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10 de janeiro de 2007

SIM OU NÃO?

Respeito as convicções daqueles que defendem acesamente o "não" à interrupção voluntária da gravidez, e daqueles que defendem acesamente o "sim". Mas acho que, em última análise, a decisão de abortar ou não abortar não é uma decisão da sociedade, é uma decisão da mulher que se coloca a questão de o fazer ou não. É uma decisão solitária, pessoal, intransmissível — e é por isso que todas estas discussões sobre o aborto me parecem, na maior parte das vezes, retóricas, teóricas, distantes da realidade das mulheres que enfrentam a decisão. Acho que abortar é uma decisão da mulher e de mais ninguém, e por isso sou contra qualquer tentativa de a impedir de tomar a sua decisão em plena liberdade. É sempre muito fácil querer decidir pelos outros, mas, mesmo com toda a boa vontade do mundo, a verdade é que cada caso é um caso.

Dito isto, os defensores do "sim" irritam-me por terem aquela superioridade moral típica dos liberais que não compreendem como é que pode haver quem não concorde com eles, e os defensores do "não" irritam-me porque parecem querer acreditar que tudo ficará bem com uma vitória do "não" (quando ela apenas prolongará os riscos desnecessários dos abortos ilegais). Se querem a minha opinião, acho que falta nesta conversa toda um pouco de bom senso — coisa que, geralmente, as mulheres até têm mais que os homens.

9 de janeiro de 2007

NINGUÉM SE CHAMA POSSIDÓNIO CACHAPA

Mas a verdade é que Possidónio Cachapa chama-se mesmo Possidónio Cachapa. Nunca tinha lido nada do escritor, mas vi o filme de José de Sá Caetano que ele escreveu, "Maria e as Outras" (2004), que não passava de um telefilmezinho banal sem sinais particulares. Na minha voragem literária recente, abalancei-me a "O Mar por Cima" (Lisboa: Oficina do Livro, 2002), que alguém me ofereceu em tempos, e, concedendo-me algo desiludido pelo modo como a coisa promete mais do que dá, não desgostei, sobretudo pela construção em mosaico e por alguns momentos de certeira observação da lusa natureza. Como este:

(...) Aurora estava convencida que pelo menos duas das suas múltiplas desgraças tinham sido causadas por palavras precipitadas. Por isso, desde então, tinha muito cuidado com os protestos contra o Divino.

A primeira tristeza caíra-lhe em cima, aos sete anos, quando Lhe declarou, uma noite, que ou o irmão mais novo morria ou ela não Lhe voltava a rezar. Disse isto e estava a sério. E Ele ouviu-a. Na tarde seguinte, ao chegar da venda, com uma saca de farinha à cabeça, percebeu na rua, grande agitação. Crianças que corriam a gritar o nome do infante; vizinhas que diziam, "Ai filha, grande desgraça". E, finalmente, a confirmação: O irmão pequeno tinha ido até aos fundos do quintal, os que davam com a ribeira e, como se corresse atrás de uma voz, tinha-se deixado escorregar para as águas revoltas, de Inverno. Ela ainda correu para o quarto a pedir-lhe por tudo que voltasse atrás, que haveria de ser sobre ela que as culpas recairiam. Mas em vão. Tiraram o pequeno sem vida de dentro das raízes de uma sucupira, o peitinho com equimoses e o rosto branco como um anjo. Deu um morto tão lindo que não houve quem não o chorasse. Aurora ficou um bocadinho ciumenta. Sabia que nunca viria a fazer uma defunta tão convincente, por isso agarrou-se à vida e acautelou os pedidos.

Prevaricou uma segunda vez ao pedir-Lhe um marido que gostasse de cinturas finas e vozes de pássaro. Na sua infinita paciência, fez-lhe, Ele, a vontade, dando-lhe Sabino que haveria de ganhar muito dinheiro e de a emprenhar amiúde. Trouxe a porra do sogro, como cadeau-bonus, mas já se sabe que não se pode querer comer rebuçados sem lhes tirar o papel. Aurora teve tudo o que quis. E ganhou, por tabela, o que não quis. Trabalhava de manhã à noite, do forno para o pó e deste para as arrumações. Rodeada, primeiro de ranho, em seguida de pernas sempre crescentes e más-criações, ainda assim, não desistiu da sua fé.

8 de janeiro de 2007

NÃO HÁ COMPRIMIDOS QUE RESOLVAM ISTO?

Tenho uma tendência chata para ficar na moleza na cama um bocado sempre que acordo; sempre tive, não é de agora. É-me difícil levantar-me imediatamente e dar início ao dia. Já D. Sofia não fica ali a perder tempo e começa logo aos pulos. E eu dou por mim a pensar porque não faço o mesmo (levantar-me logo em vez de ficar na moleza, não começar aos pulos). Alguém sabe de um bom remédio?

