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19 de janeiro de 2007

BREL

Por causa da FRD apeteceu-me partilhar convosco o quão arrasador era Jacques Brel em palco. Brel sempre foi o meu "chansonnier" francófono preferido, pela honestidade brutal e perturbadora das suas canções. Até hoje, não consigo ouvir nenhum disco dele, nem vê-lo em palco sem me embargar até às lágrimas — porque Brel não era apenas compositor, não era apenas intérprete, era outra coisa, de uma intensidade avassaladora. Confirmem.

PARAGEM DE AUTOCARRO

Há paragens de autocarro em sítios de Lisboa que não lembram a ninguém. E a distância entre paragens de autocarro (e também estações de metro) em Lisboa é geralmente muito curta, sobretudo quando comparada com igual distância noutras cidades europeias (na distância entre duas estações de metro em Londres caberiam pelo menos três paragens de metro em Lisboa).

18 de janeiro de 2007

DEPOIS DISTO, COMPLETAMENTE SIM

Tinha hoje na minha caixa de correio um panfleto da plataforma contra o aborto "Portugal pela Vida", da qual transcrevo as seguintes informações:

"Sabia que...

- Às 10 semanas de gravidez, o bebé tem praticamente todos os órgãos formados e a funcionar com excepção dos pulmões?

- Nunca nenhuma mulher foi presa por crime de aborto em Portugal?

- A mulher corre o risco de vir a sofrer, após um aborto e até ao fim da vida, diversas sequelas de saúde nomeadamente depressões e outras doenças do foro psiquiátrico?

- Enquanto o Governo fecha maternidades, está disposto a financiar clínicas espanholas especializadas no aborto?

- Em todos os países onde foi liberalizado o aborto tem vindo a crescer? E esse crescimento não tem lugar apenas nos primeiros anos (por transferência de parte do aborto clandestino) mas é constante ao longo dos anos?

- Os casais que recorrem ao aborto correm um risco acrescido de ver terminada a relação que os une?

- Os defensores do Não, desde o último referendo, fundaram dezenas de associações de apoio às famílias, às mulheres e às crianças em situação fragilizada ou de risco para que a Vida seja possível e tenha lugar?

- Você também já teve 10 semanas e que foi o facto de não ter sido abortado que lhe permite estar a ler este folheto?"


A qualidade do panfleto fala por si. As conclusões ficam a cargo de quem as quiser tirar.

15 de janeiro de 2007

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Da excelente entrevista do romancista Miguel Real ao Mil Folhas da passada sexta-feira:

"(...) Portugal não tem que ser uma Irlanda, uma Finlândia, uma América, uma Alemanha. Assumir que Portugal se encontra num meio termo entre países, esses sim de facto atrasados e países de facto adiantados. Nós não precisamos de estar no pelotão da frente, ao contrário do mito que Sócrates e Cavaco continuam a alimentar. A que propósito? Sinto-me bem no pelotão geral, não estando nem no carro-vassoura nem na vanguarda. Aqueles dez estádios de futebol, que se vão transformar em elefantes brancos das câmaras; os melhores centros comerciais da Europa; a maior árvore de Natal da Europa; o maior bolo de chocolate da Europa — a farsa é querer jogar este jogo. Foi o que Eça denunciou: apontarmos para metas inatingíveis num prazo mediano."

14 de janeiro de 2007

O PERIGO É A PROFISSÃO DELES

Segundo dizia a TSF na manhã de quinta-feira, os passageiros da estação de Agualva-Cacém muitas vezes atravessam a linha do comboio à frente de um comboio que se aproxima. Eu vejo peões atravessarem a estrada à frente de carros que se aproximam a toda a velocidade todos os dias.

13 de janeiro de 2007

O MELHOR DE DOIS MUNDOS

Diz a edição desta semana da Economist, citando num artigo a propósito das duas mais recentes adesões à União Europeia (Roménia e Bulgária) um observador que conhece ambos os países: "In Romania the problem is getting them to work as a team. In Bulgaria the problem is getting them to show any initiative". Ele não conhece Portugal, que é a síntese perfeita dos dois.

ORA ESTA

Serei o único que anda a receber diariamente um porradão de "junk mail" dessa coisa chamada Orkut, acusando-me de ter um perfil em violação das regras da "comunidade" — quando eu nem nunca sequer fui ao Orkut?

11 de janeiro de 2007

OPIÁCEOS



Bem lembrado pela bem-amada ursa honorária, um dos mais magnéticos, magníficos e desconhecidos discos que ouvi na última década: "The Opiates" (Clearspot, 2001) dos suecos Anywhen, que o mesmo é dizer o alter-ego do melancólico Thomas Feiner, vagueando nas mesmas águas plácidas e nocturnas dos grandes românticos existencialistas urbanas. É um crime que este disco — o segundo do projecto, que desde então nunca mais deu notícias — não seja mais conhecido. Para perceber a magia, é favor ir aqui.

10 de janeiro de 2007

SIM OU NÃO?

Respeito as convicções daqueles que defendem acesamente o "não" à interrupção voluntária da gravidez, e daqueles que defendem acesamente o "sim". Mas acho que, em última análise, a decisão de abortar ou não abortar não é uma decisão da sociedade, é uma decisão da mulher que se coloca a questão de o fazer ou não. É uma decisão solitária, pessoal, intransmissível — e é por isso que todas estas discussões sobre o aborto me parecem, na maior parte das vezes, retóricas, teóricas, distantes da realidade das mulheres que enfrentam a decisão. Acho que abortar é uma decisão da mulher e de mais ninguém, e por isso sou contra qualquer tentativa de a impedir de tomar a sua decisão em plena liberdade. É sempre muito fácil querer decidir pelos outros, mas, mesmo com toda a boa vontade do mundo, a verdade é que cada caso é um caso.

Dito isto, os defensores do "sim" irritam-me por terem aquela superioridade moral típica dos liberais que não compreendem como é que pode haver quem não concorde com eles, e os defensores do "não" irritam-me porque parecem querer acreditar que tudo ficará bem com uma vitória do "não" (quando ela apenas prolongará os riscos desnecessários dos abortos ilegais). Se querem a minha opinião, acho que falta nesta conversa toda um pouco de bom senso — coisa que, geralmente, as mulheres até têm mais que os homens.

9 de janeiro de 2007

NINGUÉM SE CHAMA POSSIDÓNIO CACHAPA

Mas a verdade é que Possidónio Cachapa chama-se mesmo Possidónio Cachapa. Nunca tinha lido nada do escritor, mas vi o filme de José de Sá Caetano que ele escreveu, "Maria e as Outras" (2004), que não passava de um telefilmezinho banal sem sinais particulares. Na minha voragem literária recente, abalancei-me a "O Mar por Cima" (Lisboa: Oficina do Livro, 2002), que alguém me ofereceu em tempos, e, concedendo-me algo desiludido pelo modo como a coisa promete mais do que dá, não desgostei, sobretudo pela construção em mosaico e por alguns momentos de certeira observação da lusa natureza. Como este:

(...) Aurora estava convencida que pelo menos duas das suas múltiplas desgraças tinham sido causadas por palavras precipitadas. Por isso, desde então, tinha muito cuidado com os protestos contra o Divino.

A primeira tristeza caíra-lhe em cima, aos sete anos, quando Lhe declarou, uma noite, que ou o irmão mais novo morria ou ela não Lhe voltava a rezar. Disse isto e estava a sério. E Ele ouviu-a. Na tarde seguinte, ao chegar da venda, com uma saca de farinha à cabeça, percebeu na rua, grande agitação. Crianças que corriam a gritar o nome do infante; vizinhas que diziam, "Ai filha, grande desgraça". E, finalmente, a confirmação: O irmão pequeno tinha ido até aos fundos do quintal, os que davam com a ribeira e, como se corresse atrás de uma voz, tinha-se deixado escorregar para as águas revoltas, de Inverno. Ela ainda correu para o quarto a pedir-lhe por tudo que voltasse atrás, que haveria de ser sobre ela que as culpas recairiam. Mas em vão. Tiraram o pequeno sem vida de dentro das raízes de uma sucupira, o peitinho com equimoses e o rosto branco como um anjo. Deu um morto tão lindo que não houve quem não o chorasse. Aurora ficou um bocadinho ciumenta. Sabia que nunca viria a fazer uma defunta tão convincente, por isso agarrou-se à vida e acautelou os pedidos.

