Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
31 de julho de 2006
A CÚPULA DO PRAZER
Continua a ser um dos maiores écrãs de cinema que já vi: o Pacific Arclight Cinerama Dome em Sunset Boulevard, entre as ruas Vine e Ivar, "pedra de toque" do complexo de 14 salas Arclight no centro de Hollywood, mantém a extraordinária arquitectura de cúpula geodésica muito anos 1950 (mesmo que, entretanto, a sala tenha sido rejuvenescida e renovada). É um écrã monstruoso, construído em 1963 para o 70mm primitivo que era o Cinerama, frente a um anfiteatro circular de 900 lugares que lembra o nosso Planetário Gulbenkian. Gostava de ter lá visto um filme verdadeiramente espectacular em termos visuais — tive de me consolar com "A Scanner Darkly", de Richard Linklater, mas a experiência de ver mesmo um "pequeno filme" num écrã verdadeiramente "grande" (de 26 metros de comprimento por 10 de altura, como já não há em Lisboa) é algo que não se esquece por nada.
30 de julho de 2006
A COMIDA AMERICANA EXISTE?
É, estou seguro, uma pergunta válida. O conceito de comida americana existe no "diner": a sanduíche, o hamburger, a dose industrial, a panqueca, o pequeno-almoço. E a verdade é que os restaurantes de Los Angeles são, quase todos, restaurantes de "outras" culinárias.
Four Seasons Hotel Los Angeles at Beverly Hills (300 South Doheny Drive, Beverly Hills): lulas panadas com maionese rémoulade, salada de feijão verde, cogumelo shiitake e corações de palma e tartelete de queijo ricotta e limão.
Chin Chin Grill (8618 Sunset Boulevard, West Hollywood): massa chinesa com frango e camarão em molho de tomate e manjericão.
French Quarter (7985 Santa Monica Boulevard, West Hollywood): camarão panado ("popcorn shrimp") e "wrap" de galinha e legumes em molho pesto.
Four Seasons Hotel Los Angeles at Beverly Hills (300 South Doheny Drive, Beverly Hills): lulas panadas com maionese rémoulade, salada de feijão verde, cogumelo shiitake e corações de palma e tartelete de queijo ricotta e limão.
Chin Chin Grill (8618 Sunset Boulevard, West Hollywood): massa chinesa com frango e camarão em molho de tomate e manjericão.
French Quarter (7985 Santa Monica Boulevard, West Hollywood): camarão panado ("popcorn shrimp") e "wrap" de galinha e legumes em molho pesto.
29 de julho de 2006
A CIDADE DA AUTO-ESTRADA
Quanto mais tento explicar aos amigos e à família porque estranhei tanto Los Angeles, mais compreendo que Los Angeles não é, de todo, uma cidade como nós, europeus, estamos habituados a conhecer (o que, depois de ter conhecido em São Francisco uma cidade "à europeia" construída na América, apenas sublinha como os EUA não são "um país" mas sim muitos países aglomerados).
Los Angeles é como se Lisboa não acabasse às Portas de Benfica, ao Parque das Nações, à travessia da Ponte 25 de Abril ou à entrada de Algés, mas continuasse até Cascais, até Sintra, até Almada ou Barreiro ou Alcochete, mas sem os troços de descampado, de serra ou de praia ou de verde, substituidos por uma linha constante de estradas e casas e escritórios e armazéns e lojas e centros comerciais. Los Angeles é uma espécie de enorme dormitório que se estica a perder de vista, cujas vias rápidas de cinco faixas de rodagem e entradas e saídas constantes são autênticas "veias" que a alimentam, e onde cada bairro é de tal modo perfeitamente auto-suficiente (com as suas lojas, os seus supermercados, os seus centros comerciais, os seus cinemas, os seus restaurantes) que é perfeitamente possível passar o tempo todo ali sem ter de descer à Baixa ou ao centro da cidade. Los Angeles é uma cidade que não tem alma de cidade: é uma conveniência, um sítio onde se vive e se trabalha e se passam duas horas por dia ou mais ao volante.
Los Angeles é como se Lisboa não acabasse às Portas de Benfica, ao Parque das Nações, à travessia da Ponte 25 de Abril ou à entrada de Algés, mas continuasse até Cascais, até Sintra, até Almada ou Barreiro ou Alcochete, mas sem os troços de descampado, de serra ou de praia ou de verde, substituidos por uma linha constante de estradas e casas e escritórios e armazéns e lojas e centros comerciais. Los Angeles é uma espécie de enorme dormitório que se estica a perder de vista, cujas vias rápidas de cinco faixas de rodagem e entradas e saídas constantes são autênticas "veias" que a alimentam, e onde cada bairro é de tal modo perfeitamente auto-suficiente (com as suas lojas, os seus supermercados, os seus centros comerciais, os seus cinemas, os seus restaurantes) que é perfeitamente possível passar o tempo todo ali sem ter de descer à Baixa ou ao centro da cidade. Los Angeles é uma cidade que não tem alma de cidade: é uma conveniência, um sítio onde se vive e se trabalha e se passam duas horas por dia ou mais ao volante.
28 de julho de 2006
MANTEIGA DE AMENDOIM
Não sei bem explicar isto, mas estou a dar por mim fã da manteiga de amendoim. Não é sequer um fenómeno relacionado com as minhas visitas a solo americano (porque não comi manteiga de amendoim uma única vez enquanto lá estive), e nunca sequer costumava gastar da coisa por cá.
Mas, aqui há umas semanas, uma improvisação de massa chinesa com camarão implicava um molho, e por sugestão de um amigo experimentei um molho que levava manteiga de amendoim (o molho ficou bom, por sinal). Fiquei com um frasco de manteiga de amendoim pouco usado e decidi-me a experimentar a coisa em pão de forma. E não é que fiquei fã?
Mas, aqui há umas semanas, uma improvisação de massa chinesa com camarão implicava um molho, e por sugestão de um amigo experimentei um molho que levava manteiga de amendoim (o molho ficou bom, por sinal). Fiquei com um frasco de manteiga de amendoim pouco usado e decidi-me a experimentar a coisa em pão de forma. E não é que fiquei fã?
26 de julho de 2006
25/07/2006: AF 069, LAX 18h25 - PARIS CDG 14h00
À entrada para o voo, ouço a senhora que está a chamar que “as filas 28 a 48 podem embarcar pelas duas filas”. À esquerda (classe económica), há um engarrafamento causado por um grupo numeroso e ruidoso de adolescentes italianos; à direita (primeira classe), está tudo vazio. Tendo ouvido a senhora dizer que o embarque está aberto nas duas filas, dirijo-me à fila vazia, a segurança diz-me que “não é aqui” e eu digo-lhe que acabei de ouvir no altifalante que sim. Aparece a agente de embarque que, com muito maus modos, me diz “eu é que sei e não pode embarcar por aqui”. Não gosto que me façam passar por parvo. Volto para a fila, que entretanto engrossou.
Durante o voo, percebo que o grupo italiano, ruidoso, barulhento, numeroso, está sentado nas filas atrás de mim. São nove da noite em Los Angeles e São Francisco, cinco da manhã em Lisboa, seis em Paris e eles continuam com o gás todo, mesmo depois das luzes de cabina terem baixado e de haver gente que deu a entender que quer dormir, queixando-se até às hospedeiras. Sem resultado. Para os italianos, é como se estivessem sozinhos no avião, até nos gritinhos que lançam quando a aterragem em Paris prova ser mais turbulenta do que o esperado.
Durante o voo, percebo que o grupo italiano, ruidoso, barulhento, numeroso, está sentado nas filas atrás de mim. São nove da noite em Los Angeles e São Francisco, cinco da manhã em Lisboa, seis em Paris e eles continuam com o gás todo, mesmo depois das luzes de cabina terem baixado e de haver gente que deu a entender que quer dormir, queixando-se até às hospedeiras. Sem resultado. Para os italianos, é como se estivessem sozinhos no avião, até nos gritinhos que lançam quando a aterragem em Paris prova ser mais turbulenta do que o esperado.
25 de julho de 2006
ELOGIO DO CROISSANT DE AMÊNDOA
Quem vos avisa, vosso amigo é: se estiverem por Los Angeles, dêem um pulo ao café e salão de chã La Conversation (638 North Doheny Drive, em Beverly Hills), e provem os bolinhos extraordinários que o Steve Carson faz. O brownie coberto com morango fresco é pecaminoso, as panquecas de abóbora servidas ao pequeno almoço são divinais, mas o croissant de amêndoa (massa folhada fresquíssima coberta com açúcar glaceado e lascas de amêndoa) é uma das mais extraordinárias tentações que já provei. Com o excelente sumo de laranja e o café aceitável, o pequeno-almoço fica pelos 15-20 dólares (12-16 euros), mas garanto que é dinheiro bem investido, porque a comida é tão boa e a dose tão generosa que dificilmente vão ter vontade de comer à hora de almoço.
24 de julho de 2006
TRANSMISSÃO AUTOMÁTICA
Em Los Angeles, não vale a pena andar à procura dos transportes públicos (apesar de existir uma rede abrangente de autocarros, e um embriónico serviço de metro). Toda a gente conduz carro, e se se quer ir a algum lado na Grande Los Angeles o carro é inevitável. Tal como os engarrafamentos nas "freeways" que cortam e rodeiam a cidade e mudam de nome a cada dezena de milhas, e as enormes estruturas de parqueamento e parques privativos de lojas que surgem a intervalos regulares.
Em Roma, sê romano, e alugamos um carro (na Enterprise, dez dias de aluguer com quilometragem ilimitada e depósito cheio à entrada de uma viatura do escalão mais barato ficam-nos por 280 dólares mais 60 dólares de gasolina - 270 euros ao todo). Como todos os carros americanos, é um carro de transmissão automática de um modelo que não existe na Europa: um Chevy Cobalt de quatro portas, definido como "compact" na tabela de preços (é o equivalente deles de um citadino como o Renault Clio ou o Seat Ibiza, só que com as dimensões de um Ford Focus ou de um VW Golf). A habituação ao sistema americano de guiar - a caixa automática dispensa a alavanca das mudanças e a necessidade de mudar manualmente a mudança, e dispensa o pedal da embraiagem, pelo que o condutor só precisa de se preocupar com o acelerador e com o travão - é rápida, embora, como o David diz entre risos, perceba à distância que eu estou sempre a levar a mão à alavanca inexistente das mudanças.
O motor do Cobalt não é a coisa mais potente que já guiei, mas o carro guia-se bem, porta-se melhor e gasta pouco aos cem (apesar da maior onda de calor em Los Angeles em anos, na base dos 40 graus para cima, exigir o ar condicionado ligado permanentemente). Quando devolvemos o carro à Enterprise, fizemos 800 milhas (1300 km) sem nunca sair da grande área metropolitana de Los Angeles, apenas a fazer a "commute" diária entre Pasadena e Beverly Hills, com duas passagens por Long Beach e a ida à Disneylândia, em Anaheim, como excepções.
Em Roma, sê romano, e alugamos um carro (na Enterprise, dez dias de aluguer com quilometragem ilimitada e depósito cheio à entrada de uma viatura do escalão mais barato ficam-nos por 280 dólares mais 60 dólares de gasolina - 270 euros ao todo). Como todos os carros americanos, é um carro de transmissão automática de um modelo que não existe na Europa: um Chevy Cobalt de quatro portas, definido como "compact" na tabela de preços (é o equivalente deles de um citadino como o Renault Clio ou o Seat Ibiza, só que com as dimensões de um Ford Focus ou de um VW Golf). A habituação ao sistema americano de guiar - a caixa automática dispensa a alavanca das mudanças e a necessidade de mudar manualmente a mudança, e dispensa o pedal da embraiagem, pelo que o condutor só precisa de se preocupar com o acelerador e com o travão - é rápida, embora, como o David diz entre risos, perceba à distância que eu estou sempre a levar a mão à alavanca inexistente das mudanças.
O motor do Cobalt não é a coisa mais potente que já guiei, mas o carro guia-se bem, porta-se melhor e gasta pouco aos cem (apesar da maior onda de calor em Los Angeles em anos, na base dos 40 graus para cima, exigir o ar condicionado ligado permanentemente). Quando devolvemos o carro à Enterprise, fizemos 800 milhas (1300 km) sem nunca sair da grande área metropolitana de Los Angeles, apenas a fazer a "commute" diária entre Pasadena e Beverly Hills, com duas passagens por Long Beach e a ida à Disneylândia, em Anaheim, como excepções.
23 de julho de 2006
SERRA DO CALDEIRAO
Antigamente, quando se fazia Lisboa-Algarve de carro, muito antes da auto-estrada, era quase obrigatório fazer as curvas e contra-curvas da Serra do Caldeirão. Laurel Canyon Road são duas faixas de rodagem em mau estado que serpenteiam por entre o desfiladeiro Laurel, cortadas a meio, no topo do desfiladeiro, por Mulholland Drive. A estrada, que leva 10-15 minutos a percorrer a um máximo de 20 milhas por hora, funciona como um atalho ao qual se acede por Cahuenga Boulevard no lado de Studio City (perto do complexo de estúdios da Universal - é a zona em melhor estado da rua) e por Crescent Heights no lado de West Hollywood (com uma ligação quase directa a Sunset Boulevard, mas com o asfalto completamente maltratado). São vários quilómetros de curvas e contra-curvas por entre árvores e casas que literalmente desafiam as inclinações da natureza e que projectam a imagem perfeita do Verão californiano.
