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7 de outubro de 2006

SEIS COISAS (em resposta ao desafio da menina alice)

seis Quando gosto muito de uma canção ou de um disco, sou capaz de o pôr em "repeat" no leitor até me fartar. O que pode levar mais ou menos tempo.

cinco Já não sou capaz de ler com a velocidade e a paixão com que lia quando tinha 20 anos, e tenho pena.

quatro Às vezes tenho mais remorsos das coisas que não fiz do que das que fiz e deram para o torto, mas gostava de não me ralar tanto com isso.

três Gosto da Mafalda Veiga e não tenho problemas nenhuns com isso, porque acho que os gostos são como nós: não têm de fazer sentido para mais ninguém a não ser para nós próprios.

duas Sou hipocondríaco mas já estou melhor, muito obrigado.

uma Irritam-me os preconceitos gratuitos, apesar de eu próprio ter uns quantos contra os quais luto violentamente.

Passa a outro: lanço o desafio ao Vítor, ao Luís Miguel e ao Nuno. Poderão responsabilizar a menina Alice.

SCREAM AND RUN AWAY

Qualquer mês com um disco novo de Stephin Merritt (mesmo que não seja dos Magnetic Fields mas sim do seu "nom de ukulele" The Gothic Archies e escrito para acompanhar os livros pretensamente infantis de Lemony Snicket) é um bom mês.

6 de outubro de 2006

HOJE, NO METRO DO SALDANHA ...

...alguém assobiava o tema de Ennio Morricone para "Por um Punhado de Dólares", e uma mocinha moderna, algo rechonchuda e carnuda, tinha uma pasta de plástico transparente onde se lia, recortada em letras de jornal e aplicada na capa, a palavra "babe".

4 de outubro de 2006

A ESTRATEGIA DA ARANHA

Nesta deliciosa peça do site da BBC fala-se de aranhas exóticas por oposição à aranha inglesa. Será que uma aranha inglesa bebe chá às cinco da tarde (com uma das patas delicadamente levantada), vai ao pub beber uma jeca com os amigos ou vê futebol aos domingos? (Já pensaram numa aranha hooligan?)

3 de outubro de 2006

COISAS QUE AINDA HOJE ESCANDALIZAM A MINHA MAE

A minha mãe sempre protestou imenso quando o meu pai saía do banho e se dirigia, nuzinho em pêlo, para o quarto para se vestir, porque achava uma falta de educação e de respeito enorme. Mas, digo eu, porque é que um homem não há-de andar nu pela sua própria casa se assim o desejar? Eu até moro sozinho, nem sequer tenho ninguém que possa ficar escandalizado por eu ir nu da casa de banho para o quarto (que são apenas dois ou três passos de qualquer maneira porque são ao lado um do outro). Mas se morasse com alguém também tenho as minhas dúvidas que a cara-metade ficasse escandalizada por me ver nu. (Provavelmente seria mesmo o contrário.)

1 de outubro de 2006

RED RIGHT HAND

Isto é das melhores peças de jornalismo que li nos últimos meses. É um daqueles casos em que o jornalista é a própria história — e, no processo, diz-nos muito mais sobre nós próprios do que à partida seria de esperar.

30 de setembro de 2006

PORQUE HOJE E SABADO...

...um condutor que quer arrumar o carro em frente ao Diário de Notícias resmunga, apitando e gesticulando, com o condutor do carro da frente que também quer arrumar o carro em frente ao Diário de Notícias e está à espera que um outro condutor saia para poder arrumar com mais espaço porque tem dois lugares.

...um sem-abrigo de pele encardida e cabelo desgrenhado parece dançar no meio da rua como quem gesticula para que um condutor arrume um carro naquele lugar, só que não há ali lugar nenhum para arrumar, está tudo cheio.

...um condutor faz-me um gesto obsceno com a mão esquerda quando lhe apito simpaticamente por ele estar a conduzir entre as duas faixas de rodagem na Alexandre Herculano.

