Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
18 de abril de 2006
SINUSITE
Uma idosa cigana está à entrada das urgências de São José, inteiramente vestida de preto, saia rodada que lhe cobre os pés, camisa de manga comprida, um lenço à cabeça que apenas lhe mostra o rosto, com um inalador branco espetado numa das narinas.
RETOMANDO O SERVIÇO NORMAL
Já há outra vez comentários. Infelizmente, tudo o que ficou para trás perdeu-se — mas, de qualquer maneira, essa foi uma das razões pelas quais mudei para o Blogger, já que o Haloscan apaga os comentários ao fim de um certo tempo.
17 de abril de 2006
PEDIMOS DESCULPA PELA INTERRUPÇÃO
Pequeno problema com os comentários, resultante da mudança de sistema do Haloscan para o Blogger. Não se inquietem, eles voltam assim que eu resolver as questões técnicas.
A TERCEIRA IDADE MAIOR
Ontem, a RTP fazia grande alarde de uma reportagem que falava do desinteresse e do desprezo e dos maus tratos a que são votados os idosos pelas famílias modernas. Nada que me surpreenda, face àquilo que conheço do desconfiado e mal-educado espírito portuguesinho que tanto me irrita. Mas, sem ter visto a reportagem, não consegui deixar de pensar na minha avó materna, a única que na verdade conheci, porque da minha avó paterna, que morreu era eu muito criança, não me recordo, e nunca conheci os meus avôs.
A minha avó materna, após a morte do marido, limitava-se a esperar a morte, sentada numa cadeira da cozinha da minha tia ou num cadeirão da sala. Não tenho ideia de que ela falasse muito. A minha tia tomava conta dela — fazia-lhe a comida, dava-lhe os medicamentos, sem que no entanto isso a impedisse de ter uma vida profissional. Levava-a quando ia de férias para o Algarve, uma vez ou outra pediu-nos que tomássemos conta dela durante alguns dias. A minha avó materna, até morrer, limitava-se a existir. Nunca percebi se tinha a ver com a doença de que sofria (creio que não) ou com aquele luso carácter mórbido de que António Nobre falava, mas sei que a minha mãe, mesmo sabendo que o enfarte que teve há um ano lhe limita um pouco as tarefas que pode fazer, está a ir pelo mesmo caminho.
A verdade é que me debato muitas vezes com as questões do "ser bom filho/mau filho". Na reportagem que a Time dedicou há algumas semanas à moderna sociedade italiana, creio que era um sociólogo que comentava que em Itália há muitos pais que ainda esperam que os filhos abdiquem da sua vida pessoal para tomarem conta deles na sua velhice, mas que isso era também uma situação profundamente injusta para um filho que se vê assim privado de uma "vida normal" (seja lá isso o que fôr). Claro que não haveria comédia italiana (nem Almodóvar) sem essas famílias opressivas e opressoras. Mas querer ter uma vida pessoal é ser mau filho? Ter a consciência de que por vezes é mais apropriado entregar os nossos pais nas mãos de alguém que sabe cuidar de idosos melhor do que nós e que pode ajudá-los 24 horas por dia, tentar de algum modo melhorar a qualidade de vida deles do que se tomássemos nós conta deles é ser mau filho?
A verdade, mesmo, é que não há respostas fáceis para este tipo de perguntas. Por mim, confesso que gostava que as pessoas não se escondessem atrás de desculpas, mas isso talvez seja pedir demais.
A minha avó materna, após a morte do marido, limitava-se a esperar a morte, sentada numa cadeira da cozinha da minha tia ou num cadeirão da sala. Não tenho ideia de que ela falasse muito. A minha tia tomava conta dela — fazia-lhe a comida, dava-lhe os medicamentos, sem que no entanto isso a impedisse de ter uma vida profissional. Levava-a quando ia de férias para o Algarve, uma vez ou outra pediu-nos que tomássemos conta dela durante alguns dias. A minha avó materna, até morrer, limitava-se a existir. Nunca percebi se tinha a ver com a doença de que sofria (creio que não) ou com aquele luso carácter mórbido de que António Nobre falava, mas sei que a minha mãe, mesmo sabendo que o enfarte que teve há um ano lhe limita um pouco as tarefas que pode fazer, está a ir pelo mesmo caminho.
A verdade é que me debato muitas vezes com as questões do "ser bom filho/mau filho". Na reportagem que a Time dedicou há algumas semanas à moderna sociedade italiana, creio que era um sociólogo que comentava que em Itália há muitos pais que ainda esperam que os filhos abdiquem da sua vida pessoal para tomarem conta deles na sua velhice, mas que isso era também uma situação profundamente injusta para um filho que se vê assim privado de uma "vida normal" (seja lá isso o que fôr). Claro que não haveria comédia italiana (nem Almodóvar) sem essas famílias opressivas e opressoras. Mas querer ter uma vida pessoal é ser mau filho? Ter a consciência de que por vezes é mais apropriado entregar os nossos pais nas mãos de alguém que sabe cuidar de idosos melhor do que nós e que pode ajudá-los 24 horas por dia, tentar de algum modo melhorar a qualidade de vida deles do que se tomássemos nós conta deles é ser mau filho?
A verdade, mesmo, é que não há respostas fáceis para este tipo de perguntas. Por mim, confesso que gostava que as pessoas não se escondessem atrás de desculpas, mas isso talvez seja pedir demais.
16 de abril de 2006
14 de abril de 2006
MORANGOS COM AÇÚCAR
Não são as teenagers inconscientes cujos telemóveis passam a vida a apitar em altos berros com mensagens recebidas durante um jantar inteiro que me incomodam mais (embora me incomodem imenso). São os pais das teenagers inconscientes que não as ensinam a boa educação mínima e as deixam continuar neste egoísmo onanista de quem se está literalmente a borrifar para o vizinho do lado desde que a mesada dê para carregar o telemóvel para trocar inanidades com os amigos/amigas. Digamos que um par de tabefes bem aplicados não seriam mal vistos. Ainda por cima parece que os tribunais até defendem a prática.
13 de abril de 2006
CANTA-ME UM FADO
No átrio da estação do Campo Pequeno, um senhor de aspecto perfeitamente normal, como quem vem ou vai do emprego, canta em voz alta um faduncho como se fosse a coisa mais normal do mundo cantar um fado em voz alta num átrio de uma estação de metro, alheio aos transeuntes (que, eles próprios, fingem alhear-se, como se cantar um faduncho em voz alta fosse a coisa mais normal do mundo), enquanto se dirige para as bilheteiras.
12 de abril de 2006
EM CASA DE FERREIRO ESPETO DE PAU
A minha amiga Isabel já disse por várias vezes que, fosse ela mais nova, já tinha emigrado daqui para fora, de preferência para um país onde tivesse hipótese de fazer aquilo que em Portugal não consegue, que é trabalhar para si conseguindo ir economizando uns trocos.
Só que, depois, uma pessoa começa a pensar para onde raio ia. Uma pessoa olha para França, e vê a tristeza que é ver o imenso poder reivindicativo dos franceses a manifestar-se na rua a favor da manutenção do status quo e contra um contrato de trabalho que não afectaria em nada a maior parte dos manifestantes, que já têm o seu empregozinho garantido e inatacável (tipo função pública, mesmo). Depois olha para Itália, e vê o trafulha do Berlusconi a tentar agarrar-se desesperadamente ao poder e contestar a vitória democrática da sua concorrência, num resultado que só me recorda a célebre contestada eleição de George W. Bush para presidente americano. Depois olha para os americanos, e vê o sururu que se está a gerar por causa das novas leis de imigração que uns querem passar e outros contestam. E um gajo começa a pensar: sim, está bem, aqui não se vai a lado nenhum, mas será que nos outros sítios se vai realmente onde aqui não se consegue ir?
Só que, depois, uma pessoa começa a pensar para onde raio ia. Uma pessoa olha para França, e vê a tristeza que é ver o imenso poder reivindicativo dos franceses a manifestar-se na rua a favor da manutenção do status quo e contra um contrato de trabalho que não afectaria em nada a maior parte dos manifestantes, que já têm o seu empregozinho garantido e inatacável (tipo função pública, mesmo). Depois olha para Itália, e vê o trafulha do Berlusconi a tentar agarrar-se desesperadamente ao poder e contestar a vitória democrática da sua concorrência, num resultado que só me recorda a célebre contestada eleição de George W. Bush para presidente americano. Depois olha para os americanos, e vê o sururu que se está a gerar por causa das novas leis de imigração que uns querem passar e outros contestam. E um gajo começa a pensar: sim, está bem, aqui não se vai a lado nenhum, mas será que nos outros sítios se vai realmente onde aqui não se consegue ir?
CONVERSAS DE CAFÉ
Aqueles que dizem, nos cafés de Lisboa, que Portugal está "entregue à bicharada" seriam os primeiros a entregar Portugal à bicharada se lhes coubesse a eles tomarem uma decisão sobre o caminho a seguir daqui para a frente.
11 de abril de 2006
A BEM DIZER
É engraçado, há alturas em que me apetece imenso vir aqui escrever coisas mas depois não sei bem o quê. Nem é como se faltasse assunto.
9 de abril de 2006
CONFIDÊNCIAS
Era só para dizer que estes gajos estão cada vez melhores e que é uma pena que ninguém lhes preste a atenção merecida. Aquela reinvenção de "Woman" em soul de Memphis pura e o travo de Americana clássica que as canções estão a ganhar ao vivo são a prova.
