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27 de abril de 2007

A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA #15



Por motivos profissionais, tenho passado muito tempo no Forum Lisboa, que convém sempre explicar ser o antigo cinema Roma — e, por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, imprimiu-se agora um pequeno caderninho com a história daquela sala inaugurada em Março de 1957 e encerrada à exibição cinematográfica em Outubro de 1988, numa altura em que os seus perto de mil lugares já haviam deixado de fazer sentido.

Arquitectonicamente, o Roma construia-se como um daqueles anfiteatros em declive (com os balcões no prolongamento desnivelado da plateia em vez de suspensos como varandas) que, por exemplo, o Europa (Campo de Ourique) também tinha, com uma daquelas magníficas fachadas "cegas" típicas da década de 50. Nunca foi sala que eu tivesse frequentado muito — os meus "poisos" mais regulares eram as noites de estreia do Império, do Monumental, do São Jorge... - mas o Roma tem um lugar muito especial na minha memória porque foi a primeira sala de Lisboa onde fui ao cinema sozinho, no final do Verão de 1980, para ver "Vagabundos Selvagens", um western que hoje se diria "crepuscular" de Blake Edwards com William Holden e Ryan O'Neal, numa "matinée" de terça-feira das reposições que eram então hábito regular das temporadas de Verão dos cinemas de Lisboa.

Foi também lá que vi o filme-concerto que Hal Ashby rodou com os Rolling Stones, "Let's Spend the Night Together" (cujo título em português não me vem agora à mente), e o "Purple Rain" com Prince, que fez uma semana de exibição, numa tarde de semana de 1985 com cinco pessoas na sala e uma projecção escandalosamente má. E foi lá que vi, em 1986, o "Era uma Vez na América" de Leone, na versão integral europeia de quase quatro horas, numa sessão da noite que acabou para lá da uma da manhã numa sala já decadente, com não mais de uma dezena de pessoas numa sala de quase mil lugares desconfortável e fria.

Gosto de reencontrar no Forum Lisboa a traça e a arquitectura do velho Roma que foi armazém de cópias durante muitos dos anos em que esteve fechado.

25 de abril de 2007

25 DE ABRIL SEMPRE

Será que a inauguração do túnel do Marquês é mais uma achega para a relevância da expressão "25 de Abril Sempre"?

E TAO BOM SER ADOLESCENTE

Eu não costumo fazer estas coisas. Mas desde que piquei esta canção no site de Les Inrockuptibles que não quero ouvir outra coisa. Senhoras e senhores, The Teenagers, com "Starlett Johansson".

24 de abril de 2007

VOX POPULI

"Se português fosse a luz do mundo eu ia preferir viver no escuro"

(graffiti visto na estação de metro do Marquês de Pombal)

22 de abril de 2007

AS MASSAS FALARAM E MOVIMENTARAM-SE

Cerca de 5900 militantes votaram em Paulo Portas para novo presidente do CDS. Cerca de 1900 votaram em Ribeiro e Castro.

COISAS QUE NÃO SE DEVEM FAZER AO PÉ DE UM GATO

Beber um iogurte líquido: enquanto não acabo de o beber, o meu gato não me larga e assim que pouso a garrafinha ele precipita-se para lamber o resto.

19 de abril de 2007

DISLEXIAS POLITICAMENTE INCORRECTAS

Olhando eu hoje da janela do autocarro para uma carrinha de uma firma de enchidos, reparei que a frase "Pata Negra" estava pintada de um modo que a tornava muito fácil de tresler. Escusado será dizer que a correcção política que neste momento percorre a sociedade portuguesa me impede de escrever publicamente aquilo que eu li em vez do que devia ter lido, mas tenho certeza que a vossa experiência vos permitirá preencher o espaço em branco.

18 de abril de 2007

RECLAMAÇÃO, RECLAMAÇÃO, RECLAMAÇÃO, RECLAMAÇÃO (slight return)

Lembram-se da reclamação que fiz aos CTT por ter de pagar direitos alfandegários sobre uma prenda que vinha especificada como tal?

Recebi uma carta do apoio a clientes dos CTT que reza assim na íntegra (respeitando as maiúsculas e outras pontuações sortidas):

"Ex.mo(a) Senhor(a)

A comunicação enviada por V. Ex.a, mereceu por parte destes serviços a nossa melhor atenção e agradecimento.

Em face da questão apresentada esclarecemos que nos países de destino as encomendas estão sujeitas a taxas alfandegárias quer circulem pelos Correios quer por qualquer outra Via.

Certos da melhor compreensão para os nossos esclarecimentos, apresentamos os melhores cumprimentos"


Sentem-se esclarecidos? Eu também não.

