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8 de maio de 2006

A primeira vez que ouvi Go-Betweens foi no Som da Frente de António Sérgio, esse "Bachelor Kisses" que, apesar de todas as outras, é ainda hoje o "meu" tema dos Go-Betweens. O primeiro álbum dos Go-Betweens que tive foi "Liberty Belle and the Black Diamond Express". "The Mountains Near Dellray" é a última (e a melhor) canção do último álbum que os Go-Betweens gravaram, "Oceans Apart" (que, para mim, está longe de ser dos seus melhores, mas não deixa de ser tudo razoavelmente relativo, porque eles nunca fizeram um mau disco). Custa-me pensar que, depois da morte de Grant McLennan, não vão haver mais discos dos Go-Betweens. Ainda bem que continua a haver estes.

in the mountains near Dellray,
acres and a farm,
music in the barn, it’s no struggle.

snow in the sun.
October in the rain.
the people that have come are in the middle.

and does the Derwent flow?
anywhere up that way.
does the Derwent flow near Dellray?

and when you make a wish.
and you get the wish.
never let it go, it’s no struggle.


— Robert Forster para The Go-Betweens, "The Mountains Near Dellray" (in "Oceans Apart", Lo-max, 2005)

6 de maio de 2006

MELGAS

Tentem lá adormecer quando, no exacto momento em que o sono começa a embalar-nos, se ouve o inconfundível zumbido enervante de uma melga a fazer "banzai" e a tentar apanhar-nos desprevenidos para dar uma daquelas picadelas irritantes. Só esta semana, já despachei nada menos de quatro melgas que teimam em passear pela minha casa. Mas há também outro tipo de melgas: os distribuidores de publicidade que têm a brilhante ideia de tocar à campaínha às nove da manhã de um sábado, quando as pessoas de bem querem aproveitar para ficar a dormir um bocadinho mais. E que não hesitam em tocar duas ou três vezes enquanto ninguém lhes abrir a porta.

5 de maio de 2006

FAMÍLIAS MODERNAS

São seis e meia da tarde de uma sexta-feira de Primavera, vento a moderar o calor que o Sol ainda dá, na esplanada do jardim da Estrela. Um casal no fim dos vintes, princípios dos trinta, com duas filhas, chega à esplanada. A mãe senta-se numa cadeira ao sol, pega num livro de capa colorida ("Ser Optimista") e lê, de vez em quando chamando a filha mais velha, "Mariana, os outros meninos estão ali". O pai, em mangas de camisa com um jornal debaixo do braço, não larga o telemóvel enquanto persegue a filha mais nova, que percorre a esplanada de chucha atrás dos patos que nadam pachorrentamente pela água suja do pequeno lago. Volto à minha revista. Alguns minutos mais tarde, ouço um choro de criança; é a menina mais nova do casal, que o pai pega ao colo e tenta acalmar sem largar o telemóvel do ouvido esquerdo, continuando a falar. A mãe, com o livro marcado na mão, põe-se de pé e olha em todas as direcções, com ar de quem se quer ir embora, enquanto a filha mais velha grita que quer água.

4 de maio de 2006

O NOVO MUNDO



É um crime estrear este filme desta maneira, nesta semana, depois de quatro meses a ser sistematicamente adiado. Dá a impressão que não querem que ele seja visto, que têm vergonha. Mas não há que ter vergonha deste objecto esplendoroso, filme mal-amado que vai dividir opiniões e causar grandes discussões entre aqueles que o virem (que espero sejam muitos mas receio serão poucos). Para mim, "O Novo Mundo" é a obra-prima de Terrence Malick — assino por baixo as vezes que forem precisas. E daqui a uns anos estará a ser aclamado como tal.

3 de maio de 2006

THERE GOES THE FEAR

Porque às vezes é preciso exorcizar o medo de que estejamos a passar ao lado.



out of here
we're out of here
out of heartache
along with the fear
there goes the fear again
there goes the fear

and cars speed fast
out of here
and life goes past
again so near
there goes the fear again
there goes the fear

close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go

you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify
you turned around and life's passed you by
passed you by
again

and late last night
makes up her mind
another fight
left behind
there goes the fear again, let it go
there goes the fear

close your brown eyes
and lay down next to me
close your eyes, lay down
'cause there goes the fear
let it go

you turn around and life's passed you by
you look to ones you love to ask them why?
you look to those you love to justify, why?
you turned around and life's passed you by

think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town
think of me when he's calling out
but don't look back when leaving town
think of me when you close your eyes
but don't look back when you break all ties
think of me when you're coming down
but don't look back when leaving town today

there goes the fear again, let it go
there goes the fear
let it go.


