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5 de novembro de 2006

PALAVRAS DE QUE GOSTO MUITO MAS QUE NÃO TÊM GRANDE UTILIZAÇÃO PRÁTICA QUOTIDIANA #71

Basbaque.

(durante um "Saturday Night Constititutional to S. Pedro beach and back", inspirado pelos Marqueses de Marialva via Alexandre M.)

4 de novembro de 2006

CARIOCA

O que é assombroso ao ver Chico Buarque em palco é que ele é absolutamente o oposto do "animal de palco": não fala com o público, para lá do banal "obrigado" e da apresentação dos músicos; não se mexe em palco, mantém-se estático em frente ao microfone, com ou sem violão; sente-se, mesmo à distância de uma sala cheia, um desconforto evidente por estar fora do seu "habitat" natural.

E nada disso interessa quando Chico canta (mesmo que a voz já não seja exactamente a mesma), porque só ele sabe cantar estas canções desta maneira. E estas canções — todas as do magnífico "Carioca", mais uma série de escolhas oblíquas do seu passado onde quase não há espaço para os "greatest hits" que estão na boca de todos — cantadas desta maneira silenciam o Coliseu de Lisboa, preso às nuances da voz, da letra, da arte imensa de Chico Buarque. Se fosse com Caetano, quase aposto que o público começaria a resmungar. Com Chico, nem um alfinete se ouviu. O respeitinho é muito bonito.

3 de novembro de 2006

O MEU GURU (OU UM DOS)

Andrew Sullivan tornou-se num dos meus colunistas de referência. Sobretudo desde que, há largos meses já, apanhei um extraordinário ensaio dele sobre a religião (coisa que não professo) — e, depois, acompanhando diariamente o seu blog, descobri uma pessoa que se desvenda inteira na imensidão de "posts" que vai largando diariamente, assumindo por inteiro as contradições e paradoxos quase esquizofrénicos inerentes à sua condição humana.

Senão vejamos: Sullivan é um inglês formado em filosofia política, mas é um dos mais notáveis pensadores sobre a realidade política americana contemporânea, tendo feito dos States o seu país de adopção nos últimos 20 anos. É um conservador que não suporta o travesti que o actual Partido Republicano fez do conservadorismo; é um católico que não se revê no fundamentalismo cristão que tantos de nós identificamos com uma certa América; tem vindo a exigir abertamente a demissão de Donald Rumsfeld e, sendo um apoiante da intervenção americana no Iraque, é também um crítico aberto do modo como a administração Bush a conduziu e das falácias e manipulações mediáticas lançadas pela "maioria moral" americana. (Numa recente intervenção na CNN, disse que George W. Bush "perdeu a cabeça".) E é tudo isto sendo homossexual assumido publicamente e seropositivo, o que o torna numa voz desconfortável para muito boa gente que gosta dos seus colunistas encaixados em gavetas. Acaba de publicar um livro que vem bem recomendado pela Economist e que ele anda a promover honesta mas furiosamente no blog, chamado "The Conservative Soul".

E, pelo meio das suas reflexões sociopolíticas, vai falando dos seus cães (com fotos e tudo) e anda agora a postar os melhores e piores videos dos anos 80 sacados do YouTube. Digam-me, o Pacheco Pereira seria capaz de intercalar posts políticos hardcore inteligentes com telediscos dos New Order e dos Starship? Também me parecia que não.

2 de novembro de 2006

É curioso ver como os adolescentes contemporâneos se movimentam em rebanho. Hoje tive a oportunidade de o ver "in situ", primeiro na estação de metro do Campo Grande, depois na Alameda: a quantidade de grupos grandes que se formam nas plataformas e praticamente obstruem a passagem dos outros passageiros (sem que eles pareçam sequer aperceber-se de que não são os únicos à espera do comboio) é espantoso, uma espécie de migração tribal simultânea. "Estamos aqui, habituem-se", parecem dizer.

31 de outubro de 2006

A TRADIÇAO JA NAO E O QUE ERA

Sabiam que em Lisboa também se faz o "trick or treat" da noite de Halloween? Não? Pois, eu também não, pelo menos até quatro garotinhas e garotinhos maquilhados com marcadores de feltro me tocarem à porta às oito da noite a pedirem "doce ou susto!". Eu fiquei tão desarmado com a inesperada surpresa que só lhes respondi "Nem uma coisa, nem outra". Eles ficaram tão desarmados como eu. Calculo que não tenham levado muitos doces para casa ao fim da noite.

30 de outubro de 2006

A LOJA QUE NAO E CHINESA

Falou-se muito do fecho do salão de jogos Monumental, na Álvares Cabral, como mais um ícone da Lisboa de outros tempos que desaparecia perante os nossos olhos — e falava-se muito da loja chinesa que ali ia abrir embora o espaço não estivesse licenciado para isso. A verdade é que desde a semana passada que lá está uma loja toda pintada de branco — mas não é chinesa, é uma normalíssima boutique de roupa.

29 de outubro de 2006

A ERA DA INFORMAÇAO

A minha mãe sempre me chamou "coca-bichinhos", houve quem me chamasse "rato de biblioteca" — a verdade é que hoje, a fazer limpezas no escritório na sequência daquilo que é, claramente, uma pequena reorganização caseira, percebi um pouco melhor porquê, face às coisas que eu já não me lembrava que tinha guardado que foram aparecendo à medida que desenterrava papéis, jornais, revistas que foram sendo acumulados por esta ou aquela razão mas não encaixavam nas gavetas estabelecidas dos arquivos.

Sempre achei que há coisas que vale a pena guardar mesmo que, agora, não faça sentido (é essa, no fundo, a função dos arquivos — registar para futura referência aquilo que mesmo hoje nos parece irrelevante). Mas isso foi antes da internet, antes de se poder encontrar toda (ou quase) a informação que se pretende num ápice, antes do espaço em casa começar a reduzir e de eu já não saber muito bem como organizar toda a informação que fui acumulando de acordo com um modo específico de arquivação que, agora, corre o risco de estar obsoleto mas não é fácil de reconverter. Ando a pensar no assunto há uns tempos e ainda não encontrei a resposta certa. As dores de crescimento da tecnologia, em suma, ainda nos reservam algumas surpresas.

28 de outubro de 2006

A FORÇA DE VONTADE UNIDA JAMAIS SERA VENCIDA

Descobri que tenho o colesterol um bocadinho alto e como tal o meu médico recomendou-me que durante os próximos dois meses evite:
1. as carnes vermelhas (calha bem, como mais carnes brancas de qualquer maneira) e derivados
2. os mariscos (também calha bem, não como muito)
3. as bebidas alcoólicas (que eu quase não bebo) e refrigerantes (que vou eu fazer sem a minha água suja do imperialismo?)
4. as gorduras animais (as torradas com manteiga foram à vida)
5. os iogurtes que não sejam naturais
6. o leite que não seja magro (também calha bem, só bebo leite magro)
7. os bolos, açúcares e doces.

Ou seja, croissant com manteiga, Cadbury's Dairy Milk e Ben & Jerry's só em ocasiões especiais. Lá terá que ser, não é? (diz ele enquanto dá uma dentada no último Toblerone que estava no frigorífico)

27 de outubro de 2006

POLAROID

Mesmo à porta de minha casa, tenho um daqueles supermercados pequenos de bairro que serve perfeitamente a população da zona embora não evite a visita a uma "grande superfície" de vez em quando à procura daquelas coisas que não se encontram (tão boas) por aqui. Foi por isso que estranhei quando comecei a ver uma mendiga sentada alguns metros à frente da saída do supermercado fazer dele o seu "poiso" diário, pernas cruzadas escondidas pela saia de tecido colorido, sentada em cima de um cartão dobrado, quase inteiramente coberta, deixando só as mãos e o rosto à vista, segurando à frente um cartão escrito à mão em português macarrónico com uma imagem religiosa colada, dizendo não ter marido nem trabalho e crianças para alimentar e pedindo ajuda pelo amor de Deus. A mendiga não fala nem se dirige às pessoas: está ali apenas, com um copo de plástico de cerveja vazio à frente. Por vezes, está acompanhada de uma menina dos seus oito anos, mas a maior parte das vezes está sozinha. Tem ar de ser uma daquelas ciganas de Leste que são "pedintes profissionais" e que hoje vemos cada vez mais, mas posso estar enganado.

A verdade é que não passa muita gente pelo local que a mendiga escolheu para pedir esmola, sobretudo quando, subindo alguns metros, tem uma avenida que está sempre cheia de transeuntes. O seu copo de plástico está quase sempre vazio, ou tem poucas moedas de denominação pequena.

26 de outubro de 2006

A CURIOSIDADE MATOU O GATO

Eu sei que os ursos pardos não são exactamente animais de estimação, mas isto dá imensa vontade de ter pena deles.

25 de outubro de 2006

GULOSEIMA PARA O LANCHE

Não é o melhor chocolate do mundo, mas anda lá perto.
Divirto-me muito a ler as respostas dos inquéritos de rua que os jornais fazem. Hoje, pergunta-se a uma reformada de 69 anos se vai passar a deixar o carro em casa agora que o estacionamento público aumentou (partindo do princípio que uma reformada de 69 anos conduz, o que me parece altamente improvável mesmo que não impossível). Mas a senhora responde que não, não vai deixar o carro em casa, nem concorda com o aumento, porque a rua é um "espaço público a que temos direito e ainda temos de pagar". Daqui deduzimos que a senhora concorda com o estacionamento selvagem e com a fuga ao pagamento do parquímetro ou ao parque de estacionamento pago. Mas algo me diz que, se perguntassem à senhora se ela achava bem que os carros estacionassem em cima dos passeios públicos, ela diria que não e resmungaria muito pela falta de respeito dos condutores que arrumam os carros em qualquer lado sem deixar às pessoas espaço para andarem pela rua.

23 de outubro de 2006

DESCONVERSAS #1

(ouvido no metro do Marquês de Pombal:)
"Fico sempre a falar sozinha, é uma coisa extraordinária..."