17 de abril de 2007

BORLA AI

As filas da loja Ben & Jerry's na Rua da Misericórdia hoje eram descomunais. Muito pouco habitual, apesar dos gelados serem uma maravilha. Era o calor que convidava ao olá fresquinho?

Não. Estavam a dar gelados de borla.

16 de abril de 2007

POLAROID

O que distinguia aquela senhora de meia-idade com ar de beata portuguesa (o casaco de cores desmaiadas, o sapato raso, o cabelo grisalho, os óculos tintados, a mala discreta) era o cordão do Sapo que usava à volta do pescoço, com o casaco a tapar o que estava dele pendurado (o passe? as chaves? o telemóvel?).

15 de abril de 2007

MARIA (OU) ODETE

Parece que há quem ache que a voz da actual campanha de rádio da cervejaria Portugália recorda a inigualável (ex-)deputada do PCP Odete Santos. No entanto, sempre que a ouço não ouço nada disso e parece-me antes ouvir a Maria Rueff a fazer do taxista Zé Manel. Sou eu que sou surdo ou são os outros que estão a ouvir mal?

12 de abril de 2007

DISLEXIA

Ao ver um cartaz de um solário anunciando uma "massagem localizada", apercebi-me que um disléxico a leria como "mensagem localizada" e acharia que se tratava de uma promoção a um tarifário de SMS.

11 de abril de 2007

POLAROID: LARGO DO CHIADO

Passa pouco das 13h00. Em frente à esplanada da Brasileira e à saída do metro, promovendo o que parece ser um livro, uma menina passeia-se arrastando uma coleira vazia e um senhor passeia-se de blazer, sapatos e meias, mas sem calças. Passa um eléctrico 28 com uma matrona portuguesa e resmungar. O sinal abre e o eléctrico parte, deixando espaço para dois homens atravessarem a rua, um deles com ar de operário, o outro com ar de cristianoronaldo. Este último diz alto, "Olha, ainda ali está o maluco dos calções!". Repete-o em voz alta para que todos percebam que ele é muito engraçado, mas ao fazê-lo quase tropeça num dos pilares que impede o estacionamento no largo, olhando em volta muito incomodado.

10 de abril de 2007

OS MENDIGOS JÁ NÃO SÃO O QUE ERAM

Os mendigos de Leste de que vos falei há algumas semanas insistem em continuar a instalar-se regularmente à porta do meu supermercado, desta vez com uma criancinha loura e razoavelmente asseada.

No entanto, depois de ter visto hoje a criancinha a usar um par de óculos escuros, cada vez mais duvido que consigam convencer alguém.

9 de abril de 2007

7 de abril de 2007

03/04/2007: TP 737, BCN 19h50 - LIS 20h35

Saio da esquadra de Las Ramblas e dirijo-me a pé para a Plaça de Catalunya para apanhar táxi para o aeroporto; à minha volta, vejo turistas que passeiam sob o tempo frio e encoberto arrastando atrás de si mochilas e malas, pergunto-me quantos deles ainda as terão consigo pelo fim do dia enquanto, ainda abananado pelo que acabou de acontecer, procuro incessantemente por um sinal da minha mochila. Acabo por apanhar táxi na praça de táxis, o taxista, bem-disposto, pergunta-me em castelhano se tenho trajecto preferido, respondo-lhe igualmente em castelhano que vá pelo que lhe parecer mais rápido, ao que ele responde que, com este tempo, é moeda ao ar. Ao que parece, os condutores barceloneses em tempo de chuva são iguais aos portugueses, e o taxista, entre contar a desgraça que foi voltar ao trabalho com mau tempo depois de ter estado uma semana de cama com varicela, resmunga com os velhotes que atravessam a rua fora das passadeiras.

Já no avião de regresso a Lisboa, penso que é estranho fazer uma viagem sem bagagem. Enquanto vou alinhavando no meu bloco notas para a peça que vim cá fazer, dou por mim sentado na fila atrás de três africanos que viajam sozinhos mas muito rapidamente metem conversa, apesar de só um deles falar português fluente. Nenhum deles come a refeição ligeira oferecida pela companhia, para espanto do comissário de bordo; um deles ainda vê o que é antes de dizer que não, obrigado.

Quando o avião aterra e me dirijo para a saída, volto a achar ainda mais estranho atravessar a zona de recolha de bagagem sem mochila. A única recordação física que trago comigo desta viagem-relâmpago é o boné Kangol azul-quase-negro que comprei no Corte Inglés da Plaça de Catalunya para proteger a minha moleirinha da chuva que foi caindo.