Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
14 de setembro de 2006
UM COMENTARIO AOS COMENTARIOS
Só para vos descansar relativamente aos protestos que tenho recebido quanto aos comentários — a responsabilidade das "confusões" pertencem exclusivamente ao Blogger.com e também não percebo exactamente o que se está a passar.
13 de setembro de 2006
CHUVA CHUVA CHUVINHA
É oficial, o Verão acabou.
(João e Cristina, é favor não esfregarem as mãos de contentes.)
(João e Cristina, é favor não esfregarem as mãos de contentes.)
12 de setembro de 2006
POLAROID: METRO
Um casal negro dos seus 40 anos senta-se nos lugares ao meu lado no metro: ela à minha frente, elegantemente vestida em tons de terra, discretamente descalçando um dos sapatos para descansar o pé; ele ao meu lado, levantando-se logo a seguir para verificar alguma coisa no mapa da rede, enquanto ela pega no jornal que foi deixado na cadeira e que eu próprio já tinha folheado. Na estação seguinte, uma senhora dos seus 40-50 anos, cabelo louro, vestida de negro, entra e quase se senta no lugar vazio ao lado da senhora negra à minha frente, mas desiste da ideia e senta-se em vez disso nos lugares da frente. Apanho-lhe de passagem o olhar, frio, de uma segurança paredes-meias com a soberba, como quem diz "eu? sentar-me ao pé desses pretos?". Há algo de extraordinariamente português na aparência de porteira desencantada, de "vizinha" que sabe tudo o que se passa no bairro e que tem uma opinião sobre tudo e especialmente sobre aquilo do qual não percebe nada — e, uma ou duas estações mais à frente, vejo-a a concentrar aqueles olhinhos frios no tricot que está a fazer. O casal à minha frente não se apercebeu de absolutamente nada.
11 de setembro de 2006
11 DE SETEMBRO
A propósito das teorias da conspiração que circulam, gostei de ler isto. E também gostei bastante de ler este texto da Nancy Gibbs que não tem nada a ver com teorias da conspiração e tudo a ver com o modo como olhamos hoje para o mundo.
8 de setembro de 2006
ORGULHO DE SER PORTUGUÊS
Vejo nas paragens de autocarro um anúncio para uma revista que tem o slogan "orgulho de ser português", encimando uma capa da dita cuja revista dedicada a Alberto João Jardim. A ironia tem coisas destas.
7 de setembro de 2006
Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #5
Primeiro, "Tallahassee" dos Mountain Goats (4AD, 2002), o primeiro contacto que tive com o grande John Darnielle, autor de dois dos mais extraordinários álbuns que ouvi nos últimos anos ("We Shall All Be Healed" e "The Sunset Tree"), para tentar perceber se o novo "Get Lonely" é só tropeção menor de percurso. Confirma-se, "Tallahassee" é excelente e espero que "Get Lonely" seja mesmo só tropeção menor de percurso.
Depois, parte do excelente "Ultra" dos Depeche Mode (Mute, 1997), o disco que me parece indicar melhor que "Exciter" ou "Playing the Angel" o caminho que esta encarnação em trio do grupo devia seguir para soar moderno sem deixar de soar a Depeche Mode. Mas, claro, isto sou eu que acho.
Depois, parte do excelente "Ultra" dos Depeche Mode (Mute, 1997), o disco que me parece indicar melhor que "Exciter" ou "Playing the Angel" o caminho que esta encarnação em trio do grupo devia seguir para soar moderno sem deixar de soar a Depeche Mode. Mas, claro, isto sou eu que acho.
6 de setembro de 2006
A TROTINETE DOS SEGURANÇAS
Se têm ido ao Colombo nos últimos tempos, já devem ter dado que alguns dos seguranças andam a passear por lá numa geringonça com rodas um bocado estranha, uma espécie de trotinete que anda sozinha. É um Segway e foi inventado há uns anitos por Dean Kamen como uma solução ecológica para o transporte individual urbano, funcionando a corrente eléctrica e de acordo com a própria rotação e movimento do corpo de quem anda em cima dele. A verdade é que o Segway não pegou junto do grande público — mas está a encontrar um pequeno nicho junto de empresas de segurança e departamentos de polícia. Eu pensei que dificilmente iria ver um ao vivo por cá — e não é que lá andam eles a passear pelo Colombo?
