#1 Através do Luís, descobri este excelente post do João Lopes no blog que partilha há alguns meses com o Nuno Galopim, e no qual se tem feito raro. É um texto que partilha um sem-número das minhas próprias reflexões sobre o que significa hoje em dia ter uma opinião num universo mediático onde o conceito de "opinion-maker" já não corresponde em nada à sua significação primordial, e que subscrevo inteiramente.
#2 Através do Jorge, descubro que o Rodrigo já tem um blog próprio há largas semanas e eu não sabia. E descubro também que o António cumpriu finalmente o plano que me tinha revelado num recente encontro casual na Feira do Livro e também abriu o seu cantinho dedicado às músicas do mundo, que irá certamente começar a rapidamente a dar abadas nos outros todos porque ele é o tipo que eu conheço que mais percebe de músicas do mundo. Muito embora ele tenha em casa a caixa dos Abba e se desculpe como "material de pesquisa" quando eu sei muito bem que ele não quer é admitir que gosta mesmo dos Abba.
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
7 de junho de 2006
6 de junho de 2006
CHOCOLATE ON THE ROCKS
Meia hora ficou a tablete de chocolate escondida debaixo do assento da frente do carro, ao sol, o suficiente para, quando cheguei a casa, sentir uma pasta quase líquida dentro do invólucro de plástico. Depois de um par de dias no frigorífico, não pensem contudo que a barra recuperou a sua forma original — em vez disso, temos uma construção boschiana que, sabendo exactamente ao que devia, adquiriu as formas derretidas de uma vela de cheiro usada.
5 de junho de 2006
VISTO DE FORA
É muito curioso ver Lisboa pelos olhos dos estrangeiros e perceber, por exemplo, como me diziam hoje amigos americanos de passagem para um congresso médico, que em Lisboa parece haver as obras que nas cidades deles não há, que os jardins parecem bem tratados e bem cuidados ao contrário dos deles, que há muitos cães que as pessoas tratam bem e levam a passear à rua aos jardins bem tratados. E, sobretudo, que, ao contrário deles, as pessoas na rua são tudo menos simpáticas e abertas, e são muito metidas consigo e fechadas, enquanto os americanos começam logo a falar connosco como se nos conhecessem há anos.
4 de junho de 2006
CARREIRA 28
O eléctrico está cheio; dirijo-me para a traseira, para ver se consigo um lugarzinho sossegado em pé junto à saída, mas o mais que consigo é encostar-me à janela, junto a uma senhora de meia-idade, de rosto rugoso e ressequido, vestida com uma camisola de manga cava verde alface e umas calças escuras sobre umas sandálias quadradas em sola de madeira. O cheiro desagradável que ali se sente só pode vir das suas axilas. A senhora vai resmungando para si com a quantidade de paragens que o eléctrico vai fazendo devido a sinais, carros mal estacionados, passagens de peões. Vendo o meu caderno de notas no bolso da minha camisa, decide por bem alertar-me para o perigo dos carteiristas, "até parece que andam aí uns morenos, é um instante enquanto perde a carteira, e o problema nem é o dinheiro, é mais os documentos". Agradeço-lhe pela preocupação. Quando um lugar vaga, a senhora senta-se, para logo se levantar oferecendo-o a um senhor idoso de cabelos brancos que está em pé; o senhor recusa gentilmente, mas a senhora não se levanta para oferecer o lugar quando passa uma idosa de cabelos brancos visivelmente mais velha que o senhor que recusara o lugar.
3 de junho de 2006
CARREIRA 28
Em frente à Basílica da Estrela, um casal pós-adolescente espera a chegada do eléctrico. Ele está de camisola de manga cava, boné, toalha ao ombro e calças de ganga, ela de T-shirt e saia leve, óculos escuros, com um saco de cartão na mão. Durante cinco minutos ele resmunga porque o eléctrico nunca mais chega, apesar do sinal que marca o tempo de espera pelo próximo eléctrico se manter imóvel nos 4 minutos; entre risinhos convencidos, ele elabora no momento uma pequena teoria da conspiração segundo a qual a informação está ali apenas para enganar o pacóvio que espera pelo transporte. Quando o eléctrico finalmente chega, ele diz-lhe, "bom, miúda, vou bazar" e, sem se despedir dela, vai-se embora contornando o eléctrico enquanto ela, sem olhar para ele, aguarda a sua vez de entrar.
1 de junho de 2006
CARREIRA 28
Passa pouco das cinco da tarde e, enquanto esperamos frente à Basílica da Estrela que surja o eléctrico 28 para o Martim Moniz, uma senhora idosa, de pele escura e ressequida e longo cabelo negro, vestida com uma blusa azul vivo e umas calças pretas, de sabrinas brancas muito sujas e sacos de papel na mão, anda de um lado para o outro junto à paragem do eléctrico, cuspindo regularmente para o chão enquanto murmura imperceptivelmente. Passado algum tempo, surge o 28 para Campo de Ourique, a senhora atravessa a rua e apanha o eléctrico.
