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25 de abril de 2006

25 DE ABRIL SEMPRE

Na rua da Escola Politécnica, há uma senhora idosa de cabelo pintado (de louro, como quase sempre), de óculos escuros e casaco pesado, que avança com ar de grande dama amuado a fingir-se alheia ao mundo à sua volta. Do passeio do outro lado da rua, poucos metros atrás, uma outra senhora idosa de cabelo branco e óculos tintados com sacos na mão, andando mais dificilmente, chama por ela. "Ó Maria de Lurdes! Vamos aí a essa pastelaria! Maria de Lurdes!". Maria de Lurdes finge que não é nada com ela e estuga o passo. A senhora dos sacos que chama por ela atravessa na passadeira enquanto diz em voz alta, como quem comenta num àparte para a plateia, "A mulher é lixada como tudo, poça!", e volta a chamá-la. "Ó Maria de Lurdes!"

Uns metros mais à frente, cruzo-me com um senhor idoso muito direito no seu melhor fato azul de domingo, com o emblema do Benfica bem reluzente na lapela.

24 de abril de 2006

OS RESTAURANTES CHINESES JÁ NÃO SÃO O QUE ERAM

Na mesa de trás, duas senhoras bem da avenida de Roma conversam como se fossem as únicas pessoas no restaurante com vozes extremamente educadas e muito bem colocadas. Uma delas atende o telefone um par de vezes para falar com uma Geginha que vem do cinema dizer olá com a Memé.

Na mesa da frente, instalou-se um quarentão com ar de comercial bem sucedido acompanhado pela esposa e pelas filhas que se instala na grande mesa redonda, de frente para o televisor, e pede ao empregado do restaurante se é possível pôr na Sport TV para ver o jogo da Académica, enquanto atende uma chamada no telemóvel. Entretanto, chegam mais comensais para a grande mesa redonda e em breve o quarentão e outro quarentão que chegou entretanto resmungam mutuamente que é uma chatice marcar-se um jantar para o dia do jogo da Académica.

23 de abril de 2006

NÓS E OS OUTROS #7

"When I was about six years old, my dad was holding my hand as we walked down the street and he said, 'You've got tough little hands, David, you'll be all right. But I'm worried about Ray because he's got really soft hands.' That stayed with me. I knew I was there to support Ray, to encourage him to expand whatever creative horizons he wanted to do. It's not uncommon among younger brothers. Intellectually, the older brother might think he has the responsibility, but emotionally, it's actually the other way round."

— Dave Davies (Kinks) a Mark Paytress na edição de Março de 2006 da Mojo

22 de abril de 2006

PUBLICIDADE

O meu prédio não tem intercomunicador. Isso quer dizer que, quando alguém toca à campaínha da porta, não há maneira de saber quem está a tocar e, logo, de saber se estamos a abrir a porta ao carteiro, às Testemunhas de Jeová, aos Mormons, aos elementos de alguma associação de recuperação de viciados a fazerem um peditório, à amiga da vizinha de baixo que se enganou no andar ou a um distribuidor de publicidade.

No entanto, existem umas quantas dicas que posso partilhar com outros incautos na mesma situação que eu. Importante é saber se podemos ouvir as campainhas dos vizinhos, como é o meu caso; se a minha campainha toca e ao mesmo tempo ouço a campainha do vizinho da frente e a do vizinho de cima (acreditem que são bastante fortes, para lá do facto das paredes lá de casa não serem exactamente insonorizadas), então é o carteiro a pedir para abrir a porta, um distribuidor de publicidade ou Testemunhas de Jeová/Mormons/peditórios etc. A hora a que isto acontece também permite eliminar um pouco mais; assim, quando a campaínha toca a um sábado ao meio-dia, é quase de certeza um distribuidor de publicidade.

E assim, quando saí para o pequeno-almoço tardio, lá estavam meia-dúzia de folhetos das excursões-turísticas-de-um-dia ao preço da chuva organizadas por empresas de venda de inutilidades (mas podiam ser folhetos de supermercado ou restaurantes ou ginásios ou canalizadores) enfiadas por baixo da porta da rua, porque ninguém no prédio lhe abriu a porta.

21 de abril de 2006

EXPLICAÇÃO DA POLÍTICA ÀS CRIANCINHAS

O governo está a fazer tudo bem. A oposição acha que está tudo mal e que eles faziam melhor. Depois o governo e a oposição trocam de posição e volta tudo ao mesmo.