5 de setembro de 2006
O INTRÉPIDO OBSERVADOR VAGUEIA POR LISBOA
Hoje, na estação do metro do Rato, entra no comboio, ao meu lado, um senhor dos seus 50 anos, cabelos grisalhos escondidos debaixo de um boné de golfe. A camisa às riscas vermelhas e as calças de fazenda não me surpreendem grandemente, nem a sandália de couro preto a deixar ver o dedão do pé. Já a "pochette" cinzenta a tiracolo com o emblema do Sport Lisboa e Benfica bordado, e o porta-chaves suspenso do cinto em forma de T-shirt com o emblema do Benfica gravado, me fazem olhar duas vezes.
O que eu não estava mesmo nada à espera era dos auscultadores nos ouvidos do senhor, que desapareciam dentro da "pochette".
O que eu não estava mesmo nada à espera era dos auscultadores nos ouvidos do senhor, que desapareciam dentro da "pochette".
4 de setembro de 2006
METRO
Apesar de usar regularmente o metropolitano, devo ser um tipo com alguma sorte, porque não costumo apanhar os atrasos e interrupções de serviço de que muitos se queixam, embora ache que cinco minutos de intervalo entre comboios em hora de ponta não seja uma boa política. Esta manhã, contudo, na estação da Praça de Espanha, o comboio ficou parado à vontade uns bons dez minutos, sem grande explicação. Só quando me levantei do banco para espreitar pela porta percebi que um passageiro se tinha sentido mal na carruagem da frente e o comboio não arrancou enquanto o passageiro — um velhote de camisa branca, bóina e calças negras e ar de completo alheamento da realidade à sua volta que tinha visto sentado na estação do Marquês de Pombal, acompanhado de um homem de meia-idade com uma bóina de comando — saiu da carruagem com a ajuda de uma das funcionárias da estação e ficou ali, sentado no banco de madeira da estação, a olhar para o comboio que acelerava em direcção à estação seguinte.
3 de setembro de 2006
VOYEUR AUDITIVO
A senhora sobe e desce a minha rua, visivelmente transtornada, ora deixando a mala em cima de um dos blocos de betão que são supostos impedir carros de arrumar, ora voltando a pô-la ao ombro, ora pegando num molho de chaves, ora arrumando o molho de chaves. "Tu não percebes," diz ela, transtornada, ao telemóvel, com a cara muito vermelha e a voz à beira do grito, "ela é minha irmã e gosto mais dela do que mim." Seja o que for de que se falava, a conversa não era claramente leviana, e senti-me como se estivesse a intrometer-me numa conversa privada — que, contudo, se estava a ter em voz alta e a bom som em plena rua, com pelo menos mais um par de pessoas ali a ouvi-la.
1 de setembro de 2006
E SE A FIFA EXPULSAR OS CLUBES PORTUGUESES DAS COMPETIÇÕES INTERNACIONAIS ISSO É...
...culpa do futebol português, que parece estar mais interessado em lutas de galos e jogos de poder do que no desporto propriamente dito. Não é um exclusivo nacional, mas às vezes parece que os clubes do futebol só existem para que os dirigentes apareçam na televisão.
31 de agosto de 2006
DESCONTEXTUALIZAR POR AÍ
Num cartaz de publicidade que anuncia um elixir para a boca, li a frase "afecções da cavidade oral" como "afeições da cavidade oral".
30 de agosto de 2006
O QUARTO PODER
Segundo a capa da Caras desta semana, Gonçalo Diniz (que este que assina confessa não fazer a mínima ideia de quem é, mas que a capa informa simpaticamente ser o ex de Elsa Raposo) diz que não gosta da mentira nem da traição. Uns metros ao lado, o 24 Horas ocupa toda a capa a revelar que Merche Romero se chamava na verdade Mercê quando por duas vezes não conseguiu ser eleita Miss Rio Maior. É por estas e por outras que a Economist diz — aqui — que é preciso os jornais reinventarem-se na era da internet.
28 de agosto de 2006
Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #4
Primeiro, Nusrat Fateh Ali Khan na sublime colaboração com Michael Brook "Night Song" (Real World/Virgin, 1996), onde as guitarras tratadas e desmultiplicadas do músico canadiano e a instrumentação moderna criam uma cama sublime para o mestre devocional paquistanês erguer a sua voz a cada vez maiores alturas de êxtase — é um daqueles álbuns para os quais a expressão "clássico moderno" foi inventada.
