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31 de maio de 2006

30 de maio de 2006

CRIANCINHAS

Dentro do supermercado, ouve-se a berraria aguda e guinchante de algumas criancinhas ainda muito novas que gritam a plenos pulmões. Mas não são nenhumas criancinhas que estejam a correr pelos corredores do supermercado, com os pais assoberbados a tentarem apanhá-las: são criancinhas que estão a brincar no parque infantil de plástico colocado em frente em supermercado, cuja potência vocal é tal que até aqui, dentro do supermercado, se ouvem os seus guinchos.

29 de maio de 2006

PÃO DE AÇÚCAR

Chego-me à entrada da padaria do supermercado — uma interrupção nas filas de tulhas de madeira onde o pão fresco é colocado a intervalos regulares, que abre para um ambiente industrial, asséptico, esbranquiçado onde vários empregados se afadigam a cortar, etiquetar, preparar pão — e sou visto pela jovem negra que está a fatiar pão caseiro na máquina. Faço-lhe sinal com o pão de forma que tenho na mão, "pode fatiar?". Ela faz que sim com a cabeça, "mas vou-lhe dar daqui de dentro porque tenho aqui formas prontas". Enquanto espero, olho para os rostos dos empregados, todos com aspecto de quem preferia estar na praia e de quem não tem o mínimo prazer em estar ali a fazer aquilo. Quando, pelo meio das solicitações e do trabalho, a jovem negra me passa para a mão o meu pão fatiado, fá-lo com um sorriso que é a melhor definição de "atenção ao cliente" que me lembro de ter visto. E é a única pessoa ali dentro a sorrir.

28 de maio de 2006

FAMEL ZUNDAPP

Um pós-adolescente de fato de treino branco (com as três listas verticais da Adidas nas calças), com o capacete precariamente inclinado na cabeça, pára a sua motorizada de pouca cilindrada ao meu lado no sinal de trânsito. Enquanto espera que o sinal abra, dá gás ao motor com uma perspectiva verdadeiramente musical da coisa, como quem mantém um riff de guitarra a correr ao longo de toda uma canção.

27 de maio de 2006

FEIRA DO LIVRO

Num dos stands dos institutos institucionais e académicos, o empregado faz uma chamada ao telemóvel. "Estou, doutor?... Desculpe estar a incomodá-lo, mas temos aqui um senhor que está a perguntar por um livro chamado "A tecnologia dos Bijagós na Ilha de Bubaque"... Ah, está esgotado?"

26 de maio de 2006

OBSESSÃO

A canção, já o disse aqui, é perfeita no seu estudo da obsessão entre o desesperado e o maníaco. O teledisco, a cargo de Kevin Godley & Lol Creme, é de uma simplicidade quase desarmante, de uma austeridade ilustrativa que consegue traduzir a canção melhor que qualquer ficção. The Police, "Every Breath You Take", 1983.

23 de maio de 2006

O ÉCRAN MÁGICO

Uma das razões pelas quais estou deslumbrado com o YouTube é a possibilidade que me dá de redescobrir pérolas visuais que eu julgava estarem perdidas para sempre — porque, enfim, um teledisco é como um single, perdido no tempo, com a diferença significativa que os DVDs de "greatest hits" nunca foram tão estimulantes como os álbuns de "greatest hits", e a maior parte dos telediscos verdadeiramente magistrais que se fizeram (e se fazem) nunca foram "greatest hits" de ninguém. Caso vertente: este momento de magia texturada chamado "Blackwater", dirigido em 1991 pelo artista gráfico Russell Mills para a fugaz e malfadada reincarnação dos Japan a que se chamou Rain Tree Crow, que muitos terão ouvido mas muito poucos devem ter visto. É uma pequena jóia que eu julgava perdida e que me alegra reencontrar, mesmo que longe das condições ideais.

22 de maio de 2006

JARDIM DA ESTRELA

Num banco do outro lado do lago, uma avó de camisa vermelha põe a camisola laranja do neto sobre a cabeça para se proteger do sol, enquanto o marido, de colete de safari por cima da camisa branca às riscas, encostado ao gradeamento, à sombra, vigia os dois miúdos que correm pelo jardim atrás dos pássaros.

