Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
3 de agosto de 2006
MANTEIGA DE AMENDOIM #2
Não foi uma boa ideia deixar o boião de vidro gasto da manteiga de amendoim no lava-louça para lavar. Hoje de manhã, era um verdadeiro formigueiro. Fica esclarecido porque é que elas andavam a passear pela cozinha quando eu liguei o esquentador.
2 de agosto de 2006
HUMOR INGLÊS DO SUL
É por causa destas e doutras que eu gosto dos ingleses. Isto é o primeiro parágrafo de uma peça sobre a Vodafone na edição desta semana da Economist:
"Annual shareholders' meetings in Britain are meant to follow a comforting, if sometimes fractious, routine. Individual investors take the microphone year after year to heap scorn on the managers of their companies. Often there is name-calling. More often there are complaints about the sandwiches being served. Sometimes there are grumbles about the previous' years sandwiches. This is usually followed by a mad rush for tea, biscuits and the much-maligned sandwiches in an adjoining room."
"Annual shareholders' meetings in Britain are meant to follow a comforting, if sometimes fractious, routine. Individual investors take the microphone year after year to heap scorn on the managers of their companies. Often there is name-calling. More often there are complaints about the sandwiches being served. Sometimes there are grumbles about the previous' years sandwiches. This is usually followed by a mad rush for tea, biscuits and the much-maligned sandwiches in an adjoining room."
1 de agosto de 2006
SERVIÇO DE ESTRANGEIROS E FRONTEIRAS
Quando aterro em Los Angeles, a passagem pela alfândega, com verificação do passaporte e entrega dos formulários de entrada nos EUA, entope devido à quantidade absurda de passageiros que acaba de chegar para um número de guichets que não é elástico. Um dos funcionários que está a atender a minha fila, baixinho, louro, corpulento, sai do guichet e dirige-se coloquialmente à multidão reunida, explicando que estão a fazer todos os possíveis para despachar as pessoas o mais rapidamente possível, mas o processo não pode ser acelerado e naquele momento acabam de aterrar três vôos intercontinentais, pedindo paciência e para ajudarmos ao máximo preenchendo tudo o que temos de preencher.
Apesar do funcionário repetir o aviso uma segunda vez e de despachar viajantes a um ritmo alucinante, levo 45 minutos para passar a alfândega, já que há uma quantidade de grupos excursionistas que viajam em família, são atendidos em simultâneo e atrasam o processo todo, e os outros funcionários não são tão lestos como este.
Apesar do funcionário repetir o aviso uma segunda vez e de despachar viajantes a um ritmo alucinante, levo 45 minutos para passar a alfândega, já que há uma quantidade de grupos excursionistas que viajam em família, são atendidos em simultâneo e atrasam o processo todo, e os outros funcionários não são tão lestos como este.
31 de julho de 2006
A CÚPULA DO PRAZER
Continua a ser um dos maiores écrãs de cinema que já vi: o Pacific Arclight Cinerama Dome em Sunset Boulevard, entre as ruas Vine e Ivar, "pedra de toque" do complexo de 14 salas Arclight no centro de Hollywood, mantém a extraordinária arquitectura de cúpula geodésica muito anos 1950 (mesmo que, entretanto, a sala tenha sido rejuvenescida e renovada). É um écrã monstruoso, construído em 1963 para o 70mm primitivo que era o Cinerama, frente a um anfiteatro circular de 900 lugares que lembra o nosso Planetário Gulbenkian. Gostava de ter lá visto um filme verdadeiramente espectacular em termos visuais — tive de me consolar com "A Scanner Darkly", de Richard Linklater, mas a experiência de ver mesmo um "pequeno filme" num écrã verdadeiramente "grande" (de 26 metros de comprimento por 10 de altura, como já não há em Lisboa) é algo que não se esquece por nada.
30 de julho de 2006
A COMIDA AMERICANA EXISTE?
É, estou seguro, uma pergunta válida. O conceito de comida americana existe no "diner": a sanduíche, o hamburger, a dose industrial, a panqueca, o pequeno-almoço. E a verdade é que os restaurantes de Los Angeles são, quase todos, restaurantes de "outras" culinárias.
Four Seasons Hotel Los Angeles at Beverly Hills (300 South Doheny Drive, Beverly Hills): lulas panadas com maionese rémoulade, salada de feijão verde, cogumelo shiitake e corações de palma e tartelete de queijo ricotta e limão.
