entrar gente e dos velhotes que atravessam à lagardère no meio da rua como se toda a gente tivesse de parar para eles e dos maus condutores que fazem todo o tipo de manobras só para não ficaram entalados atrás do eléctrico.

Fiquei também a perceber que os condutores de eléctricos não têm a vida fácil.

29 de março de 2007

POLAROID: ANCHOVAS

Na cafetaria do Corte Inglés, à hora do almoço, duas senhoras, que me parecem mãe e filha, sentam-se na mesa do lado. Estou sentado de frente para a filha, à beira dos 30, cabelo escuro, vestida de modo informal e discreto mas com evidente cuidado. Vendo a empregada da zona ocupada a tirar contas, levanta-se para ir buscar dois menus. Quando a empregada vem atender o pedido, ouço-a pedir uma salada de atum, mas com anchovas em vez de pimentos. Passados cerca de dez, quinze minutos da empregada ter tirado o pedido, já com as bebidas na mesa, a jovem, com ar enfadado, diz a um "maître d'" que passa que se devem ter esquecido dos seus pedidos, que chegam logo a seguir pelas mãos de um empregado que pede desculpa por ter demorado um pouco mais, "mas era um pedido especial". Quando o empregado vira costas, a jovem empertiga o nariz e, com o seu melhor ar burguês das Avenidas Novas, lança: "pedido especial? trocar pimentos por anchovas?"

28 de março de 2007

MARAVILHOSOS INSULTOS POLITICAMENTE INCORRECTOS #1

O título é mesmo para não dizer que não vos avisei. Porque há umas quantas conjugações de palavras que são tão improvavelmente inspiradas que dá vontade de as usar desta exacta maneira e que se lixem as correcções políticas (que para isto dos insultos também não são cá chamadas de qualquer maneira, as lésbicas, as místicas e os militantes do Bloco de Esquerda que me desculpem em todo o caso antecipadamente) — esta é cortesia do Ex-Citador (link aqui ao lado s. f. f.):

"fufa mística do Bloco de Esquerda"

RECLAMAÇÃO, RECLAMAÇÃO, RECLAMAÇÃO, RECLAMAÇÃO

Tive que ir hoje levantar ao correio uma prenda de anos que me foi enviada por um amigo americano. O DVD tinha sido encomendado pela Amazon e foi-me enviado directamente pela Amazon; dentro da caixa (que, evidentemente, tinha sido aberta para inspecção postal) o DVD vinha embrulhado com uma fita e um cartão de parabéns (que, evidentemente, não tinham sido abertos para inspecção postal).

O facto de, evidentemente, se tratar de uma prenda (ninguém se dá ao trabalho de encomendar um DVD para si próprio e de o pedir embrulhado...) não impediu de me serem cobrados 13 euros de direitos alfandegários como se tivesse sido eu a encomendá-lo. Fiz questão, no instante, de preencher um impresso de reclamação.

27 de março de 2007

PEQUENA MEDITAÇÃO SOBRE A ESTUPIDEZ

A estupidez, em si, já não me surpreende. Que continue a haver muita gente estúpida, também não; e que os meus caminhos se cruzem quotidianamente com alguma dessa gente estúpida, ainda menos.

Que as pessoas se comportem como se tivessem orgulho nessa estupidez é que eu já não acho normal. Mas eu até os percebo: num Portugal que escolhe Salazar e Cunhal como "os grandes portugueses", de que outra coisa se podem eles orgulhar?

26 de março de 2007

UMA POSSÍVEL DEFINIÇÃO DE VOLÚPIA

Deixar dissolver um quadradinho de chocolate na boca.

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Segundo os espectadores da RTP, os três maiores portugueses de todo o sempre são do século XX: um ditador que deixou o país na ignorância, um político comunista fundamentalista ortodoxo e um diplomata abnegado que se sacrificou pelos que estavam pior que ele.

Não sei se já olharam bem, mas é um quadro muito português. Um pai tirano, um filho revolucionário, um bom cristão.

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #77

Cavernícola.