29 de setembro de 2006

ONDE SE RECUPERA O ATRASO

A ausência de posts estes últimos dias não foi falta de inspiração nem de tempo, foi mesmo dedicação a outras coisas, como por exemplo jantares com amigos (as pataniscas e o arroz de pimentos da Cristina estavam divinais), gatinhos recém-nascidos (a ninhada de Gueixa von Satori está de saúde e recomenda-se), viagens de metro (Rato-Parque das Nações e volta), livros e revistas (e ainda não acabei a Economist desta semana) e muitos discos ("Cê" de Caetano Veloso é cada vez mais um álbum incontornável, "The Eraser" de Thom Yorke uma surpresa assinalável, "Antidepressant" de Lloyd Cole continua imbatível, "Amigos em Portugal" dos Durutti Column e "From Gardens Where We Feel Secure" de Virginia Astley recordações agradáveis, "Around" de Tom Verlaine uma sedução instantânea). E, claro, o inenarrável Festival da Canção Junior 2006 da RTP (não sabem o que perderam), que uma qualquer ironia cósmica pôs a antecipar o filme de Roberto Benigni "A Vida É Bela".

26 de setembro de 2006

O PRO MEU IPOD TAO ECLECTICO #6

Primeiro, o novo álbum de Lloyd Cole, "Antidepressant" (Sanctuary, 2006) — prolongando a abordagem caseirinha lo-fi do anterior "Music in a Foreign Language", mas menos suicida (apesar de "Slip Away") e bem mais irónico. É Cole "vintage", embora um disco de manutenção mais do que de inspiração — "Antidepressant", "Everysong", "I Am Not Willing" e "Travelling Light" são clássicos instantâneos que exigem o "repeat" no leitor.

Depois, para fazer contrapeso, o surpreendente álbum em colaboração de Mark Knopfler e Emmylou Harris, "All the Roadrunning" (Mercury, 2006) — em rigor, dever-se-ia dizer que é um álbum de Knopfler com a participação especial de Harris (ele é que escreveu as canções quase todas), não fosse o encaixe das duas vozes ser tão notável e as composições (quase todas do guitarrista) fugirem, felizmente e maioritariamente, ao padrão Dire Straits para estarem muito mais próximas do universo da divina Emmylou. Knopfler parece estar muito mais à vontade aqui no que nos discos em nome próprio ou com os Straits, e "Donkey Town" e "All the Roadrunning" são jóias primorosas, mas é um disco que se vai revelando com mais e mais audições. Já estou a gostar muito.

25 de setembro de 2006

THE REAL CAT POWER

Experimentem visitar amigos cuja gata acabou de dar à luz uma ninhada. Vão ser pelo menos três horas a curtir voltar a pôr os gatinhos irrequietos no berço de onde passam a vida a saltar para explorarem as redondezas.

22 de setembro de 2006

LUFA-LUFA

Há algo de profundamente irónico em ouvir a "Ode aos Ratos" de Chico Buarque enquanto mudo de linha nos átrios da estação do Marquês de Pombal à hora de ponta da manhã.

rato de rua, irrequieta criatura
tribo em frenética proliferação
lúbrico, libidinoso transeunte
boca de estômago atrás do seu quinhão

vão aos magotes a dar com um pau levando o terror
do parking ao living, do shopping center ao léu
do cano de esgoto pró topo do arranha-céu

rato de rua, aborígene do lodo
fuça gelada, couraça de sabão
quase risonho profanador de tumba
sobrevivente à chacina e à lei do cão

saqueador da metrópole, tenaz roedor
de toda esperança estuporador da ilusão
ó meu semelhante, filho de Deus, meu irmão

rato
rato que rói a roupa
que rói a rapa do rei do morro
que rói a roda do carro
que rói o carro, que rói o ferro
que rói o barro, rói o morro
rato que rói o rato
ra-rato, ra-rato
roto que ri do roto
que rói o farrapo
do esfarra-rapado
que mete a ripa, arranca rabo
rato ruim
rato que rói a rosa
rói o riso da moça
e ruma rua arriba
em sua rota de rato


— Chico Buarque, "Ode aos Ratos" (in "Carioca", Biscoito Fino 2006)

21 de setembro de 2006

É SÓ CONSTIPAÇÃO CONSTIPAÇÃO (todos os homens são maricas quando estão com gripe, mas não gostam que se saiba)

A parte mais chata é a garganta inflamada. Durante (habitualmente) 24 horas custa-me a engolir, sinto-me quente, sou suposto beber muitos líquidos mas o raio dos líquidos custam-me a engolir, sinto a garganta a arranhar e fico geralmente irritado e mal-disposto e sem vontade de falar com ninguém nem de comer, embora até vá tendo fome.

Desta vez não foram 24 horas, foram quase 48, comecei a inquietar-me se não seria o retorno da amigdalite que me atormentou no Natal passado, e pouco disposto a passar outra vez pela experiência, fui ao médico, que me disse que não era de todo amigdalite, mas que tinha a garganta bastante inflamada.

