Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
30 de novembro de 2006
CARREIRA 58
Uma das coisas mais curiosas em que reparo quando viajo de autocarro em Lisboa é a necessidade que algumas pessoas - maioritariamente idosos de todo o tipo - têm de conversar umas com as outras. E, geralmente, as conversas têm sempre um único tópico: dizer mal. Há sempre qualquer coisa que está mal, há sempre alguém que está a enganar alguém, são sempre os mesmos que são comidos, etc., etc., etc. É raríssimo ouvir uma palavra simpática nestas conversas de autocarro.
28 de novembro de 2006
WE LOVE LESMA
Pronto. Não consigo mesmo resistir a pôr aqui o clip da rave das lesmas que a Dreamworks e a Aardman puseram a correr há largas semanas para promover "Por Água Abaixo", que estreia por cá na quinta-feira. O clip não aparece no filme, mas dá uma ideia do que as lesmas estão lá a fazer — tipo pinguins de "Madagáscar" (mas "Por Água Abaixo" é uma comédia hilariante, enquanto "Madagáscar" era uma "sitcom" sem grande graça esticada para longa-metragem). Depois disto, nunca mais verão uma lesma da mesma maneira.
27 de novembro de 2006
NAO FAZ MAL, E PAPEL NA MESMA
Amigos meus de alma caridosa e bom coração haviam avisado que, à imagem dos seus irmãos felinos, D. Sofia Felina ia encetar uma relação muito íntima e proveitosa (para ela, que não para mim) com os rolos de papel higiénico. Até ver, tal não se concretizou.
Já com os guardanapos de papel, o caso muda de figura.
Já com os guardanapos de papel, o caso muda de figura.
26 de novembro de 2006
FADISTICES
Há uma semana, Aldina Duarte na Culturgest, em rigorosa encenação de Jorge Silva Melo para apresentar o segundo (e menos conseguido) álbum, "Crua". Ontem, Cristina Branco no CCB, em antevisão do novo "Live". É curioso como o "futuro" do "Novo Fado" está cada vez mais ligado ao passado: Aldina está cada vez mais próxima das grandes castiças como Lucília do Carmo, em tom, em timbre, em enunciação, em entrega, em respeito pelo rigor e pela forma clássica do "Velho Fado"; Cristina assume cada vez mais reportório de Amália para o integrar na sua "canção" tangencial ao Fado, fazendo-o (coisa assombrosa que ainda nenhuma outra conseguiu fazer, nem mesmo Mariza ou Kátia) seu.
Ironicamente, ambas, de alguma maneira, "marcaram passo". Aldina porque se notava o nervosismo, a preocupação com uma marcação de palco a ser respeitada, que espartilhou a espontaneidade e o entusiasmo que lhe reconhecemos; a Culturgest pode ter esse lado intimidatório (Mafalda Arnauth também em tempos lá se espalhou), mas Aldina não o tinha sentido há ano e meio, na sua estreia naquele espaço, e sentiu-o desta vez. Cristina porque o seu concerto, para lá das interpretações de Amália que não faziam parte do seu reportório habitual, não é mais do que uma versão "extended" do "set" respeitante à digressão do sublime "Ulisses". Para Aldina, este concerto terá sido um degrau mais num crescimento artístico em progressão contínua dentro de uma lógica de transmissão do classicismo do Fado (e que magníficos acompanhantes são José Manuel Neto e Carlos Manuel Proença!). Para Cristina, a confirmação de uma voz e de um talento únicos que a transportam para um outro lugar para lá do Fado, mas sempre a ele ligado (mas Bernardo Couto é demasiado inexperiente para ser Custódio Castelo).
Ironicamente, ambas, de alguma maneira, "marcaram passo". Aldina porque se notava o nervosismo, a preocupação com uma marcação de palco a ser respeitada, que espartilhou a espontaneidade e o entusiasmo que lhe reconhecemos; a Culturgest pode ter esse lado intimidatório (Mafalda Arnauth também em tempos lá se espalhou), mas Aldina não o tinha sentido há ano e meio, na sua estreia naquele espaço, e sentiu-o desta vez. Cristina porque o seu concerto, para lá das interpretações de Amália que não faziam parte do seu reportório habitual, não é mais do que uma versão "extended" do "set" respeitante à digressão do sublime "Ulisses". Para Aldina, este concerto terá sido um degrau mais num crescimento artístico em progressão contínua dentro de uma lógica de transmissão do classicismo do Fado (e que magníficos acompanhantes são José Manuel Neto e Carlos Manuel Proença!). Para Cristina, a confirmação de uma voz e de um talento únicos que a transportam para um outro lugar para lá do Fado, mas sempre a ele ligado (mas Bernardo Couto é demasiado inexperiente para ser Custódio Castelo).
25 de novembro de 2006
NOTICIA DE ULTIMA HORA
Afinal, D. Sofia Felina já não tem medo do autoclismo. Pedimos desculpa pela informação errada.
24 de novembro de 2006
23 de novembro de 2006
SINGING IN THE RAIN
Reconheço aos militares, enquanto cidadãos portugueses, todo o direito de passearem por onde muito bem entenderem, quando muito bem o entenderem, com quem muito bem o entenderem, e acho que toda esta história de passeios versus manifestações é um daqueles "fait-divers" que só em Portugal é que têm esta importância toda (no entanto, devo avisar que a utilização da frase "não foi para isto que os militares fizeram o 25 de Abril" ouvida ontem no Telejornal deduz pontos na classificação final).
Só que, aqui entre nós, isto de escolher um dia de temporal para ir passear para o Rossio não faz lá muito sentido... A gente sabe que "chuva civil não molha militar", mas ir ver montras com este tempo...
Só que, aqui entre nós, isto de escolher um dia de temporal para ir passear para o Rossio não faz lá muito sentido... A gente sabe que "chuva civil não molha militar", mas ir ver montras com este tempo...
22 de novembro de 2006
ALGUEM QUE LHE EXPLIQUE QUE AS COISAS NAO SAO BEM ASSIM
No Telejornal do canal 1, um representante do sindicato dos professores que distribuia à população panfletos explicativos de qualquer coisa dizia à reportagem que a má reputação que os professores têm é uma maldosa mentira espalhada pela senhora Ministra da Educação. Mas a má reputação que os professores têm não é já anterior à actual Ministra? Ou o representante estava a falar de outra má reputação de que eu não sei nada?
Happy birthday, Bear!
I was lost
for so long
feels like it's taken
half my life
to find where
I belong
seeing you here
you're my nation
this is my application
give me hope
keep me sane
give me
indefinite leave to remain
all the worlds
that I saw
I went so far away
and still wanted you more
it may sound superficial
but can we make it official?
give me hope
keep me sane
give me
indefinite leave to remain
tell me where I stand
what do you envision?
one way or another
give me your decision now
is it time
to proceed?
will you give me a chance
and the status I need?
seeing you here
you're my nation
this is my application
give me hope
keep me sane
give me
indefinite leave to remain.
— Neil Tennant/Chris Lowe for the Pet Shop Boys: "Indefinite Leave to Remain", in "Fundamental" (Parlophone, 2006).
I was lost
for so long
feels like it's taken
half my life
to find where
I belong
seeing you here
you're my nation
this is my application
give me hope
keep me sane
give me
indefinite leave to remain
all the worlds
that I saw
I went so far away
and still wanted you more
it may sound superficial
but can we make it official?
give me hope
keep me sane
give me
indefinite leave to remain
tell me where I stand
what do you envision?
one way or another
give me your decision now
is it time
to proceed?
will you give me a chance
and the status I need?
seeing you here
you're my nation
this is my application
give me hope
keep me sane
give me
indefinite leave to remain.
— Neil Tennant/Chris Lowe for the Pet Shop Boys: "Indefinite Leave to Remain", in "Fundamental" (Parlophone, 2006).
21 de novembro de 2006
ARE YOU READY TO BE HEARTBROKEN?
Aula Magna a menos de metade mas a enganar bem, 21h45, terça, 21 de Novembro de 2006. Em palco, Lloyd Cole, Neil Clark, umas poucas guitarras e um laptop Macintosh cinzento a fingir de caixa de ritmos numas poucas canções, a prova de que o pós-Commotions não fica a dever nada ao que está para trás e só não recebeu a mesma atenção (e quem editou o recente "Antidepressant" deve estar irritadíssimo por só ter havido três canções do disco novo)- 80 minutos contados (com dois míseros encores): soube a pouco. Mas soube tão bem.
Traffic
Like Lovers Do
Rattlesnakes
Past Imperfect
Butterfly
Late NIght Early Town
No More Love Songs
I'm Gone
New York City Sunshine
Are You Ready to Be Heartbroken?
2CV
My Other Life
Music in a Foreign Language
Pay for It
How Wrong Can You Be?
Why I Love Country Music
Cut Me Down
The Young Idealists
Perfect Skin
encore
Jennifer She Said
No Blue Skies
Traffic
Like Lovers Do
Rattlesnakes
Past Imperfect
Butterfly
Late NIght Early Town
No More Love Songs
I'm Gone
New York City Sunshine
Are You Ready to Be Heartbroken?
2CV
My Other Life
Music in a Foreign Language
Pay for It
How Wrong Can You Be?
Why I Love Country Music
Cut Me Down
The Young Idealists
Perfect Skin
encore
Jennifer She Said
No Blue Skies
19 de novembro de 2006
A INSUSTENTAVEL LEVEZA DO SER FELINO
Às vezes, é muito fácil esquecer-me que a bola de pêlo felpuda e ternurenta que gosta de se aninhar no meu colo quando estou ao computador, que é de uma curiosidade tão inesgotável que chega a ser exasperante, é apenas um bebé de dois meses que ainda está a descobrir o mundo e passa a maior parte do dia a dormir como se não fosse nada com ela. A verdade é que sentir a Sofia no meu colo, ou no recanto do sofá que ela adoptou como o seu cantinho para dormir sozinha, a dormir a sono solto dá uma estranha sensação de sossego e quietude. Como se o simples facto daquele bichinho teimoso e curioso estar ali fizesse tudo estar bem. E se calhar está mesmo.
17 de novembro de 2006
O MOMENTO MICK JAGGER
Na magnífica peça de Joe Klein (um dos grandes analistas da política americana contemporânea, e o autor "anónimo" do romance que inspirou o filme de Mike Nichols "Escândalos do Candidato") que vem na Time desta semana a dissecar a derrota do Partido Republicano nas eleições intercalares americanas, descobre-se que há uma coisa chamada "the Mick Jagger moment". Descrita como — e passo a citar — "you can't always get what you want. The question is, can we get what we need?"
16 de novembro de 2006
WHAT HAVE WE DONE TO DESERVE THIS?
Pedro Santana Lopes vem a terreiro publicar um livro onde conta a sua versão dos catastróficos meses em que foi Primeiro-Ministro de Portugal. Não li, não tenho intenção de ler, cortei o som à conferência de imprensa nos telejornais e à entrevista de Judite de Sousa, não apanhei os comentários e as análises, mas quase aposto que vai dizer que o seu glorioso mandato foi interrompido cobardemente por aqueles que não reconheceram o seu talento inato e a sua visão luminosa de um Portugal melhor.
