Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
12 de junho de 2006
WHAT'S IN A NAME?
Há dois nomes de ilustres "habitués" dos noticiários nocturnos que me deixam sempre com um sorriso nos lábios (os ditos cujos que me perdoem): o eminente sindicalista Bettencourt Picanço e o eminente executivo Elidérico Viegas.
11 de junho de 2006
MÚSICA PELO CAMINHO

June Tabor do Rato ao Bairro das Colónias.

Richard Thompson no eléctrico da Graça até à Estrela.

Townes van Zandt no circuito Estrela/Saldanha/Estrela.
8 de junho de 2006
AFIRMAÇÃO INQUESTIONÁVEL
É sabido que a particularidade dos génios consiste em fornecer ideias aos cretinos vinte anos mais tarde. Seria injusto mostrarmo-nos severos com o génio por causa disso.
— Louis Aragon, in Tratado do Estilo (1928), traduzido por Júlio Henriques (Lisboa: Antígona, 1995)
— Louis Aragon, in Tratado do Estilo (1928), traduzido por Júlio Henriques (Lisboa: Antígona, 1995)
7 de junho de 2006
IT'S A SMALL WORLD AFTER ALL
#1 Através do Luís, descobri este excelente post do João Lopes no blog que partilha há alguns meses com o Nuno Galopim, e no qual se tem feito raro. É um texto que partilha um sem-número das minhas próprias reflexões sobre o que significa hoje em dia ter uma opinião num universo mediático onde o conceito de "opinion-maker" já não corresponde em nada à sua significação primordial, e que subscrevo inteiramente.
#2 Através do Jorge, descubro que o Rodrigo já tem um blog próprio há largas semanas e eu não sabia. E descubro também que o António cumpriu finalmente o plano que me tinha revelado num recente encontro casual na Feira do Livro e também abriu o seu cantinho dedicado às músicas do mundo, que irá certamente começar a rapidamente a dar abadas nos outros todos porque ele é o tipo que eu conheço que mais percebe de músicas do mundo. Muito embora ele tenha em casa a caixa dos Abba e se desculpe como "material de pesquisa" quando eu sei muito bem que ele não quer é admitir que gosta mesmo dos Abba.
#2 Através do Jorge, descubro que o Rodrigo já tem um blog próprio há largas semanas e eu não sabia. E descubro também que o António cumpriu finalmente o plano que me tinha revelado num recente encontro casual na Feira do Livro e também abriu o seu cantinho dedicado às músicas do mundo, que irá certamente começar a rapidamente a dar abadas nos outros todos porque ele é o tipo que eu conheço que mais percebe de músicas do mundo. Muito embora ele tenha em casa a caixa dos Abba e se desculpe como "material de pesquisa" quando eu sei muito bem que ele não quer é admitir que gosta mesmo dos Abba.
6 de junho de 2006
CHOCOLATE ON THE ROCKS
Meia hora ficou a tablete de chocolate escondida debaixo do assento da frente do carro, ao sol, o suficiente para, quando cheguei a casa, sentir uma pasta quase líquida dentro do invólucro de plástico. Depois de um par de dias no frigorífico, não pensem contudo que a barra recuperou a sua forma original — em vez disso, temos uma construção boschiana que, sabendo exactamente ao que devia, adquiriu as formas derretidas de uma vela de cheiro usada.
5 de junho de 2006
VISTO DE FORA
É muito curioso ver Lisboa pelos olhos dos estrangeiros e perceber, por exemplo, como me diziam hoje amigos americanos de passagem para um congresso médico, que em Lisboa parece haver as obras que nas cidades deles não há, que os jardins parecem bem tratados e bem cuidados ao contrário dos deles, que há muitos cães que as pessoas tratam bem e levam a passear à rua aos jardins bem tratados. E, sobretudo, que, ao contrário deles, as pessoas na rua são tudo menos simpáticas e abertas, e são muito metidas consigo e fechadas, enquanto os americanos começam logo a falar connosco como se nos conhecessem há anos.
4 de junho de 2006
CARREIRA 28
O eléctrico está cheio; dirijo-me para a traseira, para ver se consigo um lugarzinho sossegado em pé junto à saída, mas o mais que consigo é encostar-me à janela, junto a uma senhora de meia-idade, de rosto rugoso e ressequido, vestida com uma camisola de manga cava verde alface e umas calças escuras sobre umas sandálias quadradas em sola de madeira. O cheiro desagradável que ali se sente só pode vir das suas axilas. A senhora vai resmungando para si com a quantidade de paragens que o eléctrico vai fazendo devido a sinais, carros mal estacionados, passagens de peões. Vendo o meu caderno de notas no bolso da minha camisa, decide por bem alertar-me para o perigo dos carteiristas, "até parece que andam aí uns morenos, é um instante enquanto perde a carteira, e o problema nem é o dinheiro, é mais os documentos". Agradeço-lhe pela preocupação. Quando um lugar vaga, a senhora senta-se, para logo se levantar oferecendo-o a um senhor idoso de cabelos brancos que está em pé; o senhor recusa gentilmente, mas a senhora não se levanta para oferecer o lugar quando passa uma idosa de cabelos brancos visivelmente mais velha que o senhor que recusara o lugar.
3 de junho de 2006
CARREIRA 28
Em frente à Basílica da Estrela, um casal pós-adolescente espera a chegada do eléctrico. Ele está de camisola de manga cava, boné, toalha ao ombro e calças de ganga, ela de T-shirt e saia leve, óculos escuros, com um saco de cartão na mão. Durante cinco minutos ele resmunga porque o eléctrico nunca mais chega, apesar do sinal que marca o tempo de espera pelo próximo eléctrico se manter imóvel nos 4 minutos; entre risinhos convencidos, ele elabora no momento uma pequena teoria da conspiração segundo a qual a informação está ali apenas para enganar o pacóvio que espera pelo transporte. Quando o eléctrico finalmente chega, ele diz-lhe, "bom, miúda, vou bazar" e, sem se despedir dela, vai-se embora contornando o eléctrico enquanto ela, sem olhar para ele, aguarda a sua vez de entrar.
1 de junho de 2006
CARREIRA 28
Passa pouco das cinco da tarde e, enquanto esperamos frente à Basílica da Estrela que surja o eléctrico 28 para o Martim Moniz, uma senhora idosa, de pele escura e ressequida e longo cabelo negro, vestida com uma blusa azul vivo e umas calças pretas, de sabrinas brancas muito sujas e sacos de papel na mão, anda de um lado para o outro junto à paragem do eléctrico, cuspindo regularmente para o chão enquanto murmura imperceptivelmente. Passado algum tempo, surge o 28 para Campo de Ourique, a senhora atravessa a rua e apanha o eléctrico.
Passa pouco das sete e meia da tarde e, de regresso a casa, apanho o eléctrico 28 para Campo de Ourique junto à Sé. Não há lugares sentados, e dirijo-me para a traseira do eléctrico para ficar em pé junto à saída enquanto não vaga um assento. Sentada num dos lugares está a mesma idosa de blusa azul, calças pretas e sabinas brancas, cuspindo regularmente para fora da janela. Sai na Basílica da Estrela; antes de entrar no jardim, ainda a vejo atravessar a rua em direcção à paragem do 28 no sentido Martim Moniz.
Passa pouco das sete e meia da tarde e, de regresso a casa, apanho o eléctrico 28 para Campo de Ourique junto à Sé. Não há lugares sentados, e dirijo-me para a traseira do eléctrico para ficar em pé junto à saída enquanto não vaga um assento. Sentada num dos lugares está a mesma idosa de blusa azul, calças pretas e sabinas brancas, cuspindo regularmente para fora da janela. Sai na Basílica da Estrela; antes de entrar no jardim, ainda a vejo atravessar a rua em direcção à paragem do 28 no sentido Martim Moniz.
31 de maio de 2006
PEQUENA INTERRUPÇÃO DO SERVIÇO NORMAL
Desejava apenas agradecer aos inventores do papel higiénico humedecido. Obrigado.
30 de maio de 2006
CRIANCINHAS
Dentro do supermercado, ouve-se a berraria aguda e guinchante de algumas criancinhas ainda muito novas que gritam a plenos pulmões. Mas não são nenhumas criancinhas que estejam a correr pelos corredores do supermercado, com os pais assoberbados a tentarem apanhá-las: são criancinhas que estão a brincar no parque infantil de plástico colocado em frente em supermercado, cuja potência vocal é tal que até aqui, dentro do supermercado, se ouvem os seus guinchos.
29 de maio de 2006
PÃO DE AÇÚCAR
Chego-me à entrada da padaria do supermercado — uma interrupção nas filas de tulhas de madeira onde o pão fresco é colocado a intervalos regulares, que abre para um ambiente industrial, asséptico, esbranquiçado onde vários empregados se afadigam a cortar, etiquetar, preparar pão — e sou visto pela jovem negra que está a fatiar pão caseiro na máquina. Faço-lhe sinal com o pão de forma que tenho na mão, "pode fatiar?". Ela faz que sim com a cabeça, "mas vou-lhe dar daqui de dentro porque tenho aqui formas prontas". Enquanto espero, olho para os rostos dos empregados, todos com aspecto de quem preferia estar na praia e de quem não tem o mínimo prazer em estar ali a fazer aquilo. Quando, pelo meio das solicitações e do trabalho, a jovem negra me passa para a mão o meu pão fatiado, fá-lo com um sorriso que é a melhor definição de "atenção ao cliente" que me lembro de ter visto. E é a única pessoa ali dentro a sorrir.
28 de maio de 2006
FAMEL ZUNDAPP
Um pós-adolescente de fato de treino branco (com as três listas verticais da Adidas nas calças), com o capacete precariamente inclinado na cabeça, pára a sua motorizada de pouca cilindrada ao meu lado no sinal de trânsito. Enquanto espera que o sinal abra, dá gás ao motor com uma perspectiva verdadeiramente musical da coisa, como quem mantém um riff de guitarra a correr ao longo de toda uma canção.
