Reportagem, ontem, no telejornal da RTP-1, sobre os exames nacionais, com a repórter a perguntar a uma roda de estudantes se tinham lido o romance que fazia parte do currículo e que iria sair no exame, "Memorial do Convento" de José Saramago. Todos disseram, sem excepção, que não o tinham lido, e que se tinham preparado para o exame com os "resumos". Fiquei perplexo e escandalizado pelo ar divertido, tão tipicamente adolescente "sim-eu-sei-que-não-fiz-o-que-devia-mas-sou-tão-giro-tão-queriducho-que-vocês-me-vão-desculpar-com-certeza" com que eles assumiam que não tinham lido o livro.
Claro que, depois, me lembrei da seca que foi ter de ler as "Viagens na Minha Terra" do Almeida Garrett no liceu e "A Sibila" da Agustina Bessa-Luís no 12º ano. Mas pelo menos li (mesmo que a muito custo, é verdade; e nem cheguei a comprar "A Sibila", li-o emprestado por uma colega, e achei uma seca tão transcendente que fiquei irremediavelmente vacinado contra a escrita de Agustina, embora me pareça normal que um puto de 18 anos que está virado para outras coisas não fique entusiasmado com a Agustina a não ser que o/a professor/a consigam dar a entender como a Agustina é boa, o que não foi o caso). Ou seja, há uma parte de mim que os compreende, porque naquela idade há coisas que não se abrangem, mas há outra que não percebe como é possível baldar-se desta maneira a coisas que não são tão irrelevantes como podem parecer à mente de um teenager inconsciente. Claro que o Saramago ao pé dos "Morangos com Açúcar" não é ninguém.
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
20 de junho de 2006
19 de junho de 2006
FLASH POLAROID
O polícia desce as escadas do Colombo olhando para dentro do saco da Worten que traz na mão.
18 de junho de 2006
FUNDAMENTAL, ACTUALLY.

O Jorge Lopes já tinha avisado (aqui, e em Dezembro!), e o Jorge é um rapaz atento e de bom gosto, mas eu estava com uma certa relutância em acreditar que pudesse ser possível, depois do descalabro de "Release" e apesar dos bons resultados do "Battleship Potemkin". Depois, é o meu guru Andrew Sullivan que, pelo meio dos seus posts sociopolíticos a propósito desse país estranho e magnífico que é a América, tem andado a fazer campanha pela absoluta genialidade do objecto (o último exemplo da coisa está aqui). Agora que já ouvi, acho que é da mais elementar justiça confirmar que, sim, "Fundamental" é um magnífico regresso à melhor forma dos Pet Shop Boys e gostava de acreditar que a culpa não é só de Trevor Horn (ele dos Frankie Goes To Hollywood e ABC). Diga-se, já agora, que não há em "Fundamental" nenhum "Left to My Own Devices" (a odisseia surrealista tecno-disco que Horn produziu a Neil Tennant e Chris Lowe no "Introspective" de 1988), mas há três ou quatro momentos que chegam muito perto ("The Sodom and Gomorrah Show" anyone? ou mesmo o vergonhoso tecno-disco-xunga-New-Orderiano "Minimal"?).
O que é verdadeiramente extraordinário em "Fundamental" é que este é um grande álbum de pop política: os Pet Shop Boys dedicam-no a dois jovens iranianos condenados à morte por assumirem a sua homossexualidade; em "I'm with Stupid" lançam uma diatribe corrosiva à relação George W. Bush/Tony Blair que não fica atrás do "Shoot the Dog" de George Michael; "Integral" é uma ameaçadora meditação sobre o totalitarismo escondido por trás da limitação das liberdades que faz pensar em "V de Vingança". E depois há "Luna Park", sobre o alheamento mediático do mundo lá fora, que resume na perfeição o que é "Fundamental", nas palavras imediatas de Prince: "two thousand zero zero party over oops out of time/ tonight I'm gonna party like it's 1999". A festa de arromba antes do apocalipse.
E tudo isto ao som de alguma da pop descartável mais inspirada da carreira dos Pet Shop Boys. "Fundamental" é fundamental. E, sim, é um dos discos do ano.
17 de junho de 2006
CONVÉM SEMPRE TER UMA PEQUENA DESCULPA PREPARADA
...para o caso de se ser apanhado no supermercado com a braguilha das calças aberta. "Ah, o fecho abre sozinho".
(Por acaso é verdade, o fecho tem tendência a abrir-se sozinho. No caso vertente, contudo, apanhei a distracção antes de alguém reparar.)
(Por acaso é verdade, o fecho tem tendência a abrir-se sozinho. No caso vertente, contudo, apanhei a distracção antes de alguém reparar.)