Depois, tempo para "picar" a banda-sonora de "Lost in Translation" (Emperor Norton, 2003), e para recordar as imaculadas miniaturas atmosféricas que Kevin "My Bloody Valentine" Shields escreveu para um dos filmes da minha vida, com destaque para os sublimes "Goodbye" (suspensão gravitacional quase Enoiana) e "Ikebana" (delicadeza dedilhada enlevada em filigranas preciosas e frágeis).
Depois, tempo para "picar" a banda-sonora de "Lost in Translation" (Emperor Norton, 2003), e para recordar as imaculadas miniaturas atmosféricas que Kevin "My Bloody Valentine" Shields escreveu para um dos filmes da minha vida, com destaque para os sublimes "Goodbye" (suspensão gravitacional quase Enoiana) e "Ikebana" (delicadeza dedilhada enlevada em filigranas preciosas e frágeis).
27 de agosto de 2006
CABIN FEVER
É quando se passa o dia inteiro fechado em casa com aquela sensação de não se ter nada para fazer — mas não é exactamente verdade: entre livros que se lêem, revistas que se folheiam, documentários que se vêem na televisão, discos que se ouvem, roupa que se lava, coisas que se arrumam, há realmente muito para fazer. Só que são aquelas coisas que dão sempre a impressão de "não serem nada" — e eis a sensação incontornável de vazio a tomar corpo. Mas é só um vazio metafísico, amplificado pelo gás da garrafa ter acabado e ter tido de tomar um banho rápido "à gato" antes que a água quente arrefecesse de vez, e pela impossibilidade de cozinhar comida quente e ter de me contentar com o Pizza Hut do lado.
26 de agosto de 2006
A PROPÓSITO DA SILLY SEASON
É bom saber que algumas coisas nunca mudam. No telejornal da RTP-1 de quinta-feira, 15 minutos de Benfica e Luís Filipe Vieira a abrir, seguidos de 15 minutos com o debate das salas de chuto entre médicos com abordagens diferentes ao assunto (cortei o som, mas quase aposto que só do visual dos dois médicos já dava para perceber quem estava contra e quem estava a favor). Depois, sexta e sábado, não se fala de outra coisa que não o sururu criado por esta história da Liga de Clubes, com o presidente do Gil Vicente, António Fiúza, a aparecer em tudo o que é noticiário a fazer o seu número do David que enfrenta o Golias, do Zé Povinho que sabe muito bem o que é que se passa e não se deixa comer pelas maquinações dos grandes (nem falta o sotaque regional para completar o quadro), e com as proverbiais perguntas aos adeptos. Ou seja, a solução habitual quando não há "hard news": venha lá o futebol.
25 de agosto de 2006
Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #3
"Edição Ilimitada", dos Mind Da Gap (Nortesul 2006), é tão longo (76 minutos) que ocupa por si só uma sessão inteira de exercício — o que é um problema comum à maior parte dos discos de hip-hop contemporâneos, que são como as pilhas do coelhinho (duram e duram e duram) mas nem sempre têm substância que os aguente tanto tempo. No caso dos Mind Da Gap, o problema não é falta de substância (os rapazes até a têm em demasia), é mesmo que o disco respirava bastante melhor com 10 ou 12 temas em vez dos 17 aqui incluídos — não fazia mal nenhum terem aprendido a lição com o excelente (e tão menosprezadinho que foi) álbum a solo de Serial, "Brilhantes Diamantes". No resto, contudo, "Edição Ilimitada" é prova de que o hip-hop local já não deve nada ao que vem lá de fora (a pontaria de Serial a alinhar beats de primeiríssima água é homérica). E tem, no irresistível "Tilhas? São Sapatilhas", um daqueles hits tão óbvios, tão óbvios, tão óbvios que só dá vontade de o pôr em repeat no leitor.
23 de agosto de 2006
Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #2
Primeiro, "Smile", de Brian Wilson (Nonesuch, 2004) — a verdadeira "teenage symphony to God" de que muitos falam a propósito de "Pet Sounds", mais próximo de uma qualquer música contemporânea americana que incorporasse todas as linguagens da música popular numa única (e a terminar com "Good Vibrations", ainda por cima), que só poderia ter saído de uma cabeça de génio frágil e atormentado (porque um escriturário bem-comportadinho nunca poderia escrever música desta). Nota: ir buscar o "Orange Crate Art" de Van Dyke Parks com Brian Wilson, que é uma espécie de "coda" a esta "great Cosmic American music".