7 de janeiro de 2007

NÓS TAMBÉM SOMOS GENTE

Os jogadores de futebol querem fazer greve porque vão passar a ter de pagar imposto sobre a totalidade dos rendimentos em vez de só sobre apenas 90% dos rendimentos. Sou só eu ou há aqui qualquer coisa que não faz lá muito sentido?

6 de janeiro de 2007

SATURAÇÃO, SATURAÇÃO, SATURAÇÃO, SATURAÇÃO

Vocês não estão já fartos do Lisboa-Dakar, mesmo apesar de ter começado hoje?

POLAROID: ELÉCTRICO 28

No eléctrico cheio, uma senhora idosa que vai de pé logo atrás do condutor aproveita a paragem para lhe perguntar sobre o bilhete recarregável que usa e que, pela conversa, a senhora parece não saber que é recarregável. O pormenor é que, para fazer a pergunta ao condutor, a senhora coloca-se precisamente no enfiamento da porta de entrada, bloqueando o acesso a quem quiser subir para o eléctrico.

5 de janeiro de 2007

O NILO AZUL







Redescobrir os Blue Nile no meio do bulício da cidade (e que bem que estes discos continuam a soar, todos estes anos depois) é redescobrir música onde o silêncio tem tanto peso quanto o som. Música que respira, onde cada elemento cumpre uma função precisa, onde tudo faz sentido. E que transpira uma alma como nenhuma outra.

MAIS INFORMAÇÕES ASSIM QUE AS TIVERMOS

Declarações de um armador ao noticiário da RTP-1, na noite de terça, aquando de uma manifestação exigindo melhores condições de segurança para os pescadores: "Se não nos ouvirem vamos arrancar para um protesto verdadeiramente gravíssimo. Ainda não sabemos o que vai ser, mas vai ser gravíssimo."

4 de janeiro de 2007

POLAROID: METRO

Coloco-me na fila para carregar o passe do mês. À minha frente, está uma jovem acompanhada pela mãe, que tem um grande número de sacos de plástico ao seu lado. Antes de ser atendida, a jovem pergunta se aceitam pagamento com multibanco, ao que lhe dizem que sim, mas quando ela entrega o passe e diz o que quer carregar, o funcionário explica-lhe que ali não vendem aquele passe, apontando para um cartão improvisado colocado bem visível na janela da cabina a informar que ali só vendem os passes urbanos combinado Carris/Metro e a antiga coroa L. A jovem afasta-se resmungando que qualquer dia já não vendem aquele passe em lado nenhum, explicando à mãe que ali não vendem o passe suburbano de que ela precisa, e a mãe protestando também em voz alta, até que o funcionário liga o intercomunicador e diz que "minha senhora, já não vendemos aqui passes suburbanos há mais de três anos". E, virando-se para mim, "o que é que se há-de fazer? As pessoas insistem em vir aqui comprar coisas que nós lhe dizemos que não vendemos..."

Depois de ser atendido, sou abordado por uma senhora de sotaque rural, que me chama de "filhinho" e me diz, muito alto, como se estivesse em sua casa, que quer ir apanhar a camioneta (ou seria o comboio?) para Rio de Mouro. Respondo-lhe que não sei onde é que pode apanhar transporte para Rio de Mouro (o que é verdade), e ela diz que acha que sai de Sete Rios. Digo-lhe que nesse caso tem de apanhar o metro para a estação do Jardim Zoológico, que era naquela estação, e ela pergunta-me, sempre muito alto, se não lhe quero tirar o bilhete. Indico-lhe a cabina da bilheteira, e digo-lhe que ali a ajudam de certeza. Ela agradece, sempre muito alto.

3 de janeiro de 2007

POLAROID: AUTOCARRO

Sento-me no abrigo à espera que chegue o autocarro. Pouco depois, chega um senhor idoso, de bengala, movendo-se com dificuldade, que, antes de se sentar ao meu lado, me pergunta se estou à espera do 9 — o que, visto que é o único autocarro servido por aquela paragem, me parece uma evidência. Quando o autocarro chega, alguns minutos depois, o senhor idoso passa uma eternidade a pagar o seu bilhete, e recusa-se a sentar-se, apesar de haver lugares vazios e de haver até quem lhe ofereça o seu lugar, preferindo ir de pé, "à homem", bem agarrado às barras verticais. Apesar mesmo de o condutor não arrancar sem lhe perguntar se estava bem seguro. O homem insiste teimosamente que sim, mas rapidamente o vejo agarrar-se com as duas mãos, a bengala suspensa de um dos braços.

