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15 de janeiro de 2007

PORTUGAL NO SEU MELHOR

Da excelente entrevista do romancista Miguel Real ao Mil Folhas da passada sexta-feira:

"(...) Portugal não tem que ser uma Irlanda, uma Finlândia, uma América, uma Alemanha. Assumir que Portugal se encontra num meio termo entre países, esses sim de facto atrasados e países de facto adiantados. Nós não precisamos de estar no pelotão da frente, ao contrário do mito que Sócrates e Cavaco continuam a alimentar. A que propósito? Sinto-me bem no pelotão geral, não estando nem no carro-vassoura nem na vanguarda. Aqueles dez estádios de futebol, que se vão transformar em elefantes brancos das câmaras; os melhores centros comerciais da Europa; a maior árvore de Natal da Europa; o maior bolo de chocolate da Europa — a farsa é querer jogar este jogo. Foi o que Eça denunciou: apontarmos para metas inatingíveis num prazo mediano."

14 de janeiro de 2007

O PERIGO É A PROFISSÃO DELES

Segundo dizia a TSF na manhã de quinta-feira, os passageiros da estação de Agualva-Cacém muitas vezes atravessam a linha do comboio à frente de um comboio que se aproxima. Eu vejo peões atravessarem a estrada à frente de carros que se aproximam a toda a velocidade todos os dias.

13 de janeiro de 2007

O MELHOR DE DOIS MUNDOS

Diz a edição desta semana da Economist, citando num artigo a propósito das duas mais recentes adesões à União Europeia (Roménia e Bulgária) um observador que conhece ambos os países: "In Romania the problem is getting them to work as a team. In Bulgaria the problem is getting them to show any initiative". Ele não conhece Portugal, que é a síntese perfeita dos dois.

ORA ESTA

Serei o único que anda a receber diariamente um porradão de "junk mail" dessa coisa chamada Orkut, acusando-me de ter um perfil em violação das regras da "comunidade" — quando eu nem nunca sequer fui ao Orkut?

11 de janeiro de 2007

OPIÁCEOS



Bem lembrado pela bem-amada ursa honorária, um dos mais magnéticos, magníficos e desconhecidos discos que ouvi na última década: "The Opiates" (Clearspot, 2001) dos suecos Anywhen, que o mesmo é dizer o alter-ego do melancólico Thomas Feiner, vagueando nas mesmas águas plácidas e nocturnas dos grandes românticos existencialistas urbanas. É um crime que este disco — o segundo do projecto, que desde então nunca mais deu notícias — não seja mais conhecido. Para perceber a magia, é favor ir aqui.

10 de janeiro de 2007

SIM OU NÃO?

Respeito as convicções daqueles que defendem acesamente o "não" à interrupção voluntária da gravidez, e daqueles que defendem acesamente o "sim". Mas acho que, em última análise, a decisão de abortar ou não abortar não é uma decisão da sociedade, é uma decisão da mulher que se coloca a questão de o fazer ou não. É uma decisão solitária, pessoal, intransmissível — e é por isso que todas estas discussões sobre o aborto me parecem, na maior parte das vezes, retóricas, teóricas, distantes da realidade das mulheres que enfrentam a decisão. Acho que abortar é uma decisão da mulher e de mais ninguém, e por isso sou contra qualquer tentativa de a impedir de tomar a sua decisão em plena liberdade. É sempre muito fácil querer decidir pelos outros, mas, mesmo com toda a boa vontade do mundo, a verdade é que cada caso é um caso.

Dito isto, os defensores do "sim" irritam-me por terem aquela superioridade moral típica dos liberais que não compreendem como é que pode haver quem não concorde com eles, e os defensores do "não" irritam-me porque parecem querer acreditar que tudo ficará bem com uma vitória do "não" (quando ela apenas prolongará os riscos desnecessários dos abortos ilegais). Se querem a minha opinião, acho que falta nesta conversa toda um pouco de bom senso — coisa que, geralmente, as mulheres até têm mais que os homens.