692 WOODBURY ROAD
Los Angeles não é uma cidade; antes uma federação de comunidades, um aglomerado de “cities” que parece ser um único subúrbio contínuo ligado por intermináveis vias rápidas de quatro, cinco faixas de rodagem, formando a Grande Los Angeles. Pasadena é uma dessas comunidades, um subúrbio afluente que fica a 30 minutos do grande centro (se o trânsito estiver bom), que se pode percorrer por inteiro sem nunca encontrar um arranha-céus ou um prédio de muitos andares. Somos convidados numa espantosa mansão restaurada ainda em processo de redecoração no estilo da renascença espanhola e ficamos no que é aqui chamado uma “casa da sogra” junto à garagem e com acesso ao jardim: uma casa separada usada para receber hóspedes com cozinha, casa de banho, frigorífico e máquina de lavar próprias. Há muitos proprietários que alugam estas casas e quem construiu a casa devia gostar muito da sogra para lhe dar uma casa destas.
A ARTE DA FILA
A maior parte das atracções da Disneylândia implicam esperar numa fila. Mas nada daquelas confusões à antiga portuguesa de filas ao deus dará: a própria arquitectura da atracção já inclui a fila, numa série de corredores serpenteantes que procuram garantir que ninguém passa à frente de ninguém (pormenor importante: a saída fica sempre longe da entrada, para manter o “suspense” junto de quem nunca visitou a atracção e garantir que o ambiente cuidadosamente construído na fila não é quebrado por quem acaba de sair e pode contar as surpresas).
As atracções mais concorridas, em dia não, podem obrigar a uma ou duas horas de fila; nesta quinta-feira quente de Julho, o máximo que esperamos é 40 minutos, que se passam bem a observar o comportamento do americano médio, tão barrigudo como o português médio, e da sua prole enquanto esperam. Muitos deles trazem a família toda e poucos têm só uma criança.
Na fila para a Haunted Mansion (30 minutos a serpentear pelos jardins de uma mansão colonial sulista que se revelará uma espécie de casa assombrada light que percorremos num sofá rotativo montado em cima de um tapete rolante), esperamos a seguir a duas trintonas que entre si trazem três crianças, duas meninas e um rapaz, que terão os seus sete-oito anos. Nos jardins, a fila passa junto a um gradeamento elevado em cima de tijolos – praticamente não há nenhuma criança na fila que resista à tentação de subir para o gradeamento e, contra os protestos dos pais, andar em cima dele. O rapaz está irrequieto, começa por queixar-se que se calhar vai ter medo, enquanto as miúdas (primas? Irmãs?) lhe dizem que não, não mete medo nenhum. A certa altura, cansado de estar na fila, o miúdo começa a deixar-se ficar para trás; a mãe começa a perder a paciência e arrasta-o. Recebe uma chamada telefónica e começa-se a queixar do mau comportamento do filho (presume-se que ao pai). Um pouco mais à frente, o miúdo começa a dar pontapés no chão, como um touro que se prepara para a investida sobre o matador; um dos seus pontapés acerta-me na canela, a mãe, que estava distraída, ouve o meu “ai” e pede-me desculpas acabrunhadas. Finalmente, o miúdo começa a queixar-se que quer ir à casa de banho. A mãe não é de modas e decide que, pronto, já chega, não vamos à Haunted Mansion, e na primeira ocasião saí da fila.
As atracções mais concorridas, em dia não, podem obrigar a uma ou duas horas de fila; nesta quinta-feira quente de Julho, o máximo que esperamos é 40 minutos, que se passam bem a observar o comportamento do americano médio, tão barrigudo como o português médio, e da sua prole enquanto esperam. Muitos deles trazem a família toda e poucos têm só uma criança.
Na fila para a Haunted Mansion (30 minutos a serpentear pelos jardins de uma mansão colonial sulista que se revelará uma espécie de casa assombrada light que percorremos num sofá rotativo montado em cima de um tapete rolante), esperamos a seguir a duas trintonas que entre si trazem três crianças, duas meninas e um rapaz, que terão os seus sete-oito anos. Nos jardins, a fila passa junto a um gradeamento elevado em cima de tijolos – praticamente não há nenhuma criança na fila que resista à tentação de subir para o gradeamento e, contra os protestos dos pais, andar em cima dele. O rapaz está irrequieto, começa por queixar-se que se calhar vai ter medo, enquanto as miúdas (primas? Irmãs?) lhe dizem que não, não mete medo nenhum. A certa altura, cansado de estar na fila, o miúdo começa a deixar-se ficar para trás; a mãe começa a perder a paciência e arrasta-o. Recebe uma chamada telefónica e começa-se a queixar do mau comportamento do filho (presume-se que ao pai). Um pouco mais à frente, o miúdo começa a dar pontapés no chão, como um touro que se prepara para a investida sobre o matador; um dos seus pontapés acerta-me na canela, a mãe, que estava distraída, ouve o meu “ai” e pede-me desculpas acabrunhadas. Finalmente, o miúdo começa a queixar-se que quer ir à casa de banho. A mãe não é de modas e decide que, pronto, já chega, não vamos à Haunted Mansion, e na primeira ocasião saí da fila.
21 de julho de 2006
PASADENA BY NIGHT
Descer a Lake Avenue no banco de tras de um descapotavel aberto a brisa de uma noite perfeita de Verao.
DISNEYLAND
A cerca de 25 milhas da baixa de Los Angeles, a Disneylândia original, que celebra este ano o 50º aniversário, anuncia-se como “the happiest place on Earth”. Por um preço: 50 dólares de entrada (para um bilhete de um dia que dá acesso apenas ao parque original, sem acesso ao mais recente parque de diversões mais radicais, Disney’s Califórnia Adventure), mais 10 dólares de estacionamento, mais o preço da comida nos restaurantes (dificilmente menos de 20-25 dólares por pessoa) e das águas e refrescos nos stands (dois dólares e meio), etc, etc, etc. Pelo direito de passar um dia inteiro no meio de uma multidão de gente vinda de todo o mundo, muita dela em excursão-rodarte familiar, dentro de uma feira popular elevada à potência 15, por baixo do calor tórrido do sol californiano, de passar meia hora em algumas filas para algumas atracções.
Mas, pelo meio de tudo isto, o “happiest place on Earth” é, mesmo, o “happiest place on Earth” porque o preço dá-nos também o direito de, nem que seja por um momento fugaz (e, neste dia passado no parque, foram muitos momentos fugazes), reencontrarmos a criança escondida dentro de nós. Quer seja nas montanhas-russas primitivas do Matterhorn Bobsleds ou da Big Thunder Mountain Railroad ou na maior sofisticação da Indiana Jones Adventure, ou na ingenuidade mal disfarçada de algumas atracções que transpiram o tempo em que foram concebidas (Mr Toad’s Wild Ride ou a Enchanted Tiki Room, velha de 40 anos e tão para lá de kitsch que já quase exige uma categoria própria para si só), há de tudo para todos na concepção sanitizada deste parque onde o mundo real fica à entrada e só volta a aparecer quando o carro sai da enorme garagem de estacionamento e regressa às auto-estradas infindáveis que correspondem à essência de Los Angeles. E nesse momento sentimos uma pequena tristeza por termos de deixar aquele parque de diversões a transbordar de gente e de calor e de dinheiro em caixa, porque a Disneylândia é um sonho em que queremos todos acreditar, mesmo depois de sabermos que é um sonho um pouco bafiento, prisioneiro de um tempo que já não existe.
Mas, pelo meio de tudo isto, o “happiest place on Earth” é, mesmo, o “happiest place on Earth” porque o preço dá-nos também o direito de, nem que seja por um momento fugaz (e, neste dia passado no parque, foram muitos momentos fugazes), reencontrarmos a criança escondida dentro de nós. Quer seja nas montanhas-russas primitivas do Matterhorn Bobsleds ou da Big Thunder Mountain Railroad ou na maior sofisticação da Indiana Jones Adventure, ou na ingenuidade mal disfarçada de algumas atracções que transpiram o tempo em que foram concebidas (Mr Toad’s Wild Ride ou a Enchanted Tiki Room, velha de 40 anos e tão para lá de kitsch que já quase exige uma categoria própria para si só), há de tudo para todos na concepção sanitizada deste parque onde o mundo real fica à entrada e só volta a aparecer quando o carro sai da enorme garagem de estacionamento e regressa às auto-estradas infindáveis que correspondem à essência de Los Angeles. E nesse momento sentimos uma pequena tristeza por termos de deixar aquele parque de diversões a transbordar de gente e de calor e de dinheiro em caixa, porque a Disneylândia é um sonho em que queremos todos acreditar, mesmo depois de sabermos que é um sonho um pouco bafiento, prisioneiro de um tempo que já não existe.
20 de julho de 2006
SUBURBIA (outra vez sem acentos)
Los Angeles parece ser um longo suburbio que se prolonga ad infinitum ao longo de quilometros e quilometros, em que e preciso pelo menos meia hora de carro para se chegar a qualquer lado. Nao tenho estado ligado a rede (apenas uma vez por dia), mas nao faltam historias para contar - quando tiver um bocadinho de disponibilidade, prometo que as conto.
17 de julho de 2006
ESTRADAS PERDIDAS
Los Angeles é uma federação de bairros, uma interminável cidade de estradas com casas e lojas e centros comerciais pelo meio do asfalto ladeado por palmeiras e árvores. Los Angeles é, como diz o David, uma "cidade incorporada", composta por zonas (West Hollywood, Pasadena, Beverly Hills, Studio City, Glendale, e por aí fora) que, todas juntas, formam a "Greater Los Angeles". Mas, ao contrário de São Francisco, não se sente tanto a vivência de bairro, talvez porque o carro é aqui meio de transporte essencial - o sistema de transportes públicos é relativamente ineficiente e só os autocarros cobrem a maior parte da rede (há uma rede de metropolitano, mas não é exactamente grande) - e as pessoas não andam realmente a pé (a regra é o "valet parking", em que os restaurantes e lojas têm empregados que se encarregam de arrumar o carro do cliente em parques privativos ou públicos próximos, ou o "customer parking", pequenos parques exclusivos para os clientes nas traseiras de restaurantes ou lojas).
KLM 0601: AMS 13h15-LAX 15h15: 15/07/2006
O que é que se faz quando se têm dez horas de vôo pela frente e um espaço útil de assento de coxia apertada que não foi feito para 1m90 de altura (porque todos os espaços feitos para 1m90 de altura estão já ocupados por pessoas que também têm 1m90 de altura), ainda por cima num vôo cheio de fim de semana que parece transportar uma espécie de "excursão rodarte" de holandeses a caminho de férias em Los Angeles, com dois bebés de colo na fila da frente e dois outros na fila de trás?
Às tantas, há miúdos a correr pelos corredores acanhados, não dá sequer para os mandar bugiar para outro lado. Este Boeing 747 é de modelo bem menos moderno que o meu vôo de Londres para São Francisco em Janeiro, e as hospedeiras de bordo têm qualquer coisa de educadoras de infância, a julgar pela paciência com que brincam com os miúdos.
Por mais que tente, não dá mesmo para dormir; nem sequer consigo ter espaço para descalçar as botas e passear pelos corredores. E estes vôos transcontinentais implicam sempre uma extensão do dia da pessoa, prolongando-o para uma espécie de directa, com as ligações a obrigarem-nos a levantar cedo e a deitar tarde (é impraticável que alguém durma realmente bem na véspera de um dia passado entre aviões que nos obriga a levantar às cinco da manhã e nos atira para a cama às sete da manhã do dia seguinte no sítio de onde partimos - embora sejam apenas onze da noite em Los Angeles).
Às tantas, há miúdos a correr pelos corredores acanhados, não dá sequer para os mandar bugiar para outro lado. Este Boeing 747 é de modelo bem menos moderno que o meu vôo de Londres para São Francisco em Janeiro, e as hospedeiras de bordo têm qualquer coisa de educadoras de infância, a julgar pela paciência com que brincam com os miúdos.
Por mais que tente, não dá mesmo para dormir; nem sequer consigo ter espaço para descalçar as botas e passear pelos corredores. E estes vôos transcontinentais implicam sempre uma extensão do dia da pessoa, prolongando-o para uma espécie de directa, com as ligações a obrigarem-nos a levantar cedo e a deitar tarde (é impraticável que alguém durma realmente bem na véspera de um dia passado entre aviões que nos obriga a levantar às cinco da manhã e nos atira para a cama às sete da manhã do dia seguinte no sítio de onde partimos - embora sejam apenas onze da noite em Los Angeles).
16 de julho de 2006
SCHIPHOL IN TRANSIT
Schiphol, Amesterdão, é um aeroporto extraordinariamente organizado, perfeitamente sinalizado, mesmo acolhedor (partindo do princípio que um aeroporto é um sítio acolhedor). É um mundo onde as lojas não têm uma única marca; são identificadas apenas pelos produtos que vêem (perfumes, cosméticos, electrónica, jornais e revistas, diamantes, jóias). O tapete rolante, junto à porta onde aguardo o embarque para Los Angeles, repete, todos os cinco segundos, "mind your step" - sinto-me no metro de Londres, sem o mínimo risco de me perder. Para trás, nesta manhã de sábado, duas horas e meia de vôo desde Lisboa, à minha frente dez horas e meia até Los Angeles. E, como sempre que estou em trânsito num aeroporto, pareço sentir-me fora do mundo.