MÃE HÁ SÓ UMA (post críptico #1)
Depois de uma conversa que tivemos em que eu comparei a minha mãe à formidável matriarca dos "Sopranos", a Cristina costuma dizer que não consegue ver um episódio da série sem se lembrar dela.
A minha mãe insiste em considerar-se uma mãe como qualquer outra, matriarca de uma família como qualquer outra. Eu tenho sérias dúvidas sobre a "normalidade" maternal e familiar, em primeiro lugar porque não existem famílias "normais" (e, por arrastamento, não existem mães, ou pais, ou irmãos "normais"), em segundo lugar porque mesmo não existindo "normalidade" familiar, eu tenho a impressão que a minha família está uns quantos furos ao lado dessa não-"normalidade"... Confusos? Provavelmente eu também. A constatação, no entanto, resume-se ao facto de eu ter a certeza de que a minha família parou no tempo algures nos anos 60 e continua a viver de acordo com um mundo que já deixou de existir há muito. O que, claro, explica muitas coisas, a menor das quais não são com certeza as minhas crispações.
A minha mãe insiste em considerar-se uma mãe como qualquer outra, matriarca de uma família como qualquer outra. Eu tenho sérias dúvidas sobre a "normalidade" maternal e familiar, em primeiro lugar porque não existem famílias "normais" (e, por arrastamento, não existem mães, ou pais, ou irmãos "normais"), em segundo lugar porque mesmo não existindo "normalidade" familiar, eu tenho a impressão que a minha família está uns quantos furos ao lado dessa não-"normalidade"... Confusos? Provavelmente eu também. A constatação, no entanto, resume-se ao facto de eu ter a certeza de que a minha família parou no tempo algures nos anos 60 e continua a viver de acordo com um mundo que já deixou de existir há muito. O que, claro, explica muitas coisas, a menor das quais não são com certeza as minhas crispações.
6 de abril de 2006
OLHA QUE COISA MAIS LINDA MAIS CHEIA DE GRAÇA
Os gatos estão a apanhar o sol possível em cima do telhado da arrecadação que se vê da janela do meu quarto. Uma gata passa, a miar, espreguiçando-se como se não estivesse ali mais ninguém, mas não pára; atravessa o telhado devagarinho até desaparecer no prédio ao lado. Os gatos não param de olhar para ela, mesmo depois de ela deixar de se ver; seguem-na com o olhar como Vinicius deve ter seguido a garota na esplanada de Ipanema.
Claro que é sempre possível que a gata fosse um gato. Ou que os gatos fossem gatas. Ou que fossem todos gatos. Ou todos gatas.
Claro que é sempre possível que a gata fosse um gato. Ou que os gatos fossem gatas. Ou que fossem todos gatos. Ou todos gatas.
5 de abril de 2006
MACINTOSH
Há uma porrada de anos que tinha ali o meu velhinho Macintosh Performa Power PC (com gaveta para CD-ROM e ainda slot para disquete, coisa que a Apple descontinuou já na geração seguinte de Macs) para um canto do quarto das arrumações. Avariado desde que, em 1999, de repente se começou a recusar a abrir ficheiros, alegando um erro qualquer que, basicamente, segundo me foi explicado na altura, equivalia ao disco rígido estar a dar o berro sem grande solução possível — que o mesmo é dizer, sem valor comercial e condenado a apanhar pó na arrecadação até a sucata chamar por ele. Dois iMacs depois, o Luís coleccionador soube do Performa e veio cá buscá-lo para juntar à sua colecção de "vintage Macs". A reciclagem é uma coisa tão linda.
4 de abril de 2006
ILUMINAÇÃO
"What I had to work at, Mike already had in his genes, in his genetic makeup. Before he was even born, this music had to be in his blood. Nobody could just learn this stuff, and it dawned on me that I might have to change my inner thought patterns... that I would have to start believing in possibilities that I wouldn't have allowed before, that I had been closing my creativity down to a very narrow, controllable scale... that things had become too familiar and I might have to disorientate myself.
I knew I was doing things right, was on the right road, was getting all the knowledge immediately and firsthand — memorizing words and melodies and changes, but now I saw that it could take me the rest of my life to make practical use of that knowledge and Mike didn't have to do that. He was just right there. He was too good and you can't be «too good», not in this world, anyway. In order to be as good as that, you'd just about have to be him, and nobody else. Folk songs are evasive — the truth about life, and life is more or less a lie, but then again that's exactly the way we want it to be. We wouldn't be comfortable with it any other way."
— Bob Dylan, in "Chronicles volume 1" (New York: Simon & Schuster, 2005)
I knew I was doing things right, was on the right road, was getting all the knowledge immediately and firsthand — memorizing words and melodies and changes, but now I saw that it could take me the rest of my life to make practical use of that knowledge and Mike didn't have to do that. He was just right there. He was too good and you can't be «too good», not in this world, anyway. In order to be as good as that, you'd just about have to be him, and nobody else. Folk songs are evasive — the truth about life, and life is more or less a lie, but then again that's exactly the way we want it to be. We wouldn't be comfortable with it any other way."
— Bob Dylan, in "Chronicles volume 1" (New York: Simon & Schuster, 2005)
3 de abril de 2006
MAU COMO AS COBRAS
Samuel L. Jackson é o actor mais "cool" do planeta. É um facto incontestável, mesmo sabendo que o rapaz tem a sua quota-parte de filmes da treta. Por isso é que vê-lo num filme chamado Snakes on a Plane (que há de estrear lá para o fim do ano) não deixa de criar estranheza. Mas ele defende-se lindamente, como nesta entrevista a Fred Schruers, da Première americana (edição de Março de 2006):
"They had already changed the title [from Snakes on a Plane to Pacific Air Flight 121] when I got to Canada to start shooting. I let it go for a while. Then one day all the producers were standing there, and I'm saying, «So are you seriously going to leave this name like this?» And they're going, «Yeah, we don't want to give too much away to the audience.» I'm like, «Yeah you do. That's the way you get them in here. Nobody wants to see Pacific Air Flight 121. People want to see Snakes on a Plane. When I picked up the script and I saw the title, I didn't even read it and I said, «I want to do it.» You know, before I opened the first page, Snakes on a Plane. If this is what I think it is, I want to be in this. I want to be on a plane full of poisonous snakes. And I want to see other people on a plane full of poisonous snakes. You say Snakes on a Plane, people who don't like snakes are intrigued. The people who don't like to fly are intrigued. The people who don't like both are totally terrified now. People who just like seeing mayhem are ready for that. They want to see, you know, people enclosed in a big tin tube getting attacked by poisonous snakes. Come on! What could be more exciting than that, you know? What do you do? What do you do until the plane lands? Come on, Snakes on a Plane, that's the title."
"They had already changed the title [from Snakes on a Plane to Pacific Air Flight 121] when I got to Canada to start shooting. I let it go for a while. Then one day all the producers were standing there, and I'm saying, «So are you seriously going to leave this name like this?» And they're going, «Yeah, we don't want to give too much away to the audience.» I'm like, «Yeah you do. That's the way you get them in here. Nobody wants to see Pacific Air Flight 121. People want to see Snakes on a Plane. When I picked up the script and I saw the title, I didn't even read it and I said, «I want to do it.» You know, before I opened the first page, Snakes on a Plane. If this is what I think it is, I want to be in this. I want to be on a plane full of poisonous snakes. And I want to see other people on a plane full of poisonous snakes. You say Snakes on a Plane, people who don't like snakes are intrigued. The people who don't like to fly are intrigued. The people who don't like both are totally terrified now. People who just like seeing mayhem are ready for that. They want to see, you know, people enclosed in a big tin tube getting attacked by poisonous snakes. Come on! What could be more exciting than that, you know? What do you do? What do you do until the plane lands? Come on, Snakes on a Plane, that's the title."
GUEIXAS DESESPERADAS
Leslie Felperin, és o meu herói/minha heroína (confesso que só pelo nome não consigo distinguir o sexo). Ora leiam o que o/a crítico/a da revista britânica Sight & Sound diz na sua edição de Fevereiro de 2006 a propósito de Memórias de uma Gueixa, de Rob Marshall:
"(...) this overblown, curiously coy kimono-ripper ought to prove lush and banal enough to please middlebrow imaginations worldwide as well as aficionados of the ineffably camp. (...) Certainly, the scene in which Gong Li's villainess Hatsumomo bitch-slaps Ziyi Zhang's simpering heroine Sayuri in a flaming geisha house (...) rivals the Crawford-Davis cat fight in What Ever Happened to Baby Jane? for sheer lurid, girl-on-girl fun. Arthouse-inclined gossip hounds might get an extra thrill out of speculating about the actresses' off-screen rivalry given that Zhang seemed to replace Gong as Chinese director Zhang Yimou's favourite star a few years back. Gay and gay-friendly viewers can only pray there will be a spin-off TV series soon, perhaps called Desperate Geishas."