(com um agradecimento ao Luís)

23 de março de 2007

Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #12



É um dos meus discos de cabeceira. Underworld, Everything, Everything (Junior Boys Own/V2, 2000)

(em baixo, o video de "Cowgirl")

21 de março de 2007

Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #11



Kate Bush, Aerial (EMI 2005)

(em baixo, o video de "King of the Mountain")

ESTES PUBLICITÁRIOS SÃO UNS EXAGERADOS

Desculpem qualquer coisinha: a propósito dos novos cartazes da Sagres Bohemia (passe a publicidade, eu nem gosto de cerveja), como é que se passa de Pierce Brosnan a Luís Represas?

20 de março de 2007

PEQUENA DÚVIDA EXISTENCIAL

OK, alguém que faça o favor de me explicar porque raio é que eu levo tanto tempo a fazer sudoku de nível "fácil" como os de nível "médio" ou "difícil". Quem é que anda a trocar o raio das etiquetas?

18 de março de 2007

COMO RECICLAR UM VESTIDO DE NOIVA

A cauda de um vestido de noiva é uma espécie de carro-vassoura: limpa atrás de si toda a sujidade que apanha. Ou como afinal é possível dar outras utilidades a roupas que teoricamente só se vão vestir uma vez: usá-lo para limpar a casa. (Não sei muito bem é quanto tempo é que isso pode durar sem ter de ir à lavandaria.)

16 de março de 2007

DEIXA-ME OLHAR PARA TI

No metro, enquanto o comboio não chega, um quarentão careca, vestido de casaco de napa a fingir da pele preta sobre camisa preta, jeans descoloridos da moda sobre ténis brancos, olha fixamente para uma jovem dos seus 20 anos, com a preguinha de barriga a mostrar-se entre a T-shirt por baixo da camisa e as calças de ganga justas na cintura. O senhor não tira o olho da jovem, misto de desejo, luxúria, nostalgia, ao ponto de se tornar ostensivo, impossível de não reparar. Dura o tempo de o comboio chegar e da curta viagem até à estação seguinte, onde o senhor sai, parando inclusive nas escadas para olhar, através da janela do comboio, para a jovem, como quem não quer deixar tal visão para trás. Será que ela reparou? E será que ele reparou que todos repararam?

15 de março de 2007

POLAROID: AUTOCARRO 738

Um senhor idoso faz sinal ao autocarro para abrir a porta, aproveitando o sinal vermelho; mas o autocarro está precisamente entre duas paragens e equidistante de ambas, pelo que o condutor não abre a porta. O senhor continua a insistir, apontando para o sinal vermelho, como quem diz "seja simpático, abra lá a porta, o sinal até está vermelho", mas o condutor não abre a porta. O senhor acaba por desistir e começa a descer em direcção à paragem anterior, resmungando entre dentes.

14 de março de 2007

AINDA A PROPÓSITO DA VINGANÇA DO CLIENTE INDIGNADO

Recebo eu hoje no meu telemóvel esta simpática mensagem da TVCabo:

"Informamos que terminaram os trabalhos de melhoria da rede TVCabo na sua zona. Gratos pela sua compreensão."

É simpático. Sobretudo quando não recebi nenhuma mensagem a informar que havia trabalhos de melhoria de rede na minha zona.

13 de março de 2007

Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #9



Vincent Delerm, Les Piqûres d'araignée (Tôt ou Tard, 2006)

Em "repeat". Como convém. (Em baixo, o video do single "Sous les avalanches".)

A VINGANÇA DO CLIENTE INDIGNADO

Recebi hoje, pouco depois do jantar, uma simpática chamada de uma simpática senhora do serviço de clientes da TVCabo a querer interessar-me no pacote de internet da empresa. Quando ela me perguntou se eu já tinha internet e eu respondi que sim e ela me perguntou, "mas não é da Netcabo?", eu aproveitei a deixa para lhe dizer que não e para lhe explicar que não era da Netcabo por culpa da TVCabo, seguido de uma educadíssima, civilizadíssima e indignadíssima descompostura pela lata de um serviço de clientes que funciona mal andar a telefonar para as pessoas a perguntar "então não quer aderir ao nosso serviço?".

Desconfio que a TVCabo não me vai voltar a telefonar tão cedo.

