Blog-notas de ideias soltas; post-it público de observações casuais; fragmentos em roda livre, fixados em âmbar. Eu, sem filtro. jorge.mourinha@gmail.com
12 de março de 2006
AFORISMO
Há momentos em que mergulhar a fundo no trabalho para tentar esquecer apenas nos recorda mais.
10 de março de 2006
A IRMANDADE DA MASALA DE ESPERA #3
Depois desta refeição no Assuka (rua S. Sebastião da Pedreira, 150) com os experts Paulo e Lena, confesso-me absolutamente rendido às delícias da culinária japonesa. Com um suave chá verde a ferver na caneca, o paladar deslumbrou-se inicialmente com os delicados gyoza (ravioli salteado) e ebi shumai (ravioli de gamba no vapor), finas crostas de massa envolvendo uma gamba inteira que se mergulham levemente em molho de soja e mostarda picante. Mesmo para quem não gosta de sushi, dificilmente se resiste ao uramaki California (sushi de camarão, abacate e pepino) e, sobretudo, ao uramaki salmão skin (sushi de pele de salmão crocante e pepino), com a imprescindível mostarda verde wasabi a dissolver na soja e a sublinhar a delicadeza subtil da combinação de sabores. A fenomenal tempura (o misto de legumes era precioso, as gambas inteiras extraordinárias) e o sublime maguro tataki (sashimi de atum braseado) abrem novos mundos ao paladar. A comida japonesa pode ser um gosto adquirido, mas quando a comida é assim tão boa dá vontade adquiri-lo (e €27 por pessoa para a alarvidade que nós comemos até nem é estupidamente caro para os padrões estupidamente caros da comida japonesa, mesmo que seja preciso reservar mesa para o jantar, tão concorrido é o restaurante). Dominar os pauzinhos é que vai levar mais tempo.
9 de março de 2006
TOMADA DE POSSE
Às oito e meia da manhã estava já um helicóptero militar a pairar sobre a Assembleia da República e a zona de São Bento, e as sirenes dos batedores da polícia ouviam-se de cinco em cinco minutos a abrir alas para as personalidades convidadas para a tomada de posse do novo Presidente. Nunca pensei que um helicóptero fosse uma coisa tão barulhenta e incomodativa — os meus vizinhos devem ter tido uma manhã gira.
OLHÓ ESQUIMÓ FRESQUINHO
Fiquei hoje a saber que há quem considere as bolas de Berlim do Califa, essa instituição de Benfica, perfeitamente pornográficas (à imagem da porno-tikka masala do Natraj, do porno-cheesecake de framboesa da Cristina e do porno-gelado de canela do Ben & Jerry's).
Pois eu contraponho à porno-bola de Berlim do Califa o porno-esquimó do Califa. Se não sabem o que é, peçam e depois me digam.
(Não, não provei bolas de Berlim em Berlim, para quem quiser saber.)
Pois eu contraponho à porno-bola de Berlim do Califa o porno-esquimó do Califa. Se não sabem o que é, peçam e depois me digam.
(Não, não provei bolas de Berlim em Berlim, para quem quiser saber.)
8 de março de 2006
PEQUENA QUESTÃO EXISTENCIAL
Esta manhã, quando saia de casa, vi passar pela rua um Kia Picanto verde eléctrico. Nunca tinha visto um Kia Picanto até há duas semanas atrás e os dois que vi eram vermelho vivo e verde eléctrico. A pergunta é: será que há realmente gente que compra Kias Picanto desta cor, ou são aqueles carros que se dão nos concursos de televisão porque ninguém os compra?
7 de março de 2006
PARADOXOS
A minha amiga Cristina diz que nem sempre temos consciência de que estamos a esconder alguma coisa. Eu digo que nem sempre temos consciência do que estamos a mostrar.