"(...) this overblown, curiously coy kimono-ripper ought to prove lush and banal enough to please middlebrow imaginations worldwide as well as aficionados of the ineffably camp. (...) Certainly, the scene in which Gong Li's villainess Hatsumomo bitch-slaps Ziyi Zhang's simpering heroine Sayuri in a flaming geisha house (...) rivals the Crawford-Davis cat fight in What Ever Happened to Baby Jane? for sheer lurid, girl-on-girl fun. Arthouse-inclined gossip hounds might get an extra thrill out of speculating about the actresses' off-screen rivalry given that Zhang seemed to replace Gong as Chinese director Zhang Yimou's favourite star a few years back. Gay and gay-friendly viewers can only pray there will be a spin-off TV series soon, perhaps called Desperate Geishas."
2 de abril de 2006
BLAST FROM THE PAST
É um Volkswagen Golf dos primeiros modelos, dos anos 70, velho, com ferrugem junto aos pára-lamas e uma matrícula das antigas, pré-"modelo europeu", letras em relevo branco sobre fundo preto. Parece carro que acabou de sair da garagem após anos sem andar. Desce devagar a rua Tomás Ribeiro, com uma senhora dos seus 60 anos, de porte impecável, cabelo em permanente, maquilhada, sozinha no carro, a guiá-lo como se fosse o único carro na rua, apesar de haver outros a quem a sua marcha lenta atrasa. A senhora também parece que acabou de recomeçar a guiar após muito tempo sem o fazer.
1 de abril de 2006
BLAME CANADA
Esta questão dos emigrantes portugueses ilegais deportados do Canadá, com reportagens da chegada dos emigrantes destroçados a Pedras Rubras, Portela ou Açores, parece-me muito portuguesa. Na medida em que as mesmas pessoas que se insurgem contra o tratamento que o governo canadiano está a dar aos emigrantes portugueses deportando-os por não estarem legais são, muito provavelmente, os mesmos que noutras circunstâncias exigiram a expulsão dos imigrantes ilegais, de qualquer nacionalidade, que se encontram em Portugal exactamente nas mesmas condições em que os portugueses estavam no Canadá. Embora eu desconfie que a burocracia portuguesa é um bocadinho pior do que qualquer outra burocracia.
29 de março de 2006
PRAGMATISMO
"We came, we saw, we wasted a year of our lives. At least we got the fuckers to vote"
— grafitti rabiscado por um soldado americano numa casa de banho de uma base americana no Iraque, citado na Economist desta semana
— grafitti rabiscado por um soldado americano numa casa de banho de uma base americana no Iraque, citado na Economist desta semana
28 de março de 2006
TRÂNSITO
Um jogo europeu do Benfica é a única coisa que consegue entupir o trânsito de Lisboa mais do que um dia de trovoada chuva intensa.
27 de março de 2006
OUTRAS VIDAS
Acho que foi o Alexandre que em tempos falou das suas "outras vidas". Quando olho para trás e para tudo aquilo que já fiz nos meus 38 anos — que foi muito ou pouco segundo os pontos de vista — não consigo evitar sentir que muito desse muito/pouco pertence a "outra vida" que fez de mim aquilo que sou mas já pouco tem a ver com quem sou hoje. Muitas vezes, nem consigo reconciliar esse meu "ontem" com o meu "hoje"; é como se fôssemos pessoas diferentes. Mas é espantoso como, na realidade, não somos. Como sobra sempre algo desse passado para ajudar a moldar quem passámos a ser.
25 de março de 2006
ENID BLYTON
A menina Alice fala dos Cinco. Eu era mais o Clube dos Sete — lido na íntegra nas edições cartonadas com as ilustrações originais que herdei dos meus irmãos mais velhos. Quando saí de casa dos meus pais, trouxe-os comigo. Estão ali, fechadinhos numa caixa de arquivo, para quando me apetece lá voltar. Os Cinco li-os só depois, mas nunca achei tanta graça (porque os Cinco eram só Quatro, que eu nunca contei com o cão, e porque a série televisiva que vi nos anos 70 não tinha nada a ver com a ideia que eu me fazia das personagens).
OUTROS TEMPOS
Título de um livro visto hoje nas bancas de alfarrabistas do Chiado: "Organização Social e Económica dos Bijagós".
24 de março de 2006
38 + 1 (a ressaca do urso)
Qualquer coisa que seja menos de seis horas de sono deixa-me completamente zombie no dia a seguir. Pior ainda é deitar-me às tantas e saber que no dia a seguir vou ter de me levantar mais cedo do que me é habitual — na véspera de partir para Berlim, nem quatro horas dormi (adormeci às quatro da manhã para me levantar às sete e meia) porque, claro, o sistema funciona logo para não termos sono quando mais precisamos dele. Exactamente a mesma coisa de ontem: hoje tinha de me levantar às oito sem falta, e ontem às duas e meia da manhã ainda estava a pé e com a espertina toda. Claro que, hoje, passei o dia a rastejar pelos cantos. E claro que há muito boa gente que vive muito bem com seis horas de sono por dia (e o professor Marcelo diz que só dorme quatro, o que me deixa completamente escandalizado e automaticamente doente). Mas eu não. Deve ser alguma coisa de metabolismo de urso: seis-sete horas sossegadas é do que eu preciso. (E também não consigo hibernar. Nem fazer sonecas à tarde — acordo mal-disposto e a rosnar.)
23 de março de 2006
CAFÉ E TORRADAS
Adoro uma fatia de pão de forma fresco acabada de sair da torradeira, quente e estaladiça; adoro pegar na faca, barrar o mínimo essencial de manteiga e vê-la derreter-se lentamente, colorindo de humidade a fatia ainda morna. Gosto menos das torradas grossas das cafetarias, porque cortam sempre a fatia muito grossa, mas em contrapartida deixo sempre para o fim as tiras do meio onde a manteiga humedeceu completamente o pão.
(Esclareço desde já que em casa uso Becel. O efeito gustativo é o mesmo.)
(Esclareço desde já que em casa uso Becel. O efeito gustativo é o mesmo.)
22 de março de 2006
O LIVRO DE CABECEIRA
Gosto deste livro porque me devolve a infância perfeita que sei que não tive. É o meu novo livro de cabeceira.
"When Pooh saw what it was, he nearly fell down, he was so pleased. It was a Special Pencil Case. There were pencils in it marked "B" for Bear, and pencils marked "HB" for Helping Bear, and pencils marked "BB" for Brave Bear. There was a knife for sharpening the pencils, and india-rubber for rubbing out anything you had spelt wrong, and a ruler for ruling lines for the words to walk on, and inches marked on the ruler in case you wanted to know how many inches anything was, and Blue Pencils and Red Pencils and Green Pencils for saying special things in blue and red and green. And all these lovely things were in little pockets of their own in a Special Case which shut with a click when you clicked it. And they were all for Pooh.
"Oh!" said Pooh.
"Oh, Pooh!" said everybody else except Eeyore.
"Thank-you", growled Pooh.
But Eeyore was saying to himself, "This writing business. Pencils and what-not. Over-rated, if you ask me. Silly stuff. Nothing in it."
— A. A. Milne, "Winnie the Pooh" (1926)
"When Pooh saw what it was, he nearly fell down, he was so pleased. It was a Special Pencil Case. There were pencils in it marked "B" for Bear, and pencils marked "HB" for Helping Bear, and pencils marked "BB" for Brave Bear. There was a knife for sharpening the pencils, and india-rubber for rubbing out anything you had spelt wrong, and a ruler for ruling lines for the words to walk on, and inches marked on the ruler in case you wanted to know how many inches anything was, and Blue Pencils and Red Pencils and Green Pencils for saying special things in blue and red and green. And all these lovely things were in little pockets of their own in a Special Case which shut with a click when you clicked it. And they were all for Pooh.
"Oh!" said Pooh.
"Oh, Pooh!" said everybody else except Eeyore.
"Thank-you", growled Pooh.
But Eeyore was saying to himself, "This writing business. Pencils and what-not. Over-rated, if you ask me. Silly stuff. Nothing in it."
— A. A. Milne, "Winnie the Pooh" (1926)
CARÊNCIAS EFECTIVAS
Juro-vos que acabei de olhar para o meu rato e onde está a palavra "mouse" li "mousse".
21 de março de 2006
JANTAR DE FAMÍLIA
A criancinha brinca ao lado da mesa enquanto a família vê o jogo do Sporting no écrã de plasma do restaurante. Um pouco mais à frente, os pais, que parecem ainda muito jovens (ele de cabelo com gel e T-shirt branca justa, ela de cabelo louro penteado à moda e roupa também de moda), começarão a trautear o tema do "D'Artacão e os Três Moscãoteiros", antes de o porem a tocar no seu telemóvel topo de gama com música, enquanto os avós tiram fotografias, não sei se com telemóveis se com câmara digital, o flash a ricochetear pela parede de espelhos e vidros do restaurante.
19 de março de 2006
A ETIQUETA DE COMER UM CROISSANT
(Estou a falar de um croissant a sério. Com massa folhada verdadeira. Sem recheios de espécie nenhuma. Não estou a falar daquelas anémicas invenções industriais que alguns cafés insistem em fazer passar por croissants mas que têm tanto a ver com o verdadeiro croissant de massa folhada como o sucedâneo de chocolate da viúva Solano com o chocolate negro a 70% de cacau.)
1. Morder as pontas.
2. Tirar a "folha" de cima que "fecha" a meia-lua do croissant e comê-la devagarinho.
3. Ir desfazendo a parte de baixo, mais bem cozida, e comê-la devagarinho.
4. Ir desenrolando a "folha" da meia-lua, e ir comendo devagarinho até apenas restar o centro suave e mal cozido do bolo.