(resposta que se pensou mas não se disse:)
"Se calhar é o que mereces..."

22 de outubro de 2006

CINZENTO

Ontem esteve um sábado cinzento, chuvoso. Era difícil arranjar lugar para arrumar o carro em qualquer lado, como se as pessoas não tivessem saído de casa, mas os centros comerciais estavam a abarrotar, com filas de carros à espera de um lugar para arrumar.

Esta manhã, pelo contrário, cedo, pelas oito-nove horas, Lisboa está deserta, cinzenta, chuvosa. E não faltam lugares para arrumar o carro. É uma cidade vazia. Como a minha casa.

20 de outubro de 2006

19 de outubro de 2006

COMPRE AQUI O SEU CONSUMIVEL

Nas bilheteiras do cinema Alvaláxia, em Lisboa, que agora (como é moda em todos os cinemas) passaram para o balcão das pipocas, o letreiro que indica a fila diz "bilhetes e consumíveis".

Ou seja, as pipocas, refrigerantes e outros doces passaram a estar ao nível dos tinteiros da impressora.

17 de outubro de 2006

TO OUR NEXT POSTING



É um dos mais belos filmes do mundo: "Os Dominadores" (1949), de John Ford. Visto no grande écrã, é ainda mais belo.

16 de outubro de 2006

É TAO BONITO O SILENCIO

Alguns dormem o sono dos justos.

Outros, pelo contrário, atiram-se ao ressono dos justos.

15 de outubro de 2006

DA LICENÇA QUE EU ME SENTE?

É normal que os Pastéis de Belém estejam cheios numa manhã de domingo, entre turistas, nativos e quem veio ver o render da guarda da GNR ao palácio de Belém, com os empregados de cabeça em água a correr para conseguir dar vazão aos fregueses. O que já não é normal é que, na mesa ao lado da nossa, anteriormente ocupada por um casal jovem, enquanto ela espera que ele regresse da casa de banho e que o empregado traga a conta, chegue um quarentão brasileiro que, ao reparar que ela espera a conta, lhe pergunta se não se importa que ele marque lugar sentando-se ao seu lado. Enquanto o esposo/namorado da jovem vem/não vem, o brasileiro começa, enquanto tenta meter conversa com a jovem, às tantas a fazer sinalefas e a assobiar altíssimo e mal-educadamente no meio da sala ruidosa e cheia de gente, penso a princípio que para o empregado do balcão o vir atender, mas percebo depois que ele está a chamar a mulher com quem está, que chega pouco depois e se senta na mesa, altura em que chega o esposo da jovem e os dois se levantam para pagar ao empregado. Passado algum tempo, chega mais um casal quarentão brasileiro para fazer companhia ao casal quarentão já instalado. Dez minutos mais tarde, vejo-os a sair com um saco com embalagens de pastéis de Belém. Fiquei sem perceber.

12 de outubro de 2006

POLAROID: AEROPORTO

Toda a gente desce a rampa das chegadas à excepção de duas senhoras com um ar profundamente português, vestidas como se tivessem ido às compras às lojas do bairro, cheias de sacos de papel, casacos ou camisolas nas mãos, que a sobem tranquilamente e se plantam exactamente no meio das portas, no caminho de toda a gente que quer sair. Um dos empregados da manutenção fala com elas um pouco e dirige-as para o guichet que fica ao lado das portas, já na rampa, e as senhoras lá vão à procura não sei bem do quê; mas, durante os dez minutos que se seguem, continuam a passear, com um ar resignado, entre o guichet e as portas, sempre parando e pousando os sacos no chão exactamente no meio das portas, perfeitamente alheadas de estarem no meio do caminho dos viajantes que chegam, apesar das repetidas indicações dos funcionários.

11 de outubro de 2006

SAI UM CHAZINHO

De vez em quando vou comer uma pizza (passe a publicidade) ao Pizza Hut. Se não gostasse também estava bem arranjado, porque tenho um muito perto de casa, e quando não me apetece cozinhar ao domingo não tenho grande alternativa porque é o único restaurante no raio de 500 metros de minha casa que está aberto ao domingo. Mas até gosto, apesar de o serviço ser particularmente irregular, sobretudo porque há lá um empregado brasileiro particularmente desatento/desastrado que parece ter medo de mim e aproximar-se à cautela não vá eu mordê-lo (diga-se em abono da verdade que já me tem dado vontade de me armar em Rottweiler feroz com ele porque o rapaz não nasceu mesmo com jeito para aquilo).

Isto vem ao caso de eu hoje ter ido comer uma pizza ao Pizza Hut do Vasco da Gama porque me apetecia uma pizza, estava cheio de fome e queria sentar-me longe da zona comum cheia de gente e de barulho. Peço um ice tea de limão... e sai-me um de pêssego (detesto tudo o que sejam sumos de pêssego, acho enjoativos até à quinta casa). Aviso a chefe de sala, ela confirma que eu tinha pedido limão, pede-me desculpa e diz que traz já outro... e a empregada traz-me um ice tea de pêssego. O empregado que está a servir as bebidas verifica tudo e traz-me um ice tea... de pêssego. Começo a sentir-me na "Twilight Zone". Ele faz cara de caso, não percebe o que está a passar porque está a tirar limão, e eu peço-lhe para me trazer antes uma cola. Passado um bocado vem a chefe de sala pedir educadamente muitas desculpas, porque as minhas reclamações levaram-nos a verificar tudo e a ver que as mangueiras de pressão estavam trocadas e estava o ice tea de limão a sair na mangueira do de pêssego e vice-versa, e traz-me (agora sim!, pensava eu) ice tea de limão.

Este era misto de limão e pêssego, porque a mangueira ainda lá tinha um resto de pêssego. "Traga-me lá a cola se faz favor". Ao menos com a água suja do imperalismo não há por onde enganar: light ou com as calorias todas, tem sempre o mesmo sabor.

10 de outubro de 2006

EU QUERO A BRIGADA DE TRANSITO

Estou irritado com esta história da GNR estar a contemplar acabar com a Brigada de Trânsito. Acho muito bem que se peçam estudos sobre como tornar as empresas estatais (e a GNR é uma empresa estatal) mais produtivas e menos esbanjadoras, mas isto de acabarem com a Brigada de Trânsito vai direitinho às minhas memórias de infância do grande capitão Quesada, o porta-voz da Brigada de Trânsito que aparecia nos noticiários a falar da condução segura. O capitão Quesada — como o Carlos Pinto Coelho no noticiário do 2º canal, ou os concursos do Raul Solnado e do Fialho Gouveia, ou o "Tal Canal" — faz parte do meu imaginário televisivo infanto-juvenil e acho indecente que venham agora remetê-lo para o canto das teias de aranha. Não se faz.

9 de outubro de 2006

PARA QUEM GOSTA DE BRIOCHE

Só para dizer que isto (nas salas a 19 de Outubro) é bem bom. Não é outro "Lost in Translation", OK, mas também nada podia ser. E Sofia cresceu.

8 de outubro de 2006

CASPA

O meu pai sempre achou que parte da razão pela qual os champôs não faziam efeito no meu couro cabeludo naturalmente oleoso e propenso a uma escamação a que — à falta de melhor definição — chamaremos "caspa" tinha a ver com eu "fazer festas à cabeça" em vez de massajar vigorosamente o couro cabeludo como as instruções dos frascos de champôs costumam indicar.

Independentemente da energia com que eu massajo o couro cabeludo, fui testando um sem-número de champôs de uso diário sem resultados significativos: porque nunca sei qual hei exactamente de comprar, se um para cabelos oleosos se um anti-caspa, quando se calhar não é caspa que eu tenho. Mas não faço ideia porque carga d'água hei-eu de ir maçar um dermatologista com este tipo de perguntas, quando há questões muito mais prementes a resolver.

Seja como for, isto vem tudo a propósito de a minha caspa ter diminuido significativamente na sequência de ter mudado de champô e na sequência de eu agora usar o cabelo significativamente mais curto — o que é sempre mau para a minha mãe, que tem uma moralidade muito conservadora em termos de corte de cabelo e acha que o único champô que alguma vez me fez bem à caspa foi o Linic (ainda se fabrica? juro que não sei).

7 de outubro de 2006

SEIS COISAS (em resposta ao desafio da menina alice)

seis Quando gosto muito de uma canção ou de um disco, sou capaz de o pôr em "repeat" no leitor até me fartar. O que pode levar mais ou menos tempo.

cinco Já não sou capaz de ler com a velocidade e a paixão com que lia quando tinha 20 anos, e tenho pena.

quatro Às vezes tenho mais remorsos das coisas que não fiz do que das que fiz e deram para o torto, mas gostava de não me ralar tanto com isso.

três Gosto da Mafalda Veiga e não tenho problemas nenhuns com isso, porque acho que os gostos são como nós: não têm de fazer sentido para mais ninguém a não ser para nós próprios.

duas Sou hipocondríaco mas já estou melhor, muito obrigado.

uma Irritam-me os preconceitos gratuitos, apesar de eu próprio ter uns quantos contra os quais luto violentamente.

Passa a outro: lanço o desafio ao Vítor, ao Luís Miguel e ao Nuno. Poderão responsabilizar a menina Alice.

SCREAM AND RUN AWAY

Qualquer mês com um disco novo de Stephin Merritt (mesmo que não seja dos Magnetic Fields mas sim do seu "nom de ukulele" The Gothic Archies e escrito para acompanhar os livros pretensamente infantis de Lemony Snicket) é um bom mês.

6 de outubro de 2006

HOJE, NO METRO DO SALDANHA ...

...alguém assobiava o tema de Ennio Morricone para "Por um Punhado de Dólares", e uma mocinha moderna, algo rechonchuda e carnuda, tinha uma pasta de plástico transparente onde se lia, recortada em letras de jornal e aplicada na capa, a palavra "babe".