Enquanto isso, no mundo real...
Enquanto isso, no mundo real...
15 de novembro de 2006
ORA NEM MAIS
"Being a Christian is no excuse for being stupid." Dick Armey, político republicano e católico praticante que não subscreve a actual tendência americana para o conservadorismo religioso fundamentalista, citado na Economist desta semana. Digam lá que não é uma belíssima frase.
14 de novembro de 2006
UM HOMEM NAO CHORA
Não sei se viram, na semana passada, aquela reportagem da RTP sobre os problemas psicológicos dos agentes da polícia e as altíssimas taxas de suicídio dos agentes da autoridade. Apanhei-a um pouco por acaso, mas a verdade é que fiquei perfeitamente elucidado sobre um pormenor: a velha imagem do polícia como "homem de ferro" já não corresponde minimamente à realidade. Os polícias são tão frágeis e humanos como as "pessoas normais", o que se pensarmos bem é apenas normal mas nada evidente.
Sempre achei que estas profissões "de risco" deviam ter um enquadramento psicológico muito sério — mas a reportagem deu a entender que nem por isso. Será que, nisto como noutras coisas, Portugal ainda acha no geral que tratamento psicológico é a mesma coisa que "ser maluquinho" e que "um homem resolve os seus problemas sozinho" e "um homem não chora"? Gostava de pensar que não — porque nenhuma dessas afirmações, assim como assim, é uma verdade universal — mas algo me diz que sim.
Sempre achei que estas profissões "de risco" deviam ter um enquadramento psicológico muito sério — mas a reportagem deu a entender que nem por isso. Será que, nisto como noutras coisas, Portugal ainda acha no geral que tratamento psicológico é a mesma coisa que "ser maluquinho" e que "um homem resolve os seus problemas sozinho" e "um homem não chora"? Gostava de pensar que não — porque nenhuma dessas afirmações, assim como assim, é uma verdade universal — mas algo me diz que sim.
13 de novembro de 2006
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #73 (mas que, neste caso especial, ate vao passar a ter)
Mordiscar.
(coisa que a minha gata Sofia adora fazer nos meus dedos enquanto lhe faço festas)
(coisa que a minha gata Sofia adora fazer nos meus dedos enquanto lhe faço festas)
12 de novembro de 2006
NO TEMPO DO SALAZAR ISTO NAO ACONTECIA
O senhor dos seus 50 e muitos anos tem um cachecol de Portugal à volta do pescoço por cima do casaco de fazenda. Tem aquela "voz de aguardente" que identificamos com os lisboetas castiços dos bairros populares. Está sentado no autocarro cheio, tecnicamente a falar com as senhoras sentadas à sua frente e ao seu lado, mas ostensivamente a discursar para quem o quiser ouvir (e não há ninguém, neste 58 cheio em hora de ponta de fim de tarde, que não o consiga ouvir), e a discursar sobre tudo aquilo sobre o qual os lisboetas castiços dos bairros populares gostam de ter opinião. Desde nascer às portas de Benfica, quando a Amadora ainda pertencia ao concelho de Oeiras, a resmungar sobre a má educação da juventude contemporânea ("éramos dez filhos e o meu pai deu estudos a todos!"), vale tudo, rematado com a frase já habitual nos resmungos dos lisboetas castiços dos bairros populares de uma certa idade: "No tempo do Salazar isto não acontecia!"
11 de novembro de 2006
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #72
Pusilanimidade.
(ouvida da boca do João em discussão acalorada sobre os méritos do totalitarismo despótico aplicado à educação das jovens debutantes que insistem em exercer plenamente o seu mau gosto suburbano contra a iluminação recatada dos progenitores)
(ouvida da boca do João em discussão acalorada sobre os méritos do totalitarismo despótico aplicado à educação das jovens debutantes que insistem em exercer plenamente o seu mau gosto suburbano contra a iluminação recatada dos progenitores)
9 de novembro de 2006
ONOMATOPEIAS DO RONRONAR
A menina Alice diz que a gata dela quando ronrona soa a uma vitrine frigorífica do talho. Eu digo que a minha soa a um diesel em ponto morto. Alguém tem outras sugestões?
A FELICIDADE
...é, para os meus amigos americanos, a derrota do Partido Republicano nas intercalares americanas e a humilhação sofrida pelo presidente George Bush, e, acima de tudo, a demissão forçada de Donald Rumsfeld. Porque, aqui entre nós, um porradão de americanos também nunca estiveram nada de acordo com os seus governantes. Daí que alguns deles já falem em "Taking Back the House Party", numa alusão às "house parties" e à "reconquista da Casa dos Representantes" pelo Partido Democrata. A ver vamos — nós europeus somos um bocadinho mais cínicos politicamente.
(A despropósito: ver a oposição a opôr-se ao orçamento de estado do PS, ou seja, a fazer aquilo para que é paga, é ver o Eça actualizado para os nossos dias. Mas acho que já disse isto em qualquer lado.)
(A despropósito: ver a oposição a opôr-se ao orçamento de estado do PS, ou seja, a fazer aquilo para que é paga, é ver o Eça actualizado para os nossos dias. Mas acho que já disse isto em qualquer lado.)
8 de novembro de 2006
COMO A ESPERA DO COMBOIO NA PARAGEM DO AUTOCARRO
À paragem do 9 na Álvares Cabral, pouco passa das nove da noite, chega uma jovem dos seus 20 e poucos anos. Apesar de ter chovido torrencialmente pouco antes, ela surge de cabelo escorrido e T-shirt justa de manga muito curta, com apliques em letras douradas na frente, e tresandando à distância a perfume, como se tivesse tomado banho na fragrância, de tal modo que, mesmo com a brisa que corre e não havendo mais ninguém da paragem, o odor enjoatiivo do perfume impondo-se rapidamente. São dez minutos de tormento enquanto o 9 não chega.
7 de novembro de 2006
CONSTATAÇAO
Os longos átrios e corredores da estação da Alameda que fazem correspondência entre as linhas verde e vermelha enchem-se de gente que se afadiga a passar aos intervalos regulares da chegada dos comboios. O gigantesco átrio da linha vermelha está quase sempre vazio, mesmo quando os passageiros se apressam para tomar o comboio para o Parque das Nações, ou quando os passageiros saem do comboio que acabou de chegar para fazer a correspondência.
6 de novembro de 2006
O HOMEM ALMOFADA
Tenho no colo há qualquer coisa como duas horas uma gatinha cinzenta de sete semanas que decidiu eleger o meu colo sentado como a almofada para a sua soneca da tarde. De nada servem as minhas idas à casa de banho ou à sala buscar uma banana para comer: assim que me apanha sentado, vá de cravar as garras nas minhas calças e erguer-se a pulso até ao meu colo para se enroscar confortavelmente e adormecer, alheia ao toque do telefone, às obras do andar de cima ou aos meus dedos no teclado.
5 de novembro de 2006
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #71
Basbaque.
(durante um "Saturday Night Constititutional to S. Pedro beach and back", inspirado pelos Marqueses de Marialva via Alexandre M.)
(durante um "Saturday Night Constititutional to S. Pedro beach and back", inspirado pelos Marqueses de Marialva via Alexandre M.)
4 de novembro de 2006
CARIOCA
O que é assombroso ao ver Chico Buarque em palco é que ele é absolutamente o oposto do "animal de palco": não fala com o público, para lá do banal "obrigado" e da apresentação dos músicos; não se mexe em palco, mantém-se estático em frente ao microfone, com ou sem violão; sente-se, mesmo à distância de uma sala cheia, um desconforto evidente por estar fora do seu "habitat" natural.
E nada disso interessa quando Chico canta (mesmo que a voz já não seja exactamente a mesma), porque só ele sabe cantar estas canções desta maneira. E estas canções — todas as do magnífico "Carioca", mais uma série de escolhas oblíquas do seu passado onde quase não há espaço para os "greatest hits" que estão na boca de todos — cantadas desta maneira silenciam o Coliseu de Lisboa, preso às nuances da voz, da letra, da arte imensa de Chico Buarque. Se fosse com Caetano, quase aposto que o público começaria a resmungar. Com Chico, nem um alfinete se ouviu. O respeitinho é muito bonito.
E nada disso interessa quando Chico canta (mesmo que a voz já não seja exactamente a mesma), porque só ele sabe cantar estas canções desta maneira. E estas canções — todas as do magnífico "Carioca", mais uma série de escolhas oblíquas do seu passado onde quase não há espaço para os "greatest hits" que estão na boca de todos — cantadas desta maneira silenciam o Coliseu de Lisboa, preso às nuances da voz, da letra, da arte imensa de Chico Buarque. Se fosse com Caetano, quase aposto que o público começaria a resmungar. Com Chico, nem um alfinete se ouviu. O respeitinho é muito bonito.
3 de novembro de 2006
O MEU GURU (OU UM DOS)
Andrew Sullivan tornou-se num dos meus colunistas de referência. Sobretudo desde que, há largos meses já, apanhei um extraordinário ensaio dele sobre a religião (coisa que não professo) — e, depois, acompanhando diariamente o seu blog, descobri uma pessoa que se desvenda inteira na imensidão de "posts" que vai largando diariamente, assumindo por inteiro as contradições e paradoxos quase esquizofrénicos inerentes à sua condição humana.
Senão vejamos: Sullivan é um inglês formado em filosofia política, mas é um dos mais notáveis pensadores sobre a realidade política americana contemporânea, tendo feito dos States o seu país de adopção nos últimos 20 anos. É um conservador que não suporta o travesti que o actual Partido Republicano fez do conservadorismo; é um católico que não se revê no fundamentalismo cristão que tantos de nós identificamos com uma certa América; tem vindo a exigir abertamente a demissão de Donald Rumsfeld e, sendo um apoiante da intervenção americana no Iraque, é também um crítico aberto do modo como a administração Bush a conduziu e das falácias e manipulações mediáticas lançadas pela "maioria moral" americana. (Numa recente intervenção na CNN, disse que George W. Bush "perdeu a cabeça".) E é tudo isto sendo homossexual assumido publicamente e seropositivo, o que o torna numa voz desconfortável para muito boa gente que gosta dos seus colunistas encaixados em gavetas. Acaba de publicar um livro que vem bem recomendado pela Economist e que ele anda a promover honesta mas furiosamente no blog, chamado "The Conservative Soul".
E, pelo meio das suas reflexões sociopolíticas, vai falando dos seus cães (com fotos e tudo) e anda agora a postar os melhores e piores videos dos anos 80 sacados do YouTube. Digam-me, o Pacheco Pereira seria capaz de intercalar posts políticos hardcore inteligentes com telediscos dos New Order e dos Starship? Também me parecia que não.