5. Comer com requintes de luxúria o centro suave e mal cozido do croissant.
6. Arvorar um enorme sorriso de orelha a orelha durante o resto da manhã.
1. Morder as pontas.
2. Tirar a "folha" de cima que "fecha" a meia-lua do croissant e comê-la devagarinho.
3. Ir desfazendo a parte de baixo, mais bem cozida, e comê-la devagarinho.
4. Ir desenrolando a "folha" da meia-lua, e ir comendo devagarinho até apenas restar o centro suave e mal cozido do bolo.
5. Comer com requintes de luxúria o centro suave e mal cozido do croissant.
6. Arvorar um enorme sorriso de orelha a orelha durante o resto da manhã.
18 de março de 2006
A PRIMEIRA VEZ
Já tinha ouvido falar das birras colossais de Keith Jarrett nos seus concertos de piano solo, mas nunca tinha ouvido nada dele até ter ido ver o Querido Diário de Nanni Moretti e ter apanhado com aquele excerto do Concerto de Colónia em fundo da meditação sobre Pasolini. Não muito depois, comprei o álbum (The Köln Concert, ECM 1975) e, ouvindo-o outra vez esta tarde de sábado, entre uma passagem pelo supermercado e uma visita à família, percebo porque é que continuo a gostar tanto.
16 de março de 2006
AS CRIANÇAS HOJE EM DIA CRESCEM TÃO DEPRESSA
A mãe trintona com ar de tia lisboeta que não tem nada de mais interessante para fazer do que andar a levar e trazer as crianças à e da escola ou ao e do ginásio chama a filha que está ao topo das escadas. "Catarina! A menina despache-se que estamos a ficar atrasadas!".
Ao topo das escadas, a filha com coisa de quatro anos começa a descer devagarinho os degraus demasiado grandes para ela agarrada o melhor que pode ao corrimão.
Ao topo das escadas, a filha com coisa de quatro anos começa a descer devagarinho os degraus demasiado grandes para ela agarrada o melhor que pode ao corrimão.
14 de março de 2006
O NOME
No outro dia, fui atendido numa loja de sanduíches por uma empregada brasileira que se chamava Silvineide. Eu juro que não estou a inventar.
13 de março de 2006
I LEFT MY HEART IN ...
Há canções de embalar que dizem tudo o que me vai cá dentro. Não a ouvia há três anos. Mas hoje faz todo o sentido.
when the heart of the Hundred Acre Wood is beating
and time is passing through
there's a shadow looking like a rainbow's halo
and there I'm resembling you
more than fame
a name on a tree
more than power or might
sweeter than the treats of a honey bee
I'll be here through the night
it's comforting to know
silent as the moon at dawn
soothing as a bed filled with hay
strong as a hero in the land of old
I'll be there through the day
it's comforting to know
grayer than gloom on a rainy afternoon
sadder than being sorry for me
finer than finding my tail again
I'll be here for all of thee
it's comforting to know
you only get a few good friends in this life
who are devoted and true
and right here in this now and near
it's clear that it's all of you
I'll find you when you're hard to see
I'll look for you everywhere
you'll know just how I'm feeling when
I show you that I care
it's comforting to know.
— Carly Simon, "Comforting to Know" (in "Piglet's Big Movie", Walt Disney, 2003)
when the heart of the Hundred Acre Wood is beating
and time is passing through
there's a shadow looking like a rainbow's halo
and there I'm resembling you
more than fame
a name on a tree
more than power or might
sweeter than the treats of a honey bee
I'll be here through the night
it's comforting to know
silent as the moon at dawn
soothing as a bed filled with hay
strong as a hero in the land of old
I'll be there through the day
it's comforting to know
grayer than gloom on a rainy afternoon
sadder than being sorry for me
finer than finding my tail again
I'll be here for all of thee
it's comforting to know
you only get a few good friends in this life
who are devoted and true
and right here in this now and near
it's clear that it's all of you
I'll find you when you're hard to see
I'll look for you everywhere
you'll know just how I'm feeling when
I show you that I care
it's comforting to know.
— Carly Simon, "Comforting to Know" (in "Piglet's Big Movie", Walt Disney, 2003)
12 de março de 2006
AFORISMO
Há momentos em que mergulhar a fundo no trabalho para tentar esquecer apenas nos recorda mais.
10 de março de 2006
A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA #3
Depois desta refeição no Assuka (rua S. Sebastião da Pedreira, 150) com os experts Paulo e Lena, confesso-me absolutamente rendido às delícias da culinária japonesa. Com um suave chá verde a ferver na caneca, o paladar deslumbrou-se inicialmente com os delicados gyoza (ravioli salteado) e ebi shumai (ravioli de gamba no vapor), finas crostas de massa envolvendo uma gamba inteira que se mergulham levemente em molho de soja e mostarda picante. Mesmo para quem não gosta de sushi, dificilmente se resiste ao uramaki California (sushi de camarão, abacate e pepino) e, sobretudo, ao uramaki salmão skin (sushi de pele de salmão crocante e pepino), com a imprescindível mostarda verde wasabi a dissolver na soja e a sublinhar a delicadeza subtil da combinação de sabores. A fenomenal tempura (o misto de legumes era precioso, as gambas inteiras extraordinárias) e o sublime maguro tataki (sashimi de atum braseado) abrem novos mundos ao paladar. A comida japonesa pode ser um gosto adquirido, mas quando a comida é assim tão boa dá vontade adquiri-lo (e €27 por pessoa para a alarvidade que nós comemos até nem é estupidamente caro para os padrões estupidamente caros da comida japonesa, mesmo que seja preciso reservar mesa para o jantar, tão concorrido é o restaurante). Dominar os pauzinhos é que vai levar mais tempo.
9 de março de 2006
TOMADA DE POSSE
Às oito e meia da manhã estava já um helicóptero militar a pairar sobre a Assembleia da República e a zona de São Bento, e as sirenes dos batedores da polícia ouviam-se de cinco em cinco minutos a abrir alas para as personalidades convidadas para a tomada de posse do novo Presidente. Nunca pensei que um helicóptero fosse uma coisa tão barulhenta e incomodativa — os meus vizinhos devem ter tido uma manhã gira.
OLHÓ ESQUIMÓ FRESQUINHO
Fiquei hoje a saber que há quem considere as bolas de Berlim do Califa, essa instituição de Benfica, perfeitamente pornográficas (à imagem da porno-tikka masala do Natraj, do porno-cheesecake de framboesa da Cristina e do porno-gelado de canela do Ben & Jerry's).
Pois eu contraponho à porno-bola de Berlim do Califa o porno-esquimó do Califa. Se não sabem o que é, peçam e depois me digam.
(Não, não provei bolas de Berlim em Berlim, para quem quiser saber.)
Pois eu contraponho à porno-bola de Berlim do Califa o porno-esquimó do Califa. Se não sabem o que é, peçam e depois me digam.
(Não, não provei bolas de Berlim em Berlim, para quem quiser saber.)
8 de março de 2006
PEQUENA QUESTÃO EXISTENCIAL
Esta manhã, quando saia de casa, vi passar pela rua um Kia Picanto verde eléctrico. Nunca tinha visto um Kia Picanto até há duas semanas atrás e os dois que vi eram vermelho vivo e verde eléctrico. A pergunta é: será que há realmente gente que compra Kias Picanto desta cor, ou são aqueles carros que se dão nos concursos de televisão porque ninguém os compra?
7 de março de 2006
PARADOXOS
A minha amiga Cristina diz que nem sempre temos consciência de que estamos a esconder alguma coisa. Eu digo que nem sempre temos consciência do que estamos a mostrar.
6 de março de 2006
GAROTAS DO METRO
Não reparei onde é que a adolescente loura entrou na carruagem (não sei se no Campo Grande, se na Cidade Universitária ou se já vinha de Odivelas), mas reparei que a adolescente morena com auscultadores e um livro de código da estrada na mão entrou em Entre-Campos e sentou-se ao meu lado. Como era algo corpulenta, senti-a sentar-se e senti-me mais apertado. A adolescente loura, sentada no banco em frente, levanta-se para cumprimentá-la e durante os minutos seguintes conversam animadamente sobre o código e sobre as festas e sobre as muitas festas que têm planeadas, até que uma outra adolescente sentada ao lado da loura, que a passou a ignorar completamente, se levanta para sair e recebe um adeus descartado da loura, que pede logo a seguir à morena, que acabou de desligar o leitor de música, enrolar os auscultadores e guardá-lo na mala sem se desfazer do livro de código, que se venha sentar a seu lado.
5 de março de 2006
NÓS E OS OUTROS #6
"Do meu ponto de vista, esse filme [O Fim da Aventura, baseado no romance de Graham Greene] tratava de examinar o isolamento de um escritor, o ciúme com que um escritor observa o mundo, porque um escritor não vive realmente no mundo e tem ciúmes da textura da experiência da realidade. De certa maneira, os escritores escolheram uma vocação que é quase sacerdotal, onde a sua abordagem da sexualidade ou da emoção será sempre alvo do seu próprio exame, por isso eles invejam quem vive e quem sente."
