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23 de julho de 2006

692 WOODBURY ROAD

Los Angeles não é uma cidade; antes uma federação de comunidades, um aglomerado de “cities” que parece ser um único subúrbio contínuo ligado por intermináveis vias rápidas de quatro, cinco faixas de rodagem, formando a Grande Los Angeles. Pasadena é uma dessas comunidades, um subúrbio afluente que fica a 30 minutos do grande centro (se o trânsito estiver bom), que se pode percorrer por inteiro sem nunca encontrar um arranha-céus ou um prédio de muitos andares. Somos convidados numa espantosa mansão restaurada ainda em processo de redecoração no estilo da renascença espanhola e ficamos no que é aqui chamado uma “casa da sogra” junto à garagem e com acesso ao jardim: uma casa separada usada para receber hóspedes com cozinha, casa de banho, frigorífico e máquina de lavar próprias. Há muitos proprietários que alugam estas casas e quem construiu a casa devia gostar muito da sogra para lhe dar uma casa destas.

A ARTE DA FILA

A maior parte das atracções da Disneylândia implicam esperar numa fila. Mas nada daquelas confusões à antiga portuguesa de filas ao deus dará: a própria arquitectura da atracção já inclui a fila, numa série de corredores serpenteantes que procuram garantir que ninguém passa à frente de ninguém (pormenor importante: a saída fica sempre longe da entrada, para manter o “suspense” junto de quem nunca visitou a atracção e garantir que o ambiente cuidadosamente construído na fila não é quebrado por quem acaba de sair e pode contar as surpresas).

As atracções mais concorridas, em dia não, podem obrigar a uma ou duas horas de fila; nesta quinta-feira quente de Julho, o máximo que esperamos é 40 minutos, que se passam bem a observar o comportamento do americano médio, tão barrigudo como o português médio, e da sua prole enquanto esperam. Muitos deles trazem a família toda e poucos têm só uma criança.

Na fila para a Haunted Mansion (30 minutos a serpentear pelos jardins de uma mansão colonial sulista que se revelará uma espécie de casa assombrada light que percorremos num sofá rotativo montado em cima de um tapete rolante), esperamos a seguir a duas trintonas que entre si trazem três crianças, duas meninas e um rapaz, que terão os seus sete-oito anos. Nos jardins, a fila passa junto a um gradeamento elevado em cima de tijolos – praticamente não há nenhuma criança na fila que resista à tentação de subir para o gradeamento e, contra os protestos dos pais, andar em cima dele. O rapaz está irrequieto, começa por queixar-se que se calhar vai ter medo, enquanto as miúdas (primas? Irmãs?) lhe dizem que não, não mete medo nenhum. A certa altura, cansado de estar na fila, o miúdo começa a deixar-se ficar para trás; a mãe começa a perder a paciência e arrasta-o. Recebe uma chamada telefónica e começa-se a queixar do mau comportamento do filho (presume-se que ao pai). Um pouco mais à frente, o miúdo começa a dar pontapés no chão, como um touro que se prepara para a investida sobre o matador; um dos seus pontapés acerta-me na canela, a mãe, que estava distraída, ouve o meu “ai” e pede-me desculpas acabrunhadas. Finalmente, o miúdo começa a queixar-se que quer ir à casa de banho. A mãe não é de modas e decide que, pronto, já chega, não vamos à Haunted Mansion, e na primeira ocasião saí da fila.

21 de julho de 2006

PASADENA BY NIGHT

Descer a Lake Avenue no banco de tras de um descapotavel aberto a brisa de uma noite perfeita de Verao.

DISNEYLAND

A cerca de 25 milhas da baixa de Los Angeles, a Disneylândia original, que celebra este ano o 50º aniversário, anuncia-se como “the happiest place on Earth”. Por um preço: 50 dólares de entrada (para um bilhete de um dia que dá acesso apenas ao parque original, sem acesso ao mais recente parque de diversões mais radicais, Disney’s Califórnia Adventure), mais 10 dólares de estacionamento, mais o preço da comida nos restaurantes (dificilmente menos de 20-25 dólares por pessoa) e das águas e refrescos nos stands (dois dólares e meio), etc, etc, etc. Pelo direito de passar um dia inteiro no meio de uma multidão de gente vinda de todo o mundo, muita dela em excursão-rodarte familiar, dentro de uma feira popular elevada à potência 15, por baixo do calor tórrido do sol californiano, de passar meia hora em algumas filas para algumas atracções.