Prevaricou uma segunda vez ao pedir-Lhe um marido que gostasse de cinturas finas e vozes de pássaro. Na sua infinita paciência, fez-lhe, Ele, a vontade, dando-lhe Sabino que haveria de ganhar muito dinheiro e de a emprenhar amiúde. Trouxe a porra do sogro, como cadeau-bonus, mas já se sabe que não se pode querer comer rebuçados sem lhes tirar o papel. Aurora teve tudo o que quis. E ganhou, por tabela, o que não quis. Trabalhava de manhã à noite, do forno para o pó e deste para as arrumações. Rodeada, primeiro de ranho, em seguida de pernas sempre crescentes e más-criações, ainda assim, não desistiu da sua fé.

8 de janeiro de 2007

NÃO HÁ COMPRIMIDOS QUE RESOLVAM ISTO?

Tenho uma tendência chata para ficar na moleza na cama um bocado sempre que acordo; sempre tive, não é de agora. É-me difícil levantar-me imediatamente e dar início ao dia. Já D. Sofia não fica ali a perder tempo e começa logo aos pulos. E eu dou por mim a pensar porque não faço o mesmo (levantar-me logo em vez de ficar na moleza, não começar aos pulos). Alguém sabe de um bom remédio?

7 de janeiro de 2007

NÓS TAMBÉM SOMOS GENTE

Os jogadores de futebol querem fazer greve porque vão passar a ter de pagar imposto sobre a totalidade dos rendimentos em vez de só sobre apenas 90% dos rendimentos. Sou só eu ou há aqui qualquer coisa que não faz lá muito sentido?

6 de janeiro de 2007

SATURAÇÃO, SATURAÇÃO, SATURAÇÃO, SATURAÇÃO

Vocês não estão já fartos do Lisboa-Dakar, mesmo apesar de ter começado hoje?

POLAROID: ELÉCTRICO 28

No eléctrico cheio, uma senhora idosa que vai de pé logo atrás do condutor aproveita a paragem para lhe perguntar sobre o bilhete recarregável que usa e que, pela conversa, a senhora parece não saber que é recarregável. O pormenor é que, para fazer a pergunta ao condutor, a senhora coloca-se precisamente no enfiamento da porta de entrada, bloqueando o acesso a quem quiser subir para o eléctrico.

5 de janeiro de 2007

O NILO AZUL







Redescobrir os Blue Nile no meio do bulício da cidade (e que bem que estes discos continuam a soar, todos estes anos depois) é redescobrir música onde o silêncio tem tanto peso quanto o som. Música que respira, onde cada elemento cumpre uma função precisa, onde tudo faz sentido. E que transpira uma alma como nenhuma outra.

MAIS INFORMAÇÕES ASSIM QUE AS TIVERMOS

Declarações de um armador ao noticiário da RTP-1, na noite de terça, aquando de uma manifestação exigindo melhores condições de segurança para os pescadores: "Se não nos ouvirem vamos arrancar para um protesto verdadeiramente gravíssimo. Ainda não sabemos o que vai ser, mas vai ser gravíssimo."

4 de janeiro de 2007

POLAROID: METRO

Coloco-me na fila para carregar o passe do mês. À minha frente, está uma jovem acompanhada pela mãe, que tem um grande número de sacos de plástico ao seu lado. Antes de ser atendida, a jovem pergunta se aceitam pagamento com multibanco, ao que lhe dizem que sim, mas quando ela entrega o passe e diz o que quer carregar, o funcionário explica-lhe que ali não vendem aquele passe, apontando para um cartão improvisado colocado bem visível na janela da cabina a informar que ali só vendem os passes urbanos combinado Carris/Metro e a antiga coroa L. A jovem afasta-se resmungando que qualquer dia já não vendem aquele passe em lado nenhum, explicando à mãe que ali não vendem o passe suburbano de que ela precisa, e a mãe protestando também em voz alta, até que o funcionário liga o intercomunicador e diz que "minha senhora, já não vendemos aqui passes suburbanos há mais de três anos". E, virando-se para mim, "o que é que se há-de fazer? As pessoas insistem em vir aqui comprar coisas que nós lhe dizemos que não vendemos..."

Depois de ser atendido, sou abordado por uma senhora de sotaque rural, que me chama de "filhinho" e me diz, muito alto, como se estivesse em sua casa, que quer ir apanhar a camioneta (ou seria o comboio?) para Rio de Mouro. Respondo-lhe que não sei onde é que pode apanhar transporte para Rio de Mouro (o que é verdade), e ela diz que acha que sai de Sete Rios. Digo-lhe que nesse caso tem de apanhar o metro para a estação do Jardim Zoológico, que era naquela estação, e ela pergunta-me, sempre muito alto, se não lhe quero tirar o bilhete. Indico-lhe a cabina da bilheteira, e digo-lhe que ali a ajudam de certeza. Ela agradece, sempre muito alto.

3 de janeiro de 2007

POLAROID: AUTOCARRO

Sento-me no abrigo à espera que chegue o autocarro. Pouco depois, chega um senhor idoso, de bengala, movendo-se com dificuldade, que, antes de se sentar ao meu lado, me pergunta se estou à espera do 9 — o que, visto que é o único autocarro servido por aquela paragem, me parece uma evidência. Quando o autocarro chega, alguns minutos depois, o senhor idoso passa uma eternidade a pagar o seu bilhete, e recusa-se a sentar-se, apesar de haver lugares vazios e de haver até quem lhe ofereça o seu lugar, preferindo ir de pé, "à homem", bem agarrado às barras verticais. Apesar mesmo de o condutor não arrancar sem lhe perguntar se estava bem seguro. O homem insiste teimosamente que sim, mas rapidamente o vejo agarrar-se com as duas mãos, a bengala suspensa de um dos braços.

2 de janeiro de 2007

POLAROID: METRO

No metro, direcção Alameda-Oriente, começo de repente a sentir à minha volta um cheiro a urina antiga e bafienta, como se eu me tivesse sentado numa cadeira que em tempos havia sido urinada profusamente, ou como se alguém tivesse urinado no chão da carruagem e tivesse ficado mal limpo. Levou-me algum tempo até perceber que o cheiro emanava não do lugar ou do chão, mas sim da idosa de bengala que, acompanhada pelo marido, se havia sentado no banco atrás do meu.

1 de janeiro de 2007

TROCADILHO PATÉTICO PARA ENTRAR COM O PÉ DIREITO EM 2007

Se entrámos em 2007, podemos dizer que é um bond ano novo?

A IMPORTÂNCIA DO ASSEIO

Devo ter a única gata do mundo que faz questão de tomar duche com o dono (quando o dono a deixa, evidentemente) e adora acompanhar lavagens de mãos saltando para o lavatório e pondo a orelha e a pata debaixo da torneira.

31 de dezembro de 2006

2006 PESSOAS

The Mourinhas

David J. Dehner

D. Sofia Antunes da Silva von Satori de Mourinha (miau)

Aldina Duarte, Alexandra Prado Coelho, Alexandre Monteiro, Ana Cristina Ferrão, Ana Markl, Ana Ribeiro, António Abernu, António Pires, António Quintas, António Rodrigues, António Sérgio, Bárbara Reis, Bryan Harrison, Carlos Murganho, Celso Martins, Cristina Antunes da Silva, Cristina Marçal, David Beaulieu, Eunice Marques, Francisco Vieira, Hans van Vlouten, Helena Alves, Helena Brandão, Henrique Amaro, Inês Cristóvão, Inês Paes, Isabel Anselmo, Isabel Castaño, Isabel Coutinho, Isabel Salema, João Bonifácio, João Brandão, João Lisboa, João Lopes, João Macdonald, João Marques, João Carlos Roque, João Paulo Fonseca, Joaquim Bidarra, Johan van Grunsven, José Manuel Marques, José Manuel Osório, José Mateus, José Pinto, José Vieira Mendes, Joseph Pentheroudakis, Kurt Heintz, Lia Pereira, Luís Apolinário, Luís Guerra, Luís Miguel Oliveira, Luís Peixoto, Luísa Amaro, Luiz Costa, Marc Glady, Maria do Carmo Piçarra, Maria João Leitão Amorim, Maria Lisboa, Mário Jorge Torres, Marta Castaño, Marta Fernandes, Marta Lisboa, Michael W. Levy, Miguel Amorim, Miguel Francisco Cadete, Nuno Markl, Nuno Sena, Nuno Sousa, Paul Dostert, Paula Freitas, Paula Homem, Paulo Ochoa, Paulo Salgado, Paulo Seco, Pedro Alves da Veiga, Pedro Mexia, Pedro Sousa, Phillip Woodbury, Robert L. David, Rodrigo Cardoso, Rosário Morujão, Rui Brazuna, Rui Monteiro, Rui Pereira, Steve Carson, Steven Sykes, Susana Santos Monteiro, Tiago Castro, Vasco Câmara, Veronica Paine, Vítor Pinheiro, William Toro

CINCOQUATROTRÊSDOISUMZEROETCETCETC

AtodosumbomNataletc.etc.etc., ah, não, espera, isto foi a semana passada, pois foi, FelizAnoNovoeque2007vostragatudoaquiloquedesejaremetc.etc.etc.