Senão vejamos: Sullivan é um inglês formado em filosofia política, mas é um dos mais notáveis pensadores sobre a realidade política americana contemporânea, tendo feito dos States o seu país de adopção nos últimos 20 anos. É um conservador que não suporta o travesti que o actual Partido Republicano fez do conservadorismo; é um católico que não se revê no fundamentalismo cristão que tantos de nós identificamos com uma certa América; tem vindo a exigir abertamente a demissão de Donald Rumsfeld e, sendo um apoiante da intervenção americana no Iraque, é também um crítico aberto do modo como a administração Bush a conduziu e das falácias e manipulações mediáticas lançadas pela "maioria moral" americana. (Numa recente intervenção na CNN, disse que George W. Bush "perdeu a cabeça".) E é tudo isto sendo homossexual assumido publicamente e seropositivo, o que o torna numa voz desconfortável para muito boa gente que gosta dos seus colunistas encaixados em gavetas. Acaba de publicar um livro que vem bem recomendado pela Economist e que ele anda a promover honesta mas furiosamente no blog, chamado "The Conservative Soul".
E, pelo meio das suas reflexões sociopolíticas, vai falando dos seus cães (com fotos e tudo) e anda agora a postar os melhores e piores videos dos anos 80 sacados do YouTube. Digam-me, o Pacheco Pereira seria capaz de intercalar posts políticos hardcore inteligentes com telediscos dos New Order e dos Starship? Também me parecia que não.
2 de novembro de 2006
É curioso ver como os adolescentes contemporâneos se movimentam em rebanho. Hoje tive a oportunidade de o ver "in situ", primeiro na estação de metro do Campo Grande, depois na Alameda: a quantidade de grupos grandes que se formam nas plataformas e praticamente obstruem a passagem dos outros passageiros (sem que eles pareçam sequer aperceber-se de que não são os únicos à espera do comboio) é espantoso, uma espécie de migração tribal simultânea. "Estamos aqui, habituem-se", parecem dizer.
31 de outubro de 2006
A TRADIÇAO JA NAO E O QUE ERA
Sabiam que em Lisboa também se faz o "trick or treat" da noite de Halloween? Não? Pois, eu também não, pelo menos até quatro garotinhas e garotinhos maquilhados com marcadores de feltro me tocarem à porta às oito da noite a pedirem "doce ou susto!". Eu fiquei tão desarmado com a inesperada surpresa que só lhes respondi "Nem uma coisa, nem outra". Eles ficaram tão desarmados como eu. Calculo que não tenham levado muitos doces para casa ao fim da noite.
30 de outubro de 2006
A LOJA QUE NAO E CHINESA
Falou-se muito do fecho do salão de jogos Monumental, na Álvares Cabral, como mais um ícone da Lisboa de outros tempos que desaparecia perante os nossos olhos — e falava-se muito da loja chinesa que ali ia abrir embora o espaço não estivesse licenciado para isso. A verdade é que desde a semana passada que lá está uma loja toda pintada de branco — mas não é chinesa, é uma normalíssima boutique de roupa.
29 de outubro de 2006
A ERA DA INFORMAÇAO
A minha mãe sempre me chamou "coca-bichinhos", houve quem me chamasse "rato de biblioteca" — a verdade é que hoje, a fazer limpezas no escritório na sequência daquilo que é, claramente, uma pequena reorganização caseira, percebi um pouco melhor porquê, face às coisas que eu já não me lembrava que tinha guardado que foram aparecendo à medida que desenterrava papéis, jornais, revistas que foram sendo acumulados por esta ou aquela razão mas não encaixavam nas gavetas estabelecidas dos arquivos.
Sempre achei que há coisas que vale a pena guardar mesmo que, agora, não faça sentido (é essa, no fundo, a função dos arquivos — registar para futura referência aquilo que mesmo hoje nos parece irrelevante). Mas isso foi antes da internet, antes de se poder encontrar toda (ou quase) a informação que se pretende num ápice, antes do espaço em casa começar a reduzir e de eu já não saber muito bem como organizar toda a informação que fui acumulando de acordo com um modo específico de arquivação que, agora, corre o risco de estar obsoleto mas não é fácil de reconverter. Ando a pensar no assunto há uns tempos e ainda não encontrei a resposta certa. As dores de crescimento da tecnologia, em suma, ainda nos reservam algumas surpresas.
Sempre achei que há coisas que vale a pena guardar mesmo que, agora, não faça sentido (é essa, no fundo, a função dos arquivos — registar para futura referência aquilo que mesmo hoje nos parece irrelevante). Mas isso foi antes da internet, antes de se poder encontrar toda (ou quase) a informação que se pretende num ápice, antes do espaço em casa começar a reduzir e de eu já não saber muito bem como organizar toda a informação que fui acumulando de acordo com um modo específico de arquivação que, agora, corre o risco de estar obsoleto mas não é fácil de reconverter. Ando a pensar no assunto há uns tempos e ainda não encontrei a resposta certa. As dores de crescimento da tecnologia, em suma, ainda nos reservam algumas surpresas.
28 de outubro de 2006
A FORÇA DE VONTADE UNIDA JAMAIS SERA VENCIDA
Descobri que tenho o colesterol um bocadinho alto e como tal o meu médico recomendou-me que durante os próximos dois meses evite:
1. as carnes vermelhas (calha bem, como mais carnes brancas de qualquer maneira) e derivados
2. os mariscos (também calha bem, não como muito)
3. as bebidas alcoólicas (que eu quase não bebo) e refrigerantes (que vou eu fazer sem a minha água suja do imperialismo?)
4. as gorduras animais (as torradas com manteiga foram à vida)
5. os iogurtes que não sejam naturais
6. o leite que não seja magro (também calha bem, só bebo leite magro)
7. os bolos, açúcares e doces.
Ou seja, croissant com manteiga, Cadbury's Dairy Milk e Ben & Jerry's só em ocasiões especiais. Lá terá que ser, não é? (diz ele enquanto dá uma dentada no último Toblerone que estava no frigorífico)
1. as carnes vermelhas (calha bem, como mais carnes brancas de qualquer maneira) e derivados
2. os mariscos (também calha bem, não como muito)
3. as bebidas alcoólicas (que eu quase não bebo) e refrigerantes (que vou eu fazer sem a minha água suja do imperialismo?)
4. as gorduras animais (as torradas com manteiga foram à vida)
5. os iogurtes que não sejam naturais
6. o leite que não seja magro (também calha bem, só bebo leite magro)
7. os bolos, açúcares e doces.
Ou seja, croissant com manteiga, Cadbury's Dairy Milk e Ben & Jerry's só em ocasiões especiais. Lá terá que ser, não é? (diz ele enquanto dá uma dentada no último Toblerone que estava no frigorífico)
27 de outubro de 2006
POLAROID
Mesmo à porta de minha casa, tenho um daqueles supermercados pequenos de bairro que serve perfeitamente a população da zona embora não evite a visita a uma "grande superfície" de vez em quando à procura daquelas coisas que não se encontram (tão boas) por aqui. Foi por isso que estranhei quando comecei a ver uma mendiga sentada alguns metros à frente da saída do supermercado fazer dele o seu "poiso" diário, pernas cruzadas escondidas pela saia de tecido colorido, sentada em cima de um cartão dobrado, quase inteiramente coberta, deixando só as mãos e o rosto à vista, segurando à frente um cartão escrito à mão em português macarrónico com uma imagem religiosa colada, dizendo não ter marido nem trabalho e crianças para alimentar e pedindo ajuda pelo amor de Deus. A mendiga não fala nem se dirige às pessoas: está ali apenas, com um copo de plástico de cerveja vazio à frente. Por vezes, está acompanhada de uma menina dos seus oito anos, mas a maior parte das vezes está sozinha. Tem ar de ser uma daquelas ciganas de Leste que são "pedintes profissionais" e que hoje vemos cada vez mais, mas posso estar enganado.
A verdade é que não passa muita gente pelo local que a mendiga escolheu para pedir esmola, sobretudo quando, subindo alguns metros, tem uma avenida que está sempre cheia de transeuntes. O seu copo de plástico está quase sempre vazio, ou tem poucas moedas de denominação pequena.
A verdade é que não passa muita gente pelo local que a mendiga escolheu para pedir esmola, sobretudo quando, subindo alguns metros, tem uma avenida que está sempre cheia de transeuntes. O seu copo de plástico está quase sempre vazio, ou tem poucas moedas de denominação pequena.
26 de outubro de 2006
A CURIOSIDADE MATOU O GATO
Eu sei que os ursos pardos não são exactamente animais de estimação, mas isto dá imensa vontade de ter pena deles.
25 de outubro de 2006
Divirto-me muito a ler as respostas dos inquéritos de rua que os jornais fazem. Hoje, pergunta-se a uma reformada de 69 anos se vai passar a deixar o carro em casa agora que o estacionamento público aumentou (partindo do princípio que uma reformada de 69 anos conduz, o que me parece altamente improvável mesmo que não impossível). Mas a senhora responde que não, não vai deixar o carro em casa, nem concorda com o aumento, porque a rua é um "espaço público a que temos direito e ainda temos de pagar". Daqui deduzimos que a senhora concorda com o estacionamento selvagem e com a fuga ao pagamento do parquímetro ou ao parque de estacionamento pago. Mas algo me diz que, se perguntassem à senhora se ela achava bem que os carros estacionassem em cima dos passeios públicos, ela diria que não e resmungaria muito pela falta de respeito dos condutores que arrumam os carros em qualquer lado sem deixar às pessoas espaço para andarem pela rua.
23 de outubro de 2006
DESCONVERSAS #1
(ouvido no metro do Marquês de Pombal:)
"Fico sempre a falar sozinha, é uma coisa extraordinária..."
(resposta que se pensou mas não se disse:)
"Se calhar é o que mereces..."
"Fico sempre a falar sozinha, é uma coisa extraordinária..."
(resposta que se pensou mas não se disse:)
"Se calhar é o que mereces..."
22 de outubro de 2006
CINZENTO
Ontem esteve um sábado cinzento, chuvoso. Era difícil arranjar lugar para arrumar o carro em qualquer lado, como se as pessoas não tivessem saído de casa, mas os centros comerciais estavam a abarrotar, com filas de carros à espera de um lugar para arrumar.
Esta manhã, pelo contrário, cedo, pelas oito-nove horas, Lisboa está deserta, cinzenta, chuvosa. E não faltam lugares para arrumar o carro. É uma cidade vazia. Como a minha casa.
Esta manhã, pelo contrário, cedo, pelas oito-nove horas, Lisboa está deserta, cinzenta, chuvosa. E não faltam lugares para arrumar o carro. É uma cidade vazia. Como a minha casa.
20 de outubro de 2006
OS OLHOS DE ELIZABETH TAYLOR

Com olhos destes, quem não se perderia de amores pela raínha do Egipto?
19 de outubro de 2006
COMPRE AQUI O SEU CONSUMIVEL
Nas bilheteiras do cinema Alvaláxia, em Lisboa, que agora (como é moda em todos os cinemas) passaram para o balcão das pipocas, o letreiro que indica a fila diz "bilhetes e consumíveis".