6 de março de 2006
GAROTAS DO METRO
Não reparei onde é que a adolescente loura entrou na carruagem (não sei se no Campo Grande, se na Cidade Universitária ou se já vinha de Odivelas), mas reparei que a adolescente morena com auscultadores e um livro de código da estrada na mão entrou em Entre-Campos e sentou-se ao meu lado. Como era algo corpulenta, senti-a sentar-se e senti-me mais apertado. A adolescente loura, sentada no banco em frente, levanta-se para cumprimentá-la e durante os minutos seguintes conversam animadamente sobre o código e sobre as festas e sobre as muitas festas que têm planeadas, até que uma outra adolescente sentada ao lado da loura, que a passou a ignorar completamente, se levanta para sair e recebe um adeus descartado da loura, que pede logo a seguir à morena, que acabou de desligar o leitor de música, enrolar os auscultadores e guardá-lo na mala sem se desfazer do livro de código, que se venha sentar a seu lado.
5 de março de 2006
NÓS E OS OUTROS #6
"Do meu ponto de vista, esse filme [O Fim da Aventura, baseado no romance de Graham Greene] tratava de examinar o isolamento de um escritor, o ciúme com que um escritor observa o mundo, porque um escritor não vive realmente no mundo e tem ciúmes da textura da experiência da realidade. De certa maneira, os escritores escolheram uma vocação que é quase sacerdotal, onde a sua abordagem da sexualidade ou da emoção será sempre alvo do seu próprio exame, por isso eles invejam quem vive e quem sente."
— Neil Jordan (escritor e realizador de Jogo de Lágrimas, Entrevista com o Vampiro, Michael Collins ou Breakfast on Pluto) em entrevista a Geoffrey Macnab, na edição de Janeiro de 2006 da revista inglesa Sight & Sound
— Neil Jordan (escritor e realizador de Jogo de Lágrimas, Entrevista com o Vampiro, Michael Collins ou Breakfast on Pluto) em entrevista a Geoffrey Macnab, na edição de Janeiro de 2006 da revista inglesa Sight & Sound
4 de março de 2006
PASSAGEM DE PEÕES
O trânsito pára quando o sinal para os carros ameaça passar a vermelho — ou melhor, não pára, porque há dois carros que aceleram para passar com o amarelo. Um ainda passa com o amarelo, perante um agastado quarentão de bigode, que não resiste a soltar um cínico "e outro ainda! vá, passa lá!" quando o segundo já passa com o sinal vermelho. O senhor agastado pelo desrespeito dos condutores para com o sinal de trânsito atravessa em seguida a rua Alexandre Herculano com o sinal vermelho para os peões.
3 de março de 2006
MAE QUERIDA, MAE QUERIDA
Não há como os pais para, enquanto nos dizem que gostam muito de nós e que sempre fomos muito queridos, nos dizerem aquelas coisas que dão literalmente cabo de nós.
2 de março de 2006
LISBOA A PE
A caminho da minha consulta anual no oftalmologista, que fica na zona do Bairro das Colónias, perto da Igreja dos Anjos (e é curioso que só depois de eu ter saído do bairro onde nasci e cresci é que tenha mudado para um oftalmologista na minha antiga zona), dou por mim com tempo nas mãos depois do almoço e decido ir a pé da Praça de Londres. Sei que não levará mais de meia hora, é um trajecto que muitas vezes fiz a pé noutros tempos; quer apanhando a Almirante Reis no Areeiro, quer cortando pela Guerra Junqueiro.
Faz-me confusão ver o antigo cinema Império, onde passei parte significativa da minha adolescência, em melhor estado de conservação externo sob a Igreja Universal do Reino de Deus do que nos últimos anos da sua existência como cinema. A Almirante Reis parece-me mais degradada do que há 20 anos, mas a verdade é que lá continuam as intermináveis cervejarias, pastelarias, lojas de mobiliário, sucursais de bancos que me habituei a ver, e também os micro-centros-comerciais-galerias improvisados que surgiram em todos os recantos possíveis nos finais dos anos 70 e sobreviveram a muito custo. Passando à Praça do Chile, pergunto-me como estará o edifício pintado a verde do cinema Pathé, numa paralela à Almirante Reis, onde há muito não passo, mas continuo a descer a avenida e a sentir que, se calhar, a Almirante Reis entre a Alameda e os Anjos sempre foi assim e eu é que, habituado, não tinha dado por nada.