OLHA SE O GATO FEDORENTO DESCOBRE

O oficial de dia da Brigada de Trânsito da GNR que estava a prestar declarações ao noticiário da hora de almoço do canal 1 era o tenente Lopes da Silva.

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #37

Canetas que se recusam a escrever em certas secções da página mas escrevem perfeitamente noutras.

30 de dezembro de 2006

2006 IMAGENS

1. The New World/O NOVO MUNDO, Terrence Malick, 2005
2. Le Temps qui Reste/O TEMPO QUE RESTA, François Ozon, 2005
3. Cars/CARROS, John Lasseter & Joe Ranft, 2006
4. Inside Man/INFILTRADO, Spike Lee, 2006
5. MIAMI VICE, Michael Mann, 2006

seguidos de:

Good Night, and Good Luck./BOA NOITE, E BOA SORTE, George Clooney, 2005
BUBBLE, Steven Soderbergh, 2005
Millennium Actress/A CHAVE DA VIDA, Satoshi Kon, 2001
Ghost in the Shell: Innocence/CIDADE ASSOMBRADA 2: A INOCÊNCIA, Mamoru Oshii, 2004
The White Countess/A CONDESSA RUSSA, James Ivory, 2005
THE DEATH OF MR. LAZARESCU, Cristi Puiu, 2004
The Departed/ENTRE INIMIGOS, Martin Scorsese, 2006
Little Miss Sunshine/UMA FAMÍLIA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS, Jonathan Dayton & Valerie Faris, 2006
A History of Violence/UMA HISTÓRIA DE VIOLÊNCIA, David Cronenberg, 2005
Mary/MARIA MADALENA, Abel Ferrara, 2005
MARIE ANTOINETTE, Sofia Coppola, 2005
MATCH POINT, Woody Allen, 2006
Caché/NADA A ESCONDER, Michael Haneke, 2004
Le Petit Lieutenant/A OUTRA FACE DA LEI, Xavier Beauvois, 2005
Paradise, Now!/O PARAÍSO, AGORA!, Hany Abu-Assad, 2005
PRIMER, Shane Carruth, 2004
The Passenger/PROFISSÃO: REPÓRTER, Michelangelo Antonioni, 1975
REQUIEM, Hans-Christian Schmid, 2005
Shanghai Dreams/SONHAR COM XANGAI, Wang Xiaoshuai, 2005
United 93/VÔO 93, Paul Greengrass 2006

2006 SONS

faltam, claro, coisas, mas é mesmo assim, nunca nos lembramos de tudo.

Carlos Bica & Azul: Believer: Enja/Dargil
Chico Buarque: Carioca: Biscoito Fino/EMI
Bypass: Mighty Sounds Pristine: Bor Land/Músicactiva
Johnny Cash: American V: A Hundred Highways: American/Lost Highway/Universal
Lloyd Cole: Antidepressant: Sanctuary/Farol
Elvis Costello & Allen Toussaint: The River in Reverse: Verve Forecast/Universal
Brian Eno & David Byrne: My Life in the Bush of Ghosts: Virgin/EMI
Gaiteiros de Lisboa: Sátiro: Sony BMG
The Gothic Archies: The Tragic Treasury: Songs from A Series of Unfortunate Events: Nonesuch/Warner-Farol
Mark Knopfler & Emmylou Harris: All the Roadrunning: Mercury/Universal
Marisa Monte: Infinito Particular: Phonomotor/EMI
The Mountain Goats: Get Lonely: 4AD/Popstock
Pet Shop Boys: Fundamental: Parlophone/EMI
Paul Simon: Surprise: Warner Bros./Warner-Farol
Scritti Politti: White Bread, Black Beer: Rough Trade/Edel
TV On The Radio: Return to Cookie Mountain: Touch & Go/4AD/Popstock
vários artistas: The House that Trane Built: The Story of Impulse Records: Impulse/Universal
Caetano Veloso: : Emarcy/Universal
Tom Verlaine: Around: Thrill Jockey/Ananana
Scott Walker: The Drift: 4AD/Popstock
Weekend: La Variété: Cherry Red

29 de dezembro de 2006

CARREIRA 9

Curvando das faixas centrais da avenida da Liberdade para a faixa interior lateral no cruzamento com a rua Barata Salgueiro no sentido Restauradores-Marquês de Pombal em direcção ao Rato, o autocarro articulado da carreira 9 vê-se impossibilitado de fazer a curva; há uma carrinha parada, os piscas acesos, um pouco à frente da esquina que bloqueia a continuação da manobra. O condutor buzina um par de vezes, os passageiros do autocarro mostram algum interesse; rapidamente se apercebem do que se está a passar e começam a ouvir-se suspiros, há quem "bufe", há quem olhe para o relógio, há quem tente meter conversa com o vizinho do lado, com os habituais resmungos nacionais que se queixam de que isto é uma pouca vergonha e a polícia só vai aparecer quando já não for precisa. O condutor contacta por rádio a central informando de que está retido por um carro mal estacionado, entretanto abre a porta da frente para quem não quiser ficar à espera; alguns passageiros aproveitam e saem. Os carros que querem seguir o mesmo caminho mas o têm bloqueado pelo autocarro buzinam mais um bocado. Passam mais alguns instantes, e chegam dois polícias de giro, que comunicam a matrícula do carro à central e começam a passar um auto quando o condutor da carrinha chega, com ar de quem está a ter um dia mau que está mesmo à beira de ficar pior; entra na carrinha e manobra-a para deixar passar o autocarro, que os polícias querem ter uma palavrinha com ele. Tudo não terá durado mais de cinco minutos e o autocarro articulado da carreira 9 retoma o seu percurso.

28 de dezembro de 2006

AGENTE 117

Pela vossa saudinha, façam por não perder isto, a partir de hoje no King e no Monumental. 007 morreria a rir.

27 de dezembro de 2006

SUSTOS

Que as pessoas atravessem a rua fora das passadeiras ou com o sinal vermelho quando a estrada está vazia e não se aproximem carros, eu percebo. Que o façam com muito trânsito e a aparecer a correr de um sítio onde não se consegue vê-las (como por exemplo de trás de um camião de lixo), já me parece um bocado má ideia. Que o façam com muito trânsito e a aparecer a correr de um sítio onde não se consegue vê-las às duas da manhã e com uma óbvia bzana a toldar o raciocínio, isso então acho que é completamente irresponsável.

26 de dezembro de 2006

E DEPOIS DO NATAL

A grande ressaca do Natal mede-se pela quantidade de sacos de plástico e papel com embrulhos rasgados e desfeitos, caixas de cartão, placas de esferovite e afins que atulham os caixotes de lixo na noite de 25. Saciado o consumismo, tudo continua como dantes.

25 de dezembro de 2006

AS DUAS FACES DE D. SOFIA

O David bem tinha avisado que a ideia de uma reunião de família felina à consoada era — cito — "lunacy". Mas a verdade é que a grande reunião de família felina (mãe Gueixa Antunes da Silva von Satori, pai Gattuso Apolinário de Lisboa, filhos Sofia de Mourinha, Bowie von Satori, Matilde von Satori e Cowboy de Lisboa) ultrapassou largamente todas as expectativas.

Os seis gatos reunidos ignoraram olimpicamente todos os humanos presentes para se concentrarem exclusivamente uns nos outros, à excepção da mãe Gueixa que se pavoneou olimpicamente ignorando toda a gente. E, para meu grande espanto, D. Sofia revelou a sua verdadeira faceta de cruel e impiedosa castigadora de gatos, aviando bofetada de meia-noite nos irmãos e até no seu pai, rosnando, chiando e no geral provando ser o terror que ninguém diria ela ser neste momento em que dormita educadamente no meu colo. Não parou quieta toda a noite e passou o tempo a provar a sua raça e garra de caçadora impondo-se altivamente à família — e fartou-se de resmungar e de miar quando deu por si fechada na caixa de transporte de regresso a casa. Acho que tenho uma gata psicótica.

