(...) a constituição da família portuguesa não obedecendo, unânime ou separadamente a nenhum princípio de fé é o nosso descrédito de nação da Europa. Desde a educação familiar até depois da educação oficial inclusive o casamento a desordem faz-se progressivamente até à putrefacção nacional. E tudo tem origem na inconsciência com que cada um existe: em Portugal toda a gente é pai pela mesma razão porque falta à repartição. Do estado de solteiro para o estado de casado dá-se exclusivamente, na nossa terra, uma mudança de hábitos.
Em Portugal educar tem um sentido diferente; em Portugal educar significa burocratizar. Exemplo: Coimbra. Mas na maioria o português é analfabeto e em geral é ignorante; na unanimidade o português é impostor, prova evidente de deficientíssimo.
(...) O português educado sem o sentimento da pátria e acostumado à desordem dos governos criou por si a compensação inútil de dizer mal dos governos e nem poupou a pátria. Estabeleceu-se até, elegantemente, como prova de inteligência ou de ter viajado dizer mal da pátria. Isto deixa de ser decadência para ser impotência física e sexual. (...) O português assimila de preferência todas as variedades de importação e em descrédito das próprias maravilhas regionalista; o comércio e a indústria têm quase sempre de se mascararem de estrangeiros para serem eficazmente rendosos.
(...) É preciso criar o espírito da aventura contra o sentimentalismo literário dos passadistas.
É preciso criar as aptidões pró heroísmo moderno: o heroísmo quotidiano.
É preciso destruir este nosso atavismo alcoólico e sebastianista de beira-mar."
É um excerto do "Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Século XX" que Almada-Negreiros escreveu em Dezembro de 1917, uma provocação marcial quase estadonovista na sua defesa de um ideal luso-patriótico e completamente politicamente incorrecta — mas extraordinariamente certeira na sua definição dos atavismos lusitanos. Que, num século inteiro, não mudaram nada. E essa do heroísmo quotidiano, desculpem lá, faz ainda mais sentido hoje em dia.
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
15 de maio de 2006
14 de maio de 2006
UM SONHO AMERICANO
Folheava, ontem à noite, "Os 100 Álbuns Mais Vendidos dos Anos 50" — um livrinho pequenino, com as dimensões de um CD, reproduzindo as capas dos cem álbuns mais vendidos nos anos 1950 nos EUA. E as capas são tão extraordinariamente do seu tempo — projecções garridas e tecnocoloridas não necessariamente do "sonho americano" mas certamente do "American lifestyle" que se tornou numa espécie de "padrão de medida" social para toda a civilização ocidental — que de repente me senti projectado de retorno à minha infância, em casa dos meus pais, um universo fechado sobre si próprio, parado num tempo que nunca avançou verdadeiramente para lá de um outro tempo, irresistivelmente moldado à imagem de um país à distância de um oceano.
13 de maio de 2006
11 de maio de 2006
LISBOETAS
No bem castiço e popular bairro da Graça, há um restaurante indiano que emprega um cozinheiro chinês.
10 de maio de 2006
¡NO TE LO PONGAS!
É horrível admitir isto publicamente, mas tem de ser dito. Estou fã de um "reality-show" da BBC chamado "What Not to Wear", que passa no canal People & Arts às terças ao fim da tarde com o hilariante título português "Esquadrão da Moda" (o título espanhol, "¡No Te Lo Pongas!", é ainda mais hilariante). E porque estou eu fã de tal coisa? Porque deliro com os comentários snobes das duas apresentadoras bifas-com-a-mania-de-que-são-boas, Trinny Woodall e Susannah Constantine. Como o ar de repugnância que uma delas fez aqui há uns tempos para uma concorrente que apareceu com um horrendo top furta-cores sem mangas, acompanhado da expressão "are you out of your mind?". Ou como a afirmação de que "as camisolas de futebol do clube preferido deviam ser proibidas por lei". Que o mesmo é dizer, bom senso expresso com o pedantismo cínico e superior da "civilização britânica" (nas palavras do meu irmão). Ou que o mesmo ainda é dizer, uma tentativa de educar as Vanessas e os Fanãs lá do sítio (vénia ao JLx) quanto ao bom gosto mínimo. E, vá lá, admita-se que qualquer programa que almeja acabar com a praga dos fatos de treino merece o nosso respeito total.
9 de maio de 2006
DÁ-ME LUME
Está bastante gente sentada no átrio do cinema, à espera que a sessão comece, mas é a mim que o homem negro vestido de azul, com um boné na cabeça, andando com um ligeiro tremor, se dirige. "Chefe, boa noite. Pode-me arranjar um cigarro?", diz-me por entre um bafo de álcool. "Não fumo", respondo-lhe. Vira-me as costas e dirige-se a um casal que, a poucos metros, está a fumar. Conversa com eles um pouco; a mulher abre a mala, passa-lhe algumas moedas para a mão, e ele vai-se embora pela escada.