27 de maio de 2006
FEIRA DO LIVRO
Num dos stands dos institutos institucionais e académicos, o empregado faz uma chamada ao telemóvel. "Estou, doutor?... Desculpe estar a incomodá-lo, mas temos aqui um senhor que está a perguntar por um livro chamado "A tecnologia dos Bijagós na Ilha de Bubaque"... Ah, está esgotado?"
26 de maio de 2006
OBSESSÃO
A canção, já o disse aqui, é perfeita no seu estudo da obsessão entre o desesperado e o maníaco. O teledisco, a cargo de Kevin Godley & Lol Creme, é de uma simplicidade quase desarmante, de uma austeridade ilustrativa que consegue traduzir a canção melhor que qualquer ficção. The Police, "Every Breath You Take", 1983.
25 de maio de 2006
23 de maio de 2006
O ÉCRAN MÁGICO
Uma das razões pelas quais estou deslumbrado com o YouTube é a possibilidade que me dá de redescobrir pérolas visuais que eu julgava estarem perdidas para sempre — porque, enfim, um teledisco é como um single, perdido no tempo, com a diferença significativa que os DVDs de "greatest hits" nunca foram tão estimulantes como os álbuns de "greatest hits", e a maior parte dos telediscos verdadeiramente magistrais que se fizeram (e se fazem) nunca foram "greatest hits" de ninguém. Caso vertente: este momento de magia texturada chamado "Blackwater", dirigido em 1991 pelo artista gráfico Russell Mills para a fugaz e malfadada reincarnação dos Japan a que se chamou Rain Tree Crow, que muitos terão ouvido mas muito poucos devem ter visto. É uma pequena jóia que eu julgava perdida e que me alegra reencontrar, mesmo que longe das condições ideais.
22 de maio de 2006
JARDIM DA ESTRELA
Num banco do outro lado do lago, uma avó de camisa vermelha põe a camisola laranja do neto sobre a cabeça para se proteger do sol, enquanto o marido, de colete de safari por cima da camisa branca às riscas, encostado ao gradeamento, à sombra, vigia os dois miúdos que correm pelo jardim atrás dos pássaros.
21 de maio de 2006
OS MENINOS À VOLTA DA FOGUEIRA
O meu quarto de dormir dá para as traseiras. Como a maior parte dos quarteirões portugueses, essas traseiras são partilhadas com as traseiras de um sem-número de outros prédios, o que me impossibilita de saber onde estavam exactamente os inconscientes que estiveram até quase às cinco da manhã a cantar e tocar viola em altos berros, com enormes gargalhadas pelo meio, para lhes mandar um berro e pedir o especial favor de deixar as pessoas dormir. Não é a primeira vez que isto acontece, embora em rigor não aconteça para aí mais de uma vez de seis em seis meses; parece-me apenas sintomático daquela tendência bem portuguesa para fazer tudo aos gritos, desde falar ao telemóvel a conversar em casa, sem o mínimo respeito por quem está à volta.
O meu pai teria chamado a polícia, mas isso seria outro saco de gatos.
O meu pai teria chamado a polícia, mas isso seria outro saco de gatos.
19 de maio de 2006
EUROVISÃO
Estou traumatizado com o Festival Eurovisão da Canção 2006. Há anos que não via uma edição e, agora que vi, mesmo que em ambiente assinalavelmente divertido, estou escandalizado como tudo mudou pouco ou quase nada em relação aos últimos que vi (a baladona irlandesa de puxar às lágrimas das domésticas, a matrona engordada de Andorra, os bósnios nostálgicos) e como tudo é tão igual em relação a tudo o resto que se vende hoje como música (a Shakiroska ucraniana, o trânsfuga-de-boys-band russo, as friques exóticas holandesas). E percebi, finalmente, porque é que o certame se tornou em acontecimento icónico hilariante: depois daqueles Him finlandeses disfarçados de demónio de filme de série Z, depois do momento de performance art-quase gay da Islândia, depois da diva turca com ar de transsexual e da diva sueca com aplique no braço, e depois dos comentários do tempo da outra senhora de Eládio Clímaco, só dá mesmo para rir.
(PS 1: Espero que os lituanos ganhem amanhã. Pelo menos tinham sentido de humor.)
(PS 2: A canção portuguesa não destoava das outras. Por uma vez, é mesmo uma injustiça ter ficado de fora, mas não pelas razões que vocês estão todos a pensar.)
(PS 1: Espero que os lituanos ganhem amanhã. Pelo menos tinham sentido de humor.)
(PS 2: A canção portuguesa não destoava das outras. Por uma vez, é mesmo uma injustiça ter ficado de fora, mas não pelas razões que vocês estão todos a pensar.)
18 de maio de 2006
DOWNTOWN TRAIN
Jean-Baptiste Mondino para Tom Waits. Não é o teledisco. Mas está muito próximo. (E como Jarmusch gostava de evocar isto.)
17 de maio de 2006
TELEMÓVEL
Um senhor cego desce devagar a rua Alexandre Herculano, a bengala na mão direita, falando ao telemóvel encostado ao ouvido esquerdo — um telemóvel último modelo, onde é bem visível a lente redonda da câmara.
16 de maio de 2006
SOB O SIGNO DA VERDADE
Não li o livro de Manuel Maria Carrilho. Tenho apenas acompanhado o circo mediático à sua volta. E parece-me que deve ter sido precisamente essa a intenção do ex-ministro e ex-candidato a presidente da Câmara: criar um facto mediático que anulasse a "má imagem" que a sua candidatura deixou junto de muita gente. No entanto, chamar "Sob o Signo da Verdade" ao seu livro já me parece algo abusivo. É que, como diziam os Manic Street Preachers aqui há uns discos atrás, "This is my truth; tell me yours". E as duas "verdades" nem sempre coincidem, o que torna ambas igualmente falsas ou igualmente verdadeiras — porque os factos são aquilo que deles quisermos fazer. E, como já todos percebemos, o "facto mediático" projectado por este livro é um "ajuste de contas" com os "responsáveis" pela derrota de Carrilho na corrida à Câmara Municipal de Lisboa. Lá dizia a minha mãe que "roupa suja lava-se em casa".
Por outro lado, recordo-me agora, nas zonas urbanas dos EUA é normal haver uma única máquina de lavar roupa comum ao prédio todo, ou então ir lavar a roupa à lavandaria mais próxima.
Por outro lado, recordo-me agora, nas zonas urbanas dos EUA é normal haver uma única máquina de lavar roupa comum ao prédio todo, ou então ir lavar a roupa à lavandaria mais próxima.
15 de maio de 2006
ALGUMAS PALAVRAS SÁBIAS DO FUNDO DOS TEMPOS
(...) a constituição da família portuguesa não obedecendo, unânime ou separadamente a nenhum princípio de fé é o nosso descrédito de nação da Europa. Desde a educação familiar até depois da educação oficial inclusive o casamento a desordem faz-se progressivamente até à putrefacção nacional. E tudo tem origem na inconsciência com que cada um existe: em Portugal toda a gente é pai pela mesma razão porque falta à repartição. Do estado de solteiro para o estado de casado dá-se exclusivamente, na nossa terra, uma mudança de hábitos.
Em Portugal educar tem um sentido diferente; em Portugal educar significa burocratizar. Exemplo: Coimbra. Mas na maioria o português é analfabeto e em geral é ignorante; na unanimidade o português é impostor, prova evidente de deficientíssimo.
(...) O português educado sem o sentimento da pátria e acostumado à desordem dos governos criou por si a compensação inútil de dizer mal dos governos e nem poupou a pátria. Estabeleceu-se até, elegantemente, como prova de inteligência ou de ter viajado dizer mal da pátria. Isto deixa de ser decadência para ser impotência física e sexual. (...) O português assimila de preferência todas as variedades de importação e em descrédito das próprias maravilhas regionalista; o comércio e a indústria têm quase sempre de se mascararem de estrangeiros para serem eficazmente rendosos.
(...) É preciso criar o espírito da aventura contra o sentimentalismo literário dos passadistas.
É preciso criar as aptidões pró heroísmo moderno: o heroísmo quotidiano.
É preciso destruir este nosso atavismo alcoólico e sebastianista de beira-mar."
É um excerto do "Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX" que Almada-Negreiros escreveu em Dezembro de 1917, uma provocação marcial quase estadonovista na sua defesa de um ideal luso-patriótico e completamente politicamente incorrecta — mas extraordinariamente certeira na sua definição dos atavismos lusitanos. Que, num século inteiro, não mudaram nada. E essa do heroísmo quotidiano, desculpem lá, faz ainda mais sentido hoje em dia.
Em Portugal educar tem um sentido diferente; em Portugal educar significa burocratizar. Exemplo: Coimbra. Mas na maioria o português é analfabeto e em geral é ignorante; na unanimidade o português é impostor, prova evidente de deficientíssimo.
(...) O português educado sem o sentimento da pátria e acostumado à desordem dos governos criou por si a compensação inútil de dizer mal dos governos e nem poupou a pátria. Estabeleceu-se até, elegantemente, como prova de inteligência ou de ter viajado dizer mal da pátria. Isto deixa de ser decadência para ser impotência física e sexual. (...) O português assimila de preferência todas as variedades de importação e em descrédito das próprias maravilhas regionalista; o comércio e a indústria têm quase sempre de se mascararem de estrangeiros para serem eficazmente rendosos.
(...) É preciso criar o espírito da aventura contra o sentimentalismo literário dos passadistas.
É preciso criar as aptidões pró heroísmo moderno: o heroísmo quotidiano.
É preciso destruir este nosso atavismo alcoólico e sebastianista de beira-mar."
É um excerto do "Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX" que Almada-Negreiros escreveu em Dezembro de 1917, uma provocação marcial quase estadonovista na sua defesa de um ideal luso-patriótico e completamente politicamente incorrecta — mas extraordinariamente certeira na sua definição dos atavismos lusitanos. Que, num século inteiro, não mudaram nada. E essa do heroísmo quotidiano, desculpem lá, faz ainda mais sentido hoje em dia.