(A todos um bom Natal, a despropósito.)

24 de dezembro de 2006

AVISO ÀS BALZAQUIANAS DE TODO O MUNDO

A minha amiga Isabel avisa todas aquelas que estão à espera de uma máquina de café Nespresso no sapatinho que o George Clooney NÃO vem incluído com a máquina.

22 de dezembro de 2006

JÁ TEVE O SEU ORGASMO HOJE?

Hoje é o dia do primeiro "Orgasmo Global Sincronizado Anual pela Paz", organizado por um casal de activistas americanos que querem que o mundo desvie hoje as suas energias negativas para o supremo prazer de gozar em nome da paz. Juro que não estou a inventar nada.

20 de dezembro de 2006

HÁ QUE DIZÊ-LO COM FRONTALIDADE

Já não sei quem me ofereceu "No Interior da Tua Ausência" (Lisboa: Asa, 2002), romance de Baptista-Bastos, velada ficção autobiográfica (é o que dá andar demasiados livros em atraso). Espero que o responsável, se ler estas pequenas linhas, não fique escandalizado por dizer que não fiquei grandemente impressionado pela prosa sincera mas rocambolesca, a espaços demasiado pomposa, do jornalista-escritor, e que a estrutura demasiado fluida e insuficientemente estruturada (passe o pleonasmo) não me cativou por aí além. É um livro tanto mais estimulante quanto mais se ancora em referências claramente reais, em vivências vividas, em reminiscências localizadas de uma peculiar nostalgia (com o seu quê de "Belarmino" by Fernando Lopes) de uma Lisboa perdida no tempo. E, pelo meio, há passagens francamente notáveis, como esta que não resisto a transcrever.

"Todos nós temos os nossos tempos, e os meus tempos não se coadunam com nenhum destes tempos de agora, porque pertenço a uma antiga esperança, a uma antiga e submersa esperança. A falta de esperança conduz à mediocridade. É da admissão desta banalidade que existe o diálogo comigo mesmo, porventura feito de algumas omissões e de múltiplas apreensões. O que se exige de nós é assustador: conhecermo-nos. Por isso, fazemos por esquecer essa exigência: conhecermo-nos pode ser bom ou mau, mas é sempre perigoso."

19 de dezembro de 2006

LINGUÍSTICA APLICADA

Ao ver, ontem, no noticiário da RTP a reportagem sobre o mini-tornado dos Açores, reparei mais uma vez na minha extrema dificuldade em entender o sotaque açoriano — é quase como ouvir uma outra língua que nada tem a ver com o português-padrão, de tal maneira as especificidades linguísticas da região e a sua distância do continente o tornam imperceptível ao ouvido lisboeta destreinado. Já dei por mim a pensar que não seria má ideia passar essas reportagens legendadas.

18 de dezembro de 2006

17 de dezembro de 2006

É TÃO LINDO APRENDER

"O que somos hoje, devemo-lo aos nossos professores", lê-se num cartaz espalhado por aí pelas organizações de professores contra a ministra da educação. Permito-me respeitosamente discordar: eu cá tive alguns professores que não me ensinaram rigorosamente nada (não vou dar nomes, mas estou-me a recordar das minhas professoras de inglês e de francês no 12º ano, e de uma professora de inglês da faculdade — até hoje não compreendo como é possível um aluno falar melhor inglês que uma professora, mas era verdade). Também tive excelentes professores que ajudaram significativamente a moldar a minha educação, mas que não se queira atirar areia para os olhos: eu tive maus professores, e não foram tão poucos como isso. Por isso, desculpem qualquer coisinha se olhar para estas manifestações da classe de soslaio.

16 de dezembro de 2006

UMA NOITE PARA COMEMORAR

Este blog celebra hoje três anos de existência ininterrupta, a ocasião fica marcada por um "extreme makeover" pobrezinho-mas-honrado. O meu obrigado a todos os que por aqui passam, deixam comentários, mandam vir, etc., etc., etc, por fazerem deste meu cantinho online também vosso. Disponham sempre e continuem a aparecer.

15 de dezembro de 2006

A TEORIA DA RELATIVIDADE

"Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto? Não obrigada!", reza um "outdoor" que anda aí espalhado por Lisboa. No entanto, há milhões de contribuintes que contribuem efectivamente com os impostos para financiar mordomias bem mais escandalosas — mas contra essas nunca se vêem "outdoors".

14 de dezembro de 2006

POLAROID: METRO

No comboio em direcção ao Cais do Sodré, a senhora sentada à minha frente de óculos escuros no rosto envelhecido, pose meio desleixada no assento, joelhos em ângulo a ocupar parte do espaço do assento ao lado, ocupado por dois grandes sacos de papel do centenário do Sporting selados como prendas, está-se pouco ralando com o que os outros pensam dela e tem ar de quem não lhe apetece estar ali sentada. Algumas estações mais à frente, uma senhora que acaba de entrar nota que o lugar ao lado está vazio, mas a mulher dos óculos escuros finge que não é nada com ela, até que a senhora, com um sinal da mão, aponta para os sacos. Sem mudar um milímetro a sua linguagem corporal nem fazer contacto com a senhora, a mulher dos óculos escuros pega nos sacos, põe-os à sua frente, mas não afasta os joelhos.

13 de dezembro de 2006

DESIGNER BURQA

Na última página do Público de hoje vinha o retrato de uma atleta do Bahrein que se terá tornado na primeira atleta de um país muçulmano a competir e a ganhar a competição de cabeça coberta pela tradicional burqa. Não era, contudo, uma burqa qualquer, pois tinha o logotipo da Nike. Olha se a moda pega: burqas Dior, Chanel, Louis Vuitton, Armani...

12 de dezembro de 2006

A TERAPIA DO PÊLO

Acho que foi o Calvin que disse isto em tempos. Mas posso garantir que alguns minutos de festinhas em câmara-lenta ao pêlo tigrado de D. Sofia Felina são o melhor anti-depressivo que já experimentei. (Não que tenha experimentado muitos.)

10 de dezembro de 2006

A GUERRA É A GUERRA

Esta galeria de fotografias da National Geographic de Dezembro não se recomenda a almas sensíveis. E só me leva a fazer uma pergunta: porquê, para quê, em nome de quê?

9 de dezembro de 2006

COMO É LINDO O AMOR

"António, amo-te. O EU"

— graffiti que está há anos na rua Conde de Almoster, junto ao Centro de Saúde de Sete Rios, visível para quem se aproxima de carro vindo de Benfica

7 de dezembro de 2006

A REDESCOBERTA DA PALAVRA

Haverá alguns mais dados às más línguas que entenderão que ter um gato enroscado terá ajudado, mas confesso que passa muito mais pelos dias mais descansados dos fins-de-semana prolongados, pelos feriados, pelo inverno que já aí está e convida ao ursar preguiçoso pelo sofá (como eu gosto da palavra ursar, que em tempos o meu amigo Joaquim Bidarra defendia calorosamente): depois de um par de anos em que a leitura regular se ficava pelas revistas da praxe e os livros se iam acumulando escandalosamente por ler nas prateleiras, está-me outra vez a saber tão bem concentrar-me nas páginas de um livro e deixá-las correr com o tempo. Estar a ler por prazer, sem obrigação, e deixar-me levar onde as palavras me levam. Pelo meio, apanho um ensaio da falecida Susan Sontag sobre o "Berlin Alexanderplatz" de Fassbinder (no curiosíssimo "Writers at the Movies", colecção de escritos de escritores sobre filmes editada por Jim Shepard em 2003) — onde ela defende, basicamente, que se contam pelos dedos de uma mão os bons filmes tirados de bons livros, e que a única adaptação cinematográfica possível de um romance é uma visualização fiel e integral, que a própria natureza do cinema (compactando uma narrativa em duas horas) inviabiliza. Sabemos, claro, que não é exactamente assim (é isto da tradução/traição...) mas é uma posição admiravelmente defensável — e que sublinha apenas como o poder cinemático da palavra é insubstituível, mesmo pela imagem que é suposta valer mil palavras.