4 de outubro de 2006

A ESTRATEGIA DA ARANHA

Nesta deliciosa peça do site da BBC fala-se de aranhas exóticas por oposição à aranha inglesa. Será que uma aranha inglesa bebe chá às cinco da tarde (com uma das patas delicadamente levantada), vai ao pub beber uma jeca com os amigos ou vê futebol aos domingos? (Já pensaram numa aranha hooligan?)

3 de outubro de 2006

COISAS QUE AINDA HOJE ESCANDALIZAM A MINHA MAE

A minha mãe sempre protestou imenso quando o meu pai saía do banho e se dirigia, nuzinho em pêlo, para o quarto para se vestir, porque achava uma falta de educação e de respeito enorme. Mas, digo eu, porque é que um homem não há-de andar nu pela sua própria casa se assim o desejar? Eu até moro sozinho, nem sequer tenho ninguém que possa ficar escandalizado por eu ir nu da casa de banho para o quarto (que são apenas dois ou três passos de qualquer maneira porque são ao lado um do outro). Mas se morasse com alguém também tenho as minhas dúvidas que a cara-metade ficasse escandalizada por me ver nu. (Provavelmente seria mesmo o contrário.)

1 de outubro de 2006

RED RIGHT HAND

Isto é das melhores peças de jornalismo que li nos últimos meses. É um daqueles casos em que o jornalista é a própria história — e, no processo, diz-nos muito mais sobre nós próprios do que à partida seria de esperar.

30 de setembro de 2006

PORQUE HOJE E SABADO...

...um condutor que quer arrumar o carro em frente ao Diário de Notícias resmunga, apitando e gesticulando, com o condutor do carro da frente que também quer arrumar o carro em frente ao Diário de Notícias e está à espera que um outro condutor saia para poder arrumar com mais espaço porque tem dois lugares.

...um sem-abrigo de pele encardida e cabelo desgrenhado parece dançar no meio da rua como quem gesticula para que um condutor arrume um carro naquele lugar, só que não há ali lugar nenhum para arrumar, está tudo cheio.

...um condutor faz-me um gesto obsceno com a mão esquerda quando lhe apito simpaticamente por ele estar a conduzir entre as duas faixas de rodagem na Alexandre Herculano.

29 de setembro de 2006

ONDE SE RECUPERA O ATRASO

A ausência de posts estes últimos dias não foi falta de inspiração nem de tempo, foi mesmo dedicação a outras coisas, como por exemplo jantares com amigos (as pataniscas e o arroz de pimentos da Cristina estavam divinais), gatinhos recém-nascidos (a ninhada de Gueixa von Satori está de saúde e recomenda-se), viagens de metro (Rato-Parque das Nações e volta), livros e revistas (e ainda não acabei a Economist desta semana) e muitos discos ("Cê" de Caetano Veloso é cada vez mais um álbum incontornável, "The Eraser" de Thom Yorke uma surpresa assinalável, "Antidepressant" de Lloyd Cole continua imbatível, "Amigos em Portugal" dos Durutti Column e "From Gardens Where We Feel Secure" de Virginia Astley recordações agradáveis, "Around" de Tom Verlaine uma sedução instantânea). E, claro, o inenarrável Festival da Canção Junior 2006 da RTP (não sabem o que perderam), que uma qualquer ironia cósmica pôs a antecipar o filme de Roberto Benigni "A Vida É Bela".

26 de setembro de 2006

O PRO MEU IPOD TAO ECLECTICO #6

Primeiro, o novo álbum de Lloyd Cole, "Antidepressant" (Sanctuary, 2006) — prolongando a abordagem caseirinha lo-fi do anterior "Music in a Foreign Language", mas menos suicida (apesar de "Slip Away") e bem mais irónico. É Cole "vintage", embora um disco de manutenção mais do que de inspiração — "Antidepressant", "Everysong", "I Am Not Willing" e "Travelling Light" são clássicos instantâneos que exigem o "repeat" no leitor.

Depois, para fazer contrapeso, o surpreendente álbum em colaboração de Mark Knopfler e Emmylou Harris, "All the Roadrunning" (Mercury, 2006) — em rigor, dever-se-ia dizer que é um álbum de Knopfler com a participação especial de Harris (ele é que escreveu as canções quase todas), não fosse o encaixe das duas vozes ser tão notável e as composições (quase todas do guitarrista) fugirem, felizmente e maioritariamente, ao padrão Dire Straits para estarem muito mais próximas do universo da divina Emmylou. Knopfler parece estar muito mais à vontade aqui no que nos discos em nome próprio ou com os Straits, e "Donkey Town" e "All the Roadrunning" são jóias primorosas, mas é um disco que se vai revelando com mais e mais audições. Já estou a gostar muito.

25 de setembro de 2006

THE REAL CAT POWER

Experimentem visitar amigos cuja gata acabou de dar à luz uma ninhada. Vão ser pelo menos três horas a curtir voltar a pôr os gatinhos irrequietos no berço de onde passam a vida a saltar para explorarem as redondezas.

22 de setembro de 2006

LUFA-LUFA

Há algo de profundamente irónico em ouvir a "Ode aos Ratos" de Chico Buarque enquanto mudo de linha nos átrios da estação do Marquês de Pombal à hora de ponta da manhã.

rato de rua, irrequieta criatura
tribo em frenética proliferação
lúbrico, libidinoso transeunte
boca de estômago atrás do seu quinhão

vão aos magotes a dar com um pau levando o terror
do parking ao living, do shopping center ao léu
do cano de esgoto pró topo do arranha-céu

rato de rua, aborígene do lodo
fuça gelada, couraça de sabão
quase risonho profanador de tumba
sobrevivente à chacina e à lei do cão

saqueador da metrópole, tenaz roedor
de toda esperança estuporador da ilusão
ó meu semelhante, filho de Deus, meu irmão

rato
rato que rói a roupa
que rói a rapa do rei do morro
que rói a roda do carro
que rói o carro, que rói o ferro
que rói o barro, rói o morro
rato que rói o rato
ra-rato, ra-rato
roto que ri do roto
que rói o farrapo
do esfarra-rapado
que mete a ripa, arranca rabo
rato ruim
rato que rói a rosa
rói o riso da moça
e ruma rua arriba
em sua rota de rato


— Chico Buarque, "Ode aos Ratos" (in "Carioca", Biscoito Fino 2006)

21 de setembro de 2006

É SÓ CONSTIPAÇÃO CONSTIPAÇÃO (todos os homens são maricas quando estão com gripe, mas não gostam que se saiba)

A parte mais chata é a garganta inflamada. Durante (habitualmente) 24 horas custa-me a engolir, sinto-me quente, sou suposto beber muitos líquidos mas o raio dos líquidos custam-me a engolir, sinto a garganta a arranhar e fico geralmente irritado e mal-disposto e sem vontade de falar com ninguém nem de comer, embora até vá tendo fome.

Desta vez não foram 24 horas, foram quase 48, comecei a inquietar-me se não seria o retorno da amigdalite que me atormentou no Natal passado, e pouco disposto a passar outra vez pela experiência, fui ao médico, que me disse que não era de todo amigdalite, mas que tinha a garganta bastante inflamada.

Ao final das quase 48 e de um anti-inflamatório de acção rápido, surgiu o espirro salvador que revelava a verdade: era mesmo uma constipação. Não foi um espirro, foram mesmo dois. Na manhã seguinte acordei com o nariz irredutivelmente tapado, com uma voz de meter medo ao susto e com expectoração regular. Era oficial: estava constipado.

"Pois," disse a minha mãe, "eu não te disse para te agasalhares e teres cuidado com os ares condicionados? Mas é sempre a mesma coisa, nunca ouvem o que eu digo". Sim, está bem, beijinhos, até amanhã.

Já quase parece um ritual, a constipação de mudança de estação. Esta até apareceu antes da chuva começar a cair a sério.

20 de setembro de 2006

DON'T YOU (FORGET ABOUT ME)

Acabei de apanhar na SIC Radical a última meia-hora de um filme que não vejo desde que estreou há 20 anos: "O Clube", de John Hughes. E fiquei espantado de reconhecer ali muito da minha própria adolescência — e creio que da de muita outra gente. É engraçado como é um filme de que quase ninguém se recorda (a não ser pela canção dos Simple Minds que se tornou num êxito internacional) ou que demasiadas pessoas definem como "demasiado americano" — pareceu-me ser apenas um filme sobre como é difícil ser-se adolescente (e há casos em que essa dificuldade não nos abandona quando "crescemos"). Sei que fiquei com vontade de o ter visto do princípio. Ou, quem sabe, de arranjar o DVD.

19 de setembro de 2006

POLAROID: PEQUENO ALMOÇO

Estou sentado a ler o jornal enquanto tomo o galão e o croissant com manteiga habituais das sextas de manhã. Na mesa à frente, sentam-se duas mulheres com duas crianças: avó e mãe, produzidas em negro, e dois meninos, irmãos, um dos seus cinco anos, o outro dos nove/dez, vestidos como os miúdos de hoje andam vestidos. A avó tresanda a um perfume enjoativo no qual parece ter tomado banho; as crianças falam alto como se estivessem em sua casa.

18 de setembro de 2006

POLAROID: THE MAN WITH THE MOVIE CAMERA

O turista, alto, barbudo, cinquentão, com ar de alemão, filma atentamente o toldo e a esplanada da pastelaria A Irlandeza, na esquina da Alexandre Herculano com a avenida da Liberdade, com a sua câmara de filmar, enquanto a sua esposa/companheira/amiga entra para comer qualquer coisa. O estafeta moto, parado no sinal em frente à espera que abra, ri por trás dos óculos escuros, enquanto o turista entra na pastelaria atrás da esposa/companheira/amiga.