Chin Chin Grill (8618 Sunset Boulevard, West Hollywood): massa chinesa com frango e camarão em molho de tomate e manjericão.
French Quarter (7985 Santa Monica Boulevard, West Hollywood): camarão panado ("popcorn shrimp") e "wrap" de galinha e legumes em molho pesto.
Four Seasons Hotel Los Angeles at Beverly Hills (300 South Doheny Drive, Beverly Hills): lulas panadas com maionese rémoulade, salada de feijão verde, cogumelo shiitake e corações de palma e tartelete de queijo ricotta e limão.
Chin Chin Grill (8618 Sunset Boulevard, West Hollywood): massa chinesa com frango e camarão em molho de tomate e manjericão.
French Quarter (7985 Santa Monica Boulevard, West Hollywood): camarão panado ("popcorn shrimp") e "wrap" de galinha e legumes em molho pesto.
29 de julho de 2006
A CIDADE DA AUTO-ESTRADA
Quanto mais tento explicar aos amigos e à família porque estranhei tanto Los Angeles, mais compreendo que Los Angeles não é, de todo, uma cidade como nós, europeus, estamos habituados a conhecer (o que, depois de ter conhecido em São Francisco uma cidade "à europeia" construída na América, apenas sublinha como os EUA não são "um país" mas sim muitos países aglomerados).
Los Angeles é como se Lisboa não acabasse às Portas de Benfica, ao Parque das Nações, à travessia da Ponte 25 de Abril ou à entrada de Algés, mas continuasse até Cascais, até Sintra, até Almada ou Barreiro ou Alcochete, mas sem os troços de descampado, de serra ou de praia ou de verde, substituidos por uma linha constante de estradas e casas e escritórios e armazéns e lojas e centros comerciais. Los Angeles é uma espécie de enorme dormitório que se estica a perder de vista, cujas vias rápidas de cinco faixas de rodagem e entradas e saídas constantes são autênticas "veias" que a alimentam, e onde cada bairro é de tal modo perfeitamente auto-suficiente (com as suas lojas, os seus supermercados, os seus centros comerciais, os seus cinemas, os seus restaurantes) que é perfeitamente possível passar o tempo todo ali sem ter de descer à Baixa ou ao centro da cidade. Los Angeles é uma cidade que não tem alma de cidade: é uma conveniência, um sítio onde se vive e se trabalha e se passam duas horas por dia ou mais ao volante.
Los Angeles é como se Lisboa não acabasse às Portas de Benfica, ao Parque das Nações, à travessia da Ponte 25 de Abril ou à entrada de Algés, mas continuasse até Cascais, até Sintra, até Almada ou Barreiro ou Alcochete, mas sem os troços de descampado, de serra ou de praia ou de verde, substituidos por uma linha constante de estradas e casas e escritórios e armazéns e lojas e centros comerciais. Los Angeles é uma espécie de enorme dormitório que se estica a perder de vista, cujas vias rápidas de cinco faixas de rodagem e entradas e saídas constantes são autênticas "veias" que a alimentam, e onde cada bairro é de tal modo perfeitamente auto-suficiente (com as suas lojas, os seus supermercados, os seus centros comerciais, os seus cinemas, os seus restaurantes) que é perfeitamente possível passar o tempo todo ali sem ter de descer à Baixa ou ao centro da cidade. Los Angeles é uma cidade que não tem alma de cidade: é uma conveniência, um sítio onde se vive e se trabalha e se passam duas horas por dia ou mais ao volante.
28 de julho de 2006
MANTEIGA DE AMENDOIM
Não sei bem explicar isto, mas estou a dar por mim fã da manteiga de amendoim. Não é sequer um fenómeno relacionado com as minhas visitas a solo americano (porque não comi manteiga de amendoim uma única vez enquanto lá estive), e nunca sequer costumava gastar da coisa por cá.
Mas, aqui há umas semanas, uma improvisação de massa chinesa com camarão implicava um molho, e por sugestão de um amigo experimentei um molho que levava manteiga de amendoim (o molho ficou bom, por sinal). Fiquei com um frasco de manteiga de amendoim pouco usado e decidi-me a experimentar a coisa em pão de forma. E não é que fiquei fã?