Ou seja, as pipocas, refrigerantes e outros doces passaram a estar ao nível dos tinteiros da impressora.
Ou seja, as pipocas, refrigerantes e outros doces passaram a estar ao nível dos tinteiros da impressora.
17 de outubro de 2006
TO OUR NEXT POSTING

É um dos mais belos filmes do mundo: "Os Dominadores" (1949), de John Ford. Visto no grande écrã, é ainda mais belo.
16 de outubro de 2006
É TAO BONITO O SILENCIO
Alguns dormem o sono dos justos.
Outros, pelo contrário, atiram-se ao ressono dos justos.
Outros, pelo contrário, atiram-se ao ressono dos justos.
15 de outubro de 2006
DA LICENÇA QUE EU ME SENTE?
É normal que os Pastéis de Belém estejam cheios numa manhã de domingo, entre turistas, nativos e quem veio ver o render da guarda da GNR ao palácio de Belém, com os empregados de cabeça em água a correr para conseguir dar vazão aos fregueses. O que já não é normal é que, na mesa ao lado da nossa, anteriormente ocupada por um casal jovem, enquanto ela espera que ele regresse da casa de banho e que o empregado traga a conta, chegue um quarentão brasileiro que, ao reparar que ela espera a conta, lhe pergunta se não se importa que ele marque lugar sentando-se ao seu lado. Enquanto o esposo/namorado da jovem vem/não vem, o brasileiro começa, enquanto tenta meter conversa com a jovem, às tantas a fazer sinalefas e a assobiar altíssimo e mal-educadamente no meio da sala ruidosa e cheia de gente, penso a princípio que para o empregado do balcão o vir atender, mas percebo depois que ele está a chamar a mulher com quem está, que chega pouco depois e se senta na mesa, altura em que chega o esposo da jovem e os dois se levantam para pagar ao empregado. Passado algum tempo, chega mais um casal quarentão brasileiro para fazer companhia ao casal quarentão já instalado. Dez minutos mais tarde, vejo-os a sair com um saco com embalagens de pastéis de Belém. Fiquei sem perceber.
12 de outubro de 2006
POLAROID: AEROPORTO
Toda a gente desce a rampa das chegadas à excepção de duas senhoras com um ar profundamente português, vestidas como se tivessem ido às compras às lojas do bairro, cheias de sacos de papel, casacos ou camisolas nas mãos, que a sobem tranquilamente e se plantam exactamente no meio das portas, no caminho de toda a gente que quer sair. Um dos empregados da manutenção fala com elas um pouco e dirige-as para o guichet que fica ao lado das portas, já na rampa, e as senhoras lá vão à procura não sei bem do quê; mas, durante os dez minutos que se seguem, continuam a passear, com um ar resignado, entre o guichet e as portas, sempre parando e pousando os sacos no chão exactamente no meio das portas, perfeitamente alheadas de estarem no meio do caminho dos viajantes que chegam, apesar das repetidas indicações dos funcionários.
11 de outubro de 2006
SAI UM CHAZINHO
De vez em quando vou comer uma pizza (passe a publicidade) ao Pizza Hut. Se não gostasse também estava bem arranjado, porque tenho um muito perto de casa, e quando não me apetece cozinhar ao domingo não tenho grande alternativa porque é o único restaurante no raio de 500 metros de minha casa que está aberto ao domingo. Mas até gosto, apesar de o serviço ser particularmente irregular, sobretudo porque há lá um empregado brasileiro particularmente desatento/desastrado que parece ter medo de mim e aproximar-se à cautela não vá eu mordê-lo (diga-se em abono da verdade que já me tem dado vontade de me armar em Rottweiler feroz com ele porque o rapaz não nasceu mesmo com jeito para aquilo).
Isto vem ao caso de eu hoje ter ido comer uma pizza ao Pizza Hut do Vasco da Gama porque me apetecia uma pizza, estava cheio de fome e queria sentar-me longe da zona comum cheia de gente e de barulho. Peço um ice tea de limão... e sai-me um de pêssego (detesto tudo o que sejam sumos de pêssego, acho enjoativos até à quinta casa). Aviso a chefe de sala, ela confirma que eu tinha pedido limão, pede-me desculpa e diz que traz já outro... e a empregada traz-me um ice tea de pêssego. O empregado que está a servir as bebidas verifica tudo e traz-me um ice tea... de pêssego. Começo a sentir-me na "Twilight Zone". Ele faz cara de caso, não percebe o que está a passar porque está a tirar limão, e eu peço-lhe para me trazer antes uma cola. Passado um bocado vem a chefe de sala pedir educadamente muitas desculpas, porque as minhas reclamações levaram-nos a verificar tudo e a ver que as mangueiras de pressão estavam trocadas e estava o ice tea de limão a sair na mangueira do de pêssego e vice-versa, e traz-me (agora sim!, pensava eu) ice tea de limão.
Este era misto de limão e pêssego, porque a mangueira ainda lá tinha um resto de pêssego. "Traga-me lá a cola se faz favor". Ao menos com a água suja do imperalismo não há por onde enganar: light ou com as calorias todas, tem sempre o mesmo sabor.
Isto vem ao caso de eu hoje ter ido comer uma pizza ao Pizza Hut do Vasco da Gama porque me apetecia uma pizza, estava cheio de fome e queria sentar-me longe da zona comum cheia de gente e de barulho. Peço um ice tea de limão... e sai-me um de pêssego (detesto tudo o que sejam sumos de pêssego, acho enjoativos até à quinta casa). Aviso a chefe de sala, ela confirma que eu tinha pedido limão, pede-me desculpa e diz que traz já outro... e a empregada traz-me um ice tea de pêssego. O empregado que está a servir as bebidas verifica tudo e traz-me um ice tea... de pêssego. Começo a sentir-me na "Twilight Zone". Ele faz cara de caso, não percebe o que está a passar porque está a tirar limão, e eu peço-lhe para me trazer antes uma cola. Passado um bocado vem a chefe de sala pedir educadamente muitas desculpas, porque as minhas reclamações levaram-nos a verificar tudo e a ver que as mangueiras de pressão estavam trocadas e estava o ice tea de limão a sair na mangueira do de pêssego e vice-versa, e traz-me (agora sim!, pensava eu) ice tea de limão.
Este era misto de limão e pêssego, porque a mangueira ainda lá tinha um resto de pêssego. "Traga-me lá a cola se faz favor". Ao menos com a água suja do imperalismo não há por onde enganar: light ou com as calorias todas, tem sempre o mesmo sabor.
10 de outubro de 2006
EU QUERO A BRIGADA DE TRANSITO
Estou irritado com esta história da GNR estar a contemplar acabar com a Brigada de Trânsito. Acho muito bem que se peçam estudos sobre como tornar as empresas estatais (e a GNR é uma empresa estatal) mais produtivas e menos esbanjadoras, mas isto de acabarem com a Brigada de Trânsito vai direitinho às minhas memórias de infância do grande capitão Quesada, o porta-voz da Brigada de Trânsito que aparecia nos noticiários a falar da condução segura. O capitão Quesada — como o Carlos Pinto Coelho no noticiário do 2º canal, ou os concursos do Raul Solnado e do Fialho Gouveia, ou o "Tal Canal" — faz parte do meu imaginário televisivo infanto-juvenil e acho indecente que venham agora remetê-lo para o canto das teias de aranha. Não se faz.
9 de outubro de 2006
PARA QUEM GOSTA DE BRIOCHE
Só para dizer que isto (nas salas a 19 de Outubro) é bem bom. Não é outro "Lost in Translation", OK, mas também nada podia ser. E Sofia cresceu.
8 de outubro de 2006
CASPA
O meu pai sempre achou que parte da razão pela qual os champôs não faziam efeito no meu couro cabeludo naturalmente oleoso e propenso a uma escamação a que — à falta de melhor definição — chamaremos "caspa" tinha a ver com eu "fazer festas à cabeça" em vez de massajar vigorosamente o couro cabeludo como as instruções dos frascos de champôs costumam indicar.
Independentemente da energia com que eu massajo o couro cabeludo, fui testando um sem-número de champôs de uso diário sem resultados significativos: porque nunca sei qual hei exactamente de comprar, se um para cabelos oleosos se um anti-caspa, quando se calhar não é caspa que eu tenho. Mas não faço ideia porque carga d'água hei-eu de ir maçar um dermatologista com este tipo de perguntas, quando há questões muito mais prementes a resolver.
Seja como for, isto vem tudo a propósito de a minha caspa ter diminuido significativamente na sequência de ter mudado de champô e na sequência de eu agora usar o cabelo significativamente mais curto — o que é sempre mau para a minha mãe, que tem uma moralidade muito conservadora em termos de corte de cabelo e acha que o único champô que alguma vez me fez bem à caspa foi o Linic (ainda se fabrica? juro que não sei).
Independentemente da energia com que eu massajo o couro cabeludo, fui testando um sem-número de champôs de uso diário sem resultados significativos: porque nunca sei qual hei exactamente de comprar, se um para cabelos oleosos se um anti-caspa, quando se calhar não é caspa que eu tenho. Mas não faço ideia porque carga d'água hei-eu de ir maçar um dermatologista com este tipo de perguntas, quando há questões muito mais prementes a resolver.
Seja como for, isto vem tudo a propósito de a minha caspa ter diminuido significativamente na sequência de ter mudado de champô e na sequência de eu agora usar o cabelo significativamente mais curto — o que é sempre mau para a minha mãe, que tem uma moralidade muito conservadora em termos de corte de cabelo e acha que o único champô que alguma vez me fez bem à caspa foi o Linic (ainda se fabrica? juro que não sei).
7 de outubro de 2006
SEIS COISAS (em resposta ao desafio da menina alice)
seis Quando gosto muito de uma canção ou de um disco, sou capaz de o pôr em "repeat" no leitor até me fartar. O que pode levar mais ou menos tempo.
cinco Já não sou capaz de ler com a velocidade e a paixão com que lia quando tinha 20 anos, e tenho pena.
quatro Às vezes tenho mais remorsos das coisas que não fiz do que das que fiz e deram para o torto, mas gostava de não me ralar tanto com isso.
três Gosto da Mafalda Veiga e não tenho problemas nenhuns com isso, porque acho que os gostos são como nós: não têm de fazer sentido para mais ninguém a não ser para nós próprios.
duas Sou hipocondríaco mas já estou melhor, muito obrigado.
uma Irritam-me os preconceitos gratuitos, apesar de eu próprio ter uns quantos contra os quais luto violentamente.