17 de setembro de 2006

POLAROID: QUATRO PISCAS

O Renault Scénic pára à minha frente, no meio da estrada, com os quatro piscas acesos. A família sai toda do carro enquanto o pai abre a mala, para descarregar as compras da tarde no supermercado, que ele, a mãe e os dois filhos transportam para a porta de casa. Há uma abóbora gigantesca na mala, e às tantas o pai diz à filha, que está no passeio segurando com as duas mãos um pacote de uma dúzia de ovos, "Oh Marta, obrigadinho por ajudares". "Estou a segurar nos ovos!" "Punhas no chão para ajudar a tirar as coisas!"

Uma vez descarregadas as compras, o pai volta a entrar no carro e descobre um lugar para estacionar escassos metros à frente.

16 de setembro de 2006

UM RECADO PARA AS FEMINISTAS DE TODO O MUNDO

"I don't see women as women, I see them as human beings. So I don't believe that you must encourage women particularly. Introducing the issue is like dealing with women as handicapped members of society."

— Alaa Al-Aswany, romancista egípcio, na National Geographic (edição internacional inglesa) deste mês.

15 de setembro de 2006

PERGUNTA INOCENTE

Os adolescentes não podiam vir de fábrica com um botão regulador do volume de som da voz?

14 de setembro de 2006

UM COMENTARIO AOS COMENTARIOS

Só para vos descansar relativamente aos protestos que tenho recebido quanto aos comentários — a responsabilidade das "confusões" pertencem exclusivamente ao Blogger.com e também não percebo exactamente o que se está a passar.

13 de setembro de 2006

CHUVA CHUVA CHUVINHA

É oficial, o Verão acabou.

(João e Cristina, é favor não esfregarem as mãos de contentes.)

12 de setembro de 2006

POLAROID: METRO

Um casal negro dos seus 40 anos senta-se nos lugares ao meu lado no metro: ela à minha frente, elegantemente vestida em tons de terra, discretamente descalçando um dos sapatos para descansar o pé; ele ao meu lado, levantando-se logo a seguir para verificar alguma coisa no mapa da rede, enquanto ela pega no jornal que foi deixado na cadeira e que eu próprio já tinha folheado. Na estação seguinte, uma senhora dos seus 40-50 anos, cabelo louro, vestida de negro, entra e quase se senta no lugar vazio ao lado da senhora negra à minha frente, mas desiste da ideia e senta-se em vez disso nos lugares da frente. Apanho-lhe de passagem o olhar, frio, de uma segurança paredes-meias com a soberba, como quem diz "eu? sentar-me ao pé desses pretos?". Há algo de extraordinariamente português na aparência de porteira desencantada, de "vizinha" que sabe tudo o que se passa no bairro e que tem uma opinião sobre tudo e especialmente sobre aquilo do qual não percebe nada — e, uma ou duas estações mais à frente, vejo-a a concentrar aqueles olhinhos frios no tricot que está a fazer. O casal à minha frente não se apercebeu de absolutamente nada.

11 de setembro de 2006

11 DE SETEMBRO

A propósito das teorias da conspiração que circulam, gostei de ler isto. E também gostei bastante de ler este texto da Nancy Gibbs que não tem nada a ver com teorias da conspiração e tudo a ver com o modo como olhamos hoje para o mundo.

8 de setembro de 2006

ORGULHO DE SER PORTUGUÊS

Vejo nas paragens de autocarro um anúncio para uma revista que tem o slogan "orgulho de ser português", encimando uma capa da dita cuja revista dedicada a Alberto João Jardim. A ironia tem coisas destas.

7 de setembro de 2006

Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #5

Primeiro, "Tallahassee" dos Mountain Goats (4AD, 2002), o primeiro contacto que tive com o grande John Darnielle, autor de dois dos mais extraordinários álbuns que ouvi nos últimos anos ("We Shall All Be Healed" e "The Sunset Tree"), para tentar perceber se o novo "Get Lonely" é só tropeção menor de percurso. Confirma-se, "Tallahassee" é excelente e espero que "Get Lonely" seja mesmo só tropeção menor de percurso.

Depois, parte do excelente "Ultra" dos Depeche Mode (Mute, 1997), o disco que me parece indicar melhor que "Exciter" ou "Playing the Angel" o caminho que esta encarnação em trio do grupo devia seguir para soar moderno sem deixar de soar a Depeche Mode. Mas, claro, isto sou eu que acho.

6 de setembro de 2006

A TROTINETE DOS SEGURANÇAS

Se têm ido ao Colombo nos últimos tempos, já devem ter dado que alguns dos seguranças andam a passear por lá numa geringonça com rodas um bocado estranha, uma espécie de trotinete que anda sozinha. É um Segway e foi inventado há uns anitos por Dean Kamen como uma solução ecológica para o transporte individual urbano, funcionando a corrente eléctrica e de acordo com a própria rotação e movimento do corpo de quem anda em cima dele. A verdade é que o Segway não pegou junto do grande público — mas está a encontrar um pequeno nicho junto de empresas de segurança e departamentos de polícia. Eu pensei que dificilmente iria ver um ao vivo por cá — e não é que lá andam eles a passear pelo Colombo?

5 de setembro de 2006

O INTRÉPIDO OBSERVADOR VAGUEIA POR LISBOA

Hoje, na estação do metro do Rato, entra no comboio, ao meu lado, um senhor dos seus 50 anos, cabelos grisalhos escondidos debaixo de um boné de golfe. A camisa às riscas vermelhas e as calças de fazenda não me surpreendem grandemente, nem a sandália de couro preto a deixar ver o dedão do pé. Já a "pochette" cinzenta a tiracolo com o emblema do Sport Lisboa e Benfica bordado, e o porta-chaves suspenso do cinto em forma de T-shirt com o emblema do Benfica gravado, me fazem olhar duas vezes.

O que eu não estava mesmo nada à espera era dos auscultadores nos ouvidos do senhor, que desapareciam dentro da "pochette".

4 de setembro de 2006

METRO

Apesar de usar regularmente o metropolitano, devo ser um tipo com alguma sorte, porque não costumo apanhar os atrasos e interrupções de serviço de que muitos se queixam, embora ache que cinco minutos de intervalo entre comboios em hora de ponta não seja uma boa política. Esta manhã, contudo, na estação da Praça de Espanha, o comboio ficou parado à vontade uns bons dez minutos, sem grande explicação. Só quando me levantei do banco para espreitar pela porta percebi que um passageiro se tinha sentido mal na carruagem da frente e o comboio não arrancou enquanto o passageiro — um velhote de camisa branca, bóina e calças negras e ar de completo alheamento da realidade à sua volta que tinha visto sentado na estação do Marquês de Pombal, acompanhado de um homem de meia-idade com uma bóina de comando — saiu da carruagem com a ajuda de uma das funcionárias da estação e ficou ali, sentado no banco de madeira da estação, a olhar para o comboio que acelerava em direcção à estação seguinte.

3 de setembro de 2006

VOYEUR AUDITIVO

A senhora sobe e desce a minha rua, visivelmente transtornada, ora deixando a mala em cima de um dos blocos de betão que são supostos impedir carros de arrumar, ora voltando a pô-la ao ombro, ora pegando num molho de chaves, ora arrumando o molho de chaves. "Tu não percebes," diz ela, transtornada, ao telemóvel, com a cara muito vermelha e a voz à beira do grito, "ela é minha irmã e gosto mais dela do que mim." Seja o que for de que se falava, a conversa não era claramente leviana, e senti-me como se estivesse a intrometer-me numa conversa privada — que, contudo, se estava a ter em voz alta e a bom som em plena rua, com pelo menos mais um par de pessoas ali a ouvi-la.

1 de setembro de 2006

E SE A FIFA EXPULSAR OS CLUBES PORTUGUESES DAS COMPETIÇÕES INTERNACIONAIS ISSO É...

...culpa do futebol português, que parece estar mais interessado em lutas de galos e jogos de poder do que no desporto propriamente dito. Não é um exclusivo nacional, mas às vezes parece que os clubes do futebol só existem para que os dirigentes apareçam na televisão.

31 de agosto de 2006

DESCONTEXTUALIZAR POR AÍ

Num cartaz de publicidade que anuncia um elixir para a boca, li a frase "afecções da cavidade oral" como "afeições da cavidade oral".

30 de agosto de 2006

O QUARTO PODER

Segundo a capa da Caras desta semana, Gonçalo Diniz (que este que assina confessa não fazer a mínima ideia de quem é, mas que a capa informa simpaticamente ser o ex de Elsa Raposo) diz que não gosta da mentira nem da traição. Uns metros ao lado, o 24 Horas ocupa toda a capa a revelar que Merche Romero se chamava na verdade Mercê quando por duas vezes não conseguiu ser eleita Miss Rio Maior. É por estas e por outras que a Economist diz — aqui — que é preciso os jornais reinventarem-se na era da internet.

28 de agosto de 2006

Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #4

Primeiro, Nusrat Fateh Ali Khan na sublime colaboração com Michael Brook "Night Song" (Real World/Virgin, 1996), onde as guitarras tratadas e desmultiplicadas do músico canadiano e a instrumentação moderna criam uma cama sublime para o mestre devocional paquistanês erguer a sua voz a cada vez maiores alturas de êxtase — é um daqueles álbuns para os quais a expressão "clássico moderno" foi inventada.

Depois, tempo para "picar" a banda-sonora de "Lost in Translation" (Emperor Norton, 2003), e para recordar as imaculadas miniaturas atmosféricas que Kevin "My Bloody Valentine" Shields escreveu para um dos filmes da minha vida, com destaque para os sublimes "Goodbye" (suspensão gravitacional quase Enoiana) e "Ikebana" (delicadeza dedilhada enlevada em filigranas preciosas e frágeis).

27 de agosto de 2006

CABIN FEVER

É quando se passa o dia inteiro fechado em casa com aquela sensação de não se ter nada para fazer — mas não é exactamente verdade: entre livros que se lêem, revistas que se folheiam, documentários que se vêem na televisão, discos que se ouvem, roupa que se lava, coisas que se arrumam, há realmente muito para fazer. Só que são aquelas coisas que dão sempre a impressão de "não serem nada" — e eis a sensação incontornável de vazio a tomar corpo. Mas é só um vazio metafísico, amplificado pelo gás da garrafa ter acabado e ter tido de tomar um banho rápido "à gato" antes que a água quente arrefecesse de vez, e pela impossibilidade de cozinhar comida quente e ter de me contentar com o Pizza Hut do lado.