— Neil Jordan (escritor e realizador de Jogo de Lágrimas, Entrevista com o Vampiro, Michael Collins ou Breakfast on Pluto) em entrevista a Geoffrey Macnab, na edição de Janeiro de 2006 da revista inglesa Sight & Sound
— Neil Jordan (escritor e realizador de Jogo de Lágrimas, Entrevista com o Vampiro, Michael Collins ou Breakfast on Pluto) em entrevista a Geoffrey Macnab, na edição de Janeiro de 2006 da revista inglesa Sight & Sound
4 de março de 2006
PASSAGEM DE PEÕES
O trânsito pára quando o sinal para os carros ameaça passar a vermelho — ou melhor, não pára, porque há dois carros que aceleram para passar com o amarelo. Um ainda passa com o amarelo, perante um agastado quarentão de bigode, que não resiste a soltar um cínico "e outro ainda! vá, passa lá!" quando o segundo já passa com o sinal vermelho. O senhor agastado pelo desrespeito dos condutores para com o sinal de trânsito atravessa em seguida a rua Alexandre Herculano com o sinal vermelho para os peões.
3 de março de 2006
MAE QUERIDA, MAE QUERIDA
Não há como os pais para, enquanto nos dizem que gostam muito de nós e que sempre fomos muito queridos, nos dizerem aquelas coisas que dão literalmente cabo de nós.
2 de março de 2006
LISBOA A PE
A caminho da minha consulta anual no oftalmologista, que fica na zona do Bairro das Colónias, perto da Igreja dos Anjos (e é curioso que só depois de eu ter saído do bairro onde nasci e cresci é que tenha mudado para um oftalmologista na minha antiga zona), dou por mim com tempo nas mãos depois do almoço e decido ir a pé da Praça de Londres. Sei que não levará mais de meia hora, é um trajecto que muitas vezes fiz a pé noutros tempos; quer apanhando a Almirante Reis no Areeiro, quer cortando pela Guerra Junqueiro.
Faz-me confusão ver o antigo cinema Império, onde passei parte significativa da minha adolescência, em melhor estado de conservação externo sob a Igreja Universal do Reino de Deus do que nos últimos anos da sua existência como cinema. A Almirante Reis parece-me mais degradada do que há 20 anos, mas a verdade é que lá continuam as intermináveis cervejarias, pastelarias, lojas de mobiliário, sucursais de bancos que me habituei a ver, e também os micro-centros-comerciais-galerias improvisados que surgiram em todos os recantos possíveis nos finais dos anos 70 e sobreviveram a muito custo. Passando à Praça do Chile, pergunto-me como estará o edifício pintado a verde do cinema Pathé, numa paralela à Almirante Reis, onde há muito não passo, mas continuo a descer a avenida e a sentir que, se calhar, a Almirante Reis entre a Alameda e os Anjos sempre foi assim e eu é que, habituado, não tinha dado por nada.
Faz-me confusão ver o antigo cinema Império, onde passei parte significativa da minha adolescência, em melhor estado de conservação externo sob a Igreja Universal do Reino de Deus do que nos últimos anos da sua existência como cinema. A Almirante Reis parece-me mais degradada do que há 20 anos, mas a verdade é que lá continuam as intermináveis cervejarias, pastelarias, lojas de mobiliário, sucursais de bancos que me habituei a ver, e também os micro-centros-comerciais-galerias improvisados que surgiram em todos os recantos possíveis nos finais dos anos 70 e sobreviveram a muito custo. Passando à Praça do Chile, pergunto-me como estará o edifício pintado a verde do cinema Pathé, numa paralela à Almirante Reis, onde há muito não passo, mas continuo a descer a avenida e a sentir que, se calhar, a Almirante Reis entre a Alameda e os Anjos sempre foi assim e eu é que, habituado, não tinha dado por nada.
1 de março de 2006
28 de fevereiro de 2006
O NINJA ATRAPALHADO
Em plena rua da Escola Politécnica, a mãe vira-se para trás e chama o filho que se deixou atrasar do grupo, a tentar voltar a prender à volta da cintura da fantasia de ninja a espada de plástico que caiu ao chão. Fossem os ninjas todos assim tão atrapalhados e duvido que as criancinhas quisessem andar fantasiadas de ninja.
GRAFFITI
Visto num andaime na rua Alexandre Herculano, escrito discretamente a marcador preto entre dois cartazes rasgados: "Tem cuidado sff"
27 de fevereiro de 2006
INTERROGAÇAO EXISTENCIAL
Quando os táxis eram pretos com as capotas verdes, não deixou de haver carros pretos. Desde que os táxis são creme, nunca mais se viram carros de cor creme.
26 de fevereiro de 2006
DIFERENÇAS CULTURAIS
Uma coisa que os meus amigos estrangeiros acham muito peculiar em mim é a minha predilecção, sobretudo de Inverno, por uma chávena de leite quente (só consigo bebê-lo frio de Verão). A presença do leite à mesa do pequeno-almoço limita-se ao bulezinho do "creamer", que o mesmo dizer, o leite ou substituto do leite para aclarar o café (de que o café berlinense do meu hotel bem precisava...). Ou então ao pacote de leite no frigorífico para juntar aos flocos — mas sempre frio. O meu leite quente é visto por quase todos os meus amigos estrangeiros como uma coisa horrível.
25 de fevereiro de 2006
PORNOGRAFIA GUSTATIVA
Ele já havia a porno-tikka masala do Natraj. Agora há o porno-cheesecake com bolacha esfarelada e molho de framboesa da Cristina.
24 de fevereiro de 2006
GELDAUTOMAT
Lembram-se quando eu me queixei de ter que pagar uma comissão de levantamento nos multibancos de São Francisco? Pois descobri que os meus levantamentos de dinheiro nos multibancos de Berlim (melhor: nos Geldautomaten, que é como os alemães dizem multibanco, do Deutsche Bank na Potsdamer Platz — que, ainda por cima, não dão talões) foram contabilizados como levantamentos a crédito, com uma taxa de €3,50 por cada levantamento de €50,00 e uma taxa de €5,00 num levantamento de €100,00. E, se acreditar na chamada de capa do Metro de hoje, os levantamentos nos nossos multibancos vão passar a ser pagos também.
23 de fevereiro de 2006
ZOO PALAST
É o outro cinema fora do enfiamento da Potsdamer Platz onde vi filmes no Festival de Berlim — fica mesmo ao lado da célebre "Zoo station" dos U2 (de seu verdadeiro nome Bahnhof Zoologischer Garten). Ao entrar na majestosa sala 1 (mil lugares, cheios a abarrotar quando lá fui), com a sua estrutura redonda, lembrei-me do Apolo 70 mas também do São Jorge, e das salas clássicas de Lisboa que hoje já quase não resistem. Gosto destas fachadas "cegas", antigas, deste estilo marcadamente anos 50, desta grandiosidade pensada para outras eras. Vejam-no aqui.
VOX POPULI
Ouvido na TSF, hoje, no noticiário das oito: uma vendedora do Bulhão acha que isto da gripe das aves é tudo fabricado para lixar os vendedores de frangos, porque dizem que só vai haver vacinas em 2007 e que a gripe chega a Portugal em 2006.
22 de fevereiro de 2006
KINO INTERNATIONAL
Fica na antiga Berlim Leste, na Karl-Marx-Allee, antiga avenida da "nomenklatura" no enfiamento da Alexanderplatz. Arquitecturalmente, é um cinema modelar de um certo modo de pensar as salas de cinema nos anos 50, com os foyers espaçosos de poltronas confortáveis, a decoração revestida a madeira, a sala em anfiteatro de grande dimensão. Vi lá um único filme deste Festival de Berlim, mas fiquei apaixonado pelo décor. Podem vê-lo aqui — e perceberão o meu encanto se fizerem a "3d tour" — mas conseguem ter uma melhor ideia da arquitectura aqui.
21 de fevereiro de 2006
HUMOR BERLINENSE
Há um bar, em Linienstraße 136 (metro U6 Oranienburger Tor), a poucos metros da galeria C/O Berlin onde está a excelente exposição de Annie Leibovitz, que dá pelo requintado nome de The Sharon Stonewall Bar.
POLAROID: METRO U2 ZOOLOGISCHER GARTEN-ALEXANDERPLATZ
Um polícia fardado, de mochila às costas e saco de desporto, entra comigo na carruagem de metro na estação de Zoologischer Garten. Espera até que todos se sentem na carruagem meio vazia e o comboio arranque para se sentar, boné na mão, mochila entre as pernas, saco de desporto na lateral do banco. Mastiga discretamente uma pastilha elástica, varrendo a carruagem com o olhar.
POR FALAR EM AEROPORTOS
Berlim pode ser a capital da Alemanha e ter três aeroportos, mas não há carreira regular directa Lisboa-Berlim.
20 de fevereiro de 2006
JET-LAG
É muito estranho aterrar de novo em Lisboa, depois de um mês de ausência (duas semanas de férias em São Francisco a oito horas de distância a menos, quase duas semanas de trabalho em Berlim a uma hora de distância a mais). A sensação primordial é de desfasamento, de desorientação; como se o supermercado onde me avio regularmente, de repente, fosse outro, como se as coisas tivessem mudado imperceptivelmente.
