Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
24 de dezembro de 2006
AVISO ÀS BALZAQUIANAS DE TODO O MUNDO
A minha amiga Isabel avisa todas aquelas que estão à espera de uma máquina de café Nespresso no sapatinho que o George Clooney NÃO vem incluído com a máquina.
23 de dezembro de 2006
22 de dezembro de 2006
JÁ TEVE O SEU ORGASMO HOJE?
Hoje é o dia do primeiro "Orgasmo Global Sincronizado Anual pela Paz", organizado por um casal de activistas americanos que querem que o mundo desvie hoje as suas energias negativas para o supremo prazer de gozar em nome da paz. Juro que não estou a inventar nada.
20 de dezembro de 2006
HÁ QUE DIZÊ-LO COM FRONTALIDADE
Já não sei quem me ofereceu "No Interior da Tua Ausência" (Lisboa: Asa, 2002), romance de Baptista-Bastos, velada ficção autobiográfica (é o que dá andar demasiados livros em atraso). Espero que o responsável, se ler estas pequenas linhas, não fique escandalizado por dizer que não fiquei grandemente impressionado pela prosa sincera mas rocambolesca, a espaços demasiado pomposa, do jornalista-escritor, e que a estrutura demasiado fluida e insuficientemente estruturada (passe o pleonasmo) não me cativou por aí além. É um livro tanto mais estimulante quanto mais se ancora em referências claramente reais, em vivências vividas, em reminiscências localizadas de uma peculiar nostalgia (com o seu quê de "Belarmino" by Fernando Lopes) de uma Lisboa perdida no tempo. E, pelo meio, há passagens francamente notáveis, como esta que não resisto a transcrever.
"Todos nós temos os nossos tempos, e os meus tempos não se coadunam com nenhum destes tempos de agora, porque pertenço a uma antiga esperança, a uma antiga e submersa esperança. A falta de esperança conduz à mediocridade. É da admissão desta banalidade que existe o diálogo comigo mesmo, porventura feito de algumas omissões e de múltiplas apreensões. O que se exige de nós é assustador: conhecermo-nos. Por isso, fazemos por esquecer essa exigência: conhecermo-nos pode ser bom ou mau, mas é sempre perigoso."
"Todos nós temos os nossos tempos, e os meus tempos não se coadunam com nenhum destes tempos de agora, porque pertenço a uma antiga esperança, a uma antiga e submersa esperança. A falta de esperança conduz à mediocridade. É da admissão desta banalidade que existe o diálogo comigo mesmo, porventura feito de algumas omissões e de múltiplas apreensões. O que se exige de nós é assustador: conhecermo-nos. Por isso, fazemos por esquecer essa exigência: conhecermo-nos pode ser bom ou mau, mas é sempre perigoso."
19 de dezembro de 2006
LINGUÍSTICA APLICADA
Ao ver, ontem, no noticiário da RTP a reportagem sobre o mini-tornado dos Açores, reparei mais uma vez na minha extrema dificuldade em entender o sotaque açoriano — é quase como ouvir uma outra língua que nada tem a ver com o português-padrão, de tal maneira as especificidades linguísticas da região e a sua distância do continente o tornam imperceptível ao ouvido lisboeta destreinado. Já dei por mim a pensar que não seria má ideia passar essas reportagens legendadas.
18 de dezembro de 2006
17 de dezembro de 2006
É TÃO LINDO APRENDER
"O que somos hoje, devemo-lo aos nossos professores", lê-se num cartaz espalhado por aí pelas organizações de professores contra a ministra da educação. Permito-me respeitosamente discordar: eu cá tive alguns professores que não me ensinaram rigorosamente nada (não vou dar nomes, mas estou-me a recordar das minhas professoras de inglês e de francês no 12º ano, e de uma professora de inglês da faculdade — até hoje não compreendo como é possível um aluno falar melhor inglês que uma professora, mas era verdade). Também tive excelentes professores que ajudaram significativamente a moldar a minha educação, mas que não se queira atirar areia para os olhos: eu tive maus professores, e não foram tão poucos como isso. Por isso, desculpem qualquer coisinha se olhar para estas manifestações da classe de soslaio.
16 de dezembro de 2006
UMA NOITE PARA COMEMORAR
Este blog celebra hoje três anos de existência ininterrupta, a ocasião fica marcada por um "extreme makeover" pobrezinho-mas-honrado. O meu obrigado a todos os que por aqui passam, deixam comentários, mandam vir, etc., etc., etc, por fazerem deste meu cantinho online também vosso. Disponham sempre e continuem a aparecer.