8 de maio de 2006
A primeira vez que ouvi Go-Betweens foi no Som da Frente de António Sérgio, esse "Bachelor Kisses" que, apesar de todas as outras, é ainda hoje o "meu" tema dos Go-Betweens. O primeiro álbum dos Go-Betweens que tive foi "Liberty Belle and the Black Diamond Express". "The Mountains Near Dellray" é a última (e a melhor) canção do último álbum que os Go-Betweens gravaram, "Oceans Apart" (que, para mim, está longe de ser dos seus melhores, mas não deixa de ser tudo razoavelmente relativo, porque eles nunca fizeram um mau disco). Custa-me pensar que, depois da morte de Grant McLennan, não vão haver mais discos dos Go-Betweens. Ainda bem que continua a haver estes.
in the mountains near Dellray,
acres and a farm,
music in the barn, it’s no struggle.
snow in the sun.
October in the rain.
the people that have come are in the middle.
and does the Derwent flow?
anywhere up that way.
does the Derwent flow near Dellray?
and when you make a wish.
and you get the wish.
never let it go, it’s no struggle.
— Robert Forster para The Go-Betweens, "The Mountains Near Dellray" (in "Oceans Apart", Lo-max, 2005)
in the mountains near Dellray,
acres and a farm,
music in the barn, it’s no struggle.
snow in the sun.
October in the rain.
the people that have come are in the middle.
and does the Derwent flow?
anywhere up that way.
does the Derwent flow near Dellray?
and when you make a wish.
and you get the wish.
never let it go, it’s no struggle.
— Robert Forster para The Go-Betweens, "The Mountains Near Dellray" (in "Oceans Apart", Lo-max, 2005)
7 de maio de 2006
6 de maio de 2006
MELGAS
Tentem lá adormecer quando, no exacto momento em que o sono começa a embalar-nos, se ouve o inconfundível zumbido enervante de uma melga a fazer "banzai" e a tentar apanhar-nos desprevenidos para dar uma daquelas picadelas irritantes. Só esta semana, já despachei nada menos de quatro melgas que teimam em passear pela minha casa. Mas há também outro tipo de melgas: os distribuidores de publicidade que têm a brilhante ideia de tocar à campaínha às nove da manhã de um sábado, quando as pessoas de bem querem aproveitar para ficar a dormir um bocadinho mais. E que não hesitam em tocar duas ou três vezes enquanto ninguém lhes abrir a porta.
5 de maio de 2006
FAMÍLIAS MODERNAS
São seis e meia da tarde de uma sexta-feira de Primavera, vento a moderar o calor que o Sol ainda dá, na esplanada do jardim da Estrela. Um casal no fim dos vintes, princípios dos trinta, com duas filhas, chega à esplanada. A mãe senta-se numa cadeira ao sol, pega num livro de capa colorida ("Ser Optimista") e lê, de vez em quando chamando a filha mais velha, "Mariana, os outros meninos estão ali". O pai, em mangas de camisa com um jornal debaixo do braço, não larga o telemóvel enquanto persegue a filha mais nova, que percorre a esplanada de chucha atrás dos patos que nadam pachorrentamente pela água suja do pequeno lago. Volto à minha revista. Alguns minutos mais tarde, ouço um choro de criança; é a menina mais nova do casal, que o pai pega ao colo e tenta acalmar sem largar o telemóvel do ouvido esquerdo, continuando a falar. A mãe, com o livro marcado na mão, põe-se de pé e olha em todas as direcções, com ar de quem se quer ir embora, enquanto a filha mais velha grita que quer água.
4 de maio de 2006
O NOVO MUNDO

É um crime estrear este filme desta maneira, nesta semana, depois de quatro meses a ser sistematicamente adiado. Dá a impressão que não querem que ele seja visto, que têm vergonha. Mas não há que ter vergonha deste objecto esplendoroso, filme mal-amado que vai dividir opiniões e causar grandes discussões entre aqueles que o virem (que espero sejam muitos mas receio serão poucos). Para mim, "O Novo Mundo" é a obra-prima de Terrence Malick — assino por baixo as vezes que forem precisas. E daqui a uns anos estará a ser aclamado como tal.
3 de maio de 2006
THERE GOES THE FEAR
Porque às vezes é preciso exorcizar o medo de que estejamos a passar ao lado.
out of here
we're out of here
out of heartache
along with the fear
there goes the fear again
there goes the fear
and cars speed fast
out of here
and life goes past
again so near
there goes the fear again
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify
you turned around and life's passed you by
passed you by
again
and late last night
makes up her mind
another fight
left behind
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify, why?
you turned around and life's passed you by
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town
think of me when he's calling out
but don't look back when leaving town
think of me when you close your eyes
but don't look back when you break all ties
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town today
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
let it go.
- Doves, "There Goes the Fear" (in "The Last Broadcast", Heavenly/EMI, 2002)
out of here
we're out of here
out of heartache
along with the fear
there goes the fear again
there goes the fear
and cars speed fast
out of here
and life goes past
again so near
there goes the fear again
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify
you turned around and life's passed you by
passed you by
again
and late last night
makes up her mind
another fight
left behind
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go
you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify, why?
you turned around and life's passed you by
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town
think of me when he's calling out
but don't look back when leaving town
think of me when you close your eyes
but don't look back when you break all ties
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town today
there goes the fear again, let it go
there goes the fear
let it go.