2 de janeiro de 2007

POLAROID: METRO

No metro, direcção Alameda-Oriente, começo de repente a sentir à minha volta um cheiro a urina antiga e bafienta, como se eu me tivesse sentado numa cadeira que em tempos havia sido urinada profusamente, ou como se alguém tivesse urinado no chão da carruagem e tivesse ficado mal limpo. Levou-me algum tempo até perceber que o cheiro emanava não do lugar ou do chão, mas sim da idosa de bengala que, acompanhada pelo marido, se havia sentado no banco atrás do meu.

1 de janeiro de 2007

TROCADILHO PATÉTICO PARA ENTRAR COM O PÉ DIREITO EM 2007

Se entrámos em 2007, podemos dizer que é um bond ano novo?

A IMPORTÂNCIA DO ASSEIO

Devo ter a única gata do mundo que faz questão de tomar duche com o dono (quando o dono a deixa, evidentemente) e adora acompanhar lavagens de mãos saltando para o lavatório e pondo a orelha e a pata debaixo da torneira.

31 de dezembro de 2006

2006 PESSOAS

The Mourinhas

David J. Dehner

D. Sofia Antunes da Silva von Satori de Mourinha (miau)

Aldina Duarte, Alexandra Prado Coelho, Alexandre Monteiro, Ana Cristina Ferrão, Ana Markl, Ana Ribeiro, António Abernu, António Pires, António Quintas, António Rodrigues, António Sérgio, Bárbara Reis, Bryan Harrison, Carlos Murganho, Celso Martins, Cristina Antunes da Silva, Cristina Marçal, David Beaulieu, Eunice Marques, Francisco Vieira, Hans van Vlouten, Helena Alves, Helena Brandão, Henrique Amaro, Inês Cristóvão, Inês Paes, Isabel Anselmo, Isabel Castaño, Isabel Coutinho, Isabel Salema, João Bonifácio, João Brandão, João Lisboa, João Lopes, João Macdonald, João Marques, João Carlos Roque, João Paulo Fonseca, Joaquim Bidarra, Johan van Grunsven, José Manuel Marques, José Manuel Osório, José Mateus, José Pinto, José Vieira Mendes, Joseph Pentheroudakis, Kurt Heintz, Lia Pereira, Luís Apolinário, Luís Guerra, Luís Miguel Oliveira, Luís Peixoto, Luísa Amaro, Luiz Costa, Marc Glady, Maria do Carmo Piçarra, Maria João Leitão Amorim, Maria Lisboa, Mário Jorge Torres, Marta Castaño, Marta Fernandes, Marta Lisboa, Michael W. Levy, Miguel Amorim, Miguel Francisco Cadete, Nuno Markl, Nuno Sena, Nuno Sousa, Paul Dostert, Paula Freitas, Paula Homem, Paulo Ochoa, Paulo Salgado, Paulo Seco, Pedro Alves da Veiga, Pedro Mexia, Pedro Sousa, Phillip Woodbury, Robert L. David, Rodrigo Cardoso, Rosário Morujão, Rui Brazuna, Rui Monteiro, Rui Pereira, Steve Carson, Steven Sykes, Susana Santos Monteiro, Tiago Castro, Vasco Câmara, Veronica Paine, Vítor Pinheiro, William Toro

CINCOQUATROTRÊSDOISUMZEROETCETCETC

AtodosumbomNataletc.etc.etc., ah, não, espera, isto foi a semana passada, pois foi, FelizAnoNovoeque2007vostragatudoaquiloquedesejaremetc.etc.etc.

OLHA SE O GATO FEDORENTO DESCOBRE

O oficial de dia da Brigada de Trânsito da GNR que estava a prestar declarações ao noticiário da hora de almoço do canal 1 era o tenente Lopes da Silva.

PEQUENOS IRRITANTES QUOTIDIANOS #37

Canetas que se recusam a escrever em certas secções da página mas escrevem perfeitamente noutras.