15 de dezembro de 2006
A TEORIA DA RELATIVIDADE
"Contribuir com os meus impostos para financiar clínicas de aborto? Não obrigada!", reza um "outdoor" que anda aí espalhado por Lisboa. No entanto, há milhões de contribuintes que contribuem efectivamente com os impostos para financiar mordomias bem mais escandalosas — mas contra essas nunca se vêem "outdoors".
14 de dezembro de 2006
POLAROID: METRO
No comboio em direcção ao Cais do Sodré, a senhora sentada à minha frente de óculos escuros no rosto envelhecido, pose meio desleixada no assento, joelhos em ângulo a ocupar parte do espaço do assento ao lado, ocupado por dois grandes sacos de papel do centenário do Sporting selados como prendas, está-se pouco ralando com o que os outros pensam dela e tem ar de quem não lhe apetece estar ali sentada. Algumas estações mais à frente, uma senhora que acaba de entrar nota que o lugar ao lado está vazio, mas a mulher dos óculos escuros finge que não é nada com ela, até que a senhora, com um sinal da mão, aponta para os sacos. Sem mudar um milímetro a sua linguagem corporal nem fazer contacto com a senhora, a mulher dos óculos escuros pega nos sacos, põe-os à sua frente, mas não afasta os joelhos.
13 de dezembro de 2006
DESIGNER BURQA
Na última página do Público de hoje vinha o retrato de uma atleta do Bahrein que se terá tornado na primeira atleta de um país muçulmano a competir e a ganhar a competição de cabeça coberta pela tradicional burqa. Não era, contudo, uma burqa qualquer, pois tinha o logotipo da Nike. Olha se a moda pega: burqas Dior, Chanel, Louis Vuitton, Armani...
12 de dezembro de 2006
A TERAPIA DO PÊLO
Acho que foi o Calvin que disse isto em tempos. Mas posso garantir que alguns minutos de festinhas em câmara-lenta ao pêlo tigrado de D. Sofia Felina são o melhor anti-depressivo que já experimentei. (Não que tenha experimentado muitos.)
11 de dezembro de 2006
10 de dezembro de 2006
A GUERRA É A GUERRA
Esta galeria de fotografias da National Geographic de Dezembro não se recomenda a almas sensíveis. E só me leva a fazer uma pergunta: porquê, para quê, em nome de quê?
9 de dezembro de 2006
COMO É LINDO O AMOR
"António, amo-te. O EU"
— graffiti que está há anos na rua Conde de Almoster, junto ao Centro de Saúde de Sete Rios, visível para quem se aproxima de carro vindo de Benfica
— graffiti que está há anos na rua Conde de Almoster, junto ao Centro de Saúde de Sete Rios, visível para quem se aproxima de carro vindo de Benfica
7 de dezembro de 2006
A REDESCOBERTA DA PALAVRA
Haverá alguns mais dados às más línguas que entenderão que ter um gato enroscado terá ajudado, mas confesso que passa muito mais pelos dias mais descansados dos fins-de-semana prolongados, pelos feriados, pelo inverno que já aí está e convida ao ursar preguiçoso pelo sofá (como eu gosto da palavra ursar, que em tempos o meu amigo Joaquim Bidarra defendia calorosamente): depois de um par de anos em que a leitura regular se ficava pelas revistas da praxe e os livros se iam acumulando escandalosamente por ler nas prateleiras, está-me outra vez a saber tão bem concentrar-me nas páginas de um livro e deixá-las correr com o tempo. Estar a ler por prazer, sem obrigação, e deixar-me levar onde as palavras me levam. Pelo meio, apanho um ensaio da falecida Susan Sontag sobre o "Berlin Alexanderplatz" de Fassbinder (no curiosíssimo "Writers at the Movies", colecção de escritos de escritores sobre filmes editada por Jim Shepard em 2003) — onde ela defende, basicamente, que se contam pelos dedos de uma mão os bons filmes tirados de bons livros, e que a única adaptação cinematográfica possível de um romance é uma visualização fiel e integral, que a própria natureza do cinema (compactando uma narrativa em duas horas) inviabiliza. Sabemos, claro, que não é exactamente assim (é isto da tradução/traição...) mas é uma posição admiravelmente defensável — e que sublinha apenas como o poder cinemático da palavra é insubstituível, mesmo pela imagem que é suposta valer mil palavras.