Passa pouco das sete e meia da tarde e, de regresso a casa, apanho o eléctrico 28 para Campo de Ourique junto à Sé. Não há lugares sentados, e dirijo-me para a traseira do eléctrico para ficar em pé junto à saída enquanto não vaga um assento. Sentada num dos lugares está a mesma idosa de blusa azul, calças pretas e sabinas brancas, cuspindo regularmente para fora da janela. Sai na Basílica da Estrela; antes de entrar no jardim, ainda a vejo atravessar a rua em direcção à paragem do 28 no sentido Martim Moniz.
Passa pouco das sete e meia da tarde e, de regresso a casa, apanho o eléctrico 28 para Campo de Ourique junto à Sé. Não há lugares sentados, e dirijo-me para a traseira do eléctrico para ficar em pé junto à saída enquanto não vaga um assento. Sentada num dos lugares está a mesma idosa de blusa azul, calças pretas e sabinas brancas, cuspindo regularmente para fora da janela. Sai na Basílica da Estrela; antes de entrar no jardim, ainda a vejo atravessar a rua em direcção à paragem do 28 no sentido Martim Moniz.
31 de maio de 2006
PEQUENA INTERRUPÇÃO DO SERVIÇO NORMAL
Desejava apenas agradecer aos inventores do papel higiénico humedecido. Obrigado.
30 de maio de 2006
CRIANCINHAS
Dentro do supermercado, ouve-se a berraria aguda e guinchante de algumas criancinhas ainda muito novas que gritam a plenos pulmões. Mas não são nenhumas criancinhas que estejam a correr pelos corredores do supermercado, com os pais assoberbados a tentarem apanhá-las: são criancinhas que estão a brincar no parque infantil de plástico colocado em frente em supermercado, cuja potência vocal é tal que até aqui, dentro do supermercado, se ouvem os seus guinchos.
29 de maio de 2006
PÃO DE AÇÚCAR
Chego-me à entrada da padaria do supermercado — uma interrupção nas filas de tulhas de madeira onde o pão fresco é colocado a intervalos regulares, que abre para um ambiente industrial, asséptico, esbranquiçado onde vários empregados se afadigam a cortar, etiquetar, preparar pão — e sou visto pela jovem negra que está a fatiar pão caseiro na máquina. Faço-lhe sinal com o pão de forma que tenho na mão, "pode fatiar?". Ela faz que sim com a cabeça, "mas vou-lhe dar daqui de dentro porque tenho aqui formas prontas". Enquanto espero, olho para os rostos dos empregados, todos com aspecto de quem preferia estar na praia e de quem não tem o mínimo prazer em estar ali a fazer aquilo. Quando, pelo meio das solicitações e do trabalho, a jovem negra me passa para a mão o meu pão fatiado, fá-lo com um sorriso que é a melhor definição de "atenção ao cliente" que me lembro de ter visto. E é a única pessoa ali dentro a sorrir.
28 de maio de 2006
FAMEL ZUNDAPP
Um pós-adolescente de fato de treino branco (com as três listas verticais da Adidas nas calças), com o capacete precariamente inclinado na cabeça, pára a sua motorizada de pouca cilindrada ao meu lado no sinal de trânsito. Enquanto espera que o sinal abra, dá gás ao motor com uma perspectiva verdadeiramente musical da coisa, como quem mantém um riff de guitarra a correr ao longo de toda uma canção.
27 de maio de 2006
FEIRA DO LIVRO
Num dos stands dos institutos institucionais e académicos, o empregado faz uma chamada ao telemóvel. "Estou, doutor?... Desculpe estar a incomodá-lo, mas temos aqui um senhor que está a perguntar por um livro chamado "A tecnologia dos Bijagós na Ilha de Bubaque"... Ah, está esgotado?"
26 de maio de 2006
OBSESSÃO
A canção, já o disse aqui, é perfeita no seu estudo da obsessão entre o desesperado e o maníaco. O teledisco, a cargo de Kevin Godley & Lol Creme, é de uma simplicidade quase desarmante, de uma austeridade ilustrativa que consegue traduzir a canção melhor que qualquer ficção. The Police, "Every Breath You Take", 1983.
25 de maio de 2006
23 de maio de 2006
O ÉCRAN MÁGICO
Uma das razões pelas quais estou deslumbrado com o YouTube é a possibilidade que me dá de redescobrir pérolas visuais que eu julgava estarem perdidas para sempre — porque, enfim, um teledisco é como um single, perdido no tempo, com a diferença significativa que os DVDs de "greatest hits" nunca foram tão estimulantes como os álbuns de "greatest hits", e a maior parte dos telediscos verdadeiramente magistrais que se fizeram (e se fazem) nunca foram "greatest hits" de ninguém. Caso vertente: este momento de magia texturada chamado "Blackwater", dirigido em 1991 pelo artista gráfico Russell Mills para a fugaz e malfadada reincarnação dos Japan a que se chamou Rain Tree Crow, que muitos terão ouvido mas muito poucos devem ter visto. É uma pequena jóia que eu julgava perdida e que me alegra reencontrar, mesmo que longe das condições ideais.