20 de abril de 2006

GO AHEAD, PUNK, MAKE MY DAY

Estão a ver aquela velha cena dos filmes policiais, de guerra, ou dos "westerns", do "disparar primeiro e fazer perguntas depois"? Ontem descobri um taxista cuja política é muito semelhante: entrar primeiro, e parar (ou não) depois. Asseguro que não é garantia de uma viagem confortável.

19 de abril de 2006

A COABITAÇÃO É TÃO BONITA

No mesmo quiosque do jardim do Príncipe Real, tomam café, ao mesmo tempo, dois manifestantes que, de T-shirt e bandeira, vão para uma manifestação ali perto, e dois agentes da polícia de serviço à dita cuja manifestação.

18 de abril de 2006

SINUSITE

Uma idosa cigana está à entrada das urgências de São José, inteiramente vestida de preto, saia rodada que lhe cobre os pés, camisa de manga comprida, um lenço à cabeça que apenas lhe mostra o rosto, com um inalador branco espetado numa das narinas.

RETOMANDO O SERVIÇO NORMAL

Já há outra vez comentários. Infelizmente, tudo o que ficou para trás perdeu-se — mas, de qualquer maneira, essa foi uma das razões pelas quais mudei para o Blogger, já que o Haloscan apaga os comentários ao fim de um certo tempo.

17 de abril de 2006

PEDIMOS DESCULPA PELA INTERRUPÇÃO

Pequeno problema com os comentários, resultante da mudança de sistema do Haloscan para o Blogger. Não se inquietem, eles voltam assim que eu resolver as questões técnicas.

A TERCEIRA IDADE MAIOR

Ontem, a RTP fazia grande alarde de uma reportagem que falava do desinteresse e do desprezo e dos maus tratos a que são votados os idosos pelas famílias modernas. Nada que me surpreenda, face àquilo que conheço do desconfiado e mal-educado espírito portuguesinho que tanto me irrita. Mas, sem ter visto a reportagem, não consegui deixar de pensar na minha avó materna, a única que na verdade conheci, porque da minha avó paterna, que morreu era eu muito criança, não me recordo, e nunca conheci os meus avôs.

A minha avó materna, após a morte do marido, limitava-se a esperar a morte, sentada numa cadeira da cozinha da minha tia ou num cadeirão da sala. Não tenho ideia de que ela falasse muito. A minha tia tomava conta dela — fazia-lhe a comida, dava-lhe os medicamentos, sem que no entanto isso a impedisse de ter uma vida profissional. Levava-a quando ia de férias para o Algarve, uma vez ou outra pediu-nos que tomássemos conta dela durante alguns dias. A minha avó materna, até morrer, limitava-se a existir. Nunca percebi se tinha a ver com a doença de que sofria (creio que não) ou com aquele luso carácter mórbido de que António Nobre falava, mas sei que a minha mãe, mesmo sabendo que o enfarte que teve há um ano lhe limita um pouco as tarefas que pode fazer, está a ir pelo mesmo caminho.

A verdade é que me debato muitas vezes com as questões do "ser bom filho/mau filho". Na reportagem que a Time dedicou há algumas semanas à moderna sociedade italiana, creio que era um sociólogo que comentava que em Itália há muitos pais que ainda esperam que os filhos abdiquem da sua vida pessoal para tomarem conta deles na sua velhice, mas que isso era também uma situação profundamente injusta para um filho que se vê assim privado de uma "vida normal" (seja lá isso o que fôr). Claro que não haveria comédia italiana (nem Almodóvar) sem essas famílias opressivas e opressoras. Mas querer ter uma vida pessoal é ser mau filho? Ter a consciência de que por vezes é mais apropriado entregar os nossos pais nas mãos de alguém que sabe cuidar de idosos melhor do que nós e que pode ajudá-los 24 horas por dia, tentar de algum modo melhorar a qualidade de vida deles do que se tomássemos nós conta deles é ser mau filho?

A verdade, mesmo, é que não há respostas fáceis para este tipo de perguntas. Por mim, confesso que gostava que as pessoas não se escondessem atrás de desculpas, mas isso talvez seja pedir demais.

16 de abril de 2006

14 de abril de 2006

MORANGOS COM AÇÚCAR

Não são as teenagers inconscientes cujos telemóveis passam a vida a apitar em altos berros com mensagens recebidas durante um jantar inteiro que me incomodam mais (embora me incomodem imenso). São os pais das teenagers inconscientes que não as ensinam a boa educação mínima e as deixam continuar neste egoísmo onanista de quem se está literalmente a borrifar para o vizinho do lado desde que a mesada dê para carregar o telemóvel para trocar inanidades com os amigos/amigas. Digamos que um par de tabefes bem aplicados não seriam mal vistos. Ainda por cima parece que os tribunais até defendem a prática.