12 de março de 2007

CUIDADO, MÃE AO VOLANTE

É sempre agradável estar a atravessar uma passadeira de peões e perceber de repente que uma mãe ao volante de uma carrinha está a fazer marcha atrás em cima da passadeira sem prestar atenção a eventuais transeuntes.

11 de março de 2007

CRISTIANO RONALDO, A CULPA É TUA

A conjugação de T-shirts de alças ou sem mangas, cabelos curtos com gel e brincos, no que é vulgarmente designado por "look Cristiano Ronaldo", deveria ser proibida por lei, sob o pretexto de se evitar que muito boa gente andasse por aí a fazer figura de parvo.

9 de março de 2007

ESQUERDA CAVIAR

É possível defender os direitos do trabalhador vestido com um pullover Lacoste?

8 de março de 2007

POST FELINO SEMANAL

Hoje intitulado: "Gato recém-acordado de soneca retemperadora dentro de destruidor de papéis e com cara de poucos amigos"

5 de março de 2007

HIGIENE PESSOAL NO MARQUÊS DE POMBAL

O senhor de meia-idade, já meio careca mas ainda com cabelo, levanta-se do assento para sair na próxima estação, instala-se frente à porta da carruagem de metro. Vendo-se reflectido no vidro da porta, puxa de um pente que trazia no bolso de trás das calças e começa a pentear o cabelo, que de repente parece mais sujo e desgrenhado do que antes.

4 de março de 2007

PÓS-ECLIPSE

Lua cheia nos céus negros de Lisboa, círculo perfeito de um branco limpo, luminoso e cintilante como há muito não se via.

3 de março de 2007

PALAVRAS SÁBIAS

"Os pontos fracos de um livro são frequentemente a contrapartida de intenções vazias que não soubemos realizar."

— Gilles Deleuze, in Diferença e Repetição (Lisboa: Relógio d'Água, 2000)

2 de março de 2007

PALAVRAS SÁBIAS

"Ter 40 anos, no fundo, é um pouco como ser judeu. É o olhar dos outros que nos faz tomar consciência disso."

"Para mim, exprimir o meu desejo não tem nem nunca terá nada de humilhante."


— Marie-France Pisier, actriz francesa, em entrevista a Sophie Grassin na edição de Dezembro de 2006 da revista Premiére

O POVO EM LUTA

Estava eu a ver as reportagens da manifestação da CGTP de hoje, com deputados e figuras públicas a dizerem que as coisas nunca estiveram tão más para os trabalhadores e tão boas para o capital, e de repente senti que estava outra vez nos "anos quentes" do pós-25 de Abril ou da década de 80. Terei sido o único?

1 de março de 2007

Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #8



The Band, A Musical History (Capitol, 2005)



Lloyd Cole, Antidepressant (Sanctuary, 2006)

28 de fevereiro de 2007

Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #7



June Tabor, A Quiet Eye (Topic Records, 1999)



June Tabor & Martin Simpson, A Cut Above (Topic Records, 1980)

O MARAVILHOSO MUNDO ANIMAL


A pedido de várias famílias, apresento-vos D. Diogo Antunes da Silva von Satori de Mourinha.

26 de fevereiro de 2007

A MULHER CAMUFLADA

Acho muito bem que as mulheres também sejam militares, que eu não sou daqueles que acha que há profissões que deviam ser reservadas aos homens ou que as mulheres não se deviam meter em coisas de homens. Agora, aqui entre nós, aquele carrapitozinho que as mulheres-soldado usam é que não está mesmo com nada: não se consegue ver ali uma jovem ou uma mulher interessante, é como estar a olhar para a vizinha velhota do quarto esquerdo.

25 de fevereiro de 2007

OS PINGUINS LEGISLAM VIOLENTAMENTE

Mas não são esses em que vocês estão a pensar. São estes. Só as capas dão vontade de comprar todos.

24 de fevereiro de 2007

AINDA A PROPÓSITO DO COMUNISMO

A capa do último "Avante!" (que o dono de uma tabacaria perto de minha casa exibe ostensivamente entre os outros jornais) traz o título "PCP exige novo rumo para o país". No que não são nada originais. Todos os partidos da oposição acham o mesmo. Assim não sei se vão conseguir novos leitores.