Mas, aqui há umas semanas, uma improvisação de massa chinesa com camarão implicava um molho, e por sugestão de um amigo experimentei um molho que levava manteiga de amendoim (o molho ficou bom, por sinal). Fiquei com um frasco de manteiga de amendoim pouco usado e decidi-me a experimentar a coisa em pão de forma. E não é que fiquei fã?
26 de julho de 2006
25/07/2006: AF 069, LAX 18h25 - PARIS CDG 14h00
À entrada para o voo, ouço a senhora que está a chamar que “as filas 28 a 48 podem embarcar pelas duas filas”. À esquerda (classe económica), há um engarrafamento causado por um grupo numeroso e ruidoso de adolescentes italianos; à direita (primeira classe), está tudo vazio. Tendo ouvido a senhora dizer que o embarque está aberto nas duas filas, dirijo-me à fila vazia, a segurança diz-me que “não é aqui” e eu digo-lhe que acabei de ouvir no altifalante que sim. Aparece a agente de embarque que, com muito maus modos, me diz “eu é que sei e não pode embarcar por aqui”. Não gosto que me façam passar por parvo. Volto para a fila, que entretanto engrossou.
Durante o voo, percebo que o grupo italiano, ruidoso, barulhento, numeroso, está sentado nas filas atrás de mim. São nove da noite em Los Angeles e São Francisco, cinco da manhã em Lisboa, seis em Paris e eles continuam com o gás todo, mesmo depois das luzes de cabina terem baixado e de haver gente que deu a entender que quer dormir, queixando-se até às hospedeiras. Sem resultado. Para os italianos, é como se estivessem sozinhos no avião, até nos gritinhos que lançam quando a aterragem em Paris prova ser mais turbulenta do que o esperado.
Durante o voo, percebo que o grupo italiano, ruidoso, barulhento, numeroso, está sentado nas filas atrás de mim. São nove da noite em Los Angeles e São Francisco, cinco da manhã em Lisboa, seis em Paris e eles continuam com o gás todo, mesmo depois das luzes de cabina terem baixado e de haver gente que deu a entender que quer dormir, queixando-se até às hospedeiras. Sem resultado. Para os italianos, é como se estivessem sozinhos no avião, até nos gritinhos que lançam quando a aterragem em Paris prova ser mais turbulenta do que o esperado.
25 de julho de 2006
ELOGIO DO CROISSANT DE AMÊNDOA
Quem vos avisa, vosso amigo é: se estiverem por Los Angeles, dêem um pulo ao café e salão de chã La Conversation (638 North Doheny Drive, em Beverly Hills), e provem os bolinhos extraordinários que o Steve Carson faz. O brownie coberto com morango fresco é pecaminoso, as panquecas de abóbora servidas ao pequeno almoço são divinais, mas o croissant de amêndoa (massa folhada fresquíssima coberta com açúcar glaceado e lascas de amêndoa) é uma das mais extraordinárias tentações que já provei. Com o excelente sumo de laranja e o café aceitável, o pequeno-almoço fica pelos 15-20 dólares (12-16 euros), mas garanto que é dinheiro bem investido, porque a comida é tão boa e a dose tão generosa que dificilmente vão ter vontade de comer à hora de almoço.
24 de julho de 2006
TRANSMISSÃO AUTOMÁTICA
Em Los Angeles, não vale a pena andar à procura dos transportes públicos (apesar de existir uma rede abrangente de autocarros, e um embriónico serviço de metro). Toda a gente conduz carro, e se se quer ir a algum lado na Grande Los Angeles o carro é inevitável. Tal como os engarrafamentos nas "freeways" que cortam e rodeiam a cidade e mudam de nome a cada dezena de milhas, e as enormes estruturas de parqueamento e parques privativos de lojas que surgem a intervalos regulares.
Em Roma, sê romano, e alugamos um carro (na Enterprise, dez dias de aluguer com quilometragem ilimitada e depósito cheio à entrada de uma viatura do escalão mais barato ficam-nos por 280 dólares mais 60 dólares de gasolina - 270 euros ao todo). Como todos os carros americanos, é um carro de transmissão automática de um modelo que não existe na Europa: um Chevy Cobalt de quatro portas, definido como "compact" na tabela de preços (é o equivalente deles de um citadino como o Renault Clio ou o Seat Ibiza, só que com as dimensões de um Ford Focus ou de um VW Golf). A habituação ao sistema americano de guiar - a caixa automática dispensa a alavanca das mudanças e a necessidade de mudar manualmente a mudança, e dispensa o pedal da embraiagem, pelo que o condutor só precisa de se preocupar com o acelerador e com o travão - é rápida, embora, como o David diz entre risos, perceba à distância que eu estou sempre a levar a mão à alavanca inexistente das mudanças.