14 de maio de 2006
UM SONHO AMERICANO
Folheava, ontem à noite, "Os 100 Álbuns Mais Vendidos dos Anos 50" — um livrinho pequenino, com as dimensões de um CD, reproduzindo as capas dos cem álbuns mais vendidos nos anos 1950 nos EUA. E as capas são tão extraordinariamente do seu tempo — projecções garridas e tecnocoloridas não necessariamente do "sonho americano" mas certamente do "American lifestyle" que se tornou numa espécie de "padrão de medida" social para toda a civilização ocidental — que de repente me senti projectado de retorno à minha infância, em casa dos meus pais, um universo fechado sobre si próprio, parado num tempo que nunca avançou verdadeiramente para lá de um outro tempo, irresistivelmente moldado à imagem de um país à distância de um oceano.
13 de maio de 2006
11 de maio de 2006
LISBOETAS
No bem castiço e popular bairro da Graça, há um restaurante indiano que emprega um cozinheiro chinês.
10 de maio de 2006
¡NO TE LO PONGAS!
É horrível admitir isto publicamente, mas tem de ser dito. Estou fã de um "reality-show" da BBC chamado "What Not to Wear", que passa no canal People & Arts às terças ao fim da tarde com o hilariante título português "Esquadrão da Moda" (o título espanhol, "¡No Te Lo Pongas!", é ainda mais hilariante). E porque estou eu fã de tal coisa? Porque deliro com os comentários snobes das duas apresentadoras bifas-com-a-mania-de-que-são-boas, Trinny Woodall e Susannah Constantine. Como o ar de repugnância que uma delas fez aqui há uns tempos para uma concorrente que apareceu com um horrendo top furta-cores sem mangas, acompanhado da expressão "are you out of your mind?". Ou como a afirmação de que "as camisolas de futebol do clube preferido deviam ser proibidas por lei". Que o mesmo é dizer, bom senso expresso com o pedantismo cínico e superior da "civilização britânica" (nas palavras do meu irmão). Ou que o mesmo ainda é dizer, uma tentativa de educar as Vanessas e os Fanãs lá do sítio (vénia ao JLx) quanto ao bom gosto mínimo. E, vá lá, admita-se que qualquer programa que almeja acabar com a praga dos fatos de treino merece o nosso respeito total.
9 de maio de 2006
DÁ-ME LUME
Está bastante gente sentada no átrio do cinema, à espera que a sessão comece, mas é a mim que o homem negro vestido de azul, com um boné na cabeça, andando com um ligeiro tremor, se dirige. "Chefe, boa noite. Pode-me arranjar um cigarro?", diz-me por entre um bafo de álcool. "Não fumo", respondo-lhe. Vira-me as costas e dirige-se a um casal que, a poucos metros, está a fumar. Conversa com eles um pouco; a mulher abre a mala, passa-lhe algumas moedas para a mão, e ele vai-se embora pela escada.
8 de maio de 2006
A primeira vez que ouvi Go-Betweens foi no Som da Frente de António Sérgio, esse "Bachelor Kisses" que, apesar de todas as outras, é ainda hoje o "meu" tema dos Go-Betweens. O primeiro álbum dos Go-Betweens que tive foi "Liberty Belle and the Black Diamond Express". "The Mountains Near Dellray" é a última (e a melhor) canção do último álbum que os Go-Betweens gravaram, "Oceans Apart" (que, para mim, está longe de ser dos seus melhores, mas não deixa de ser tudo razoavelmente relativo, porque eles nunca fizeram um mau disco). Custa-me pensar que, depois da morte de Grant McLennan, não vão haver mais discos dos Go-Betweens. Ainda bem que continua a haver estes.
in the mountains near Dellray,
acres and a farm,
music in the barn, it’s no struggle.
snow in the sun.
October in the rain.
the people that have come are in the middle.
and does the Derwent flow?
anywhere up that way.
does the Derwent flow near Dellray?
and when you make a wish.
and you get the wish.
never let it go, it’s no struggle.
— Robert Forster para The Go-Betweens, "The Mountains Near Dellray" (in "Oceans Apart", Lo-max, 2005)
in the mountains near Dellray,
acres and a farm,
music in the barn, it’s no struggle.
snow in the sun.
October in the rain.
the people that have come are in the middle.
and does the Derwent flow?
anywhere up that way.
does the Derwent flow near Dellray?
and when you make a wish.
and you get the wish.
never let it go, it’s no struggle.
— Robert Forster para The Go-Betweens, "The Mountains Near Dellray" (in "Oceans Apart", Lo-max, 2005)
7 de maio de 2006
6 de maio de 2006
MELGAS
Tentem lá adormecer quando, no exacto momento em que o sono começa a embalar-nos, se ouve o inconfundível zumbido enervante de uma melga a fazer "banzai" e a tentar apanhar-nos desprevenidos para dar uma daquelas picadelas irritantes. Só esta semana, já despachei nada menos de quatro melgas que teimam em passear pela minha casa. Mas há também outro tipo de melgas: os distribuidores de publicidade que têm a brilhante ideia de tocar à campaínha às nove da manhã de um sábado, quando as pessoas de bem querem aproveitar para ficar a dormir um bocadinho mais. E que não hesitam em tocar duas ou três vezes enquanto ninguém lhes abrir a porta.
5 de maio de 2006
FAMÍLIAS MODERNAS
São seis e meia da tarde de uma sexta-feira de Primavera, vento a moderar o calor que o Sol ainda dá, na esplanada do jardim da Estrela. Um casal no fim dos vintes, princípios dos trinta, com duas filhas, chega à esplanada. A mãe senta-se numa cadeira ao sol, pega num livro de capa colorida ("Ser Optimista") e lê, de vez em quando chamando a filha mais velha, "Mariana, os outros meninos estão ali". O pai, em mangas de camisa com um jornal debaixo do braço, não larga o telemóvel enquanto persegue a filha mais nova, que percorre a esplanada de chucha atrás dos patos que nadam pachorrentamente pela água suja do pequeno lago. Volto à minha revista. Alguns minutos mais tarde, ouço um choro de criança; é a menina mais nova do casal, que o pai pega ao colo e tenta acalmar sem largar o telemóvel do ouvido esquerdo, continuando a falar. A mãe, com o livro marcado na mão, põe-se de pé e olha em todas as direcções, com ar de quem se quer ir embora, enquanto a filha mais velha grita que quer água.
4 de maio de 2006
O NOVO MUNDO

É um crime estrear este filme desta maneira, nesta semana, depois de quatro meses a ser sistematicamente adiado. Dá a impressão que não querem que ele seja visto, que têm vergonha. Mas não há que ter vergonha deste objecto esplendoroso, filme mal-amado que vai dividir opiniões e causar grandes discussões entre aqueles que o virem (que espero sejam muitos mas receio serão poucos). Para mim, "O Novo Mundo" é a obra-prima de Terrence Malick — assino por baixo as vezes que forem precisas. E daqui a uns anos estará a ser aclamado como tal.
3 de maio de 2006
THERE GOES THE FEAR
Porque às vezes é preciso exorcizar o medo de que estejamos a passar ao lado.
out of here
we're out of here
out of heartache
along with the fear
there goes the fear again
there goes the fear
and cars speed fast
out of here
and life goes past
again so near
there goes the fear again
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify
you turned around and life's passed you by
passed you by
again
and late last night
makes up her mind
another fight
left behind
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify, why?
you turned around and life's passed you by
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town
think of me when he's calling out
but don't look back when leaving town
think of me when you close your eyes
but don't look back when you break all ties
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town today
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
let it go.
- Doves, "There Goes the Fear" (in "The Last Broadcast", Heavenly/EMI, 2002)
out of here
we're out of here
out of heartache
along with the fear
there goes the fear again
there goes the fear
and cars speed fast
out of here
and life goes past
again so near
there goes the fear again
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify
you turned around and life's passed you by
passed you by
again
and late last night
makes up her mind
another fight
left behind
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify, why?
you turned around and life's passed you by
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town
think of me when he's calling out
but don't look back when leaving town
think of me when you close your eyes
but don't look back when you break all ties
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town today
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
let it go.
- Doves, "There Goes the Fear" (in "The Last Broadcast", Heavenly/EMI, 2002)
2 de maio de 2006
1 de maio de 2006
ALGUMAS MEDITAÇÕES PÓS-TELEJORNAIS SOBRE O 1º DE MAIO
Soube hoje que existe em Portugal uma União Independente de Sindicatos que celebrou o Dia do Trabalhador no Rossio com um "festival de folclore" (segundo faixa alegórica focada pela câmara da RTP). Será possível pensar numa celebração do Dia do Trabalhador que pertença mais ao tempo da outra senhora?
Soube também que as associações de profissionais das forças de segurança receberam com entusiasmo moderado o anúncio do Ministro da Administração Interna de que irão receber novo armamento até ao final do ano — segundo explicou um dos responsáveis em forte demonstração de camaradagem, porque o armamento que vão receber não chega para todos. Ou seja, eles não querem ter polícias de primeira e polícias de segunda. Parece-me sensato.
Soube também que as associações de profissionais das forças de segurança receberam com entusiasmo moderado o anúncio do Ministro da Administração Interna de que irão receber novo armamento até ao final do ano — segundo explicou um dos responsáveis em forte demonstração de camaradagem, porque o armamento que vão receber não chega para todos. Ou seja, eles não querem ter polícias de primeira e polícias de segunda. Parece-me sensato.
30 de abril de 2006
O GATO FEDORENTO EXISTE
Algo que me diz que o Gato Fedorento deve basear-se na cuidada observação da realidade quotidiana para escrever os seus guiões. A conversa entre dois trintões casados e pais de família ouvida na tarde de ontem numa esplanada da avenida de Roma parecia saidinha de um diálogo entre Ricardo Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela, só que era absolutamente a sério, até no tom de voz de bancário médio a fingir sangue azul.