Passa a outro: lanço o desafio ao Vítor, ao Luís Miguel e ao Nuno. Poderão responsabilizar a menina Alice.
cinco Já não sou capaz de ler com a velocidade e a paixão com que lia quando tinha 20 anos, e tenho pena.
quatro Às vezes tenho mais remorsos das coisas que não fiz do que das que fiz e deram para o torto, mas gostava de não me ralar tanto com isso.
três Gosto da Mafalda Veiga e não tenho problemas nenhuns com isso, porque acho que os gostos são como nós: não têm de fazer sentido para mais ninguém a não ser para nós próprios.
duas Sou hipocondríaco mas já estou melhor, muito obrigado.
uma Irritam-me os preconceitos gratuitos, apesar de eu próprio ter uns quantos contra os quais luto violentamente.
Passa a outro: lanço o desafio ao Vítor, ao Luís Miguel e ao Nuno. Poderão responsabilizar a menina Alice.
SCREAM AND RUN AWAY
Qualquer mês com um disco novo de Stephin Merritt (mesmo que não seja dos Magnetic Fields mas sim do seu "nom de ukulele" The Gothic Archies e escrito para acompanhar os livros pretensamente infantis de Lemony Snicket) é um bom mês.
6 de outubro de 2006
HOJE, NO METRO DO SALDANHA ...
...alguém assobiava o tema de Ennio Morricone para "Por um Punhado de Dólares", e uma mocinha moderna, algo rechonchuda e carnuda, tinha uma pasta de plástico transparente onde se lia, recortada em letras de jornal e aplicada na capa, a palavra "babe".
4 de outubro de 2006
A ESTRATEGIA DA ARANHA
Nesta deliciosa peça do site da BBC fala-se de aranhas exóticas por oposição à aranha inglesa. Será que uma aranha inglesa bebe chá às cinco da tarde (com uma das patas delicadamente levantada), vai ao pub beber uma jeca com os amigos ou vê futebol aos domingos? (Já pensaram numa aranha hooligan?)
3 de outubro de 2006
COISAS QUE AINDA HOJE ESCANDALIZAM A MINHA MAE
A minha mãe sempre protestou imenso quando o meu pai saía do banho e se dirigia, nuzinho em pêlo, para o quarto para se vestir, porque achava uma falta de educação e de respeito enorme. Mas, digo eu, porque é que um homem não há-de andar nu pela sua própria casa se assim o desejar? Eu até moro sozinho, nem sequer tenho ninguém que possa ficar escandalizado por eu ir nu da casa de banho para o quarto (que são apenas dois ou três passos de qualquer maneira porque são ao lado um do outro). Mas se morasse com alguém também tenho as minhas dúvidas que a cara-metade ficasse escandalizada por me ver nu. (Provavelmente seria mesmo o contrário.)
1 de outubro de 2006
RED RIGHT HAND
Isto é das melhores peças de jornalismo que li nos últimos meses. É um daqueles casos em que o jornalista é a própria história — e, no processo, diz-nos muito mais sobre nós próprios do que à partida seria de esperar.
30 de setembro de 2006
PORQUE HOJE E SABADO...
...um condutor que quer arrumar o carro em frente ao Diário de Notícias resmunga, apitando e gesticulando, com o condutor do carro da frente que também quer arrumar o carro em frente ao Diário de Notícias e está à espera que um outro condutor saia para poder arrumar com mais espaço porque tem dois lugares.
...um sem-abrigo de pele encardida e cabelo desgrenhado parece dançar no meio da rua como quem gesticula para que um condutor arrume um carro naquele lugar, só que não há ali lugar nenhum para arrumar, está tudo cheio.
...um condutor faz-me um gesto obsceno com a mão esquerda quando lhe apito simpaticamente por ele estar a conduzir entre as duas faixas de rodagem na Alexandre Herculano.
...um sem-abrigo de pele encardida e cabelo desgrenhado parece dançar no meio da rua como quem gesticula para que um condutor arrume um carro naquele lugar, só que não há ali lugar nenhum para arrumar, está tudo cheio.
...um condutor faz-me um gesto obsceno com a mão esquerda quando lhe apito simpaticamente por ele estar a conduzir entre as duas faixas de rodagem na Alexandre Herculano.
29 de setembro de 2006
ONDE SE RECUPERA O ATRASO
A ausência de posts estes últimos dias não foi falta de inspiração nem de tempo, foi mesmo dedicação a outras coisas, como por exemplo jantares com amigos (as pataniscas e o arroz de pimentos da Cristina estavam divinais), gatinhos recém-nascidos (a ninhada de Gueixa von Satori está de saúde e recomenda-se), viagens de metro (Rato-Parque das Nações e volta), livros e revistas (e ainda não acabei a Economist desta semana) e muitos discos ("Cê" de Caetano Veloso é cada vez mais um álbum incontornável, "The Eraser" de Thom Yorke uma surpresa assinalável, "Antidepressant" de Lloyd Cole continua imbatível, "Amigos em Portugal" dos Durutti Column e "From Gardens Where We Feel Secure" de Virginia Astley recordações agradáveis, "Around" de Tom Verlaine uma sedução instantânea). E, claro, o inenarrável Festival da Canção Junior 2006 da RTP (não sabem o que perderam), que uma qualquer ironia cósmica pôs a antecipar o filme de Roberto Benigni "A Vida É Bela".
26 de setembro de 2006
O PRO MEU IPOD TAO ECLECTICO #6
Primeiro, o novo álbum de Lloyd Cole, "Antidepressant" (Sanctuary, 2006) — prolongando a abordagem caseirinha lo-fi do anterior "Music in a Foreign Language", mas menos suicida (apesar de "Slip Away") e bem mais irónico. É Cole "vintage", embora um disco de manutenção mais do que de inspiração — "Antidepressant", "Everysong", "I Am Not Willing" e "Travelling Light" são clássicos instantâneos que exigem o "repeat" no leitor.
Depois, para fazer contrapeso, o surpreendente álbum em colaboração de Mark Knopfler e Emmylou Harris, "All the Roadrunning" (Mercury, 2006) — em rigor, dever-se-ia dizer que é um álbum de Knopfler com a participação especial de Harris (ele é que escreveu as canções quase todas), não fosse o encaixe das duas vozes ser tão notável e as composições (quase todas do guitarrista) fugirem, felizmente e maioritariamente, ao padrão Dire Straits para estarem muito mais próximas do universo da divina Emmylou. Knopfler parece estar muito mais à vontade aqui no que nos discos em nome próprio ou com os Straits, e "Donkey Town" e "All the Roadrunning" são jóias primorosas, mas é um disco que se vai revelando com mais e mais audições. Já estou a gostar muito.
Depois, para fazer contrapeso, o surpreendente álbum em colaboração de Mark Knopfler e Emmylou Harris, "All the Roadrunning" (Mercury, 2006) — em rigor, dever-se-ia dizer que é um álbum de Knopfler com a participação especial de Harris (ele é que escreveu as canções quase todas), não fosse o encaixe das duas vozes ser tão notável e as composições (quase todas do guitarrista) fugirem, felizmente e maioritariamente, ao padrão Dire Straits para estarem muito mais próximas do universo da divina Emmylou. Knopfler parece estar muito mais à vontade aqui no que nos discos em nome próprio ou com os Straits, e "Donkey Town" e "All the Roadrunning" são jóias primorosas, mas é um disco que se vai revelando com mais e mais audições. Já estou a gostar muito.
25 de setembro de 2006
THE REAL CAT POWER
Experimentem visitar amigos cuja gata acabou de dar à luz uma ninhada. Vão ser pelo menos três horas a curtir voltar a pôr os gatinhos irrequietos no berço de onde passam a vida a saltar para explorarem as redondezas.
22 de setembro de 2006
LUFA-LUFA
Há algo de profundamente irónico em ouvir a "Ode aos Ratos" de Chico Buarque enquanto mudo de linha nos átrios da estação do Marquês de Pombal à hora de ponta da manhã.
rato de rua, irrequieta criatura
tribo em frenética proliferação
lúbrico, libidinoso transeunte
boca de estômago atrás do seu quinhão
vão aos magotes a dar com um pau levando o terror
do parking ao living, do shopping center ao léu
do cano de esgoto pró topo do arranha-céu
rato de rua, aborígene do lodo
fuça gelada, couraça de sabão
quase risonho profanador de tumba
sobrevivente à chacina e à lei do cão
saqueador da metrópole, tenaz roedor
de toda esperança estuporador da ilusão
ó meu semelhante, filho de Deus, meu irmão
rato
rato que rói a roupa
que rói a rapa do rei do morro
que rói a roda do carro
que rói o carro, que rói o ferro
que rói o barro, rói o morro
rato que rói o rato
ra-rato, ra-rato
roto que ri do roto
que rói o farrapo
do esfarra-rapado
que mete a ripa, arranca rabo
rato ruim
rato que rói a rosa
rói o riso da moça
e ruma rua arriba
em sua rota de rato
— Chico Buarque, "Ode aos Ratos" (in "Carioca", Biscoito Fino 2006)
rato de rua, irrequieta criatura
tribo em frenética proliferação
lúbrico, libidinoso transeunte
boca de estômago atrás do seu quinhão
vão aos magotes a dar com um pau levando o terror
do parking ao living, do shopping center ao léu
do cano de esgoto pró topo do arranha-céu
rato de rua, aborígene do lodo
fuça gelada, couraça de sabão
quase risonho profanador de tumba
sobrevivente à chacina e à lei do cão
saqueador da metrópole, tenaz roedor
de toda esperança estuporador da ilusão
ó meu semelhante, filho de Deus, meu irmão
rato
rato que rói a roupa
que rói a rapa do rei do morro
que rói a roda do carro
que rói o carro, que rói o ferro
que rói o barro, rói o morro
rato que rói o rato
ra-rato, ra-rato
roto que ri do roto
que rói o farrapo
do esfarra-rapado
que mete a ripa, arranca rabo
rato ruim
rato que rói a rosa
rói o riso da moça
e ruma rua arriba
em sua rota de rato
— Chico Buarque, "Ode aos Ratos" (in "Carioca", Biscoito Fino 2006)
21 de setembro de 2006
É SÓ CONSTIPAÇÃO CONSTIPAÇÃO (todos os homens são maricas quando estão com gripe, mas não gostam que se saiba)
A parte mais chata é a garganta inflamada. Durante (habitualmente) 24 horas custa-me a engolir, sinto-me quente, sou suposto beber muitos líquidos mas o raio dos líquidos custam-me a engolir, sinto a garganta a arranhar e fico geralmente irritado e mal-disposto e sem vontade de falar com ninguém nem de comer, embora até vá tendo fome.
Desta vez não foram 24 horas, foram quase 48, comecei a inquietar-me se não seria o retorno da amigdalite que me atormentou no Natal passado, e pouco disposto a passar outra vez pela experiência, fui ao médico, que me disse que não era de todo amigdalite, mas que tinha a garganta bastante inflamada.
Ao final das quase 48 e de um anti-inflamatório de acção rápido, surgiu o espirro salvador que revelava a verdade: era mesmo uma constipação. Não foi um espirro, foram mesmo dois. Na manhã seguinte acordei com o nariz irredutivelmente tapado, com uma voz de meter medo ao susto e com expectoração regular. Era oficial: estava constipado.
