A minha amiga Isabel já disse por várias vezes que, fosse ela mais nova, já tinha emigrado daqui para fora, de preferência para um país onde tivesse hipótese de fazer aquilo que em Portugal não consegue, que é trabalhar para si conseguindo ir economizando uns trocos.
Só que, depois, uma pessoa começa a pensar para onde raio ia. Uma pessoa olha para França, e vê a tristeza que é ver o imenso poder reivindicativo dos franceses a manifestar-se na rua a favor da manutenção do status quo e contra um contrato de trabalho que não afectaria em nada a maior parte dos manifestantes, que já têm o seu empregozinho garantido e inatacável (tipo função pública, mesmo). Depois olha para Itália, e vê o trafulha do Berlusconi a tentar agarrar-se desesperadamente ao poder e contestar a vitória democrática da sua concorrência, num resultado que só me recorda a célebre contestada eleição de George W. Bush para presidente americano. Depois olha para os americanos, e vê o sururu que se está a gerar por causa das novas leis de imigração que uns querem passar e outros contestam. E um gajo começa a pensar: sim, está bem, aqui não se vai a lado nenhum, mas será que nos outros sítios se vai realmente onde aqui não se consegue ir?
Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
12 de abril de 2006
CONVERSAS DE CAFÉ
Aqueles que dizem, nos cafés de Lisboa, que Portugal está "entregue à bicharada" seriam os primeiros a entregar Portugal à bicharada se lhes coubesse a eles tomarem uma decisão sobre o caminho a seguir daqui para a frente.
11 de abril de 2006
A BEM DIZER
É engraçado, há alturas em que me apetece imenso vir aqui escrever coisas mas depois não sei bem o quê. Nem é como se faltasse assunto.
9 de abril de 2006
CONFIDÊNCIAS
Era só para dizer que estes gajos estão cada vez melhores e que é uma pena que ninguém lhes preste a atenção merecida. Aquela reinvenção de "Woman" em soul de Memphis pura e o travo de Americana clássica que as canções estão a ganhar ao vivo são a prova.
MÃE HÁ SÓ UMA (post críptico #1)
Depois de uma conversa que tivemos em que eu comparei a minha mãe à formidável matriarca dos "Sopranos", a Cristina costuma dizer que não consegue ver um episódio da série sem se lembrar dela.
A minha mãe insiste em considerar-se uma mãe como qualquer outra, matriarca de uma família como qualquer outra. Eu tenho sérias dúvidas sobre a "normalidade" maternal e familiar, em primeiro lugar porque não existem famílias "normais" (e, por arrastamento, não existem mães, ou pais, ou irmãos "normais"), em segundo lugar porque mesmo não existindo "normalidade" familiar, eu tenho a impressão que a minha família está uns quantos furos ao lado dessa não-"normalidade"... Confusos? Provavelmente eu também. A constatação, no entanto, resume-se ao facto de eu ter a certeza de que a minha família parou no tempo algures nos anos 60 e continua a viver de acordo com um mundo que já deixou de existir há muito. O que, claro, explica muitas coisas, a menor das quais não são com certeza as minhas crispações.
A minha mãe insiste em considerar-se uma mãe como qualquer outra, matriarca de uma família como qualquer outra. Eu tenho sérias dúvidas sobre a "normalidade" maternal e familiar, em primeiro lugar porque não existem famílias "normais" (e, por arrastamento, não existem mães, ou pais, ou irmãos "normais"), em segundo lugar porque mesmo não existindo "normalidade" familiar, eu tenho a impressão que a minha família está uns quantos furos ao lado dessa não-"normalidade"... Confusos? Provavelmente eu também. A constatação, no entanto, resume-se ao facto de eu ter a certeza de que a minha família parou no tempo algures nos anos 60 e continua a viver de acordo com um mundo que já deixou de existir há muito. O que, claro, explica muitas coisas, a menor das quais não são com certeza as minhas crispações.