26 de agosto de 2006

A PROPÓSITO DA SILLY SEASON

É bom saber que algumas coisas nunca mudam. No telejornal da RTP-1 de quinta-feira, 15 minutos de Benfica e Luís Filipe Vieira a abrir, seguidos de 15 minutos com o debate das salas de chuto entre médicos com abordagens diferentes ao assunto (cortei o som, mas quase aposto que só do visual dos dois médicos já dava para perceber quem estava contra e quem estava a favor). Depois, sexta e sábado, não se fala de outra coisa que não o sururu criado por esta história da Liga de Clubes, com o presidente do Gil Vicente, António Fiúza, a aparecer em tudo o que é noticiário a fazer o seu número do David que enfrenta o Golias, do Zé Povinho que sabe muito bem o que é que se passa e não se deixa comer pelas maquinações dos grandes (nem falta o sotaque regional para completar o quadro), e com as proverbiais perguntas aos adeptos. Ou seja, a solução habitual quando não há "hard news": venha lá o futebol.

25 de agosto de 2006

Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #3

"Edição Ilimitada", dos Mind Da Gap (Nortesul 2006), é tão longo (76 minutos) que ocupa por si só uma sessão inteira de exercício — o que é um problema comum à maior parte dos discos de hip-hop contemporâneos, que são como as pilhas do coelhinho (duram e duram e duram) mas nem sempre têm substância que os aguente tanto tempo. No caso dos Mind Da Gap, o problema não é falta de substância (os rapazes até a têm em demasia), é mesmo que o disco respirava bastante melhor com 10 ou 12 temas em vez dos 17 aqui incluídos — não fazia mal nenhum terem aprendido a lição com o excelente (e tão menosprezadinho que foi) álbum a solo de Serial, "Brilhantes Diamantes". No resto, contudo, "Edição Ilimitada" é prova de que o hip-hop local já não deve nada ao que vem lá de fora (a pontaria de Serial a alinhar beats de primeiríssima água é homérica). E tem, no irresistível "Tilhas? São Sapatilhas", um daqueles hits tão óbvios, tão óbvios, tão óbvios que só dá vontade de o pôr em repeat no leitor.

23 de agosto de 2006

Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #2

Primeiro, "Smile", de Brian Wilson (Nonesuch, 2004) — a verdadeira "teenage symphony to God" de que muitos falam a propósito de "Pet Sounds", mais próximo de uma qualquer música contemporânea americana que incorporasse todas as linguagens da música popular numa única (e a terminar com "Good Vibrations", ainda por cima), que só poderia ter saído de uma cabeça de génio frágil e atormentado (porque um escriturário bem-comportadinho nunca poderia escrever música desta). Nota: ir buscar o "Orange Crate Art" de Van Dyke Parks com Brian Wilson, que é uma espécie de "coda" a esta "great Cosmic American music".

Depois, "Southern Accents", de Tom Petty (MCA, 1985) — o momento em que um dos grandes cantautores do rock americano (sempre muito incompreendido por cá, valha-o Deus) quis ir mais longe e tentou sair do colete-de-forças do 4/4 mainstream. Não resultou a cem por cento, mas continua a ser um fabuloso disco (o momento em que "Don't Come Around Here No More" passa de experiência orientalizante a rockalhada sempre-a-abrir é como meter a quinta no automóvel e disparar pela auto-estrada). E o que dizer da espantosa ambiguidade de um "Southern Accents", o melhor tema que Randy Newman nunca escreveu?

22 de agosto de 2006

Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #1

Uma das coisas óptimas de ter um leitor de MP3 é poder levá-lo para o ginásio e ouvir discos enquanto se malha. É preferível ao tecno ou ao trance que costuma andar nas aparelhagens dos ginásios e dá para pôr os discos em dia, ou repescar coisas que por uma ou outra razão não ouço há muito tempo.

Ontem, primeira audição para o novo TV On The Radio, "Return to Cookie Mountain" (4AD, 2006) — confirmando que o trio de Kyp Malone, Tunde Adebimpe e David Andrew Sitek soa como se Prince estivesse hoje a fazer música depois de ter crescido numa dieta rigorosa de underground nova-iorquino, Wire e At The Drive-In. Soa a urbanos modernos a tentarem fazer sentido do "apocalypse now" e a curtir que nem uns perdidos enquanto o fazem — não entra logo, mas fica cá dentro a remoer, e tem em "Wolf Like Me" um dos singles do ano.

Para "limpar" os ouvidos, contrasto com o lindíssimo "Rocky Grounds, Big Sky" dos portugueses Unplayable Sofa Guitar (Subotnick/Bor Land, 2005), belíssimo álbum de americana-vista-da-Europa que já não ouvia há uns meses, como se Heidi Berry (e como eu gostava desta senhora) fosse a "frontwoman" de uns Walkabouts depurados com o sentido da paisagem de Ry Cooder.

A PROPÓSITO DOS TREINADORES DE BANCADA

Isto parece-me uma reflexão interessante, articulada e inteligente sobre um daqueles assuntos sobre os quais todos os portugueses têm uma opinião, mesmo quando se torna rapidamente evidente que estão a falar de cor.

21 de agosto de 2006

E OS BOLSOS, SERVEM PARA QUÊ?

O jovem executivo/bancário/vendedor (riscar o que não se aplica) entra na carruagem de metro; fato cinzento claro de tom veraneante e corte elegante, camisa da moda em azul claro de risca diagonal larga, gravata verde brilhante, cabelo com gel, óculos escuros sofisticados, só é pena os sapatos pretos engraxados não jogarem bem com a imagem de "olhem que moderno que eu sou". Isso e as quatro carteiras que transporta na mão esquerda - porta-chaves, carteira, bolsa dos óculos, bolsa do telemóvel. Como quem não quer macular a elegância usando os bolsos para a sua verdadeira função.

20 de agosto de 2006

OU COMO AS CIRCUNSTÂNCIAS INDUZEM EM ERRO

Quantas vezes é que os olhares de engate ao balcão do bar são mesmo olhares de engate e quantas é que não passam de pessoal a tentar perceber no meio da escuridão toda se já conhece, se é mesmo quem se pensa que é, ou se está só a tentar chamar a atenção do barman?

19 de agosto de 2006

OLÁ HOMEM MALVADO

De vez em quando a minha mãe tem um ataque e jura que não volta a ver "Os Sopranos" porque, segundo ela diz, "aquele Tony Soprano é um homem malvado". Sendo ele um mafioso, não estou bem a ver porque é que ela achava que ele havia de ser um santo...

16 de agosto de 2006

SINAL VERMELHO

Pelo sotaque, não consigo perceber se são africanos ou brasileiros — ele de T-shirt branca a dar a entender um torso trabalhado, cabelo rapado e barbicha aparada, ela de blusa de estampado tropical escuro largueirona, calças a mostrar as ancas. Ela insiste em querer atravessar a rua com o sinal vermelho para os peões, entre gargalhadas sonoras, saindo do passeio e dando vários passos na passadeira de peões desenhada no asfalto, ele insiste em agarrá-la pelo braço e impedi-la de ser atropelada pelos carros que passam de sinal aberto.

15 de agosto de 2006

QUEM PROCURA SEMPRE ENCONTRA

Às vezes, aquilo de que mais precisamos está no sítio onde menos esperamos. "Carros", de John Lasseter, um dos melhores filmes que vi em 2006 (e, ao fim de duas visões, ninguém me convence do contrário — façam o favor de tirar a prova dos nove, se ainda não a tiraram), não é sobre outra coisa.

when you find yourself
in some far off place
and it causes you
to rethink some things
you start to sense that slowly you're becoming someone else
and then you find yourself

when you make new friends
in a brand new town
and you start to think
about settling down
the things that would have been lost on you are now clear as a bell
and you find yourself
that's when you find yourself

when you go through life
so sure of where you're heading
and you wind up lost
and it's the best thing it could have happened
because sometimes when you lose your way
it's really just as well
because you find yourself
that's when you find yourself

when you meet the one
you've been waiting for
and she's everything
that you want and more
you look at her and you finally stop to live for someone else
and then you find yourself
that's when you find yourself

you go through life
so sure of where you're heading
and then you wind up lost
and it's the best thing could have happened
sometimes when you lose your way it's really just as well
because you find yourself
that's when you find yourself.


— Brad Paisley, "Find Yourself", para a banda-sonora de "Carros" (Walt Disney Records, 2006)

damn it, D., I miss you

14 de agosto de 2006

PEQUENA INTERRUPÇÃO PARA FAZER UMA DECLARAÇÃO IMPORTANTE

Era só para dizer que esta continua a ser a única série televisiva que continua a ser obrigatória. Os fãs das outras que me desculpem.

13 de agosto de 2006

É SÓ ROCK'N'ROLL

Vi os Rolling Stones da primeira vez que eles cá vieram ao Estádio de Alvalade; foi num domingo de Junho, dia de Marchas Populares, vim a pé do estádio para minha casa (ou quase), cheguei a casa à uma da manhã estava a minha mãe a ver o desfile das marchas na televisão, levantei-me no dia seguinte às seis para ir a Setúbal à inspecção da tropa (a parte da manhã passou sem eu dar quase por nada, tal era a pedra de sono com que eu estava, e vim-me embora no fim do dia por ter sido dispensado do serviço militar). Gostei imenso, mas como fiquei na bancada geral em frente ao palco a minha memória é de um palco muito distante.

Vi os Rolling Stones da segunda vez que eles cá vieram ao Estádio de Alvalade; foi num dia de semana não sei se de Julho se de Agosto, estava eu de férias, fui à tarde ver o "Blow-Up" do Antonioni ao King às quatro e meia, depois fui ter com uma amiga e jantámos no La Campania, na Artilharia Um, antes de irmos para o concerto. Como fiquei na bancada lateral coberta vi muito mais do concerto e gostei mais do que do outro.