22 de maio de 2006
JARDIM DA ESTRELA
Num banco do outro lado do lago, uma avó de camisa vermelha põe a camisola laranja do neto sobre a cabeça para se proteger do sol, enquanto o marido, de colete de safari por cima da camisa branca às riscas, encostado ao gradeamento, à sombra, vigia os dois miúdos que correm pelo jardim atrás dos pássaros.
21 de maio de 2006
OS MENINOS À VOLTA DA FOGUEIRA
O meu quarto de dormir dá para as traseiras. Como a maior parte dos quarteirões portugueses, essas traseiras são partilhadas com as traseiras de um sem-número de outros prédios, o que me impossibilita de saber onde estavam exactamente os inconscientes que estiveram até quase às cinco da manhã a cantar e tocar viola em altos berros, com enormes gargalhadas pelo meio, para lhes mandar um berro e pedir o especial favor de deixar as pessoas dormir. Não é a primeira vez que isto acontece, embora em rigor não aconteça para aí mais de uma vez de seis em seis meses; parece-me apenas sintomático daquela tendência bem portuguesa para fazer tudo aos gritos, desde falar ao telemóvel a conversar em casa, sem o mínimo respeito por quem está à volta.
O meu pai teria chamado a polícia, mas isso seria outro saco de gatos.
O meu pai teria chamado a polícia, mas isso seria outro saco de gatos.
19 de maio de 2006
EUROVISÃO
Estou traumatizado com o Festival Eurovisão da Canção 2006. Há anos que não via uma edição e, agora que vi, mesmo que em ambiente assinalavelmente divertido, estou escandalizado como tudo mudou pouco ou quase nada em relação aos últimos que vi (a baladona irlandesa de puxar às lágrimas das domésticas, a matrona engordada de Andorra, os bósnios nostálgicos) e como tudo é tão igual em relação a tudo o resto que se vende hoje como música (a Shakiroska ucraniana, o trânsfuga-de-boys-band russo, as friques exóticas holandesas). E percebi, finalmente, porque é que o certame se tornou em acontecimento icónico hilariante: depois daqueles Him finlandeses disfarçados de demónio de filme de série Z, depois do momento de performance art-quase gay da Islândia, depois da diva turca com ar de transsexual e da diva sueca com aplique no braço, e depois dos comentários do tempo da outra senhora de Eládio Clímaco, só dá mesmo para rir.
(PS 1: Espero que os lituanos ganhem amanhã. Pelo menos tinham sentido de humor.)
(PS 2: A canção portuguesa não destoava das outras. Por uma vez, é mesmo uma injustiça ter ficado de fora, mas não pelas razões que vocês estão todos a pensar.)
(PS 1: Espero que os lituanos ganhem amanhã. Pelo menos tinham sentido de humor.)
(PS 2: A canção portuguesa não destoava das outras. Por uma vez, é mesmo uma injustiça ter ficado de fora, mas não pelas razões que vocês estão todos a pensar.)
18 de maio de 2006
DOWNTOWN TRAIN
Jean-Baptiste Mondino para Tom Waits. Não é o teledisco. Mas está muito próximo. (E como Jarmusch gostava de evocar isto.)
17 de maio de 2006
TELEMÓVEL
Um senhor cego desce devagar a rua Alexandre Herculano, a bengala na mão direita, falando ao telemóvel encostado ao ouvido esquerdo — um telemóvel último modelo, onde é bem visível a lente redonda da câmara.
16 de maio de 2006
SOB O SIGNO DA VERDADE
Não li o livro de Manuel Maria Carrilho. Tenho apenas acompanhado o circo mediático à sua volta. E parece-me que deve ter sido precisamente essa a intenção do ex-ministro e ex-candidato a presidente da Câmara: criar um facto mediático que anulasse a "má imagem" que a sua candidatura deixou junto de muita gente. No entanto, chamar "Sob o Signo da Verdade" ao seu livro já me parece algo abusivo. É que, como diziam os Manic Street Preachers aqui há uns discos atrás, "This is my truth; tell me yours". E as duas "verdades" nem sempre coincidem, o que torna ambas igualmente falsas ou igualmente verdadeiras — porque os factos são aquilo que deles quisermos fazer. E, como já todos percebemos, o "facto mediático" projectado por este livro é um "ajuste de contas" com os "responsáveis" pela derrota de Carrilho na corrida à Câmara Municipal de Lisboa. Lá dizia a minha mãe que "roupa suja lava-se em casa".
Por outro lado, recordo-me agora, nas zonas urbanas dos EUA é normal haver uma única máquina de lavar roupa comum ao prédio todo, ou então ir lavar a roupa à lavandaria mais próxima.
Por outro lado, recordo-me agora, nas zonas urbanas dos EUA é normal haver uma única máquina de lavar roupa comum ao prédio todo, ou então ir lavar a roupa à lavandaria mais próxima.
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