29 de abril de 2006
É SÓ EMBIRRAÇÃO EMBIRRAÇÃO
Estar sentado num restaurante cheio e a ser atendido por uma empregada que está quase sozinha ao balcão e, por muito boa vontade, profissionalismo e esforço que tenha, não consegue dar conta do recado, para além da cozinha também não estar a conseguir dar conta do recado, é uma receita mágica para más vibrações por parte dos vizinhos de balcão, como a suburbana rechonchuda que não pára de resmungar com o namorado por causa do atraso do almoço. E há poucas coisas que dêem cabo de um ambiente civilizado como as más vibrações emitidas pela embirração petulante de quem acha que é só a ela que estão a tratar mal quando está a demorar mais tempo para serem todos servidos. Nessas ocasiões, até a boa educação da empregada pode ser lida como condescendência. Por isso é que dei graças a Deus quando o casalinho bazou das cadeiras do lado, que eu já estava a ficar com vontade de resmungar com eles e não com a empregada assoberbada.
28 de abril de 2006
ELES QUE VENHAM, ELES QUE VENHAM
Numa esplanada da avenida de Roma, um pequeno cãozinho daquelas raças miniaturizadas e peludas que parecem não ver o caminho solta o tigre que há em si sempre que passam cães maiores, com o dobro do tamanho, desatando a ladrar com sentimento e quase conseguindo soltar a trela da cadeira de metal a que está presa para se atirar ao cão maior — que segue o seu caminho sem sequer reparar no David que está para ali a meter-se com ele.
27 de abril de 2006
BÉNARD, ZIDANE E GARBO
Parece-me que todo este episódio da petição lançada pelos amigos e admiradores de João Bénard da Costa para evitar o seu afastamento da direcção da Cinemateca Portuguesa (por limite de idade, recorde-se, que o senhor tem 71 anos de idade) devia ser relativizada pelas declarações do futebolista francês Zinedine Zidane, que anunciou o final da sua carreira para daqui a uns meses. "Para mim o futebol é tudo, mas já não sou capaz de fazer aquilo que fazia. E já não tenho 25 anos." É uma afirmação em que vale a pena pensar. Sobretudo porque me parece que se está a falar mais de preservar um "status quo" que não é tão unânime como se quer fazer parecer. Ora, já Greta Garbo se tinha sabido retirar a tempo — e digam lá que essa sábia decisão não fez maravilhas pelo mito.
26 de abril de 2006
25 DE ABRIL SEMPRE, É COMO QUEM DIZ
O senhor idoso que ontem dizia na rua à vizinha do prédio ao lado que "condenava o 25 de Abril" não deve de facto ser apologista do 25 de Abril sempre.
EU NÃO ANDO A VER MAL
Confesso que, à excepção do David Fonseca e da São José Lapa, não reconheço quase ninguém na actual campanha do BPI (é mesmo a Sofia Aparício?). E não é uma questão de precisar de mudar de óculos, porque o oftalmologista disse-me há um mês que está tudo bem.
25 de abril de 2006
25 DE ABRIL SEMPRE
Na rua da Escola Politécnica, há uma senhora idosa de cabelo pintado (de louro, como quase sempre), de óculos escuros e casaco pesado, que avança com ar de grande dama amuado a fingir-se alheia ao mundo à sua volta. Do passeio do outro lado da rua, poucos metros atrás, uma outra senhora idosa de cabelo branco e óculos tintados com sacos na mão, andando mais dificilmente, chama por ela. "Ó Maria de Lurdes! Vamos aí a essa pastelaria! Maria de Lurdes!". Maria de Lurdes finge que não é nada com ela e estuga o passo. A senhora dos sacos que chama por ela atravessa na passadeira enquanto diz em voz alta, como quem comenta num àparte para a plateia, "A mulher é lixada como tudo, poça!", e volta a chamá-la. "Ó Maria de Lurdes!"
Uns metros mais à frente, cruzo-me com um senhor idoso muito direito no seu melhor fato azul de domingo, com o emblema do Benfica bem reluzente na lapela.
Uns metros mais à frente, cruzo-me com um senhor idoso muito direito no seu melhor fato azul de domingo, com o emblema do Benfica bem reluzente na lapela.
24 de abril de 2006
OS RESTAURANTES CHINESES JÁ NÃO SÃO O QUE ERAM
Na mesa de trás, duas senhoras bem da avenida de Roma conversam como se fossem as únicas pessoas no restaurante com vozes extremamente educadas e muito bem colocadas. Uma delas atende o telefone um par de vezes para falar com uma Geginha que vem do cinema dizer olá com a Memé.
Na mesa da frente, instalou-se um quarentão com ar de comercial bem sucedido acompanhado pela esposa e pelas filhas que se instala na grande mesa redonda, de frente para o televisor, e pede ao empregado do restaurante se é possível pôr na Sport TV para ver o jogo da Académica, enquanto atende uma chamada no telemóvel. Entretanto, chegam mais comensais para a grande mesa redonda e em breve o quarentão e outro quarentão que chegou entretanto resmungam mutuamente que é uma chatice marcar-se um jantar para o dia do jogo da Académica.
Na mesa da frente, instalou-se um quarentão com ar de comercial bem sucedido acompanhado pela esposa e pelas filhas que se instala na grande mesa redonda, de frente para o televisor, e pede ao empregado do restaurante se é possível pôr na Sport TV para ver o jogo da Académica, enquanto atende uma chamada no telemóvel. Entretanto, chegam mais comensais para a grande mesa redonda e em breve o quarentão e outro quarentão que chegou entretanto resmungam mutuamente que é uma chatice marcar-se um jantar para o dia do jogo da Académica.
23 de abril de 2006
NÓS E OS OUTROS #7
"When I was about six years old, my dad was holding my hand as we walked down the street and he said, 'You've got tough little hands, David, you'll be all right. But I'm worried about Ray because he's got really soft hands.' That stayed with me. I knew I was there to support Ray, to encourage him to expand whatever creative horizons he wanted to do. It's not uncommon among younger brothers. Intellectually, the older brother might think he has the responsibility, but emotionally, it's actually the other way round."
— Dave Davies (Kinks) a Mark Paytress na edição de Março de 2006 da Mojo
— Dave Davies (Kinks) a Mark Paytress na edição de Março de 2006 da Mojo
22 de abril de 2006
PUBLICIDADE
O meu prédio não tem intercomunicador. Isso quer dizer que, quando alguém toca à campaínha da porta, não há maneira de saber quem está a tocar e, logo, de saber se estamos a abrir a porta ao carteiro, às Testemunhas de Jeová, aos Mormons, aos elementos de alguma associação de recuperação de viciados a fazerem um peditório, à amiga da vizinha de baixo que se enganou no andar ou a um distribuidor de publicidade.
No entanto, existem umas quantas dicas que posso partilhar com outros incautos na mesma situação que eu. Importante é saber se podemos ouvir as campainhas dos vizinhos, como é o meu caso; se a minha campainha toca e ao mesmo tempo ouço a campainha do vizinho da frente e a do vizinho de cima (acreditem que são bastante fortes, para lá do facto das paredes lá de casa não serem exactamente insonorizadas), então é o carteiro a pedir para abrir a porta, um distribuidor de publicidade ou Testemunhas de Jeová/Mormons/peditórios etc. A hora a que isto acontece também permite eliminar um pouco mais; assim, quando a campaínha toca a um sábado ao meio-dia, é quase de certeza um distribuidor de publicidade.
E assim, quando saí para o pequeno-almoço tardio, lá estavam meia-dúzia de folhetos das excursões-turísticas-de-um-dia ao preço da chuva organizadas por empresas de venda de inutilidades (mas podiam ser folhetos de supermercado ou restaurantes ou ginásios ou canalizadores) enfiadas por baixo da porta da rua, porque ninguém no prédio lhe abriu a porta.
No entanto, existem umas quantas dicas que posso partilhar com outros incautos na mesma situação que eu. Importante é saber se podemos ouvir as campainhas dos vizinhos, como é o meu caso; se a minha campainha toca e ao mesmo tempo ouço a campainha do vizinho da frente e a do vizinho de cima (acreditem que são bastante fortes, para lá do facto das paredes lá de casa não serem exactamente insonorizadas), então é o carteiro a pedir para abrir a porta, um distribuidor de publicidade ou Testemunhas de Jeová/Mormons/peditórios etc. A hora a que isto acontece também permite eliminar um pouco mais; assim, quando a campaínha toca a um sábado ao meio-dia, é quase de certeza um distribuidor de publicidade.
E assim, quando saí para o pequeno-almoço tardio, lá estavam meia-dúzia de folhetos das excursões-turísticas-de-um-dia ao preço da chuva organizadas por empresas de venda de inutilidades (mas podiam ser folhetos de supermercado ou restaurantes ou ginásios ou canalizadores) enfiadas por baixo da porta da rua, porque ninguém no prédio lhe abriu a porta.
21 de abril de 2006
EXPLICAÇÃO DA POLÍTICA ÀS CRIANCINHAS
O governo está a fazer tudo bem. A oposição acha que está tudo mal e que eles faziam melhor. Depois o governo e a oposição trocam de posição e volta tudo ao mesmo.
20 de abril de 2006
GO AHEAD, PUNK, MAKE MY DAY
Estão a ver aquela velha cena dos filmes policiais, de guerra, ou dos "westerns", do "disparar primeiro e fazer perguntas depois"? Ontem descobri um taxista cuja política é muito semelhante: entrar primeiro, e parar (ou não) depois. Asseguro que não é garantia de uma viagem confortável.
19 de abril de 2006
A COABITAÇÃO É TÃO BONITA
No mesmo quiosque do jardim do Príncipe Real, tomam café, ao mesmo tempo, dois manifestantes que, de T-shirt e bandeira, vão para uma manifestação ali perto, e dois agentes da polícia de serviço à dita cuja manifestação.
18 de abril de 2006
SINUSITE
Uma idosa cigana está à entrada das urgências de São José, inteiramente vestida de preto, saia rodada que lhe cobre os pés, camisa de manga comprida, um lenço à cabeça que apenas lhe mostra o rosto, com um inalador branco espetado numa das narinas.
RETOMANDO O SERVIÇO NORMAL
Já há outra vez comentários. Infelizmente, tudo o que ficou para trás perdeu-se — mas, de qualquer maneira, essa foi uma das razões pelas quais mudei para o Blogger, já que o Haloscan apaga os comentários ao fim de um certo tempo.