15 de julho de 2006
STRESS
Somem lá, s. f. f., o calor que está (30 graus dentro de casa à uma da manhã), o incontornável stress pré-viagem (ah pois) e a necessidade de levantar cedo. Receita infalível para dormir pouco e mal.
14 de julho de 2006
O DISCO DO DESASSOSSEGO

Passar ao lado deste disco (e parece-me que anda muita gente a fazê-lo) é passar ao lado de uma das mais notáveis reinvenções sonoras dos últimos anos: 20 anos depois de "Graceland" (e a comparação nem sequer é aleatória - ouça-se "Another Galaxy" ou "Outrageous"), Paul Simon convoca Brian Eno para desenhar as "paisagens sónicas" que fazem de "Surprise" um álbum que não se revela nem à primeira, nem à segunda, nem mesmo à terceira audição da praxe. Começa por parecer um híbrido desconjuntado onde Eno se impõe a Simon, depois lentamente percebe-se como tudo faz sentido e encaixa na perfeição: "Surprise" é um álbum que traduz na sua arquitectura sonora milimetricamente descontínua o desassossego do americano moderno, um disco onde tudo faz sentido precisamente porque não o parece fazer. Simon fez o disco que quis fazer e não o poderia ter feito sem Eno: a sua poesia líquida e as suas melodias enganadoramente simples estão lá intactas. O mundo é que mudou, e o modo de elas se enquadrarem nele também. "Surprise" é uma surpresa — das boas.
(Com a mais valia de ter uma capa de primeira água, assinada por um mestre do design, o grande Chip Kidd, mais conhecido pelos seus trabalhos para livros — visíveis aqui)
13 de julho de 2006
ADELAIDE! METE OS PUTOS NA BARRACA QUE VAI HAVER PORRADA
Não sei quem foi que decidiu que, este ano, o selo do carro dispensava o habitual impressozinho e passava a ser emitido directamente no sistema informático das Finanças. Teria sido uma ideia interessante, claramente, preparar o sistema informático para a avalanche que se iria seguir, o que teria evitado resultados como aqueles a que assisti ontem na minha repartição: ao fim de uma paciente hora de fila (banda-sonora, para os interessados: "X&Y" dos Coldplay), o sistema foi pura e simplesmente abaixo. Num dos guichets, a funcionária que atendia mostrava-se tão irritada com o bloqueio do sistema como os clientes — e explicava que acontecia o mesmo de manhã cedo, às nove da manhã, e a seguir ao almoço, pelas duas da tarde, quando toda a gente ligava os computadores ou regressava do almoço.
O problema é que havia quem não estivesse na fila para tratar do selo do carro (eu incluido) e houve quem se chegasse à frente, explicando o caso à funcionária que, cheia de boa vontade, se prontificou a resolver a questão. O problema é que a senhora que se chegou à frente tinha acabado de chegar e havia quem estivesse à espera há muito mais tempo - e eu tive a feliz ideia de perguntar como é que uma senhora 50 números a seguir a mim já estava a ser atendida. "Ah, mas eu não estou aqui para o selo do carro." "Pois, mas eu também não. E não devo ser o único." (E não era.)
Não foi preciso mais para cair o Carmo e a Trindade e haver quem partisse para a ignorância, acusando a senhora de ser amiga dos funcionários, de ser favorecida, etc, etc. Ou seja, havia quem estivesse irritado por lhes terem passado à frente, e havia quem estivesse irritado por não ter sido chico-esperto e ter feito o mesmo que a senhora tinha feito. E havia ainda quem protestasse, mas quisesse manter a moralidade.
Às tantas, a funcionária já dizia que não tinha culpa do sistema do selo do carro não funcionar (verdade) e que às tantas começa a ser preciso haver polícia para regular a confusão. Não por acaso, tinha havido um polícia à espera na fila (não sei para tratar do quê), mas entretanto tinha-se fartado e ido embora.
O problema é que havia quem não estivesse na fila para tratar do selo do carro (eu incluido) e houve quem se chegasse à frente, explicando o caso à funcionária que, cheia de boa vontade, se prontificou a resolver a questão. O problema é que a senhora que se chegou à frente tinha acabado de chegar e havia quem estivesse à espera há muito mais tempo - e eu tive a feliz ideia de perguntar como é que uma senhora 50 números a seguir a mim já estava a ser atendida. "Ah, mas eu não estou aqui para o selo do carro." "Pois, mas eu também não. E não devo ser o único." (E não era.)
Não foi preciso mais para cair o Carmo e a Trindade e haver quem partisse para a ignorância, acusando a senhora de ser amiga dos funcionários, de ser favorecida, etc, etc. Ou seja, havia quem estivesse irritado por lhes terem passado à frente, e havia quem estivesse irritado por não ter sido chico-esperto e ter feito o mesmo que a senhora tinha feito. E havia ainda quem protestasse, mas quisesse manter a moralidade.
Às tantas, a funcionária já dizia que não tinha culpa do sistema do selo do carro não funcionar (verdade) e que às tantas começa a ser preciso haver polícia para regular a confusão. Não por acaso, tinha havido um polícia à espera na fila (não sei para tratar do quê), mas entretanto tinha-se fartado e ido embora.
12 de julho de 2006
UTILIDADES FUNCIONAIS DO IPOD (ou outro leitor de MP3) #1
Dispensa-nos de ouvir os protestos do povo (com ou sem razão) nas repartições de finanças.
11 de julho de 2006
O PRIMEIRO SEGREDO DE BERLIM
A bolsa de apostas sobre o que terá Materazzi dito a Zidane para que o jogador francês se vá a ele como touro arfante a diestro de capa vermelha começa a parecer-se perigosamente com o célebre Terceiro Segredo de Fátima: toda a gente tem uma opinião mas ninguém sabe o que realmente foi dito.
10 de julho de 2006
CONTINUANDO O SEMPRE BEM-VINDO TÓPICO PLANTÍGRADO
Não gosto tanto de pandas como dos ursos menos "kiduchos", mas aqui confesso que também não consigo resistir.
9 de julho de 2006
MUNDO DE AVENTURAS
Já não é a primeira vez que passo pela loja na rua da Misericórdia e fico a olhar para a montra e para o seu interior, mas foi a primeira vez que entrei na Loja das Colecções — no fundo, nada mais do que um alfarrabista mais organizado do que a média, onde em tempos existia um McDonald's — , onde coexistem alegremente, lado a lado, discos de António Mourão e Amália Rodrigues, literatura revolucionária do 25 de Abril e traduções do Portugal salazarista do "Mein Kampf".
Ao fundo, mesmo em frente à porta de entrada, estão as bandas-desenhadas. E aí, com grande surpresa, dei por uma série perfeitamente organizada de colecções do Falcão, Mundo de Aventuras e outros Selecções, entre os quais, numa breve passagem, reconheci as capas de inúmeros números de que me recordo em casa dos pais, passadas de mão em mão dos meus irmãos mais velhos (números posteriores, já dos anos 1970, eram comprados mais pelo meu pai e por mim próprio). Alguns deles ainda os tenho, guardados em minha casa num arquivo de cartão. Folheando as caixas, deliciei-me com as traduções "às três pancadas", letradas à máquina de escrever e que pareciam muitas vezes deturpar o sentido das histórias e ocupar mais espaço que os próprios desenhos. E regressei a uma época em que havia outra ingenuidade e outro maravilhamento no modo como criávamos e líamos a "pulp fiction" descartável.
Ao fundo, mesmo em frente à porta de entrada, estão as bandas-desenhadas. E aí, com grande surpresa, dei por uma série perfeitamente organizada de colecções do Falcão, Mundo de Aventuras e outros Selecções, entre os quais, numa breve passagem, reconheci as capas de inúmeros números de que me recordo em casa dos pais, passadas de mão em mão dos meus irmãos mais velhos (números posteriores, já dos anos 1970, eram comprados mais pelo meu pai e por mim próprio). Alguns deles ainda os tenho, guardados em minha casa num arquivo de cartão. Folheando as caixas, deliciei-me com as traduções "às três pancadas", letradas à máquina de escrever e que pareciam muitas vezes deturpar o sentido das histórias e ocupar mais espaço que os próprios desenhos. E regressei a uma época em que havia outra ingenuidade e outro maravilhamento no modo como criávamos e líamos a "pulp fiction" descartável.
8 de julho de 2006
MOMENTO DE ADMIRAÇÃO PLANTÍGRADA
Não quer dizer que tenhamos de nos chegar perto, mas os ursos são tão fixes.
7 de julho de 2006
6 de julho de 2006
O CLIENTE TEM SEMPRE RAZÃO
No banco, depois de levantar cheques na máquina automática, para a qual está uma fila de três pessoas atrás de mim, dirijo-me para a caixa multibanco da qual acaba de se afastar uma pessoa. O senhor de T-shirt amarela e pochette castanha toca-me no ombro e, com excessiva e melíflua educação, diz-me que "é fila única", nem me dando tempo para meter o cartão à máquina. Surpreendido, cedo-lhe o lugar e digo-lhe que não sabia que era fila única — naquela sucursal, o habitual é filas separadas. A senhora que estava atrás dele, com um sorriso "que é que se há-de fazer?", diz que qualquer pessoa acharia que eram filas separadas.
Logo a seguir, no posto de correio, dirijo-me ao balcão para solicitar um impresso de registo e um aviso de recepção para ir preenchendo enquanto espero a minha vez. A empregada pede com maus modos para esperar enquanto fala com um colega, puxando dos impressos e mantendo-os na mão enquanto conversa mas só mos entregando depois de terminar de falar.
Logo a seguir, no posto de correio, dirijo-me ao balcão para solicitar um impresso de registo e um aviso de recepção para ir preenchendo enquanto espero a minha vez. A empregada pede com maus modos para esperar enquanto fala com um colega, puxando dos impressos e mantendo-os na mão enquanto conversa mas só mos entregando depois de terminar de falar.
5 de julho de 2006
MARIA ALBERTINA COMO FOSTE NESSA DE CHAMAR VANESSA À TUA MENINA
Na interminável série dos nomes-que-se-não-existissem-tinham-de-ser-inventados, numa loja do Colombo que estava com uma mão-cheia de currículos de potenciais empregados em cima da mesa, vi no topo da pilha o seguinte nome: Vilma Solange.
4 de julho de 2006
CARREIRA 28 (slight return, a pedido de várias famílias)
É domingo, meio da manhã. O eléctrico vem relativamente vazio dos Prazeres, mas é na rua da Conceição que começa genuinamente a encher, maioritariamente com turistas. Uma jovem gorda, com um bebé ao colo, faz sinal a um casal estrangeiro sentado na frente do eléctrico apontando com o dedo o letreiro vermelho que indica que aqueles lugares devem ser cedidos a idosos, grávidas ou acompanhantes de crianças de colo; não percebo se o casal não queria ceder o lugar ou, face à enchente, não se conseguia levantar antes do eléctrico parar num sinal ou numa paragem.
Algures também pela Baixa, um senhor de meia-idade, cabelo branco, camisa aos quadrados largos, calças de fazenda, sacos de plástico na mão, posiciona-se em pé ao meu lado. A certa altura, começa a cantarolar em voz alta com requebros fadistas, não sei se inventando a letra ou cantando quadras soltas, intercaladas com o assobiar da melodia. O concerto imprevisto e não solicitado, que ainda pensei se dever à forte presença turística continua no entanto depois do eléctrico se esvaziar consideravelmente no Castelo de São Jorge, e continua ininterruptamente — quando saio no Bairro das Colónias, o senhor continua a trautear impetuosamente.
Algures também pela Baixa, um senhor de meia-idade, cabelo branco, camisa aos quadrados largos, calças de fazenda, sacos de plástico na mão, posiciona-se em pé ao meu lado. A certa altura, começa a cantarolar em voz alta com requebros fadistas, não sei se inventando a letra ou cantando quadras soltas, intercaladas com o assobiar da melodia. O concerto imprevisto e não solicitado, que ainda pensei se dever à forte presença turística continua no entanto depois do eléctrico se esvaziar consideravelmente no Castelo de São Jorge, e continua ininterruptamente — quando saio no Bairro das Colónias, o senhor continua a trautear impetuosamente.
3 de julho de 2006
DESCONTEXTUALIZAR POR AÍ
"Emagreci sete quilos desde que comecei a fazer de vaca num musical" - Mafalda Sacchetti, cantora, a Micael Pereira, na revista Única do Expresso, sábado, 1 de Julho.
2 de julho de 2006
PODER MATERNAL
Ameaça da mãe à criancinha que não pára de se portar mal na loja. "Olha, estás a ver o McDonald's? Já era."
1 de julho de 2006
NATUREZA MORTA NAS ESCADINHAS DA RUA DE S. BERNARDO
1 de Julho, duas da manhã: uma garrafa de meio litro de cerveja, vazia, de um lado do corrimão; uma lata de Fanta limão, vazia, do outro lado do corrimão, no mesmo degrau; uma caixa de cartão, de pastelaria, vazia, por baixo do corrimão, dois degraus abaixo, com alguns guardanapos de papel amarrotados.