Mas, pelo meio de tudo isto, o “happiest place on Earth” é, mesmo, o “happiest place on Earth” porque o preço dá-nos também o direito de, nem que seja por um momento fugaz (e, neste dia passado no parque, foram muitos momentos fugazes), reencontrarmos a criança escondida dentro de nós. Quer seja nas montanhas-russas primitivas do Matterhorn Bobsleds ou da Big Thunder Mountain Railroad ou na maior sofisticação da Indiana Jones Adventure, ou na ingenuidade mal disfarçada de algumas atracções que transpiram o tempo em que foram concebidas (Mr Toad’s Wild Ride ou a Enchanted Tiki Room, velha de 40 anos e tão para lá de kitsch que já quase exige uma categoria própria para si só), há de tudo para todos na concepção sanitizada deste parque onde o mundo real fica à entrada e só volta a aparecer quando o carro sai da enorme garagem de estacionamento e regressa às auto-estradas infindáveis que correspondem à essência de Los Angeles. E nesse momento sentimos uma pequena tristeza por termos de deixar aquele parque de diversões a transbordar de gente e de calor e de dinheiro em caixa, porque a Disneylândia é um sonho em que queremos todos acreditar, mesmo depois de sabermos que é um sonho um pouco bafiento, prisioneiro de um tempo que já não existe.

20 de julho de 2006

SUBURBIA (outra vez sem acentos)

Los Angeles parece ser um longo suburbio que se prolonga ad infinitum ao longo de quilometros e quilometros, em que e preciso pelo menos meia hora de carro para se chegar a qualquer lado. Nao tenho estado ligado a rede (apenas uma vez por dia), mas nao faltam historias para contar - quando tiver um bocadinho de disponibilidade, prometo que as conto.

17 de julho de 2006

ESTRADAS PERDIDAS

Los Angeles é uma federação de bairros, uma interminável cidade de estradas com casas e lojas e centros comerciais pelo meio do asfalto ladeado por palmeiras e árvores. Los Angeles é, como diz o David, uma "cidade incorporada", composta por zonas (West Hollywood, Pasadena, Beverly Hills, Studio City, Glendale, e por aí fora) que, todas juntas, formam a "Greater Los Angeles". Mas, ao contrário de São Francisco, não se sente tanto a vivência de bairro, talvez porque o carro é aqui meio de transporte essencial - o sistema de transportes públicos é relativamente ineficiente e só os autocarros cobrem a maior parte da rede (há uma rede de metropolitano, mas não é exactamente grande) - e as pessoas não andam realmente a pé (a regra é o "valet parking", em que os restaurantes e lojas têm empregados que se encarregam de arrumar o carro do cliente em parques privativos ou públicos próximos, ou o "customer parking", pequenos parques exclusivos para os clientes nas traseiras de restaurantes ou lojas).

KLM 0601: AMS 13h15-LAX 15h15: 15/07/2006

O que é que se faz quando se têm dez horas de vôo pela frente e um espaço útil de assento de coxia apertada que não foi feito para 1m90 de altura (porque todos os espaços feitos para 1m90 de altura estão já ocupados por pessoas que também têm 1m90 de altura), ainda por cima num vôo cheio de fim de semana que parece transportar uma espécie de "excursão rodarte" de holandeses a caminho de férias em Los Angeles, com dois bebés de colo na fila da frente e dois outros na fila de trás?

Às tantas, há miúdos a correr pelos corredores acanhados, não dá sequer para os mandar bugiar para outro lado. Este Boeing 747 é de modelo bem menos moderno que o meu vôo de Londres para São Francisco em Janeiro, e as hospedeiras de bordo têm qualquer coisa de educadoras de infância, a julgar pela paciência com que brincam com os miúdos.

Por mais que tente, não dá mesmo para dormir; nem sequer consigo ter espaço para descalçar as botas e passear pelos corredores. E estes vôos transcontinentais implicam sempre uma extensão do dia da pessoa, prolongando-o para uma espécie de directa, com as ligações a obrigarem-nos a levantar cedo e a deitar tarde (é impraticável que alguém durma realmente bem na véspera de um dia passado entre aviões que nos obriga a levantar às cinco da manhã e nos atira para a cama às sete da manhã do dia seguinte no sítio de onde partimos - embora sejam apenas onze da noite em Los Angeles).

16 de julho de 2006

SCHIPHOL IN TRANSIT

Schiphol, Amesterdão, é um aeroporto extraordinariamente organizado, perfeitamente sinalizado, mesmo acolhedor (partindo do princípio que um aeroporto é um sítio acolhedor). É um mundo onde as lojas não têm uma única marca; são identificadas apenas pelos produtos que vêem (perfumes, cosméticos, electrónica, jornais e revistas, diamantes, jóias). O tapete rolante, junto à porta onde aguardo o embarque para Los Angeles, repete, todos os cinco segundos, "mind your step" - sinto-me no metro de Londres, sem o mínimo risco de me perder. Para trás, nesta manhã de sábado, duas horas e meia de vôo desde Lisboa, à minha frente dez horas e meia até Los Angeles. E, como sempre que estou em trânsito num aeroporto, pareço sentir-me fora do mundo.