6 de dezembro de 2006
ALL MOD CONS
Estou — eu e, presumo, a rua toda — sem água desde ontem às oito da noite, segundo a linha de faltas de água da EPAL devido a uma "rotura imprevista" na rua onde moro (pequena dúvida etimológica: rotura será um abastardamento de ruptura?), e a EPAL prevê que a situação apenas fique regularizada lá para as quatro da tarde (às 10 da manhã era ao meio-dia; será que às duas da tarde passa a ser às oito da noite?). Não posso dizer que tenha razões de queixa da EPAL: nos seis anos que já levo a morar aqui, esta é a primeira falta de água verdadeiramente incómoda que sofro (isto de não poder tomar banho de manhã faz-me uma comichão à cabeça que nem vos imagina), mas é tão incómoda (estou há precisamente 12 horas sem água) que dá vontade de tratar mal os responsáveis. Ora, a verdade é que uma vez em seis anos é uma média muito boa, mesmo que neste momento me apeteça obrigar os responsáveis da EPAL a passarem um dia inteiro sem água a ver se acham graça. Mais interessante é perceber como estamos de tal modo habituados aos nossos pequenos confortos modernos, "civilizados", que quase nem nos passa pela cabeça que eles nos podem faltar — e, quando nos faltam, ficamos ó-tio-ó-tio sem saber bem o que fazer.
5 de dezembro de 2006
A ARTE DAS RELAÇÕES PÚBLICAS
Uma manhã em que estava a trabalhar em casa, toca-me à porta um angariador de uma empresa de telecomunicações anunciando — muito depressa e entredentes — que se eu tivesse uma factura da PT tinha uma oferta para mim. Isto sem explicar ao que vinha e de onde vinha. O jovem (dos seus 20 e poucos, tinha todo o ar de primeiro emprego e vinha vestido demasiado à moda suburbana para ter o aspecto sério e respeitável que estes angariadores supostamente devem ter) não tinha ar nenhum de funcionário da PT, pelo que lhe perguntei se era da PT, ao que me respondeu que trabalhava com a PT. Pedi-lhe se tinha algum tipo de identificação e, relutantemente, puxou do bolso das calças o cartão que o identificava como empregado de uma das empresas de telecomunicações que andam a tentar convencer os clientes a abandonar a linha fixa da PT e ter assinatura telefónica noutro fornecedor (o que é um objectivo louvável visto que a PT se estica um bocadinho em termos de preços). Só que o jovem não só mostrou o cartão relutantemente como ainda resmungou entredentes qualquer coisa do tipo "o senhor é muito desconfiado". Quando lhe disse, para o despachar o mais educadamente que podia e regressar ao trabalho, que não tinha telefone fixo, disse-me, "bom, nesse caso não o posso ajudar". Isto apesar de ninguém lhe ter pedido ajuda e de o angariador parecer estar-se razoavelmente a borrifar se eu precisava ou não da ajuda, desde que marcasse a visita como feita lá no registo de visitas.
3 de dezembro de 2006
POST FELINO SEMANAL
D. Sofia Felina tem uma especial predilecção por empoleirar-se no meu ombro esquerdo e por ali ficar a observar o mundo que a rodeia, aproveitando para de vez em quando me lamber ou cheirar (ou mesmo mordiscar) a orelha esquerda como quem subiu para cima de um móvel. Umas quantas vezes, a sua ascensão ao ombro faz-se por meio de um método aprendido decerto com Reinhold Messner na National Geographic de Novembro, subindo à força de garra pelas calças e camisola acima até se instalar no ombro e por ali ficar enquanto muito bem lhe apetecer.
1 de dezembro de 2006
A PROPÓSITO DO LUGAR-COMUM
Tenho estado a acompanhar à distância o cortejo de diatribes anti-crítica-de-cinema dos leitores do blog do meu amigo Nuno Markl (façam o favor de consultar as caixas de comentários deste e deste posts) a propósito daquilo que seria uma unificação da "classe crítica" portuguesa contra "Borat: Aprender Cultura da América para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão", de Larry Charles, que ontem estreou por cá.