BERLIN TEGEL
Tegel, na orla do centro, é um dos três aeroportos que serve Berlim (os outros dois são Tempelhof, em pleno centro da cidade, e Schönefeld, a 20 km). E é um aeroporto curioso, porque não funciona pela lógica habitual do átrio central a partir do qual se acede às várias portas de embarque; funciona, ao contrário, como uma "península" ou um grupo de "ilhas" interligadas em que o passageiro pode aceder directamente ao seu portão de embarque sem passar por nenhum átrio central. À entrada do aeroporto, um enorme painel anuncia os portões dos vários vôos e basta apenas dirigir-se directamente ao certo para fazer o check-in e embarcar.
19 de fevereiro de 2006
PROGRAMA CULTURAL DE DOMINGO
Passeio do dia: a pé do hotel (Park Inn Berlin-Alexanderplatz) até à Karl-Marx-Allee para fotografar a fabulosa arquitectura do cinema International. Metro: U5 Schillingstraße de retorno a Alexanderplatz para apanhar a linha U8 para Kottbusser Tor, ligar com a U1 para Hallisches Tor e a U6 para Kochstraße, saindo junto à Haus am Checkpoint Charlie (fechada para obras), vendo o Checkpoint Charlie propriamente dito (nao há muito para ver, à excepcao dos vendedores de rua e da sua mercadoria de relíquias da Guerra Fria, que vao de gorros do Exército Vermelho até máscaras de gás russas) e fazendo a Friedrichstraße a pé até Unter den Linden. Aqui, apanho o autocarro 100, que faz o "percurso turístico" (felizmente sem guia) pelo centro de Berlim até ao Zoologischer Garten. Saio, tiro fotografias à fabulosa arquitectura do cinema Zoo Palast e à destruída Gedächtnis-Kirche, relíquia da II Guerra Mundial, e vou a pé até ao Bauhaus-Archiv perto da Kurfürstenstraße. É um edifício lindíssimo, mas a exposicao permanente é pobrezinha para os sete euros que pedem pela entrada. Volto a apanhar o 100 até à Brandenburger Tor, onde retorno a Friedrichstraße e atravesso o Spree para ir almocar a Oranienburger Straße. À saída, atravesso a Tucholskystraße para, na Linienstraße, ir à galeria C/O Berlin ver a magnífica exposicao de retratos de músicos americanos por Annie Leibovitz, "American Music", e meto-me no metro até Potsdamer Platz. Retorno ao "local do crime" onde passei a maior parte dos últimos dez dias em trabalho para ver aquilo que nao tive tempo de ver enquanto o Festival de Berlim decorreu: o extraordinário Berlin Film Museum, com uma arquitectura sumptuosa ocupando três pisos do edifício do Sony Center na Potsdamer Straße e um percurso de visita absolutamente deslumbrante na sua construcao multimedia. Porque, sim, os museus berlinenses estao abertos ao domingo, e têm muita gente.
DISTÂNCIA
Em Berlim, tudo fica mais perto do que parece, como percebi hoje no "dia livre" em que andei a passear pela cidade. É mais directo apanhar o autocarro 148 de Alexanderplatz para a Potsdamerstraße do que o metro (embora, em dia de semana, provavelmente leve um tudo nada mais de tempo). Dá para ir a pé da Alexanderplatz até à zona dos restaurantes em Mitte, Oranienburger Straße, ou apanhar o eléctrico M6, e leva menos tempo do que a volta que tem de se dar no metro (quatro paragens até Stadtmitte, trocar de linha e mais quatro paragens até Oranienburger Tor). Unter den Linden nao tem sequer paragem de metro (vai haver uma em Brandenburger Tor, mas está ainda em construcao) mas nao faz mal, porque há pelo menos duas paragens da linha U6 que nao ficam longe. Tudo isto, também, porque os transportes públicos dos rapazes funcionam - e funcionam mesmo, com aquela pontualidade que associamos habitualmente aos germânicos. É difícil uma pessoa perder-se no sistema de transportes berlinense desde que tenha apanhado as coordenadas básicas. Mas é um facto que também há gente para tudo.
HUMOR BERLINENSE
Lido num reclame à loja Berlin Kaufhaus, em Unter den Linden:
"Good girls go to heaven, bad girls go to Berlin, and the worst girls shop at Berlin Kaufhaus"
Curioso é o facto da Berlin Kaufhaus ser uma loja de souvenirs.
"Good girls go to heaven, bad girls go to Berlin, and the worst girls shop at Berlin Kaufhaus"
Curioso é o facto da Berlin Kaufhaus ser uma loja de souvenirs.
18 de fevereiro de 2006
O PÁSSARO NO METRO
Há um pombo a passear, como quem não quer a coisa, pelo cais da linha U2 da estação de metro de Alexanderplatz, às 8h15 da manhã de sábado.
U-BAHN
Os berlinenses lêem no metro. Muito. De manhã, em cada carruagem, quatro em cada cinco passageiros, indiferentemente da sua idade ou sexo, lêem um dos jornais diários como o Tagesspiegel ou o Berliner Zeitung (mais eles) ou um livro de bolso (mais elas). Os berlinenses andam muito de metro. No metro pode-se transportar a bicicleta, no metro come-se e bebe-se (à noite, é vê-los a ir ou a vir da "night" com as garrafas de cerveja, água ou refrigerante na mão). No metro, como não se está a guiar - e como diz um dos seus anúncios - , não há brigada de trânsito a pedir para soprar no balão.
Há televisão no metro, como em Lisboa - chama-se Berliner Fenster - mas não é bem como em Lisboa; em vez de ser nas estações, é nas carruagens, e em vez de ser essencialmente publicidade com notícias pelo meio, é notícias com serviço público e alguma publicidade pelo meio.
Há televisão no metro, como em Lisboa - chama-se Berliner Fenster - mas não é bem como em Lisboa; em vez de ser nas estações, é nas carruagens, e em vez de ser essencialmente publicidade com notícias pelo meio, é notícias com serviço público e alguma publicidade pelo meio.
14 de fevereiro de 2006
DIÁRIO DE BERLIM
07h00: despertador, duche, barba
07h30: pequeno-almoço no hotel
08h00: saída do hotel, direcção estação de metro Alexanderplatz com destino a Potsdamer Platz
08h30: chegada a Potsdamer Platz: passagem pelo centro de imprensa do Grand Hyatt e pelo centro de imprensa do Berlinale Palast para levantar o material do dia
09h00: primeira projecção obrigatória do dia no Berlinale Palast
11h00/11h30: "café mocha" e bolo no Starbucks
12h00/12h30: segunda projecção obrigatória do dia no Berlinale Palast
14h00/14h30: almoço apressado (um bagel, um hamburger, outra coisa rápida)
14h30/15h00: centro de imprensa para escrever os textos do dia
17h30: período livre até ao jantar, aproveitado geralmente para passear um bocadinho, conversar com amigos, voltar ao hotel para largar material
19h00: jantar, sozinho ou com pessoal amigo também em Berlim em trabalho, geralmente na zona de Potsdamer Platz
21h30: terceira projecção obrigatória do dia no CinemaxX Potsdamer Platz
23h30/24h00: regresso ao hotel em Alexanderplatz e queda na cama cheio de sono para seis/sete horas de sono
E assim fica explicado porque é que este blog tem andado um bocadinho deserto de novidades.
07h30: pequeno-almoço no hotel
08h00: saída do hotel, direcção estação de metro Alexanderplatz com destino a Potsdamer Platz
08h30: chegada a Potsdamer Platz: passagem pelo centro de imprensa do Grand Hyatt e pelo centro de imprensa do Berlinale Palast para levantar o material do dia
09h00: primeira projecção obrigatória do dia no Berlinale Palast
11h00/11h30: "café mocha" e bolo no Starbucks
12h00/12h30: segunda projecção obrigatória do dia no Berlinale Palast
14h00/14h30: almoço apressado (um bagel, um hamburger, outra coisa rápida)
14h30/15h00: centro de imprensa para escrever os textos do dia
17h30: período livre até ao jantar, aproveitado geralmente para passear um bocadinho, conversar com amigos, voltar ao hotel para largar material
19h00: jantar, sozinho ou com pessoal amigo também em Berlim em trabalho, geralmente na zona de Potsdamer Platz
21h30: terceira projecção obrigatória do dia no CinemaxX Potsdamer Platz
23h30/24h00: regresso ao hotel em Alexanderplatz e queda na cama cheio de sono para seis/sete horas de sono
E assim fica explicado porque é que este blog tem andado um bocadinho deserto de novidades.
12 de fevereiro de 2006
JAYWALKING V2.0 (correcção)
Afinal, há semáforos para peões em Berlim. Só que única e exclusivamente nos cruzamentos principais e mais complicados; o grosso das ruas não os têm de todo.
TURISMO METROPOLITANO
O metro berlinense é das poucas coisas que tenho realmente tido oportunidade de ver, nos vai-vens constantes entre o hotel numa Alexanderplatz em extensivas obras de renovação (parece o Porto durante a construção do metro, Lisboa durante as obras da Expo) e o centro nevrálgico do festival na Potsdamer Platz (a zona oriental depois da Expo, repleta de edifícios modernos, cromados, vistosos). Já conheço os cantos à Marlene-Dietrich-Platz, ao Theater am Potsdamer Platz reconvertido para a ocasião em Berlinale Palast, ao centro de imprensa no hotel Grand Hyatt, aos restaurantes da zona (que não são muitos nem muito interessantes), ao CinemaxX Potsdamer Platz, e entre projecções e textos (e os horários bizarros de refeições dos alemães, que almoçam a horas em que estou a ver filmes e jantam às seis da tarde uma coisinha leve, com o resultado de que às nove da noite estão os restaurantes a fechar), o tempo não tem sobrado para o resto. Berlim, ela própria, ainda me é bastante desconhecida. E tenho uma queixa a fazer à BVG, empresa que gere o metro: porque carga d'água é que, na estação de Zoologischer Garten, só se acede ao cais U2 direcção Pankow através de uma única saída, sem correspondência com o átrio central nem as outras saídas? Antes que eu o percebesse perdi ali 10 minutos à procura de um acesso que estava sinalizado mas, evidentemente, não existia.