Não vi os Rolling Stones da terceira vez que eles cá vieram, a Coimbra, nem agora que eles foram ao Porto. Mas vi bocadinhos do concerto do Porto na televisão e fiquei a achar que Ron Wood parece ter feito uma plástica que correu mal, Keith Richards (que continua a tocar que nem um deus) está muito mais velho do que parecia e Mick Jagger continua a ser Mick Jagger. Charlie Watts só apareceu de costas, por isso não me posso pronunciar.

Também vi os habituais comentários dos fãs, e só achei estranho haver um senhor que parecia estar em todas as entrevistas, a fazer um ar embrutecido para a câmara. Não era o célebre "emplastro", mas era como se fosse.

12 de agosto de 2006

PEQUENAS IRONIAS DAS CATALOGAÇÕES

A notícia de que o romancista alemão Günter Grass fez a tropa nas SS nazis durante a II Guerra Mundial aparece, no site da BBC News, na secção de "entretenimento".

11 de agosto de 2006

UMA VIDA INTEIRA

Thomas J. Abercrombie, fotógrafo da National Geographic.

POLAROID: SUPERMERCADO

Passa pouco das sete da tarde e, como habitual, o supermercado está a encher com as pessoas que regressam a casa do trabalho e compram alguma coisa de que se esqueceram ou que lhes faz falta para o jantar (ou, em alguns casos, compram mesmo o jantar). Das três caixas, contudo, só uma está a funcionar e rapidamente se forma uma fila que curva junto à arca dos gelados. Um senhor dos seus 60-70 anos, com uma pasta de escriturário na mão e uma embalagem de bacon na outra, mostra-se relutante em juntar-se à fila, que no entretanto ganhou uma forma retorcida, um pouco estranha. Quando chega uma funcionária para abrir uma das caixas, o senhor precipita-se para ser atendido, mas faço sinal à empregada que há gente à frente do senhor e ela apressa-se a dizer "por ordem, se fizer favor". O senhor resmunga por não poder ser atendido antes dos outros todos, "então, é pela ordem que as pessoas estavam na fila"", diz-lhe a empregada, mas ele responde "e eu sei lá onde é que está a fila, aquilo não parece uma fila".

10 de agosto de 2006

DESPERTADOR

Hoje, às oito da manhã, o despertador tocou com a TSF a falar do caos em Heathrow à conta das revelações feitas pela polícia britânica. Nada disso muda os 36 graus de calor que sufocam Lisboa durante o dia sem a bênção de uma aragem. Mas no site da BBC, fonte dos aeroportos britânicos diz que as novas regras que obrigam a (até agora) bagagem de mão a ser despachada no porão podem ter vindo para ficar. A frase é terrível: "nunca mais vamos viajar da mesma maneira". Uma internauta britânica diz que provavelmente hoje, com tanta segurança, é o dia mais seguro de sempre para viajar de avião, e no noticiário da noite uma senhora apanhada na confusão dos aeroportos ingleses diz com aquela fleuma britânica "ainda bem que estão a fazer isto tudo, porque eu quero viver". A maior parte dos entrevistados estão mais irritados com a maçada e o atraso do que verdadeiramente em pânico. Há um italiano que diz no telejornal que ficar trancado em casa não é solução, é ceder ao medo. E tem razão. Mas continuarmos a acreditar que tudo continua como antes de 11 de Setembro de 2001 também não é solução — e hoje o despertador tocou mais alto.

9 de agosto de 2006

POLAROID: CORREIOS

A senhora, dos seus 50 anos, bronzeada, entra na estação de correios, com uma saia comprida de tecido branco translúcido que parece linho e uma camisola de alças justa que apenas realça as ancas gordas e a celulite. Traz sandálias cor de cortiça, um chapéu de sol fechado debaixo do braço e uma série de folhas A4 dobradas com o logotipo da segurança social na outra mão. Não tira senha e vagueia pela sala com ar misto de furioso e maçado, e a velocidade frenética de uma mosca que sabe que tem alguma coisa que fazer depressa mas não se recorda do quê; também não procura falar com nenhum dos funcionários ao balcão, e ao fim de dois-três minutos vai-se embora, dizendo meio para si meio para os poucos clientes, numa voz insuficientemente alta, que a atendem melhor na segurança social, apesar do chinfrim.

8 de agosto de 2006

HUMOR INGLÊS DO SUL #2

Numa peça sobre a corrida governamental do estado americano do Arkansas na Economist desta semana, os "Emo kids" — adolescentes apreciadores de um estilo de rock alternativo designado por "emo" que combina música enérgica com uma exploração literária e sensível das emoções-montanha-russa em que a adolescência é prenhe — são designados como "young people afflicted with melancholia".

ESTES PUBLICITÁRIOS SÃO UNS EXAGERADOS #2

Agora que vi o anúncio televisivo da campanha do avião, das crianças e das estradas, acho que já começo a perceber melhor as reticências dos sindicatos da aviação. Continuo a achar que continua a não induzir as pessoas em erro, acho agora é que a coisa é de muito pior gosto do que parecia.

POLAROID: METRO

À minha frente, a senhora (que me recorda de uma Janice Soprano menos gorda) veste uma T-shirt azul bebé com um peixe cor-de-laranja muito Nemo e a legenda "no sushi", e tem sobre as calças de ganga uma mala de fundo azul claro decorada com quadrados em que cada quadrado tem um grande plano de um animal desenhado em estilo "cartoon" — burros, vacas, cavalos, porcos.

7 de agosto de 2006

EARTHQUAKE WEATHER

Um jantar em Long Beach, em casa do Robert, restaurador de instrumentos musicais especializado em órgãos de igreja, dedicado apreciador de Apple Macintosh e cozinheiro emérito (um ossobuco extraordinário com risotto antecedido de um magnífico folhado de cebola) culmina numa das mais extraordinárias visões que já tive, pela janela que dava para a baixa de Long Beach: uma hora non-stop de relâmpagos fluorescentes num céu nocturno acinzentado em todas as nuvens, capacete pesado e abafado de poluição, sem que uma única vez chova ou troveje.

4 de agosto de 2006

ESTES PUBLICITÁRIOS SÃO UNS EXAGERADOS

Vi hoje o tal cartaz do Ministério da Administração Interna que diz que todos os anos os acidentes de automóveis nas estradas portuguesas vitimam um avião cheio de crianças. E confesso que não percebo o bruáa que se gerou à sua volta: enquanto consumidor, percebi perfeitamente que aquele anúncio não está a dizer que andar de avião é perigoso, mas sim a informar que o número de crianças que morrem nas estradas em Portugal ao longo de um ano equivale ao número de passageiros de um avião (mas que tipo de avião? uma avioneta? um avião de passageiros comercial? um avião militar?). Não vou dizer que é do melhor gosto, mas perceberia que toda a gente se levantasse em armas por achar que é de mau gosto usar as criancinhas como argumento (como José Manuel Trigoso, da Prevenção Rodoviária Portuguesa). Agora que o meio da aviação se levante por achar que a coisa dá uma imagem negativa do viajar de avião já me parece algo exagerado. Mas pronto, também é verdade que estamos no Verão.

3 de agosto de 2006

MANTEIGA DE AMENDOIM #2

Não foi uma boa ideia deixar o boião de vidro gasto da manteiga de amendoim no lava-louça para lavar. Hoje de manhã, era um verdadeiro formigueiro. Fica esclarecido porque é que elas andavam a passear pela cozinha quando eu liguei o esquentador.

2 de agosto de 2006

HUMOR INGLÊS DO SUL

É por causa destas e doutras que eu gosto dos ingleses. Isto é o primeiro parágrafo de uma peça sobre a Vodafone na edição desta semana da Economist:

"Annual shareholders' meetings in Britain are meant to follow a comforting, if sometimes fractious, routine. Individual investors take the microphone year after year to heap scorn on the managers of their companies. Often there is name-calling. More often there are complaints about the sandwiches being served. Sometimes there are grumbles about the previous' years sandwiches. This is usually followed by a mad rush for tea, biscuits and the much-maligned sandwiches in an adjoining room."

1 de agosto de 2006

SERVIÇO DE ESTRANGEIROS E FRONTEIRAS

Quando aterro em Los Angeles, a passagem pela alfândega, com verificação do passaporte e entrega dos formulários de entrada nos EUA, entope devido à quantidade absurda de passageiros que acaba de chegar para um número de guichets que não é elástico. Um dos funcionários que está a atender a minha fila, baixinho, louro, corpulento, sai do guichet e dirige-se coloquialmente à multidão reunida, explicando que estão a fazer todos os possíveis para despachar as pessoas o mais rapidamente possível, mas o processo não pode ser acelerado e naquele momento acabam de aterrar três vôos intercontinentais, pedindo paciência e para ajudarmos ao máximo preenchendo tudo o que temos de preencher.

Apesar do funcionário repetir o aviso uma segunda vez e de despachar viajantes a um ritmo alucinante, levo 45 minutos para passar a alfândega, já que há uma quantidade de grupos excursionistas que viajam em família, são atendidos em simultâneo e atrasam o processo todo, e os outros funcionários não são tão lestos como este.

31 de julho de 2006

A CÚPULA DO PRAZER

Continua a ser um dos maiores écrãs de cinema que já vi: o Pacific Arclight Cinerama Dome em Sunset Boulevard, entre as ruas Vine e Ivar, "pedra de toque" do complexo de 14 salas Arclight no centro de Hollywood, mantém a extraordinária arquitectura de cúpula geodésica muito anos 1950 (mesmo que, entretanto, a sala tenha sido rejuvenescida e renovada). É um écrã monstruoso, construído em 1963 para o 70mm primitivo que era o Cinerama, frente a um anfiteatro circular de 900 lugares que lembra o nosso Planetário Gulbenkian. Gostava de ter lá visto um filme verdadeiramente espectacular em termos visuais — tive de me consolar com "A Scanner Darkly", de Richard Linklater, mas a experiência de ver mesmo um "pequeno filme" num écrã verdadeiramente "grande" (de 26 metros de comprimento por 10 de altura, como já não há em Lisboa) é algo que não se esquece por nada.