"Pois," disse a minha mãe, "eu não te disse para te agasalhares e teres cuidado com os ares condicionados? Mas é sempre a mesma coisa, nunca ouvem o que eu digo". Sim, está bem, beijinhos, até amanhã.
Já quase parece um ritual, a constipação de mudança de estação. Esta até apareceu antes da chuva começar a cair a sério.
Desta vez não foram 24 horas, foram quase 48, comecei a inquietar-me se não seria o retorno da amigdalite que me atormentou no Natal passado, e pouco disposto a passar outra vez pela experiência, fui ao médico, que me disse que não era de todo amigdalite, mas que tinha a garganta bastante inflamada.
Ao final das quase 48 e de um anti-inflamatório de acção rápido, surgiu o espirro salvador que revelava a verdade: era mesmo uma constipação. Não foi um espirro, foram mesmo dois. Na manhã seguinte acordei com o nariz irredutivelmente tapado, com uma voz de meter medo ao susto e com expectoração regular. Era oficial: estava constipado.
"Pois," disse a minha mãe, "eu não te disse para te agasalhares e teres cuidado com os ares condicionados? Mas é sempre a mesma coisa, nunca ouvem o que eu digo". Sim, está bem, beijinhos, até amanhã.
Já quase parece um ritual, a constipação de mudança de estação. Esta até apareceu antes da chuva começar a cair a sério.
20 de setembro de 2006
DON'T YOU (FORGET ABOUT ME)
Acabei de apanhar na SIC Radical a última meia-hora de um filme que não vejo desde que estreou há 20 anos: "O Clube", de John Hughes. E fiquei espantado de reconhecer ali muito da minha própria adolescência — e creio que da de muita outra gente. É engraçado como é um filme de que quase ninguém se recorda (a não ser pela canção dos Simple Minds que se tornou num êxito internacional) ou que demasiadas pessoas definem como "demasiado americano" — pareceu-me ser apenas um filme sobre como é difícil ser-se adolescente (e há casos em que essa dificuldade não nos abandona quando "crescemos"). Sei que fiquei com vontade de o ter visto do princípio. Ou, quem sabe, de arranjar o DVD.
19 de setembro de 2006
POLAROID: PEQUENO ALMOÇO
Estou sentado a ler o jornal enquanto tomo o galão e o croissant com manteiga habituais das sextas de manhã. Na mesa à frente, sentam-se duas mulheres com duas crianças: avó e mãe, produzidas em negro, e dois meninos, irmãos, um dos seus cinco anos, o outro dos nove/dez, vestidos como os miúdos de hoje andam vestidos. A avó tresanda a um perfume enjoativo no qual parece ter tomado banho; as crianças falam alto como se estivessem em sua casa.
18 de setembro de 2006
POLAROID: THE MAN WITH THE MOVIE CAMERA
O turista, alto, barbudo, cinquentão, com ar de alemão, filma atentamente o toldo e a esplanada da pastelaria A Irlandeza, na esquina da Alexandre Herculano com a avenida da Liberdade, com a sua câmara de filmar, enquanto a sua esposa/companheira/amiga entra para comer qualquer coisa. O estafeta moto, parado no sinal em frente à espera que abra, ri por trás dos óculos escuros, enquanto o turista entra na pastelaria atrás da esposa/companheira/amiga.
17 de setembro de 2006
POLAROID: QUATRO PISCAS
O Renault Scénic pára à minha frente, no meio da estrada, com os quatro piscas acesos. A família sai toda do carro enquanto o pai abre a mala, para descarregar as compras da tarde no supermercado, que ele, a mãe e os dois filhos transportam para a porta de casa. Há uma abóbora gigantesca na mala, e às tantas o pai diz à filha, que está no passeio segurando com as duas mãos um pacote de uma dúzia de ovos, "Oh Marta, obrigadinho por ajudares". "Estou a segurar nos ovos!" "Punhas no chão para ajudar a tirar as coisas!"
Uma vez descarregadas as compras, o pai volta a entrar no carro e descobre um lugar para estacionar escassos metros à frente.
Uma vez descarregadas as compras, o pai volta a entrar no carro e descobre um lugar para estacionar escassos metros à frente.
16 de setembro de 2006
UM RECADO PARA AS FEMINISTAS DE TODO O MUNDO
"I don't see women as women, I see them as human beings. So I don't believe that you must encourage women particularly. Introducing the issue is like dealing with women as handicapped members of society."
— Alaa Al-Aswany, romancista egípcio, na National Geographic (edição internacional inglesa) deste mês.
— Alaa Al-Aswany, romancista egípcio, na National Geographic (edição internacional inglesa) deste mês.
15 de setembro de 2006
PERGUNTA INOCENTE
Os adolescentes não podiam vir de fábrica com um botão regulador do volume de som da voz?
14 de setembro de 2006
UM COMENTARIO AOS COMENTARIOS
Só para vos descansar relativamente aos protestos que tenho recebido quanto aos comentários — a responsabilidade das "confusões" pertencem exclusivamente ao Blogger.com e também não percebo exactamente o que se está a passar.
13 de setembro de 2006
CHUVA CHUVA CHUVINHA
É oficial, o Verão acabou.
(João e Cristina, é favor não esfregarem as mãos de contentes.)
(João e Cristina, é favor não esfregarem as mãos de contentes.)
12 de setembro de 2006
POLAROID: METRO
Um casal negro dos seus 40 anos senta-se nos lugares ao meu lado no metro: ela à minha frente, elegantemente vestida em tons de terra, discretamente descalçando um dos sapatos para descansar o pé; ele ao meu lado, levantando-se logo a seguir para verificar alguma coisa no mapa da rede, enquanto ela pega no jornal que foi deixado na cadeira e que eu próprio já tinha folheado. Na estação seguinte, uma senhora dos seus 40-50 anos, cabelo louro, vestida de negro, entra e quase se senta no lugar vazio ao lado da senhora negra à minha frente, mas desiste da ideia e senta-se em vez disso nos lugares da frente. Apanho-lhe de passagem o olhar, frio, de uma segurança paredes-meias com a soberba, como quem diz "eu? sentar-me ao pé desses pretos?". Há algo de extraordinariamente português na aparência de porteira desencantada, de "vizinha" que sabe tudo o que se passa no bairro e que tem uma opinião sobre tudo e especialmente sobre aquilo do qual não percebe nada — e, uma ou duas estações mais à frente, vejo-a a concentrar aqueles olhinhos frios no tricot que está a fazer. O casal à minha frente não se apercebeu de absolutamente nada.
11 de setembro de 2006
11 DE SETEMBRO
A propósito das teorias da conspiração que circulam, gostei de ler isto. E também gostei bastante de ler este texto da Nancy Gibbs que não tem nada a ver com teorias da conspiração e tudo a ver com o modo como olhamos hoje para o mundo.
8 de setembro de 2006
ORGULHO DE SER PORTUGUÊS
Vejo nas paragens de autocarro um anúncio para uma revista que tem o slogan "orgulho de ser português", encimando uma capa da dita cuja revista dedicada a Alberto João Jardim. A ironia tem coisas destas.
7 de setembro de 2006
Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #5
Primeiro, "Tallahassee" dos Mountain Goats (4AD, 2002), o primeiro contacto que tive com o grande John Darnielle, autor de dois dos mais extraordinários álbuns que ouvi nos últimos anos ("We Shall All Be Healed" e "The Sunset Tree"), para tentar perceber se o novo "Get Lonely" é só tropeção menor de percurso. Confirma-se, "Tallahassee" é excelente e espero que "Get Lonely" seja mesmo só tropeção menor de percurso.
Depois, parte do excelente "Ultra" dos Depeche Mode (Mute, 1997), o disco que me parece indicar melhor que "Exciter" ou "Playing the Angel" o caminho que esta encarnação em trio do grupo devia seguir para soar moderno sem deixar de soar a Depeche Mode. Mas, claro, isto sou eu que acho.
Depois, parte do excelente "Ultra" dos Depeche Mode (Mute, 1997), o disco que me parece indicar melhor que "Exciter" ou "Playing the Angel" o caminho que esta encarnação em trio do grupo devia seguir para soar moderno sem deixar de soar a Depeche Mode. Mas, claro, isto sou eu que acho.
6 de setembro de 2006
A TROTINETE DOS SEGURANÇAS
Se têm ido ao Colombo nos últimos tempos, já devem ter dado que alguns dos seguranças andam a passear por lá numa geringonça com rodas um bocado estranha, uma espécie de trotinete que anda sozinha. É um Segway e foi inventado há uns anitos por Dean Kamen como uma solução ecológica para o transporte individual urbano, funcionando a corrente eléctrica e de acordo com a própria rotação e movimento do corpo de quem anda em cima dele. A verdade é que o Segway não pegou junto do grande público — mas está a encontrar um pequeno nicho junto de empresas de segurança e departamentos de polícia. Eu pensei que dificilmente iria ver um ao vivo por cá — e não é que lá andam eles a passear pelo Colombo?
5 de setembro de 2006
O INTRÉPIDO OBSERVADOR VAGUEIA POR LISBOA
Hoje, na estação do metro do Rato, entra no comboio, ao meu lado, um senhor dos seus 50 anos, cabelos grisalhos escondidos debaixo de um boné de golfe. A camisa às riscas vermelhas e as calças de fazenda não me surpreendem grandemente, nem a sandália de couro preto a deixar ver o dedão do pé. Já a "pochette" cinzenta a tiracolo com o emblema do Sport Lisboa e Benfica bordado, e o porta-chaves suspenso do cinto em forma de T-shirt com o emblema do Benfica gravado, me fazem olhar duas vezes.
O que eu não estava mesmo nada à espera era dos auscultadores nos ouvidos do senhor, que desapareciam dentro da "pochette".
O que eu não estava mesmo nada à espera era dos auscultadores nos ouvidos do senhor, que desapareciam dentro da "pochette".
4 de setembro de 2006
METRO
Apesar de usar regularmente o metropolitano, devo ser um tipo com alguma sorte, porque não costumo apanhar os atrasos e interrupções de serviço de que muitos se queixam, embora ache que cinco minutos de intervalo entre comboios em hora de ponta não seja uma boa política. Esta manhã, contudo, na estação da Praça de Espanha, o comboio ficou parado à vontade uns bons dez minutos, sem grande explicação. Só quando me levantei do banco para espreitar pela porta percebi que um passageiro se tinha sentido mal na carruagem da frente e o comboio não arrancou enquanto o passageiro — um velhote de camisa branca, bóina e calças negras e ar de completo alheamento da realidade à sua volta que tinha visto sentado na estação do Marquês de Pombal, acompanhado de um homem de meia-idade com uma bóina de comando — saiu da carruagem com a ajuda de uma das funcionárias da estação e ficou ali, sentado no banco de madeira da estação, a olhar para o comboio que acelerava em direcção à estação seguinte.