30 de junho de 2006
SALÃO PAIS
Já sou cliente do meu barbeiro há tanto tempo, e já estou tão habituado às idiossincrasias típicas do barbeiro de bairro, que ainda me pergunto porque é que me surpreende quando ele interrompe o corte de cabelo sem pedir desculpa para ir à porta perguntar alguma coisa a um amigo que passa de carro.
29 de junho de 2006
FORMA E FUNÇÃO (PÚBLICA)
Soube hoje pelo noticiário da televisão que as escrituras públicas deixam de ser obrigatórias para as empresas dentro de uma procura de redução da burocracia. Os empresários acham muito bem. Os notários acham muito mal, o que não só é compreensível como perfeitamente legítimo porque vão ter menos trabalho. No entanto, o porta-voz dos notários tentou mascarar o desacordo da classe com esta medida por trás de um discurso curiosamente emproado segundo o qual os empresários continuariam a preferir ter um documento validando legal e juridicamente a constituição de uma empresa, mesmo que ele já não seja obrigatório.
28 de junho de 2006
SERVIÇOS PÚBLICOS
Desde miúdo que me habituei a funcionar com gás de garrafa: em casa dos meus pais sempre tivemos gás de garrafa, com o resultado prático de que geralmente era quando eu estava no banho que o súbito enregelamento da água informava que o gás tinha acabado e era preciso substituir a garrafa.
Pensei que esses tempos teriam ficado para trás quando finalmente me mudei e a minha primeira casa alugada tinha gás de cidade. Quando me mudei para a minha actual casa, mantive o gás canalizado — até ao momento em que uma misteriosa fuga descoberta pela Lisboagás mas cuja localização nunca foi verdadeiramente encontrada os levou a cortar o fornecimento. O senhorio pesou bem as coisas e decidiu-se a instalar gás de garrafa em minha casa, em alternativa a um período prolongado de obras que implicaria deitar abaixo e reconstruir totalmente a cozinha, o que não o motivava sobremaneira (nem a mim, diga-se em abono da verdade).
O gás de garrafa continua a ter tendência para acabar quando estou no banho. Mas dá muito jeito em dias como o de hoje, em que, devido a obras de substituição das condutas realizadas pela Lisboagás, o meu prédio tem o gás cortado, situação que só deverá ser regularizada amanhã à tarde. Envio daqui um abraço de solidariedade aos infelizes da Barjona de Freitas que a Lisboagás deixou sem gás já há uns largos dias e não há maneira de resolver.
Pensei que esses tempos teriam ficado para trás quando finalmente me mudei e a minha primeira casa alugada tinha gás de cidade. Quando me mudei para a minha actual casa, mantive o gás canalizado — até ao momento em que uma misteriosa fuga descoberta pela Lisboagás mas cuja localização nunca foi verdadeiramente encontrada os levou a cortar o fornecimento. O senhorio pesou bem as coisas e decidiu-se a instalar gás de garrafa em minha casa, em alternativa a um período prolongado de obras que implicaria deitar abaixo e reconstruir totalmente a cozinha, o que não o motivava sobremaneira (nem a mim, diga-se em abono da verdade).
O gás de garrafa continua a ter tendência para acabar quando estou no banho. Mas dá muito jeito em dias como o de hoje, em que, devido a obras de substituição das condutas realizadas pela Lisboagás, o meu prédio tem o gás cortado, situação que só deverá ser regularizada amanhã à tarde. Envio daqui um abraço de solidariedade aos infelizes da Barjona de Freitas que a Lisboagás deixou sem gás já há uns largos dias e não há maneira de resolver.
27 de junho de 2006
PORTUGAL PORTUGAL PORTUGAL
Quem quisesse ontem saber efectivamente notícias do país e do mundo no noticiário das 20h00 da RTP-1 teve de esperar precisamente 32 minutos: 19 dedicados à gloriosa vitória lusa sobre as hordes holandesas, à arbitragem, aos casos do jogo, ao que os outros acharam do jogo e ao dia de folga do próximo adversário; 8 minutos de intervalo preenchidos por anúncios; e 4 dedicados ao jogo Itália-Austrália. 26 minutos depois, o noticiário estava terminado, para dar lugar a António Vitorino e Judite de Sousa, e não se falou das propostas da Ministra da Cultura.
26 de junho de 2006
O MARAVILHOSO MUNDO DA ESTRADA DE BENFICA
Letreiro luminoso de um sapateiro: "Super-Rápido de Sete Rios — concerto de solas e sapatos".
Graffiti lido junto ao restaurante Coral: "Pena de morte já para os ladrões!".
Graffiti lido alguns metros mais à frente, na mesma letra: "O ar condicionado mata as pessoas".
Cartão escrito em maiúsculas numa loja de colchões: "Osteoporose? Visco-elástico!"
Graffiti lido junto ao restaurante Coral: "Pena de morte já para os ladrões!".
Graffiti lido alguns metros mais à frente, na mesma letra: "O ar condicionado mata as pessoas".
Cartão escrito em maiúsculas numa loja de colchões: "Osteoporose? Visco-elástico!"
25 de junho de 2006
AND EACH TIME I GO TO BED I PRAY LIKE ARETHA FRANKLIN
Ainda não ouvi o disco novo, mas a existência de um quinto álbum de estúdio do projecto de Paul Strohmeyer aka Green Gartside, isto é, dos Scritti Politti, levou-me a repescar dois dos meus discos favoritos de todo o sempre, dois dos mais extraordinários álbuns pop que me passaram pelos ouvidos — e perceber que ainda o continuam a ser. Um recorda-me dos meus tempos de liceu e das descobertas que eu fazia no "Som da Frente" do António Sérgio no horário das quatro da tarde, o outro dos meus primeiros tempos a trabalhar na EMI, em "part-time" por entre o segundo ano da faculdade.
"Cupid & Psyche '85" (Virgin, 1985) e "Provision" (Virgin, 1988) são dois monumentos ao hedonismo inteligente, alma soul e enlevo pop capturados dentro da tecnologia polida e precisa da electrónica asséptica, uma espécie de "blue-eyed soul" carregada de subtextos semióticos, paradoxo apropriado a uma década de forma antes de função, fachada em vez de substância (uma das canções de "Provision" chamava-se até "Philosophy Now"), numa desconstrução subversiva e doce das regras e códigos da canção pop que nunca saía das suas fronteiras. "Cupid & Psyche '85" é a exposição, "Provision" o desenvolvimento (ou, se quisermos, a expansão do orçamento para a super-produção, mantendo intocável a capacidade de fazer de uma letra abstracta um lúdico jogo de palavras sobre o amor perfeitamente encaixado numa melodia contagiante). E, sendo dois álbuns absolutamente do seu tempo, cápsulas perfeitas de uma era que já não volta, sobreviveram-lhe com uma ingenuidade desarmante que chega a surpreender.
Mas Simon Reynolds explica tudo muito melhor do que eu.
"Cupid & Psyche '85" (Virgin, 1985) e "Provision" (Virgin, 1988) são dois monumentos ao hedonismo inteligente, alma soul e enlevo pop capturados dentro da tecnologia polida e precisa da electrónica asséptica, uma espécie de "blue-eyed soul" carregada de subtextos semióticos, paradoxo apropriado a uma década de forma antes de função, fachada em vez de substância (uma das canções de "Provision" chamava-se até "Philosophy Now"), numa desconstrução subversiva e doce das regras e códigos da canção pop que nunca saía das suas fronteiras. "Cupid & Psyche '85" é a exposição, "Provision" o desenvolvimento (ou, se quisermos, a expansão do orçamento para a super-produção, mantendo intocável a capacidade de fazer de uma letra abstracta um lúdico jogo de palavras sobre o amor perfeitamente encaixado numa melodia contagiante). E, sendo dois álbuns absolutamente do seu tempo, cápsulas perfeitas de uma era que já não volta, sobreviveram-lhe com uma ingenuidade desarmante que chega a surpreender.
Mas Simon Reynolds explica tudo muito melhor do que eu.
24 de junho de 2006
22 de junho de 2006
PARIS DAY TRIP
07h55 TP432 Lisboa/Paris Orly
O aeroporto de Lisboa está cheio de grupos (muitos deles "corporate") com camisolas, cachecóis, bandeiras portuguesas, prestes a apanhar o avião para ir apoiar a selecção. Este conceito da "day trip" parece estar a ganhar apoiantes. O vôo para Paris sai, contudo, com cerca de 20 minutos de atraso, explicados de modo pouco convincente pelo comandante com atraso no carregamento das malas e um pequeno problema técnico já resolvido. À chegada a Paris, o tempo está encoberto.
13h00-15h45 Marais
Chuvisca quando o táxi nos deixa no Marais. Decidimos almoçar perto da zona das entrevistas: escolhemos um "bistro" de esplanada na Rue Garon, debaixo de um toldo. Um delicioso pato confitado com batatas salteadas e salada de alface e rúcula com um vinagrete muito suave. Quando visito a casa de banho, fico surpreendido com a acanhada cozinha.
Já perto do fim da refeição, sentam-se na mesa do lado duas trintonas elegantes, com ar de mulheres de negócios do mundo da moda, acompanhadas por um trintão igualmente elegante, com ar dubitativamente bissexual, todos vestidos de preto justo. Ele pede só um café, elas bebem coca-cola e pedem sanduíches. Uma delas, loura, longos cabelos, mala de mão multicor ao colo, passa o almoço todo a falar ao telemóvel em italiano enquanto come a sanduíche de garfo e faca, e só quando no prato apenas resta um pouco de salada e uma ponta de pão torrado pousa o telemóvel.
16h00-18h00 Centre Pompidou, Le Centre Halles Café, Les Halles
Beaubourg (o nome comum do museu de arte moderna que é o Centre Pompidou) é um labirinto, um emaranhado de galerias dentro de uma estrutura que parece um emaranhado temporário e exposto de tubos e armações metálicas. Subimos as escadas rolantes exteriores pelos tubos laterais translúcidos que, do sexto andar, nos deixam ver a cidade em toda a sua magnificência tradicional, mesmo num dia cinzento e encoberto como este, com a Torre Eiffel a dominar a paisagem à esquerda.
Nas ruas, toda a gente parece estar a passear depois do almoço, tal o movimento nesta tarde de quarta-feira, dia da Fête de la Musique espalhada por toda a cidade.
19h20-20h00 RER linha B3 Châtelet Les Halles-Roissy Charles de Gaulle 1
De regresso ao aeroporto (mas não o mesmo de onde partimos), tomamos o comboio suburbano para Roissy — oito euros o bilhete, apanhamos um comboio quase imediatamente, e o João Miguel aponta correctamente que, assim que saímos da segunda estação ainda parisiense, Paris Nord, contam-se pelos dedos os passageiros de etnia branca no comboio, que se vai esvaziando lentamente nas estações suburbanas de Aulnay-sous-Bois e Sevran/Beaudottes. Uma vez saídos desta última, feia e subterrânea, o comboio viaja por entre bosques imaculadamente verdes até regressar ao subterrâneo em Roissy Charles de Gaulle.
20h00-21h45 Roissy Charles de Gaulle Satellite 6
21h45 TP429 Roissy Charles de Gaulle/Lisboa
A empregada do check-in da TAP é uma volumosa senhora negra simpatiquíssima que nos senta na traseira do avião em coxias contíguas, permitindo-nos assim viajar afastados do enorme grupo de pais e crianças que regressam de uma excursão-rodarte à Disneylândia de Paris, visível pelos lenços de pirata que alguns pais usam à cabeça por cima de T-shirts justas que deixam ver as barrigas de cerveja, pelas maquilhagens de princesa usadas por algumas meninas, pelos inúmeros sacos de plástico Disneyland Resort Paris que parecem proliferar, pelas orelhas, bonés e T-shirts do rato Mickey. A aterragem é um bocado camioneta-de-carreira-na-estrada-da-Malveira devido ao vento que se faz sentir lá fora.
O aeroporto de Lisboa está cheio de grupos (muitos deles "corporate") com camisolas, cachecóis, bandeiras portuguesas, prestes a apanhar o avião para ir apoiar a selecção. Este conceito da "day trip" parece estar a ganhar apoiantes. O vôo para Paris sai, contudo, com cerca de 20 minutos de atraso, explicados de modo pouco convincente pelo comandante com atraso no carregamento das malas e um pequeno problema técnico já resolvido. À chegada a Paris, o tempo está encoberto.
13h00-15h45 Marais
Chuvisca quando o táxi nos deixa no Marais. Decidimos almoçar perto da zona das entrevistas: escolhemos um "bistro" de esplanada na Rue Garon, debaixo de um toldo. Um delicioso pato confitado com batatas salteadas e salada de alface e rúcula com um vinagrete muito suave. Quando visito a casa de banho, fico surpreendido com a acanhada cozinha.
Já perto do fim da refeição, sentam-se na mesa do lado duas trintonas elegantes, com ar de mulheres de negócios do mundo da moda, acompanhadas por um trintão igualmente elegante, com ar dubitativamente bissexual, todos vestidos de preto justo. Ele pede só um café, elas bebem coca-cola e pedem sanduíches. Uma delas, loura, longos cabelos, mala de mão multicor ao colo, passa o almoço todo a falar ao telemóvel em italiano enquanto come a sanduíche de garfo e faca, e só quando no prato apenas resta um pouco de salada e uma ponta de pão torrado pousa o telemóvel.