17 de abril de 2006
PEDIMOS DESCULPA PELA INTERRUPÇÃO
Pequeno problema com os comentários, resultante da mudança de sistema do Haloscan para o Blogger. Não se inquietem, eles voltam assim que eu resolver as questões técnicas.
A TERCEIRA IDADE MAIOR
Ontem, a RTP fazia grande alarde de uma reportagem que falava do desinteresse e do desprezo e dos maus tratos a que são votados os idosos pelas famílias modernas. Nada que me surpreenda, face àquilo que conheço do desconfiado e mal-educado espírito portuguesinho que tanto me irrita. Mas, sem ter visto a reportagem, não consegui deixar de pensar na minha avó materna, a única que na verdade conheci, porque da minha avó paterna, que morreu era eu muito criança, não me recordo, e nunca conheci os meus avôs.
A minha avó materna, após a morte do marido, limitava-se a esperar a morte, sentada numa cadeira da cozinha da minha tia ou num cadeirão da sala. Não tenho ideia de que ela falasse muito. A minha tia tomava conta dela — fazia-lhe a comida, dava-lhe os medicamentos, sem que no entanto isso a impedisse de ter uma vida profissional. Levava-a quando ia de férias para o Algarve, uma vez ou outra pediu-nos que tomássemos conta dela durante alguns dias. A minha avó materna, até morrer, limitava-se a existir. Nunca percebi se tinha a ver com a doença de que sofria (creio que não) ou com aquele luso carácter mórbido de que António Nobre falava, mas sei que a minha mãe, mesmo sabendo que o enfarte que teve há um ano lhe limita um pouco as tarefas que pode fazer, está a ir pelo mesmo caminho.
A verdade é que me debato muitas vezes com as questões do "ser bom filho/mau filho". Na reportagem que a Time dedicou há algumas semanas à moderna sociedade italiana, creio que era um sociólogo que comentava que em Itália há muitos pais que ainda esperam que os filhos abdiquem da sua vida pessoal para tomarem conta deles na sua velhice, mas que isso era também uma situação profundamente injusta para um filho que se vê assim privado de uma "vida normal" (seja lá isso o que fôr). Claro que não haveria comédia italiana (nem Almodóvar) sem essas famílias opressivas e opressoras. Mas querer ter uma vida pessoal é ser mau filho? Ter a consciência de que por vezes é mais apropriado entregar os nossos pais nas mãos de alguém que sabe cuidar de idosos melhor do que nós e que pode ajudá-los 24 horas por dia, tentar de algum modo melhorar a qualidade de vida deles do que se tomássemos nós conta deles é ser mau filho?
A verdade, mesmo, é que não há respostas fáceis para este tipo de perguntas. Por mim, confesso que gostava que as pessoas não se escondessem atrás de desculpas, mas isso talvez seja pedir demais.
A minha avó materna, após a morte do marido, limitava-se a esperar a morte, sentada numa cadeira da cozinha da minha tia ou num cadeirão da sala. Não tenho ideia de que ela falasse muito. A minha tia tomava conta dela — fazia-lhe a comida, dava-lhe os medicamentos, sem que no entanto isso a impedisse de ter uma vida profissional. Levava-a quando ia de férias para o Algarve, uma vez ou outra pediu-nos que tomássemos conta dela durante alguns dias. A minha avó materna, até morrer, limitava-se a existir. Nunca percebi se tinha a ver com a doença de que sofria (creio que não) ou com aquele luso carácter mórbido de que António Nobre falava, mas sei que a minha mãe, mesmo sabendo que o enfarte que teve há um ano lhe limita um pouco as tarefas que pode fazer, está a ir pelo mesmo caminho.
A verdade é que me debato muitas vezes com as questões do "ser bom filho/mau filho". Na reportagem que a Time dedicou há algumas semanas à moderna sociedade italiana, creio que era um sociólogo que comentava que em Itália há muitos pais que ainda esperam que os filhos abdiquem da sua vida pessoal para tomarem conta deles na sua velhice, mas que isso era também uma situação profundamente injusta para um filho que se vê assim privado de uma "vida normal" (seja lá isso o que fôr). Claro que não haveria comédia italiana (nem Almodóvar) sem essas famílias opressivas e opressoras. Mas querer ter uma vida pessoal é ser mau filho? Ter a consciência de que por vezes é mais apropriado entregar os nossos pais nas mãos de alguém que sabe cuidar de idosos melhor do que nós e que pode ajudá-los 24 horas por dia, tentar de algum modo melhorar a qualidade de vida deles do que se tomássemos nós conta deles é ser mau filho?
A verdade, mesmo, é que não há respostas fáceis para este tipo de perguntas. Por mim, confesso que gostava que as pessoas não se escondessem atrás de desculpas, mas isso talvez seja pedir demais.
16 de abril de 2006
14 de abril de 2006
MORANGOS COM AÇÚCAR
Não são as teenagers inconscientes cujos telemóveis passam a vida a apitar em altos berros com mensagens recebidas durante um jantar inteiro que me incomodam mais (embora me incomodem imenso). São os pais das teenagers inconscientes que não as ensinam a boa educação mínima e as deixam continuar neste egoísmo onanista de quem se está literalmente a borrifar para o vizinho do lado desde que a mesada dê para carregar o telemóvel para trocar inanidades com os amigos/amigas. Digamos que um par de tabefes bem aplicados não seriam mal vistos. Ainda por cima parece que os tribunais até defendem a prática.
13 de abril de 2006
CANTA-ME UM FADO
No átrio da estação do Campo Pequeno, um senhor de aspecto perfeitamente normal, como quem vem ou vai do emprego, canta em voz alta um faduncho como se fosse a coisa mais normal do mundo cantar um fado em voz alta num átrio de uma estação de metro, alheio aos transeuntes (que, eles próprios, fingem alhear-se, como se cantar um faduncho em voz alta fosse a coisa mais normal do mundo), enquanto se dirige para as bilheteiras.
12 de abril de 2006
EM CASA DE FERREIRO ESPETO DE PAU
A minha amiga Isabel já disse por várias vezes que, fosse ela mais nova, já tinha emigrado daqui para fora, de preferência para um país onde tivesse hipótese de fazer aquilo que em Portugal não consegue, que é trabalhar para si conseguindo ir economizando uns trocos.
Só que, depois, uma pessoa começa a pensar para onde raio ia. Uma pessoa olha para França, e vê a tristeza que é ver o imenso poder reivindicativo dos franceses a manifestar-se na rua a favor da manutenção do status quo e contra um contrato de trabalho que não afectaria em nada a maior parte dos manifestantes, que já têm o seu empregozinho garantido e inatacável (tipo função pública, mesmo). Depois olha para Itália, e vê o trafulha do Berlusconi a tentar agarrar-se desesperadamente ao poder e contestar a vitória democrática da sua concorrência, num resultado que só me recorda a célebre contestada eleição de George W. Bush para presidente americano. Depois olha para os americanos, e vê o sururu que se está a gerar por causa das novas leis de imigração que uns querem passar e outros contestam. E um gajo começa a pensar: sim, está bem, aqui não se vai a lado nenhum, mas será que nos outros sítios se vai realmente onde aqui não se consegue ir?
Só que, depois, uma pessoa começa a pensar para onde raio ia. Uma pessoa olha para França, e vê a tristeza que é ver o imenso poder reivindicativo dos franceses a manifestar-se na rua a favor da manutenção do status quo e contra um contrato de trabalho que não afectaria em nada a maior parte dos manifestantes, que já têm o seu empregozinho garantido e inatacável (tipo função pública, mesmo). Depois olha para Itália, e vê o trafulha do Berlusconi a tentar agarrar-se desesperadamente ao poder e contestar a vitória democrática da sua concorrência, num resultado que só me recorda a célebre contestada eleição de George W. Bush para presidente americano. Depois olha para os americanos, e vê o sururu que se está a gerar por causa das novas leis de imigração que uns querem passar e outros contestam. E um gajo começa a pensar: sim, está bem, aqui não se vai a lado nenhum, mas será que nos outros sítios se vai realmente onde aqui não se consegue ir?
CONVERSAS DE CAFÉ
Aqueles que dizem, nos cafés de Lisboa, que Portugal está "entregue à bicharada" seriam os primeiros a entregar Portugal à bicharada se lhes coubesse a eles tomarem uma decisão sobre o caminho a seguir daqui para a frente.
11 de abril de 2006
A BEM DIZER
É engraçado, há alturas em que me apetece imenso vir aqui escrever coisas mas depois não sei bem o quê. Nem é como se faltasse assunto.
9 de abril de 2006
CONFIDÊNCIAS
Era só para dizer que estes gajos estão cada vez melhores e que é uma pena que ninguém lhes preste a atenção merecida. Aquela reinvenção de "Woman" em soul de Memphis pura e o travo de Americana clássica que as canções estão a ganhar ao vivo são a prova.
MÃE HÁ SÓ UMA (post críptico #1)
Depois de uma conversa que tivemos em que eu comparei a minha mãe à formidável matriarca dos "Sopranos", a Cristina costuma dizer que não consegue ver um episódio da série sem se lembrar dela.
A minha mãe insiste em considerar-se uma mãe como qualquer outra, matriarca de uma família como qualquer outra. Eu tenho sérias dúvidas sobre a "normalidade" maternal e familiar, em primeiro lugar porque não existem famílias "normais" (e, por arrastamento, não existem mães, ou pais, ou irmãos "normais"), em segundo lugar porque mesmo não existindo "normalidade" familiar, eu tenho a impressão que a minha família está uns quantos furos ao lado dessa não-"normalidade"... Confusos? Provavelmente eu também. A constatação, no entanto, resume-se ao facto de eu ter a certeza de que a minha família parou no tempo algures nos anos 60 e continua a viver de acordo com um mundo que já deixou de existir há muito. O que, claro, explica muitas coisas, a menor das quais não são com certeza as minhas crispações.
