Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
9 de novembro de 2006
ONOMATOPEIAS DO RONRONAR
A menina Alice diz que a gata dela quando ronrona soa a uma vitrine frigorífica do talho. Eu digo que a minha soa a um diesel em ponto morto. Alguém tem outras sugestões?
A FELICIDADE
...é, para os meus amigos americanos, a derrota do Partido Republicano nas intercalares americanas e a humilhação sofrida pelo presidente George Bush, e, acima de tudo, a demissão forçada de Donald Rumsfeld. Porque, aqui entre nós, um porradão de americanos também nunca estiveram nada de acordo com os seus governantes. Daí que alguns deles já falem em "Taking Back the House Party", numa alusão às "house parties" e à "reconquista da Casa dos Representantes" pelo Partido Democrata. A ver vamos — nós europeus somos um bocadinho mais cínicos politicamente.
(A despropósito: ver a oposição a opôr-se ao orçamento de estado do PS, ou seja, a fazer aquilo para que é paga, é ver o Eça actualizado para os nossos dias. Mas acho que já disse isto em qualquer lado.)
(A despropósito: ver a oposição a opôr-se ao orçamento de estado do PS, ou seja, a fazer aquilo para que é paga, é ver o Eça actualizado para os nossos dias. Mas acho que já disse isto em qualquer lado.)
8 de novembro de 2006
COMO A ESPERA DO COMBOIO NA PARAGEM DO AUTOCARRO
À paragem do 9 na Álvares Cabral, pouco passa das nove da noite, chega uma jovem dos seus 20 e poucos anos. Apesar de ter chovido torrencialmente pouco antes, ela surge de cabelo escorrido e T-shirt justa de manga muito curta, com apliques em letras douradas na frente, e tresandando à distância a perfume, como se tivesse tomado banho na fragrância, de tal modo que, mesmo com a brisa que corre e não havendo mais ninguém da paragem, o odor enjoatiivo do perfume impondo-se rapidamente. São dez minutos de tormento enquanto o 9 não chega.
7 de novembro de 2006
CONSTATAÇAO
Os longos átrios e corredores da estação da Alameda que fazem correspondência entre as linhas verde e vermelha enchem-se de gente que se afadiga a passar aos intervalos regulares da chegada dos comboios. O gigantesco átrio da linha vermelha está quase sempre vazio, mesmo quando os passageiros se apressam para tomar o comboio para o Parque das Nações, ou quando os passageiros saem do comboio que acabou de chegar para fazer a correspondência.
6 de novembro de 2006
O HOMEM ALMOFADA
Tenho no colo há qualquer coisa como duas horas uma gatinha cinzenta de sete semanas que decidiu eleger o meu colo sentado como a almofada para a sua soneca da tarde. De nada servem as minhas idas à casa de banho ou à sala buscar uma banana para comer: assim que me apanha sentado, vá de cravar as garras nas minhas calças e erguer-se a pulso até ao meu colo para se enroscar confortavelmente e adormecer, alheia ao toque do telefone, às obras do andar de cima ou aos meus dedos no teclado.
5 de novembro de 2006
PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #71
Basbaque.
(durante um "Saturday Night Constititutional to S. Pedro beach and back", inspirado pelos Marqueses de Marialva via Alexandre M.)
(durante um "Saturday Night Constititutional to S. Pedro beach and back", inspirado pelos Marqueses de Marialva via Alexandre M.)
4 de novembro de 2006
CARIOCA
O que é assombroso ao ver Chico Buarque em palco é que ele é absolutamente o oposto do "animal de palco": não fala com o público, para lá do banal "obrigado" e da apresentação dos músicos; não se mexe em palco, mantém-se estático em frente ao microfone, com ou sem violão; sente-se, mesmo à distância de uma sala cheia, um desconforto evidente por estar fora do seu "habitat" natural.
E nada disso interessa quando Chico canta (mesmo que a voz já não seja exactamente a mesma), porque só ele sabe cantar estas canções desta maneira. E estas canções — todas as do magnífico "Carioca", mais uma série de escolhas oblíquas do seu passado onde quase não há espaço para os "greatest hits" que estão na boca de todos — cantadas desta maneira silenciam o Coliseu de Lisboa, preso às nuances da voz, da letra, da arte imensa de Chico Buarque. Se fosse com Caetano, quase aposto que o público começaria a resmungar. Com Chico, nem um alfinete se ouviu. O respeitinho é muito bonito.