A CIDADE DOS PLANTÍGRADOS
Berlim pulula com ursos. O urso é o símbolo da cidade, visível em alguns emblemas públicos e num sem-número de anúncios e cartazes - e é também o símbolo do Festival de Cinema de Berlim, que atribui anualmente o Urso de Ouro e cujo logotipo representa um urso peludo de pé. Espalhados por Berlim estão ursos coloridos recortados em tamanho real, perfeitos para os transeuntes fotografarem aproveitando o bom tempo, frio e seco, que hoje, finalmente, fez a sua aparição.
10 de fevereiro de 2006
MOEDA
É muito ágradável viajar para um país onde, partilhando a mesma moeda oficial, conseguimos ter a noção do que estamos a pagar por relação ao nosso próprio país. E para o qual não precisamos de ir ao banco trocar dinheiro nem estar sempre a fazer conversões mentais.
JAYWALKING
Uma das coisas mais surpreendentes em Berlim é a absoluta ausência de passadeiras de peões nas ruas. Toda a gente atravessa onde bem entender, mesmo em frente dos carros eléctricos se for preciso - confesso que, num país que é conhecido pela sua organização meticulosa, esta ausência me parece um tanto ou quanto fora de carácter.
AH COMO É BOM ASSIM ACORDAR
Acordar no 32º andar do Park Inn Berlin-Alexanderplatz e ver o topo da Fernsehturm primeiro invisível por entre o nevoeiro e, depois, a "bola" central coberta de neve, e depois olhar para os topos de todos os prédios, novos e velhos, da enorme praça da antiga Berlim Leste, e vê-los brancos com a neve que caiu durante a noite.
U BHF ALEXANDERPLATZ
Na estação antiga, as linhas U2, U5 e U8 cruzam-se em plataformas sobrepostas, como uma cruz que vai em direcções diferentes. Os comboios das linhas U5 e U8 são modernos, articulados, amarelos forte. Os comboios da linha U2 são mais antigos. Mas o som da voz que anuncia a próxima estação é exactamente igual ao que se ouve no metro de Lisboa. E os elevadores que fazem a ligação entre os dois pisos da estação e a superfície são tão lentos como os do metro de Lisboa.
9 de fevereiro de 2006
EFEITO DE ESTUFA
Ontem, chovia. Hoje de manhã, fazia sol. A meio da tarde, nevava. Agora, chove outra vez. O que vale é que continua um frio de rachar.
CADÊ O REVISOR?
Tanto falamos nós do sistema de bilhética do nosso metro que é uma surpresa chegar a Berlim e encontrar um metropolitano que, literalmente, confia nos seus passageiros: não há barreiras de espécie nenhuma, o passageiro compra o bilhete, valida-o numa máquina e acede ao cais sem atravessar nenhuma barreira ou encontrar nenhum controle. Claro que a coisa abre completamente o flanco aos penduras. Mas eles parecem não se importar muito com isso.
8 de fevereiro de 2006
U-BAHN
Acreditem ou não, a linha de metropolitano que apanho na Alexanderplatz para ir para a Berlinale, na Potzdamer Platz, a sete estações (antigas, patuscas, mais sobre isso noutra polaroid) de distância é a linha... U2. E, por acaso, passa pela estação do Jardim Zoológico (não vos diz nada?).
ICH BIN EIN BERLINER
Do meu quarto de hotel tenho uma vista magnífica sobre a Alexanderplatz iluminada de noite, com a Fernsehturm - a célebre torre de rádio e televisão - mesmo em frente. E as obras de renovação a continuarem mesmo à entrada do hotel.
6 de fevereiro de 2006
ENQUANTO ISSO, NO MUNDO REAL
Uma pessoa percebe que regressou a Portugal quando apanha nos noticiários declarações dos funcionários judiciais a justificarem a sua greve de zelo com os maus tratos por parte do governo e dos cidadãos indignados por a Segurança Social cobrar duas vezes as mesmas dívidas.
ETHEL! OUR PLANE IS LEAVING!
Uma pessoa percebe logo quando regressa a Portugal quando apanha, no vôo de Londres, um quarentão de poupa que, por baixo do blusão vermelho Benfica, traz um arrazoado de medalhas sobre uma T-shirt branca que diz à frente "PS Nazaré" e nas costas "Mudança Diferente com João Benavente", deixando ver no antebraço a tatuagem de coração trespassado por uma flecha desenhada a caneta de feltro com "São" escrito, e passa as duas horas a emborcar latas de cerveja. Laurie Anderson já o descrevera em "The Ugly One with the Jewels and Other Stories": é muito triste quando a nossa identidade nacional consegue ser resumida em meia-dúzia de características.
LISBOA
É curioso como, apesar do sol e do azul luminoso do céu que só Lisboa consegue ter, tudo me parece a preto e branco após duas semanas noutra cidade. E mais curioso ainda é perceber como as velhas rotinas se reencontram de modo quase atávico, intuitivo, automático, como lhes regressamos sem verdadeiramente dar por isso.
5 de fevereiro de 2006
O JARDIM DOS ESQUILOS
A última memória destas férias em São Francisco, apenas algumas horas antes de embarcar no vôo de regresso a Lisboa via Londres: uma visita ao Jardim Botânico situado no Golden Gate Park, um pequeno oásis de calma bem no meio do trânsito louco da zona do Presidio, mesmo à beirinha da via rápida que leva à ponte Golden Gate, que só aqui e ali se ouve por entre o verde, os patos, os pardais. Onde há um jardim zen japonês e pequenos trilhos de terra onde o visitante se pode deixar perder na certeza de que regressa sempre ao ponto de partida — e onde os esquilos pululam em quantidades assinaláveis à espera que algum visitante mais simpático lhes atire uma avelã ou uma noz que traga no bolso, chegando até ao limite desavergonhado de fazer pose para as câmaras fotográficas.
4 de fevereiro de 2006
CASA
Vazia e fria, depois de duas semanas noutra cidade. Por três dias apenas, antes de arrancar para Berlim, desta vez em trabalho.
3 de fevereiro de 2006
KYOTO
Se alguém que me estiver a ler passar por São Francisco até dia 26, faça a fineza de não perder a extraordinária exposição de arte japonesa produzida em Kyoto no século XVIII, "Traditions Unbound", patente no Museu de Arte Asiática (no antigo edifício da biblioteca municipal, na Larkin, mesmo à esquina da Market, em frente à grandiosa Câmara Municipal e ao lado da nova biblioteca pública municipal, que é um exemplo para qualquer cidade). São exemplares da milenar arte de pintar ~em painéis, biombos e pergaminhos requintadamente trabalhados, com tintas, caligrafia, folha de prata ou oura e pergaminho aplicados sobre luxuosos painéis de seda ou portas deslizantes de papel de arroz. Uma lição de delicadeza e elegância, mesmo a tempo do Ano Novo Chinês.
HONDA SHADOW SPIRIT
Há, evidentemente, muitas maneiras de se ver uma cidade, mas garanto-vos que uma das mais invulgares é vê-la como a tenho visto nos últimos dias, como passageiro de uma motocicleta. O que, numa cidade que é parcialmente plana (Mission, Market, SoMa, Financial District, Wharves) e a partir de uma certa zona uma sucessão de altos e baixos (Nob Hill, Chinatown, Russian Hill, Pacific Heights), tem o seu quê de aventura, mas também permite abarcar a verdadeira dimensão desta metrópole de quase um milhão de habitantes onde os arranha-céus se condensam no centro financeiro da baixa, deixando tudo o resto a casas ou edifícios de habitação que nunca ultrapassam os quatro andares. É isso que é agradável em São Francisco: fora da baixa, vê-se sempre o céu. Excepto, claro, quando chove.
ALGODÃO DOCE
Ver os bancos de nevoeiro a esvoaçarem sobre São Francisco como se fossem nuvens é algo de mágico: envolver o topo dos arranha-céus em fumo branco espesso, esconder as colinas do outro lado da baía de São Francisco por trás de uma cortina opaca, tintar de branco muito sujo a noite enluarada e translúcida. O David diz-me que esta coabitação de nevoeiro com sol luminoso é típica de São Francisco (e, de caminho, diz também que é "leather weather" perfeito). Gosto deste aspecto de algodáo doce que desce sobre a cidade.
2 de fevereiro de 2006
CONSUMISMO DESENFREADO
Recomendação aos bibliófilos de passagem: vale a pena dar um salto à livraria Aardvark Books, na esquina da Market com a Church, especializada em livros em segunda mão e restos de colecção a preços reduzidos. Como a arrumação está razoavelmente bem feita, dá para uma pessoa se perder à procura de coisas.