A minha mãe insiste em considerar-se uma mãe como qualquer outra, matriarca de uma família como qualquer outra. Eu tenho sérias dúvidas sobre a "normalidade" maternal e familiar, em primeiro lugar porque não existem famílias "normais" (e, por arrastamento, não existem mães, ou pais, ou irmãos "normais"), em segundo lugar porque mesmo não existindo "normalidade" familiar, eu tenho a impressão que a minha família está uns quantos furos ao lado dessa não-"normalidade"... Confusos? Provavelmente eu também. A constatação, no entanto, resume-se ao facto de eu ter a certeza de que a minha família parou no tempo algures nos anos 60 e continua a viver de acordo com um mundo que já deixou de existir há muito. O que, claro, explica muitas coisas, a menor das quais não são com certeza as minhas crispações.
6 de abril de 2006
OLHA QUE COISA MAIS LINDA MAIS CHEIA DE GRAÇA
Os gatos estão a apanhar o sol possível em cima do telhado da arrecadação que se vê da janela do meu quarto. Uma gata passa, a miar, espreguiçando-se como se não estivesse ali mais ninguém, mas não pára; atravessa o telhado devagarinho até desaparecer no prédio ao lado. Os gatos não param de olhar para ela, mesmo depois de ela deixar de se ver; seguem-na com o olhar como Vinicius deve ter seguido a garota na esplanada de Ipanema.
Claro que é sempre possível que a gata fosse um gato. Ou que os gatos fossem gatas. Ou que fossem todos gatos. Ou todos gatas.
Claro que é sempre possível que a gata fosse um gato. Ou que os gatos fossem gatas. Ou que fossem todos gatos. Ou todos gatas.
5 de abril de 2006
MACINTOSH
Há uma porrada de anos que tinha ali o meu velhinho Macintosh Performa Power PC (com gaveta para CD-ROM e ainda slot para disquete, coisa que a Apple descontinuou já na geração seguinte de Macs) para um canto do quarto das arrumações. Avariado desde que, em 1999, de repente se começou a recusar a abrir ficheiros, alegando um erro qualquer que, basicamente, segundo me foi explicado na altura, equivalia ao disco rígido estar a dar o berro sem grande solução possível — que o mesmo é dizer, sem valor comercial e condenado a apanhar pó na arrecadação até a sucata chamar por ele. Dois iMacs depois, o Luís coleccionador soube do Performa e veio cá buscá-lo para juntar à sua colecção de "vintage Macs". A reciclagem é uma coisa tão linda.
4 de abril de 2006
ILUMINAÇÃO
"What I had to work at, Mike already had in his genes, in his genetic makeup. Before he was even born, this music had to be in his blood. Nobody could just learn this stuff, and it dawned on me that I might have to change my inner thought patterns... that I would have to start believing in possibilities that I wouldn't have allowed before, that I had been closing my creativity down to a very narrow, controllable scale... that things had become too familiar and I might have to disorientate myself.
I knew I was doing things right, was on the right road, was getting all the knowledge immediately and firsthand — memorizing words and melodies and changes, but now I saw that it could take me the rest of my life to make practical use of that knowledge and Mike didn't have to do that. He was just right there. He was too good and you can't be «too good», not in this world, anyway. In order to be as good as that, you'd just about have to be him, and nobody else. Folk songs are evasive — the truth about life, and life is more or less a lie, but then again that's exactly the way we want it to be. We wouldn't be comfortable with it any other way."
— Bob Dylan, in "Chronicles volume 1" (New York: Simon & Schuster, 2005)
I knew I was doing things right, was on the right road, was getting all the knowledge immediately and firsthand — memorizing words and melodies and changes, but now I saw that it could take me the rest of my life to make practical use of that knowledge and Mike didn't have to do that. He was just right there. He was too good and you can't be «too good», not in this world, anyway. In order to be as good as that, you'd just about have to be him, and nobody else. Folk songs are evasive — the truth about life, and life is more or less a lie, but then again that's exactly the way we want it to be. We wouldn't be comfortable with it any other way."
— Bob Dylan, in "Chronicles volume 1" (New York: Simon & Schuster, 2005)
3 de abril de 2006
MAU COMO AS COBRAS
Samuel L. Jackson é o actor mais "cool" do planeta. É um facto incontestável, mesmo sabendo que o rapaz tem a sua quota-parte de filmes da treta. Por isso é que vê-lo num filme chamado Snakes on a Plane (que há de estrear lá para o fim do ano) não deixa de criar estranheza. Mas ele defende-se lindamente, como nesta entrevista a Fred Schruers, da Première americana (edição de Março de 2006):
"They had already changed the title [from Snakes on a Plane to Pacific Air Flight 121] when I got to Canada to start shooting. I let it go for a while. Then one day all the producers were standing there, and I'm saying, «So are you seriously going to leave this name like this?» And they're going, «Yeah, we don't want to give too much away to the audience.» I'm like, «Yeah you do. That's the way you get them in here. Nobody wants to see Pacific Air Flight 121. People want to see Snakes on a Plane. When I picked up the script and I saw the title, I didn't even read it and I said, «I want to do it.» You know, before I opened the first page, Snakes on a Plane. If this is what I think it is, I want to be in this. I want to be on a plane full of poisonous snakes. And I want to see other people on a plane full of poisonous snakes. You say Snakes on a Plane, people who don't like snakes are intrigued. The people who don't like to fly are intrigued. The people who don't like both are totally terrified now. People who just like seeing mayhem are ready for that. They want to see, you know, people enclosed in a big tin tube getting attacked by poisonous snakes. Come on! What could be more exciting than that, you know? What do you do? What do you do until the plane lands? Come on, Snakes on a Plane, that's the title."
"They had already changed the title [from Snakes on a Plane to Pacific Air Flight 121] when I got to Canada to start shooting. I let it go for a while. Then one day all the producers were standing there, and I'm saying, «So are you seriously going to leave this name like this?» And they're going, «Yeah, we don't want to give too much away to the audience.» I'm like, «Yeah you do. That's the way you get them in here. Nobody wants to see Pacific Air Flight 121. People want to see Snakes on a Plane. When I picked up the script and I saw the title, I didn't even read it and I said, «I want to do it.» You know, before I opened the first page, Snakes on a Plane. If this is what I think it is, I want to be in this. I want to be on a plane full of poisonous snakes. And I want to see other people on a plane full of poisonous snakes. You say Snakes on a Plane, people who don't like snakes are intrigued. The people who don't like to fly are intrigued. The people who don't like both are totally terrified now. People who just like seeing mayhem are ready for that. They want to see, you know, people enclosed in a big tin tube getting attacked by poisonous snakes. Come on! What could be more exciting than that, you know? What do you do? What do you do until the plane lands? Come on, Snakes on a Plane, that's the title."
GUEIXAS DESESPERADAS
Leslie Felperin, és o meu herói/minha heroína (confesso que só pelo nome não consigo distinguir o sexo). Ora leiam o que o/a crítico/a da revista britânica Sight & Sound diz na sua edição de Fevereiro de 2006 a propósito de Memórias de uma Gueixa, de Rob Marshall:
"(...) this overblown, curiously coy kimono-ripper ought to prove lush and banal enough to please middlebrow imaginations worldwide as well as aficionados of the ineffably camp. (...) Certainly, the scene in which Gong Li's villainess Hatsumomo bitch-slaps Ziyi Zhang's simpering heroine Sayuri in a flaming geisha house (...) rivals the Crawford-Davis cat fight in What Ever Happened to Baby Jane? for sheer lurid, girl-on-girl fun. Arthouse-inclined gossip hounds might get an extra thrill out of speculating about the actresses' off-screen rivalry given that Zhang seemed to replace Gong as Chinese director Zhang Yimou's favourite star a few years back. Gay and gay-friendly viewers can only pray there will be a spin-off TV series soon, perhaps called Desperate Geishas."
"(...) this overblown, curiously coy kimono-ripper ought to prove lush and banal enough to please middlebrow imaginations worldwide as well as aficionados of the ineffably camp. (...) Certainly, the scene in which Gong Li's villainess Hatsumomo bitch-slaps Ziyi Zhang's simpering heroine Sayuri in a flaming geisha house (...) rivals the Crawford-Davis cat fight in What Ever Happened to Baby Jane? for sheer lurid, girl-on-girl fun. Arthouse-inclined gossip hounds might get an extra thrill out of speculating about the actresses' off-screen rivalry given that Zhang seemed to replace Gong as Chinese director Zhang Yimou's favourite star a few years back. Gay and gay-friendly viewers can only pray there will be a spin-off TV series soon, perhaps called Desperate Geishas."
2 de abril de 2006
BLAST FROM THE PAST
É um Volkswagen Golf dos primeiros modelos, dos anos 70, velho, com ferrugem junto aos pára-lamas e uma matrícula das antigas, pré-"modelo europeu", letras em relevo branco sobre fundo preto. Parece carro que acabou de sair da garagem após anos sem andar. Desce devagar a rua Tomás Ribeiro, com uma senhora dos seus 60 anos, de porte impecável, cabelo em permanente, maquilhada, sozinha no carro, a guiá-lo como se fosse o único carro na rua, apesar de haver outros a quem a sua marcha lenta atrasa. A senhora também parece que acabou de recomeçar a guiar após muito tempo sem o fazer.
1 de abril de 2006
BLAME CANADA
Esta questão dos emigrantes portugueses ilegais deportados do Canadá, com reportagens da chegada dos emigrantes destroçados a Pedras Rubras, Portela ou Açores, parece-me muito portuguesa. Na medida em que as mesmas pessoas que se insurgem contra o tratamento que o governo canadiano está a dar aos emigrantes portugueses deportando-os por não estarem legais são, muito provavelmente, os mesmos que noutras circunstâncias exigiram a expulsão dos imigrantes ilegais, de qualquer nacionalidade, que se encontram em Portugal exactamente nas mesmas condições em que os portugueses estavam no Canadá. Embora eu desconfie que a burocracia portuguesa é um bocadinho pior do que qualquer outra burocracia.