21 de maio de 2006

OS MENINOS À VOLTA DA FOGUEIRA

O meu quarto de dormir dá para as traseiras. Como a maior parte dos quarteirões portugueses, essas traseiras são partilhadas com as traseiras de um sem-número de outros prédios, o que me impossibilita de saber onde estavam exactamente os inconscientes que estiveram até quase às cinco da manhã a cantar e tocar viola em altos berros, com enormes gargalhadas pelo meio, para lhes mandar um berro e pedir o especial favor de deixar as pessoas dormir. Não é a primeira vez que isto acontece, embora em rigor não aconteça para aí mais de uma vez de seis em seis meses; parece-me apenas sintomático daquela tendência bem portuguesa para fazer tudo aos gritos, desde falar ao telemóvel a conversar em casa, sem o mínimo respeito por quem está à volta.

O meu pai teria chamado a polícia, mas isso seria outro saco de gatos.

19 de maio de 2006

EUROVISÃO

Estou traumatizado com o Festival Eurovisão da Canção 2006. Há anos que não via uma edição e, agora que vi, mesmo que em ambiente assinalavelmente divertido, estou escandalizado como tudo mudou pouco ou quase nada em relação aos últimos que vi (a baladona irlandesa de puxar às lágrimas das domésticas, a matrona engordada de Andorra, os bósnios nostálgicos) e como tudo é tão igual em relação a tudo o resto que se vende hoje como música (a Shakiroska ucraniana, o trânsfuga-de-boys-band russo, as friques exóticas holandesas). E percebi, finalmente, porque é que o certame se tornou em acontecimento icónico hilariante: depois daqueles Him finlandeses disfarçados de demónio de filme de série Z, depois do momento de performance art-quase gay da Islândia, depois da diva turca com ar de transsexual e da diva sueca com aplique no braço, e depois dos comentários do tempo da outra senhora de Eládio Clímaco, só dá mesmo para rir.

(PS 1: Espero que os lituanos ganhem amanhã. Pelo menos tinham sentido de humor.)

(PS 2: A canção portuguesa não destoava das outras. Por uma vez, é mesmo uma injustiça ter ficado de fora, mas não pelas razões que vocês estão todos a pensar.)

18 de maio de 2006

DOWNTOWN TRAIN

Jean-Baptiste Mondino para Tom Waits. Não é o teledisco. Mas está muito próximo. (E como Jarmusch gostava de evocar isto.)

17 de maio de 2006

TELEMÓVEL

Um senhor cego desce devagar a rua Alexandre Herculano, a bengala na mão direita, falando ao telemóvel encostado ao ouvido esquerdo — um telemóvel último modelo, onde é bem visível a lente redonda da câmara.

16 de maio de 2006

SOB O SIGNO DA VERDADE

Não li o livro de Manuel Maria Carrilho. Tenho apenas acompanhado o circo mediático à sua volta. E parece-me que deve ter sido precisamente essa a intenção do ex-ministro e ex-candidato a presidente da Câmara: criar um facto mediático que anulasse a "má imagem" que a sua candidatura deixou junto de muita gente. No entanto, chamar "Sob o Signo da Verdade" ao seu livro já me parece algo abusivo. É que, como diziam os Manic Street Preachers aqui há uns discos atrás, "This is my truth; tell me yours". E as duas "verdades" nem sempre coincidem, o que torna ambas igualmente falsas ou igualmente verdadeiras — porque os factos são aquilo que deles quisermos fazer. E, como já todos percebemos, o "facto mediático" projectado por este livro é um "ajuste de contas" com os "responsáveis" pela derrota de Carrilho na corrida à Câmara Municipal de Lisboa. Lá dizia a minha mãe que "roupa suja lava-se em casa".

Por outro lado, recordo-me agora, nas zonas urbanas dos EUA é normal haver uma única máquina de lavar roupa comum ao prédio todo, ou então ir lavar a roupa à lavandaria mais próxima.

15 de maio de 2006

ALGUMAS PALAVRAS SÁBIAS DO FUNDO DOS TEMPOS

(...) a constituição da família portuguesa não obedecendo, unânime ou separadamente a nenhum princípio de fé é o nosso descrédito de nação da Europa. Desde a educação familiar até depois da educação oficial inclusive o casamento a desordem faz-se progressivamente até à putrefacção nacional. E tudo tem origem na inconsciência com que cada um existe: em Portugal toda a gente é pai pela mesma razão porque falta à repartição. Do estado de solteiro para o estado de casado dá-se exclusivamente, na nossa terra, uma mudança de hábitos.

Em Portugal educar tem um sentido diferente; em Portugal educar significa burocratizar. Exemplo: Coimbra. Mas na maioria o português é analfabeto e em geral é ignorante; na unanimidade o português é impostor, prova evidente de deficientíssimo.

