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11 de agosto de 2006

UMA VIDA INTEIRA

Thomas J. Abercrombie, fotógrafo da National Geographic.

POLAROID: SUPERMERCADO

Passa pouco das sete da tarde e, como habitual, o supermercado está a encher com as pessoas que regressam a casa do trabalho e compram alguma coisa de que se esqueceram ou que lhes faz falta para o jantar (ou, em alguns casos, compram mesmo o jantar). Das três caixas, contudo, só uma está a funcionar e rapidamente se forma uma fila que curva junto à arca dos gelados. Um senhor dos seus 60-70 anos, com uma pasta de escriturário na mão e uma embalagem de bacon na outra, mostra-se relutante em juntar-se à fila, que no entretanto ganhou uma forma retorcida, um pouco estranha. Quando chega uma funcionária para abrir uma das caixas, o senhor precipita-se para ser atendido, mas faço sinal à empregada que há gente à frente do senhor e ela apressa-se a dizer "por ordem, se fizer favor". O senhor resmunga por não poder ser atendido antes dos outros todos, "então, é pela ordem que as pessoas estavam na fila"", diz-lhe a empregada, mas ele responde "e eu sei lá onde é que está a fila, aquilo não parece uma fila".

10 de agosto de 2006

DESPERTADOR

Hoje, às oito da manhã, o despertador tocou com a TSF a falar do caos em Heathrow à conta das revelações feitas pela polícia britânica. Nada disso muda os 36 graus de calor que sufocam Lisboa durante o dia sem a bênção de uma aragem. Mas no site da BBC, fonte dos aeroportos britânicos diz que as novas regras que obrigam a (até agora) bagagem de mão a ser despachada no porão podem ter vindo para ficar. A frase é terrível: "nunca mais vamos viajar da mesma maneira". Uma internauta britânica diz que provavelmente hoje, com tanta segurança, é o dia mais seguro de sempre para viajar de avião, e no noticiário da noite uma senhora apanhada na confusão dos aeroportos ingleses diz com aquela fleuma britânica "ainda bem que estão a fazer isto tudo, porque eu quero viver". A maior parte dos entrevistados estão mais irritados com a maçada e o atraso do que verdadeiramente em pânico. Há um italiano que diz no telejornal que ficar trancado em casa não é solução, é ceder ao medo. E tem razão. Mas continuarmos a acreditar que tudo continua como antes de 11 de Setembro de 2001 também não é solução — e hoje o despertador tocou mais alto.

9 de agosto de 2006

POLAROID: CORREIOS

A senhora, dos seus 50 anos, bronzeada, entra na estação de correios, com uma saia comprida de tecido branco translúcido que parece linho e uma camisola de alças justa que apenas realça as ancas gordas e a celulite. Traz sandálias cor de cortiça, um chapéu de sol fechado debaixo do braço e uma série de folhas A4 dobradas com o logotipo da segurança social na outra mão. Não tira senha e vagueia pela sala com ar misto de furioso e maçado, e a velocidade frenética de uma mosca que sabe que tem alguma coisa que fazer depressa mas não se recorda do quê; também não procura falar com nenhum dos funcionários ao balcão, e ao fim de dois-três minutos vai-se embora, dizendo meio para si meio para os poucos clientes, numa voz insuficientemente alta, que a atendem melhor na segurança social, apesar do chinfrim.

8 de agosto de 2006

HUMOR INGLÊS DO SUL #2

Numa peça sobre a corrida governamental do estado americano do Arkansas na Economist desta semana, os "Emo kids" — adolescentes apreciadores de um estilo de rock alternativo designado por "emo" que combina música enérgica com uma exploração literária e sensível das emoções-montanha-russa em que a adolescência é prenhe — são designados como "young people afflicted with melancholia".

ESTES PUBLICITÁRIOS SÃO UNS EXAGERADOS #2

Agora que vi o anúncio televisivo da campanha do avião, das crianças e das estradas, acho que já começo a perceber melhor as reticências dos sindicatos da aviação. Continuo a achar que continua a não induzir as pessoas em erro, acho agora é que a coisa é de muito pior gosto do que parecia.

POLAROID: METRO

À minha frente, a senhora (que me recorda de uma Janice Soprano menos gorda) veste uma T-shirt azul bebé com um peixe cor-de-laranja muito Nemo e a legenda "no sushi", e tem sobre as calças de ganga uma mala de fundo azul claro decorada com quadrados em que cada quadrado tem um grande plano de um animal desenhado em estilo "cartoon" — burros, vacas, cavalos, porcos.