6 de dezembro de 2006

ALL MOD CONS

Estou — eu e, presumo, a rua toda — sem água desde ontem às oito da noite, segundo a linha de faltas de água da EPAL devido a uma "rotura imprevista" na rua onde moro (pequena dúvida etimológica: rotura será um abastardamento de ruptura?), e a EPAL prevê que a situação apenas fique regularizada lá para as quatro da tarde (às 10 da manhã era ao meio-dia; será que às duas da tarde passa a ser às oito da noite?). Não posso dizer que tenha razões de queixa da EPAL: nos seis anos que já levo a morar aqui, esta é a primeira falta de água verdadeiramente incómoda que sofro (isto de não poder tomar banho de manhã faz-me uma comichão à cabeça que nem vos imagina), mas é tão incómoda (estou há precisamente 12 horas sem água) que dá vontade de tratar mal os responsáveis. Ora, a verdade é que uma vez em seis anos é uma média muito boa, mesmo que neste momento me apeteça obrigar os responsáveis da EPAL a passarem um dia inteiro sem água a ver se acham graça. Mais interessante é perceber como estamos de tal modo habituados aos nossos pequenos confortos modernos, "civilizados", que quase nem nos passa pela cabeça que eles nos podem faltar — e, quando nos faltam, ficamos ó-tio-ó-tio sem saber bem o que fazer.

5 de dezembro de 2006

A ARTE DAS RELAÇÕES PÚBLICAS

Uma manhã em que estava a trabalhar em casa, toca-me à porta um angariador de uma empresa de telecomunicações anunciando — muito depressa e entredentes — que se eu tivesse uma factura da PT tinha uma oferta para mim. Isto sem explicar ao que vinha e de onde vinha. O jovem (dos seus 20 e poucos, tinha todo o ar de primeiro emprego e vinha vestido demasiado à moda suburbana para ter o aspecto sério e respeitável que estes angariadores supostamente devem ter) não tinha ar nenhum de funcionário da PT, pelo que lhe perguntei se era da PT, ao que me respondeu que trabalhava com a PT. Pedi-lhe se tinha algum tipo de identificação e, relutantemente, puxou do bolso das calças o cartão que o identificava como empregado de uma das empresas de telecomunicações que andam a tentar convencer os clientes a abandonar a linha fixa da PT e ter assinatura telefónica noutro fornecedor (o que é um objectivo louvável visto que a PT se estica um bocadinho em termos de preços). Só que o jovem não só mostrou o cartão relutantemente como ainda resmungou entredentes qualquer coisa do tipo "o senhor é muito desconfiado". Quando lhe disse, para o despachar o mais educadamente que podia e regressar ao trabalho, que não tinha telefone fixo, disse-me, "bom, nesse caso não o posso ajudar". Isto apesar de ninguém lhe ter pedido ajuda e de o angariador parecer estar-se razoavelmente a borrifar se eu precisava ou não da ajuda, desde que marcasse a visita como feita lá no registo de visitas.

3 de dezembro de 2006

POST FELINO SEMANAL

D. Sofia Felina tem uma especial predilecção por empoleirar-se no meu ombro esquerdo e por ali ficar a observar o mundo que a rodeia, aproveitando para de vez em quando me lamber ou cheirar (ou mesmo mordiscar) a orelha esquerda como quem subiu para cima de um móvel. Umas quantas vezes, a sua ascensão ao ombro faz-se por meio de um método aprendido decerto com Reinhold Messner na National Geographic de Novembro, subindo à força de garra pelas calças e camisola acima até se instalar no ombro e por ali ficar enquanto muito bem lhe apetecer.

1 de dezembro de 2006

A PROPÓSITO DO LUGAR-COMUM

Tenho estado a acompanhar à distância o cortejo de diatribes anti-crítica-de-cinema dos leitores do blog do meu amigo Nuno Markl (façam o favor de consultar as caixas de comentários deste e deste posts) a propósito daquilo que seria uma unificação da "classe crítica" portuguesa contra "Borat: Aprender Cultura da América para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão", de Larry Charles, que ontem estreou por cá.

Não vou entrar em nenhuma defesa acérrima da "classe crítica" porque não existe uma "classe crítica" — existem indivíduos com gostos diferentes, vivências diferentes e expressões diferentes, graças a Deus que somos todos diferentes e gostamos todos de coisas diferentes. Mas é curioso como a opinião de quase toda a gente que para ali comenta (mais do que o próprio Nuno Markl, que, honra lhe seja feita, esclarece bastante bem que a crítica não é uma "classe" sindicalizada mas um aglomerado de gente muito diferente, embora não se furte a uma ou outra generalização menos feliz) é uma opinião extremamente negativa para com os críticos de cinema, apelidando-os de intelectuais, de snobs, de elitistas, de gente que só gosta de filmes chatos, que odeia o sucesso de bilheteira, que horror, o filme está a fazer bem vamos dizer mal etc., etc., etc. É significativo de uma atitude bastante generalizada (e generalista) sobre esses chulos que ganham a vida a dizer mal daquilo que as pessoas gostam (reparem que "as pessoas" é sempre uma grande massa amorfa que, na vida real, nunca se comporta com essa movimentação de massas quase unânime).

O que a maior parte das "pessoas" esperam da crítica de cinema hoje em dia, no fundo, não é que quem critique emita uma opinião pessoal, mais ou menos fundamentada, pior ou melhor argumentada. O que as pessoas esperam da crítica de cinema (e não é só da de cinema) não é uma opinião — melhor, não é uma outra opinião: esperam apenas que o crítico valide a opinião de quem lê. Se a validar, é um excelente crítico; se não, não percebe nada do que faz. As pessoas no fundo não querem ler nem querem ter de pensar: querem o oráculo dos telejornais, saber o essencial em duas linhas para não terem de ler uma página que as faça pensar e confrontar a sua própria opinião com uma outra que não forçosamente igual. As pessoas não se querem dar ao trabalho. (A unanimidade de quase todos os comentários a chamar "genial" ao "Borat..." é tão suspeita como a unanimidade de quase todos os críticos que dizem mal do filme — o que só prova que os radicalismos são por natureza parciais).

Ora, o engraçado é que "Borat..." é um filme que se dá ao trabalho de desmontar ideias feitas, à volta dessa necessidade de desafiar a preguiça e o lugar-comum. E que isso parece ter passado ao lado quer de quem o acha genial quer de quem o acha indigente. A verdade, claro, está algures no meio, como a virtude.

30 de novembro de 2006

CARREIRA 58

Uma das coisas mais curiosas em que reparo quando viajo de autocarro em Lisboa é a necessidade que algumas pessoas - maioritariamente idosos de todo o tipo - têm de conversar umas com as outras. E, geralmente, as conversas têm sempre um único tópico: dizer mal. Há sempre qualquer coisa que está mal, há sempre alguém que está a enganar alguém, são sempre os mesmos que são comidos, etc., etc., etc. É raríssimo ouvir uma palavra simpática nestas conversas de autocarro.

28 de novembro de 2006

WE LOVE LESMA

Pronto. Não consigo mesmo resistir a pôr aqui o clip da rave das lesmas que a Dreamworks e a Aardman puseram a correr há largas semanas para promover "Por Água Abaixo", que estreia por cá na quinta-feira. O clip não aparece no filme, mas dá uma ideia do que as lesmas estão lá a fazer — tipo pinguins de "Madagáscar" (mas "Por Água Abaixo" é uma comédia hilariante, enquanto "Madagáscar" era uma "sitcom" sem grande graça esticada para longa-metragem). Depois disto, nunca mais verão uma lesma da mesma maneira.

27 de novembro de 2006

NAO FAZ MAL, E PAPEL NA MESMA

Amigos meus de alma caridosa e bom coração haviam avisado que, à imagem dos seus irmãos felinos, D. Sofia Felina ia encetar uma relação muito íntima e proveitosa (para ela, que não para mim) com os rolos de papel higiénico. Até ver, tal não se concretizou.

Já com os guardanapos de papel, o caso muda de figura.

26 de novembro de 2006

FADISTICES

Há uma semana, Aldina Duarte na Culturgest, em rigorosa encenação de Jorge Silva Melo para apresentar o segundo (e menos conseguido) álbum, "Crua". Ontem, Cristina Branco no CCB, em antevisão do novo "Live". É curioso como o "futuro" do "Novo Fado" está cada vez mais ligado ao passado: Aldina está cada vez mais próxima das grandes castiças como Lucília do Carmo, em tom, em timbre, em enunciação, em entrega, em respeito pelo rigor e pela forma clássica do "Velho Fado"; Cristina assume cada vez mais reportório de Amália para o integrar na sua "canção" tangencial ao Fado, fazendo-o (coisa assombrosa que ainda nenhuma outra conseguiu fazer, nem mesmo Mariza ou Kátia) seu.