15 de julho de 2006

STRESS

Somem lá, s. f. f., o calor que está (30 graus dentro de casa à uma da manhã), o incontornável stress pré-viagem (ah pois) e a necessidade de levantar cedo. Receita infalível para dormir pouco e mal.

14 de julho de 2006

O DISCO DO DESASSOSSEGO



Passar ao lado deste disco (e parece-me que anda muita gente a fazê-lo) é passar ao lado de uma das mais notáveis reinvenções sonoras dos últimos anos: 20 anos depois de "Graceland" (e a comparação nem sequer é aleatória - ouça-se "Another Galaxy" ou "Outrageous"), Paul Simon convoca Brian Eno para desenhar as "paisagens sónicas" que fazem de "Surprise" um álbum que não se revela nem à primeira, nem à segunda, nem mesmo à terceira audição da praxe. Começa por parecer um híbrido desconjuntado onde Eno se impõe a Simon, depois lentamente percebe-se como tudo faz sentido e encaixa na perfeição: "Surprise" é um álbum que traduz na sua arquitectura sonora milimetricamente descontínua o desassossego do americano moderno, um disco onde tudo faz sentido precisamente porque não o parece fazer. Simon fez o disco que quis fazer e não o poderia ter feito sem Eno: a sua poesia líquida e as suas melodias enganadoramente simples estão lá intactas. O mundo é que mudou, e o modo de elas se enquadrarem nele também. "Surprise" é uma surpresa — das boas.

(Com a mais valia de ter uma capa de primeira água, assinada por um mestre do design, o grande Chip Kidd, mais conhecido pelos seus trabalhos para livros — visíveis aqui)

13 de julho de 2006

ADELAIDE! METE OS PUTOS NA BARRACA QUE VAI HAVER PORRADA

Não sei quem foi que decidiu que, este ano, o selo do carro dispensava o habitual impressozinho e passava a ser emitido directamente no sistema informático das Finanças. Teria sido uma ideia interessante, claramente, preparar o sistema informático para a avalanche que se iria seguir, o que teria evitado resultados como aqueles a que assisti ontem na minha repartição: ao fim de uma paciente hora de fila (banda-sonora, para os interessados: "X&Y" dos Coldplay), o sistema foi pura e simplesmente abaixo. Num dos guichets, a funcionária que atendia mostrava-se tão irritada com o bloqueio do sistema como os clientes — e explicava que acontecia o mesmo de manhã cedo, às nove da manhã, e a seguir ao almoço, pelas duas da tarde, quando toda a gente ligava os computadores ou regressava do almoço.

O problema é que havia quem não estivesse na fila para tratar do selo do carro (eu incluido) e houve quem se chegasse à frente, explicando o caso à funcionária que, cheia de boa vontade, se prontificou a resolver a questão. O problema é que a senhora que se chegou à frente tinha acabado de chegar e havia quem estivesse à espera há muito mais tempo - e eu tive a feliz ideia de perguntar como é que uma senhora 50 números a seguir a mim já estava a ser atendida. "Ah, mas eu não estou aqui para o selo do carro." "Pois, mas eu também não. E não devo ser o único." (E não era.)

Não foi preciso mais para cair o Carmo e a Trindade e haver quem partisse para a ignorância, acusando a senhora de ser amiga dos funcionários, de ser favorecida, etc, etc. Ou seja, havia quem estivesse irritado por lhes terem passado à frente, e havia quem estivesse irritado por não ter sido chico-esperto e ter feito o mesmo que a senhora tinha feito. E havia ainda quem protestasse, mas quisesse manter a moralidade.

Às tantas, a funcionária já dizia que não tinha culpa do sistema do selo do carro não funcionar (verdade) e que às tantas começa a ser preciso haver polícia para regular a confusão. Não por acaso, tinha havido um polícia à espera na fila (não sei para tratar do quê), mas entretanto tinha-se fartado e ido embora.

12 de julho de 2006

11 de julho de 2006

O PRIMEIRO SEGREDO DE BERLIM

A bolsa de apostas sobre o que terá Materazzi dito a Zidane para que o jogador francês se vá a ele como touro arfante a diestro de capa vermelha começa a parecer-se perigosamente com o célebre Terceiro Segredo de Fátima: toda a gente tem uma opinião mas ninguém sabe o que realmente foi dito.