13 de abril de 2006

CANTA-ME UM FADO

No átrio da estação do Campo Pequeno, um senhor de aspecto perfeitamente normal, como quem vem ou vai do emprego, canta em voz alta um faduncho como se fosse a coisa mais normal do mundo cantar um fado em voz alta num átrio de uma estação de metro, alheio aos transeuntes (que, eles próprios, fingem alhear-se, como se cantar um faduncho em voz alta fosse a coisa mais normal do mundo), enquanto se dirige para as bilheteiras.

12 de abril de 2006

EM CASA DE FERREIRO ESPETO DE PAU

A minha amiga Isabel já disse por várias vezes que, fosse ela mais nova, já tinha emigrado daqui para fora, de preferência para um país onde tivesse hipótese de fazer aquilo que em Portugal não consegue, que é trabalhar para si conseguindo ir economizando uns trocos.

Só que, depois, uma pessoa começa a pensar para onde raio ia. Uma pessoa olha para França, e vê a tristeza que é ver o imenso poder reivindicativo dos franceses a manifestar-se na rua a favor da manutenção do status quo e contra um contrato de trabalho que não afectaria em nada a maior parte dos manifestantes, que já têm o seu empregozinho garantido e inatacável (tipo função pública, mesmo). Depois olha para Itália, e vê o trafulha do Berlusconi a tentar agarrar-se desesperadamente ao poder e contestar a vitória democrática da sua concorrência, num resultado que só me recorda a célebre contestada eleição de George W. Bush para presidente americano. Depois olha para os americanos, e vê o sururu que se está a gerar por causa das novas leis de imigração que uns querem passar e outros contestam. E um gajo começa a pensar: sim, está bem, aqui não se vai a lado nenhum, mas será que nos outros sítios se vai realmente onde aqui não se consegue ir?

CONVERSAS DE CAFÉ

Aqueles que dizem, nos cafés de Lisboa, que Portugal está "entregue à bicharada" seriam os primeiros a entregar Portugal à bicharada se lhes coubesse a eles tomarem uma decisão sobre o caminho a seguir daqui para a frente.

11 de abril de 2006

A BEM DIZER

É engraçado, há alturas em que me apetece imenso vir aqui escrever coisas mas depois não sei bem o quê. Nem é como se faltasse assunto.

9 de abril de 2006

CONFIDÊNCIAS

Era só para dizer que estes gajos estão cada vez melhores e que é uma pena que ninguém lhes preste a atenção merecida. Aquela reinvenção de "Woman" em soul de Memphis pura e o travo de Americana clássica que as canções estão a ganhar ao vivo são a prova.

MÃE HÁ SÓ UMA (post críptico #1)

Depois de uma conversa que tivemos em que eu comparei a minha mãe à formidável matriarca dos "Sopranos", a Cristina costuma dizer que não consegue ver um episódio da série sem se lembrar dela.

A minha mãe insiste em considerar-se uma mãe como qualquer outra, matriarca de uma família como qualquer outra. Eu tenho sérias dúvidas sobre a "normalidade" maternal e familiar, em primeiro lugar porque não existem famílias "normais" (e, por arrastamento, não existem mães, ou pais, ou irmãos "normais"), em segundo lugar porque mesmo não existindo "normalidade" familiar, eu tenho a impressão que a minha família está uns quantos furos ao lado dessa não-"normalidade"... Confusos? Provavelmente eu também. A constatação, no entanto, resume-se ao facto de eu ter a certeza de que a minha família parou no tempo algures nos anos 60 e continua a viver de acordo com um mundo que já deixou de existir há muito. O que, claro, explica muitas coisas, a menor das quais não são com certeza as minhas crispações.

6 de abril de 2006

OLHA QUE COISA MAIS LINDA MAIS CHEIA DE GRAÇA

Os gatos estão a apanhar o sol possível em cima do telhado da arrecadação que se vê da janela do meu quarto. Uma gata passa, a miar, espreguiçando-se como se não estivesse ali mais ninguém, mas não pára; atravessa o telhado devagarinho até desaparecer no prédio ao lado. Os gatos não param de olhar para ela, mesmo depois de ela deixar de se ver; seguem-na com o olhar como Vinicius deve ter seguido a garota na esplanada de Ipanema.

Claro que é sempre possível que a gata fosse um gato. Ou que os gatos fossem gatas. Ou que fossem todos gatos. Ou todos gatas.