O motor do Cobalt não é a coisa mais potente que já guiei, mas o carro guia-se bem, porta-se melhor e gasta pouco aos cem (apesar da maior onda de calor em Los Angeles em anos, na base dos 40 graus para cima, exigir o ar condicionado ligado permanentemente). Quando devolvemos o carro à Enterprise, fizemos 800 milhas (1300 km) sem nunca sair da grande área metropolitana de Los Angeles, apenas a fazer a "commute" diária entre Pasadena e Beverly Hills, com duas passagens por Long Beach e a ida à Disneylândia, em Anaheim, como excepções.
Em Roma, sê romano, e alugamos um carro (na Enterprise, dez dias de aluguer com quilometragem ilimitada e depósito cheio à entrada de uma viatura do escalão mais barato ficam-nos por 280 dólares mais 60 dólares de gasolina - 270 euros ao todo). Como todos os carros americanos, é um carro de transmissão automática de um modelo que não existe na Europa: um Chevy Cobalt de quatro portas, definido como "compact" na tabela de preços (é o equivalente deles de um citadino como o Renault Clio ou o Seat Ibiza, só que com as dimensões de um Ford Focus ou de um VW Golf). A habituação ao sistema americano de guiar - a caixa automática dispensa a alavanca das mudanças e a necessidade de mudar manualmente a mudança, e dispensa o pedal da embraiagem, pelo que o condutor só precisa de se preocupar com o acelerador e com o travão - é rápida, embora, como o David diz entre risos, perceba à distância que eu estou sempre a levar a mão à alavanca inexistente das mudanças.
O motor do Cobalt não é a coisa mais potente que já guiei, mas o carro guia-se bem, porta-se melhor e gasta pouco aos cem (apesar da maior onda de calor em Los Angeles em anos, na base dos 40 graus para cima, exigir o ar condicionado ligado permanentemente). Quando devolvemos o carro à Enterprise, fizemos 800 milhas (1300 km) sem nunca sair da grande área metropolitana de Los Angeles, apenas a fazer a "commute" diária entre Pasadena e Beverly Hills, com duas passagens por Long Beach e a ida à Disneylândia, em Anaheim, como excepções.
23 de julho de 2006
SERRA DO CALDEIRAO
Antigamente, quando se fazia Lisboa-Algarve de carro, muito antes da auto-estrada, era quase obrigatório fazer as curvas e contra-curvas da Serra do Caldeirão. Laurel Canyon Road são duas faixas de rodagem em mau estado que serpenteiam por entre o desfiladeiro Laurel, cortadas a meio, no topo do desfiladeiro, por Mulholland Drive. A estrada, que leva 10-15 minutos a percorrer a um máximo de 20 milhas por hora, funciona como um atalho ao qual se acede por Cahuenga Boulevard no lado de Studio City (perto do complexo de estúdios da Universal - é a zona em melhor estado da rua) e por Crescent Heights no lado de West Hollywood (com uma ligação quase directa a Sunset Boulevard, mas com o asfalto completamente maltratado). São vários quilómetros de curvas e contra-curvas por entre árvores e casas que literalmente desafiam as inclinações da natureza e que projectam a imagem perfeita do Verão californiano.
692 WOODBURY ROAD
Los Angeles não é uma cidade; antes uma federação de comunidades, um aglomerado de “cities” que parece ser um único subúrbio contínuo ligado por intermináveis vias rápidas de quatro, cinco faixas de rodagem, formando a Grande Los Angeles. Pasadena é uma dessas comunidades, um subúrbio afluente que fica a 30 minutos do grande centro (se o trânsito estiver bom), que se pode percorrer por inteiro sem nunca encontrar um arranha-céus ou um prédio de muitos andares. Somos convidados numa espantosa mansão restaurada ainda em processo de redecoração no estilo da renascença espanhola e ficamos no que é aqui chamado uma “casa da sogra” junto à garagem e com acesso ao jardim: uma casa separada usada para receber hóspedes com cozinha, casa de banho, frigorífico e máquina de lavar próprias. Há muitos proprietários que alugam estas casas e quem construiu a casa devia gostar muito da sogra para lhe dar uma casa destas.