16 de junho de 2006
AFIRMAÇÃO POTENCIALMENTE INQUESTIONÁVEL (note to self)
Quando você lê o que escrevo, note bem isto, nunca o esqueça, a vida é uma linguagem, a escrita uma outra bem diferente. As gramáticas duma e doutra não são intermutáveis.
— Louis Aragon, in Tratado do Estilo (1928), traduzido por Júlio Henriques (Lisboa: Antígona, 1995)
— Louis Aragon, in Tratado do Estilo (1928), traduzido por Júlio Henriques (Lisboa: Antígona, 1995)
15 de junho de 2006
POST DE DEVOÇÃO INCONDICIONAL
...à divina voz da Petra, que é nossa, muito nossa e de mais ninguém e canta os blues como ninguém em Portugal o faz. Ainda por cima, não precisam de pagar nada para a ouvir cantar: façam o favor de ir aqui e, descendo pela página abaixo, procurem por Nobody's Bizness - Ao Vivo na Capela da Misericórdia Sines 2005 e descarreguem, totalmente gratuitamente, o "Full Album". Não garanto que a vossa vida mude, mas ficará certamente abrilhantada.
Em alternativa, podem ir aqui saber mais sobre a Petra e os Nobody's Bizness Blues Band, ouvir um bocado de música antes de decidirem ir buscar o disco todo e saber quando é que a podem ir ouvir cantar ao vivo.
Ah, e Petra, mon petit poussin, je vous demande pardon, je n'ai pas remarqué votre joyeux anniversaire et je n'ai toujours pas écouté le disque de Paul Simon que notre petit JB trouve assez chiant. Je vous embrasse très fort, mon petit poussin, et j'écoute toujours notre Ry Cooder.
Em alternativa, podem ir aqui saber mais sobre a Petra e os Nobody's Bizness Blues Band, ouvir um bocado de música antes de decidirem ir buscar o disco todo e saber quando é que a podem ir ouvir cantar ao vivo.
Ah, e Petra, mon petit poussin, je vous demande pardon, je n'ai pas remarqué votre joyeux anniversaire et je n'ai toujours pas écouté le disque de Paul Simon que notre petit JB trouve assez chiant. Je vous embrasse très fort, mon petit poussin, et j'écoute toujours notre Ry Cooder.
14 de junho de 2006
LUZ E SOMBRA
Parece que estou a dormir há várias horas, mas afinal são apenas duas e meia da manhã quando acordo meio estremunhado, o meu quarto iluminado por clarões regulares de luz branca como as estroboscópicas das discotecas, com um ribombar de tambores constante à distância. Entre as duas e meia e as três e meia da manhã, a tempestade não dá tréguas, com uma sequência de relâmpagos que iluminam o céu por cima das nuvens cinzentas e trovões que soam ininterruptamente como uma batalha que se ouve à distância. O cheiro a molhado que entra pelas janelas de persianas corridas mistura-se com um odor a fósforo queimado. E, por um instante, compreendo porque é que os antigos temiam e respeitavam as noites de tempestade.
13 de junho de 2006
O REI DAS FARTURAS
Adoro farturas. Quando era miúdo, ir à Feira Popular e trazer para casa um daqueles saquinhos de plástico com atilho forrado a papel vegetal com a referência aos "três irmãos das farturas" (azul para os pacotes de meia-dúzia, vermelho para os pacotes de uma dúzia — ou talvez fosse ao contrário) e as farturas lá dentro afogadas numa mistura de açúcar e canela era uma perdição. Aliás, mesmo já vintão, ainda em casa dos meus pais, era o delírio quando eles iam à Feira passear e me traziam um pacote de farturas.
A Feira do Livro deu-me o pretexto perfeito para comer uma fartura ontem à noite. O que só me recordou uma outra coisa: mais que adorar farturas, adoro farturas frias. Sério. Comê-las acabadas de fritar deixa-me sempre o estômago a queixar-se durante uns minutos. Eu gosto mesmo é delas já quase frias, com a consistência de pastilha elástica.
A Feira do Livro deu-me o pretexto perfeito para comer uma fartura ontem à noite. O que só me recordou uma outra coisa: mais que adorar farturas, adoro farturas frias. Sério. Comê-las acabadas de fritar deixa-me sempre o estômago a queixar-se durante uns minutos. Eu gosto mesmo é delas já quase frias, com a consistência de pastilha elástica.
12 de junho de 2006
WHAT'S IN A NAME?
Há dois nomes de ilustres "habitués" dos noticiários nocturnos que me deixam sempre com um sorriso nos lábios (os ditos cujos que me perdoem): o eminente sindicalista Bettencourt Picanço e o eminente executivo Elidérico Viegas.