6 de abril de 2006
OLHA QUE COISA MAIS LINDA MAIS CHEIA DE GRAÇA
Os gatos estão a apanhar o sol possível em cima do telhado da arrecadação que se vê da janela do meu quarto. Uma gata passa, a miar, espreguiçando-se como se não estivesse ali mais ninguém, mas não pára; atravessa o telhado devagarinho até desaparecer no prédio ao lado. Os gatos não param de olhar para ela, mesmo depois de ela deixar de se ver; seguem-na com o olhar como Vinicius deve ter seguido a garota na esplanada de Ipanema.
Claro que é sempre possível que a gata fosse um gato. Ou que os gatos fossem gatas. Ou que fossem todos gatos. Ou todos gatas.
Claro que é sempre possível que a gata fosse um gato. Ou que os gatos fossem gatas. Ou que fossem todos gatos. Ou todos gatas.
5 de abril de 2006
MACINTOSH
Há uma porrada de anos que tinha ali o meu velhinho Macintosh Performa Power PC (com gaveta para CD-ROM e ainda slot para disquete, coisa que a Apple descontinuou já na geração seguinte de Macs) para um canto do quarto das arrumações. Avariado desde que, em 1999, de repente se começou a recusar a abrir ficheiros, alegando um erro qualquer que, basicamente, segundo me foi explicado na altura, equivalia ao disco rígido estar a dar o berro sem grande solução possível — que o mesmo é dizer, sem valor comercial e condenado a apanhar pó na arrecadação até a sucata chamar por ele. Dois iMacs depois, o Luís coleccionador soube do Performa e veio cá buscá-lo para juntar à sua colecção de "vintage Macs". A reciclagem é uma coisa tão linda.
4 de abril de 2006
ILUMINAÇÃO
"What I had to work at, Mike already had in his genes, in his genetic makeup. Before he was even born, this music had to be in his blood. Nobody could just learn this stuff, and it dawned on me that I might have to change my inner thought patterns... that I would have to start believing in possibilities that I wouldn't have allowed before, that I had been closing my creativity down to a very narrow, controllable scale... that things had become too familiar and I might have to disorientate myself.
I knew I was doing things right, was on the right road, was getting all the knowledge immediately and firsthand — memorizing words and melodies and changes, but now I saw that it could take me the rest of my life to make practical use of that knowledge and Mike didn't have to do that. He was just right there. He was too good and you can't be «too good», not in this world, anyway. In order to be as good as that, you'd just about have to be him, and nobody else. Folk songs are evasive — the truth about life, and life is more or less a lie, but then again that's exactly the way we want it to be. We wouldn't be comfortable with it any other way."
— Bob Dylan, in "Chronicles volume 1" (New York: Simon & Schuster, 2005)
I knew I was doing things right, was on the right road, was getting all the knowledge immediately and firsthand — memorizing words and melodies and changes, but now I saw that it could take me the rest of my life to make practical use of that knowledge and Mike didn't have to do that. He was just right there. He was too good and you can't be «too good», not in this world, anyway. In order to be as good as that, you'd just about have to be him, and nobody else. Folk songs are evasive — the truth about life, and life is more or less a lie, but then again that's exactly the way we want it to be. We wouldn't be comfortable with it any other way."
— Bob Dylan, in "Chronicles volume 1" (New York: Simon & Schuster, 2005)
3 de abril de 2006
MAU COMO AS COBRAS
Samuel L. Jackson é o actor mais "cool" do planeta. É um facto incontestável, mesmo sabendo que o rapaz tem a sua quota-parte de filmes da treta. Por isso é que vê-lo num filme chamado Snakes on a Plane (que há de estrear lá para o fim do ano) não deixa de criar estranheza. Mas ele defende-se lindamente, como nesta entrevista a Fred Schruers, da Première americana (edição de Março de 2006):
"They had already changed the title [from Snakes on a Plane to Pacific Air Flight 121] when I got to Canada to start shooting. I let it go for a while. Then one day all the producers were standing there, and I'm saying, «So are you seriously going to leave this name like this?» And they're going, «Yeah, we don't want to give too much away to the audience.» I'm like, «Yeah you do. That's the way you get them in here. Nobody wants to see Pacific Air Flight 121. People want to see Snakes on a Plane. When I picked up the script and I saw the title, I didn't even read it and I said, «I want to do it.» You know, before I opened the first page, Snakes on a Plane. If this is what I think it is, I want to be in this. I want to be on a plane full of poisonous snakes. And I want to see other people on a plane full of poisonous snakes. You say Snakes on a Plane, people who don't like snakes are intrigued. The people who don't like to fly are intrigued. The people who don't like both are totally terrified now. People who just like seeing mayhem are ready for that. They want to see, you know, people enclosed in a big tin tube getting attacked by poisonous snakes. Come on! What could be more exciting than that, you know? What do you do? What do you do until the plane lands? Come on, Snakes on a Plane, that's the title."