A ARTE DA FILA
A maior parte das atracções da Disneylândia implicam esperar numa fila. Mas nada daquelas confusões à antiga portuguesa de filas ao deus dará: a própria arquitectura da atracção já inclui a fila, numa série de corredores serpenteantes que procuram garantir que ninguém passa à frente de ninguém (pormenor importante: a saída fica sempre longe da entrada, para manter o “suspense” junto de quem nunca visitou a atracção e garantir que o ambiente cuidadosamente construído na fila não é quebrado por quem acaba de sair e pode contar as surpresas).
As atracções mais concorridas, em dia não, podem obrigar a uma ou duas horas de fila; nesta quinta-feira quente de Julho, o máximo que esperamos é 40 minutos, que se passam bem a observar o comportamento do americano médio, tão barrigudo como o português médio, e da sua prole enquanto esperam. Muitos deles trazem a família toda e poucos têm só uma criança.
Na fila para a Haunted Mansion (30 minutos a serpentear pelos jardins de uma mansão colonial sulista que se revelará uma espécie de casa assombrada light que percorremos num sofá rotativo montado em cima de um tapete rolante), esperamos a seguir a duas trintonas que entre si trazem três crianças, duas meninas e um rapaz, que terão os seus sete-oito anos. Nos jardins, a fila passa junto a um gradeamento elevado em cima de tijolos – praticamente não há nenhuma criança na fila que resista à tentação de subir para o gradeamento e, contra os protestos dos pais, andar em cima dele. O rapaz está irrequieto, começa por queixar-se que se calhar vai ter medo, enquanto as miúdas (primas? Irmãs?) lhe dizem que não, não mete medo nenhum. A certa altura, cansado de estar na fila, o miúdo começa a deixar-se ficar para trás; a mãe começa a perder a paciência e arrasta-o. Recebe uma chamada telefónica e começa-se a queixar do mau comportamento do filho (presume-se que ao pai). Um pouco mais à frente, o miúdo começa a dar pontapés no chão, como um touro que se prepara para a investida sobre o matador; um dos seus pontapés acerta-me na canela, a mãe, que estava distraída, ouve o meu “ai” e pede-me desculpas acabrunhadas. Finalmente, o miúdo começa a queixar-se que quer ir à casa de banho. A mãe não é de modas e decide que, pronto, já chega, não vamos à Haunted Mansion, e na primeira ocasião saí da fila.
As atracções mais concorridas, em dia não, podem obrigar a uma ou duas horas de fila; nesta quinta-feira quente de Julho, o máximo que esperamos é 40 minutos, que se passam bem a observar o comportamento do americano médio, tão barrigudo como o português médio, e da sua prole enquanto esperam. Muitos deles trazem a família toda e poucos têm só uma criança.
Na fila para a Haunted Mansion (30 minutos a serpentear pelos jardins de uma mansão colonial sulista que se revelará uma espécie de casa assombrada light que percorremos num sofá rotativo montado em cima de um tapete rolante), esperamos a seguir a duas trintonas que entre si trazem três crianças, duas meninas e um rapaz, que terão os seus sete-oito anos. Nos jardins, a fila passa junto a um gradeamento elevado em cima de tijolos – praticamente não há nenhuma criança na fila que resista à tentação de subir para o gradeamento e, contra os protestos dos pais, andar em cima dele. O rapaz está irrequieto, começa por queixar-se que se calhar vai ter medo, enquanto as miúdas (primas? Irmãs?) lhe dizem que não, não mete medo nenhum. A certa altura, cansado de estar na fila, o miúdo começa a deixar-se ficar para trás; a mãe começa a perder a paciência e arrasta-o. Recebe uma chamada telefónica e começa-se a queixar do mau comportamento do filho (presume-se que ao pai). Um pouco mais à frente, o miúdo começa a dar pontapés no chão, como um touro que se prepara para a investida sobre o matador; um dos seus pontapés acerta-me na canela, a mãe, que estava distraída, ouve o meu “ai” e pede-me desculpas acabrunhadas. Finalmente, o miúdo começa a queixar-se que quer ir à casa de banho. A mãe não é de modas e decide que, pronto, já chega, não vamos à Haunted Mansion, e na primeira ocasião saí da fila.