7 de agosto de 2006

EARTHQUAKE WEATHER

Um jantar em Long Beach, em casa do Robert, restaurador de instrumentos musicais especializado em órgãos de igreja, dedicado apreciador de Apple Macintosh e cozinheiro emérito (um ossobuco extraordinário com risotto antecedido de um magnífico folhado de cebola) culmina numa das mais extraordinárias visões que já tive, pela janela que dava para a baixa de Long Beach: uma hora non-stop de relâmpagos fluorescentes num céu nocturno acinzentado em todas as nuvens, capacete pesado e abafado de poluição, sem que uma única vez chova ou troveje.

4 de agosto de 2006

ESTES PUBLICITÁRIOS SÃO UNS EXAGERADOS

Vi hoje o tal cartaz do Ministério da Administração Interna que diz que todos os anos os acidentes de automóveis nas estradas portuguesas vitimam um avião cheio de crianças. E confesso que não percebo o bruáa que se gerou à sua volta: enquanto consumidor, percebi perfeitamente que aquele anúncio não está a dizer que andar de avião é perigoso, mas sim a informar que o número de crianças que morrem nas estradas em Portugal ao longo de um ano equivale ao número de passageiros de um avião (mas que tipo de avião? uma avioneta? um avião de passageiros comercial? um avião militar?). Não vou dizer que é do melhor gosto, mas perceberia que toda a gente se levantasse em armas por achar que é de mau gosto usar as criancinhas como argumento (como José Manuel Trigoso, da Prevenção Rodoviária Portuguesa). Agora que o meio da aviação se levante por achar que a coisa dá uma imagem negativa do viajar de avião já me parece algo exagerado. Mas pronto, também é verdade que estamos no Verão.

3 de agosto de 2006

MANTEIGA DE AMENDOIM #2

Não foi uma boa ideia deixar o boião de vidro gasto da manteiga de amendoim no lava-louça para lavar. Hoje de manhã, era um verdadeiro formigueiro. Fica esclarecido porque é que elas andavam a passear pela cozinha quando eu liguei o esquentador.

2 de agosto de 2006

HUMOR INGLÊS DO SUL

É por causa destas e doutras que eu gosto dos ingleses. Isto é o primeiro parágrafo de uma peça sobre a Vodafone na edição desta semana da Economist:

"Annual shareholders' meetings in Britain are meant to follow a comforting, if sometimes fractious, routine. Individual investors take the microphone year after year to heap scorn on the managers of their companies. Often there is name-calling. More often there are complaints about the sandwiches being served. Sometimes there are grumbles about the previous' years sandwiches. This is usually followed by a mad rush for tea, biscuits and the much-maligned sandwiches in an adjoining room."

1 de agosto de 2006

SERVIÇO DE ESTRANGEIROS E FRONTEIRAS

Quando aterro em Los Angeles, a passagem pela alfândega, com verificação do passaporte e entrega dos formulários de entrada nos EUA, entope devido à quantidade absurda de passageiros que acaba de chegar para um número de guichets que não é elástico. Um dos funcionários que está a atender a minha fila, baixinho, louro, corpulento, sai do guichet e dirige-se coloquialmente à multidão reunida, explicando que estão a fazer todos os possíveis para despachar as pessoas o mais rapidamente possível, mas o processo não pode ser acelerado e naquele momento acabam de aterrar três vôos intercontinentais, pedindo paciência e para ajudarmos ao máximo preenchendo tudo o que temos de preencher.

Apesar do funcionário repetir o aviso uma segunda vez e de despachar viajantes a um ritmo alucinante, levo 45 minutos para passar a alfândega, já que há uma quantidade de grupos excursionistas que viajam em família, são atendidos em simultâneo e atrasam o processo todo, e os outros funcionários não são tão lestos como este.

31 de julho de 2006

A CÚPULA DO PRAZER

Continua a ser um dos maiores écrãs de cinema que já vi: o Pacific Arclight Cinerama Dome em Sunset Boulevard, entre as ruas Vine e Ivar, "pedra de toque" do complexo de 14 salas Arclight no centro de Hollywood, mantém a extraordinária arquitectura de cúpula geodésica muito anos 1950 (mesmo que, entretanto, a sala tenha sido rejuvenescida e renovada). É um écrã monstruoso, construído em 1963 para o 70mm primitivo que era o Cinerama, frente a um anfiteatro circular de 900 lugares que lembra o nosso Planetário Gulbenkian. Gostava de ter lá visto um filme verdadeiramente espectacular em termos visuais — tive de me consolar com "A Scanner Darkly", de Richard Linklater, mas a experiência de ver mesmo um "pequeno filme" num écrã verdadeiramente "grande" (de 26 metros de comprimento por 10 de altura, como já não há em Lisboa) é algo que não se esquece por nada.