"They had already changed the title [from Snakes on a Plane to Pacific Air Flight 121] when I got to Canada to start shooting. I let it go for a while. Then one day all the producers were standing there, and I'm saying, «So are you seriously going to leave this name like this?» And they're going, «Yeah, we don't want to give too much away to the audience.» I'm like, «Yeah you do. That's the way you get them in here. Nobody wants to see Pacific Air Flight 121. People want to see Snakes on a Plane. When I picked up the script and I saw the title, I didn't even read it and I said, «I want to do it.» You know, before I opened the first page, Snakes on a Plane. If this is what I think it is, I want to be in this. I want to be on a plane full of poisonous snakes. And I want to see other people on a plane full of poisonous snakes. You say Snakes on a Plane, people who don't like snakes are intrigued. The people who don't like to fly are intrigued. The people who don't like both are totally terrified now. People who just like seeing mayhem are ready for that. They want to see, you know, people enclosed in a big tin tube getting attacked by poisonous snakes. Come on! What could be more exciting than that, you know? What do you do? What do you do until the plane lands? Come on, Snakes on a Plane, that's the title."
GUEIXAS DESESPERADAS
Leslie Felperin, és o meu herói/minha heroína (confesso que só pelo nome não consigo distinguir o sexo). Ora leiam o que o/a crítico/a da revista britânica Sight & Sound diz na sua edição de Fevereiro de 2006 a propósito de Memórias de uma Gueixa, de Rob Marshall:
"(...) this overblown, curiously coy kimono-ripper ought to prove lush and banal enough to please middlebrow imaginations worldwide as well as aficionados of the ineffably camp. (...) Certainly, the scene in which Gong Li's villainess Hatsumomo bitch-slaps Ziyi Zhang's simpering heroine Sayuri in a flaming geisha house (...) rivals the Crawford-Davis cat fight in What Ever Happened to Baby Jane? for sheer lurid, girl-on-girl fun. Arthouse-inclined gossip hounds might get an extra thrill out of speculating about the actresses' off-screen rivalry given that Zhang seemed to replace Gong as Chinese director Zhang Yimou's favourite star a few years back. Gay and gay-friendly viewers can only pray there will be a spin-off TV series soon, perhaps called Desperate Geishas."
"(...) this overblown, curiously coy kimono-ripper ought to prove lush and banal enough to please middlebrow imaginations worldwide as well as aficionados of the ineffably camp. (...) Certainly, the scene in which Gong Li's villainess Hatsumomo bitch-slaps Ziyi Zhang's simpering heroine Sayuri in a flaming geisha house (...) rivals the Crawford-Davis cat fight in What Ever Happened to Baby Jane? for sheer lurid, girl-on-girl fun. Arthouse-inclined gossip hounds might get an extra thrill out of speculating about the actresses' off-screen rivalry given that Zhang seemed to replace Gong as Chinese director Zhang Yimou's favourite star a few years back. Gay and gay-friendly viewers can only pray there will be a spin-off TV series soon, perhaps called Desperate Geishas."
2 de abril de 2006
BLAST FROM THE PAST
É um Volkswagen Golf dos primeiros modelos, dos anos 70, velho, com ferrugem junto aos pára-lamas e uma matrícula das antigas, pré-"modelo europeu", letras em relevo branco sobre fundo preto. Parece carro que acabou de sair da garagem após anos sem andar. Desce devagar a rua Tomás Ribeiro, com uma senhora dos seus 60 anos, de porte impecável, cabelo em permanente, maquilhada, sozinha no carro, a guiá-lo como se fosse o único carro na rua, apesar de haver outros a quem a sua marcha lenta atrasa. A senhora também parece que acabou de recomeçar a guiar após muito tempo sem o fazer.