3 de setembro de 2006
VOYEUR AUDITIVO
A senhora sobe e desce a minha rua, visivelmente transtornada, ora deixando a mala em cima de um dos blocos de betão que são supostos impedir carros de arrumar, ora voltando a pô-la ao ombro, ora pegando num molho de chaves, ora arrumando o molho de chaves. "Tu não percebes," diz ela, transtornada, ao telemóvel, com a cara muito vermelha e a voz à beira do grito, "ela é minha irmã e gosto mais dela do que mim." Seja o que for de que se falava, a conversa não era claramente leviana, e senti-me como se estivesse a intrometer-me numa conversa privada — que, contudo, se estava a ter em voz alta e a bom som em plena rua, com pelo menos mais um par de pessoas ali a ouvi-la.
1 de setembro de 2006
E SE A FIFA EXPULSAR OS CLUBES PORTUGUESES DAS COMPETIÇÕES INTERNACIONAIS ISSO É...
...culpa do futebol português, que parece estar mais interessado em lutas de galos e jogos de poder do que no desporto propriamente dito. Não é um exclusivo nacional, mas às vezes parece que os clubes do futebol só existem para que os dirigentes apareçam na televisão.
31 de agosto de 2006
DESCONTEXTUALIZAR POR AÍ
Num cartaz de publicidade que anuncia um elixir para a boca, li a frase "afecções da cavidade oral" como "afeições da cavidade oral".
30 de agosto de 2006
O QUARTO PODER
Segundo a capa da Caras desta semana, Gonçalo Diniz (que este que assina confessa não fazer a mínima ideia de quem é, mas que a capa informa simpaticamente ser o ex de Elsa Raposo) diz que não gosta da mentira nem da traição. Uns metros ao lado, o 24 Horas ocupa toda a capa a revelar que Merche Romero se chamava na verdade Mercê quando por duas vezes não conseguiu ser eleita Miss Rio Maior. É por estas e por outras que a Economist diz — aqui — que é preciso os jornais reinventarem-se na era da internet.
28 de agosto de 2006
Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #4
Primeiro, Nusrat Fateh Ali Khan na sublime colaboração com Michael Brook "Night Song" (Real World/Virgin, 1996), onde as guitarras tratadas e desmultiplicadas do músico canadiano e a instrumentação moderna criam uma cama sublime para o mestre devocional paquistanês erguer a sua voz a cada vez maiores alturas de êxtase — é um daqueles álbuns para os quais a expressão "clássico moderno" foi inventada.
Depois, tempo para "picar" a banda-sonora de "Lost in Translation" (Emperor Norton, 2003), e para recordar as imaculadas miniaturas atmosféricas que Kevin "My Bloody Valentine" Shields escreveu para um dos filmes da minha vida, com destaque para os sublimes "Goodbye" (suspensão gravitacional quase Enoiana) e "Ikebana" (delicadeza dedilhada enlevada em filigranas preciosas e frágeis).
Depois, tempo para "picar" a banda-sonora de "Lost in Translation" (Emperor Norton, 2003), e para recordar as imaculadas miniaturas atmosféricas que Kevin "My Bloody Valentine" Shields escreveu para um dos filmes da minha vida, com destaque para os sublimes "Goodbye" (suspensão gravitacional quase Enoiana) e "Ikebana" (delicadeza dedilhada enlevada em filigranas preciosas e frágeis).
27 de agosto de 2006
CABIN FEVER
É quando se passa o dia inteiro fechado em casa com aquela sensação de não se ter nada para fazer — mas não é exactamente verdade: entre livros que se lêem, revistas que se folheiam, documentários que se vêem na televisão, discos que se ouvem, roupa que se lava, coisas que se arrumam, há realmente muito para fazer. Só que são aquelas coisas que dão sempre a impressão de "não serem nada" — e eis a sensação incontornável de vazio a tomar corpo. Mas é só um vazio metafísico, amplificado pelo gás da garrafa ter acabado e ter tido de tomar um banho rápido "à gato" antes que a água quente arrefecesse de vez, e pela impossibilidade de cozinhar comida quente e ter de me contentar com o Pizza Hut do lado.
26 de agosto de 2006
A PROPÓSITO DA SILLY SEASON
É bom saber que algumas coisas nunca mudam. No telejornal da RTP-1 de quinta-feira, 15 minutos de Benfica e Luís Filipe Vieira a abrir, seguidos de 15 minutos com o debate das salas de chuto entre médicos com abordagens diferentes ao assunto (cortei o som, mas quase aposto que só do visual dos dois médicos já dava para perceber quem estava contra e quem estava a favor). Depois, sexta e sábado, não se fala de outra coisa que não o sururu criado por esta história da Liga de Clubes, com o presidente do Gil Vicente, António Fiúza, a aparecer em tudo o que é noticiário a fazer o seu número do David que enfrenta o Golias, do Zé Povinho que sabe muito bem o que é que se passa e não se deixa comer pelas maquinações dos grandes (nem falta o sotaque regional para completar o quadro), e com as proverbiais perguntas aos adeptos. Ou seja, a solução habitual quando não há "hard news": venha lá o futebol.
25 de agosto de 2006
Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #3
"Edição Ilimitada", dos Mind Da Gap (Nortesul 2006), é tão longo (76 minutos) que ocupa por si só uma sessão inteira de exercício — o que é um problema comum à maior parte dos discos de hip-hop contemporâneos, que são como as pilhas do coelhinho (duram e duram e duram) mas nem sempre têm substância que os aguente tanto tempo. No caso dos Mind Da Gap, o problema não é falta de substância (os rapazes até a têm em demasia), é mesmo que o disco respirava bastante melhor com 10 ou 12 temas em vez dos 17 aqui incluídos — não fazia mal nenhum terem aprendido a lição com o excelente (e tão menosprezadinho que foi) álbum a solo de Serial, "Brilhantes Diamantes". No resto, contudo, "Edição Ilimitada" é prova de que o hip-hop local já não deve nada ao que vem lá de fora (a pontaria de Serial a alinhar beats de primeiríssima água é homérica). E tem, no irresistível "Tilhas? São Sapatilhas", um daqueles hits tão óbvios, tão óbvios, tão óbvios que só dá vontade de o pôr em repeat no leitor.
23 de agosto de 2006
Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #2
Primeiro, "Smile", de Brian Wilson (Nonesuch, 2004) — a verdadeira "teenage symphony to God" de que muitos falam a propósito de "Pet Sounds", mais próximo de uma qualquer música contemporânea americana que incorporasse todas as linguagens da música popular numa única (e a terminar com "Good Vibrations", ainda por cima), que só poderia ter saído de uma cabeça de génio frágil e atormentado (porque um escriturário bem-comportadinho nunca poderia escrever música desta). Nota: ir buscar o "Orange Crate Art" de Van Dyke Parks com Brian Wilson, que é uma espécie de "coda" a esta "great Cosmic American music".
Depois, "Southern Accents", de Tom Petty (MCA, 1985) — o momento em que um dos grandes cantautores do rock americano (sempre muito incompreendido por cá, valha-o Deus) quis ir mais longe e tentou sair do colete-de-forças do 4/4 mainstream. Não resultou a cem por cento, mas continua a ser um fabuloso disco (o momento em que "Don't Come Around Here No More" passa de experiência orientalizante a rockalhada sempre-a-abrir é como meter a quinta no automóvel e disparar pela auto-estrada). E o que dizer da espantosa ambiguidade de um "Southern Accents", o melhor tema que Randy Newman nunca escreveu?
Depois, "Southern Accents", de Tom Petty (MCA, 1985) — o momento em que um dos grandes cantautores do rock americano (sempre muito incompreendido por cá, valha-o Deus) quis ir mais longe e tentou sair do colete-de-forças do 4/4 mainstream. Não resultou a cem por cento, mas continua a ser um fabuloso disco (o momento em que "Don't Come Around Here No More" passa de experiência orientalizante a rockalhada sempre-a-abrir é como meter a quinta no automóvel e disparar pela auto-estrada). E o que dizer da espantosa ambiguidade de um "Southern Accents", o melhor tema que Randy Newman nunca escreveu?
22 de agosto de 2006
Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #1
Uma das coisas óptimas de ter um leitor de MP3 é poder levá-lo para o ginásio e ouvir discos enquanto se malha. É preferível ao tecno ou ao trance que costuma andar nas aparelhagens dos ginásios e dá para pôr os discos em dia, ou repescar coisas que por uma ou outra razão não ouço há muito tempo.
Ontem, primeira audição para o novo TV On The Radio, "Return to Cookie Mountain" (4AD, 2006) — confirmando que o trio de Kyp Malone, Tunde Adebimpe e David Andrew Sitek soa como se Prince estivesse hoje a fazer música depois de ter crescido numa dieta rigorosa de underground nova-iorquino, Wire e At The Drive-In. Soa a urbanos modernos a tentarem fazer sentido do "apocalypse now" e a curtir que nem uns perdidos enquanto o fazem — não entra logo, mas fica cá dentro a remoer, e tem em "Wolf Like Me" um dos singles do ano.
Para "limpar" os ouvidos, contrasto com o lindíssimo "Rocky Grounds, Big Sky" dos portugueses Unplayable Sofa Guitar (Subotnick/Bor Land, 2005), belíssimo álbum de americana-vista-da-Europa que já não ouvia há uns meses, como se Heidi Berry (e como eu gostava desta senhora) fosse a "frontwoman" de uns Walkabouts depurados com o sentido da paisagem de Ry Cooder.
Ontem, primeira audição para o novo TV On The Radio, "Return to Cookie Mountain" (4AD, 2006) — confirmando que o trio de Kyp Malone, Tunde Adebimpe e David Andrew Sitek soa como se Prince estivesse hoje a fazer música depois de ter crescido numa dieta rigorosa de underground nova-iorquino, Wire e At The Drive-In. Soa a urbanos modernos a tentarem fazer sentido do "apocalypse now" e a curtir que nem uns perdidos enquanto o fazem — não entra logo, mas fica cá dentro a remoer, e tem em "Wolf Like Me" um dos singles do ano.
Para "limpar" os ouvidos, contrasto com o lindíssimo "Rocky Grounds, Big Sky" dos portugueses Unplayable Sofa Guitar (Subotnick/Bor Land, 2005), belíssimo álbum de americana-vista-da-Europa que já não ouvia há uns meses, como se Heidi Berry (e como eu gostava desta senhora) fosse a "frontwoman" de uns Walkabouts depurados com o sentido da paisagem de Ry Cooder.
A PROPÓSITO DOS TREINADORES DE BANCADA
Isto parece-me uma reflexão interessante, articulada e inteligente sobre um daqueles assuntos sobre os quais todos os portugueses têm uma opinião, mesmo quando se torna rapidamente evidente que estão a falar de cor.
21 de agosto de 2006
E OS BOLSOS, SERVEM PARA QUÊ?