Ao final das quase 48 e de um anti-inflamatório de acção rápido, surgiu o espirro salvador que revelava a verdade: era mesmo uma constipação. Não foi um espirro, foram mesmo dois. Na manhã seguinte acordei com o nariz irredutivelmente tapado, com uma voz de meter medo ao susto e com expectoração regular. Era oficial: estava constipado.

"Pois," disse a minha mãe, "eu não te disse para te agasalhares e teres cuidado com os ares condicionados? Mas é sempre a mesma coisa, nunca ouvem o que eu digo". Sim, está bem, beijinhos, até amanhã.

Já quase parece um ritual, a constipação de mudança de estação. Esta até apareceu antes da chuva começar a cair a sério.

20 de setembro de 2006

DON'T YOU (FORGET ABOUT ME)

Acabei de apanhar na SIC Radical a última meia-hora de um filme que não vejo desde que estreou há 20 anos: "O Clube", de John Hughes. E fiquei espantado de reconhecer ali muito da minha própria adolescência — e creio que da de muita outra gente. É engraçado como é um filme de que quase ninguém se recorda (a não ser pela canção dos Simple Minds que se tornou num êxito internacional) ou que demasiadas pessoas definem como "demasiado americano" — pareceu-me ser apenas um filme sobre como é difícil ser-se adolescente (e há casos em que essa dificuldade não nos abandona quando "crescemos"). Sei que fiquei com vontade de o ter visto do princípio. Ou, quem sabe, de arranjar o DVD.

19 de setembro de 2006

POLAROID: PEQUENO ALMOÇO

Estou sentado a ler o jornal enquanto tomo o galão e o croissant com manteiga habituais das sextas de manhã. Na mesa à frente, sentam-se duas mulheres com duas crianças: avó e mãe, produzidas em negro, e dois meninos, irmãos, um dos seus cinco anos, o outro dos nove/dez, vestidos como os miúdos de hoje andam vestidos. A avó tresanda a um perfume enjoativo no qual parece ter tomado banho; as crianças falam alto como se estivessem em sua casa.

18 de setembro de 2006

POLAROID: THE MAN WITH THE MOVIE CAMERA

O turista, alto, barbudo, cinquentão, com ar de alemão, filma atentamente o toldo e a esplanada da pastelaria A Irlandeza, na esquina da Alexandre Herculano com a avenida da Liberdade, com a sua câmara de filmar, enquanto a sua esposa/companheira/amiga entra para comer qualquer coisa. O estafeta moto, parado no sinal em frente à espera que abra, ri por trás dos óculos escuros, enquanto o turista entra na pastelaria atrás da esposa/companheira/amiga.

17 de setembro de 2006

POLAROID: QUATRO PISCAS

O Renault Scénic pára à minha frente, no meio da estrada, com os quatro piscas acesos. A família sai toda do carro enquanto o pai abre a mala, para descarregar as compras da tarde no supermercado, que ele, a mãe e os dois filhos transportam para a porta de casa. Há uma abóbora gigantesca na mala, e às tantas o pai diz à filha, que está no passeio segurando com as duas mãos um pacote de uma dúzia de ovos, "Oh Marta, obrigadinho por ajudares". "Estou a segurar nos ovos!" "Punhas no chão para ajudar a tirar as coisas!"

Uma vez descarregadas as compras, o pai volta a entrar no carro e descobre um lugar para estacionar escassos metros à frente.

16 de setembro de 2006

UM RECADO PARA AS FEMINISTAS DE TODO O MUNDO

"I don't see women as women, I see them as human beings. So I don't believe that you must encourage women particularly. Introducing the issue is like dealing with women as handicapped members of society."

— Alaa Al-Aswany, romancista egípcio, na National Geographic (edição internacional inglesa) deste mês.

15 de setembro de 2006

PERGUNTA INOCENTE

Os adolescentes não podiam vir de fábrica com um botão regulador do volume de som da voz?

14 de setembro de 2006

UM COMENTARIO AOS COMENTARIOS

Só para vos descansar relativamente aos protestos que tenho recebido quanto aos comentários — a responsabilidade das "confusões" pertencem exclusivamente ao Blogger.com e também não percebo exactamente o que se está a passar.

13 de setembro de 2006

CHUVA CHUVA CHUVINHA

É oficial, o Verão acabou.

(João e Cristina, é favor não esfregarem as mãos de contentes.)