30 de julho de 2006

A COMIDA AMERICANA EXISTE?

É, estou seguro, uma pergunta válida. O conceito de comida americana existe no "diner": a sanduíche, o hamburger, a dose industrial, a panqueca, o pequeno-almoço. E a verdade é que os restaurantes de Los Angeles são, quase todos, restaurantes de "outras" culinárias.

Four Seasons Hotel Los Angeles at Beverly Hills (300 South Doheny Drive, Beverly Hills): lulas panadas com maionese rémoulade, salada de feijão verde, cogumelo shiitake e corações de palma e tartelete de queijo ricotta e limão.

Chin Chin Grill (8618 Sunset Boulevard, West Hollywood): massa chinesa com frango e camarão em molho de tomate e manjericão.

French Quarter (7985 Santa Monica Boulevard, West Hollywood): camarão panado ("popcorn shrimp") e "wrap" de galinha e legumes em molho pesto.

29 de julho de 2006

A CIDADE DA AUTO-ESTRADA

Quanto mais tento explicar aos amigos e à família porque estranhei tanto Los Angeles, mais compreendo que Los Angeles não é, de todo, uma cidade como nós, europeus, estamos habituados a conhecer (o que, depois de ter conhecido em São Francisco uma cidade "à europeia" construída na América, apenas sublinha como os EUA não são "um país" mas sim muitos países aglomerados).

Los Angeles é como se Lisboa não acabasse às Portas de Benfica, ao Parque das Nações, à travessia da Ponte 25 de Abril ou à entrada de Algés, mas continuasse até Cascais, até Sintra, até Almada ou Barreiro ou Alcochete, mas sem os troços de descampado, de serra ou de praia ou de verde, substituidos por uma linha constante de estradas e casas e escritórios e armazéns e lojas e centros comerciais. Los Angeles é uma espécie de enorme dormitório que se estica a perder de vista, cujas vias rápidas de cinco faixas de rodagem e entradas e saídas constantes são autênticas "veias" que a alimentam, e onde cada bairro é de tal modo perfeitamente auto-suficiente (com as suas lojas, os seus supermercados, os seus centros comerciais, os seus cinemas, os seus restaurantes) que é perfeitamente possível passar o tempo todo ali sem ter de descer à Baixa ou ao centro da cidade. Los Angeles é uma cidade que não tem alma de cidade: é uma conveniência, um sítio onde se vive e se trabalha e se passam duas horas por dia ou mais ao volante.

28 de julho de 2006

MANTEIGA DE AMENDOIM

Não sei bem explicar isto, mas estou a dar por mim fã da manteiga de amendoim. Não é sequer um fenómeno relacionado com as minhas visitas a solo americano (porque não comi manteiga de amendoim uma única vez enquanto lá estive), e nunca sequer costumava gastar da coisa por cá.

Mas, aqui há umas semanas, uma improvisação de massa chinesa com camarão implicava um molho, e por sugestão de um amigo experimentei um molho que levava manteiga de amendoim (o molho ficou bom, por sinal). Fiquei com um frasco de manteiga de amendoim pouco usado e decidi-me a experimentar a coisa em pão de forma. E não é que fiquei fã?

26 de julho de 2006

25/07/2006: AF 069, LAX 18h25 - PARIS CDG 14h00

À entrada para o voo, ouço a senhora que está a chamar que “as filas 28 a 48 podem embarcar pelas duas filas”. À esquerda (classe económica), há um engarrafamento causado por um grupo numeroso e ruidoso de adolescentes italianos; à direita (primeira classe), está tudo vazio. Tendo ouvido a senhora dizer que o embarque está aberto nas duas filas, dirijo-me à fila vazia, a segurança diz-me que “não é aqui” e eu digo-lhe que acabei de ouvir no altifalante que sim. Aparece a agente de embarque que, com muito maus modos, me diz “eu é que sei e não pode embarcar por aqui”. Não gosto que me façam passar por parvo. Volto para a fila, que entretanto engrossou.