16h00-18h00 Centre Pompidou, Le Centre Halles Café, Les Halles
Beaubourg (o nome comum do museu de arte moderna que é o Centre Pompidou) é um labirinto, um emaranhado de galerias dentro de uma estrutura que parece um emaranhado temporário e exposto de tubos e armações metálicas. Subimos as escadas rolantes exteriores pelos tubos laterais translúcidos que, do sexto andar, nos deixam ver a cidade em toda a sua magnificência tradicional, mesmo num dia cinzento e encoberto como este, com a Torre Eiffel a dominar a paisagem à esquerda.
Nas ruas, toda a gente parece estar a passear depois do almoço, tal o movimento nesta tarde de quarta-feira, dia da Fête de la Musique espalhada por toda a cidade.
19h20-20h00 RER linha B3 Châtelet Les Halles-Roissy Charles de Gaulle 1
De regresso ao aeroporto (mas não o mesmo de onde partimos), tomamos o comboio suburbano para Roissy — oito euros o bilhete, apanhamos um comboio quase imediatamente, e o João Miguel aponta correctamente que, assim que saímos da segunda estação ainda parisiense, Paris Nord, contam-se pelos dedos os passageiros de etnia branca no comboio, que se vai esvaziando lentamente nas estações suburbanas de Aulnay-sous-Bois e Sevran/Beaudottes. Uma vez saídos desta última, feia e subterrânea, o comboio viaja por entre bosques imaculadamente verdes até regressar ao subterrâneo em Roissy Charles de Gaulle.
20h00-21h45 Roissy Charles de Gaulle Satellite 6
21h45 TP429 Roissy Charles de Gaulle/Lisboa
A empregada do check-in da TAP é uma volumosa senhora negra simpatiquíssima que nos senta na traseira do avião em coxias contíguas, permitindo-nos assim viajar afastados do enorme grupo de pais e crianças que regressam de uma excursão-rodarte à Disneylândia de Paris, visível pelos lenços de pirata que alguns pais usam à cabeça por cima de T-shirts justas que deixam ver as barrigas de cerveja, pelas maquilhagens de princesa usadas por algumas meninas, pelos inúmeros sacos de plástico Disneyland Resort Paris que parecem proliferar, pelas orelhas, bonés e T-shirts do rato Mickey. A aterragem é um bocado camioneta-de-carreira-na-estrada-da-Malveira devido ao vento que se faz sentir lá fora.
21 de junho de 2006
PARIS DAY TRIP (prelúdio/resumo)
07h55 TP432 Lisboa/Paris Orly 13h00-15h45Marais, Café Bar Rue Garon, entrevistas 16h00-18h00 Centre Georges Pompidou, Le Centre Halles Café, Les Halles 18h00-19h15 Fnac Forum les Halles 19h20-20h00 RER linha B3 Châtelet-Les Halles/Roissy Charles de Gaulle 21h45 TP429 Paris Charles de Gaulle/Lisboa
(e porque será que sempre que há uma criança birrenta a fazer fitas num aeroporto é sempre uma criança portuguesa?)
(desenvolvimentos no próximo post)
(e porque será que sempre que há uma criança birrenta a fazer fitas num aeroporto é sempre uma criança portuguesa?)
(desenvolvimentos no próximo post)
20 de junho de 2006
CONVENTO SEM AÇÚCAR
Reportagem, ontem, no telejornal da RTP-1, sobre os exames nacionais, com a repórter a perguntar a uma roda de estudantes se tinham lido o romance que fazia parte do currículo e que iria sair no exame, "Memorial do Convento" de José Saramago. Todos disseram, sem excepção, que não o tinham lido, e que se tinham preparado para o exame com os "resumos". Fiquei perplexo e escandalizado pelo ar divertido, tão tipicamente adolescente "sim-eu-sei-que-não-fiz-o-que-devia-mas-sou-tão-giro-tão-queriducho-que-vocês-me-vão-desculpar-com-certeza" com que eles assumiam que não tinham lido o livro.
Claro que, depois, me lembrei da seca que foi ter de ler as "Viagens na Minha Terra" do Almeida Garrett no liceu e "A Sibila" da Agustina Bessa-Luís no 12º ano. Mas pelo menos li (mesmo que a muito custo, é verdade; e nem cheguei a comprar "A Sibila", li-o emprestado por uma colega, e achei uma seca tão transcendente que fiquei irremediavelmente vacinado contra a escrita de Agustina, embora me pareça normal que um puto de 18 anos que está virado para outras coisas não fique entusiasmado com a Agustina a não ser que o/a professor/a consigam dar a entender como a Agustina é boa, o que não foi o caso). Ou seja, há uma parte de mim que os compreende, porque naquela idade há coisas que não se abrangem, mas há outra que não percebe como é possível baldar-se desta maneira a coisas que não são tão irrelevantes como podem parecer à mente de um teenager inconsciente. Claro que o Saramago ao pé dos "Morangos com Açúcar" não é ninguém.
Claro que, depois, me lembrei da seca que foi ter de ler as "Viagens na Minha Terra" do Almeida Garrett no liceu e "A Sibila" da Agustina Bessa-Luís no 12º ano. Mas pelo menos li (mesmo que a muito custo, é verdade; e nem cheguei a comprar "A Sibila", li-o emprestado por uma colega, e achei uma seca tão transcendente que fiquei irremediavelmente vacinado contra a escrita de Agustina, embora me pareça normal que um puto de 18 anos que está virado para outras coisas não fique entusiasmado com a Agustina a não ser que o/a professor/a consigam dar a entender como a Agustina é boa, o que não foi o caso). Ou seja, há uma parte de mim que os compreende, porque naquela idade há coisas que não se abrangem, mas há outra que não percebe como é possível baldar-se desta maneira a coisas que não são tão irrelevantes como podem parecer à mente de um teenager inconsciente. Claro que o Saramago ao pé dos "Morangos com Açúcar" não é ninguém.
19 de junho de 2006
FLASH POLAROID
O polícia desce as escadas do Colombo olhando para dentro do saco da Worten que traz na mão.
18 de junho de 2006
FUNDAMENTAL, ACTUALLY.

O Jorge Lopes já tinha avisado (aqui, e em Dezembro!), e o Jorge é um rapaz atento e de bom gosto, mas eu estava com uma certa relutância em acreditar que pudesse ser possível, depois do descalabro de "Release" e apesar dos bons resultados do "Battleship Potemkin". Depois, é o meu guru Andrew Sullivan que, pelo meio dos seus posts sociopolíticos a propósito desse país estranho e magnífico que é a América, tem andado a fazer campanha pela absoluta genialidade do objecto (o último exemplo da coisa está aqui). Agora que já ouvi, acho que é da mais elementar justiça confirmar que, sim, "Fundamental" é um magnífico regresso à melhor forma dos Pet Shop Boys e gostava de acreditar que a culpa não é só de Trevor Horn (ele dos Frankie Goes To Hollywood e ABC). Diga-se, já agora, que não há em "Fundamental" nenhum "Left to My Own Devices" (a odisseia surrealista tecno-disco que Horn produziu a Neil Tennant e Chris Lowe no "Introspective" de 1988), mas há três ou quatro momentos que chegam muito perto ("The Sodom and Gomorrah Show" anyone? ou mesmo o vergonhoso tecno-disco-xunga-New-Orderiano "Minimal"?).
O que é verdadeiramente extraordinário em "Fundamental" é que este é um grande álbum de pop política: os Pet Shop Boys dedicam-no a dois jovens iranianos condenados à morte por assumirem a sua homossexualidade; em "I'm with Stupid" lançam uma diatribe corrosiva à relação George W. Bush/Tony Blair que não fica atrás do "Shoot the Dog" de George Michael; "Integral" é uma ameaçadora meditação sobre o totalitarismo escondido por trás da limitação das liberdades que faz pensar em "V de Vingança". E depois há "Luna Park", sobre o alheamento mediático do mundo lá fora, que resume na perfeição o que é "Fundamental", nas palavras imediatas de Prince: "two thousand zero zero party over oops out of time/ tonight I'm gonna party like it's 1999". A festa de arromba antes do apocalipse.
E tudo isto ao som de alguma da pop descartável mais inspirada da carreira dos Pet Shop Boys. "Fundamental" é fundamental. E, sim, é um dos discos do ano.
17 de junho de 2006
CONVÉM SEMPRE TER UMA PEQUENA DESCULPA PREPARADA
...para o caso de se ser apanhado no supermercado com a braguilha das calças aberta. "Ah, o fecho abre sozinho".
(Por acaso é verdade, o fecho tem tendência a abrir-se sozinho. No caso vertente, contudo, apanhei a distracção antes de alguém reparar.)
(Por acaso é verdade, o fecho tem tendência a abrir-se sozinho. No caso vertente, contudo, apanhei a distracção antes de alguém reparar.)
16 de junho de 2006
AFIRMAÇÃO POTENCIALMENTE INQUESTIONÁVEL (note to self)
Quando você lê o que escrevo, note bem isto, nunca o esqueça, a vida é uma linguagem, a escrita uma outra bem diferente. As gramáticas duma e doutra não são intermutáveis.
— Louis Aragon, in Tratado do Estilo (1928), traduzido por Júlio Henriques (Lisboa: Antígona, 1995)
— Louis Aragon, in Tratado do Estilo (1928), traduzido por Júlio Henriques (Lisboa: Antígona, 1995)
15 de junho de 2006
POST DE DEVOÇÃO INCONDICIONAL
...à divina voz da Petra, que é nossa, muito nossa e de mais ninguém e canta os blues como ninguém em Portugal o faz. Ainda por cima, não precisam de pagar nada para a ouvir cantar: façam o favor de ir aqui e, descendo pela página abaixo, procurem por Nobody's Bizness - Ao Vivo na Capela da Misericórdia Sines 2005 e descarreguem, totalmente gratuitamente, o "Full Album". Não garanto que a vossa vida mude, mas ficará certamente abrilhantada.
Em alternativa, podem ir aqui saber mais sobre a Petra e os Nobody's Bizness Blues Band, ouvir um bocado de música antes de decidirem ir buscar o disco todo e saber quando é que a podem ir ouvir cantar ao vivo.
Ah, e Petra, mon petit poussin, je vous demande pardon, je n'ai pas remarqué votre joyeux anniversaire et je n'ai toujours pas écouté le disque de Paul Simon que notre petit JB trouve assez chiant. Je vous embrasse très fort, mon petit poussin, et j'écoute toujours notre Ry Cooder.
Em alternativa, podem ir aqui saber mais sobre a Petra e os Nobody's Bizness Blues Band, ouvir um bocado de música antes de decidirem ir buscar o disco todo e saber quando é que a podem ir ouvir cantar ao vivo.
Ah, e Petra, mon petit poussin, je vous demande pardon, je n'ai pas remarqué votre joyeux anniversaire et je n'ai toujours pas écouté le disque de Paul Simon que notre petit JB trouve assez chiant. Je vous embrasse très fort, mon petit poussin, et j'écoute toujours notre Ry Cooder.
14 de junho de 2006
LUZ E SOMBRA
Parece que estou a dormir há várias horas, mas afinal são apenas duas e meia da manhã quando acordo meio estremunhado, o meu quarto iluminado por clarões regulares de luz branca como as estroboscópicas das discotecas, com um ribombar de tambores constante à distância. Entre as duas e meia e as três e meia da manhã, a tempestade não dá tréguas, com uma sequência de relâmpagos que iluminam o céu por cima das nuvens cinzentas e trovões que soam ininterruptamente como uma batalha que se ouve à distância. O cheiro a molhado que entra pelas janelas de persianas corridas mistura-se com um odor a fósforo queimado. E, por um instante, compreendo porque é que os antigos temiam e respeitavam as noites de tempestade.
13 de junho de 2006
O REI DAS FARTURAS
Adoro farturas. Quando era miúdo, ir à Feira Popular e trazer para casa um daqueles saquinhos de plástico com atilho forrado a papel vegetal com a referência aos "três irmãos das farturas" (azul para os pacotes de meia-dúzia, vermelho para os pacotes de uma dúzia — ou talvez fosse ao contrário) e as farturas lá dentro afogadas numa mistura de açúcar e canela era uma perdição. Aliás, mesmo já vintão, ainda em casa dos meus pais, era o delírio quando eles iam à Feira passear e me traziam um pacote de farturas.
A Feira do Livro deu-me o pretexto perfeito para comer uma fartura ontem à noite. O que só me recordou uma outra coisa: mais que adorar farturas, adoro farturas frias. Sério. Comê-las acabadas de fritar deixa-me sempre o estômago a queixar-se durante uns minutos. Eu gosto mesmo é delas já quase frias, com a consistência de pastilha elástica.
A Feira do Livro deu-me o pretexto perfeito para comer uma fartura ontem à noite. O que só me recordou uma outra coisa: mais que adorar farturas, adoro farturas frias. Sério. Comê-las acabadas de fritar deixa-me sempre o estômago a queixar-se durante uns minutos. Eu gosto mesmo é delas já quase frias, com a consistência de pastilha elástica.
12 de junho de 2006
WHAT'S IN A NAME?
Há dois nomes de ilustres "habitués" dos noticiários nocturnos que me deixam sempre com um sorriso nos lábios (os ditos cujos que me perdoem): o eminente sindicalista Bettencourt Picanço e o eminente executivo Elidérico Viegas.