E nada disso interessa quando Chico canta (mesmo que a voz já não seja exactamente a mesma), porque só ele sabe cantar estas canções desta maneira. E estas canções — todas as do magnífico "Carioca", mais uma série de escolhas oblíquas do seu passado onde quase não há espaço para os "greatest hits" que estão na boca de todos — cantadas desta maneira silenciam o Coliseu de Lisboa, preso às nuances da voz, da letra, da arte imensa de Chico Buarque. Se fosse com Caetano, quase aposto que o público começaria a resmungar. Com Chico, nem um alfinete se ouviu. O respeitinho é muito bonito.
3 de novembro de 2006
O MEU GURU (OU UM DOS)
Andrew Sullivan tornou-se num dos meus colunistas de referência. Sobretudo desde que, há largos meses já, apanhei um extraordinário ensaio dele sobre a religião (coisa que não professo) — e, depois, acompanhando diariamente o seu blog, descobri uma pessoa que se desvenda inteira na imensidão de "posts" que vai largando diariamente, assumindo por inteiro as contradições e paradoxos quase esquizofrénicos inerentes à sua condição humana.
Senão vejamos: Sullivan é um inglês formado em filosofia política, mas é um dos mais notáveis pensadores sobre a realidade política americana contemporânea, tendo feito dos States o seu país de adopção nos últimos 20 anos. É um conservador que não suporta o travesti que o actual Partido Republicano fez do conservadorismo; é um católico que não se revê no fundamentalismo cristão que tantos de nós identificamos com uma certa América; tem vindo a exigir abertamente a demissão de Donald Rumsfeld e, sendo um apoiante da intervenção americana no Iraque, é também um crítico aberto do modo como a administração Bush a conduziu e das falácias e manipulações mediáticas lançadas pela "maioria moral" americana. (Numa recente intervenção na CNN, disse que George W. Bush "perdeu a cabeça".) E é tudo isto sendo homossexual assumido publicamente e seropositivo, o que o torna numa voz desconfortável para muito boa gente que gosta dos seus colunistas encaixados em gavetas. Acaba de publicar um livro que vem bem recomendado pela Economist e que ele anda a promover honesta mas furiosamente no blog, chamado "The Conservative Soul".
E, pelo meio das suas reflexões sociopolíticas, vai falando dos seus cães (com fotos e tudo) e anda agora a postar os melhores e piores videos dos anos 80 sacados do YouTube. Digam-me, o Pacheco Pereira seria capaz de intercalar posts políticos hardcore inteligentes com telediscos dos New Order e dos Starship? Também me parecia que não.
Senão vejamos: Sullivan é um inglês formado em filosofia política, mas é um dos mais notáveis pensadores sobre a realidade política americana contemporânea, tendo feito dos States o seu país de adopção nos últimos 20 anos. É um conservador que não suporta o travesti que o actual Partido Republicano fez do conservadorismo; é um católico que não se revê no fundamentalismo cristão que tantos de nós identificamos com uma certa América; tem vindo a exigir abertamente a demissão de Donald Rumsfeld e, sendo um apoiante da intervenção americana no Iraque, é também um crítico aberto do modo como a administração Bush a conduziu e das falácias e manipulações mediáticas lançadas pela "maioria moral" americana. (Numa recente intervenção na CNN, disse que George W. Bush "perdeu a cabeça".) E é tudo isto sendo homossexual assumido publicamente e seropositivo, o que o torna numa voz desconfortável para muito boa gente que gosta dos seus colunistas encaixados em gavetas. Acaba de publicar um livro que vem bem recomendado pela Economist e que ele anda a promover honesta mas furiosamente no blog, chamado "The Conservative Soul".
E, pelo meio das suas reflexões sociopolíticas, vai falando dos seus cães (com fotos e tudo) e anda agora a postar os melhores e piores videos dos anos 80 sacados do YouTube. Digam-me, o Pacheco Pereira seria capaz de intercalar posts políticos hardcore inteligentes com telediscos dos New Order e dos Starship? Também me parecia que não.