29 de março de 2006
PRAGMATISMO
"We came, we saw, we wasted a year of our lives. At least we got the fuckers to vote"
— grafitti rabiscado por um soldado americano numa casa de banho de uma base americana no Iraque, citado na Economist desta semana
— grafitti rabiscado por um soldado americano numa casa de banho de uma base americana no Iraque, citado na Economist desta semana
28 de março de 2006
TRÂNSITO
Um jogo europeu do Benfica é a única coisa que consegue entupir o trânsito de Lisboa mais do que um dia de trovoada chuva intensa.
27 de março de 2006
OUTRAS VIDAS
Acho que foi o Alexandre que em tempos falou das suas "outras vidas". Quando olho para trás e para tudo aquilo que já fiz nos meus 38 anos — que foi muito ou pouco segundo os pontos de vista — não consigo evitar sentir que muito desse muito/pouco pertence a "outra vida" que fez de mim aquilo que sou mas já pouco tem a ver com quem sou hoje. Muitas vezes, nem consigo reconciliar esse meu "ontem" com o meu "hoje"; é como se fôssemos pessoas diferentes. Mas é espantoso como, na realidade, não somos. Como sobra sempre algo desse passado para ajudar a moldar quem passámos a ser.
25 de março de 2006
ENID BLYTON
A menina Alice fala dos Cinco. Eu era mais o Clube dos Sete — lido na íntegra nas edições cartonadas com as ilustrações originais que herdei dos meus irmãos mais velhos. Quando saí de casa dos meus pais, trouxe-os comigo. Estão ali, fechadinhos numa caixa de arquivo, para quando me apetece lá voltar. Os Cinco li-os só depois, mas nunca achei tanta graça (porque os Cinco eram só Quatro, que eu nunca contei com o cão, e porque a série televisiva que vi nos anos 70 não tinha nada a ver com a ideia que eu me fazia das personagens).
OUTROS TEMPOS
Título de um livro visto hoje nas bancas de alfarrabistas do Chiado: "Organização Social e Económica dos Bijagós".
24 de março de 2006
38 + 1 (a ressaca do urso)
Qualquer coisa que seja menos de seis horas de sono deixa-me completamente zombie no dia a seguir. Pior ainda é deitar-me às tantas e saber que no dia a seguir vou ter de me levantar mais cedo do que me é habitual — na véspera de partir para Berlim, nem quatro horas dormi (adormeci às quatro da manhã para me levantar às sete e meia) porque, claro, o sistema funciona logo para não termos sono quando mais precisamos dele. Exactamente a mesma coisa de ontem: hoje tinha de me levantar às oito sem falta, e ontem às duas e meia da manhã ainda estava a pé e com a espertina toda. Claro que, hoje, passei o dia a rastejar pelos cantos. E claro que há muito boa gente que vive muito bem com seis horas de sono por dia (e o professor Marcelo diz que só dorme quatro, o que me deixa completamente escandalizado e automaticamente doente). Mas eu não. Deve ser alguma coisa de metabolismo de urso: seis-sete horas sossegadas é do que eu preciso. (E também não consigo hibernar. Nem fazer sonecas à tarde — acordo mal-disposto e a rosnar.)
23 de março de 2006
CAFÉ E TORRADAS
Adoro uma fatia de pão de forma fresco acabada de sair da torradeira, quente e estaladiça; adoro pegar na faca, barrar o mínimo essencial de manteiga e vê-la derreter-se lentamente, colorindo de humidade a fatia ainda morna. Gosto menos das torradas grossas das cafetarias, porque cortam sempre a fatia muito grossa, mas em contrapartida deixo sempre para o fim as tiras do meio onde a manteiga humedeceu completamente o pão.
(Esclareço desde já que em casa uso Becel. O efeito gustativo é o mesmo.)
(Esclareço desde já que em casa uso Becel. O efeito gustativo é o mesmo.)
22 de março de 2006
O LIVRO DE CABECEIRA
Gosto deste livro porque me devolve a infância perfeita que sei que não tive. É o meu novo livro de cabeceira.
"When Pooh saw what it was, he nearly fell down, he was so pleased. It was a Special Pencil Case. There were pencils in it marked "B" for Bear, and pencils marked "HB" for Helping Bear, and pencils marked "BB" for Brave Bear. There was a knife for sharpening the pencils, and india-rubber for rubbing out anything you had spelt wrong, and a ruler for ruling lines for the words to walk on, and inches marked on the ruler in case you wanted to know how many inches anything was, and Blue Pencils and Red Pencils and Green Pencils for saying special things in blue and red and green. And all these lovely things were in little pockets of their own in a Special Case which shut with a click when you clicked it. And they were all for Pooh.
"Oh!" said Pooh.
"Oh, Pooh!" said everybody else except Eeyore.
"Thank-you", growled Pooh.
But Eeyore was saying to himself, "This writing business. Pencils and what-not. Over-rated, if you ask me. Silly stuff. Nothing in it."
— A. A. Milne, "Winnie the Pooh" (1926)
"When Pooh saw what it was, he nearly fell down, he was so pleased. It was a Special Pencil Case. There were pencils in it marked "B" for Bear, and pencils marked "HB" for Helping Bear, and pencils marked "BB" for Brave Bear. There was a knife for sharpening the pencils, and india-rubber for rubbing out anything you had spelt wrong, and a ruler for ruling lines for the words to walk on, and inches marked on the ruler in case you wanted to know how many inches anything was, and Blue Pencils and Red Pencils and Green Pencils for saying special things in blue and red and green. And all these lovely things were in little pockets of their own in a Special Case which shut with a click when you clicked it. And they were all for Pooh.
"Oh!" said Pooh.
"Oh, Pooh!" said everybody else except Eeyore.
"Thank-you", growled Pooh.
But Eeyore was saying to himself, "This writing business. Pencils and what-not. Over-rated, if you ask me. Silly stuff. Nothing in it."
— A. A. Milne, "Winnie the Pooh" (1926)
CARÊNCIAS EFECTIVAS
Juro-vos que acabei de olhar para o meu rato e onde está a palavra "mouse" li "mousse".
21 de março de 2006
JANTAR DE FAMÍLIA
A criancinha brinca ao lado da mesa enquanto a família vê o jogo do Sporting no écrã de plasma do restaurante. Um pouco mais à frente, os pais, que parecem ainda muito jovens (ele de cabelo com gel e T-shirt branca justa, ela de cabelo louro penteado à moda e roupa também de moda), começarão a trautear o tema do "D'Artacão e os Três Moscãoteiros", antes de o porem a tocar no seu telemóvel topo de gama com música, enquanto os avós tiram fotografias, não sei se com telemóveis se com câmara digital, o flash a ricochetear pela parede de espelhos e vidros do restaurante.
19 de março de 2006
A ETIQUETA DE COMER UM CROISSANT
(Estou a falar de um croissant a sério. Com massa folhada verdadeira. Sem recheios de espécie nenhuma. Não estou a falar daquelas anémicas invenções industriais que alguns cafés insistem em fazer passar por croissants mas que têm tanto a ver com o verdadeiro croissant de massa folhada como o sucedâneo de chocolate da viúva Solano com o chocolate negro a 70% de cacau.)
1. Morder as pontas.
2. Tirar a "folha" de cima que "fecha" a meia-lua do croissant e comê-la devagarinho.
3. Ir desfazendo a parte de baixo, mais bem cozida, e comê-la devagarinho.
4. Ir desenrolando a "folha" da meia-lua, e ir comendo devagarinho até apenas restar o centro suave e mal cozido do bolo.
5. Comer com requintes de luxúria o centro suave e mal cozido do croissant.
6. Arvorar um enorme sorriso de orelha a orelha durante o resto da manhã.
1. Morder as pontas.
2. Tirar a "folha" de cima que "fecha" a meia-lua do croissant e comê-la devagarinho.
3. Ir desfazendo a parte de baixo, mais bem cozida, e comê-la devagarinho.
4. Ir desenrolando a "folha" da meia-lua, e ir comendo devagarinho até apenas restar o centro suave e mal cozido do bolo.
5. Comer com requintes de luxúria o centro suave e mal cozido do croissant.
6. Arvorar um enorme sorriso de orelha a orelha durante o resto da manhã.
18 de março de 2006
A PRIMEIRA VEZ
Já tinha ouvido falar das birras colossais de Keith Jarrett nos seus concertos de piano solo, mas nunca tinha ouvido nada dele até ter ido ver o Querido Diário de Nanni Moretti e ter apanhado com aquele excerto do Concerto de Colónia em fundo da meditação sobre Pasolini. Não muito depois, comprei o álbum (The Köln Concert, ECM 1975) e, ouvindo-o outra vez esta tarde de sábado, entre uma passagem pelo supermercado e uma visita à família, percebo porque é que continuo a gostar tanto.
16 de março de 2006
AS CRIANÇAS HOJE EM DIA CRESCEM TÃO DEPRESSA
A mãe trintona com ar de tia lisboeta que não tem nada de mais interessante para fazer do que andar a levar e trazer as crianças à e da escola ou ao e do ginásio chama a filha que está ao topo das escadas. "Catarina! A menina despache-se que estamos a ficar atrasadas!".
Ao topo das escadas, a filha com coisa de quatro anos começa a descer devagarinho os degraus demasiado grandes para ela agarrada o melhor que pode ao corrimão.
Ao topo das escadas, a filha com coisa de quatro anos começa a descer devagarinho os degraus demasiado grandes para ela agarrada o melhor que pode ao corrimão.
14 de março de 2006
O NOME
No outro dia, fui atendido numa loja de sanduíches por uma empregada brasileira que se chamava Silvineide. Eu juro que não estou a inventar.
13 de março de 2006
I LEFT MY HEART IN ...
Há canções de embalar que dizem tudo o que me vai cá dentro. Não a ouvia há três anos. Mas hoje faz todo o sentido.
when the heart of the Hundred Acre Wood is beating
and time is passing through
there's a shadow looking like a rainbow's halo
and there I'm resembling you
more than fame
a name on a tree
more than power or might
sweeter than the treats of a honey bee
I'll be here through the night
it's comforting to know
silent as the moon at dawn
soothing as a bed filled with hay
strong as a hero in the land of old
I'll be there through the day
it's comforting to know
grayer than gloom on a rainy afternoon
sadder than being sorry for me
finer than finding my tail again
I'll be here for all of thee
it's comforting to know
you only get a few good friends in this life
who are devoted and true
and right here in this now and near
it's clear that it's all of you
I'll find you when you're hard to see
I'll look for you everywhere
you'll know just how I'm feeling when
I show you that I care
it's comforting to know.