- Doves, "There Goes the Fear" (in "The Last Broadcast", Heavenly/EMI, 2002)

2 de maio de 2006

OS RAPAZES DO VERÃO

Este é o teledisco - e não ganhou uma única ruga. Assina Jean-Baptiste Mondino.

1 de maio de 2006

ALGUMAS MEDITAÇÕES PÓS-TELEJORNAIS SOBRE O 1º DE MAIO

Soube hoje que existe em Portugal uma União Independente de Sindicatos que celebrou o Dia do Trabalhador no Rossio com um "festival de folclore" (segundo faixa alegórica focada pela câmara da RTP). Será possível pensar numa celebração do Dia do Trabalhador que pertença mais ao tempo da outra senhora?

Soube também que as associações de profissionais das forças de segurança receberam com entusiasmo moderado o anúncio do Ministro da Administração Interna de que irão receber novo armamento até ao final do ano — segundo explicou um dos responsáveis em forte demonstração de camaradagem, porque o armamento que vão receber não chega para todos. Ou seja, eles não querem ter polícias de primeira e polícias de segunda. Parece-me sensato.

30 de abril de 2006

O GATO FEDORENTO EXISTE

Algo que me diz que o Gato Fedorento deve basear-se na cuidada observação da realidade quotidiana para escrever os seus guiões. A conversa entre dois trintões casados e pais de família ouvida na tarde de ontem numa esplanada da avenida de Roma parecia saidinha de um diálogo entre Ricardo Araújo Pereira e Zé Diogo Quintela, só que era absolutamente a sério, até no tom de voz de bancário médio a fingir sangue azul.

29 de abril de 2006

É SÓ EMBIRRAÇÃO EMBIRRAÇÃO

Estar sentado num restaurante cheio e a ser atendido por uma empregada que está quase sozinha ao balcão e, por muito boa vontade, profissionalismo e esforço que tenha, não consegue dar conta do recado, para além da cozinha também não estar a conseguir dar conta do recado, é uma receita mágica para más vibrações por parte dos vizinhos de balcão, como a suburbana rechonchuda que não pára de resmungar com o namorado por causa do atraso do almoço. E há poucas coisas que dêem cabo de um ambiente civilizado como as más vibrações emitidas pela embirração petulante de quem acha que é só a ela que estão a tratar mal quando está a demorar mais tempo para serem todos servidos. Nessas ocasiões, até a boa educação da empregada pode ser lida como condescendência. Por isso é que dei graças a Deus quando o casalinho bazou das cadeiras do lado, que eu já estava a ficar com vontade de resmungar com eles e não com a empregada assoberbada.

28 de abril de 2006

ELES QUE VENHAM, ELES QUE VENHAM

Numa esplanada da avenida de Roma, um pequeno cãozinho daquelas raças miniaturizadas e peludas que parecem não ver o caminho solta o tigre que há em si sempre que passam cães maiores, com o dobro do tamanho, desatando a ladrar com sentimento e quase conseguindo soltar a trela da cadeira de metal a que está presa para se atirar ao cão maior — que segue o seu caminho sem sequer reparar no David que está para ali a meter-se com ele.

27 de abril de 2006

BÉNARD, ZIDANE E GARBO

Parece-me que todo este episódio da petição lançada pelos amigos e admiradores de João Bénard da Costa para evitar o seu afastamento da direcção da Cinemateca Portuguesa (por limite de idade, recorde-se, que o senhor tem 71 anos de idade) devia ser relativizada pelas declarações do futebolista francês Zinedine Zidane, que anunciou o final da sua carreira para daqui a uns meses. "Para mim o futebol é tudo, mas já não sou capaz de fazer aquilo que fazia. E já não tenho 25 anos." É uma afirmação em que vale a pena pensar. Sobretudo porque me parece que se está a falar mais de preservar um "status quo" que não é tão unânime como se quer fazer parecer. Ora, já Greta Garbo se tinha sabido retirar a tempo — e digam lá que essa sábia decisão não fez maravilhas pelo mito.

26 de abril de 2006

25 DE ABRIL SEMPRE, É COMO QUEM DIZ

O senhor idoso que ontem dizia na rua à vizinha do prédio ao lado que "condenava o 25 de Abril" não deve de facto ser apologista do 25 de Abril sempre.

EU NÃO ANDO A VER MAL

Confesso que, à excepção do David Fonseca e da São José Lapa, não reconheço quase ninguém na actual campanha do BPI (é mesmo a Sofia Aparício?). E não é uma questão de precisar de mudar de óculos, porque o oftalmologista disse-me há um mês que está tudo bem.