21 de julho de 2006
PASADENA BY NIGHT
Descer a Lake Avenue no banco de tras de um descapotavel aberto a brisa de uma noite perfeita de Verao.
DISNEYLAND
A cerca de 25 milhas da baixa de Los Angeles, a Disneylândia original, que celebra este ano o 50º aniversário, anuncia-se como “the happiest place on Earth”. Por um preço: 50 dólares de entrada (para um bilhete de um dia que dá acesso apenas ao parque original, sem acesso ao mais recente parque de diversões mais radicais, Disney’s Califórnia Adventure), mais 10 dólares de estacionamento, mais o preço da comida nos restaurantes (dificilmente menos de 20-25 dólares por pessoa) e das águas e refrescos nos stands (dois dólares e meio), etc, etc, etc. Pelo direito de passar um dia inteiro no meio de uma multidão de gente vinda de todo o mundo, muita dela em excursão-rodarte familiar, dentro de uma feira popular elevada à potência 15, por baixo do calor tórrido do sol californiano, de passar meia hora em algumas filas para algumas atracções.
Mas, pelo meio de tudo isto, o “happiest place on Earth” é, mesmo, o “happiest place on Earth” porque o preço dá-nos também o direito de, nem que seja por um momento fugaz (e, neste dia passado no parque, foram muitos momentos fugazes), reencontrarmos a criança escondida dentro de nós. Quer seja nas montanhas-russas primitivas do Matterhorn Bobsleds ou da Big Thunder Mountain Railroad ou na maior sofisticação da Indiana Jones Adventure, ou na ingenuidade mal disfarçada de algumas atracções que transpiram o tempo em que foram concebidas (Mr Toad’s Wild Ride ou a Enchanted Tiki Room, velha de 40 anos e tão para lá de kitsch que já quase exige uma categoria própria para si só), há de tudo para todos na concepção sanitizada deste parque onde o mundo real fica à entrada e só volta a aparecer quando o carro sai da enorme garagem de estacionamento e regressa às auto-estradas infindáveis que correspondem à essência de Los Angeles. E nesse momento sentimos uma pequena tristeza por termos de deixar aquele parque de diversões a transbordar de gente e de calor e de dinheiro em caixa, porque a Disneylândia é um sonho em que queremos todos acreditar, mesmo depois de sabermos que é um sonho um pouco bafiento, prisioneiro de um tempo que já não existe.
Mas, pelo meio de tudo isto, o “happiest place on Earth” é, mesmo, o “happiest place on Earth” porque o preço dá-nos também o direito de, nem que seja por um momento fugaz (e, neste dia passado no parque, foram muitos momentos fugazes), reencontrarmos a criança escondida dentro de nós. Quer seja nas montanhas-russas primitivas do Matterhorn Bobsleds ou da Big Thunder Mountain Railroad ou na maior sofisticação da Indiana Jones Adventure, ou na ingenuidade mal disfarçada de algumas atracções que transpiram o tempo em que foram concebidas (Mr Toad’s Wild Ride ou a Enchanted Tiki Room, velha de 40 anos e tão para lá de kitsch que já quase exige uma categoria própria para si só), há de tudo para todos na concepção sanitizada deste parque onde o mundo real fica à entrada e só volta a aparecer quando o carro sai da enorme garagem de estacionamento e regressa às auto-estradas infindáveis que correspondem à essência de Los Angeles. E nesse momento sentimos uma pequena tristeza por termos de deixar aquele parque de diversões a transbordar de gente e de calor e de dinheiro em caixa, porque a Disneylândia é um sonho em que queremos todos acreditar, mesmo depois de sabermos que é um sonho um pouco bafiento, prisioneiro de um tempo que já não existe.
20 de julho de 2006
SUBURBIA (outra vez sem acentos)
Los Angeles parece ser um longo suburbio que se prolonga ad infinitum ao longo de quilometros e quilometros, em que e preciso pelo menos meia hora de carro para se chegar a qualquer lado. Nao tenho estado ligado a rede (apenas uma vez por dia), mas nao faltam historias para contar - quando tiver um bocadinho de disponibilidade, prometo que as conto.