Ironicamente, ambas, de alguma maneira, "marcaram passo". Aldina porque se notava o nervosismo, a preocupação com uma marcação de palco a ser respeitada, que espartilhou a espontaneidade e o entusiasmo que lhe reconhecemos; a Culturgest pode ter esse lado intimidatório (Mafalda Arnauth também em tempos lá se espalhou), mas Aldina não o tinha sentido há ano e meio, na sua estreia naquele espaço, e sentiu-o desta vez. Cristina porque o seu concerto, para lá das interpretações de Amália que não faziam parte do seu reportório habitual, não é mais do que uma versão "extended" do "set" respeitante à digressão do sublime "Ulisses". Para Aldina, este concerto terá sido um degrau mais num crescimento artístico em progressão contínua dentro de uma lógica de transmissão do classicismo do Fado (e que magníficos acompanhantes são José Manuel Neto e Carlos Manuel Proença!). Para Cristina, a confirmação de uma voz e de um talento únicos que a transportam para um outro lugar para lá do Fado, mas sempre a ele ligado (mas Bernardo Couto é demasiado inexperiente para ser Custódio Castelo).

25 de novembro de 2006

NOTICIA DE ULTIMA HORA

Afinal, D. Sofia Felina já não tem medo do autoclismo. Pedimos desculpa pela informação errada.

24 de novembro de 2006

Os gauleses do Astérix têm medo que o céu lhes caia em cima da cabeça. Mais prosaicamente, D. Sofia Felina foge sempre que eu puxo o autoclismo.

23 de novembro de 2006

SINGING IN THE RAIN

Reconheço aos militares, enquanto cidadãos portugueses, todo o direito de passearem por onde muito bem entenderem, quando muito bem o entenderem, com quem muito bem o entenderem, e acho que toda esta história de passeios versus manifestações é um daqueles "fait-divers" que só em Portugal é que têm esta importância toda (no entanto, devo avisar que a utilização da frase "não foi para isto que os militares fizeram o 25 de Abril" ouvida ontem no Telejornal deduz pontos na classificação final).

Só que, aqui entre nós, isto de escolher um dia de temporal para ir passear para o Rossio não faz lá muito sentido... A gente sabe que "chuva civil não molha militar", mas ir ver montras com este tempo...

22 de novembro de 2006

ALGUEM QUE LHE EXPLIQUE QUE AS COISAS NAO SAO BEM ASSIM

No Telejornal do canal 1, um representante do sindicato dos professores que distribuia à população panfletos explicativos de qualquer coisa dizia à reportagem que a má reputação que os professores têm é uma maldosa mentira espalhada pela senhora Ministra da Educação. Mas a má reputação que os professores têm não é já anterior à actual Ministra? Ou o representante estava a falar de outra má reputação de que eu não sei nada?
Happy birthday, Bear!

I was lost
for so long
feels like it's taken
half my life
to find where
I belong

seeing you here
you're my nation
this is my application
give me hope
keep me sane
give me
indefinite leave to remain

all the worlds
that I saw
I went so far away
and still wanted you more

it may sound superficial
but can we make it official?
give me hope
keep me sane
give me
indefinite leave to remain

tell me where I stand
what do you envision?
one way or another
give me your decision now

is it time
to proceed?
will you give me a chance
and the status I need?

seeing you here
you're my nation
this is my application
give me hope
keep me sane
give me
indefinite leave to remain.


— Neil Tennant/Chris Lowe for the Pet Shop Boys: "Indefinite Leave to Remain", in "Fundamental" (Parlophone, 2006).

21 de novembro de 2006

ARE YOU READY TO BE HEARTBROKEN?

Aula Magna a menos de metade mas a enganar bem, 21h45, terça, 21 de Novembro de 2006. Em palco, Lloyd Cole, Neil Clark, umas poucas guitarras e um laptop Macintosh cinzento a fingir de caixa de ritmos numas poucas canções, a prova de que o pós-Commotions não fica a dever nada ao que está para trás e só não recebeu a mesma atenção (e quem editou o recente "Antidepressant" deve estar irritadíssimo por só ter havido três canções do disco novo)- 80 minutos contados (com dois míseros encores): soube a pouco. Mas soube tão bem.

Traffic
Like Lovers Do
Rattlesnakes
Past Imperfect
Butterfly
Late NIght Early Town
No More Love Songs
I'm Gone
New York City Sunshine
Are You Ready to Be Heartbroken?
2CV
My Other Life
Music in a Foreign Language
Pay for It
How Wrong Can You Be?
Why I Love Country Music
Cut Me Down
The Young Idealists
Perfect Skin
encore
Jennifer She Said
No Blue Skies

19 de novembro de 2006

A INSUSTENTAVEL LEVEZA DO SER FELINO

Às vezes, é muito fácil esquecer-me que a bola de pêlo felpuda e ternurenta que gosta de se aninhar no meu colo quando estou ao computador, que é de uma curiosidade tão inesgotável que chega a ser exasperante, é apenas um bebé de dois meses que ainda está a descobrir o mundo e passa a maior parte do dia a dormir como se não fosse nada com ela. A verdade é que sentir a Sofia no meu colo, ou no recanto do sofá que ela adoptou como o seu cantinho para dormir sozinha, a dormir a sono solto dá uma estranha sensação de sossego e quietude. Como se o simples facto daquele bichinho teimoso e curioso estar ali fizesse tudo estar bem. E se calhar está mesmo.

17 de novembro de 2006

O MOMENTO MICK JAGGER

Na magnífica peça de Joe Klein (um dos grandes analistas da política americana contemporânea, e o autor "anónimo" do romance que inspirou o filme de Mike Nichols "Escândalos do Candidato") que vem na Time desta semana a dissecar a derrota do Partido Republicano nas eleições intercalares americanas, descobre-se que há uma coisa chamada "the Mick Jagger moment". Descrita como — e passo a citar — "you can't always get what you want. The question is, can we get what we need?"

16 de novembro de 2006

WHAT HAVE WE DONE TO DESERVE THIS?

Pedro Santana Lopes vem a terreiro publicar um livro onde conta a sua versão dos catastróficos meses em que foi Primeiro-Ministro de Portugal. Não li, não tenho intenção de ler, cortei o som à conferência de imprensa nos telejornais e à entrevista de Judite de Sousa, não apanhei os comentários e as análises, mas quase aposto que vai dizer que o seu glorioso mandato foi interrompido cobardemente por aqueles que não reconheceram o seu talento inato e a sua visão luminosa de um Portugal melhor.

Enquanto isso, no mundo real...

15 de novembro de 2006

ORA NEM MAIS

"Being a Christian is no excuse for being stupid." Dick Armey, político republicano e católico praticante que não subscreve a actual tendência americana para o conservadorismo religioso fundamentalista, citado na Economist desta semana. Digam lá que não é uma belíssima frase.

14 de novembro de 2006

UM HOMEM NAO CHORA

Não sei se viram, na semana passada, aquela reportagem da RTP sobre os problemas psicológicos dos agentes da polícia e as altíssimas taxas de suicídio dos agentes da autoridade. Apanhei-a um pouco por acaso, mas a verdade é que fiquei perfeitamente elucidado sobre um pormenor: a velha imagem do polícia como "homem de ferro" já não corresponde minimamente à realidade. Os polícias são tão frágeis e humanos como as "pessoas normais", o que se pensarmos bem é apenas normal mas nada evidente.

Sempre achei que estas profissões "de risco" deviam ter um enquadramento psicológico muito sério — mas a reportagem deu a entender que nem por isso. Será que, nisto como noutras coisas, Portugal ainda acha no geral que tratamento psicológico é a mesma coisa que "ser maluquinho" e que "um homem resolve os seus problemas sozinho" e "um homem não chora"? Gostava de pensar que não — porque nenhuma dessas afirmações, assim como assim, é uma verdade universal — mas algo me diz que sim.