30 de dezembro de 2006

2006 IMAGENS

1. The New World/O NOVO MUNDO, Terrence Malick, 2005
2. Le Temps qui Reste/O TEMPO QUE RESTA, François Ozon, 2005
3. Cars/CARROS, John Lasseter & Joe Ranft, 2006
4. Inside Man/INFILTRADO, Spike Lee, 2006
5. MIAMI VICE, Michael Mann, 2006

seguidos de:

Good Night, and Good Luck./BOA NOITE, E BOA SORTE, George Clooney, 2005
BUBBLE, Steven Soderbergh, 2005
Millennium Actress/A CHAVE DA VIDA, Satoshi Kon, 2001
Ghost in the Shell: Innocence/CIDADE ASSOMBRADA 2: A INOCÊNCIA, Mamoru Oshii, 2004
The White Countess/A CONDESSA RUSSA, James Ivory, 2005
THE DEATH OF MR. LAZARESCU, Cristi Puiu, 2004
The Departed/ENTRE INIMIGOS, Martin Scorsese, 2006
Little Miss Sunshine/UMA FAMÍLIA À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS, Jonathan Dayton & Valerie Faris, 2006
A History of Violence/UMA HISTÓRIA DE VIOLÊNCIA, David Cronenberg, 2005
Mary/MARIA MADALENA, Abel Ferrara, 2005
MARIE ANTOINETTE, Sofia Coppola, 2005
MATCH POINT, Woody Allen, 2006
Caché/NADA A ESCONDER, Michael Haneke, 2004
Le Petit Lieutenant/A OUTRA FACE DA LEI, Xavier Beauvois, 2005
Paradise, Now!/O PARAÍSO, AGORA!, Hany Abu-Assad, 2005
PRIMER, Shane Carruth, 2004
The Passenger/PROFISSÃO: REPÓRTER, Michelangelo Antonioni, 1975
REQUIEM, Hans-Christian Schmid, 2005
Shanghai Dreams/SONHAR COM XANGAI, Wang Xiaoshuai, 2005
United 93/VÔO 93, Paul Greengrass 2006

2006 SONS

faltam, claro, coisas, mas é mesmo assim, nunca nos lembramos de tudo.

Carlos Bica & Azul: Believer: Enja/Dargil
Chico Buarque: Carioca: Biscoito Fino/EMI
Bypass: Mighty Sounds Pristine: Bor Land/Músicactiva
Johnny Cash: American V: A Hundred Highways: American/Lost Highway/Universal
Lloyd Cole: Antidepressant: Sanctuary/Farol
Elvis Costello & Allen Toussaint: The River in Reverse: Verve Forecast/Universal
Brian Eno & David Byrne: My Life in the Bush of Ghosts: Virgin/EMI
Gaiteiros de Lisboa: Sátiro: Sony BMG
The Gothic Archies: The Tragic Treasury: Songs from A Series of Unfortunate Events: Nonesuch/Warner-Farol
Mark Knopfler & Emmylou Harris: All the Roadrunning: Mercury/Universal
Marisa Monte: Infinito Particular: Phonomotor/EMI
The Mountain Goats: Get Lonely: 4AD/Popstock
Pet Shop Boys: Fundamental: Parlophone/EMI
Paul Simon: Surprise: Warner Bros./Warner-Farol
Scritti Politti: White Bread, Black Beer: Rough Trade/Edel
TV On The Radio: Return to Cookie Mountain: Touch & Go/4AD/Popstock
vários artistas: The House that Trane Built: The Story of Impulse Records: Impulse/Universal
Caetano Veloso: : Emarcy/Universal
Tom Verlaine: Around: Thrill Jockey/Ananana
Scott Walker: The Drift: 4AD/Popstock
Weekend: La Variété: Cherry Red

29 de dezembro de 2006

CARREIRA 9

Curvando das faixas centrais da avenida da Liberdade para a faixa interior lateral no cruzamento com a rua Barata Salgueiro no sentido Restauradores-Marquês de Pombal em direcção ao Rato, o autocarro articulado da carreira 9 vê-se impossibilitado de fazer a curva; há uma carrinha parada, os piscas acesos, um pouco à frente da esquina que bloqueia a continuação da manobra. O condutor buzina um par de vezes, os passageiros do autocarro mostram algum interesse; rapidamente se apercebem do que se está a passar e começam a ouvir-se suspiros, há quem "bufe", há quem olhe para o relógio, há quem tente meter conversa com o vizinho do lado, com os habituais resmungos nacionais que se queixam de que isto é uma pouca vergonha e a polícia só vai aparecer quando já não for precisa. O condutor contacta por rádio a central informando de que está retido por um carro mal estacionado, entretanto abre a porta da frente para quem não quiser ficar à espera; alguns passageiros aproveitam e saem. Os carros que querem seguir o mesmo caminho mas o têm bloqueado pelo autocarro buzinam mais um bocado. Passam mais alguns instantes, e chegam dois polícias de giro, que comunicam a matrícula do carro à central e começam a passar um auto quando o condutor da carrinha chega, com ar de quem está a ter um dia mau que está mesmo à beira de ficar pior; entra na carrinha e manobra-a para deixar passar o autocarro, que os polícias querem ter uma palavrinha com ele. Tudo não terá durado mais de cinco minutos e o autocarro articulado da carreira 9 retoma o seu percurso.