11 de junho de 2006
MÚSICA PELO CAMINHO

June Tabor do Rato ao Bairro das Colónias.

Richard Thompson no eléctrico da Graça até à Estrela.

Townes van Zandt no circuito Estrela/Saldanha/Estrela.
8 de junho de 2006
AFIRMAÇÃO INQUESTIONÁVEL
É sabido que a particularidade dos génios consiste em fornecer ideias aos cretinos vinte anos mais tarde. Seria injusto mostrarmo-nos severos com o génio por causa disso.
— Louis Aragon, in Tratado do Estilo (1928), traduzido por Júlio Henriques (Lisboa: Antígona, 1995)
— Louis Aragon, in Tratado do Estilo (1928), traduzido por Júlio Henriques (Lisboa: Antígona, 1995)
7 de junho de 2006
IT'S A SMALL WORLD AFTER ALL
#1 Através do Luís, descobri este excelente post do João Lopes no blog que partilha há alguns meses com o Nuno Galopim, e no qual se tem feito raro. É um texto que partilha um sem-número das minhas próprias reflexões sobre o que significa hoje em dia ter uma opinião num universo mediático onde o conceito de "opinion-maker" já não corresponde em nada à sua significação primordial, e que subscrevo inteiramente.
#2 Através do Jorge, descubro que o Rodrigo já tem um blog próprio há largas semanas e eu não sabia. E descubro também que o António cumpriu finalmente o plano que me tinha revelado num recente encontro casual na Feira do Livro e também abriu o seu cantinho dedicado às músicas do mundo, que irá certamente começar a rapidamente a dar abadas nos outros todos porque ele é o tipo que eu conheço que mais percebe de músicas do mundo. Muito embora ele tenha em casa a caixa dos Abba e se desculpe como "material de pesquisa" quando eu sei muito bem que ele não quer é admitir que gosta mesmo dos Abba.
#2 Através do Jorge, descubro que o Rodrigo já tem um blog próprio há largas semanas e eu não sabia. E descubro também que o António cumpriu finalmente o plano que me tinha revelado num recente encontro casual na Feira do Livro e também abriu o seu cantinho dedicado às músicas do mundo, que irá certamente começar a rapidamente a dar abadas nos outros todos porque ele é o tipo que eu conheço que mais percebe de músicas do mundo. Muito embora ele tenha em casa a caixa dos Abba e se desculpe como "material de pesquisa" quando eu sei muito bem que ele não quer é admitir que gosta mesmo dos Abba.
6 de junho de 2006
CHOCOLATE ON THE ROCKS
Meia hora ficou a tablete de chocolate escondida debaixo do assento da frente do carro, ao sol, o suficiente para, quando cheguei a casa, sentir uma pasta quase líquida dentro do invólucro de plástico. Depois de um par de dias no frigorífico, não pensem contudo que a barra recuperou a sua forma original — em vez disso, temos uma construção boschiana que, sabendo exactamente ao que devia, adquiriu as formas derretidas de uma vela de cheiro usada.
5 de junho de 2006
VISTO DE FORA
É muito curioso ver Lisboa pelos olhos dos estrangeiros e perceber, por exemplo, como me diziam hoje amigos americanos de passagem para um congresso médico, que em Lisboa parece haver as obras que nas cidades deles não há, que os jardins parecem bem tratados e bem cuidados ao contrário dos deles, que há muitos cães que as pessoas tratam bem e levam a passear à rua aos jardins bem tratados. E, sobretudo, que, ao contrário deles, as pessoas na rua são tudo menos simpáticas e abertas, e são muito metidas consigo e fechadas, enquanto os americanos começam logo a falar connosco como se nos conhecessem há anos.
4 de junho de 2006
CARREIRA 28
O eléctrico está cheio; dirijo-me para a traseira, para ver se consigo um lugarzinho sossegado em pé junto à saída, mas o mais que consigo é encostar-me à janela, junto a uma senhora de meia-idade, de rosto rugoso e ressequido, vestida com uma camisola de manga cava verde alface e umas calças escuras sobre umas sandálias quadradas em sola de madeira. O cheiro desagradável que ali se sente só pode vir das suas axilas. A senhora vai resmungando para si com a quantidade de paragens que o eléctrico vai fazendo devido a sinais, carros mal estacionados, passagens de peões. Vendo o meu caderno de notas no bolso da minha camisa, decide por bem alertar-me para o perigo dos carteiristas, "até parece que andam aí uns morenos, é um instante enquanto perde a carteira, e o problema nem é o dinheiro, é mais os documentos". Agradeço-lhe pela preocupação. Quando um lugar vaga, a senhora senta-se, para logo se levantar oferecendo-o a um senhor idoso de cabelos brancos que está em pé; o senhor recusa gentilmente, mas a senhora não se levanta para oferecer o lugar quando passa uma idosa de cabelos brancos visivelmente mais velha que o senhor que recusara o lugar.
3 de junho de 2006
CARREIRA 28
Em frente à Basílica da Estrela, um casal pós-adolescente espera a chegada do eléctrico. Ele está de camisola de manga cava, boné, toalha ao ombro e calças de ganga, ela de T-shirt e saia leve, óculos escuros, com um saco de cartão na mão. Durante cinco minutos ele resmunga porque o eléctrico nunca mais chega, apesar do sinal que marca o tempo de espera pelo próximo eléctrico se manter imóvel nos 4 minutos; entre risinhos convencidos, ele elabora no momento uma pequena teoria da conspiração segundo a qual a informação está ali apenas para enganar o pacóvio que espera pelo transporte. Quando o eléctrico finalmente chega, ele diz-lhe, "bom, miúda, vou bazar" e, sem se despedir dela, vai-se embora contornando o eléctrico enquanto ela, sem olhar para ele, aguarda a sua vez de entrar.
1 de junho de 2006
CARREIRA 28
Passa pouco das cinco da tarde e, enquanto esperamos frente à Basílica da Estrela que surja o eléctrico 28 para o Martim Moniz, uma senhora idosa, de pele escura e ressequida e longo cabelo negro, vestida com uma blusa azul vivo e umas calças pretas, de sabrinas brancas muito sujas e sacos de papel na mão, anda de um lado para o outro junto à paragem do eléctrico, cuspindo regularmente para o chão enquanto murmura imperceptivelmente. Passado algum tempo, surge o 28 para Campo de Ourique, a senhora atravessa a rua e apanha o eléctrico.
Passa pouco das sete e meia da tarde e, de regresso a casa, apanho o eléctrico 28 para Campo de Ourique junto à Sé. Não há lugares sentados, e dirijo-me para a traseira do eléctrico para ficar em pé junto à saída enquanto não vaga um assento. Sentada num dos lugares está a mesma idosa de blusa azul, calças pretas e sabinas brancas, cuspindo regularmente para fora da janela. Sai na Basílica da Estrela; antes de entrar no jardim, ainda a vejo atravessar a rua em direcção à paragem do 28 no sentido Martim Moniz.
Passa pouco das sete e meia da tarde e, de regresso a casa, apanho o eléctrico 28 para Campo de Ourique junto à Sé. Não há lugares sentados, e dirijo-me para a traseira do eléctrico para ficar em pé junto à saída enquanto não vaga um assento. Sentada num dos lugares está a mesma idosa de blusa azul, calças pretas e sabinas brancas, cuspindo regularmente para fora da janela. Sai na Basílica da Estrela; antes de entrar no jardim, ainda a vejo atravessar a rua em direcção à paragem do 28 no sentido Martim Moniz.
31 de maio de 2006
PEQUENA INTERRUPÇÃO DO SERVIÇO NORMAL
Desejava apenas agradecer aos inventores do papel higiénico humedecido. Obrigado.
30 de maio de 2006
CRIANCINHAS
Dentro do supermercado, ouve-se a berraria aguda e guinchante de algumas criancinhas ainda muito novas que gritam a plenos pulmões. Mas não são nenhumas criancinhas que estejam a correr pelos corredores do supermercado, com os pais assoberbados a tentarem apanhá-las: são criancinhas que estão a brincar no parque infantil de plástico colocado em frente em supermercado, cuja potência vocal é tal que até aqui, dentro do supermercado, se ouvem os seus guinchos.
29 de maio de 2006
PÃO DE AÇÚCAR
Chego-me à entrada da padaria do supermercado — uma interrupção nas filas de tulhas de madeira onde o pão fresco é colocado a intervalos regulares, que abre para um ambiente industrial, asséptico, esbranquiçado onde vários empregados se afadigam a cortar, etiquetar, preparar pão — e sou visto pela jovem negra que está a fatiar pão caseiro na máquina. Faço-lhe sinal com o pão de forma que tenho na mão, "pode fatiar?". Ela faz que sim com a cabeça, "mas vou-lhe dar daqui de dentro porque tenho aqui formas prontas". Enquanto espero, olho para os rostos dos empregados, todos com aspecto de quem preferia estar na praia e de quem não tem o mínimo prazer em estar ali a fazer aquilo. Quando, pelo meio das solicitações e do trabalho, a jovem negra me passa para a mão o meu pão fatiado, fá-lo com um sorriso que é a melhor definição de "atenção ao cliente" que me lembro de ter visto. E é a única pessoa ali dentro a sorrir.
28 de maio de 2006
FAMEL ZUNDAPP
Um pós-adolescente de fato de treino branco (com as três listas verticais da Adidas nas calças), com o capacete precariamente inclinado na cabeça, pára a sua motorizada de pouca cilindrada ao meu lado no sinal de trânsito. Enquanto espera que o sinal abra, dá gás ao motor com uma perspectiva verdadeiramente musical da coisa, como quem mantém um riff de guitarra a correr ao longo de toda uma canção.
27 de maio de 2006
FEIRA DO LIVRO
Num dos stands dos institutos institucionais e académicos, o empregado faz uma chamada ao telemóvel. "Estou, doutor?... Desculpe estar a incomodá-lo, mas temos aqui um senhor que está a perguntar por um livro chamado "A tecnologia dos Bijagós na Ilha de Bubaque"... Ah, está esgotado?"
26 de maio de 2006
OBSESSÃO
A canção, já o disse aqui, é perfeita no seu estudo da obsessão entre o desesperado e o maníaco. O teledisco, a cargo de Kevin Godley & Lol Creme, é de uma simplicidade quase desarmante, de uma austeridade ilustrativa que consegue traduzir a canção melhor que qualquer ficção. The Police, "Every Breath You Take", 1983.
25 de maio de 2006
23 de maio de 2006
O ÉCRAN MÁGICO
Uma das razões pelas quais estou deslumbrado com o YouTube é a possibilidade que me dá de redescobrir pérolas visuais que eu julgava estarem perdidas para sempre — porque, enfim, um teledisco é como um single, perdido no tempo, com a diferença significativa que os DVDs de "greatest hits" nunca foram tão estimulantes como os álbuns de "greatest hits", e a maior parte dos telediscos verdadeiramente magistrais que se fizeram (e se fazem) nunca foram "greatest hits" de ninguém. Caso vertente: este momento de magia texturada chamado "Blackwater", dirigido em 1991 pelo artista gráfico Russell Mills para a fugaz e malfadada reincarnação dos Japan a que se chamou Rain Tree Crow, que muitos terão ouvido mas muito poucos devem ter visto. É uma pequena jóia que eu julgava perdida e que me alegra reencontrar, mesmo que longe das condições ideais.
22 de maio de 2006
JARDIM DA ESTRELA
Num banco do outro lado do lago, uma avó de camisa vermelha põe a camisola laranja do neto sobre a cabeça para se proteger do sol, enquanto o marido, de colete de safari por cima da camisa branca às riscas, encostado ao gradeamento, à sombra, vigia os dois miúdos que correm pelo jardim atrás dos pássaros.
21 de maio de 2006
OS MENINOS À VOLTA DA FOGUEIRA
O meu quarto de dormir dá para as traseiras. Como a maior parte dos quarteirões portugueses, essas traseiras são partilhadas com as traseiras de um sem-número de outros prédios, o que me impossibilita de saber onde estavam exactamente os inconscientes que estiveram até quase às cinco da manhã a cantar e tocar viola em altos berros, com enormes gargalhadas pelo meio, para lhes mandar um berro e pedir o especial favor de deixar as pessoas dormir. Não é a primeira vez que isto acontece, embora em rigor não aconteça para aí mais de uma vez de seis em seis meses; parece-me apenas sintomático daquela tendência bem portuguesa para fazer tudo aos gritos, desde falar ao telemóvel a conversar em casa, sem o mínimo respeito por quem está à volta.
O meu pai teria chamado a polícia, mas isso seria outro saco de gatos.
O meu pai teria chamado a polícia, mas isso seria outro saco de gatos.
19 de maio de 2006
EUROVISÃO
Estou traumatizado com o Festival Eurovisão da Canção 2006. Há anos que não via uma edição e, agora que vi, mesmo que em ambiente assinalavelmente divertido, estou escandalizado como tudo mudou pouco ou quase nada em relação aos últimos que vi (a baladona irlandesa de puxar às lágrimas das domésticas, a matrona engordada de Andorra, os bósnios nostálgicos) e como tudo é tão igual em relação a tudo o resto que se vende hoje como música (a Shakiroska ucraniana, o trânsfuga-de-boys-band russo, as friques exóticas holandesas). E percebi, finalmente, porque é que o certame se tornou em acontecimento icónico hilariante: depois daqueles Him finlandeses disfarçados de demónio de filme de série Z, depois do momento de performance art-quase gay da Islândia, depois da diva turca com ar de transsexual e da diva sueca com aplique no braço, e depois dos comentários do tempo da outra senhora de Eládio Clímaco, só dá mesmo para rir.