12 de novembro de 2006

NO TEMPO DO SALAZAR ISTO NAO ACONTECIA

O senhor dos seus 50 e muitos anos tem um cachecol de Portugal à volta do pescoço por cima do casaco de fazenda. Tem aquela "voz de aguardente" que identificamos com os lisboetas castiços dos bairros populares. Está sentado no autocarro cheio, tecnicamente a falar com as senhoras sentadas à sua frente e ao seu lado, mas ostensivamente a discursar para quem o quiser ouvir (e não há ninguém, neste 58 cheio em hora de ponta de fim de tarde, que não o consiga ouvir), e a discursar sobre tudo aquilo sobre o qual os lisboetas castiços dos bairros populares gostam de ter opinião. Desde nascer às portas de Benfica, quando a Amadora ainda pertencia ao concelho de Oeiras, a resmungar sobre a má educação da juventude contemporânea ("éramos dez filhos e o meu pai deu estudos a todos!"), vale tudo, rematado com a frase já habitual nos resmungos dos lisboetas castiços dos bairros populares de uma certa idade: "No tempo do Salazar isto não acontecia!"

11 de novembro de 2006

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #72

Pusilanimidade.

(ouvida da boca do João em discussão acalorada sobre os méritos do totalitarismo despótico aplicado à educação das jovens debutantes que insistem em exercer plenamente o seu mau gosto suburbano contra a iluminação recatada dos progenitores)

9 de novembro de 2006

ONOMATOPEIAS DO RONRONAR

A menina Alice diz que a gata dela quando ronrona soa a uma vitrine frigorífica do talho. Eu digo que a minha soa a um diesel em ponto morto. Alguém tem outras sugestões?

A FELICIDADE

...é, para os meus amigos americanos, a derrota do Partido Republicano nas intercalares americanas e a humilhação sofrida pelo presidente George Bush, e, acima de tudo, a demissão forçada de Donald Rumsfeld. Porque, aqui entre nós, um porradão de americanos também nunca estiveram nada de acordo com os seus governantes. Daí que alguns deles já falem em "Taking Back the House Party", numa alusão às "house parties" e à "reconquista da Casa dos Representantes" pelo Partido Democrata. A ver vamos — nós europeus somos um bocadinho mais cínicos politicamente.

(A despropósito: ver a oposição a opôr-se ao orçamento de estado do PS, ou seja, a fazer aquilo para que é paga, é ver o Eça actualizado para os nossos dias. Mas acho que já disse isto em qualquer lado.)

8 de novembro de 2006

COMO A ESPERA DO COMBOIO NA PARAGEM DO AUTOCARRO

À paragem do 9 na Álvares Cabral, pouco passa das nove da noite, chega uma jovem dos seus 20 e poucos anos. Apesar de ter chovido torrencialmente pouco antes, ela surge de cabelo escorrido e T-shirt justa de manga muito curta, com apliques em letras douradas na frente, e tresandando à distância a perfume, como se tivesse tomado banho na fragrância, de tal modo que, mesmo com a brisa que corre e não havendo mais ninguém da paragem, o odor enjoatiivo do perfume impondo-se rapidamente. São dez minutos de tormento enquanto o 9 não chega.

EU NAO PEÇO DESCULPA

Amo esta canção.

7 de novembro de 2006

CONSTATAÇAO

Os longos átrios e corredores da estação da Alameda que fazem correspondência entre as linhas verde e vermelha enchem-se de gente que se afadiga a passar aos intervalos regulares da chegada dos comboios. O gigantesco átrio da linha vermelha está quase sempre vazio, mesmo quando os passageiros se apressam para tomar o comboio para o Parque das Nações, ou quando os passageiros saem do comboio que acabou de chegar para fazer a correspondência.

6 de novembro de 2006

UMA PRENDA DE ANOS



Para a ursa honorária que hoje é também ursa maior. Não digas que vais daqui.

O HOMEM ALMOFADA

Tenho no colo há qualquer coisa como duas horas uma gatinha cinzenta de sete semanas que decidiu eleger o meu colo sentado como a almofada para a sua soneca da tarde. De nada servem as minhas idas à casa de banho ou à sala buscar uma banana para comer: assim que me apanha sentado, vá de cravar as garras nas minhas calças e erguer-se a pulso até ao meu colo para se enroscar confortavelmente e adormecer, alheia ao toque do telefone, às obras do andar de cima ou aos meus dedos no teclado.

5 de novembro de 2006

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #71

Basbaque.

(durante um "Saturday Night Constititutional to S. Pedro beach and back", inspirado pelos Marqueses de Marialva via Alexandre M.)

4 de novembro de 2006

CARIOCA

O que é assombroso ao ver Chico Buarque em palco é que ele é absolutamente o oposto do "animal de palco": não fala com o público, para lá do banal "obrigado" e da apresentação dos músicos; não se mexe em palco, mantém-se estático em frente ao microfone, com ou sem violão; sente-se, mesmo à distância de uma sala cheia, um desconforto evidente por estar fora do seu "habitat" natural.

E nada disso interessa quando Chico canta (mesmo que a voz já não seja exactamente a mesma), porque só ele sabe cantar estas canções desta maneira. E estas canções — todas as do magnífico "Carioca", mais uma série de escolhas oblíquas do seu passado onde quase não há espaço para os "greatest hits" que estão na boca de todos — cantadas desta maneira silenciam o Coliseu de Lisboa, preso às nuances da voz, da letra, da arte imensa de Chico Buarque. Se fosse com Caetano, quase aposto que o público começaria a resmungar. Com Chico, nem um alfinete se ouviu. O respeitinho é muito bonito.

3 de novembro de 2006

O MEU GURU (OU UM DOS)

Andrew Sullivan tornou-se num dos meus colunistas de referência. Sobretudo desde que, há largos meses já, apanhei um extraordinário ensaio dele sobre a religião (coisa que não professo) — e, depois, acompanhando diariamente o seu blog, descobri uma pessoa que se desvenda inteira na imensidão de "posts" que vai largando diariamente, assumindo por inteiro as contradições e paradoxos quase esquizofrénicos inerentes à sua condição humana.

Senão vejamos: Sullivan é um inglês formado em filosofia política, mas é um dos mais notáveis pensadores sobre a realidade política americana contemporânea, tendo feito dos States o seu país de adopção nos últimos 20 anos. É um conservador que não suporta o travesti que o actual Partido Republicano fez do conservadorismo; é um católico que não se revê no fundamentalismo cristão que tantos de nós identificamos com uma certa América; tem vindo a exigir abertamente a demissão de Donald Rumsfeld e, sendo um apoiante da intervenção americana no Iraque, é também um crítico aberto do modo como a administração Bush a conduziu e das falácias e manipulações mediáticas lançadas pela "maioria moral" americana. (Numa recente intervenção na CNN, disse que George W. Bush "perdeu a cabeça".) E é tudo isto sendo homossexual assumido publicamente e seropositivo, o que o torna numa voz desconfortável para muito boa gente que gosta dos seus colunistas encaixados em gavetas. Acaba de publicar um livro que vem bem recomendado pela Economist e que ele anda a promover honesta mas furiosamente no blog, chamado "The Conservative Soul".

E, pelo meio das suas reflexões sociopolíticas, vai falando dos seus cães (com fotos e tudo) e anda agora a postar os melhores e piores videos dos anos 80 sacados do YouTube. Digam-me, o Pacheco Pereira seria capaz de intercalar posts políticos hardcore inteligentes com telediscos dos New Order e dos Starship? Também me parecia que não.

2 de novembro de 2006

É curioso ver como os adolescentes contemporâneos se movimentam em rebanho. Hoje tive a oportunidade de o ver "in situ", primeiro na estação de metro do Campo Grande, depois na Alameda: a quantidade de grupos grandes que se formam nas plataformas e praticamente obstruem a passagem dos outros passageiros (sem que eles pareçam sequer aperceber-se de que não são os únicos à espera do comboio) é espantoso, uma espécie de migração tribal simultânea. "Estamos aqui, habituem-se", parecem dizer.

31 de outubro de 2006

A TRADIÇAO JA NAO E O QUE ERA

Sabiam que em Lisboa também se faz o "trick or treat" da noite de Halloween? Não? Pois, eu também não, pelo menos até quatro garotinhas e garotinhos maquilhados com marcadores de feltro me tocarem à porta às oito da noite a pedirem "doce ou susto!". Eu fiquei tão desarmado com a inesperada surpresa que só lhes respondi "Nem uma coisa, nem outra". Eles ficaram tão desarmados como eu. Calculo que não tenham levado muitos doces para casa ao fim da noite.