17 de julho de 2006
ESTRADAS PERDIDAS
Los Angeles é uma federação de bairros, uma interminável cidade de estradas com casas e lojas e centros comerciais pelo meio do asfalto ladeado por palmeiras e árvores. Los Angeles é, como diz o David, uma "cidade incorporada", composta por zonas (West Hollywood, Pasadena, Beverly Hills, Studio City, Glendale, e por aí fora) que, todas juntas, formam a "Greater Los Angeles". Mas, ao contrário de São Francisco, não se sente tanto a vivência de bairro, talvez porque o carro é aqui meio de transporte essencial - o sistema de transportes públicos é relativamente ineficiente e só os autocarros cobrem a maior parte da rede (há uma rede de metropolitano, mas não é exactamente grande) - e as pessoas não andam realmente a pé (a regra é o "valet parking", em que os restaurantes e lojas têm empregados que se encarregam de arrumar o carro do cliente em parques privativos ou públicos próximos, ou o "customer parking", pequenos parques exclusivos para os clientes nas traseiras de restaurantes ou lojas).
KLM 0601: AMS 13h15-LAX 15h15: 15/07/2006
O que é que se faz quando se têm dez horas de vôo pela frente e um espaço útil de assento de coxia apertada que não foi feito para 1m90 de altura (porque todos os espaços feitos para 1m90 de altura estão já ocupados por pessoas que também têm 1m90 de altura), ainda por cima num vôo cheio de fim de semana que parece transportar uma espécie de "excursão rodarte" de holandeses a caminho de férias em Los Angeles, com dois bebés de colo na fila da frente e dois outros na fila de trás?
Às tantas, há miúdos a correr pelos corredores acanhados, não dá sequer para os mandar bugiar para outro lado. Este Boeing 747 é de modelo bem menos moderno que o meu vôo de Londres para São Francisco em Janeiro, e as hospedeiras de bordo têm qualquer coisa de educadoras de infância, a julgar pela paciência com que brincam com os miúdos.
Por mais que tente, não dá mesmo para dormir; nem sequer consigo ter espaço para descalçar as botas e passear pelos corredores. E estes vôos transcontinentais implicam sempre uma extensão do dia da pessoa, prolongando-o para uma espécie de directa, com as ligações a obrigarem-nos a levantar cedo e a deitar tarde (é impraticável que alguém durma realmente bem na véspera de um dia passado entre aviões que nos obriga a levantar às cinco da manhã e nos atira para a cama às sete da manhã do dia seguinte no sítio de onde partimos - embora sejam apenas onze da noite em Los Angeles).
Às tantas, há miúdos a correr pelos corredores acanhados, não dá sequer para os mandar bugiar para outro lado. Este Boeing 747 é de modelo bem menos moderno que o meu vôo de Londres para São Francisco em Janeiro, e as hospedeiras de bordo têm qualquer coisa de educadoras de infância, a julgar pela paciência com que brincam com os miúdos.
Por mais que tente, não dá mesmo para dormir; nem sequer consigo ter espaço para descalçar as botas e passear pelos corredores. E estes vôos transcontinentais implicam sempre uma extensão do dia da pessoa, prolongando-o para uma espécie de directa, com as ligações a obrigarem-nos a levantar cedo e a deitar tarde (é impraticável que alguém durma realmente bem na véspera de um dia passado entre aviões que nos obriga a levantar às cinco da manhã e nos atira para a cama às sete da manhã do dia seguinte no sítio de onde partimos - embora sejam apenas onze da noite em Los Angeles).
16 de julho de 2006
SCHIPHOL IN TRANSIT
Schiphol, Amesterdão, é um aeroporto extraordinariamente organizado, perfeitamente sinalizado, mesmo acolhedor (partindo do princípio que um aeroporto é um sítio acolhedor). É um mundo onde as lojas não têm uma única marca; são identificadas apenas pelos produtos que vêem (perfumes, cosméticos, electrónica, jornais e revistas, diamantes, jóias). O tapete rolante, junto à porta onde aguardo o embarque para Los Angeles, repete, todos os cinco segundos, "mind your step" - sinto-me no metro de Londres, sem o mínimo risco de me perder. Para trás, nesta manhã de sábado, duas horas e meia de vôo desde Lisboa, à minha frente dez horas e meia até Los Angeles. E, como sempre que estou em trânsito num aeroporto, pareço sentir-me fora do mundo.
15 de julho de 2006
STRESS
Somem lá, s. f. f., o calor que está (30 graus dentro de casa à uma da manhã), o incontornável stress pré-viagem (ah pois) e a necessidade de levantar cedo. Receita infalível para dormir pouco e mal.
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