Depois, "Southern Accents", de Tom Petty (MCA, 1985) — o momento em que um dos grandes cantautores do rock americano (sempre muito incompreendido por cá, valha-o Deus) quis ir mais longe e tentou sair do colete-de-forças do 4/4 mainstream. Não resultou a cem por cento, mas continua a ser um fabuloso disco (o momento em que "Don't Come Around Here No More" passa de experiência orientalizante a rockalhada sempre-a-abrir é como meter a quinta no automóvel e disparar pela auto-estrada). E o que dizer da espantosa ambiguidade de um "Southern Accents", o melhor tema que Randy Newman nunca escreveu?
Depois, "Southern Accents", de Tom Petty (MCA, 1985) — o momento em que um dos grandes cantautores do rock americano (sempre muito incompreendido por cá, valha-o Deus) quis ir mais longe e tentou sair do colete-de-forças do 4/4 mainstream. Não resultou a cem por cento, mas continua a ser um fabuloso disco (o momento em que "Don't Come Around Here No More" passa de experiência orientalizante a rockalhada sempre-a-abrir é como meter a quinta no automóvel e disparar pela auto-estrada). E o que dizer da espantosa ambiguidade de um "Southern Accents", o melhor tema que Randy Newman nunca escreveu?
22 de agosto de 2006
Ó PRÓ MEU IPOD TÃO ECLÉCTICO #1
Uma das coisas óptimas de ter um leitor de MP3 é poder levá-lo para o ginásio e ouvir discos enquanto se malha. É preferível ao tecno ou ao trance que costuma andar nas aparelhagens dos ginásios e dá para pôr os discos em dia, ou repescar coisas que por uma ou outra razão não ouço há muito tempo.
Ontem, primeira audição para o novo TV On The Radio, "Return to Cookie Mountain" (4AD, 2006) — confirmando que o trio de Kyp Malone, Tunde Adebimpe e David Andrew Sitek soa como se Prince estivesse hoje a fazer música depois de ter crescido numa dieta rigorosa de underground nova-iorquino, Wire e At The Drive-In. Soa a urbanos modernos a tentarem fazer sentido do "apocalypse now" e a curtir que nem uns perdidos enquanto o fazem — não entra logo, mas fica cá dentro a remoer, e tem em "Wolf Like Me" um dos singles do ano.
Para "limpar" os ouvidos, contrasto com o lindíssimo "Rocky Grounds, Big Sky" dos portugueses Unplayable Sofa Guitar (Subotnick/Bor Land, 2005), belíssimo álbum de americana-vista-da-Europa que já não ouvia há uns meses, como se Heidi Berry (e como eu gostava desta senhora) fosse a "frontwoman" de uns Walkabouts depurados com o sentido da paisagem de Ry Cooder.
Ontem, primeira audição para o novo TV On The Radio, "Return to Cookie Mountain" (4AD, 2006) — confirmando que o trio de Kyp Malone, Tunde Adebimpe e David Andrew Sitek soa como se Prince estivesse hoje a fazer música depois de ter crescido numa dieta rigorosa de underground nova-iorquino, Wire e At The Drive-In. Soa a urbanos modernos a tentarem fazer sentido do "apocalypse now" e a curtir que nem uns perdidos enquanto o fazem — não entra logo, mas fica cá dentro a remoer, e tem em "Wolf Like Me" um dos singles do ano.
Para "limpar" os ouvidos, contrasto com o lindíssimo "Rocky Grounds, Big Sky" dos portugueses Unplayable Sofa Guitar (Subotnick/Bor Land, 2005), belíssimo álbum de americana-vista-da-Europa que já não ouvia há uns meses, como se Heidi Berry (e como eu gostava desta senhora) fosse a "frontwoman" de uns Walkabouts depurados com o sentido da paisagem de Ry Cooder.
A PROPÓSITO DOS TREINADORES DE BANCADA
Isto parece-me uma reflexão interessante, articulada e inteligente sobre um daqueles assuntos sobre os quais todos os portugueses têm uma opinião, mesmo quando se torna rapidamente evidente que estão a falar de cor.
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