30 de outubro de 2006

A LOJA QUE NAO E CHINESA

Falou-se muito do fecho do salão de jogos Monumental, na Álvares Cabral, como mais um ícone da Lisboa de outros tempos que desaparecia perante os nossos olhos — e falava-se muito da loja chinesa que ali ia abrir embora o espaço não estivesse licenciado para isso. A verdade é que desde a semana passada que lá está uma loja toda pintada de branco — mas não é chinesa, é uma normalíssima boutique de roupa.

29 de outubro de 2006

A ERA DA INFORMAÇAO

A minha mãe sempre me chamou "coca-bichinhos", houve quem me chamasse "rato de biblioteca" — a verdade é que hoje, a fazer limpezas no escritório na sequência daquilo que é, claramente, uma pequena reorganização caseira, percebi um pouco melhor porquê, face às coisas que eu já não me lembrava que tinha guardado que foram aparecendo à medida que desenterrava papéis, jornais, revistas que foram sendo acumulados por esta ou aquela razão mas não encaixavam nas gavetas estabelecidas dos arquivos.

Sempre achei que há coisas que vale a pena guardar mesmo que, agora, não faça sentido (é essa, no fundo, a função dos arquivos — registar para futura referência aquilo que mesmo hoje nos parece irrelevante). Mas isso foi antes da internet, antes de se poder encontrar toda (ou quase) a informação que se pretende num ápice, antes do espaço em casa começar a reduzir e de eu já não saber muito bem como organizar toda a informação que fui acumulando de acordo com um modo específico de arquivação que, agora, corre o risco de estar obsoleto mas não é fácil de reconverter. Ando a pensar no assunto há uns tempos e ainda não encontrei a resposta certa. As dores de crescimento da tecnologia, em suma, ainda nos reservam algumas surpresas.

28 de outubro de 2006

A FORÇA DE VONTADE UNIDA JAMAIS SERA VENCIDA

Descobri que tenho o colesterol um bocadinho alto e como tal o meu médico recomendou-me que durante os próximos dois meses evite:
1. as carnes vermelhas (calha bem, como mais carnes brancas de qualquer maneira) e derivados
2. os mariscos (também calha bem, não como muito)
3. as bebidas alcoólicas (que eu quase não bebo) e refrigerantes (que vou eu fazer sem a minha água suja do imperialismo?)
4. as gorduras animais (as torradas com manteiga foram à vida)
5. os iogurtes que não sejam naturais
6. o leite que não seja magro (também calha bem, só bebo leite magro)
7. os bolos, açúcares e doces.

Ou seja, croissant com manteiga, Cadbury's Dairy Milk e Ben & Jerry's só em ocasiões especiais. Lá terá que ser, não é? (diz ele enquanto dá uma dentada no último Toblerone que estava no frigorífico)

27 de outubro de 2006

POLAROID

Mesmo à porta de minha casa, tenho um daqueles supermercados pequenos de bairro que serve perfeitamente a população da zona embora não evite a visita a uma "grande superfície" de vez em quando à procura daquelas coisas que não se encontram (tão boas) por aqui. Foi por isso que estranhei quando comecei a ver uma mendiga sentada alguns metros à frente da saída do supermercado fazer dele o seu "poiso" diário, pernas cruzadas escondidas pela saia de tecido colorido, sentada em cima de um cartão dobrado, quase inteiramente coberta, deixando só as mãos e o rosto à vista, segurando à frente um cartão escrito à mão em português macarrónico com uma imagem religiosa colada, dizendo não ter marido nem trabalho e crianças para alimentar e pedindo ajuda pelo amor de Deus. A mendiga não fala nem se dirige às pessoas: está ali apenas, com um copo de plástico de cerveja vazio à frente. Por vezes, está acompanhada de uma menina dos seus oito anos, mas a maior parte das vezes está sozinha. Tem ar de ser uma daquelas ciganas de Leste que são "pedintes profissionais" e que hoje vemos cada vez mais, mas posso estar enganado.

A verdade é que não passa muita gente pelo local que a mendiga escolheu para pedir esmola, sobretudo quando, subindo alguns metros, tem uma avenida que está sempre cheia de transeuntes. O seu copo de plástico está quase sempre vazio, ou tem poucas moedas de denominação pequena.

26 de outubro de 2006

A CURIOSIDADE MATOU O GATO

Eu sei que os ursos pardos não são exactamente animais de estimação, mas isto dá imensa vontade de ter pena deles.

25 de outubro de 2006

GULOSEIMA PARA O LANCHE

Não é o melhor chocolate do mundo, mas anda lá perto.
Divirto-me muito a ler as respostas dos inquéritos de rua que os jornais fazem. Hoje, pergunta-se a uma reformada de 69 anos se vai passar a deixar o carro em casa agora que o estacionamento público aumentou (partindo do princípio que uma reformada de 69 anos conduz, o que me parece altamente improvável mesmo que não impossível). Mas a senhora responde que não, não vai deixar o carro em casa, nem concorda com o aumento, porque a rua é um "espaço público a que temos direito e ainda temos de pagar". Daqui deduzimos que a senhora concorda com o estacionamento selvagem e com a fuga ao pagamento do parquímetro ou ao parque de estacionamento pago. Mas algo me diz que, se perguntassem à senhora se ela achava bem que os carros estacionassem em cima dos passeios públicos, ela diria que não e resmungaria muito pela falta de respeito dos condutores que arrumam os carros em qualquer lado sem deixar às pessoas espaço para andarem pela rua.

23 de outubro de 2006

DESCONVERSAS #1

(ouvido no metro do Marquês de Pombal:)
"Fico sempre a falar sozinha, é uma coisa extraordinária..."

(resposta que se pensou mas não se disse:)
"Se calhar é o que mereces..."

22 de outubro de 2006

CINZENTO

Ontem esteve um sábado cinzento, chuvoso. Era difícil arranjar lugar para arrumar o carro em qualquer lado, como se as pessoas não tivessem saído de casa, mas os centros comerciais estavam a abarrotar, com filas de carros à espera de um lugar para arrumar.

Esta manhã, pelo contrário, cedo, pelas oito-nove horas, Lisboa está deserta, cinzenta, chuvosa. E não faltam lugares para arrumar o carro. É uma cidade vazia. Como a minha casa.

20 de outubro de 2006

19 de outubro de 2006

COMPRE AQUI O SEU CONSUMIVEL

Nas bilheteiras do cinema Alvaláxia, em Lisboa, que agora (como é moda em todos os cinemas) passaram para o balcão das pipocas, o letreiro que indica a fila diz "bilhetes e consumíveis".

Ou seja, as pipocas, refrigerantes e outros doces passaram a estar ao nível dos tinteiros da impressora.

17 de outubro de 2006

TO OUR NEXT POSTING



É um dos mais belos filmes do mundo: "Os Dominadores" (1949), de John Ford. Visto no grande écrã, é ainda mais belo.

16 de outubro de 2006

É TAO BONITO O SILENCIO

Alguns dormem o sono dos justos.

Outros, pelo contrário, atiram-se ao ressono dos justos.

15 de outubro de 2006

DA LICENÇA QUE EU ME SENTE?

É normal que os Pastéis de Belém estejam cheios numa manhã de domingo, entre turistas, nativos e quem veio ver o render da guarda da GNR ao palácio de Belém, com os empregados de cabeça em água a correr para conseguir dar vazão aos fregueses. O que já não é normal é que, na mesa ao lado da nossa, anteriormente ocupada por um casal jovem, enquanto ela espera que ele regresse da casa de banho e que o empregado traga a conta, chegue um quarentão brasileiro que, ao reparar que ela espera a conta, lhe pergunta se não se importa que ele marque lugar sentando-se ao seu lado. Enquanto o esposo/namorado da jovem vem/não vem, o brasileiro começa, enquanto tenta meter conversa com a jovem, às tantas a fazer sinalefas e a assobiar altíssimo e mal-educadamente no meio da sala ruidosa e cheia de gente, penso a princípio que para o empregado do balcão o vir atender, mas percebo depois que ele está a chamar a mulher com quem está, que chega pouco depois e se senta na mesa, altura em que chega o esposo da jovem e os dois se levantam para pagar ao empregado. Passado algum tempo, chega mais um casal quarentão brasileiro para fazer companhia ao casal quarentão já instalado. Dez minutos mais tarde, vejo-os a sair com um saco com embalagens de pastéis de Belém. Fiquei sem perceber.