11 de junho de 2006
MÚSICA PELO CAMINHO

June Tabor do Rato ao Bairro das Colónias.

Richard Thompson no eléctrico da Graça até à Estrela.

Townes van Zandt no circuito Estrela/Saldanha/Estrela.
8 de junho de 2006
AFIRMAÇÃO INQUESTIONÁVEL
É sabido que a particularidade dos génios consiste em fornecer ideias aos cretinos vinte anos mais tarde. Seria injusto mostrarmo-nos severos com o génio por causa disso.
— Louis Aragon, in Tratado do Estilo (1928), traduzido por Júlio Henriques (Lisboa: Antígona, 1995)
— Louis Aragon, in Tratado do Estilo (1928), traduzido por Júlio Henriques (Lisboa: Antígona, 1995)
7 de junho de 2006
IT'S A SMALL WORLD AFTER ALL
#1 Através do Luís, descobri este excelente post do João Lopes no blog que partilha há alguns meses com o Nuno Galopim, e no qual se tem feito raro. É um texto que partilha um sem-número das minhas próprias reflexões sobre o que significa hoje em dia ter uma opinião num universo mediático onde o conceito de "opinion-maker" já não corresponde em nada à sua significação primordial, e que subscrevo inteiramente.
#2 Através do Jorge, descubro que o Rodrigo já tem um blog próprio há largas semanas e eu não sabia. E descubro também que o António cumpriu finalmente o plano que me tinha revelado num recente encontro casual na Feira do Livro e também abriu o seu cantinho dedicado às músicas do mundo, que irá certamente começar a rapidamente a dar abadas nos outros todos porque ele é o tipo que eu conheço que mais percebe de músicas do mundo. Muito embora ele tenha em casa a caixa dos Abba e se desculpe como "material de pesquisa" quando eu sei muito bem que ele não quer é admitir que gosta mesmo dos Abba.
#2 Através do Jorge, descubro que o Rodrigo já tem um blog próprio há largas semanas e eu não sabia. E descubro também que o António cumpriu finalmente o plano que me tinha revelado num recente encontro casual na Feira do Livro e também abriu o seu cantinho dedicado às músicas do mundo, que irá certamente começar a rapidamente a dar abadas nos outros todos porque ele é o tipo que eu conheço que mais percebe de músicas do mundo. Muito embora ele tenha em casa a caixa dos Abba e se desculpe como "material de pesquisa" quando eu sei muito bem que ele não quer é admitir que gosta mesmo dos Abba.
6 de junho de 2006
CHOCOLATE ON THE ROCKS
Meia hora ficou a tablete de chocolate escondida debaixo do assento da frente do carro, ao sol, o suficiente para, quando cheguei a casa, sentir uma pasta quase líquida dentro do invólucro de plástico. Depois de um par de dias no frigorífico, não pensem contudo que a barra recuperou a sua forma original — em vez disso, temos uma construção boschiana que, sabendo exactamente ao que devia, adquiriu as formas derretidas de uma vela de cheiro usada.
5 de junho de 2006
VISTO DE FORA
É muito curioso ver Lisboa pelos olhos dos estrangeiros e perceber, por exemplo, como me diziam hoje amigos americanos de passagem para um congresso médico, que em Lisboa parece haver as obras que nas cidades deles não há, que os jardins parecem bem tratados e bem cuidados ao contrário dos deles, que há muitos cães que as pessoas tratam bem e levam a passear à rua aos jardins bem tratados. E, sobretudo, que, ao contrário deles, as pessoas na rua são tudo menos simpáticas e abertas, e são muito metidas consigo e fechadas, enquanto os americanos começam logo a falar connosco como se nos conhecessem há anos.
4 de junho de 2006
CARREIRA 28
O eléctrico está cheio; dirijo-me para a traseira, para ver se consigo um lugarzinho sossegado em pé junto à saída, mas o mais que consigo é encostar-me à janela, junto a uma senhora de meia-idade, de rosto rugoso e ressequido, vestida com uma camisola de manga cava verde alface e umas calças escuras sobre umas sandálias quadradas em sola de madeira. O cheiro desagradável que ali se sente só pode vir das suas axilas. A senhora vai resmungando para si com a quantidade de paragens que o eléctrico vai fazendo devido a sinais, carros mal estacionados, passagens de peões. Vendo o meu caderno de notas no bolso da minha camisa, decide por bem alertar-me para o perigo dos carteiristas, "até parece que andam aí uns morenos, é um instante enquanto perde a carteira, e o problema nem é o dinheiro, é mais os documentos". Agradeço-lhe pela preocupação. Quando um lugar vaga, a senhora senta-se, para logo se levantar oferecendo-o a um senhor idoso de cabelos brancos que está em pé; o senhor recusa gentilmente, mas a senhora não se levanta para oferecer o lugar quando passa uma idosa de cabelos brancos visivelmente mais velha que o senhor que recusara o lugar.