Faz-me confusão ver o antigo cinema Império, onde passei parte significativa da minha adolescência, em melhor estado de conservação externo sob a Igreja Universal do Reino de Deus do que nos últimos anos da sua existência como cinema. A Almirante Reis parece-me mais degradada do que há 20 anos, mas a verdade é que lá continuam as intermináveis cervejarias, pastelarias, lojas de mobiliário, sucursais de bancos que me habituei a ver, e também os micro-centros-comerciais-galerias improvisados que surgiram em todos os recantos possíveis nos finais dos anos 70 e sobreviveram a muito custo. Passando à Praça do Chile, pergunto-me como estará o edifício pintado a verde do cinema Pathé, numa paralela à Almirante Reis, onde há muito não passo, mas continuo a descer a avenida e a sentir que, se calhar, a Almirante Reis entre a Alameda e os Anjos sempre foi assim e eu é que, habituado, não tinha dado por nada.
1 de março de 2006
28 de fevereiro de 2006
O NINJA ATRAPALHADO
Em plena rua da Escola Politécnica, a mãe vira-se para trás e chama o filho que se deixou atrasar do grupo, a tentar voltar a prender à volta da cintura da fantasia de ninja a espada de plástico que caiu ao chão. Fossem os ninjas todos assim tão atrapalhados e duvido que as criancinhas quisessem andar fantasiadas de ninja.
GRAFFITI
Visto num andaime na rua Alexandre Herculano, escrito discretamente a marcador preto entre dois cartazes rasgados: "Tem cuidado sff"
27 de fevereiro de 2006
INTERROGAÇAO EXISTENCIAL
Quando os táxis eram pretos com as capotas verdes, não deixou de haver carros pretos. Desde que os táxis são creme, nunca mais se viram carros de cor creme.
26 de fevereiro de 2006
DIFERENÇAS CULTURAIS
Uma coisa que os meus amigos estrangeiros acham muito peculiar em mim é a minha predilecção, sobretudo de Inverno, por uma chávena de leite quente (só consigo bebê-lo frio de Verão). A presença do leite à mesa do pequeno-almoço limita-se ao bulezinho do "creamer", que o mesmo dizer, o leite ou substituto do leite para aclarar o café (de que o café berlinense do meu hotel bem precisava...). Ou então ao pacote de leite no frigorífico para juntar aos flocos — mas sempre frio. O meu leite quente é visto por quase todos os meus amigos estrangeiros como uma coisa horrível.
25 de fevereiro de 2006
PORNOGRAFIA GUSTATIVA
Ele já havia a porno-tikka masala do Natraj. Agora há o porno-cheesecake com bolacha esfarelada e molho de framboesa da Cristina.
24 de fevereiro de 2006
GELDAUTOMAT
Lembram-se quando eu me queixei de ter que pagar uma comissão de levantamento nos multibancos de São Francisco? Pois descobri que os meus levantamentos de dinheiro nos multibancos de Berlim (melhor: nos Geldautomaten, que é como os alemães dizem multibanco, do Deutsche Bank na Potsdamer Platz — que, ainda por cima, não dão talões) foram contabilizados como levantamentos a crédito, com uma taxa de €3,50 por cada levantamento de €50,00 e uma taxa de €5,00 num levantamento de €100,00. E, se acreditar na chamada de capa do Metro de hoje, os levantamentos nos nossos multibancos vão passar a ser pagos também.
23 de fevereiro de 2006
ZOO PALAST
É o outro cinema fora do enfiamento da Potsdamer Platz onde vi filmes no Festival de Berlim — fica mesmo ao lado da célebre "Zoo station" dos U2 (de seu verdadeiro nome Bahnhof Zoologischer Garten). Ao entrar na majestosa sala 1 (mil lugares, cheios a abarrotar quando lá fui), com a sua estrutura redonda, lembrei-me do Apolo 70 mas também do São Jorge, e das salas clássicas de Lisboa que hoje já quase não resistem. Gosto destas fachadas "cegas", antigas, deste estilo marcadamente anos 50, desta grandiosidade pensada para outras eras. Vejam-no aqui.
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