9 de janeiro de 2007

NINGUÉM SE CHAMA POSSIDÓNIO CACHAPA

Mas a verdade é que Possidónio Cachapa chama-se mesmo Possidónio Cachapa. Nunca tinha lido nada do escritor, mas vi o filme de José de Sá Caetano que ele escreveu, "Maria e as Outras" (2004), que não passava de um telefilmezinho banal sem sinais particulares. Na minha voragem literária recente, abalancei-me a "O Mar por Cima" (Lisboa: Oficina do Livro, 2002), que alguém me ofereceu em tempos, e, concedendo-me algo desiludido pelo modo como a coisa promete mais do que dá, não desgostei, sobretudo pela construção em mosaico e por alguns momentos de certeira observação da lusa natureza. Como este:

(...) Aurora estava convencida que pelo menos duas das suas múltiplas desgraças tinham sido causadas por palavras precipitadas. Por isso, desde então, tinha muito cuidado com os protestos contra o Divino.

A primeira tristeza caíra-lhe em cima, aos sete anos, quando Lhe declarou, uma noite, que ou o irmão mais novo morria ou ela não Lhe voltava a rezar. Disse isto e estava a sério. E Ele ouviu-a. Na tarde seguinte, ao chegar da venda, com uma saca de farinha à cabeça, percebeu na rua, grande agitação. Crianças que corriam a gritar o nome do infante; vizinhas que diziam, "Ai filha, grande desgraça". E, finalmente, a confirmação: O irmão pequeno tinha ido até aos fundos do quintal, os que davam com a ribeira e, como se corresse atrás de uma voz, tinha-se deixado escorregar para as águas revoltas, de Inverno. Ela ainda correu para o quarto a pedir-lhe por tudo que voltasse atrás, que haveria de ser sobre ela que as culpas recairiam. Mas em vão. Tiraram o pequeno sem vida de dentro das raízes de uma sucupira, o peitinho com equimoses e o rosto branco como um anjo. Deu um morto tão lindo que não houve quem não o chorasse. Aurora ficou um bocadinho ciumenta. Sabia que nunca viria a fazer uma defunta tão convincente, por isso agarrou-se à vida e acautelou os pedidos.

Prevaricou uma segunda vez ao pedir-Lhe um marido que gostasse de cinturas finas e vozes de pássaro. Na sua infinita paciência, fez-lhe, Ele, a vontade, dando-lhe Sabino que haveria de ganhar muito dinheiro e de a emprenhar amiúde. Trouxe a porra do sogro, como cadeau-bonus, mas já se sabe que não se pode querer comer rebuçados sem lhes tirar o papel. Aurora teve tudo o que quis. E ganhou, por tabela, o que não quis. Trabalhava de manhã à noite, do forno para o pó e deste para as arrumações. Rodeada, primeiro de ranho, em seguida de pernas sempre crescentes e más-criações, ainda assim, não desistiu da sua fé.

8 de janeiro de 2007

NÃO HÁ COMPRIMIDOS QUE RESOLVAM ISTO?

Tenho uma tendência chata para ficar na moleza na cama um bocado sempre que acordo; sempre tive, não é de agora. É-me difícil levantar-me imediatamente e dar início ao dia. Já D. Sofia não fica ali a perder tempo e começa logo aos pulos. E eu dou por mim a pensar porque não faço o mesmo (levantar-me logo em vez de ficar na moleza, não começar aos pulos). Alguém sabe de um bom remédio?

7 de janeiro de 2007

NÓS TAMBÉM SOMOS GENTE

Os jogadores de futebol querem fazer greve porque vão passar a ter de pagar imposto sobre a totalidade dos rendimentos em vez de só sobre apenas 90% dos rendimentos. Sou só eu ou há aqui qualquer coisa que não faz lá muito sentido?

6 de janeiro de 2007

SATURAÇÃO, SATURAÇÃO, SATURAÇÃO, SATURAÇÃO

Vocês não estão já fartos do Lisboa-Dakar, mesmo apesar de ter começado hoje?

POLAROID: ELÉCTRICO 28

No eléctrico cheio, uma senhora idosa que vai de pé logo atrás do condutor aproveita a paragem para lhe perguntar sobre o bilhete recarregável que usa e que, pela conversa, a senhora parece não saber que é recarregável. O pormenor é que, para fazer a pergunta ao condutor, a senhora coloca-se precisamente no enfiamento da porta de entrada, bloqueando o acesso a quem quiser subir para o eléctrico.

5 de janeiro de 2007

O NILO AZUL







Redescobrir os Blue Nile no meio do bulício da cidade (e que bem que estes discos continuam a soar, todos estes anos depois) é redescobrir música onde o silêncio tem tanto peso quanto o som. Música que respira, onde cada elemento cumpre uma função precisa, onde tudo faz sentido. E que transpira uma alma como nenhuma outra.