1 de abril de 2006
BLAME CANADA
Esta questão dos emigrantes portugueses ilegais deportados do Canadá, com reportagens da chegada dos emigrantes destroçados a Pedras Rubras, Portela ou Açores, parece-me muito portuguesa. Na medida em que as mesmas pessoas que se insurgem contra o tratamento que o governo canadiano está a dar aos emigrantes portugueses deportando-os por não estarem legais são, muito provavelmente, os mesmos que noutras circunstâncias exigiram a expulsão dos imigrantes ilegais, de qualquer nacionalidade, que se encontram em Portugal exactamente nas mesmas condições em que os portugueses estavam no Canadá. Embora eu desconfie que a burocracia portuguesa é um bocadinho pior do que qualquer outra burocracia.
29 de março de 2006
PRAGMATISMO
"We came, we saw, we wasted a year of our lives. At least we got the fuckers to vote"
— grafitti rabiscado por um soldado americano numa casa de banho de uma base americana no Iraque, citado na Economist desta semana
— grafitti rabiscado por um soldado americano numa casa de banho de uma base americana no Iraque, citado na Economist desta semana
28 de março de 2006
TRÂNSITO
Um jogo europeu do Benfica é a única coisa que consegue entupir o trânsito de Lisboa mais do que um dia de trovoada chuva intensa.
27 de março de 2006
OUTRAS VIDAS
Acho que foi o Alexandre que em tempos falou das suas "outras vidas". Quando olho para trás e para tudo aquilo que já fiz nos meus 38 anos — que foi muito ou pouco segundo os pontos de vista — não consigo evitar sentir que muito desse muito/pouco pertence a "outra vida" que fez de mim aquilo que sou mas já pouco tem a ver com quem sou hoje. Muitas vezes, nem consigo reconciliar esse meu "ontem" com o meu "hoje"; é como se fôssemos pessoas diferentes. Mas é espantoso como, na realidade, não somos. Como sobra sempre algo desse passado para ajudar a moldar quem passámos a ser.
25 de março de 2006
ENID BLYTON
A menina Alice fala dos Cinco. Eu era mais o Clube dos Sete — lido na íntegra nas edições cartonadas com as ilustrações originais que herdei dos meus irmãos mais velhos. Quando saí de casa dos meus pais, trouxe-os comigo. Estão ali, fechadinhos numa caixa de arquivo, para quando me apetece lá voltar. Os Cinco li-os só depois, mas nunca achei tanta graça (porque os Cinco eram só Quatro, que eu nunca contei com o cão, e porque a série televisiva que vi nos anos 70 não tinha nada a ver com a ideia que eu me fazia das personagens).
OUTROS TEMPOS
Título de um livro visto hoje nas bancas de alfarrabistas do Chiado: "Organização Social e Económica dos Bijagós".
24 de março de 2006
38 + 1 (a ressaca do urso)
Qualquer coisa que seja menos de seis horas de sono deixa-me completamente zombie no dia a seguir. Pior ainda é deitar-me às tantas e saber que no dia a seguir vou ter de me levantar mais cedo do que me é habitual — na véspera de partir para Berlim, nem quatro horas dormi (adormeci às quatro da manhã para me levantar às sete e meia) porque, claro, o sistema funciona logo para não termos sono quando mais precisamos dele. Exactamente a mesma coisa de ontem: hoje tinha de me levantar às oito sem falta, e ontem às duas e meia da manhã ainda estava a pé e com a espertina toda. Claro que, hoje, passei o dia a rastejar pelos cantos. E claro que há muito boa gente que vive muito bem com seis horas de sono por dia (e o professor Marcelo diz que só dorme quatro, o que me deixa completamente escandalizado e automaticamente doente). Mas eu não. Deve ser alguma coisa de metabolismo de urso: seis-sete horas sossegadas é do que eu preciso. (E também não consigo hibernar. Nem fazer sonecas à tarde — acordo mal-disposto e a rosnar.)
23 de março de 2006
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