30 de julho de 2006

A COMIDA AMERICANA EXISTE?

É, estou seguro, uma pergunta válida. O conceito de comida americana existe no "diner": a sanduíche, o hamburger, a dose industrial, a panqueca, o pequeno-almoço. E a verdade é que os restaurantes de Los Angeles são, quase todos, restaurantes de "outras" culinárias.

Four Seasons Hotel Los Angeles at Beverly Hills (300 South Doheny Drive, Beverly Hills): lulas panadas com maionese rémoulade, salada de feijão verde, cogumelo shiitake e corações de palma e tartelete de queijo ricotta e limão.

Chin Chin Grill (8618 Sunset Boulevard, West Hollywood): massa chinesa com frango e camarão em molho de tomate e manjericão.

French Quarter (7985 Santa Monica Boulevard, West Hollywood): camarão panado ("popcorn shrimp") e "wrap" de galinha e legumes em molho pesto.

29 de julho de 2006

A CIDADE DA AUTO-ESTRADA

Quanto mais tento explicar aos amigos e à família porque estranhei tanto Los Angeles, mais compreendo que Los Angeles não é, de todo, uma cidade como nós, europeus, estamos habituados a conhecer (o que, depois de ter conhecido em São Francisco uma cidade "à europeia" construída na América, apenas sublinha como os EUA não são "um país" mas sim muitos países aglomerados).

Los Angeles é como se Lisboa não acabasse às Portas de Benfica, ao Parque das Nações, à travessia da Ponte 25 de Abril ou à entrada de Algés, mas continuasse até Cascais, até Sintra, até Almada ou Barreiro ou Alcochete, mas sem os troços de descampado, de serra ou de praia ou de verde, substituidos por uma linha constante de estradas e casas e escritórios e armazéns e lojas e centros comerciais. Los Angeles é uma espécie de enorme dormitório que se estica a perder de vista, cujas vias rápidas de cinco faixas de rodagem e entradas e saídas constantes são autênticas "veias" que a alimentam, e onde cada bairro é de tal modo perfeitamente auto-suficiente (com as suas lojas, os seus supermercados, os seus centros comerciais, os seus cinemas, os seus restaurantes) que é perfeitamente possível passar o tempo todo ali sem ter de descer à Baixa ou ao centro da cidade. Los Angeles é uma cidade que não tem alma de cidade: é uma conveniência, um sítio onde se vive e se trabalha e se passam duas horas por dia ou mais ao volante.

28 de julho de 2006

MANTEIGA DE AMENDOIM

Não sei bem explicar isto, mas estou a dar por mim fã da manteiga de amendoim. Não é sequer um fenómeno relacionado com as minhas visitas a solo americano (porque não comi manteiga de amendoim uma única vez enquanto lá estive), e nunca sequer costumava gastar da coisa por cá.

Mas, aqui há umas semanas, uma improvisação de massa chinesa com camarão implicava um molho, e por sugestão de um amigo experimentei um molho que levava manteiga de amendoim (o molho ficou bom, por sinal). Fiquei com um frasco de manteiga de amendoim pouco usado e decidi-me a experimentar a coisa em pão de forma. E não é que fiquei fã?

26 de julho de 2006

25/07/2006: AF 069, LAX 18h25 - PARIS CDG 14h00

À entrada para o voo, ouço a senhora que está a chamar que “as filas 28 a 48 podem embarcar pelas duas filas”. À esquerda (classe económica), há um engarrafamento causado por um grupo numeroso e ruidoso de adolescentes italianos; à direita (primeira classe), está tudo vazio. Tendo ouvido a senhora dizer que o embarque está aberto nas duas filas, dirijo-me à fila vazia, a segurança diz-me que “não é aqui” e eu digo-lhe que acabei de ouvir no altifalante que sim. Aparece a agente de embarque que, com muito maus modos, me diz “eu é que sei e não pode embarcar por aqui”. Não gosto que me façam passar por parvo. Volto para a fila, que entretanto engrossou.

Durante o voo, percebo que o grupo italiano, ruidoso, barulhento, numeroso, está sentado nas filas atrás de mim. São nove da noite em Los Angeles e São Francisco, cinco da manhã em Lisboa, seis em Paris e eles continuam com o gás todo, mesmo depois das luzes de cabina terem baixado e de haver gente que deu a entender que quer dormir, queixando-se até às hospedeiras. Sem resultado. Para os italianos, é como se estivessem sozinhos no avião, até nos gritinhos que lançam quando a aterragem em Paris prova ser mais turbulenta do que o esperado.

25 de julho de 2006

ELOGIO DO CROISSANT DE AMÊNDOA

Quem vos avisa, vosso amigo é: se estiverem por Los Angeles, dêem um pulo ao café e salão de chã La Conversation (638 North Doheny Drive, em Beverly Hills), e provem os bolinhos extraordinários que o Steve Carson faz. O brownie coberto com morango fresco é pecaminoso, as panquecas de abóbora servidas ao pequeno almoço são divinais, mas o croissant de amêndoa (massa folhada fresquíssima coberta com açúcar glaceado e lascas de amêndoa) é uma das mais extraordinárias tentações que já provei. Com o excelente sumo de laranja e o café aceitável, o pequeno-almoço fica pelos 15-20 dólares (12-16 euros), mas garanto que é dinheiro bem investido, porque a comida é tão boa e a dose tão generosa que dificilmente vão ter vontade de comer à hora de almoço.

24 de julho de 2006

TRANSMISSÃO AUTOMÁTICA

Em Los Angeles, não vale a pena andar à procura dos transportes públicos (apesar de existir uma rede abrangente de autocarros, e um embriónico serviço de metro). Toda a gente conduz carro, e se se quer ir a algum lado na Grande Los Angeles o carro é inevitável. Tal como os engarrafamentos nas "freeways" que cortam e rodeiam a cidade e mudam de nome a cada dezena de milhas, e as enormes estruturas de parqueamento e parques privativos de lojas que surgem a intervalos regulares.

Em Roma, sê romano, e alugamos um carro (na Enterprise, dez dias de aluguer com quilometragem ilimitada e depósito cheio à entrada de uma viatura do escalão mais barato ficam-nos por 280 dólares mais 60 dólares de gasolina - 270 euros ao todo). Como todos os carros americanos, é um carro de transmissão automática de um modelo que não existe na Europa: um Chevy Cobalt de quatro portas, definido como "compact" na tabela de preços (é o equivalente deles de um citadino como o Renault Clio ou o Seat Ibiza, só que com as dimensões de um Ford Focus ou de um VW Golf). A habituação ao sistema americano de guiar - a caixa automática dispensa a alavanca das mudanças e a necessidade de mudar manualmente a mudança, e dispensa o pedal da embraiagem, pelo que o condutor só precisa de se preocupar com o acelerador e com o travão - é rápida, embora, como o David diz entre risos, perceba à distância que eu estou sempre a levar a mão à alavanca inexistente das mudanças.

O motor do Cobalt não é a coisa mais potente que já guiei, mas o carro guia-se bem, porta-se melhor e gasta pouco aos cem (apesar da maior onda de calor em Los Angeles em anos, na base dos 40 graus para cima, exigir o ar condicionado ligado permanentemente). Quando devolvemos o carro à Enterprise, fizemos 800 milhas (1300 km) sem nunca sair da grande área metropolitana de Los Angeles, apenas a fazer a "commute" diária entre Pasadena e Beverly Hills, com duas passagens por Long Beach e a ida à Disneylândia, em Anaheim, como excepções.

23 de julho de 2006

SERRA DO CALDEIRAO

Antigamente, quando se fazia Lisboa-Algarve de carro, muito antes da auto-estrada, era quase obrigatório fazer as curvas e contra-curvas da Serra do Caldeirão. Laurel Canyon Road são duas faixas de rodagem em mau estado que serpenteiam por entre o desfiladeiro Laurel, cortadas a meio, no topo do desfiladeiro, por Mulholland Drive. A estrada, que leva 10-15 minutos a percorrer a um máximo de 20 milhas por hora, funciona como um atalho ao qual se acede por Cahuenga Boulevard no lado de Studio City (perto do complexo de estúdios da Universal - é a zona em melhor estado da rua) e por Crescent Heights no lado de West Hollywood (com uma ligação quase directa a Sunset Boulevard, mas com o asfalto completamente maltratado). São vários quilómetros de curvas e contra-curvas por entre árvores e casas que literalmente desafiam as inclinações da natureza e que projectam a imagem perfeita do Verão californiano.

692 WOODBURY ROAD

Los Angeles não é uma cidade; antes uma federação de comunidades, um aglomerado de “cities” que parece ser um único subúrbio contínuo ligado por intermináveis vias rápidas de quatro, cinco faixas de rodagem, formando a Grande Los Angeles. Pasadena é uma dessas comunidades, um subúrbio afluente que fica a 30 minutos do grande centro (se o trânsito estiver bom), que se pode percorrer por inteiro sem nunca encontrar um arranha-céus ou um prédio de muitos andares. Somos convidados numa espantosa mansão restaurada ainda em processo de redecoração no estilo da renascença espanhola e ficamos no que é aqui chamado uma “casa da sogra” junto à garagem e com acesso ao jardim: uma casa separada usada para receber hóspedes com cozinha, casa de banho, frigorífico e máquina de lavar próprias. Há muitos proprietários que alugam estas casas e quem construiu a casa devia gostar muito da sogra para lhe dar uma casa destas.