MAIS INFORMAÇÕES ASSIM QUE AS TIVERMOS

Declarações de um armador ao noticiário da RTP-1, na noite de terça, aquando de uma manifestação exigindo melhores condições de segurança para os pescadores: "Se não nos ouvirem vamos arrancar para um protesto verdadeiramente gravíssimo. Ainda não sabemos o que vai ser, mas vai ser gravíssimo."

4 de janeiro de 2007

POLAROID: METRO

Coloco-me na fila para carregar o passe do mês. À minha frente, está uma jovem acompanhada pela mãe, que tem um grande número de sacos de plástico ao seu lado. Antes de ser atendida, a jovem pergunta se aceitam pagamento com multibanco, ao que lhe dizem que sim, mas quando ela entrega o passe e diz o que quer carregar, o funcionário explica-lhe que ali não vendem aquele passe, apontando para um cartão improvisado colocado bem visível na janela da cabina a informar que ali só vendem os passes urbanos combinado Carris/Metro e a antiga coroa L. A jovem afasta-se resmungando que qualquer dia já não vendem aquele passe em lado nenhum, explicando à mãe que ali não vendem o passe suburbano de que ela precisa, e a mãe protestando também em voz alta, até que o funcionário liga o intercomunicador e diz que "minha senhora, já não vendemos aqui passes suburbanos há mais de três anos". E, virando-se para mim, "o que é que se há-de fazer? As pessoas insistem em vir aqui comprar coisas que nós lhe dizemos que não vendemos..."

Depois de ser atendido, sou abordado por uma senhora de sotaque rural, que me chama de "filhinho" e me diz, muito alto, como se estivesse em sua casa, que quer ir apanhar a camioneta (ou seria o comboio?) para Rio de Mouro. Respondo-lhe que não sei onde é que pode apanhar transporte para Rio de Mouro (o que é verdade), e ela diz que acha que sai de Sete Rios. Digo-lhe que nesse caso tem de apanhar o metro para a estação do Jardim Zoológico, que era naquela estação, e ela pergunta-me, sempre muito alto, se não lhe quero tirar o bilhete. Indico-lhe a cabina da bilheteira, e digo-lhe que ali a ajudam de certeza. Ela agradece, sempre muito alto.

3 de janeiro de 2007

POLAROID: AUTOCARRO

Sento-me no abrigo à espera que chegue o autocarro. Pouco depois, chega um senhor idoso, de bengala, movendo-se com dificuldade, que, antes de se sentar ao meu lado, me pergunta se estou à espera do 9 — o que, visto que é o único autocarro servido por aquela paragem, me parece uma evidência. Quando o autocarro chega, alguns minutos depois, o senhor idoso passa uma eternidade a pagar o seu bilhete, e recusa-se a sentar-se, apesar de haver lugares vazios e de haver até quem lhe ofereça o seu lugar, preferindo ir de pé, "à homem", bem agarrado às barras verticais. Apesar mesmo de o condutor não arrancar sem lhe perguntar se estava bem seguro. O homem insiste teimosamente que sim, mas rapidamente o vejo agarrar-se com as duas mãos, a bengala suspensa de um dos braços.

2 de janeiro de 2007

POLAROID: METRO

No metro, direcção Alameda-Oriente, começo de repente a sentir à minha volta um cheiro a urina antiga e bafienta, como se eu me tivesse sentado numa cadeira que em tempos havia sido urinada profusamente, ou como se alguém tivesse urinado no chão da carruagem e tivesse ficado mal limpo. Levou-me algum tempo até perceber que o cheiro emanava não do lugar ou do chão, mas sim da idosa de bengala que, acompanhada pelo marido, se havia sentado no banco atrás do meu.

1 de janeiro de 2007

TROCADILHO PATÉTICO PARA ENTRAR COM O PÉ DIREITO EM 2007

Se entrámos em 2007, podemos dizer que é um bond ano novo?

A IMPORTÂNCIA DO ASSEIO

Devo ter a única gata do mundo que faz questão de tomar duche com o dono (quando o dono a deixa, evidentemente) e adora acompanhar lavagens de mãos saltando para o lavatório e pondo a orelha e a pata debaixo da torneira.