(PS 1: Espero que os lituanos ganhem amanhã. Pelo menos tinham sentido de humor.)
(PS 2: A canção portuguesa não destoava das outras. Por uma vez, é mesmo uma injustiça ter ficado de fora, mas não pelas razões que vocês estão todos a pensar.)
(PS 1: Espero que os lituanos ganhem amanhã. Pelo menos tinham sentido de humor.)
(PS 2: A canção portuguesa não destoava das outras. Por uma vez, é mesmo uma injustiça ter ficado de fora, mas não pelas razões que vocês estão todos a pensar.)
18 de maio de 2006
DOWNTOWN TRAIN
Jean-Baptiste Mondino para Tom Waits. Não é o teledisco. Mas está muito próximo. (E como Jarmusch gostava de evocar isto.)
17 de maio de 2006
TELEMÓVEL
Um senhor cego desce devagar a rua Alexandre Herculano, a bengala na mão direita, falando ao telemóvel encostado ao ouvido esquerdo — um telemóvel último modelo, onde é bem visível a lente redonda da câmara.
16 de maio de 2006
SOB O SIGNO DA VERDADE
Não li o livro de Manuel Maria Carrilho. Tenho apenas acompanhado o circo mediático à sua volta. E parece-me que deve ter sido precisamente essa a intenção do ex-ministro e ex-candidato a presidente da Câmara: criar um facto mediático que anulasse a "má imagem" que a sua candidatura deixou junto de muita gente. No entanto, chamar "Sob o Signo da Verdade" ao seu livro já me parece algo abusivo. É que, como diziam os Manic Street Preachers aqui há uns discos atrás, "This is my truth; tell me yours". E as duas "verdades" nem sempre coincidem, o que torna ambas igualmente falsas ou igualmente verdadeiras — porque os factos são aquilo que deles quisermos fazer. E, como já todos percebemos, o "facto mediático" projectado por este livro é um "ajuste de contas" com os "responsáveis" pela derrota de Carrilho na corrida à Câmara Municipal de Lisboa. Lá dizia a minha mãe que "roupa suja lava-se em casa".
Por outro lado, recordo-me agora, nas zonas urbanas dos EUA é normal haver uma única máquina de lavar roupa comum ao prédio todo, ou então ir lavar a roupa à lavandaria mais próxima.
Por outro lado, recordo-me agora, nas zonas urbanas dos EUA é normal haver uma única máquina de lavar roupa comum ao prédio todo, ou então ir lavar a roupa à lavandaria mais próxima.
15 de maio de 2006
ALGUMAS PALAVRAS SÁBIAS DO FUNDO DOS TEMPOS
(...) a constituição da família portuguesa não obedecendo, unânime ou separadamente a nenhum princípio de fé é o nosso descrédito de nação da Europa. Desde a educação familiar até depois da educação oficial inclusive o casamento a desordem faz-se progressivamente até à putrefacção nacional. E tudo tem origem na inconsciência com que cada um existe: em Portugal toda a gente é pai pela mesma razão porque falta à repartição. Do estado de solteiro para o estado de casado dá-se exclusivamente, na nossa terra, uma mudança de hábitos.
Em Portugal educar tem um sentido diferente; em Portugal educar significa burocratizar. Exemplo: Coimbra. Mas na maioria o português é analfabeto e em geral é ignorante; na unanimidade o português é impostor, prova evidente de deficientíssimo.
(...) O português educado sem o sentimento da pátria e acostumado à desordem dos governos criou por si a compensação inútil de dizer mal dos governos e nem poupou a pátria. Estabeleceu-se até, elegantemente, como prova de inteligência ou de ter viajado dizer mal da pátria. Isto deixa de ser decadência para ser impotência física e sexual. (...) O português assimila de preferência todas as variedades de importação e em descrédito das próprias maravilhas regionalista; o comércio e a indústria têm quase sempre de se mascararem de estrangeiros para serem eficazmente rendosos.
(...) É preciso criar o espírito da aventura contra o sentimentalismo literário dos passadistas.
É preciso criar as aptidões pró heroísmo moderno: o heroísmo quotidiano.
É preciso destruir este nosso atavismo alcoólico e sebastianista de beira-mar."
É um excerto do "Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX" que Almada-Negreiros escreveu em Dezembro de 1917, uma provocação marcial quase estadonovista na sua defesa de um ideal luso-patriótico e completamente politicamente incorrecta — mas extraordinariamente certeira na sua definição dos atavismos lusitanos. Que, num século inteiro, não mudaram nada. E essa do heroísmo quotidiano, desculpem lá, faz ainda mais sentido hoje em dia.
Em Portugal educar tem um sentido diferente; em Portugal educar significa burocratizar. Exemplo: Coimbra. Mas na maioria o português é analfabeto e em geral é ignorante; na unanimidade o português é impostor, prova evidente de deficientíssimo.
(...) O português educado sem o sentimento da pátria e acostumado à desordem dos governos criou por si a compensação inútil de dizer mal dos governos e nem poupou a pátria. Estabeleceu-se até, elegantemente, como prova de inteligência ou de ter viajado dizer mal da pátria. Isto deixa de ser decadência para ser impotência física e sexual. (...) O português assimila de preferência todas as variedades de importação e em descrédito das próprias maravilhas regionalista; o comércio e a indústria têm quase sempre de se mascararem de estrangeiros para serem eficazmente rendosos.
(...) É preciso criar o espírito da aventura contra o sentimentalismo literário dos passadistas.
É preciso criar as aptidões pró heroísmo moderno: o heroísmo quotidiano.
É preciso destruir este nosso atavismo alcoólico e sebastianista de beira-mar."
É um excerto do "Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX" que Almada-Negreiros escreveu em Dezembro de 1917, uma provocação marcial quase estadonovista na sua defesa de um ideal luso-patriótico e completamente politicamente incorrecta — mas extraordinariamente certeira na sua definição dos atavismos lusitanos. Que, num século inteiro, não mudaram nada. E essa do heroísmo quotidiano, desculpem lá, faz ainda mais sentido hoje em dia.
14 de maio de 2006
UM SONHO AMERICANO
Folheava, ontem à noite, "Os 100 Álbuns Mais Vendidos dos Anos 50" — um livrinho pequenino, com as dimensões de um CD, reproduzindo as capas dos cem álbuns mais vendidos nos anos 1950 nos EUA. E as capas são tão extraordinariamente do seu tempo — projecções garridas e tecnocoloridas não necessariamente do "sonho americano" mas certamente do "American lifestyle" que se tornou numa espécie de "padrão de medida" social para toda a civilização ocidental — que de repente me senti projectado de retorno à minha infância, em casa dos meus pais, um universo fechado sobre si próprio, parado num tempo que nunca avançou verdadeiramente para lá de um outro tempo, irresistivelmente moldado à imagem de um país à distância de um oceano.
13 de maio de 2006
11 de maio de 2006
LISBOETAS
No bem castiço e popular bairro da Graça, há um restaurante indiano que emprega um cozinheiro chinês.
10 de maio de 2006
¡NO TE LO PONGAS!
É horrível admitir isto publicamente, mas tem de ser dito. Estou fã de um "reality-show" da BBC chamado "What Not to Wear", que passa no canal People & Arts às terças ao fim da tarde com o hilariante título português "Esquadrão da Moda" (o título espanhol, "¡No Te Lo Pongas!", é ainda mais hilariante). E porque estou eu fã de tal coisa? Porque deliro com os comentários snobes das duas apresentadoras bifas-com-a-mania-de-que-são-boas, Trinny Woodall e Susannah Constantine. Como o ar de repugnância que uma delas fez aqui há uns tempos para uma concorrente que apareceu com um horrendo top furta-cores sem mangas, acompanhado da expressão "are you out of your mind?". Ou como a afirmação de que "as camisolas de futebol do clube preferido deviam ser proibidas por lei". Que o mesmo é dizer, bom senso expresso com o pedantismo cínico e superior da "civilização britânica" (nas palavras do meu irmão). Ou que o mesmo ainda é dizer, uma tentativa de educar as Vanessas e os Fanãs lá do sítio (vénia ao JLx) quanto ao bom gosto mínimo. E, vá lá, admita-se que qualquer programa que almeja acabar com a praga dos fatos de treino merece o nosso respeito total.
9 de maio de 2006
DÁ-ME LUME
Está bastante gente sentada no átrio do cinema, à espera que a sessão comece, mas é a mim que o homem negro vestido de azul, com um boné na cabeça, andando com um ligeiro tremor, se dirige. "Chefe, boa noite. Pode-me arranjar um cigarro?", diz-me por entre um bafo de álcool. "Não fumo", respondo-lhe. Vira-me as costas e dirige-se a um casal que, a poucos metros, está a fumar. Conversa com eles um pouco; a mulher abre a mala, passa-lhe algumas moedas para a mão, e ele vai-se embora pela escada.
8 de maio de 2006
A primeira vez que ouvi Go-Betweens foi no Som da Frente de António Sérgio, esse "Bachelor Kisses" que, apesar de todas as outras, é ainda hoje o "meu" tema dos Go-Betweens. O primeiro álbum dos Go-Betweens que tive foi "Liberty Belle and the Black Diamond Express". "The Mountains Near Dellray" é a última (e a melhor) canção do último álbum que os Go-Betweens gravaram, "Oceans Apart" (que, para mim, está longe de ser dos seus melhores, mas não deixa de ser tudo razoavelmente relativo, porque eles nunca fizeram um mau disco). Custa-me pensar que, depois da morte de Grant McLennan, não vão haver mais discos dos Go-Betweens. Ainda bem que continua a haver estes.
in the mountains near Dellray,
acres and a farm,
music in the barn, it’s no struggle.
snow in the sun.
October in the rain.
the people that have come are in the middle.
and does the Derwent flow?
anywhere up that way.
does the Derwent flow near Dellray?
and when you make a wish.
and you get the wish.
never let it go, it’s no struggle.
— Robert Forster para The Go-Betweens, "The Mountains Near Dellray" (in "Oceans Apart", Lo-max, 2005)
in the mountains near Dellray,
acres and a farm,
music in the barn, it’s no struggle.
snow in the sun.
October in the rain.
the people that have come are in the middle.
and does the Derwent flow?
anywhere up that way.
does the Derwent flow near Dellray?
and when you make a wish.
and you get the wish.
never let it go, it’s no struggle.
— Robert Forster para The Go-Betweens, "The Mountains Near Dellray" (in "Oceans Apart", Lo-max, 2005)
7 de maio de 2006
6 de maio de 2006
MELGAS
Tentem lá adormecer quando, no exacto momento em que o sono começa a embalar-nos, se ouve o inconfundível zumbido enervante de uma melga a fazer "banzai" e a tentar apanhar-nos desprevenidos para dar uma daquelas picadelas irritantes. Só esta semana, já despachei nada menos de quatro melgas que teimam em passear pela minha casa. Mas há também outro tipo de melgas: os distribuidores de publicidade que têm a brilhante ideia de tocar à campaínha às nove da manhã de um sábado, quando as pessoas de bem querem aproveitar para ficar a dormir um bocadinho mais. E que não hesitam em tocar duas ou três vezes enquanto ninguém lhes abrir a porta.
5 de maio de 2006
FAMÍLIAS MODERNAS
São seis e meia da tarde de uma sexta-feira de Primavera, vento a moderar o calor que o Sol ainda dá, na esplanada do jardim da Estrela. Um casal no fim dos vintes, princípios dos trinta, com duas filhas, chega à esplanada. A mãe senta-se numa cadeira ao sol, pega num livro de capa colorida ("Ser Optimista") e lê, de vez em quando chamando a filha mais velha, "Mariana, os outros meninos estão ali". O pai, em mangas de camisa com um jornal debaixo do braço, não larga o telemóvel enquanto persegue a filha mais nova, que percorre a esplanada de chucha atrás dos patos que nadam pachorrentamente pela água suja do pequeno lago. Volto à minha revista. Alguns minutos mais tarde, ouço um choro de criança; é a menina mais nova do casal, que o pai pega ao colo e tenta acalmar sem largar o telemóvel do ouvido esquerdo, continuando a falar. A mãe, com o livro marcado na mão, põe-se de pé e olha em todas as direcções, com ar de quem se quer ir embora, enquanto a filha mais velha grita que quer água.
4 de maio de 2006
O NOVO MUNDO

É um crime estrear este filme desta maneira, nesta semana, depois de quatro meses a ser sistematicamente adiado. Dá a impressão que não querem que ele seja visto, que têm vergonha. Mas não há que ter vergonha deste objecto esplendoroso, filme mal-amado que vai dividir opiniões e causar grandes discussões entre aqueles que o virem (que espero sejam muitos mas receio serão poucos). Para mim, "O Novo Mundo" é a obra-prima de Terrence Malick — assino por baixo as vezes que forem precisas. E daqui a uns anos estará a ser aclamado como tal.