- Doves, "There Goes the Fear" (in "The Last Broadcast", Heavenly/EMI, 2002)
2 de maio de 2006
1 de maio de 2006
ALGUMAS MEDITAÇÕES PÓS-TELEJORNAIS SOBRE O 1º DE MAIO
Soube hoje que existe em Portugal uma União Independente de Sindicatos que celebrou o Dia do Trabalhador no Rossio com um "festival de folclore" (segundo faixa alegórica focada pela câmara da RTP). Será possível pensar numa celebração do Dia do Trabalhador que pertença mais ao tempo da outra senhora?
Soube também que as associações de profissionais das forças de segurança receberam com entusiasmo moderado o anúncio do Ministro da Administração Interna de que irão receber novo armamento até ao final do ano — segundo explicou um dos responsáveis em forte demonstração de camaradagem, porque o armamento que vão receber não chega para todos. Ou seja, eles não querem ter polícias de primeira e polícias de segunda. Parece-me sensato.
Soube também que as associações de profissionais das forças de segurança receberam com entusiasmo moderado o anúncio do Ministro da Administração Interna de que irão receber novo armamento até ao final do ano — segundo explicou um dos responsáveis em forte demonstração de camaradagem, porque o armamento que vão receber não chega para todos. Ou seja, eles não querem ter polícias de primeira e polícias de segunda. Parece-me sensato.
30 de abril de 2006
O GATO FEDORENTO EXISTE
Algo que me diz que o Gato Fedorento deve basear-se na cuidada observação da realidade quotidiana para escrever os seus guiões. A conversa entre dois trintões casados e pais de família ouvida na tarde de ontem numa esplanada da avenida de Roma parecia saidinha de um diálogo entre Ricardo Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela, só que era absolutamente a sério, até no tom de voz de bancário médio a fingir sangue azul.
29 de abril de 2006
É SÓ EMBIRRAÇÃO EMBIRRAÇÃO
Estar sentado num restaurante cheio e a ser atendido por uma empregada que está quase sozinha ao balcão e, por muito boa vontade, profissionalismo e esforço que tenha, não consegue dar conta do recado, para além da cozinha também não estar a conseguir dar conta do recado, é uma receita mágica para más vibrações por parte dos vizinhos de balcão, como a suburbana rechonchuda que não pára de resmungar com o namorado por causa do atraso do almoço. E há poucas coisas que dêem cabo de um ambiente civilizado como as más vibrações emitidas pela embirração petulante de quem acha que é só a ela que estão a tratar mal quando está a demorar mais tempo para serem todos servidos. Nessas ocasiões, até a boa educação da empregada pode ser lida como condescendência. Por isso é que dei graças a Deus quando o casalinho bazou das cadeiras do lado, que eu já estava a ficar com vontade de resmungar com eles e não com a empregada assoberbada.
28 de abril de 2006
ELES QUE VENHAM, ELES QUE VENHAM
Numa esplanada da avenida de Roma, um pequeno cãozinho daquelas raças miniaturizadas e peludas que parecem não ver o caminho solta o tigre que há em si sempre que passam cães maiores, com o dobro do tamanho, desatando a ladrar com sentimento e quase conseguindo soltar a trela da cadeira de metal a que está presa para se atirar ao cão maior — que segue o seu caminho sem sequer reparar no David que está para ali a meter-se com ele.
27 de abril de 2006
BÉNARD, ZIDANE E GARBO
Parece-me que todo este episódio da petição lançada pelos amigos e admiradores de João Bénard da Costa para evitar o seu afastamento da direcção da Cinemateca Portuguesa (por limite de idade, recorde-se, que o senhor tem 71 anos de idade) devia ser relativizada pelas declarações do futebolista francês Zinedine Zidane, que anunciou o final da sua carreira para daqui a uns meses. "Para mim o futebol é tudo, mas já não sou capaz de fazer aquilo que fazia. E já não tenho 25 anos." É uma afirmação em que vale a pena pensar. Sobretudo porque me parece que se está a falar mais de preservar um "status quo" que não é tão unânime como se quer fazer parecer. Ora, já Greta Garbo se tinha sabido retirar a tempo — e digam lá que essa sábia decisão não fez maravilhas pelo mito.
26 de abril de 2006
25 DE ABRIL SEMPRE, É COMO QUEM DIZ
O senhor idoso que ontem dizia na rua à vizinha do prédio ao lado que "condenava o 25 de Abril" não deve de facto ser apologista do 25 de Abril sempre.
EU NÃO ANDO A VER MAL
Confesso que, à excepção do David Fonseca e da São José Lapa, não reconheço quase ninguém na actual campanha do BPI (é mesmo a Sofia Aparício?). E não é uma questão de precisar de mudar de óculos, porque o oftalmologista disse-me há um mês que está tudo bem.
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