O jovem executivo/bancário/vendedor (riscar o que não se aplica) entra na carruagem de metro; fato cinzento claro de tom veraneante e corte elegante, camisa da moda em azul claro de risca diagonal larga, gravata verde brilhante, cabelo com gel, óculos escuros sofisticados, só é pena os sapatos pretos engraxados não jogarem bem com a imagem de "olhem que moderno que eu sou". Isso e as quatro carteiras que transporta na mão esquerda - porta-chaves, carteira, bolsa dos óculos, bolsa do telemóvel. Como quem não quer macular a elegância usando os bolsos para a sua verdadeira função.
20 de agosto de 2006
OU COMO AS CIRCUNSTÂNCIAS INDUZEM EM ERRO
Quantas vezes é que os olhares de engate ao balcão do bar são mesmo olhares de engate e quantas é que não passam de pessoal a tentar perceber no meio da escuridão toda se já conhece, se é mesmo quem se pensa que é, ou se está só a tentar chamar a atenção do barman?
19 de agosto de 2006
OLÁ HOMEM MALVADO
De vez em quando a minha mãe tem um ataque e jura que não volta a ver "Os Sopranos" porque, segundo ela diz, "aquele Tony Soprano é um homem malvado". Sendo ele um mafioso, não estou bem a ver porque é que ela achava que ele havia de ser um santo...
16 de agosto de 2006
SINAL VERMELHO
Pelo sotaque, não consigo perceber se são africanos ou brasileiros — ele de T-shirt branca a dar a entender um torso trabalhado, cabelo rapado e barbicha aparada, ela de blusa de estampado tropical escuro largueirona, calças a mostrar as ancas. Ela insiste em querer atravessar a rua com o sinal vermelho para os peões, entre gargalhadas sonoras, saindo do passeio e dando vários passos na passadeira de peões desenhada no asfalto, ele insiste em agarrá-la pelo braço e impedi-la de ser atropelada pelos carros que passam de sinal aberto.
15 de agosto de 2006
QUEM PROCURA SEMPRE ENCONTRA
Às vezes, aquilo de que mais precisamos está no sítio onde menos esperamos. "Carros", de John Lasseter, um dos melhores filmes que vi em 2006 (e, ao fim de duas visões, ninguém me convence do contrário — façam o favor de tirar a prova dos nove, se ainda não a tiraram), não é sobre outra coisa.
when you find yourself
in some far off place
and it causes you
to rethink some things
you start to sense that slowly you're becoming someone else
and then you find yourself
when you make new friends
in a brand new town
and you start to think
about settling down
the things that would have been lost on you are now clear as a bell
and you find yourself
that's when you find yourself
when you go through life
so sure of where you're heading
and you wind up lost
and it's the best thing it could have happened
because sometimes when you lose your way
it's really just as well
because you find yourself
that's when you find yourself
when you meet the one
you've been waiting for
and she's everything
that you want and more
you look at her and you finally stop to live for someone else
and then you find yourself
that's when you find yourself
you go through life
so sure of where you're heading
and then you wind up lost
and it's the best thing could have happened
sometimes when you lose your way it's really just as well
because you find yourself
that's when you find yourself.
— Brad Paisley, "Find Yourself", para a banda-sonora de "Carros" (Walt Disney Records, 2006)
damn it, D., I miss you
when you find yourself
in some far off place
and it causes you
to rethink some things
you start to sense that slowly you're becoming someone else
and then you find yourself
when you make new friends
in a brand new town
and you start to think
about settling down
the things that would have been lost on you are now clear as a bell
and you find yourself
that's when you find yourself
when you go through life
so sure of where you're heading
and you wind up lost
and it's the best thing it could have happened
because sometimes when you lose your way
it's really just as well
because you find yourself
that's when you find yourself
when you meet the one
you've been waiting for
and she's everything
that you want and more
you look at her and you finally stop to live for someone else
and then you find yourself
that's when you find yourself
you go through life
so sure of where you're heading
and then you wind up lost
and it's the best thing could have happened
sometimes when you lose your way it's really just as well
because you find yourself
that's when you find yourself.
— Brad Paisley, "Find Yourself", para a banda-sonora de "Carros" (Walt Disney Records, 2006)
damn it, D., I miss you
14 de agosto de 2006
PEQUENA INTERRUPÇÃO PARA FAZER UMA DECLARAÇÃO IMPORTANTE
Era só para dizer que esta continua a ser a única série televisiva que continua a ser obrigatória. Os fãs das outras que me desculpem.
13 de agosto de 2006
É SÓ ROCK'N'ROLL
Vi os Rolling Stones da primeira vez que eles cá vieram ao Estádio de Alvalade; foi num domingo de Junho, dia de Marchas Populares, vim a pé do estádio para minha casa (ou quase), cheguei a casa à uma da manhã estava a minha mãe a ver o desfile das marchas na televisão, levantei-me no dia seguinte às seis para ir a Setúbal à inspecção da tropa (a parte da manhã passou sem eu dar quase por nada, tal era a pedra de sono com que eu estava, e vim-me embora no fim do dia por ter sido dispensado do serviço militar). Gostei imenso, mas como fiquei na bancada geral em frente ao palco a minha memória é de um palco muito distante.
Vi os Rolling Stones da segunda vez que eles cá vieram ao Estádio de Alvalade; foi num dia de semana não sei se de Julho se de Agosto, estava eu de férias, fui à tarde ver o "Blow-Up" do Antonioni ao King às quatro e meia, depois fui ter com uma amiga e jantámos no La Campania, na Artilharia Um, antes de irmos para o concerto. Como fiquei na bancada lateral coberta vi muito mais do concerto e gostei mais do que do outro.
Não vi os Rolling Stones da terceira vez que eles cá vieram, a Coimbra, nem agora que eles foram ao Porto. Mas vi bocadinhos do concerto do Porto na televisão e fiquei a achar que Ron Wood parece ter feito uma plástica que correu mal, Keith Richards (que continua a tocar que nem um deus) está muito mais velho do que parecia e Mick Jagger continua a ser Mick Jagger. Charlie Watts só apareceu de costas, por isso não me posso pronunciar.
Também vi os habituais comentários dos fãs, e só achei estranho haver um senhor que parecia estar em todas as entrevistas, a fazer um ar embrutecido para a câmara. Não era o célebre "emplastro", mas era como se fosse.
Vi os Rolling Stones da segunda vez que eles cá vieram ao Estádio de Alvalade; foi num dia de semana não sei se de Julho se de Agosto, estava eu de férias, fui à tarde ver o "Blow-Up" do Antonioni ao King às quatro e meia, depois fui ter com uma amiga e jantámos no La Campania, na Artilharia Um, antes de irmos para o concerto. Como fiquei na bancada lateral coberta vi muito mais do concerto e gostei mais do que do outro.
Não vi os Rolling Stones da terceira vez que eles cá vieram, a Coimbra, nem agora que eles foram ao Porto. Mas vi bocadinhos do concerto do Porto na televisão e fiquei a achar que Ron Wood parece ter feito uma plástica que correu mal, Keith Richards (que continua a tocar que nem um deus) está muito mais velho do que parecia e Mick Jagger continua a ser Mick Jagger. Charlie Watts só apareceu de costas, por isso não me posso pronunciar.
Também vi os habituais comentários dos fãs, e só achei estranho haver um senhor que parecia estar em todas as entrevistas, a fazer um ar embrutecido para a câmara. Não era o célebre "emplastro", mas era como se fosse.
12 de agosto de 2006
PEQUENAS IRONIAS DAS CATALOGAÇÕES
A notícia de que o romancista alemão Günter Grass fez a tropa nas SS nazis durante a II Guerra Mundial aparece, no site da BBC News, na secção de "entretenimento".
11 de agosto de 2006
POLAROID: SUPERMERCADO
Passa pouco das sete da tarde e, como habitual, o supermercado está a encher com as pessoas que regressam a casa do trabalho e compram alguma coisa de que se esqueceram ou que lhes faz falta para o jantar (ou, em alguns casos, compram mesmo o jantar). Das três caixas, contudo, só uma está a funcionar e rapidamente se forma uma fila que curva junto à arca dos gelados. Um senhor dos seus 60-70 anos, com uma pasta de escriturário na mão e uma embalagem de bacon na outra, mostra-se relutante em juntar-se à fila, que no entretanto ganhou uma forma retorcida, um pouco estranha. Quando chega uma funcionária para abrir uma das caixas, o senhor precipita-se para ser atendido, mas faço sinal à empregada que há gente à frente do senhor e ela apressa-se a dizer "por ordem, se fizer favor". O senhor resmunga por não poder ser atendido antes dos outros todos, "então, é pela ordem que as pessoas estavam na fila"", diz-lhe a empregada, mas ele responde "e eu sei lá onde é que está a fila, aquilo não parece uma fila".
10 de agosto de 2006
DESPERTADOR
Hoje, às oito da manhã, o despertador tocou com a TSF a falar do caos em Heathrow à conta das revelações feitas pela polícia britânica. Nada disso muda os 36 graus de calor que sufocam Lisboa durante o dia sem a bênção de uma aragem. Mas no site da BBC, fonte dos aeroportos britânicos diz que as novas regras que obrigam a (até agora) bagagem de mão a ser despachada no porão podem ter vindo para ficar. A frase é terrível: "nunca mais vamos viajar da mesma maneira". Uma internauta britânica diz que provavelmente hoje, com tanta segurança, é o dia mais seguro de sempre para viajar de avião, e no noticiário da noite uma senhora apanhada na confusão dos aeroportos ingleses diz com aquela fleuma britânica "ainda bem que estão a fazer isto tudo, porque eu quero viver". A maior parte dos entrevistados estão mais irritados com a maçada e o atraso do que verdadeiramente em pânico. Há um italiano que diz no telejornal que ficar trancado em casa não é solução, é ceder ao medo. E tem razão. Mas continuarmos a acreditar que tudo continua como antes de 11 de Setembro de 2001 também não é solução — e hoje o despertador tocou mais alto.
9 de agosto de 2006
POLAROID: CORREIOS
A senhora, dos seus 50 anos, bronzeada, entra na estação de correios, com uma saia comprida de tecido branco translúcido que parece linho e uma camisola de alças justa que apenas realça as ancas gordas e a celulite. Traz sandálias cor de cortiça, um chapéu de sol fechado debaixo do braço e uma série de folhas A4 dobradas com o logotipo da segurança social na outra mão. Não tira senha e vagueia pela sala com ar misto de furioso e maçado, e a velocidade frenética de uma mosca que sabe que tem alguma coisa que fazer depressa mas não se recorda do quê; também não procura falar com nenhum dos funcionários ao balcão, e ao fim de dois-três minutos vai-se embora, dizendo meio para si meio para os poucos clientes, numa voz insuficientemente alta, que a atendem melhor na segurança social, apesar do chinfrim.
8 de agosto de 2006
HUMOR INGLÊS DO SUL #2
Numa peça sobre a corrida governamental do estado americano do Arkansas na Economist desta semana, os "Emo kids" — adolescentes apreciadores de um estilo de rock alternativo designado por "emo" que combina música enérgica com uma exploração literária e sensível das emoções-montanha-russa em que a adolescência é prenhe — são designados como "young people afflicted with melancholia".
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