Durante o voo, percebo que o grupo italiano, ruidoso, barulhento, numeroso, está sentado nas filas atrás de mim. São nove da noite em Los Angeles e São Francisco, cinco da manhã em Lisboa, seis em Paris e eles continuam com o gás todo, mesmo depois das luzes de cabina terem baixado e de haver gente que deu a entender que quer dormir, queixando-se até às hospedeiras. Sem resultado. Para os italianos, é como se estivessem sozinhos no avião, até nos gritinhos que lançam quando a aterragem em Paris prova ser mais turbulenta do que o esperado.

25 de julho de 2006

ELOGIO DO CROISSANT DE AMÊNDOA

Quem vos avisa, vosso amigo é: se estiverem por Los Angeles, dêem um pulo ao café e salão de chã La Conversation (638 North Doheny Drive, em Beverly Hills), e provem os bolinhos extraordinários que o Steve Carson faz. O brownie coberto com morango fresco é pecaminoso, as panquecas de abóbora servidas ao pequeno almoço são divinais, mas o croissant de amêndoa (massa folhada fresquíssima coberta com açúcar glaceado e lascas de amêndoa) é uma das mais extraordinárias tentações que já provei. Com o excelente sumo de laranja e o café aceitável, o pequeno-almoço fica pelos 15-20 dólares (12-16 euros), mas garanto que é dinheiro bem investido, porque a comida é tão boa e a dose tão generosa que dificilmente vão ter vontade de comer à hora de almoço.

24 de julho de 2006

TRANSMISSÃO AUTOMÁTICA

Em Los Angeles, não vale a pena andar à procura dos transportes públicos (apesar de existir uma rede abrangente de autocarros, e um embriónico serviço de metro). Toda a gente conduz carro, e se se quer ir a algum lado na Grande Los Angeles o carro é inevitável. Tal como os engarrafamentos nas "freeways" que cortam e rodeiam a cidade e mudam de nome a cada dezena de milhas, e as enormes estruturas de parqueamento e parques privativos de lojas que surgem a intervalos regulares.

Em Roma, sê romano, e alugamos um carro (na Enterprise, dez dias de aluguer com quilometragem ilimitada e depósito cheio à entrada de uma viatura do escalão mais barato ficam-nos por 280 dólares mais 60 dólares de gasolina - 270 euros ao todo). Como todos os carros americanos, é um carro de transmissão automática de um modelo que não existe na Europa: um Chevy Cobalt de quatro portas, definido como "compact" na tabela de preços (é o equivalente deles de um citadino como o Renault Clio ou o Seat Ibiza, só que com as dimensões de um Ford Focus ou de um VW Golf). A habituação ao sistema americano de guiar - a caixa automática dispensa a alavanca das mudanças e a necessidade de mudar manualmente a mudança, e dispensa o pedal da embraiagem, pelo que o condutor só precisa de se preocupar com o acelerador e com o travão - é rápida, embora, como o David diz entre risos, perceba à distância que eu estou sempre a levar a mão à alavanca inexistente das mudanças.

O motor do Cobalt não é a coisa mais potente que já guiei, mas o carro guia-se bem, porta-se melhor e gasta pouco aos cem (apesar da maior onda de calor em Los Angeles em anos, na base dos 40 graus para cima, exigir o ar condicionado ligado permanentemente). Quando devolvemos o carro à Enterprise, fizemos 800 milhas (1300 km) sem nunca sair da grande área metropolitana de Los Angeles, apenas a fazer a "commute" diária entre Pasadena e Beverly Hills, com duas passagens por Long Beach e a ida à Disneylândia, em Anaheim, como excepções.

23 de julho de 2006

SERRA DO CALDEIRAO

Antigamente, quando se fazia Lisboa-Algarve de carro, muito antes da auto-estrada, era quase obrigatório fazer as curvas e contra-curvas da Serra do Caldeirão. Laurel Canyon Road são duas faixas de rodagem em mau estado que serpenteiam por entre o desfiladeiro Laurel, cortadas a meio, no topo do desfiladeiro, por Mulholland Drive. A estrada, que leva 10-15 minutos a percorrer a um máximo de 20 milhas por hora, funciona como um atalho ao qual se acede por Cahuenga Boulevard no lado de Studio City (perto do complexo de estúdios da Universal - é a zona em melhor estado da rua) e por Crescent Heights no lado de West Hollywood (com uma ligação quase directa a Sunset Boulevard, mas com o asfalto completamente maltratado). São vários quilómetros de curvas e contra-curvas por entre árvores e casas que literalmente desafiam as inclinações da natureza e que projectam a imagem perfeita do Verão californiano.