A ARTE DA FILA

A maior parte das atracções da Disneylândia implicam esperar numa fila. Mas nada daquelas confusões à antiga portuguesa de filas ao deus dará: a própria arquitectura da atracção já inclui a fila, numa série de corredores serpenteantes que procuram garantir que ninguém passa à frente de ninguém (pormenor importante: a saída fica sempre longe da entrada, para manter o “suspense” junto de quem nunca visitou a atracção e garantir que o ambiente cuidadosamente construído na fila não é quebrado por quem acaba de sair e pode contar as surpresas).

As atracções mais concorridas, em dia não, podem obrigar a uma ou duas horas de fila; nesta quinta-feira quente de Julho, o máximo que esperamos é 40 minutos, que se passam bem a observar o comportamento do americano médio, tão barrigudo como o português médio, e da sua prole enquanto esperam. Muitos deles trazem a família toda e poucos têm só uma criança.

Na fila para a Haunted Mansion (30 minutos a serpentear pelos jardins de uma mansão colonial sulista que se revelará uma espécie de casa assombrada light que percorremos num sofá rotativo montado em cima de um tapete rolante), esperamos a seguir a duas trintonas que entre si trazem três crianças, duas meninas e um rapaz, que terão os seus sete-oito anos. Nos jardins, a fila passa junto a um gradeamento elevado em cima de tijolos – praticamente não há nenhuma criança na fila que resista à tentação de subir para o gradeamento e, contra os protestos dos pais, andar em cima dele. O rapaz está irrequieto, começa por queixar-se que se calhar vai ter medo, enquanto as miúdas (primas? Irmãs?) lhe dizem que não, não mete medo nenhum. A certa altura, cansado de estar na fila, o miúdo começa a deixar-se ficar para trás; a mãe começa a perder a paciência e arrasta-o. Recebe uma chamada telefónica e começa-se a queixar do mau comportamento do filho (presume-se que ao pai). Um pouco mais à frente, o miúdo começa a dar pontapés no chão, como um touro que se prepara para a investida sobre o matador; um dos seus pontapés acerta-me na canela, a mãe, que estava distraída, ouve o meu “ai” e pede-me desculpas acabrunhadas. Finalmente, o miúdo começa a queixar-se que quer ir à casa de banho. A mãe não é de modas e decide que, pronto, já chega, não vamos à Haunted Mansion, e na primeira ocasião saí da fila.

21 de julho de 2006

PASADENA BY NIGHT

Descer a Lake Avenue no banco de tras de um descapotavel aberto a brisa de uma noite perfeita de Verao.

DISNEYLAND

A cerca de 25 milhas da baixa de Los Angeles, a Disneylândia original, que celebra este ano o 50º aniversário, anuncia-se como “the happiest place on Earth”. Por um preço: 50 dólares de entrada (para um bilhete de um dia que dá acesso apenas ao parque original, sem acesso ao mais recente parque de diversões mais radicais, Disney’s Califórnia Adventure), mais 10 dólares de estacionamento, mais o preço da comida nos restaurantes (dificilmente menos de 20-25 dólares por pessoa) e das águas e refrescos nos stands (dois dólares e meio), etc, etc, etc. Pelo direito de passar um dia inteiro no meio de uma multidão de gente vinda de todo o mundo, muita dela em excursão-rodarte familiar, dentro de uma feira popular elevada à potência 15, por baixo do calor tórrido do sol californiano, de passar meia hora em algumas filas para algumas atracções.

Mas, pelo meio de tudo isto, o “happiest place on Earth” é, mesmo, o “happiest place on Earth” porque o preço dá-nos também o direito de, nem que seja por um momento fugaz (e, neste dia passado no parque, foram muitos momentos fugazes), reencontrarmos a criança escondida dentro de nós. Quer seja nas montanhas-russas primitivas do Matterhorn Bobsleds ou da Big Thunder Mountain Railroad ou na maior sofisticação da Indiana Jones Adventure, ou na ingenuidade mal disfarçada de algumas atracções que transpiram o tempo em que foram concebidas (Mr Toad’s Wild Ride ou a Enchanted Tiki Room, velha de 40 anos e tão para lá de kitsch que já quase exige uma categoria própria para si só), há de tudo para todos na concepção sanitizada deste parque onde o mundo real fica à entrada e só volta a aparecer quando o carro sai da enorme garagem de estacionamento e regressa às auto-estradas infindáveis que correspondem à essência de Los Angeles. E nesse momento sentimos uma pequena tristeza por termos de deixar aquele parque de diversões a transbordar de gente e de calor e de dinheiro em caixa, porque a Disneylândia é um sonho em que queremos todos acreditar, mesmo depois de sabermos que é um sonho um pouco bafiento, prisioneiro de um tempo que já não existe.

20 de julho de 2006

SUBURBIA (outra vez sem acentos)

Los Angeles parece ser um longo suburbio que se prolonga ad infinitum ao longo de quilometros e quilometros, em que e preciso pelo menos meia hora de carro para se chegar a qualquer lado. Nao tenho estado ligado a rede (apenas uma vez por dia), mas nao faltam historias para contar - quando tiver um bocadinho de disponibilidade, prometo que as conto.

17 de julho de 2006

ESTRADAS PERDIDAS

Los Angeles é uma federação de bairros, uma interminável cidade de estradas com casas e lojas e centros comerciais pelo meio do asfalto ladeado por palmeiras e árvores. Los Angeles é, como diz o David, uma "cidade incorporada", composta por zonas (West Hollywood, Pasadena, Beverly Hills, Studio City, Glendale, e por aí fora) que, todas juntas, formam a "Greater Los Angeles". Mas, ao contrário de São Francisco, não se sente tanto a vivência de bairro, talvez porque o carro é aqui meio de transporte essencial - o sistema de transportes públicos é relativamente ineficiente e só os autocarros cobrem a maior parte da rede (há uma rede de metropolitano, mas não é exactamente grande) - e as pessoas não andam realmente a pé (a regra é o "valet parking", em que os restaurantes e lojas têm empregados que se encarregam de arrumar o carro do cliente em parques privativos ou públicos próximos, ou o "customer parking", pequenos parques exclusivos para os clientes nas traseiras de restaurantes ou lojas).

KLM 0601: AMS 13h15-LAX 15h15: 15/07/2006

O que é que se faz quando se têm dez horas de vôo pela frente e um espaço útil de assento de coxia apertada que não foi feito para 1m90 de altura (porque todos os espaços feitos para 1m90 de altura estão já ocupados por pessoas que também têm 1m90 de altura), ainda por cima num vôo cheio de fim de semana que parece transportar uma espécie de "excursão rodarte" de holandeses a caminho de férias em Los Angeles, com dois bebés de colo na fila da frente e dois outros na fila de trás?

Às tantas, há miúdos a correr pelos corredores acanhados, não dá sequer para os mandar bugiar para outro lado. Este Boeing 747 é de modelo bem menos moderno que o meu vôo de Londres para São Francisco em Janeiro, e as hospedeiras de bordo têm qualquer coisa de educadoras de infância, a julgar pela paciência com que brincam com os miúdos.

Por mais que tente, não dá mesmo para dormir; nem sequer consigo ter espaço para descalçar as botas e passear pelos corredores. E estes vôos transcontinentais implicam sempre uma extensão do dia da pessoa, prolongando-o para uma espécie de directa, com as ligações a obrigarem-nos a levantar cedo e a deitar tarde (é impraticável que alguém durma realmente bem na véspera de um dia passado entre aviões que nos obriga a levantar às cinco da manhã e nos atira para a cama às sete da manhã do dia seguinte no sítio de onde partimos - embora sejam apenas onze da noite em Los Angeles).

16 de julho de 2006

SCHIPHOL IN TRANSIT

Schiphol, Amesterdão, é um aeroporto extraordinariamente organizado, perfeitamente sinalizado, mesmo acolhedor (partindo do princípio que um aeroporto é um sítio acolhedor). É um mundo onde as lojas não têm uma única marca; são identificadas apenas pelos produtos que vêem (perfumes, cosméticos, electrónica, jornais e revistas, diamantes, jóias). O tapete rolante, junto à porta onde aguardo o embarque para Los Angeles, repete, todos os cinco segundos, "mind your step" - sinto-me no metro de Londres, sem o mínimo risco de me perder. Para trás, nesta manhã de sábado, duas horas e meia de vôo desde Lisboa, à minha frente dez horas e meia até Los Angeles. E, como sempre que estou em trânsito num aeroporto, pareço sentir-me fora do mundo.

15 de julho de 2006

STRESS

Somem lá, s. f. f., o calor que está (30 graus dentro de casa à uma da manhã), o incontornável stress pré-viagem (ah pois) e a necessidade de levantar cedo. Receita infalível para dormir pouco e mal.

14 de julho de 2006

O DISCO DO DESASSOSSEGO



Passar ao lado deste disco (e parece-me que anda muita gente a fazê-lo) é passar ao lado de uma das mais notáveis reinvenções sonoras dos últimos anos: 20 anos depois de "Graceland" (e a comparação nem sequer é aleatória - ouça-se "Another Galaxy" ou "Outrageous"), Paul Simon convoca Brian Eno para desenhar as "paisagens sónicas" que fazem de "Surprise" um álbum que não se revela nem à primeira, nem à segunda, nem mesmo à terceira audição da praxe. Começa por parecer um híbrido desconjuntado onde Eno se impõe a Simon, depois lentamente percebe-se como tudo faz sentido e encaixa na perfeição: "Surprise" é um álbum que traduz na sua arquitectura sonora milimetricamente descontínua o desassossego do americano moderno, um disco onde tudo faz sentido precisamente porque não o parece fazer. Simon fez o disco que quis fazer e não o poderia ter feito sem Eno: a sua poesia líquida e as suas melodias enganadoramente simples estão lá intactas. O mundo é que mudou, e o modo de elas se enquadrarem nele também. "Surprise" é uma surpresa — das boas.

(Com a mais valia de ter uma capa de primeira água, assinada por um mestre do design, o grande Chip Kidd, mais conhecido pelos seus trabalhos para livros — visíveis aqui)