3 de junho de 2006
CARREIRA 28
Em frente à Basílica da Estrela, um casal pós-adolescente espera a chegada do eléctrico. Ele está de camisola de manga cava, boné, toalha ao ombro e calças de ganga, ela de T-shirt e saia leve, óculos escuros, com um saco de cartão na mão. Durante cinco minutos ele resmunga porque o eléctrico nunca mais chega, apesar do sinal que marca o tempo de espera pelo próximo eléctrico se manter imóvel nos 4 minutos; entre risinhos convencidos, ele elabora no momento uma pequena teoria da conspiração segundo a qual a informação está ali apenas para enganar o pacóvio que espera pelo transporte. Quando o eléctrico finalmente chega, ele diz-lhe, "bom, miúda, vou bazar" e, sem se despedir dela, vai-se embora contornando o eléctrico enquanto ela, sem olhar para ele, aguarda a sua vez de entrar.
1 de junho de 2006
CARREIRA 28
Passa pouco das cinco da tarde e, enquanto esperamos frente à Basílica da Estrela que surja o eléctrico 28 para o Martim Moniz, uma senhora idosa, de pele escura e ressequida e longo cabelo negro, vestida com uma blusa azul vivo e umas calças pretas, de sabrinas brancas muito sujas e sacos de papel na mão, anda de um lado para o outro junto à paragem do eléctrico, cuspindo regularmente para o chão enquanto murmura imperceptivelmente. Passado algum tempo, surge o 28 para Campo de Ourique, a senhora atravessa a rua e apanha o eléctrico.
Passa pouco das sete e meia da tarde e, de regresso a casa, apanho o eléctrico 28 para Campo de Ourique junto à Sé. Não há lugares sentados, e dirijo-me para a traseira do eléctrico para ficar em pé junto à saída enquanto não vaga um assento. Sentada num dos lugares está a mesma idosa de blusa azul, calças pretas e sabinas brancas, cuspindo regularmente para fora da janela. Sai na Basílica da Estrela; antes de entrar no jardim, ainda a vejo atravessar a rua em direcção à paragem do 28 no sentido Martim Moniz.
Passa pouco das sete e meia da tarde e, de regresso a casa, apanho o eléctrico 28 para Campo de Ourique junto à Sé. Não há lugares sentados, e dirijo-me para a traseira do eléctrico para ficar em pé junto à saída enquanto não vaga um assento. Sentada num dos lugares está a mesma idosa de blusa azul, calças pretas e sabinas brancas, cuspindo regularmente para fora da janela. Sai na Basílica da Estrela; antes de entrar no jardim, ainda a vejo atravessar a rua em direcção à paragem do 28 no sentido Martim Moniz.
31 de maio de 2006
PEQUENA INTERRUPÇÃO DO SERVIÇO NORMAL
Desejava apenas agradecer aos inventores do papel higiénico humedecido. Obrigado.
30 de maio de 2006
CRIANCINHAS
Dentro do supermercado, ouve-se a berraria aguda e guinchante de algumas criancinhas ainda muito novas que gritam a plenos pulmões. Mas não são nenhumas criancinhas que estejam a correr pelos corredores do supermercado, com os pais assoberbados a tentarem apanhá-las: são criancinhas que estão a brincar no parque infantil de plástico colocado em frente em supermercado, cuja potência vocal é tal que até aqui, dentro do supermercado, se ouvem os seus guinchos.
29 de maio de 2006
PÃO DE AÇÚCAR
Chego-me à entrada da padaria do supermercado — uma interrupção nas filas de tulhas de madeira onde o pão fresco é colocado a intervalos regulares, que abre para um ambiente industrial, asséptico, esbranquiçado onde vários empregados se afadigam a cortar, etiquetar, preparar pão — e sou visto pela jovem negra que está a fatiar pão caseiro na máquina. Faço-lhe sinal com o pão de forma que tenho na mão, "pode fatiar?". Ela faz que sim com a cabeça, "mas vou-lhe dar daqui de dentro porque tenho aqui formas prontas". Enquanto espero, olho para os rostos dos empregados, todos com aspecto de quem preferia estar na praia e de quem não tem o mínimo prazer em estar ali a fazer aquilo. Quando, pelo meio das solicitações e do trabalho, a jovem negra me passa para a mão o meu pão fatiado, fá-lo com um sorriso que é a melhor definição de "atenção ao cliente" que me lembro de ter visto. E é a única pessoa ali dentro a sorrir.
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