2 de novembro de 2006
É curioso ver como os adolescentes contemporâneos se movimentam em rebanho. Hoje tive a oportunidade de o ver "in situ", primeiro na estação de metro do Campo Grande, depois na Alameda: a quantidade de grupos grandes que se formam nas plataformas e praticamente obstruem a passagem dos outros passageiros (sem que eles pareçam sequer aperceber-se de que não são os únicos à espera do comboio) é espantoso, uma espécie de migração tribal simultânea. "Estamos aqui, habituem-se", parecem dizer.
31 de outubro de 2006
A TRADIÇAO JA NAO E O QUE ERA
Sabiam que em Lisboa também se faz o "trick or treat" da noite de Halloween? Não? Pois, eu também não, pelo menos até quatro garotinhas e garotinhos maquilhados com marcadores de feltro me tocarem à porta às oito da noite a pedirem "doce ou susto!". Eu fiquei tão desarmado com a inesperada surpresa que só lhes respondi "Nem uma coisa, nem outra". Eles ficaram tão desarmados como eu. Calculo que não tenham levado muitos doces para casa ao fim da noite.
30 de outubro de 2006
A LOJA QUE NAO E CHINESA
Falou-se muito do fecho do salão de jogos Monumental, na Álvares Cabral, como mais um ícone da Lisboa de outros tempos que desaparecia perante os nossos olhos — e falava-se muito da loja chinesa que ali ia abrir embora o espaço não estivesse licenciado para isso. A verdade é que desde a semana passada que lá está uma loja toda pintada de branco — mas não é chinesa, é uma normalíssima boutique de roupa.
29 de outubro de 2006
A ERA DA INFORMAÇAO
A minha mãe sempre me chamou "coca-bichinhos", houve quem me chamasse "rato de biblioteca" — a verdade é que hoje, a fazer limpezas no escritório na sequência daquilo que é, claramente, uma pequena reorganização caseira, percebi um pouco melhor porquê, face às coisas que eu já não me lembrava que tinha guardado que foram aparecendo à medida que desenterrava papéis, jornais, revistas que foram sendo acumulados por esta ou aquela razão mas não encaixavam nas gavetas estabelecidas dos arquivos.
Sempre achei que há coisas que vale a pena guardar mesmo que, agora, não faça sentido (é essa, no fundo, a função dos arquivos — registar para futura referência aquilo que mesmo hoje nos parece irrelevante). Mas isso foi antes da internet, antes de se poder encontrar toda (ou quase) a informação que se pretende num ápice, antes do espaço em casa começar a reduzir e de eu já não saber muito bem como organizar toda a informação que fui acumulando de acordo com um modo específico de arquivação que, agora, corre o risco de estar obsoleto mas não é fácil de reconverter. Ando a pensar no assunto há uns tempos e ainda não encontrei a resposta certa. As dores de crescimento da tecnologia, em suma, ainda nos reservam algumas surpresas.
Sempre achei que há coisas que vale a pena guardar mesmo que, agora, não faça sentido (é essa, no fundo, a função dos arquivos — registar para futura referência aquilo que mesmo hoje nos parece irrelevante). Mas isso foi antes da internet, antes de se poder encontrar toda (ou quase) a informação que se pretende num ápice, antes do espaço em casa começar a reduzir e de eu já não saber muito bem como organizar toda a informação que fui acumulando de acordo com um modo específico de arquivação que, agora, corre o risco de estar obsoleto mas não é fácil de reconverter. Ando a pensar no assunto há uns tempos e ainda não encontrei a resposta certa. As dores de crescimento da tecnologia, em suma, ainda nos reservam algumas surpresas.
28 de outubro de 2006
A FORÇA DE VONTADE UNIDA JAMAIS SERA VENCIDA
Descobri que tenho o colesterol um bocadinho alto e como tal o meu médico recomendou-me que durante os próximos dois meses evite:
1. as carnes vermelhas (calha bem, como mais carnes brancas de qualquer maneira) e derivados
2. os mariscos (também calha bem, não como muito)
3. as bebidas alcoólicas (que eu quase não bebo) e refrigerantes (que vou eu fazer sem a minha água suja do imperialismo?)
4. as gorduras animais (as torradas com manteiga foram à vida)
5. os iogurtes que não sejam naturais
6. o leite que não seja magro (também calha bem, só bebo leite magro)
7. os bolos, açúcares e doces.