10 de julho de 2006

CONTINUANDO O SEMPRE BEM-VINDO TÓPICO PLANTÍGRADO

Não gosto tanto de pandas como dos ursos menos "kiduchos", mas aqui confesso que também não consigo resistir.

9 de julho de 2006

MUNDO DE AVENTURAS

Já não é a primeira vez que passo pela loja na rua da Misericórdia e fico a olhar para a montra e para o seu interior, mas foi a primeira vez que entrei na Loja das Colecções — no fundo, nada mais do que um alfarrabista mais organizado do que a média, onde em tempos existia um McDonald's — , onde coexistem alegremente, lado a lado, discos de António Mourão e Amália Rodrigues, literatura revolucionária do 25 de Abril e traduções do Portugal salazarista do "Mein Kampf".

Ao fundo, mesmo em frente à porta de entrada, estão as bandas-desenhadas. E aí, com grande surpresa, dei por uma série perfeitamente organizada de colecções do Falcão, Mundo de Aventuras e outros Selecções, entre os quais, numa breve passagem, reconheci as capas de inúmeros números de que me recordo em casa dos pais, passadas de mão em mão dos meus irmãos mais velhos (números posteriores, já dos anos 1970, eram comprados mais pelo meu pai e por mim próprio). Alguns deles ainda os tenho, guardados em minha casa num arquivo de cartão. Folheando as caixas, deliciei-me com as traduções "às três pancadas", letradas à máquina de escrever e que pareciam muitas vezes deturpar o sentido das histórias e ocupar mais espaço que os próprios desenhos. E regressei a uma época em que havia outra ingenuidade e outro maravilhamento no modo como criávamos e líamos a "pulp fiction" descartável.

8 de julho de 2006

7 de julho de 2006

6 de julho de 2006

O CLIENTE TEM SEMPRE RAZÃO

No banco, depois de levantar cheques na máquina automática, para a qual está uma fila de três pessoas atrás de mim, dirijo-me para a caixa multibanco da qual acaba de se afastar uma pessoa. O senhor de T-shirt amarela e pochette castanha toca-me no ombro e, com excessiva e melíflua educação, diz-me que "é fila única", nem me dando tempo para meter o cartão à máquina. Surpreendido, cedo-lhe o lugar e digo-lhe que não sabia que era fila única — naquela sucursal, o habitual é filas separadas. A senhora que estava atrás dele, com um sorriso "que é que se há-de fazer?", diz que qualquer pessoa acharia que eram filas separadas.

Logo a seguir, no posto de correio, dirijo-me ao balcão para solicitar um impresso de registo e um aviso de recepção para ir preenchendo enquanto espero a minha vez. A empregada pede com maus modos para esperar enquanto fala com um colega, puxando dos impressos e mantendo-os na mão enquanto conversa mas só mos entregando depois de terminar de falar.

5 de julho de 2006

MARIA ALBERTINA COMO FOSTE NESSA DE CHAMAR VANESSA À TUA MENINA

Na interminável série dos nomes-que-se-não-existissem-tinham-de-ser-inventados, numa loja do Colombo que estava com uma mão-cheia de currículos de potenciais empregados em cima da mesa, vi no topo da pilha o seguinte nome: Vilma Solange.

4 de julho de 2006

CARREIRA 28 (slight return, a pedido de várias famílias)

É domingo, meio da manhã. O eléctrico vem relativamente vazio dos Prazeres, mas é na rua da Conceição que começa genuinamente a encher, maioritariamente com turistas. Uma jovem gorda, com um bebé ao colo, faz sinal a um casal estrangeiro sentado na frente do eléctrico apontando com o dedo o letreiro vermelho que indica que aqueles lugares devem ser cedidos a idosos, grávidas ou acompanhantes de crianças de colo; não percebo se o casal não queria ceder o lugar ou, face à enchente, não se conseguia levantar antes do eléctrico parar num sinal ou numa paragem.

Algures também pela Baixa, um senhor de meia-idade, cabelo branco, camisa aos quadrados largos, calças de fazenda, sacos de plástico na mão, posiciona-se em pé ao meu lado. A certa altura, começa a cantarolar em voz alta com requebros fadistas, não sei se inventando a letra ou cantando quadras soltas, intercaladas com o assobiar da melodia. O concerto imprevisto e não solicitado, que ainda pensei se dever à forte presença turística continua no entanto depois do eléctrico se esvaziar consideravelmente no Castelo de São Jorge, e continua ininterruptamente — quando saio no Bairro das Colónias, o senhor continua a trautear impetuosamente.