Já os mais estilistas podem babar-se com a loja da Apple (esquina da Stockton com a Market, em frente da Virgin e da Old Navy, mesmo à saída do metro da Powell), desenhada como se fosse um cubo cinzento com a maçã a abrir a branco difuso, e cujo interior é um prodígio de minimalismo funcional. Mesmo em frente fica a mais simpática e acolhedora das livrarias que visitei, a Cody's Books, cujo enorme piso subterrâneo mais parece uma biblioteca.
Já os mais estilistas podem babar-se com a loja da Apple (esquina da Stockton com a Market, em frente da Virgin e da Old Navy, mesmo à saída do metro da Powell), desenhada como se fosse um cubo cinzento com a maçã a abrir a branco difuso, e cujo interior é um prodígio de minimalismo funcional. Mesmo em frente fica a mais simpática e acolhedora das livrarias que visitei, a Cody's Books, cujo enorme piso subterrâneo mais parece uma biblioteca.
AZUL ESTRUMPFE
São Francisco está cheia de casas antigas de madeira, a que eles chamam "vitorianas" por razões mais ou menos evidentes, de fachada estreita e dois ou três andares - algumas estão repartidas em dois ou três apartamentos e muitas delas mantêm os esquemas de cor com que foram originalmente pintadas, ou foram repintadas com esquemas que respeitam essa estética. Uma dessas casas, na esquina da Market com a Duboce, onde está instalado um centro de informação e recursos dedicado à comunidade homossexual e transsexual, foi, contudo, inteiramente pintada a um azul forte e muito moderno que deixou os apreciadores da arquitectura clássica muito agastados, passando a denominar o dito edifício de "Smurf Center" - "Centro Estrumpfe" - porque o azul em questão é o mesmo da cor da pele dos Estrumpfes.
POR FALAR EM CARAVAGGIO
Há um "outdoor" delicioso que pulula pelos quiosques de venda de jornais de São Francisco, protestando contra o declínio da qualidade da educação escolar contemporânea (como podem ver, não é só no nosso cantinho à beira-mar plantado...). Por cima de um quadro de Caravaggio, escreve-se: "There isn't enough art in our schools. No wonder people think Caravaggio is a guy on The Sopranos."
SEMÁFOROS
Em São Francisco, os sinais de trânsito não são nada como os nossos. Os semáforos não estão localizados à entrada do cruzamento mas sim à saída, pelo que os condutores param antes de entrar no cruzamento; e é possível virar à direita num sinal vermelho se houver uma tabuleta a indicá-lo junto ao semáforo. As ruas estão identificadas em placas presas a postes em cada esquina, ou em inscrições gravadas no cimento das esquinas dos passeios. Quem conduz pode ver, antes de cada cruzamento, uma grande placa verde que indica qual a rua que se vai cortar a seguir.
BOA EDUCAÇÃO
Passeando pela baixa de São Francisco, também conhecida como Financial District pela profusão de bancos ali existentes, ouço uma sirene de nevoeiro que tanto pode ser um alarme de incêndio como um barco na baía como uma fábrica a chamar para o almoço. Surpreendida pelo meu desconhecimento, uma senhora que passa, cabelo louro platinado, puxando uma mala de viagem, diz-me com um sorriso "não se rale, é só a sirene do meio-dia de terça-feira".
1 de fevereiro de 2006
HIGIENE
Todas as casas de banho públicas em que entrei até hoje em São Francisco, de lojas, cinemas, restaurantes, o que se quiser, têm água quente corrente, papel higiénico e coberturas de sanita, sabão líquido e toalhas de papel com fartura.
TAMBÉM TU, BRUTUS
Há uma loja da Zara em São Francisco, na Post, junto ao "centro comercial ao ar livre" que é a praça Union Square, na distinta vizinhança da H&M, Macy's, Levi's, Nike, Disney, Borders...
STARBUCKS
É capaz de ser complicado explicar o conceito de um café "gourmet", mas digamos que o Starbucks é o que o Caffe di Roma gostava de ser, a um tempo café "continental" de luxo com ambição a tertúlia e café de esquina aberto a todos. Há, literalmente, um a cada esquina de São Francisco, sempre com um sem-número de mesinhas de madeira com cadeiras e um ambiente acolhedor e convivial com música suave a tocar. Os americanos tomam café às toneladas (às canecas e não às chávenas; para eles, a bica não existe, ou se existe chama-se "espresso" e é servido em copinhos de papel e custa o mesmo que um café normal, ou seja, é escandalosamente caro e geralmente não presta para nada) e portanto faz todo o sentido que haja uma casa de cafés como o Starbucks, que propõe cafés elaboradíssimos (eu também ainda não consegui perceber o que é um "cinnamon dolce latte", a não ser que é um café com leite que leva canela e sei lá mais o quê e não sabe nada mal) a preços que, para a bolsa deles, nem são especialmente caros (a média é $3, ou seja, €2.50 - em Londres o mesmo tamanho fica por £3, tirem as vossas conclusões).
(Claro que, depois, há os bolinhos para acompanhar. Isso complica um bocado as coisas.)
No entanto, é curioso como, das minhas visitas ao Starbucks do Castro (ao fundo da rua onde estou hospedado, igualmente conhecido por Bearbucks ou Starbears por razões plantígradas que não vêm aqui ao caso), ou mesmo a outros Starbucks pela cidade, se contam pelos dedos o número de pessoas que estão, efectivamente, ali com alguém. A maior parte traz o portátil, o jornal da manhã, um livro, e senta-se numa das mesinhas com o seu café (entregue num copo alto de cartão plastificado ou plástico cartonado, semelhante aos dos refrigerantes de "fast food", que permite beber por uma pequena abertura na tampa, impedindo que o café arrefeça ou se entorne) e o seu bolo (entregue num saquinho de papel pardo, tudo muito higiénico). Mas também há quem encontre ali amigos do bairro ou pessoal conhecido e fique na conversa à volta do cafézinho ou nas poucas e acanhadas mesinhas da esplanada. Esse espírito de bairro, contudo, existe mais no Starbucks do Castro no que noutros da cidade e tem tudo a ver com o sítio.
(Claro que, depois, há os bolinhos para acompanhar. Isso complica um bocado as coisas.)
No entanto, é curioso como, das minhas visitas ao Starbucks do Castro (ao fundo da rua onde estou hospedado, igualmente conhecido por Bearbucks ou Starbears por razões plantígradas que não vêm aqui ao caso), ou mesmo a outros Starbucks pela cidade, se contam pelos dedos o número de pessoas que estão, efectivamente, ali com alguém. A maior parte traz o portátil, o jornal da manhã, um livro, e senta-se numa das mesinhas com o seu café (entregue num copo alto de cartão plastificado ou plástico cartonado, semelhante aos dos refrigerantes de "fast food", que permite beber por uma pequena abertura na tampa, impedindo que o café arrefeça ou se entorne) e o seu bolo (entregue num saquinho de papel pardo, tudo muito higiénico). Mas também há quem encontre ali amigos do bairro ou pessoal conhecido e fique na conversa à volta do cafézinho ou nas poucas e acanhadas mesinhas da esplanada. Esse espírito de bairro, contudo, existe mais no Starbucks do Castro no que noutros da cidade e tem tudo a ver com o sítio.
31 de janeiro de 2006
PEQUENA MEDITAÇÃO
Quando estou de férias, tenho tendência a dormir menos do que em horário normal de trabalho. Isto é estranho porque a tendência seria para dormir mais.
ATM
As caixas multibanco americanas (conhecidas por ATM - "automatic teller machines") têm todas as funcionalidades das caixas multibanco portuguesas, com uma diferença importante. Onde o sistema português é, como o nome indica, uma rede "multi-banco" onde é indiferente se quem levanta dinheiro é ou não cliente do banco desde que pertença a um banco da rede, nos EUA a rede só é "multi-banco" em termos de funcionalidade. Cada banco opera as suas próprias caixas, e qualquer cliente de qualquer banco pode levantar dinheiro em qualquer caixa - mas, se levantar dinheiro numa caixa que não pertence ao seu banco, tem de pagar uma taxa de transacção (habitualmente de $1.50, pouco mais de €1), taxa que desaparece se for cliente do banco onde está a levantar dinheiro. Não sei se estão a ver o que isto pode significar para um banco e para a bolsa do consumidor médio.
30 de janeiro de 2006
PONTES
Toda a gente sabe que São Francisco tem a ponte Golden Gate, a "gémea" da nossa ponte 25 de Abril, vermelha e tudo, que faz a ligação da enorme península que é São Francisco com o resto do estado da Califórnia e, mais prosaicamente, com o condado (já suburbano) de Marin. Mas há uma outra ponte, uns quantos quilómetros mais abaixo, que é, se quiserem, o equivalente da nossa Vasco da Gama, inclusive no tamanho: a Bay Bridge (literalmente, ponte da Baía). A equivalência é literal: acede-se à Golden Gate, vindo de São Francisco, por entre o verde que rodeia a zona do Presidio (Monsanto, se quiserem) e na margem Norte, antes de virar para Sausalito, há um miradouro que dá uma vista extraordinária para a baía; à Bay acede-se pelo meio do trânsito citadino e a travessia termina por entre o bulício suburbano de Oakland. Só que a Golden Gate pode ser atravessada a pé, pelas laterais para isso pensadas de raiz; é ver os turistas (e não só japoneses) parados a cada poucos metros com as câmaras na mão.
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