— Carly Simon, "Comforting to Know" (in "Piglet's Big Movie", Walt Disney, 2003)
when the heart of the Hundred Acre Wood is beating
and time is passing through
there's a shadow looking like a rainbow's halo
and there I'm resembling you
more than fame
a name on a tree
more than power or might
sweeter than the treats of a honey bee
I'll be here through the night
it's comforting to know
silent as the moon at dawn
soothing as a bed filled with hay
strong as a hero in the land of old
I'll be there through the day
it's comforting to know
grayer than gloom on a rainy afternoon
sadder than being sorry for me
finer than finding my tail again
I'll be here for all of thee
it's comforting to know
you only get a few good friends in this life
who are devoted and true
and right here in this now and near
it's clear that it's all of you
I'll find you when you're hard to see
I'll look for you everywhere
you'll know just how I'm feeling when
I show you that I care
it's comforting to know.
— Carly Simon, "Comforting to Know" (in "Piglet's Big Movie", Walt Disney, 2003)
12 de março de 2006
AFORISMO
Há momentos em que mergulhar a fundo no trabalho para tentar esquecer apenas nos recorda mais.
10 de março de 2006
A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA #3
Depois desta refeição no Assuka (rua S. Sebastião da Pedreira, 150) com os experts Paulo e Lena, confesso-me absolutamente rendido às delícias da culinária japonesa. Com um suave chá verde a ferver na caneca, o paladar deslumbrou-se inicialmente com os delicados gyoza (ravioli salteado) e ebi shumai (ravioli de gamba no vapor), finas crostas de massa envolvendo uma gamba inteira que se mergulham levemente em molho de soja e mostarda picante. Mesmo para quem não gosta de sushi, dificilmente se resiste ao uramaki California (sushi de camarão, abacate e pepino) e, sobretudo, ao uramaki salmão skin (sushi de pele de salmão crocante e pepino), com a imprescindível mostarda verde wasabi a dissolver na soja e a sublinhar a delicadeza subtil da combinação de sabores. A fenomenal tempura (o misto de legumes era precioso, as gambas inteiras extraordinárias) e o sublime maguro tataki (sashimi de atum braseado) abrem novos mundos ao paladar. A comida japonesa pode ser um gosto adquirido, mas quando a comida é assim tão boa dá vontade adquiri-lo (e €27 por pessoa para a alarvidade que nós comemos até nem é estupidamente caro para os padrões estupidamente caros da comida japonesa, mesmo que seja preciso reservar mesa para o jantar, tão concorrido é o restaurante). Dominar os pauzinhos é que vai levar mais tempo.
9 de março de 2006
TOMADA DE POSSE
Às oito e meia da manhã estava já um helicóptero militar a pairar sobre a Assembleia da República e a zona de São Bento, e as sirenes dos batedores da polícia ouviam-se de cinco em cinco minutos a abrir alas para as personalidades convidadas para a tomada de posse do novo Presidente. Nunca pensei que um helicóptero fosse uma coisa tão barulhenta e incomodativa — os meus vizinhos devem ter tido uma manhã gira.
OLHÓ ESQUIMÓ FRESQUINHO
Fiquei hoje a saber que há quem considere as bolas de Berlim do Califa, essa instituição de Benfica, perfeitamente pornográficas (à imagem da porno-tikka masala do Natraj, do porno-cheesecake de framboesa da Cristina e do porno-gelado de canela do Ben & Jerry's).
Pois eu contraponho à porno-bola de Berlim do Califa o porno-esquimó do Califa. Se não sabem o que é, peçam e depois me digam.
(Não, não provei bolas de Berlim em Berlim, para quem quiser saber.)
Pois eu contraponho à porno-bola de Berlim do Califa o porno-esquimó do Califa. Se não sabem o que é, peçam e depois me digam.
(Não, não provei bolas de Berlim em Berlim, para quem quiser saber.)
8 de março de 2006
PEQUENA QUESTÃO EXISTENCIAL
Esta manhã, quando saia de casa, vi passar pela rua um Kia Picanto verde eléctrico. Nunca tinha visto um Kia Picanto até há duas semanas atrás e os dois que vi eram vermelho vivo e verde eléctrico. A pergunta é: será que há realmente gente que compra Kias Picanto desta cor, ou são aqueles carros que se dão nos concursos de televisão porque ninguém os compra?
7 de março de 2006
PARADOXOS
A minha amiga Cristina diz que nem sempre temos consciência de que estamos a esconder alguma coisa. Eu digo que nem sempre temos consciência do que estamos a mostrar.
6 de março de 2006
GAROTAS DO METRO
Não reparei onde é que a adolescente loura entrou na carruagem (não sei se no Campo Grande, se na Cidade Universitária ou se já vinha de Odivelas), mas reparei que a adolescente morena com auscultadores e um livro de código da estrada na mão entrou em Entre-Campos e sentou-se ao meu lado. Como era algo corpulenta, senti-a sentar-se e senti-me mais apertado. A adolescente loura, sentada no banco em frente, levanta-se para cumprimentá-la e durante os minutos seguintes conversam animadamente sobre o código e sobre as festas e sobre as muitas festas que têm planeadas, até que uma outra adolescente sentada ao lado da loura, que a passou a ignorar completamente, se levanta para sair e recebe um adeus descartado da loura, que pede logo a seguir à morena, que acabou de desligar o leitor de música, enrolar os auscultadores e guardá-lo na mala sem se desfazer do livro de código, que se venha sentar a seu lado.
5 de março de 2006
NÓS E OS OUTROS #6
"Do meu ponto de vista, esse filme [O Fim da Aventura, baseado no romance de Graham Greene] tratava de examinar o isolamento de um escritor, o ciúme com que um escritor observa o mundo, porque um escritor não vive realmente no mundo e tem ciúmes da textura da experiência da realidade. De certa maneira, os escritores escolheram uma vocação que é quase sacerdotal, onde a sua abordagem da sexualidade ou da emoção será sempre alvo do seu próprio exame, por isso eles invejam quem vive e quem sente."
— Neil Jordan (escritor e realizador de Jogo de Lágrimas, Entrevista com o Vampiro, Michael Collins ou Breakfast on Pluto) em entrevista a Geoffrey Macnab, na edição de Janeiro de 2006 da revista inglesa Sight & Sound
— Neil Jordan (escritor e realizador de Jogo de Lágrimas, Entrevista com o Vampiro, Michael Collins ou Breakfast on Pluto) em entrevista a Geoffrey Macnab, na edição de Janeiro de 2006 da revista inglesa Sight & Sound
4 de março de 2006
PASSAGEM DE PEÕES
O trânsito pára quando o sinal para os carros ameaça passar a vermelho — ou melhor, não pára, porque há dois carros que aceleram para passar com o amarelo. Um ainda passa com o amarelo, perante um agastado quarentão de bigode, que não resiste a soltar um cínico "e outro ainda! vá, passa lá!" quando o segundo já passa com o sinal vermelho. O senhor agastado pelo desrespeito dos condutores para com o sinal de trânsito atravessa em seguida a rua Alexandre Herculano com o sinal vermelho para os peões.
3 de março de 2006
MAE QUERIDA, MAE QUERIDA
Não há como os pais para, enquanto nos dizem que gostam muito de nós e que sempre fomos muito queridos, nos dizerem aquelas coisas que dão literalmente cabo de nós.
2 de março de 2006
LISBOA A PE
A caminho da minha consulta anual no oftalmologista, que fica na zona do Bairro das Colónias, perto da Igreja dos Anjos (e é curioso que só depois de eu ter saído do bairro onde nasci e cresci é que tenha mudado para um oftalmologista na minha antiga zona), dou por mim com tempo nas mãos depois do almoço e decido ir a pé da Praça de Londres. Sei que não levará mais de meia hora, é um trajecto que muitas vezes fiz a pé noutros tempos; quer apanhando a Almirante Reis no Areeiro, quer cortando pela Guerra Junqueiro.
Faz-me confusão ver o antigo cinema Império, onde passei parte significativa da minha adolescência, em melhor estado de conservação externo sob a Igreja Universal do Reino de Deus do que nos últimos anos da sua existência como cinema. A Almirante Reis parece-me mais degradada do que há 20 anos, mas a verdade é que lá continuam as intermináveis cervejarias, pastelarias, lojas de mobiliário, sucursais de bancos que me habituei a ver, e também os micro-centros-comerciais-galerias improvisados que surgiram em todos os recantos possíveis nos finais dos anos 70 e sobreviveram a muito custo. Passando à Praça do Chile, pergunto-me como estará o edifício pintado a verde do cinema Pathé, numa paralela à Almirante Reis, onde há muito não passo, mas continuo a descer a avenida e a sentir que, se calhar, a Almirante Reis entre a Alameda e os Anjos sempre foi assim e eu é que, habituado, não tinha dado por nada.
Faz-me confusão ver o antigo cinema Império, onde passei parte significativa da minha adolescência, em melhor estado de conservação externo sob a Igreja Universal do Reino de Deus do que nos últimos anos da sua existência como cinema. A Almirante Reis parece-me mais degradada do que há 20 anos, mas a verdade é que lá continuam as intermináveis cervejarias, pastelarias, lojas de mobiliário, sucursais de bancos que me habituei a ver, e também os micro-centros-comerciais-galerias improvisados que surgiram em todos os recantos possíveis nos finais dos anos 70 e sobreviveram a muito custo. Passando à Praça do Chile, pergunto-me como estará o edifício pintado a verde do cinema Pathé, numa paralela à Almirante Reis, onde há muito não passo, mas continuo a descer a avenida e a sentir que, se calhar, a Almirante Reis entre a Alameda e os Anjos sempre foi assim e eu é que, habituado, não tinha dado por nada.
1 de março de 2006
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