25 de abril de 2006

25 DE ABRIL SEMPRE

Na rua da Escola Politécnica, há uma senhora idosa de cabelo pintado (de louro, como quase sempre), de óculos escuros e casaco pesado, que avança com ar de grande dama amuado a fingir-se alheia ao mundo à sua volta. Do passeio do outro lado da rua, poucos metros atrás, uma outra senhora idosa de cabelo branco e óculos tintados com sacos na mão, andando mais dificilmente, chama por ela. "Ó Maria de Lurdes! Vamos aí a essa pastelaria! Maria de Lurdes!". Maria de Lurdes finge que não é nada com ela e estuga o passo. A senhora dos sacos que chama por ela atravessa na passadeira enquanto diz em voz alta, como quem comenta num àparte para a plateia, "A mulher é lixada como tudo, poça!", e volta a chamá-la. "Ó Maria de Lurdes!"

Uns metros mais à frente, cruzo-me com um senhor idoso muito direito no seu melhor fato azul de domingo, com o emblema do Benfica bem reluzente na lapela.

24 de abril de 2006

OS RESTAURANTES CHINESES JÁ NÃO SÃO O QUE ERAM

Na mesa de trás, duas senhoras bem da avenida de Roma conversam como se fossem as únicas pessoas no restaurante com vozes extremamente educadas e muito bem colocadas. Uma delas atende o telefone um par de vezes para falar com uma Geginha que vem do cinema dizer olá com a Memé.

Na mesa da frente, instalou-se um quarentão com ar de comercial bem sucedido acompanhado pela esposa e pelas filhas que se instala na grande mesa redonda, de frente para o televisor, e pede ao empregado do restaurante se é possível pôr na Sport TV para ver o jogo da Académica, enquanto atende uma chamada no telemóvel. Entretanto, chegam mais comensais para a grande mesa redonda e em breve o quarentão e outro quarentão que chegou entretanto resmungam mutuamente que é uma chatice marcar-se um jantar para o dia do jogo da Académica.

23 de abril de 2006

NÓS E OS OUTROS #7

"When I was about six years old, my dad was holding my hand as we walked down the street and he said, 'You've got tough little hands, David, you'll be all right. But I'm worried about Ray because he's got really soft hands.' That stayed with me. I knew I was there to support Ray, to encourage him to expand whatever creative horizons he wanted to do. It's not uncommon among younger brothers. Intellectually, the older brother might think he has the responsibility, but emotionally, it's actually the other way round."

— Dave Davies (Kinks) a Mark Paytress na edição de Março de 2006 da Mojo

22 de abril de 2006

PUBLICIDADE

O meu prédio não tem intercomunicador. Isso quer dizer que, quando alguém toca à campaínha da porta, não há maneira de saber quem está a tocar e, logo, de saber se estamos a abrir a porta ao carteiro, às Testemunhas de Jeová, aos Mormons, aos elementos de alguma associação de recuperação de viciados a fazerem um peditório, à amiga da vizinha de baixo que se enganou no andar ou a um distribuidor de publicidade.

No entanto, existem umas quantas dicas que posso partilhar com outros incautos na mesma situação que eu. Importante é saber se podemos ouvir as campainhas dos vizinhos, como é o meu caso; se a minha campainha toca e ao mesmo tempo ouço a campainha do vizinho da frente e a do vizinho de cima (acreditem que são bastante fortes, para lá do facto das paredes lá de casa não serem exactamente insonorizadas), então é o carteiro a pedir para abrir a porta, um distribuidor de publicidade ou Testemunhas de Jeová/Mormons/peditórios etc. A hora a que isto acontece também permite eliminar um pouco mais; assim, quando a campaínha toca a um sábado ao meio-dia, é quase de certeza um distribuidor de publicidade.

E assim, quando saí para o pequeno-almoço tardio, lá estavam meia-dúzia de folhetos das excursões-turísticas-de-um-dia ao preço da chuva organizadas por empresas de venda de inutilidades (mas podiam ser folhetos de supermercado ou restaurantes ou ginásios ou canalizadores) enfiadas por baixo da porta da rua, porque ninguém no prédio lhe abriu a porta.

21 de abril de 2006

EXPLICAÇÃO DA POLÍTICA ÀS CRIANCINHAS

O governo está a fazer tudo bem. A oposição acha que está tudo mal e que eles faziam melhor. Depois o governo e a oposição trocam de posição e volta tudo ao mesmo.

20 de abril de 2006

GO AHEAD, PUNK, MAKE MY DAY

Estão a ver aquela velha cena dos filmes policiais, de guerra, ou dos "westerns", do "disparar primeiro e fazer perguntas depois"? Ontem descobri um taxista cuja política é muito semelhante: entrar primeiro, e parar (ou não) depois. Asseguro que não é garantia de uma viagem confortável.