3 de maio de 2006
THERE GOES THE FEAR
Porque às vezes é preciso exorcizar o medo de que estejamos a passar ao lado.
out of here
we're out of here
out of heartache
along with the fear
there goes the fear again
there goes the fear
and cars speed fast
out of here
and life goes past
again so near
there goes the fear again
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify
you turned around and life's passed you by
passed you by
again
and late last night
makes up her mind
another fight
left behind
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify, why?
you turned around and life's passed you by
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town
think of me when he's calling out
but don't look back when leaving town
think of me when you close your eyes
but don't look back when you break all ties
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town today
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
let it go.
- Doves, "There Goes the Fear" (in "The Last Broadcast", Heavenly/EMI, 2002)
out of here
we're out of here
out of heartache
along with the fear
there goes the fear again
there goes the fear
and cars speed fast
out of here
and life goes past
again so near
there goes the fear again
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify
you turned around and life's passed you by
passed you by
again
and late last night
makes up her mind
another fight
left behind
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify, why?
you turned around and life's passed you by
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town
think of me when he's calling out
but don't look back when leaving town
think of me when you close your eyes
but don't look back when you break all ties
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town today
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
let it go.
- Doves, "There Goes the Fear" (in "The Last Broadcast", Heavenly/EMI, 2002)
2 de maio de 2006
1 de maio de 2006
ALGUMAS MEDITAÇÕES PÓS-TELEJORNAIS SOBRE O 1º DE MAIO
Soube hoje que existe em Portugal uma União Independente de Sindicatos que celebrou o Dia do Trabalhador no Rossio com um "festival de folclore" (segundo faixa alegórica focada pela câmara da RTP). Será possível pensar numa celebração do Dia do Trabalhador que pertença mais ao tempo da outra senhora?
Soube também que as associações de profissionais das forças de segurança receberam com entusiasmo moderado o anúncio do Ministro da Administração Interna de que irão receber novo armamento até ao final do ano — segundo explicou um dos responsáveis em forte demonstração de camaradagem, porque o armamento que vão receber não chega para todos. Ou seja, eles não querem ter polícias de primeira e polícias de segunda. Parece-me sensato.
Soube também que as associações de profissionais das forças de segurança receberam com entusiasmo moderado o anúncio do Ministro da Administração Interna de que irão receber novo armamento até ao final do ano — segundo explicou um dos responsáveis em forte demonstração de camaradagem, porque o armamento que vão receber não chega para todos. Ou seja, eles não querem ter polícias de primeira e polícias de segunda. Parece-me sensato.
30 de abril de 2006
O GATO FEDORENTO EXISTE
Algo que me diz que o Gato Fedorento deve basear-se na cuidada observação da realidade quotidiana para escrever os seus guiões. A conversa entre dois trintões casados e pais de família ouvida na tarde de ontem numa esplanada da avenida de Roma parecia saidinha de um diálogo entre Ricardo Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela, só que era absolutamente a sério, até no tom de voz de bancário médio a fingir sangue azul.
29 de abril de 2006
É SÓ EMBIRRAÇÃO EMBIRRAÇÃO
Estar sentado num restaurante cheio e a ser atendido por uma empregada que está quase sozinha ao balcão e, por muito boa vontade, profissionalismo e esforço que tenha, não consegue dar conta do recado, para além da cozinha também não estar a conseguir dar conta do recado, é uma receita mágica para más vibrações por parte dos vizinhos de balcão, como a suburbana rechonchuda que não pára de resmungar com o namorado por causa do atraso do almoço. E há poucas coisas que dêem cabo de um ambiente civilizado como as más vibrações emitidas pela embirração petulante de quem acha que é só a ela que estão a tratar mal quando está a demorar mais tempo para serem todos servidos. Nessas ocasiões, até a boa educação da empregada pode ser lida como condescendência. Por isso é que dei graças a Deus quando o casalinho bazou das cadeiras do lado, que eu já estava a ficar com vontade de resmungar com eles e não com a empregada assoberbada.
28 de abril de 2006
ELES QUE VENHAM, ELES QUE VENHAM
Numa esplanada da avenida de Roma, um pequeno cãozinho daquelas raças miniaturizadas e peludas que parecem não ver o caminho solta o tigre que há em si sempre que passam cães maiores, com o dobro do tamanho, desatando a ladrar com sentimento e quase conseguindo soltar a trela da cadeira de metal a que está presa para se atirar ao cão maior — que segue o seu caminho sem sequer reparar no David que está para ali a meter-se com ele.
27 de abril de 2006
BÉNARD, ZIDANE E GARBO
Parece-me que todo este episódio da petição lançada pelos amigos e admiradores de João Bénard da Costa para evitar o seu afastamento da direcção da Cinemateca Portuguesa (por limite de idade, recorde-se, que o senhor tem 71 anos de idade) devia ser relativizada pelas declarações do futebolista francês Zinedine Zidane, que anunciou o final da sua carreira para daqui a uns meses. "Para mim o futebol é tudo, mas já não sou capaz de fazer aquilo que fazia. E já não tenho 25 anos." É uma afirmação em que vale a pena pensar. Sobretudo porque me parece que se está a falar mais de preservar um "status quo" que não é tão unânime como se quer fazer parecer. Ora, já Greta Garbo se tinha sabido retirar a tempo — e digam lá que essa sábia decisão não fez maravilhas pelo mito.
26 de abril de 2006
25 DE ABRIL SEMPRE, É COMO QUEM DIZ
O senhor idoso que ontem dizia na rua à vizinha do prédio ao lado que "condenava o 25 de Abril" não deve de facto ser apologista do 25 de Abril sempre.
EU NÃO ANDO A VER MAL
Confesso que, à excepção do David Fonseca e da São José Lapa, não reconheço quase ninguém na actual campanha do BPI (é mesmo a Sofia Aparício?). E não é uma questão de precisar de mudar de óculos, porque o oftalmologista disse-me há um mês que está tudo bem.
25 de abril de 2006
25 DE ABRIL SEMPRE
Na rua da Escola Politécnica, há uma senhora idosa de cabelo pintado (de louro, como quase sempre), de óculos escuros e casaco pesado, que avança com ar de grande dama amuado a fingir-se alheia ao mundo à sua volta. Do passeio do outro lado da rua, poucos metros atrás, uma outra senhora idosa de cabelo branco e óculos tintados com sacos na mão, andando mais dificilmente, chama por ela. "Ó Maria de Lurdes! Vamos aí a essa pastelaria! Maria de Lurdes!". Maria de Lurdes finge que não é nada com ela e estuga o passo. A senhora dos sacos que chama por ela atravessa na passadeira enquanto diz em voz alta, como quem comenta num àparte para a plateia, "A mulher é lixada como tudo, poça!", e volta a chamá-la. "Ó Maria de Lurdes!"
Uns metros mais à frente, cruzo-me com um senhor idoso muito direito no seu melhor fato azul de domingo, com o emblema do Benfica bem reluzente na lapela.
Uns metros mais à frente, cruzo-me com um senhor idoso muito direito no seu melhor fato azul de domingo, com o emblema do Benfica bem reluzente na lapela.
24 de abril de 2006
OS RESTAURANTES CHINESES JÁ NÃO SÃO O QUE ERAM
Na mesa de trás, duas senhoras bem da avenida de Roma conversam como se fossem as únicas pessoas no restaurante com vozes extremamente educadas e muito bem colocadas. Uma delas atende o telefone um par de vezes para falar com uma Geginha que vem do cinema dizer olá com a Memé.
Na mesa da frente, instalou-se um quarentão com ar de comercial bem sucedido acompanhado pela esposa e pelas filhas que se instala na grande mesa redonda, de frente para o televisor, e pede ao empregado do restaurante se é possível pôr na Sport TV para ver o jogo da Académica, enquanto atende uma chamada no telemóvel. Entretanto, chegam mais comensais para a grande mesa redonda e em breve o quarentão e outro quarentão que chegou entretanto resmungam mutuamente que é uma chatice marcar-se um jantar para o dia do jogo da Académica.
Na mesa da frente, instalou-se um quarentão com ar de comercial bem sucedido acompanhado pela esposa e pelas filhas que se instala na grande mesa redonda, de frente para o televisor, e pede ao empregado do restaurante se é possível pôr na Sport TV para ver o jogo da Académica, enquanto atende uma chamada no telemóvel. Entretanto, chegam mais comensais para a grande mesa redonda e em breve o quarentão e outro quarentão que chegou entretanto resmungam mutuamente que é uma chatice marcar-se um jantar para o dia do jogo da Académica.
23 de abril de 2006
NÓS E OS OUTROS #7
"When I was about six years old, my dad was holding my hand as we walked down the street and he said, 'You've got tough little hands, David, you'll be all right. But I'm worried about Ray because he's got really soft hands.' That stayed with me. I knew I was there to support Ray, to encourage him to expand whatever creative horizons he wanted to do. It's not uncommon among younger brothers. Intellectually, the older brother might think he has the responsibility, but emotionally, it's actually the other way round."
— Dave Davies (Kinks) a Mark Paytress na edição de Março de 2006 da Mojo
— Dave Davies (Kinks) a Mark Paytress na edição de Março de 2006 da Mojo
22 de abril de 2006
PUBLICIDADE
O meu prédio não tem intercomunicador. Isso quer dizer que, quando alguém toca à campaínha da porta, não há maneira de saber quem está a tocar e, logo, de saber se estamos a abrir a porta ao carteiro, às Testemunhas de Jeová, aos Mormons, aos elementos de alguma associação de recuperação de viciados a fazerem um peditório, à amiga da vizinha de baixo que se enganou no andar ou a um distribuidor de publicidade.
No entanto, existem umas quantas dicas que posso partilhar com outros incautos na mesma situação que eu. Importante é saber se podemos ouvir as campainhas dos vizinhos, como é o meu caso; se a minha campainha toca e ao mesmo tempo ouço a campainha do vizinho da frente e a do vizinho de cima (acreditem que são bastante fortes, para lá do facto das paredes lá de casa não serem exactamente insonorizadas), então é o carteiro a pedir para abrir a porta, um distribuidor de publicidade ou Testemunhas de Jeová/Mormons/peditórios etc. A hora a que isto acontece também permite eliminar um pouco mais; assim, quando a campaínha toca a um sábado ao meio-dia, é quase de certeza um distribuidor de publicidade.
E assim, quando saí para o pequeno-almoço tardio, lá estavam meia-dúzia de folhetos das excursões-turísticas-de-um-dia ao preço da chuva organizadas por empresas de venda de inutilidades (mas podiam ser folhetos de supermercado ou restaurantes ou ginásios ou canalizadores) enfiadas por baixo da porta da rua, porque ninguém no prédio lhe abriu a porta.
No entanto, existem umas quantas dicas que posso partilhar com outros incautos na mesma situação que eu. Importante é saber se podemos ouvir as campainhas dos vizinhos, como é o meu caso; se a minha campainha toca e ao mesmo tempo ouço a campainha do vizinho da frente e a do vizinho de cima (acreditem que são bastante fortes, para lá do facto das paredes lá de casa não serem exactamente insonorizadas), então é o carteiro a pedir para abrir a porta, um distribuidor de publicidade ou Testemunhas de Jeová/Mormons/peditórios etc. A hora a que isto acontece também permite eliminar um pouco mais; assim, quando a campaínha toca a um sábado ao meio-dia, é quase de certeza um distribuidor de publicidade.
E assim, quando saí para o pequeno-almoço tardio, lá estavam meia-dúzia de folhetos das excursões-turísticas-de-um-dia ao preço da chuva organizadas por empresas de venda de inutilidades (mas podiam ser folhetos de supermercado ou restaurantes ou ginásios ou canalizadores) enfiadas por baixo da porta da rua, porque ninguém no prédio lhe abriu a porta.
21 de abril de 2006
EXPLICAÇÃO DA POLÍTICA ÀS CRIANCINHAS
O governo está a fazer tudo bem. A oposição acha que está tudo mal e que eles faziam melhor. Depois o governo e a oposição trocam de posição e volta tudo ao mesmo.
20 de abril de 2006
GO AHEAD, PUNK, MAKE MY DAY
Estão a ver aquela velha cena dos filmes policiais, de guerra, ou dos "westerns", do "disparar primeiro e fazer perguntas depois"? Ontem descobri um taxista cuja política é muito semelhante: entrar primeiro, e parar (ou não) depois. Asseguro que não é garantia de uma viagem confortável.
19 de abril de 2006
A COABITAÇÃO É TÃO BONITA
No mesmo quiosque do jardim do Príncipe Real, tomam café, ao mesmo tempo, dois manifestantes que, de T-shirt e bandeira, vão para uma manifestação ali perto, e dois agentes da polícia de serviço à dita cuja manifestação.
18 de abril de 2006
SINUSITE
Uma idosa cigana está à entrada das urgências de São José, inteiramente vestida de preto, saia rodada que lhe cobre os pés, camisa de manga comprida, um lenço à cabeça que apenas lhe mostra o rosto, com um inalador branco espetado numa das narinas.
RETOMANDO O SERVIÇO NORMAL
Já há outra vez comentários. Infelizmente, tudo o que ficou para trás perdeu-se — mas, de qualquer maneira, essa foi uma das razões pelas quais mudei para o Blogger, já que o Haloscan apaga os comentários ao fim de um certo tempo.
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