23 de fevereiro de 2007

O COMUNISMO, A MODA E O CANTOR

Diz hoje Kalaf ao Público, questionado sobre José Afonso, que "ele era comunista, e saiu de moda ser comunista" como se a política fosse uma questão de moda. Não é exactamente assim: durante muitos anos, associou-se em Portugal "ser de esquerda" a "ser comunista", porque, durante o regime de Salazar, os dois conceitos eram sinónimos e o comunismo era a única resistência activa organizada de esquerda à direita no poder. Os tempos exigiam uma divisão preto-no-branco, dicotómica; um pró/contra.

Hoje já não é bem assim, as certezas estilhaçaram-se, há muitas maneiras de se ser de esquerda sem se ser comunista e de se ser de direita sem se ser fascista. Se José Afonso continua preso ao comunismo tal como ele era então entendido, a culpa não será tanto dele como daqueles que, sendo de esquerda, entenderam por bem reivindicá-lo como exclusivamente seu, e sublinharam a dimensão política da sua música.

Com isso, fizeram o pior que se podia ter feito a José Afonso: encerraram-no numa redoma dourada, que reduz a sua música a uma única dimensão, e provavelmente a menos interessante. José Afonso não se esgota - nunca se esgotou - na política que necessariamente enformou o seu trabalho. Mais do que de esquerda, ele era um resistente; e essa resistência partia sempre de uma música que queria abrir novos caminhos para a canção cantada em português, aberta às raízes e às invocações de África, aberta à evolução e à diferença.

A música de José Afonso nunca foi fechada. Nós é que a quisemos sempre fechar numa gaveta. E todas as gavetas são redutoras.

22 de fevereiro de 2007

OS PORTUGUESES SÃO MUITO DESCONFIADOS

Estava eu pacatamente na caixa do supermercado quando aparece uma idosa de bengala, muito devagar, que sem dizer água vai se chega à empregada que me está a atender e lhe disse, "olhe! enganou-se a dar-me o troco". Esteve-se perfeitamente a borrifar para o facto da empregada estar a atender outro cliente, tirou da carteira o recibo e mostrou-lhe. "Eu dei-lhe uma moeda de dois euros e você não me deu o troco certo". A empregada olhou para o recibo e disse-lhe, "dei-lhe o troco certo sim senhora, a conta eram onze euros e vinte e um cêntimos e eu dei-lhe setenta e nove cêntimos de troco".

No entanto a idosa de bengala não se deixou convencer e ficou ali a insistir durante vários minutos que a empregada se tinha enganado a dar-lhe o troco e que queria que ela lhe desse o troco certo.

20 de fevereiro de 2007

O FELINO TRANSSEXUAL

Quando fui para Berlim, tinha uma gata chamada Sofia.

Agora que cheguei de Berlim, descubro que a gata chamada Sofia afinal é um gato. Aquelas protuberâncias não enganam.

Por sugestão da fã nº 1 da Amélia Muge, estou a pensar em chamar-lhe Urso.

AFASTA DE MIM ESSE CÁLICE, PAI

Berlim é o pesadelo dos gulosos. Está cheia de cafés e confeitarias que servem doces maravilhosos. Não estou a falar apenas das célebres bolas de Berlim (ali conhecidas por "Berliners" ou "Berliner Pfannkuchen"), nem das dezenas de Dunkin' Donuts que vendem donuts à americana com inúmeras variações locais (como o Muffin Schwarzwald), nem da célebre Sachertorte.

Estou mesmo a falar de confeitarias com fabrico próprio, como o café LebensArt (Unter den Linden, 69A, comboio S1/S2/S25 Unter den Linden, autocarro 100 ou TXL, futuro metro U55 Brandenburger Tor), que tinha uma selecção de bolos de salivar até à quinta casa. Ainda não percebi exactamente o que raio era a "Herrentorte" que eu comi (reconheci camadas de pão-de-ló e um creme aromatizado, com cobertura de chocolate e amêndoa), mas lá que era maravilhoso, lá isso era.