Ou seja, croissant com manteiga, Cadbury's Dairy Milk e Ben & Jerry's só em ocasiões especiais. Lá terá que ser, não é? (diz ele enquanto dá uma dentada no último Toblerone que estava no frigorífico)
1. as carnes vermelhas (calha bem, como mais carnes brancas de qualquer maneira) e derivados
2. os mariscos (também calha bem, não como muito)
3. as bebidas alcoólicas (que eu quase não bebo) e refrigerantes (que vou eu fazer sem a minha água suja do imperialismo?)
4. as gorduras animais (as torradas com manteiga foram à vida)
5. os iogurtes que não sejam naturais
6. o leite que não seja magro (também calha bem, só bebo leite magro)
7. os bolos, açúcares e doces.
Ou seja, croissant com manteiga, Cadbury's Dairy Milk e Ben & Jerry's só em ocasiões especiais. Lá terá que ser, não é? (diz ele enquanto dá uma dentada no último Toblerone que estava no frigorífico)
27 de outubro de 2006
POLAROID
Mesmo à porta de minha casa, tenho um daqueles supermercados pequenos de bairro que serve perfeitamente a população da zona embora não evite a visita a uma "grande superfície" de vez em quando à procura daquelas coisas que não se encontram (tão boas) por aqui. Foi por isso que estranhei quando comecei a ver uma mendiga sentada alguns metros à frente da saída do supermercado fazer dele o seu "poiso" diário, pernas cruzadas escondidas pela saia de tecido colorido, sentada em cima de um cartão dobrado, quase inteiramente coberta, deixando só as mãos e o rosto à vista, segurando à frente um cartão escrito à mão em português macarrónico com uma imagem religiosa colada, dizendo não ter marido nem trabalho e crianças para alimentar e pedindo ajuda pelo amor de Deus. A mendiga não fala nem se dirige às pessoas: está ali apenas, com um copo de plástico de cerveja vazio à frente. Por vezes, está acompanhada de uma menina dos seus oito anos, mas a maior parte das vezes está sozinha. Tem ar de ser uma daquelas ciganas de Leste que são "pedintes profissionais" e que hoje vemos cada vez mais, mas posso estar enganado.
A verdade é que não passa muita gente pelo local que a mendiga escolheu para pedir esmola, sobretudo quando, subindo alguns metros, tem uma avenida que está sempre cheia de transeuntes. O seu copo de plástico está quase sempre vazio, ou tem poucas moedas de denominação pequena.
A verdade é que não passa muita gente pelo local que a mendiga escolheu para pedir esmola, sobretudo quando, subindo alguns metros, tem uma avenida que está sempre cheia de transeuntes. O seu copo de plástico está quase sempre vazio, ou tem poucas moedas de denominação pequena.
26 de outubro de 2006
A CURIOSIDADE MATOU O GATO
Eu sei que os ursos pardos não são exactamente animais de estimação, mas isto dá imensa vontade de ter pena deles.
25 de outubro de 2006
Divirto-me muito a ler as respostas dos inquéritos de rua que os jornais fazem. Hoje, pergunta-se a uma reformada de 69 anos se vai passar a deixar o carro em casa agora que o estacionamento público aumentou (partindo do princípio que uma reformada de 69 anos conduz, o que me parece altamente improvável mesmo que não impossível). Mas a senhora responde que não, não vai deixar o carro em casa, nem concorda com o aumento, porque a rua é um "espaço público a que temos direito e ainda temos de pagar". Daqui deduzimos que a senhora concorda com o estacionamento selvagem e com a fuga ao pagamento do parquímetro ou ao parque de estacionamento pago. Mas algo me diz que, se perguntassem à senhora se ela achava bem que os carros estacionassem em cima dos passeios públicos, ela diria que não e resmungaria muito pela falta de respeito dos condutores que arrumam os carros em qualquer lado sem deixar às pessoas espaço para andarem pela rua.
23 de outubro de 2006
DESCONVERSAS #1
(ouvido no metro do Marquês de Pombal:)
"Fico sempre a falar sozinha, é uma coisa extraordinária..."
(resposta que se pensou mas não se disse:)
"Se calhar é o que mereces..."
"Fico sempre a falar sozinha, é uma coisa extraordinária..."
(resposta que se pensou mas não se disse:)
"Se calhar é o que mereces..."
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