(...) O português educado sem o sentimento da pátria e acostumado à desordem dos governos criou por si a compensação inútil de dizer mal dos governos e nem poupou a pátria. Estabeleceu-se até, elegantemente, como prova de inteligência ou de ter viajado dizer mal da pátria. Isto deixa de ser decadência para ser impotência física e sexual. (...) O português assimila de preferência todas as variedades de importação e em descrédito das próprias maravilhas regionalista; o comércio e a indústria têm quase sempre de se mascararem de estrangeiros para serem eficazmente rendosos.

(...) É preciso criar o espírito da aventura contra o sentimentalismo literário dos passadistas.

É preciso criar as aptidões pró heroísmo moderno: o heroísmo quotidiano.

É preciso destruir este nosso atavismo alcoólico e sebastianista de beira-mar."


É um excerto do "Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX" que Almada-Negreiros escreveu em Dezembro de 1917, uma provocação marcial quase estadonovista na sua defesa de um ideal luso-patriótico e completamente politicamente incorrecta — mas extraordinariamente certeira na sua definição dos atavismos lusitanos. Que, num século inteiro, não mudaram nada. E essa do heroísmo quotidiano, desculpem lá, faz ainda mais sentido hoje em dia.

14 de maio de 2006

UM SONHO AMERICANO

Folheava, ontem à noite, "Os 100 Álbuns Mais Vendidos dos Anos 50" — um livrinho pequenino, com as dimensões de um CD, reproduzindo as capas dos cem álbuns mais vendidos nos anos 1950 nos EUA. E as capas são tão extraordinariamente do seu tempo — projecções garridas e tecnocoloridas não necessariamente do "sonho americano" mas certamente do "American lifestyle" que se tornou numa espécie de "padrão de medida" social para toda a civilização ocidental — que de repente me senti projectado de retorno à minha infância, em casa dos meus pais, um universo fechado sobre si próprio, parado num tempo que nunca avançou verdadeiramente para lá de um outro tempo, irresistivelmente moldado à imagem de um país à distância de um oceano.

13 de maio de 2006

SAUDADES

O telefonema da sempre impecável Manuela da Nautilus apenas me recordou como tenho saudades de ir a Sesimbra dar umas "cacholadas" (para citar a inspirada expressão do demasiado ausente Alexandre). O pousio forçado por questões orçamentais manter-se-á, infelizmente, por mais algum tempo.

11 de maio de 2006

LISBOETAS

No bem castiço e popular bairro da Graça, há um restaurante indiano que emprega um cozinheiro chinês.

10 de maio de 2006

¡NO TE LO PONGAS!

É horrível admitir isto publicamente, mas tem de ser dito. Estou fã de um "reality-show" da BBC chamado "What Not to Wear", que passa no canal People & Arts às terças ao fim da tarde com o hilariante título português "Esquadrão da Moda" (o título espanhol, "¡No Te Lo Pongas!", é ainda mais hilariante). E porque estou eu fã de tal coisa? Porque deliro com os comentários snobes das duas apresentadoras bifas-com-a-mania-de-que-são-boas, Trinny Woodall e Susannah Constantine. Como o ar de repugnância que uma delas fez aqui há uns tempos para uma concorrente que apareceu com um horrendo top furta-cores sem mangas, acompanhado da expressão "are you out of your mind?". Ou como a afirmação de que "as camisolas de futebol do clube preferido deviam ser proibidas por lei". Que o mesmo é dizer, bom senso expresso com o pedantismo cínico e superior da "civilização britânica" (nas palavras do meu irmão). Ou que o mesmo ainda é dizer, uma tentativa de educar as Vanessas e os Fanãs lá do sítio (vénia ao JLx) quanto ao bom gosto mínimo. E, vá lá, admita-se que qualquer programa que almeja acabar com a praga dos fatos de treino merece o nosso respeito total.

9 de maio de 2006

DÁ-ME LUME

Está bastante gente sentada no átrio do cinema, à espera que a sessão comece, mas é a mim que o homem negro vestido de azul, com um boné na cabeça, andando com um ligeiro tremor, se dirige. "Chefe, boa noite. Pode-me arranjar um cigarro?", diz-me por entre um bafo de álcool. "Não fumo", respondo-lhe. Vira-me as costas e dirige-se a um casal que, a poucos metros, está a fumar. Conversa com eles um pouco; a mulher abre a mala, passa-lhe algumas moedas para a mão, e ele vai-se embora pela escada.