Não vou entrar em nenhuma defesa acérrima da "classe crítica" porque não existe uma "classe crítica" — existem indivíduos com gostos diferentes, vivências diferentes e expressões diferentes, graças a Deus que somos todos diferentes e gostamos todos de coisas diferentes. Mas é curioso como a opinião de quase toda a gente que para ali comenta (mais do que o próprio Nuno Markl, que, honra lhe seja feita, esclarece bastante bem que a crítica não é uma "classe" sindicalizada mas um aglomerado de gente muito diferente, embora não se furte a uma ou outra generalização menos feliz) é uma opinião extremamente negativa para com os críticos de cinema, apelidando-os de intelectuais, de snobs, de elitistas, de gente que só gosta de filmes chatos, que odeia o sucesso de bilheteira, que horror, o filme está a fazer bem vamos dizer mal etc., etc., etc. É significativo de uma atitude bastante generalizada (e generalista) sobre esses chulos que ganham a vida a dizer mal daquilo que as pessoas gostam (reparem que "as pessoas" é sempre uma grande massa amorfa que, na vida real, nunca se comporta com essa movimentação de massas quase unânime).
O que a maior parte das "pessoas" esperam da crítica de cinema hoje em dia, no fundo, não é que quem critique emita uma opinião pessoal, mais ou menos fundamentada, pior ou melhor argumentada. O que as pessoas esperam da crítica de cinema (e não é só da de cinema) não é uma opinião — melhor, não é uma outra opinião: esperam apenas que o crítico valide a opinião de quem lê. Se a validar, é um excelente crítico; se não, não percebe nada do que faz. As pessoas no fundo não querem ler nem querem ter de pensar: querem o oráculo dos telejornais, saber o essencial em duas linhas para não terem de ler uma página que as faça pensar e confrontar a sua própria opinião com uma outra que não forçosamente igual. As pessoas não se querem dar ao trabalho. (A unanimidade de quase todos os comentários a chamar "genial" ao "Borat..." é tão suspeita como a unanimidade de quase todos os críticos que dizem mal do filme — o que só prova que os radicalismos são por natureza parciais).
Ora, o engraçado é que "Borat..." é um filme que se dá ao trabalho de desmontar ideias feitas, à volta dessa necessidade de desafiar a preguiça e o lugar-comum. E que isso parece ter passado ao lado quer de quem o acha genial quer de quem o acha indigente. A verdade, claro, está algures no meio, como a virtude.
Não vou entrar em nenhuma defesa acérrima da "classe crítica" porque não existe uma "classe crítica" — existem indivíduos com gostos diferentes, vivências diferentes e expressões diferentes, graças a Deus que somos todos diferentes e gostamos todos de coisas diferentes. Mas é curioso como a opinião de quase toda a gente que para ali comenta (mais do que o próprio Nuno Markl, que, honra lhe seja feita, esclarece bastante bem que a crítica não é uma "classe" sindicalizada mas um aglomerado de gente muito diferente, embora não se furte a uma ou outra generalização menos feliz) é uma opinião extremamente negativa para com os críticos de cinema, apelidando-os de intelectuais, de snobs, de elitistas, de gente que só gosta de filmes chatos, que odeia o sucesso de bilheteira, que horror, o filme está a fazer bem vamos dizer mal etc., etc., etc. É significativo de uma atitude bastante generalizada (e generalista) sobre esses chulos que ganham a vida a dizer mal daquilo que as pessoas gostam (reparem que "as pessoas" é sempre uma grande massa amorfa que, na vida real, nunca se comporta com essa movimentação de massas quase unânime).
O que a maior parte das "pessoas" esperam da crítica de cinema hoje em dia, no fundo, não é que quem critique emita uma opinião pessoal, mais ou menos fundamentada, pior ou melhor argumentada. O que as pessoas esperam da crítica de cinema (e não é só da de cinema) não é uma opinião — melhor, não é uma outra opinião: esperam apenas que o crítico valide a opinião de quem lê. Se a validar, é um excelente crítico; se não, não percebe nada do que faz. As pessoas no fundo não querem ler nem querem ter de pensar: querem o oráculo dos telejornais, saber o essencial em duas linhas para não terem de ler uma página que as faça pensar e confrontar a sua própria opinião com uma outra que não forçosamente igual. As pessoas não se querem dar ao trabalho. (A unanimidade de quase todos os comentários a chamar "genial" ao "Borat..." é tão suspeita como a unanimidade de quase todos os críticos que dizem mal do filme — o que só prova que os radicalismos são por natureza parciais).
Ora, o engraçado é que "Borat..." é um filme que se dá ao trabalho de desmontar ideias feitas, à volta dessa necessidade de desafiar a preguiça e o lugar-comum. E que isso parece ter passado ao lado quer de quem o acha genial quer de quem o acha indigente. A verdade, claro, está algures no meio, como a virtude.
Subscrever:
Mensagens (Atom)